Pesticidas vetados na UE são detectados em frutas vindas do Brasil

Greenpeace identifica substâncias proibidas na Europa em frutas brasileiras vendidas na Alemanha, algumas produzidas por empresas alemãs. Organização critica “dupla moral” e alerta para efeitos do acordo UE-Mercosul.

Beleza tóxica? Estudo acusou agrotóxicos em 59 de 70 frutas tropicais analisadas

A organização ambiental Greenpeace mandou examinar amostras de frutas do Brasil comercializadas na Alemanha em busca de vestígios de agrotóxicos, e o alarmante resultado foi apresentado num relatório nesta quarta-feira (19/05): de 70 vegetais testados, 59 acusaram a presença de 35 diferentes substâncias pesticidas, sendo 11 delas não permitidas na União Europeia.

As mangas, mamãos, melões, figos e limões verdes comprados entre abril e maio em diversas partes da Alemanha foram submetidos a dois laboratórios independentes. Dois terços das amostras, continham resíduos de mais de um pesticida, com um mamão chegando a apresentar nove tipos diferentes. Em quatro casos os níveis ultrapassavam os limites permitidos.

Mais da metade das substâncias detectadas, 21 de 35, pertencem ao grupo dos pesticidas classificados como altamente perigosos para a saúde e o meio ambiente (HHP, na sigla em inglês).

Entre as substâncias detectadas que não são permitidas na União Europeia estão os inseticidas Imidacloprid e Chlorfenapyr, fabricadas pelas alemãs Bayer e Basf. No total, a Bayer fabrica 12 dos agrotóxicos encontrados, e a Basf, sete.

“Também as gigantes alemãs da química prejudicam seres humanos, animais e a natureza no Brasil. Um ciclo tóxico, pois, por sua vez, os vegetais contaminados vão parar na nossa salada de frutas na Alemanha”, criticou Jürgen Knirsch, especialista em comércio da Greenpeace, citado pelo jornal Süddeutsche Zeitung.

O relatório do Greenpeace destaca que o Brasil é o terceiro maior consumidor de pesticidas do mundo e utiliza muitas substâncias que não são permitidas na UE. Em 2019, 44% das substâncias aprovadas no Brasil não eram liberadas na UE. Além disso, 70% dos pesticidas usados no Brasil são classificados como altamente perigosos.

“Em abril de 2021, 3.231 pesticidas eram aprovados no Brasil. O governo Bolsonaro emitiu o recorde de 1.172 autorizações em apenas 845 dias de governo, sendo responsável por 36% de todos os pesticidas que podem ser comercializados legalmente no Brasil”, diz o texto.

Golpe para o acordo UE-Mercosul?

O achado é especialmente explosivo no contexto do planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul. Com ele, o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai esperam obter melhores chances para seus produtos agrários nos mercados da Europa, enquanto os Estados-membros da UE contam exportar mais pesticidas, automóveis e outras mercadorias.

O Greenpeace reivindica uma suspensão do acordo, sobre o qual os ministros europeus do Comércio deverão deliberar ainda nesta penúltima semana de maio, em Bruxelas. O tratado UE-Mercosul é controverso: mesmo entre os governos europeus e no Parlamento Europeu encontra-se resistência veemente a ele.

Críticos acusam o governo brasileiro de promover o desmatamento na Amazônia, e que um acordo comercial poderia ainda agravar o problema. O mesmo se aplicaria à venda de pesticidas para a América do Sul: segundo o Greenpeace, em 2019 foi exportado um volume de pelo menos 915 bilhões de euros para os países do Mercosul.

Depois do Reino Unido e da França, a Alemanha é a terceira maior exportadora do setor para a região: em 2020, cerca de 12% dos agrotóxicos permitidos no Brasil foram vendidos pela Bayer e a Basf. O Greenpeace condena a “dupla moral alemã”.

“Mais de dois terços das substâncias vendidas por firmas alemãs no Brasil são classificadas como pesticidas altamente perigosos”, diz Knirsch. Diversos deles estão proibidos na UE, “apesar disso, a Alemanha permite a exportação de pesticidas tóxicos para o Brasil, e os conglomerados químicos alemães lucram com isso”.

As fabricantes se defenderam das acusações: segundo um porta-voz, “já desde 2012, a Bayer não vende mais agrotóxicos classificados como altamente tóxicos pela Organização Mundial de Saúde”. Tanto ela quanto a Basf ofereceriam há anos, em todo o mundo, cursos para que os agricultores empreguem os pesticidas devidamente.

Segundo o Süddeutsche Zeitung, uma representante da Basf declarou: “A segurança dos gêneros alimentícios é essencial para nós. Confiamos nas autoridades e nos sistemas de monitoramento de alimentos para examinarem e assegurarem a disponibilidade de produtos seguros e saudáveis.”

Meio Ambiente,Ecologia,Blog do Mesquita 00

Dez governos europeus pedem plano de recuperação de áreas verdes

Dez governos de toda a UE emitiram uma declaração aberta pedindo uma recuperação das áreas verdes como resposta à crise do Covid-19 e à conseqüente desaceleração econômica.

Devido à quarentena do coronavírus (Covid-19), as praças públicas, parques, ruas e restaurantes estão quase desertos. As pessoas têm que manter distância. Localização: Potsdamer Platz, centro de Berlim.

O consultor de política climática da Greenpeace da UE, Sebastian Mang, disse: “A Europa precisa de um plano para uma transformação social e econômica que nos proteja de futuras crises – sejam elas causadas por um vírus, desigualdade ou quebra do clima. Reconhecer que as enormes quantias gastas em recuperação econômica moldarão o modo como nossas sociedades operam no futuro é um começo. Mas é chocante que a Alemanha e a França não tenham assinado esta declaração.

A política da austeridade e a exploração das pessoas e da natureza estão apenas piorando a crise. Os negócios como de costume não são mais uma opção: apenas uma recuperação justa e verde pode reiniciar nossa economia e tornar nossas sociedades mais resilientes. ”

A declaração pede que a Comissão avance com o Acordo Verde Europeu e impulsione as metas climáticas da UE para 2030, conforme exigido pelo acordo climático de Paris.

Os governos argumentam que “as respostas precisam ser encontradas de maneira concertada por meio de uma resposta européia comum […] para trabalhar em conjunto para criar a ponte entre o combate ao COVID-19, a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas” e que a UE “precisa aumentar os investimentos, principalmente nos campos de mobilidade sustentável, energia renovável, reformas de edifícios, pesquisa e inovação, recuperação da biodiversidade e economia circular. ”

O Greenpeace, juntamente com muitas outras organizações da sociedade civil, está pedindo aos governos e à UE que ajudem a construir uma sociedade mais justa e resiliente, baseada em princípios democráticos e solidariedade internacional, e oferecendo melhores cuidados de saúde, padrões de emprego, proteção social e ambiental.

A crise do Covid-19 e a crise econômica resultante demonstram a profunda necessidade de uma transição social e econômica ser justa e verde, permitindo que as sociedades sejam resilientes diante da crise.

O Greenpeace é uma organização global independente de campanha que atua para mudar atitudes e comportamentos, proteger e conservar o meio ambiente e promover a paz. O Greenpeace não aceita doações de governos, UE, empresas ou partidos políticos.

 

Das proibições e dos ecologistas de carteirinha

Ainda existem articulistas, na imprensa brasileira, capazes de nos brindar com textos que nos permitem apreciar a beleza da inteligência, a contundência do argumento e a capacidade do uso do idioma para formular petardos.

Al Gore,Eco Chatos,Blog do Mesquita

É o caso de Nelson Ascher que escreve na Folha de São Paulo. No texto abaixo, o articulista denuncia, a partir de uma paródia de um texto do teólogo alemão Martin Niemöller, a possibilidade de estarmos a caminho de uma nova forma de totalitarismo.

Para o deleite, dos que ainda usam os neurônios na plenitude…
José Mesquita


Quando vieram atrás das lâmpadas incandescentes, não protestei porque já me habituara a ler à luz de outras; quando baniram os bifes, não disse nada porque podia comer pizzas; quando eliminaram os transgênicos, tampouco reclamei, pois meu salário bastava para comprar alimentos orgânicos; quando proscreveram os vôos internacionais, dei de ombros, pois já conhecia Paris, Londres, Veneza; quando tornaram proibitivo o uso de automóveis, obrigando todos a se aglomerarem em ônibus e metrôs, calei-me porque trabalhava em casa; quando plastificaram as genitálias alheias para limitar a produção de bebês, ri da história porque não me dizia respeito; quando criminalizaram a sátira, os comentários politicamente incorretos, a obesidade, o fumo etc., aí, obviamente, já era tarde demais para abrir o bico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Poucas décadas atrás, todas as proibições mencionadas teriam parecido ridículas, quando não absurdas. Dependendo de onde a vítima viva, hoje a maioria delas se tornou real demais. E muitas estão sendo impostas aos cidadãos não por meio de mecanismos democráticos, como a discussão e o voto, mas através de lobbies endinheirados que pressionam governos para que estes imponham à sociedade as manias desta ou daquela minoria obsessiva.

O lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou ecologistas. Esse pessoal não apenas meteu na cabeça que, devido a algumas variações de frações de graus nos últimos cem anos, o planeta está prestes a se derreter, como se convenceram também de que nós, ou seja, os seres humanos, é que somos a causa do suposto desastre.

Gente como Al Gore, os militantes do Greenpeace e os burocratas transnacionais da ONU selecionam a dedo, entre inúmeras hipóteses contraditórias, as poucas que lhes confirmam os preconceitos, obtêm apoio de alguns cientistas que acreditam nelas, conseguem o silêncio de muitos outros e, valendo-se de modelos computacionais às vezes duvidosos, muitas vezes discutíveis e discutidos, transformam em verdade absoluta o que mal passa, no momento, de uma especulação entre tantas, declarando, precipitada e acientificamente, que se trata de consenso indiscutível. Para completar, demonizam ou isolam quem quer que levante a menor objeção.

Mas, como não faltam mais aqueles que estão devidamente habituados a/e vacinados contra seu terrorismo conceitual (e, não raro, seu terrorismo propriamente dito), o fato é que, se submetidas aos processos decisórios normais de uma democracia, as medidas que eles reivindicam para combater tais males imaginários jamais seriam referendadas pelo grosso do eleitorado.

Aí entram milionários como George Soros, companhias preocupadas com o efeito da propaganda negativa, firmas interessadas em vender produtos ecologicamente corretos, economias estagnadas que vêem nessa medida uma maneira de prejudicar as que andam a pleno vapor, países, ou antes, governos e elites do Terceiro Mundo aos quais se promete certa vantagem financeira em troca de apoio e assim por diante.

Um exemplo ajuda: pouco antes de deixar a presidência dos EUA para se tornar uma presença requisitada em Davos e lobbista internacional, Bill Clinton assinou o Protocolo de Kyoto. Por que é que só o fez então? Porque sabia que o documento não tinha a menor chance de passar pelo Senado. Embora seu gesto fosse, como tal, inútil, este aumentava sua popularidade entre o jet-set internacional em detrimento, é claro, da imagem de seu país.

E isso apesar de sabermos que Kyoto era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas propostas. A preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado.

O que a faz ainda pior é o fato de que seja usada para encobrir ou eclipsar as questões verdadeiramente urgentes, os perigos autênticos que nos rondam: fanatismo religioso e conflitos interétnicos, terrorismo e banditismo internacionais, contrabando de armas e narcotráfico, migrações descontroladas, ditaduras genocidas em vias de adquirir armamentos nucleares.

Nada disso, porém, desviará a atenção de milhares ou milhões de militantes que, como os adeptos de qualquer seita, são movidos por dois desejos prazerosos, a saber, o de policiar a vida alheia e o de punir o sucesso de sociedades inteiras que não comungam de sua fé apocalíptica.