Senado Federal: suplências e as ilhas do tesouro

Caráter Senadores Blog do MesquitaCoisas do Brasil. Acredite; dos 81 senadores, em outubro/2012, 19 era o número de suplentes que assumiram o cargo, em definitivo ou temporariamente.

O Congresso Nacional é corrupto. É uma “cloaca”. Uma confraria de ação entre amigos, que só pune alguém quando não cabe mais sujeira sob o tapete.

Nos azulados tapetes a Constituição de 88 é diariamente violentada, servido de imoral balcão de negócios.

Sarneys, Barbalhos e Renans se revezam no caixa.
José Mesquita – Editor


O negócio das suplências e das ilhas dos tesouros
Alberto Dines/Observatório da Imprensa

O peixe de maior tamanho enroscado na Operação Porto Seguro é um “senador” que jamais teve um voto e, no entanto, ocupou por três vezes um assento em nossa Câmara Alta.

Este mago da política chama-se Gilberto Miranda: começou como massagista do então presidente-ditador João Figueiredo, foi sócio nos negócios de Orestes Quércia, é amigo de Paulo Maluf, era próximo de Celso Pitta, seu padrinho de casamento é José Sarney e, além disso, esteve envolvido diretamente em escândalos de altíssimo quilate como o Caso Sivam e o Dossiê Cayman.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O “senador” Gilberto Miranda agora mudou de ramo: tornou-se expert em Ilhas do Tesouro. Tem duas, a poucos quilômetros de distância uma da outra, no litoral de S. Paulo.

Na ilha das Cabras, propriedade da União, perto de Ilhabela, construiu um paradisíaco resort privado com heliporto e outras facilidades para entreter amigos e sócios.

Insatisfeito, o novo Robinson Crusoe apossou-se da Ilha dos Bagres, no porto de Santos, onde pretendia construir um complexo portuário para o qual obteve um financiamento de dois bilhões de reais graças às relações com José Weber Holanda, ex-advogado-geral-adjunto da União, agora indiciado pela Polícia Federal.

O negócio de Ilhas do Tesouro resolve-se pela via judicial com relativa facilidade. Mas o negócio das suplências, uma das maiores aberrações da Carta Magna de 1988, só se resolve com uma Emenda Constitucional.

Gilberto Miranda Batista — Mirandinha para os íntimos – embora paulista sempre fascinou-se com as riquezas do Amazonas: pagou dois milhões em 1987 para obter a suplência de Carlos Alberto Di Carli o que lhe permitiu freqüentar o Senado durante seis meses e lustrou a sua folha-corrida com o título de Senador.

Em 1990 negociou uma suplência com Amazonino Mendes: pagou quatro milhões que lhe garantiram seis anos no Senado da República. Em 1998 pagou outros cinco milhões ao xará, Gilberto Mestrinho por uma segunda suplência e, em seguida, uma vilegiatura de outros seis anos no Senado. Uma pechincha.

Zona Franca

No período em que representou o Estado do Amazonas o empreendedor Gilberto Miranda desenvolveu outro negócio: a liberação de projetos de financiamento na Zona Franca de Manaus. Bateu um recorde: emplacou 250.

No modelo presidencialista e bicameral dos EUA inexiste a figura do suplente de senador. É ilegítima.

O representante de um estado da Federação precisa ser eleito pelo voto direto.

O parlamentar que se afasta, morre ou é impedido pelos pares, será substituído por outro, eleito nominalmente no pleito seguinte.

O negócio de suplências no Senado é indecente, feudal e antidemocrático.

Já produziu situações altamente vexatórias com aquela protagonizada pelo ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, então suplente do senador Saturnino Braga (PDT-Rio) que exigiu o afastamento de um brilhante parlamentar por conta de um execrável “acordo político” que lesou o eleitor, o partido e o próprio sistema eleitoral.

A Operação Porto Seguro foi iniciada pela Polícia Federal, as primeiras punições partiram do Executivo, os indiciados serão levados ao Judiciário.

O Legislativo — por enquanto ileso — poderia participar do saneamento com uma PEC que acabaria com o rendoso negócio das suplências. E das ilhas dos tesouros.

Operação Porto Seguro: cadê a Rosemary?

Por mais crédulos que possamos ser, por mais diversas que sejam as opiniões, todos os indícios dessa trama não podem ter sido inventados.
José Mesquita


Operação Porto Seguro mostra que Weber (AGU) e Vieira (ANA) faziam encontros mensais. E Rosemary, onde andava?

Reportagem de Evandro Éboli, em O Globo, mostra que o ex-adjunto da Advocacia Geral da União (AGU), José Weber Holanda, recebeu pelo menos 29 pedidos de audiência do ex-diretor da Agência Nacional das Águas (ANA) Paulo Vieira.

Numa análise preliminar, a AGU havia estimado 23 encontros.

A agenda, corrigida pela própria AGU, demonstra que entre novembro de 2010 e novembro de 2012 esses prováveis encontros ocorreram quase que mensalmente e, às vezes, mais de uma vez por mês.

Os dois foram alvos da Operação Porto Seguro da Polícia Federal.

O jornalista Evandro Éboli relata que, na relação, aparecem agendadas ainda reuniões de Weber com 16 deputados federais, nove dos quais do PT, entre eles o presidente da Câmara, Marco Maia (RS).[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Há até a previsão de um encontro do ex-adjunto da AGU com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 11 de abril de 2011, no hotel Sofitel, em São Paulo.

A AGU informou que não tem como garantir se todos os encontros previstos na agenda de fato ocorreram.

Com Gilberto Miranda

Em nota, a AGU explicou que, como o computador funcional de Weber foi apreendido por agentes da Polícia Federal, na Operação Porto Seguro, foi preciso desenvolver um sistema para recuperar os detalhes da agenda de Weber no sistema de informação do órgão.

Na agenda de Weber estão previstos ainda dois encontros dele com o ex-senador Gilberto Miranda (PMDB-AM), também indiciado pela PF.

O repórter de O Globo destaca que Paulo Vieira, diretor de Hidrologia da ANA e principal alvo da Operação Porto Seguro, chegou a ser preso e foi indiciado pela PF como chefe de um esquema que cooptava servidores públicos na elaboração de pareceres favoráveis a negócios privados.

Deste esquema participava Rosemary Noronha, ex-chefe do Gabinete da Presidência em São Paulo, que desfrutava da intimidade do então presidente Lula.

Como se sabe, Weber teria beneficiado empreendimentos do ex-senador Gilberto Miranda no litoral paulista.

Na agenda de Weber ainda aparece uma reunião com Glauco Moreira, ex-procurador-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), indiciado pela PF.

Sindicância da AGU, já divulgada aqui no Blog da Tribuna, concluiu que Paulo Vieira tinha livre acesso à Procuradoria da Antaq.

E a Rosemary, também tinha? Onde estava? Onde está?
Carlos Newton/Tribuna da Imprensa