Racismo no Brasil é real e velado

Ao longo dos anos tenho firmado a convicção que o preconceito no Brasil, em média, é primeiro social e depois racial.
Por aqui, quem quer que esteja fora do padrão estabelecido pelo sistema é alvo de preconceito. Negros, magros, obesos, nordestinos, mestiços, pobres…
Toda forma de racismo na “terra Brasilis” é sinal de ignorância da própria origem.
“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” Einstein

O Editor

PS. Não concordo com o que o sujeito diz, mas deixem o Bolsanaro falar. Querer cassá-lo é uma violência. Liberdade de Expressão é clásula pétrea da Constituição. Aliás, ele é até pedagógico para que as novas gerações conheçam que tipo de mentalidade era dominante nos anos de repressão. Época em que o nefasto Armando Falcão proibiu apresentação do Balé Boshoi. “Asinus asinum fricat.”


O penhor dessa igualdade

Diz a autoimagem brasileira que aqui não há racismo, que existe uma vocação para aceitar a diversidade que viria da mistura étnica que nos formou. Muito antes de Gilberto Freyre já se propagava essa ideia.

Mas essa autoimagem não descreve nem o passado nem o presente da nação.

A demora em abolir a escravidão e a demora em incorporar os negros e seus descendentes no progresso democrático, até hoje, põem por terra a afirmação de que a ausência da segregação explícita – vista até os anos 50 em países como os EUA – significa uma espécie de superioridade inerente.

É fato que a mestiçagem evitou ou ajudou a evitar tais extremos, mas daí a achar que o gosto do colonizador português por mulheres negras e a índole cordial bastaram para criar uma sociedade livre de racismo, vai atlântica diferença.

Quando ouço as declarações desse deputado Jair Bolsonaro sobre a “promiscuidade” que seria ter uma mulher negra, para não falar do pastor evangélico que escreveu que a herança africana é “maldição”, estou ciente de que eles não refletem a maioria dos brasileiros.

Mas não subestimo quantos não pensam ou dizem às escondidas a mesma coisa, e fico indignado quando vejo o modo como os ricos e as autoridades deste país tratam seus empregados, não raro de pele mais escura que a sua.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Mais importante ainda, não esqueço que algumas instituições brasileiras, sobretudo a polícia, são eivadas desse preconceito.

E lembro como são poucos os negros na “elite” brasileira, os Obamas e as Oprahs, e em algumas profissões, como os garçons.

Ok, o deputado tem o direito de dizer o que pensa, mas nós temos o dever de criticá-lo.

E quando ele diz coisas como a de que não teria um filho gay porque sabe como “educá-lo” está indo muito além de uma mera discordância sobre a união civil para casal homossexual; está dizendo que acha que essas pessoas são mal-educadas e, logo, são aberrações que merecem corretivo, para usar termos a seu estilo.

E então sabemos de gays que são agredidos criminosamente na Avenida Paulista e nada ouvimos em sua defesa por parte do deputado, cuja obrigação é zelar pelas leis.

Para piorar, ele tenta escapar da acusação de falta de decoro e incitação ao ódio usando o mais velho expediente dos preconceituosos, o de ter amigos ou parentes negros ou gays.

Essa história de que os brasileiros são afetuosos e, portanto, não discriminam etnias e sexualidades também está demorando para acabar.

Afinal, este país é o campeão mundial de violência doméstica contra as mulheres.

Rodo por todos seus pontos cardeais e me canso de ver mães solteiras, muito jovens, que algum malandro engravidou e depois abandonou.

Não, a sociedade brasileira está longe de ser um exemplo de harmonia entre as diferenças; sob a capa do sorriso fácil, do tapinha nas costas, muitos vezes há a mais cruel deslealdade, a mais velada arrogância.

Só merece afeto quem antes cultiva o respeito.

Daniel Piza/O Estado de S.Paulo

Gilberto Freire – Versos na tarde

As mangueiras
Gilberto Freire¹
As mangueiras
o telhado velho
o pátio branco
as sombras da tarde cansada
até o fantasma da judia rica
tudo esta à espera do romance começado

um dia sobre os tijolos soltos
a cadeira de balanço será o principal ruído
as mangueiras
o telhado
o pátio
as sombras
o fantasma da moça
tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno.

¹Gilberto Freire
* Recife, PE. – 15 de Março de 1900 d.C
+ Recife, PE. – 18 de Julho de 1987 d.C

Biografia de Gilberto Freire

História e Estórias – Notórios e notáveis

Do notável Sebastião Nery – Tribuna da Imprensa – reproduzo essa notável estória sobre alguns notórios políticos brasileiros.

Antonio Candido de Melo e Sousa, paulista carioca, mestre da crítica literária (autor, entre outros, dos clássicos “Formação da literatura brasileira” e “Literatura e sociedade”), criticou Gilberto Freire porque escrevia seu nome com “y” (“Freyre”) e não com “i” (“Freire”).

Gilberto Freire não gostou, mas não reclamou. Algum tempo depois, Antonio Candido telefonou para Gilberto Freire, que atendeu: – Quem fala? É o Antonio Candido? O Antonio sem o circunflexo no “ô” de “Antônio” e no “â” de “Cândido”, com “Mello” de dois “elles” e “Souza” com “z”?

Suassuna
Mas os pernambucanos nem sempre são tão sutis. João Alexandre Barbosa, consagrado crítico literário, fazia concurso para a Universidade de Pernambuco. Na banca, o renomado professor Antonio Candido, e o extraordinário Ariano Suassuna. Antonio Candido elogiou Alexandre:

– Ele tem notório e notável saber.

Suassuna interrompeu Antonio Candido:

– Até concordo com o professor Antonio Candido. Mas há uma grande diferença entre notório e notável. Alguns políticos de Pernambuco são ladrões notórios. Já Lampião foi um ladrão notável.

PSDB
O PSDB foi fundado dizendo-se um “partido de notáveis”. Agora, o procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza, mostra que não é bem assim. Tem seus “notáveis”. Mas também um punhado de “notórios”.

O “mensalão” do PT tinha o mesmo DNA do “mensalinho” de Minas. Não importa que o tamanho da roubalheira não tenha comparação. Mas está provado que os tucanos mineiros também têm seus “notórios”.