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Biografia de Hitler lembra como uma democracia vira ditadura

Talento de ator, força como orador de massa, esperteza política são algumas das características pessoais que explicam o “caso Hitler”, diz biógrafo. Mas não eximem os alemães da culpa pelo Holocausto.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioFoto de Adolf Hitler
Características pessoais de Adolf Hitler foram essenciais para sua ascensão e queda

A cultura alemã da memória está sob ataque dos populistas de direita. Eles querem o fim da abordagem autocrítica da era nacional-socialista, declarando-a um mero interlúdio numa história, de resto, gloriosa. Exemplo disso foi a declaração do presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, minimizando Adolf Hitler e os nazistas como um “cocô de passarinho em nossa história mais do que milenar”.

Para o historiador e jornalista Volker Ullrich, declarações como essa são perigosas do ponto de vista histórico-político: “Quem pratica esse tipo de manipulação eufemística da história deve saber que está balançando os fundamentos da república”, condena Ullrich, que acaba de publicar o segundo e último volume de sua biografia de Hitler.

Ele apresenta o “caso Hitler” como um exemplo cautelar, demonstrativo da rapidez com que a democracia pode ser desmontada e de quão fina é a camada separando a civilização da barbárie.

Já em seu primeiro volume, lançado em 2013, sobre os anos anteriores à eclosão da Segunda Guerra Mundial, Ullrich colocara a pessoa do ditador no centro de sua análise – na contramão da tendência predominante na pesquisa sobre o nazismo, há anos concentrada de forma crescente nas condições estruturais que levaram à ascensão e domínio nacional-socialista.

O historiador não deixa essas questões de fora, mas ao mesmo tempo enfatiza as características pessoais de Hitler que fizeram dele um “Führer” tão atraente para tantos alemães: seu talento de ator, sua força como orador de massa e organizador, assim como a esperteza em adaptar-se rapidamente a mudanças na situação política.

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioNazistas tomam o poder no Reichstag de Berlim, em 30/01/1933

Hitler como pessoa

Nas 894 páginas do segundo volume, Adolf Hitler – Die Jahre des Untergangs 1939-1945 (literalmente: Os anos da queda), o biógrafo prossegue de forma consequente, sobretudo na avaliação do papel do líder nazista como supremo senhor da guerra e no Holocausto.

Sua tese é que se, por um lado, o assassinato dos judeus europeus não teria sido possível sem milhares de ajudantes, ele tampouco o seria sem a pessoa do ditador nascido na Áustria. Já na radicalização da política para com os judeus até 1939, ele detinha o controle sobre a sequência das ações, como última instância – um padrão que se repetiu nos tempos de guerra.

Ullrich mostra que o genocídio não foi precedido apenas pela declaração geral de intenção de Hitler pelo extermínio sistemático dos judeus europeus: em diversos casos foi necessária sua aprovação pessoal – fosse para obrigar os semitas a portar a estrela de Davi ou para deportá-los do território do Reich.

Foi no papel de supremo senhor da guerra que vieram à tona os déficits pessoais do ditador, acredita Ullrich. Entre eles, não só a propensão a subestimar o adversário, como a muito mais grave tendência de apostar tudo numa carta só.

Hitler reagiu com acessos de ira e ódio às derrotas no front oriental, achando que sabia tudo melhor e punindo também pessoalmente os membros do comando supremo da Wehrmacht. Contrariando o costume até então, nas reuniões estratégicas ele não dava mais a mão a nenhum dos presentes, e durante um tempo deixou de participar do almoço e jantar coletivos.

O autonomeado “Feldherr” (comandante de campo) possivelmente se envergonhava diante dos militares de carreira, supõe Ullrich: “Ele permanecia longe do alto escalão não só por seu ressentimento para com os militares, mas também por não mais poder se apresentar diante deles na pose superior de comandante-gênio.”

Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioAdolf Hitler e outros oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nazista em 1936
Oficiais nazistas participam de congresso do Partido Nacional-Socialista em 1936. A dír., Hilter

Sem desculpas para os alemães

Nascido em 1943, o historiador e jornalista Volker Ullrich dirigiu de 1990 a 2009 a seção “Livro político” no semanário hamburguês Die Zeit. Por sua atuação como publicista recebeu, entre outros, o Prêmio Alfred Kerr de 1992.

Para sua apresentação sobre Hitler, erudita e de leitura fluente, o autor pesquisou numerosos documentos de arquivo. Com essa avaliação pessoal, contudo, ele não deixa nenhuma brecha para desculpas – nem para os generais, que depois de 1945 tentaram minimizar a própria participação na catástrofe moral e militar, apontando para Hitler.

E tampouco para os alemães, em si, que após o Holocausto pretenderam de nada saber: “Desse modo, procede que apenas alguns poucos alemães sabiam tudo sobre a ‘solução final’, mas também eram muito poucos os que não sabiam de nada.”Hitler,Nazismo,Ditadura,Holocausto,Guerra,Preconceito,Judeus,ExtermínioDW

Arte – Pintura – Sofia Gandarias

Sofia Gandarias – Exposição “Kafka o Visionário”
Haus am Kleistpark de Berlim
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Texto de José Saramago para o catálogo da exposição

À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”.

É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror.

Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar.

Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a maestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho.

Sofía Gandarias é, toda ela, memória.

Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.

Dilma Rousseff: não há diferença entre nazismo e ditaduras

“Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam”.
Edmund Burke

O discurso da Presidente Dilma Rousseff em Porto Alegre, em cerimônia em homenagem às vítimas do holocausto dos judeus pelos Nazistas na 2ª Guerra Mundial, soa como um alerta, em memória dos 6 milhões de judeus, 10 milhões de cristão, 1900 padres católicos, deficientes físicos, homossexuais, resumindo, seres humanos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados, mortos a fome e humilhados, enquanto Alemanha e Rússia olhavam em outras direções.

Acredito hoje que estou agindo de acordo com o Criador Todo-Poderoso.

“Ao repelir os Judeus estou lutando pelo trabalho do Senhor”
Adolph Hitler, Discurso, Reichstag, 1939

O Editor


Dilma compara, em discurso, o nazismo às ditaduras

Dilma Rousseff participou na noite passada, em Porto Alegre, de cerimônia em memória das vítimas do holocausto.

Ao discursar, a presidente fez uma analogia entre a barbárie imposta pelo nazismo aos judeus e a tortura infligida pelas ditaduras.

Torturada pelo regime militar, Dilma acomodou num mesmo balaio os campos de concentração e os porões dos regimes de exceção:

“Lembrar Auschwitz-Birkenau é lembrar todas as vítimas de todas as guerras injustas, todas as ditaduras que tentaram calar seres humanos”.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Minutos antes, fora ao microfone o presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Claudio Lottenberg. Voltando-se para Dilma, ele disse:

“A senhora, presidente, sabe melhor que todos o que significa ser torturada, […] o que este tipo de agressão pode significar para alguém, por mais que sobreviva”.

Dilma pronunciou uma frase que fez lembrar entrevista que concedera ao diário ‘Washington Post’, logo depois da posse.

Na ocasião, inquirida sobre a parceria que Lula estabelecera com o Irã, ela afirmara que não concordava com as violações aos direitos humanos patrocinadas por Teerã.

No discurso da capital gaúcha, sem mencionar o Irã, a presidente declarou coisa parecida:

“É nosso dever não compactuar com nenhuma forma, qualquer que seja, de violação de direitos humanos –em qualquer país, aí incluído o nosso”.

Em entrevista concedida antes do início da cerimônia, Lottenberg havia festejado a distinção entre Dilma e Lula em relação à matéria.

O presidente da Conib declarou-se “feliz em saber que a presidente [Dilma] tem posição diferente daquela que o presidente Lula manifestou no passado”.

Dilma desembarcou em Porto Alegre por volta das 20h, com atraso de cerca de uma hora. Falou para uma platéia eclética.

A audiência incluía de expoentes da comunidade judaica ao prefeito de São Paulo, o ‘demo’ Gilberto Kassab, na bica de filiar-se ao PMDB e de converter-se ao governismo.

->> aqui vídeo do discurso da Presidente Dilma Rousseff

blog Josias de Souza

Dilma diz ser contra a posição do Brasil em relação ao Irã

A presidente eleita, Dilma Rousseff, afirmou discordar da abstenção do Brasil em votação na ONU de uma resolução que condena violações de direitos humanos no Irã.

A declaração foi dada em entrevista concedida por Dilma ao jornal americano “The Washington Post”, publicada na edição de ontem.

A resolução a que se refere foi votada e aprovada na Assembleia-Geral das Nações Unidas há duas semanas.

O texto aprovado cita preocupação com casos de tortura, alta incidência de penas de morte, violência contra mulheres e perseguição a minorias étnicas e religiosas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Foram 80 votos a favor da resolução da ONU, 44 contra e 57 abstenções.

Além do Brasil, se abstiveram Índia, África do Sul e Egito.

“Minha posição não mudará quando eu assumir o cargo.

Não concordo com a forma como o Brasil votou. Não é a minha posição”, disse ela ao jornal americano.

“Não sou a presidente do Brasil [hoje], mas me sentiria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não dizer nada contra o apedrejamento”, disse Dilma.

O tema do apedrejamento está na pauta internacional desde que a iraniana Sakineh Ashtiani foi condenada à morte por supostamente ter cometido adultério.

Entidades de direitos humanos dizem que ela foi forçada a confessar o suposto crime.

“Eu não concordo com práticas que tenham características medievais [no que diz respeito] às mulheres.

Não há nuances. Não farei nenhuma concessão nesse assunto”, afirmou Dilma.

Na semana de sua eleição, Dilma já havia afirmado que se opunha à decisão do governo do Irã.

“Eu sou radicalmente contra o apedrejamento da iraniana. Não tenho status oficial para fazer isso, mas externo que acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh.”

Apesar das críticas, Dilma defendeu a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na questão iraniana e disse que ele sempre atuou em prol dos direitos humanos.

“Lula tem o seu próprio histórico. Ele é um presidente que advogou pelos direitos humanos, um presidente que sempre advogou pela construção da paz.”

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que foi recebido em Brasília, é visto como aliado pelo governo.

Em uma entrevista recente, Lula defendeu novamente Ahmadinejad, dizendo que o iraniano às vezes não é compreendido quando sugere que não houve o Holocausto.

Folha de S. Paulo

Fidel Castro condena anti-semitismo do Irã

Irã deveria abandonar anti-semitismo, afirma Fidel Castro

Em entrevista a revista americana, ex-líder cubano diz que Ahmadinejad deveria tentar entender a perseguição aos judeus.

O ex-presidente cubano Fidel Castro disse em entrevista a uma revista americana que o Irã e o seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, deveriam abandonar o anti-semitismo e tentar entender os motivos pelos quais os judeus foram perseguidos em todo o mundo ao longo da história.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Castro convidou o jornalista Jeffrey Goldberg, da revista americana The Atlantic Monthly, para uma conversa em Havana, depois de ter lido um artigo seu sobre as relações entre Israel e Irã.

O ex-presidente cubano está afastado do poder desde 2006 devido a problemas de saúde. Ele renunciou ao cargo em favor do seu irmão, Raúl Castro, que hoje governa Cuba.

Nas últimas semanas, Fidel Castro tem demonstrado que seu estado de saúde melhorou. No mês passado, o líder fez seu primeiro discurso no Parlamento nos últimos quatro anos.

Na semana passada, ele falou a milhares de estudantes da Universidade de Havana. Nas duas ocasiões, Fidel abordou o risco de uma guerra nuclear envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.

Recado

Na entrevista para a Atlantic Monthly, cuja primeira parte foi publicada no site da revista na terça-feira, Fidel diz que nenhum povo foi tão perseguido na história quanto os judeus.

“Os judeus tiveram uma existência muito pior que a nossa. Não há nada que se compare ao Holocausto”, disse Castro a Goldberg, que é especializado em Oriente Médio. Em seguida, Fidel Castro pede que o jornalista passe o recado para Ahmadinejad.

Em um trecho da entrevista, Fidel faz uma autocrítica sobre a sua posição na crise dos mísseis, durante a Guerra Fria.

Em 1962, a União Soviética instalou uma base militar em Cuba para apontar mísseis para os Estados Unidos, no momento mais tenso da Guerra Fria, quando as duas superpotências quase entraram em guerra nuclear.

“Depois que eu vi o que eu vi, e sabendo o que eu sei hoje, eu sei que aquilo não valia a pena”, disse Fidel à revista.

BBC/Agência Estado

Navio de sobreviventes do holocausto também foi barrado na Palestina em 1947

“A história acontece como tragédia e se repete como farsa.” Karl Marx.
“Quem não conhece a história corre o risco de repeti-la.” Hegel
As frases antológicas dos dois filósofos,  nunca se mostraram tão atuais quanto agora, no lamentável epsódio da ação das tropas de Israel no ataque aos navios da chamada frota humanitária.

O  Editor


O primeiro navio.
Ataque ao Êxodo, barrado com 4.500 sobreviventes do Holocausto em 1947, mudou a opinião do mundo.

THE GUARDIAN

No verão de 1947, o navio quase reduzido a sucata com 4.500 sobreviventes do Holocausto a bordo, rebatizado de “Êxodo”, partiu da França com o objetivo de romper o bloqueio britânico na Palestina.
Até então, os sobreviventes apodreciam em campos de refugiados desde o fim da guerra à espera de um país que os aceitasse.

Os organizadores, pertencentes ao movimento sionista, adotavam a política da imigração ilegal como uma operação de resgate humanitário e uma medida calculada para fixar de maneira politicamente arbitrária a população judia do país.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Eles não esperavam aportar, mas sabiam que o barco caindo aos pedaços com sua dolorosa carga humana de refugiados denunciaria os britânicos como patrões colonialistas desalmados. O Êxodo poderia chamar-se “Fim do Império”.

Quando o navio se aproximava de Haifa, o comandante recebeu um sinal de rádio de líderes sionistas para não colocar em risco a vida dos passageiros em um confronto. O comandante polonês, porém, recusou-se a voltar. Cercados por três destróieres britânicos, tripulação e passageiros foram abordados e revidaram com qualquer arma à mão – até com uma remessa de carne enlatada. Os britânicos mataram três pessoas.

Dias mais tarde, os passageiros foram transferidos para outro navio e enviados de volta para a Alemanha, para os campos de refugiados, com manchetes fulminantes nos jornais: “Regresso ao país da morte”, dizia uma delas.

Os acontecimentos no Mediterrâneo, mostrados pelos noticiários cinematográficos de então, suscitaram enorme simpatia do público, particularmente nos EUA, onde a Grã-Bretanha era considerada o antigo regime colonial. A cobertura da imprensa foi uma catástrofe para Londres.

Para o comandante do navio, Ike Aronowitz, a decisão de Ernest Bevin de repelir o Êxodo foi um presente de Deus – “que nos enviou Ernest Bevin para criar um Estado judeu”.

Contra a imagem de um navio repleto de sobreviventes do Holocausto sendo espancados por soldados, a Grã-Bretanha teve de bolar uma complexa história, muito complicada para um público que queria um relato simples de vítimas e opressores.

Os britânicos falaram das necessidades da população árabe da Palestina. Um Estado judeu no Oriente Médio, feito contra a vontade dos habitantes nativos, não seria o final feliz para a trágica história dos judeus. Entretanto, o Êxodo foi fundamental para cimentar o respaldo, dado mais tarde, com a votação na ONU sobre a partilha da Palestina. A imagem do navio foi mais poderosa do que as advertências da chancelaria britânica ou dos apelos dos líderes árabes.

O ataque ao grupo de navios que transportava ajuda humanitária para Gaza deve ter despertado as memórias dos líderes de Israel e de seus militares. A visão dos políticos, diplomatas e das Forças Armadas tentando divulgar uma história mais complicada do que a de civis inocentes brutalmente assassinados por um ato de pirataria não impressionou o público.

Por mais que mostrem vídeos de ativistas atacando os soldados israelenses que abordavam os navios, não responderão à pergunta: o que os soldados estavam fazendo lá e por que os passageiros não deveriam se defender de quem os atacavam, exatamente como fizeram os refugiados em 1947?

Os argumentos políticos de Israel, de que a Faixa de Gaza é controlada pelo Hamas, da ameaça constante que paira sobre Israel, representada por Gaza, no sul, e pelo Hezbollah, no norte, apoiados pelo Irã, que ambiciona a bomba nuclear, caíram em ouvidos surdos.

Os argumentos de especialistas em leis marítimas, de que Israel estava em seu pleno direito de atacar o barco em águas internacionais, perdem diante da presença de peso, em outro dos barcos, do romancista sueco Henning Mankell, que arriscou sua vida para ajudar Gaza.

Os movimentos de solidariedade palestinos, até o momento, não atingiram a massa crítica da campanha contra a África do Sul do apartheid. Talvez, como o Êxodo, em 1947, os barcos de ajuda a Gaza possam atingir o ponto crítico da longa agonia do povo palestino quando a opinião pública indecisa finalmente se voltar contra Israel e todo o projeto sionista de uma pátria para os judeus.

Quando a simpatia do público é ultrajada por um ato definido, como um massacre, a solução das reivindicações rivais de árabes e judeus sobre a mesma parte do território não vêm ao caso.

Olhamos para trás, para o Êxodo, e pensamos se nossos pais e avós não deveriam ter agido de maneira menos emocional. Emoções são incontroláveis. A empatia pelos encarcerados em uma imensa prisão ao ar livre, submetidos a punições coletivas, derrotará as advertências dos especialistas. A imagem dos barcos rumando para Gaza ficará gravada na mente, quaisquer que sejam as consequências do ultraje coletivo.

Linda Grant/O Estado de S.Paulo

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É AUTORA DE “AS PESSOAS COMUNS: VISÃO DE ISRAEL POR UMA ESCRITORA”

Judeus e Palestinos. Correspondências

Para ajudar a entender um pouco mais sobre as divergências, milenares, que confrontam judeus e palestinos, transcrevo abaixo correspondência trocada entre simpatizantes das duas causas no Brasil.

As cartas trocadas entre o presidente da Conib – uma das organizações existentes no Brasil e que se manifesta em nome da comunidade judaica –  e o presidente da ONG ABC Sem Racismo.

Prezado Senhor Cláudio Lottenberg,
Presidente da CONIB

Não sou um ativista anti-judeu. Ao contrário: sou um admirador da luta do povo judeu e de sua milenar história. Mais do que isso: me considero um parceiro do povo judeu na luta contra o racismo e qualquer espécie de discrimnação.
Mas, por favor, me responda: como é possível que um povo que há menos de cem anos foi vítima de crimes contra a humanidade como o holocausto praticados pelo nazismo, possa estar, precisamente hoje, repetindo os mesmos crimes, com a mesma crueldade, contra um povo inteiro – o palestino?

As imagens falam mais forte do que mil palavras e de nada adianta a propaganda do seu Exército mostrar ao mundo que se trata apenas de uma guerra contra o Hamas, a quem o seu Governo e Bush acusam de terrorista. Os mortos, às centenas, senhor Lottenberg, são na sua maioria civis – homens, mulheres e crianças desarmadas.

Como explicar esse crime às gerações futuras, senhor Lottenberg? Como poderá o povo judeu continuar falando de holocausto, quando transformou a Palestina, há décadas, em verdadeiro campo de concentração, com todos os requintes a que a crueldade humana pode chegar? Porque o seu Exército e os seus Governos sistematicamente, sob proteção americana, descumprem Resoluções da ONU que asseguram o direito inalienável do povo palestino ao seu Estado, onde possa viver em paz e em segurança? Por que o seu Governo recusa-se ao cessar fogo proposto pela União Européia? É apenas para ganhar tempo para perpretar o massacre contra civis indefesos?

Estamos todos cansados, senhor Lottenberg, da sua propaganda. Quando jovem eu e muitos da minha geração ficamos alarmados com as imagens de Sabra e Chatila, o senhor se lembra? Também lá, homens, mulheres e crianças palestinas foram vítimas de um verdadeiro massacre, praticados sob o comando do seu Exército. Na época, senhor Lottenberg, o Hamas sequer existia.

Assim como não há propaganda capaz de apagar as imagens da resistência judaica no gueto de Varsóvia; assim como não há palavras para descrever os sofrimentos do seu povo, Senhor Lotenberg, nos campos de concentração sob o nazismo; tampouco há propaganda e ou palavras que possam apagar os crimes contra a humanidade que hoje são praticados à luz do dia e sob as câmeras de TV pelo seu Exército. Protegido, apoiado e amparado pelas vítimas de ontem!
Chega! Basta de mentira e de hipocrisia!
Cordialmente,
Dojival Vieira
Jornalista Responsável pela Afropress – www.afropress.com
Presidente da ONG ABC SEM RACISMO
Fones: 9647-7322

Resposta do presidente da CONIB

Prezado Senhor Dojival:

Agradeço que me escreva e fico feliz que o senhor seja um admirador, como assim se manifesta, do povo judeu e de sua historia milenar, colocando-se como um verdadeiro parceiro na luta contra o racismo.

Ao tomar a liberdade de me escrever também tomo à liberdade de lhe contestar a luz da sugestão de que o senhor aprofunde o seu conhecimento no sentido de admirar de forma consistente, baseado em fatos concretos, e não alimentado por informações isoladas e não verdadeiras como o senhor aqui coloca.

A historia relativa ao Estado de Israel tem dados sobre os quais eventualmente o senhor desconheça. Em 1948 este Estado foi criado com a participação decisiva do brasileiro Osvaldo Aranha e, desde então uma longa historia vem acontecendo. Acordos são realizados e desrespeitados, diálogos são interrompidos e acredite que nos desaponta muito que o caminho da paz ainda não tenha sido atingido.

Comparar a situação da Faixa de Gaza com o Holocausto reflete um desconhecimento absoluto acerca dos dois episódios. O Holocausto foi fruto de uma indiferença de uma sociedade que condenou um povo à morte, liderado por um grupo minoritário. Este povo não caminhava com morteiros, não lançava foguetes e não matou civis, como é o caso daquilo que ocorreu na faixa de Gaza. Estes civis que morreram no Holocausto não morreram por serem terroristas ou por quererem a exterminação de um povo. Morreram por serem judeus.

Em 2005, Israel se retirou da Faixa de Gaza e entregou conforme acordado a região a Autoridade Palestina. Esta foi aos poucos lateralizada pelo braço terrorista Hamas, que é assim denominado pela União Européia e pelos EUA que progressivamente iniciou estimulado pelo Iran, um processo de agressões sistemáticas aos israelenses, moradores da região vizinha a Faixa de Gaza.

Foguetes e morteiros eram lançados diariamente, civis assassinados e Israel inutilmente avisava que tomaria medidas caso isto não fosse interrompido. O Hamas, braço terrorista, coloca claramente que com Israel não há dialogo e que Israel deve ser destruído, e que, portanto mesmo os acordos previamente realizados não têm valor. Optou, portanto, em manter os ataques aos civis e aí, efetivamente, não haveria alternativa que não aquela tomada legitimamente de defesa. Cabe a toda estrutura de Estado garantir a segurança de seus cidadãos e exigir que seus vizinhos tenham um comportamento adequado. Portanto deixo claro ao senhor que a comparação com o Holocausto é no mínimo um reflexo de falta de sensibilidade, de desrespeito e que suas informações sobre a Faixa de Gaza são incompletas e fruto de manchetes de jornal isoladas de um contexto maior.

Quero lhe dizer mais uma coisa. Sou brasileiro e, portanto peço ao senhor respeito, pois meu julgamento é acerca de um comportamento de uma situação internacional, mas o meu governo é o governo brasileiro assim como o seu. Portanto, faça suas observações, mas não me cobre como o senhor assim o faz, pois a minha contribuição junto a este país tem sido enorme bastando que o senhor levante parte das atividades que desenvolvi. Acho que este cuidado que o senhor não teve, reflete o perfil de uma pessoa que por sua posição deveria ser um pouco mais justa e informada na maneira de se dirigir a um cidadão.

Eu, pelo contrario. Tomei o cuidado de ver suas contribuições, saber sobre o seu passado e se respondo é porque uma pessoa como o senhor merece minha atenção e quem sabe um pouco de compartilhamento de meu conhecimento para quem sabe rever seus pontos de vista.

Aprendi em minha vida que certas atitudes têm importância compensatória, pois são momentâneas. Elas passam mais rapidamente e são pontuais. Existem outras que são estruturantes, por trazerem propostas que a médio e longo prazo mudam situações para sempre. Ao escrever-lhe, peço que não tome minha resposta como algo para o momento, mas sim que dentro do espírito de união e de entendimento, que marca a relação entre as nossas comunidades, o senhor se proponha a entender o contexto que fez com que Israel legitimamente defendesse seus cidadãos.

Cordialmente,

Claudio Lottenberg

Judeus, Palestinos e Hitler

A equilibrada e racional reflexão de um historiador e jornalista brasileiro sobre o conflito no Oriente Médio. Marcos Guterman, no artigo reproduzido abaixo, não poupa os radicais de ambos os lados.

A Hitler o que é de Hitler
por Marcos Guterman¹Blog O Estado de São Paulo

Guerras, por definição, sinalizam rupturas. Enquanto a diplomacia oferece portas de saída, o conflito armado só se justifica pela decisão de destruir o inimigo e aquilo que ele representa. E a destruição não pode ser apenas militar ou material; ela tem de se dar também, e sobretudo, no campo moral. O conflito que simboliza melhor esse conceito é a Segunda Guerra Mundial, que passou à história como a luta contra o mal absoluto, resumido no nazismo. Hitler e sua ideologia insana tornaram-se paradigmas daquilo que deve ser combatido sem trégua e sem quartel, em nome da humanidade. Por isso, mesmo passadas seis décadas do fim do conflito, o nazismo continua sendo a referência mais implacável que alguém pode usar quando pretende desqualificar completamente seu inimigo no campo de batalha da opinião pública e da justificativa moral. O caso da presente guerra entre Israel e Hamas mostra justamente os exageros dessa retórica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, o líder da oposição israelense Benjamin Netanyahu comparou os ataques do Hamas no sul de Israel à blitz aérea promovida pela Alemanha de Hitler contra Londres. Já do lado palestino, Mustafa Barghouti escreveu um texto no jornal egípcio Al-Ahram, a respeito da ofensiva israelense, cujo título é “A Guernica dos palestinos”, em referência ao dramático bombardeio nazista contra essa cidade espanhola em 1937.

Trata-se de um óbvio exagero, de ambos os lados, e é um exagero calculado. Ao igualar os palestinos aos nazistas, Netanyahu simplifica grosseiramente o quadro com o objetivo de invocar, no imaginário israelense, o pesadelo da “solução final”. Não é possível, em qualquer sentido, dar pesos semelhantes às forças nazistas e ao limitado poder de fogo do Hamas, ainda que este, a exemplo de Hitler, tenha como objetivo eliminar os judeus. Netanyahu, além disso, se esquece de informar que os palestinos vivem em situação de desespero – que gera grandes ressentimentos – em parte como resultado das ações brutais e dos erros de Israel ao longo de mais de 40 anos de ocupação, com laivos de apartheid.

Barghouti, por sua vez, recorre à velha fórmula anti-semita de comparar os israelenses aos nazistas. É uma fórmula de duplo objetivo, ambos perversos. Primeiro, iguala a vítima ao seu maior algoz, um algoz que reduziu a população judaica na Europa de 9,5 milhões para 3,5 milhões de seres humanos em menos de dez anos. Ele poderia ter comparado os israelenses aos americanos, por exemplo, mas isso não teria o efeito desejado, qual seja, o de ligar os judeus ao mal absoluto. O segundo objetivo da fórmula é diminuir a importância e a singularidade do Holocausto, para então adaptar a impactante imagem do extermínio em massa perpetrado pelos nazistas a qualquer outra circunstância conveniente – por exemplo, a morte de palestinos por israelenses.

A retórica que Netanyahu e Barghouti aplicaram, em lugar de explicar o conflito, obscurece ainda mais o já complicado quadro das tensões no Oriente Médio. Argumentos desse tipo podem até fazer um grande sucesso entre gente oportunista e panfletária – um bom exemplo foi a grosseira nota em que o PT acusou os israelenses de “prática típica do Exército nazista” -, mas eles definitivamente não ajudam a entender a crise nem muito menos a construir pontes para sua superação. Para o bem do debate, deixemos a Hitler o que é de Hitler.

¹Marcos Guterman é historiador e jornalista de O Estado de S.Paulo

A marcha da insensatez

Palestina – Cinco irmãs mortas durante bombardeio de Israel ao campo de refugiados de Yabali
Fotos - A Marcha da Insensatez - Palestina, Cinco irmãs mortas bombardeio no campo de refugiados de Yabali

O massacre no gueto de Gaza
por Clóvis Rossi

O Ocidente tem imensa dificuldade em condenar Israel, mesmo quando merece. Só pode ser má consciência. Afinal, o Holocausto, um dos mais nefandos crimes que a história registra, não foi obra de árabes ou de fundamentalistas religiosos, mas de europeus arianos.

Mais difícil é entender o apoio cego de sucessivos governos norte-americanos a Israel, mesmo agora, quando o Estado judeu comete “crimes contra a humanidade”, como disse Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, um raro governante muçulmano que mantém (ou mantinha) boas relações com Israel.

A bem da verdade, Israel vem cometendo crimes contra os palestinos há muitíssimos anos, a começar do desrespeito à resolução da ONU que manda devolver os territórios palestinos ocupados em sucessivas guerras