Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07

“Denúncia contra Glenn Greenwald é aventura arbitrária”

Em entrevista, especialista em direito constitucional aponta afronta à liberdade de imprensa e ao devido processo legal na denúncia do MPF contra jornalista do Intercept, acusado de conluio com hackers.    

Glenn Greenwald“Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema de interesse público, e a Constituição assegura o sigilo da fonte”, diz especialista

Mais do que ameaçar a liberdade de imprensa, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, é uma tentativa de criminalização da atividade jornalística, na opinião do professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Daniel Sarmento, especialista em direito constitucional. Em entrevista à DW Brasil, ele associa o caso a um contexto mais amplo de crise democrática no Brasil.

“É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda”, diz.

“São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando”, opina.

DW: Glenn Greenwald não era investigado pela Justiça nem havia sido indiciado pela Polícia Federal, que afirmou não ter encontrado evidências de crimes cometidos pelo jornalista. Mesmo assim, ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal. Trata-se de uma ação arbitrária?

Daniel Sarmento: Eu vejo dessa forma. Em primeiro lugar, há uma ameaça à liberdade de imprensa. O Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema com enorme interesse público. A Constituição assegura o sigilo da fonte, e a denúncia coloca uma ameaça sob a cabeça de jornalistas investigativos, que ousam noticiar o que desagrada às autoridades. O caso tem várias singularidades. Uma delas é o fato de não estar sendo sequer investigado. Outra é o claro descumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), proferida pelo ministro Gilmar Mendes, que vedou qualquer tipo de responsabilização do Glenn pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de imprensa. É uma clara afronta à Constituição, especialmente à liberdade de imprensa e às regras do devido processo legal, que exigem a abertura de investigação e a oportunidade para que o investigado dê sua versão antes da denúncia.

Tendo em vista o envolvimento de figuras públicas nas mensagens vazadas para o Intercept, que limites a Constituição estabelece para a a atuação jornalística?

O Intercept não poderia, por exemplo, encomendar uma gravação ilícita, ou associar-se à prática de interceptação telefônica. Agora, no momento em que o site recebe o material, tem o direito de publicá-lo, pois a população tem o direito de conhecer o conteúdo. Não tem uma disposição clara na Constituição sobre esse ponto. Mas o standard importante é o relevo público e a importância das informações para a sociedade.

A Suprema Corte dos EUA julgou um caso muito parecido, que envolveu o jornal Washington Post, pela publicação dos Pentagon Papers, documentação relativa a irregularidades do governo estadunidense na Guerra do Vietnã. Uma fonte obteve o material e vazou para o jornal, que publicou o conteúdo, apesar da tentativa do governo de impedir a publicação. O tribunal decidiu a favor do jornal, da liberdade de imprensa e do direito da sociedade à informação. É um dos grandes precedentes no Direito global sobre essa matéria, que se aplica perfeitamente à atuação do Intercept.

Além de apontar a interceptação de comunicações e invasão de dispositivo informático, a denúncia do MPF acusa o jornalista de associação criminosa. Pode-se falar em uma tentativa de criminalização da atividade jornalística?

Claramente. É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda. São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando. É importante que as próprias instituições de Estado percebam isso na hora de decidir, e que não se permita a continuidade dessa aventura arbitrária contra o Glenn Greenwald.

O caso evidencia um desvio de função do MPF?

O MPF age em nome da sociedade. Embora seja parte, não pode estar do lado incondicional do governo ou possíveis vítimas de crimes, e deve fazer uma avaliação pautada no Direito. Claramente não foi o caso. Li a denúncia, que contém a transcrição de um diálogo do Glenn que serviu de base para a ação. É preciso ter muita criatividade para extrair dali um estímulo ao crime ou associação à prática do crime. É evidente que não foi isso.

Há precedentes de iniciativas tão agressivas contra a liberdade de imprensa no período democrático mais recente?

Em primeiro lugar, tenho confiança de que o Poder Judiciário não vai embarcar nisso. A gente tem tido decisões muito ruins, mas que, em geral, têm sido revertidas. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) reformou uma decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) que autorizou a apreensão de revistas que traziam um beijo gay. Houve também uma decisão muito equivocada do Supremo que censurou a revista Crusoé por uma matéria contrária ao tribunal, com reação muito negativa, que levou o ministro ao voltar atrás. Nem sempre o Judiciário acerta.

Neste mês, um caso no TJ-RJ levou à censura judicial de um blog. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu para entrar no processo como amicus curiae contra a censura, e o desembargador não só manteve a censura, como negou o pedido da ABI e condenou a entidade por litigância de má fé. Ou seja, censurou a própria ABI. Com muita frequência, o Judiciário brasileiro falha nessa matéria. O caso do Glenn é muito grave, e espero que não falhe desta vez.

São casos isolados ou se encaixam em um contexto mais amplo de cerceamento de liberdades?

Infelizmente, a segunda opção. É um caso extremo. Quase todas as pessoas razoáveis vão concordar que é algo com que não se pode transigir. Mas não acho que seja um ato isolado. A gente vive um momento de crise democrática no Brasil, com muitas instituições do Estado participando de sua formação. Eu tenho visto duas leituras bastante distintas da situação brasileira, e nenhuma das duas está totalmente certa, a meu ver.

Uma diz que as instituições estão funcionando e conseguindo conter os arroubos autoritários do governo. Outra, que não somos mais uma democracia. Algumas das instituições estão funcionando razoavelmente bem, mas muitas delas estão contaminadas. A polícia está matando mais, a atuação dos órgãos de fiscalização ambiental está muito pior, e aumentou a discriminação na sociedade. Acredito também que os críticos do governo estejam se sentindo mais ameaçados. São impactos reais, e as instituições não bastam para contê-los integralmente.

Na matéria indígena, o presidente da República disse que não ia demarcar nem um centímetro de terra indígena e tirou, inicialmente, a atribuição da Funai e passou para o Ministério da Agricultura. Após alguma hesitação, o Supremo derrubou isso. O governo, então, esvaziou totalmente a Funai, colocou um ruralista na presidência e proibiu a autarquia de pagar diárias para os funcionários que vão para áreas não demarcadas. Nos últimos dias, houve uma decisão escandalosa que sustava o fornecimento de cestas básicas para os povos indígenas que não estejam em áreas demarcadas, tirando o direito à subsistência. O Supremo vai por um caminho, e o governo esvazia por outro lado. Não é possível barrar os retrocessos só com algumas instituições. Agora, eu concordo que o Brasil ainda não virou uma Turquia, uma Hungria. Ainda temos um parlamento que freia excessos do governo, um Poder Judiciário que freia alguns excessos e atos democráticos. Não é o cenário em que está tudo normal, pois vivemos, de fato, uma crise democrática, mas também não é o cenário em que o Brasil já virou uma ditadura.
WD

Vigilância e privacidade: Quem liga para a espionagem em massa?

Edward Snowden CIA Internet Espionagem Privacidade Blog do Mesquita
Edward Snowden

O jornalista americano Glenn Greenwald lançou na semana passada, em Washington, seu livro No place to hide, com bastidores das revelações sobre o esquema global de espionagem operado pela Agência de Segurança Nacional (NSA), feitas pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden.

Mais de 700 pessoas lotaram uma sinagoga para ouvir Greenwald analisar, com gravidade, o Estado de vigilância montado pelos EUA desde o 11 de setembro e defender Snowden, acusado na Justiça de traidor da pátria.

O jornalista foi recebido com palmas entusiasmadas de uma plateia de pé, que interrompeu com aplausos a palestra constantemente, em apoio às críticas contundentes de Greenwald aos governos Bush e Obama.

Naquele auditório, estava reunida uma amostra da esquerda americana: estudantes, funcionários de organizações de direitos civis, professores universitários, intelectuais e a classe média progressista da Costa Leste.

Ali, os EUA estavam unidos em ebulição e estupefatos com a violação sistemática e oficial do direito constitucional à privacidade dos cidadãos e os grampos internacionais indiscriminados. Mas quanto desse ultraje é nacional?

No dia 5 de junho, completará um ano da primeira reportagem baseada nos documentos vazados por Snowden, assinada por Greenwald na edição online do jornal britânico The Guardian. Com ela o mundo soube, em detalhes, que os EUA monitoravam virtualmente todas as chamadas telefônicas dos americanos, sem motivo firme, com uma pseudoanuência de uma Corte secreta e do Congresso.

Daí em diante, aprendeu-se que a internet é vasculhada pela NSA com uma peneira fina e universal, com e sem conhecimento das empresas de tecnologia; que a agência atenta contra a segurança de programas e armazena por anos todas as informações que colhe; que os EUA patrocinaram ciberataques; e que chefes de Estado aliados, como Angela Merkel, da Alemanha, e Dilma Rousseff, do Brasil, foram alvos de escuta em suas comunicações pessoais. Entre (muitos) outros.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Motivos, portanto, não faltam para indignação. Ainda assim, veio da plateia da semana passada a pergunta incômoda. Um homem, que se identificou apenas como um ativista com tempo suficiente de estrada para ter protestado contra a guerra do Vietnã, questionou Greenwald: por que há tanta passividade dos americanos diante das revelações, “por que as pessoas não estão com raiva, atormentadas e nas ruas protestando”?

Greenwald considera esta uma visão pessimista. Ele acredita que há incômodo substancial. O jornalista lembrou que, pouco menos de dois meses depois das primeiras revelações, pesquisa anual do Pew Research Center captava uma importante inversão de percepção dos americanos: 47% dos entrevistados declararam que as políticas antiterror do governo tinham ido longe demais na restrição das liberdades civis, enquanto 35% responderam que não tinham ido longe o suficiente para proteger o país.

Em 2004, quando o levantamento foi feito pela primeira vez, a prioridade era clara: 29% temiam pela privacidade; e 49%, pela segurança nacional. Mas Greenwald concede: “Acho que há dificuldade de transformar o ultraje em reação concreta. Há um pouco de desilusão com o governo (Obama), por se ter achado que o discurso era de mudança. Há um senso de impotência.”

Reformas nas práticas de espionagem

É intuitivo pensar que a apatia é o motivo para a desmobilização em torno do Big Brother montado pela nação mais poderosa do planeta. Mas, quanto mais longe fica o choque inicial das revelações, mais se consolida uma outra realidade: os americanos parecem ter se acostumado, quase 13 anos depois dos ataques terroristas às torres gêmeas, à supremacia da defesa da segurança nacional como motor das ações governamentais. Virou um salvo-conduto.

Pesquisa nacional do instituto Gallup conduzida em janeiro, após sete meses de descobertas sobre os tentáculos da NSA, mostra que 53% dos americanos aprovam os programas da agência. A população aparece dividida sobre o papel desempenhado por Edward Snowden com as revelações: 45% acham que ele serviu ao interesse público e 43%, que o prejudicou.

Apenas os jovens entre 18 e 29 anos dão crédito indiscutível ao vazador (57% a 35%), enquanto a população acima de 50 anos majoritariamente (mais de 60%) o condena. Mais da metade dos entrevistados em todo o país (56%) defendem uma ação criminal contra Snowden pelo vazamento – mesmo entre os mais jovens, há empate nas respostas a favor e contra.

Esses números ajudam a respaldar uma resposta modesta do Congresso e do Executivo às revelações. Enquanto assuntos como reforma da imigração e aumento do salário mínimo têm estrondoso apoio da população, mas provocam divisão quase irreconciliável entre democratas e republicanos, a revisão e a restrição dos programas da NSA geraram um raríssimo consenso bipartidário em Washington. Não só a oposição, criadora dos programas em 2001, defende ajustes apenas cirúrgicos nas leis que em tese embasam a espionagem em massa. Ao lado dela posam democratas ilustres, como a senadora Diane Feinstein, presidente do Comitê de Inteligência da Casa, que ajudaram a ampliar e avalizar a vigilância em massa nos anos Obama.

E assim o Congresso discute mudanças quase cosméticas nas práticas da NSA. O projeto da Lei de Liberdade dos EUA (USA Freedom Act) já foi aprovado, de forma unânime, em duas comissões da Câmara e está na fila para ir à votação no plenário. Sua principal contribuição é impedir a coleta em massa de dados, obrigando a Inteligência a submeter uma suspeita precisa contra o alvo para ser autorizada a vasculhar sua comunicação. Mas são muitos os atalhos que a NSA pode tomar para continuar com sua operação em larga escala e, no Senado, a barreira de proteção à agência é muito maior.

O presidente Barack Obama, por sua vez, fez discursos importantes sobre a necessidade de os EUA saírem do Estado de guerra iniciado com o terror de 2001. Mas ele mantém a defesa de que a saída passa pelo equilíbrio entre segurança nacional e privacidade. A União Americana para Liberdades Civis (ACLU) listou 11 alterações nos programas da NSA essenciais para salvaguardar a privacidade dos cidadãos e a garantia constitucional de motivo concreto para buscas. As propostas de Obama atendem apenas quatro delas.

No fim do túnel, há a luz de dois caminhos pelos quais reformas substanciais nas práticas de espionagem americanas ainda podem ocorrer. O primeiro é a Justiça. ACLU e Electronic Frontier Foundation (EFF) são duas das mais proeminentes entidades que acionaram o Estado contra a coleta em massa – em causa própria e representando um grupo de mais de dez entidades, respectivamente – e aguardam julgamento da Suprema Corte. O Tribunal máximo pode determinar a inconstitucionalidade de vários programas e forçar alterações nas legislações que os permitem funcionar.

A autocensura de fontes

O segundo caminho é a revelação de que os fins da vigilância não estão circunscritos à batalha contra o terror. Uma nova onda de denúncias comprovando o uso do aparato de Inteligência para perseguição política ou caça às bruxas de qualquer natureza pode reanimar a memória dos tempos de Richard Nixon, o presidente que renunciou, entre outros motivos, por colocar a arapongagem oficial a serviço dos interesses da Casa Branca, contra opositores e manifestantes antiguerra.

Sinais de que há fumaça nesta fogueira de intenções tortas surgiram este ano. O Huffington Post publicou uma reportagem em janeiro, com base em documento vazado por Snowden, no qual a NSA admite que mantém vigilância de seis pessoas, todas muçulmanas, que não estão engajadas em atividades terroristas, mas recorrem a “mensagem radical extrema”. A agência monitorou a navegação dos indivíduos em sites pornográficos e concluiu que esse hábito poderia ser usado para minar a credibilidade dos seis perante suas audiências.

Enquanto este momento de virada não vem, a autocensura de fontes, cidadãos comuns e empresas, desconfiados deste inimigo invisível e onipresente, vai manchando os valores democráticos que os EUA sempre capitanearam.
Flávia Barbosa/Observatório da Imprensa/O Globo

Brasil não vai conceder asilo a Snowden em troca de informações

O governo brasileiro não tem interesse em investigar a NSA (Agência de Segurança Nacional) e, por isso, não pretende conceder asilo ao delator do esquema de espionagem do governo dos Estados Unidos Edward Snowden, em troca de informações para atingir este objetivo.

Folha revelou nesta terça a intenção de Snowden de colaborar com investigações sobre a NSA e, em troca, receber asilo do Brasil.

Como parte da estratégia, Snowden escreveu uma “carta aberta ao povo do Brasil”, que enviará às autoridades brasileiras.

Nela, Snowden afirma que não é possível colaborar com as investigações diante da precária situação jurídica em que se encontra, com apenas asilo temporário, concedido pela Rússia até o meio de 2014.

No Brasil, com status de asilado permanente, teria mais liberdade para isso.

Snowden toma cuidado, na carta, de não se dirigir diretamente a Dilma.

A razão é não melindrar o governo russo. Mas, de acordo com o jornalista Glenn Greenwald, para quem ele vazou os dados, Snowden quer vir para o Brasil.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Leia íntegra da carta escrita por delator ‘ao povo brasileiro’
Read the full letter in English
Lea la carta completa en español

Segundo a Folha apurou, o Ministério das Relações Exteriores destaca como “positivo” trecho da carta em que Snowden pede uma mobilização em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, que estariam em risco por causa de ações como as da NSA.

Por outro lado, o Itamaraty destaca que o Brasil respeita a soberania de outros países e não pretende “dar o troco” nos Estados Unidos. Um assessor presidencial frisou que o governo brasileiro não pode entrar num jogo de troca, conceder o asilo para receber informações para investigar as ações da agência de espionagem americana.

Além disso, destacou o assessor, o Brasil não tem interesse em fazer esse tipo de ingerência na soberania de outros países. O caminho brasileiro, segundo ele, sempre foi expressado publicamente.

Oficialmente, o Palácio do Planalto ainda não se pronunciou e pode inclusive não fazê-lo porque não existe um pedido formal de asilo da parte de Snowden. A presidente Dilma Rousseff ficou surpresa com a informação e acionou o Itamaraty para definir qual posição deverá ser tomada.

editoria de arte/editoria de arte
Crimes pelos quais Snowden é acusado -- O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos
Crimes pelos quais Snowden é acusado — O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos

MOBILIZAÇÃO

Quanto à mobilização defendida por Snowden, assessores do Itamaraty reforçam que o governo brasileiro já vem atuando neste sentido e conta com a ajuda dele, que sempre será bem-vinda.

O Ministério das Relações Exteriores ressalta que o Brasil, desde o início, fez questão de condenar as ações da NSA e de considerá-las “inaceitáveis”. A presidente Dilma chegou a desmarcar uma visita de Estado aos EUA em reação ao episódio.

O Itamaraty lembra ainda a iniciativa da presidente, que negociou com a Alemanha uma resolução formalizada na ONU (Organização das Nações Unidas) contra a espionagem americana. A resolução será votada nesta semana pelo plenário da assembleia geral da entidade.

O governo brasileiro informa que a carta aberta de Snowden, solicitando abrigo ao Brasil, não configura formalmente um pedido de asilo político.

Para o governo, nem mesmo o pedido feito pelo norte-americano em julho configura uma solicitação de asilo. Na ocasião, um pedido foi enviado por fax a diversas embaixadas estrangeiras na Rússia, quando Snowden estava temporariamente no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou.

OPOSIÇÃO

Para o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), não faz sentido conceder asilo político para Snowden.

“Acho que não existe nada que dignifique esse homem para o Brasil se envolver nesse momento com essa questão. Isso vai trazer muito mais desgastes ao Brasil no cenário internacional do que qualquer benefício para combater essas ações de espionagem”, disse.

“O Brasil tem que se preocupar em desenvolver um sistema próprio de tecnologia que seja capaz de se posicionar contra essas ações de espionagem que não ocorrem apenas pelos Estados Unidos”, completou Caiado.

A Polícia Federal, que investiga as denúncias de que a presidente Dilma e a Petrobras foram investigadas, já solicitou formalmente o depoimento de Snowden. O pedido foi feito via Itamaraty, responsável pelo contato com as autoridades russas. Mas os policiais nunca tiveram resposta.
Fonte: Folha de São Paulo

Poucas pessoas leem, de fato, matérias sérias na internet

Intenet Jornais Impressos Blog do MesquitaPierre Omidyar, fundador do site e-Bay e agora um filantropo, apareceu com frequência nas notícias depois que foi revelado que ele estava patrocinando um novo site de notícias por 250 milhões de dólares.

Se o vazamento sobre o novo projeto foi inesperado, o interesse de Omidyar em jornalismo e reportagens responsáveis não o foi. Desde que, em 2004, fundou, com sua mulher, Pam, a Rede Omidyar [Omidyar Network], ele patrocinou mais de duas dúzias de organizações que trabalham com mídia e transparência, incluindo o Instituto Poynter, a Fundação Sunlight e a Iniciativa por Transparência e Responsabilidade.

E em 2010 ele criou e ajudou a construir o site Honolulu Civil Beat, que faz reportagens sobre assuntos públicos ao mesmo tempo em que permite aos cidadãos manterem-se informados sobre questões do governo.

Mas esses esforços são minimizados pela colaboração, ainda sem nome, com Glenn Greenwald (que trabalhava no Guardian, onde publicou os documentos da Agência Nacional de Segurança vazados por Edward Snowden), a cineasta Laura Poitras e Jeremy Scahill, do semanário The Nation.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]As revelações de Snowden, assim como seu profundo interesse pela compra do Washington Post na primavera passada, levaram Pierre Omidyar a decidir que este era um bom momento para colocar parte de sua fortuna – calculada em 8,5 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes – por trás do projeto de um site de notícias de interesse geral, grande, com foco em reportagens investigativas e de responsabilidade governamental.

Conversamos com Pierre Omidyar para uma coluna sobre o crescente interesse em conteúdo jornalístico sério por parte de pessoas que construíram sua riqueza no reino digital. O que se segue são trechos de uma entrevista por telefone, devidamente editada para ficar resumida e mais clara.

“As fontes têm medo de falar”

Você podia estar investindoseu tempo e seu dinheiro numa porção de coisas. Por que a mídia?

Pierre Omidyar – Minha formação é tecnológica por origem e por treinamento, mas meu foco está na filantropia. Uma das áreas-chave foi pegar as lições da tecnologia e aplicá-las no sentido de tornar o mundo melhor. E parte desse interesse conduziu-me à questão da transparência e responsabilidade do governo: como explicamos a uma audiência mais ampla o que o governo vem fazendo?

Vivemos no Havaí por sete anos e eu percebi uma lacuna na cobertura à medida que as redações iam se fundindo – houve uma redução concreta na capacidade de fazer reportagens e foi por isso que achei que era o ponto crítico para construir uma redação exclusivamente voltada para questões públicas. Eu queria sujar as mãos aprendendo o dia-a-dia do trabalho com jornalistas e editores para saber como a salsicha é feita. Por meio dessa experiência, vi em primeira mão o impacto que excelentes matérias investigativas têm em todos os níveis. Este, portanto, é o passo seguinte de uma viagem muito longa.

Este novo passo parece ter como foco o sigilo e a transparência. O que atraiu você nessa direção?

P.O. – Aconteceram algumas coisas. Mesmo antes dos vazamentos de Snowden, já havíamos visto coisas que eu classificaria como tropeços do Departamento de Justiça. Vimos o Departamento de Justiça botar escutas telefônicas na redação da Associated Press. Vimos o repórter James Rosen [da Fox News] ser etiquetado como co-conspirador em declaração juramentada; vimos as várias acusações contra vazamentos, inclusive pelo uso da Lei de Espionagem. Isso me alertou para o fato de que mesmo neste grande país que é o nosso, com esta fantástica Constituição que temos, continua havendo uma pressão concreta contra a liberdade de imprensa. Talvez sem pretender fazê-lo, na ânsia de coibir os vazamentos e de proteger segredos, acabamos pressionando a liberdade de imprensa. Quando você tem uma vigilância em massa, é impossível atender ao que pede a Primeira Emenda, pois os repórteres não podem falar com as fontes porque as fontes têm medo de falar.

“Os sistemas mudam a maneira pela qual o mundo funciona”

Por que, então, não enfrentar logo a coisa e comprar o Washington Post?

P.O. – Em maio, nos envolvemos profundamente no processo da compra do Washington Post. Em última instância, comecei a pensar sobre outros usos para esse montante de capital. No site Civil Beat, aprendi que boa parte do trabalho de dar continuidade a uma conversa é ter vozes que se baseiem na experiência, assim como na paixão pelo tema. Foi isso que me levou a pensar em pessoas como Glenn Greenwald, Laura Poitras e Jeremy Scahill. São pessoas que estão dispostas a ir à luta e fazê-lo de modo transparente, e não apenas emitir opiniões sem qualquer fundamento. Eles dizem “Veja, eu sei sobre isto assim-assim. Foi assim e assim que tomei conhecimento; aqui está o que consegui saber sobre a questão e eu vou lhe contar o que penso a respeito.”

E o que você traz para a mesa além do dinheiro?

P.O. – Pessoas que mexem com tecnologia enfrentam os problemas a partir da perspectiva de que o sistema funciona de uma determinada maneira e se eu entrar nesse sistema e conseguir mudar suas regras, posso fazê-lo funcionar de uma maneira diferente. É o caso do Google, do Facebook, do Twitter ou do e-Bay. Todos eles criaram sistemas que mudaram a maneira pela qual o mundo funciona numa extensão muito ampla. E eu adiantaria a hipótese de que talvez parte do interesse pela mídia seja o reflexo de um desejo de estar envolvido no mundo.

“Ainda é muito cedo [para falar do projeto]”

Fazendo o quê?

P.O. – Queremos fazer um trabalho melhor trazendo matérias investigativas importantes ou matérias profundamente humanas que tendem a não ser vistas por uma audiência maior e podemos usar a tecnologia para descobrir como fazê-lo. Não é tão simples assim como jogar uma coisa que seja importante na cara delas. Isso seria fazer como o serviço público e provavelmente seria ignorado.

O pessoal da tecnologia compreende nossos usuários e analisa o aumento de envolvimento desde uma pessoa que experimenta o produto e vai embora para um outro tipo de pessoa que, progressivamente, vai se envolvendo cada vez mais até ficar totalmente dependente do produto. Isso é algo que o pessoal do Vale do Silício passa um tempo sem fim analisando, examinando e refletindo.

Você acha que jornalismo sério é economicamente viável?

P.O. – Por si próprio, é provável que não. O que aprendemos com nosso site no Havaí mostra como é difícil. Os anunciantes não querem por anúncios em matérias investigativas; é extremamente difícil que isso aconteça. E muito poucas pessoas leem, de fato, essas matérias sérias na internet. A audiência para as matérias mais importantes pode ser depressivamente pequena. Haverá sempre um núcleo de leitores dispostos a apoiar esse trabalho, mas é um percentual mínimo de uma sociedade muito mais ampla. Isso é parte do motivo de estarmos fazendo um site de interesse geral e de trabalhar no sentido de transformar uma audiência de interesse geral em cidadãos engajados.

E como é que anda a coisa?

P.O. – Ainda é muito cedo. Chegamos aqui de uma maneira inesperada, em termos de falar em público. Tem pouco mais de duas semanas que Glenn e eu estamos juntos no projeto.

Foi interessante ver Glenn Greenwald ter de lidar com as consequências de um vazamento…

P.O. – Foi, hmmm, muito irônico.

¹ David Carr escreve sobre mídia e cultura no New York Times
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de David Carr [“An Interview With Pierre Omidyar”, The New York Times, 21/10/13]

A guerra cibernética começa no seu smartphone

Privacidade Computadores Segurança Blog do Mesquita

Quanto mais firmes forem os protestos do governo brasileiro, melhor.

Quanto mais numerosas e abrangentes forem as iniciativas contra o governo dos Estados Unidos e suas contratadas pela invasão do nosso espaço cibernético, mais protegidos nos sentiremos.

A aterrorizante verdade é que apesar do nosso esperneio muito pouco poderá mudar. A Casa Branca dará todas as explicações, os organismos internacionais prometerão sistemas menos vulneráveis à intromissão externa do tráfego digital dos países, porém na melhor das hipóteses ficaremos mais conscientes e atentos à caprichosa marcha do progresso.

Nem mesmo o bravo Edward Snowden – ex-consultor dos serviços de inteligência americanos que botou a boca no trombone para acordar o mundo – conseguiria sugerir uma forma de controlar o sistema de conexões chamado WWW, ou W3, impedindo-o de cometer o encadeamento de abusos contra as soberanias individuais e nacionais.

Este maravilhoso sistema ao qual estamos conectados a partir das células eletrônicas que carregamos nos bolsos & bolsas é simplesmente indestrinçável. Impossível “desligar” a indústria das conexões, ela foi longe demais, não há retorno. O caos criativo está ganhando mais uma parada.

De bandeja

A humanidade fez uma escolha há cerca de duas décadas e agora está pagando o preço. Maravilhada com a mágica das redes onde máquinas falam com máquinas e superam todas as barreiras do tempo e do espaço, a comunidade humana apostou cegamente no confortável conceito de conectividade e comunhão instantânea.

Com elas turbinamos um inesgotável acervo de ferramentas para viver melhor e saber mais enquanto anulam-se progressivamente as liberdades e arbítrios individuais. Com elas vamos às ruas para mudar o mundo, embora conhecendo apenas alguns de seus fragmentos.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Snowden, o homem mais solitário do mundo, o superexpatriado e hipermarginal, deveria ganhar o Nobel da Paz por ter arrancado de Vladimir Putin a confissão de que a Rússia é parceira dos EUA, por isso não pode conceder-lhe o asilo.

Não existem sociedades mais diferenciadas do que a ex-URSS e os EUA – no entanto, são parceiras. O adjetivo, em qualquer idioma, é sinônimo de sócio e cúmplice.

Putin e Obama estão enredados na mesma rede. Assim como as lideranças da China, da Alemanha, Reino Unido, Índia e Brasil. E também nós, comuns mortais, como constata Vikas Bajaj no New York Times (16/6):

“Os usuários trocaram privacidade por conveniência… Poderiam fazer um esforço para se defender, mas nenhum programa ou serviço pode protegê-los da intrusão de agentes do governo, criminosos ou hackers.

O problema é que aos poucos cedemos coletivamente nossa privacidade à medida em que transferimos interações sociais, econômicas [e agora políticas] do contexto físico para o âmbito da e-nuvem alimentada por milhares de computadores gerenciados por empresas como Google, Amazon e Facebook. E será muito difícil, senão impossível, recuperar aquilo que desperdiçamos” (ver íntegra aqui, em inglês).

Trincheiras cibernéticas

A revelação do Globo no domingo (7/7) sobre a espionagem de milhões de e-mails e ligações [telefônicas] de brasileiros pelos EUA causou justificado frisson internacional. O Brasil é o mais monitorado país da América Latina, dizia o subtítulo. Teria sido muito oportuno lembrar que é, igualmente, o mais informatizado do subcontinente.

No mesmo domingo, à noite, no Fantástico da Rede Globo, o veiculador do alerta de Snowden, o jornalista Glenn Greenwald, do Guardian, explicou que o Brasil funciona como “ponte” para acessar outros países:

“Pode ter sido uma alternativa encontrada pelos programas de monitoramento norte-americanos para conseguir acesso aos sistemas de países mais protegidos, como a China e o Irã. Não temos acesso ao sistema da China, mas temos acesso ao sistema do Brasil. Então coletamos o trânsito do Brasil não porque queremos saber o que um brasileiro está falando para outro brasileiro, mas o que alguém da China está falando com alguém do Irã”. (G1, 7/7, 22h33)

Este é um pormenor que teria sido mais útil se publicado ao lado das revelações iniciais. Não foi. O desajuste jamais será corrigido – esta é a lógica das bolas de neve e as bolas de neve são fofas apenas na aparência.

Greenwald acrescentou que o software Prism permite à Agência Nacional de Segurança americana (NSA) acessar e-mails, chats online e chamadas de voz dos serviços da Apple, Facebook, Google, Microsoft, YouTube, Skype, AOL, Yahoo e PalTalk.

São essas portentosas redes que juntam o feliz proprietário de um smartphone ou tablet com o sistema planetário de intrusões, espionagem, terrorismo e contraterrorismo.

São esses formidáveis serviços e suas calorosas redes sociais que empurram o homem contemporâneo, o cidadão conectado, para as trincheiras da guerra cibernética cujas maiores vítimas já conhecemos: a mídia impressa, o hábito de ler textos maiores do que três parágrafos, a capacidade de referenciar e entender os conjuntos.
Por Alberto Dines/Observatório da Imprensa