Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook promoveu a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.


Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab (somente em inglês)

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Milicianos e candidatos falsos são duas metades da mesma laranja no pomar do PSL

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“ESTÃO NOMEANDO corruptos e gente de esquerda no segundo escalão. Não foi esse o combinado e o prometido durante a campanha. Falei para o ministro que, agindo assim, o governo está ‘dando pano para manga’ e aí vão bater mesmo”, disse a senadora do PSL Soraya Thronicke, como se o grande problema do governo estivesse no segundo escalão, e não no Planalto.

Não, senadora. Não estão batendo no governo por causa dos corruptos e “esquerdistas” do segundo escalão, mas pelos vários esquemas de desvios de verbas públicas em esquemas de candidatos laranja comandados por líderes do PSL. Também pelo envolvimento da família presidencial com o crime organizado do Rio de Janeiro. O noticiário desta semana mostra inclusive que há conexão entre os dois assuntos.

Praticamente todo santo dia se descobre uma pilantragem nova nas campanhas do partido do presidente. É tanta laranja caindo que por um momento a gente pensa se os devotos do bolsonarismo devem estar mesmo certos: deve ser tudo invenção da “extrema imprensa”. Mas não, o laranjal está fartamente comprovado, e os responsáveis não conseguem explicar. E o que caiu de laranja nova nessa semana não é brincadeira, meus amigos.

Está comprovado que o ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio usou verbas públicas para financiar candidaturas de laranjas em Minas Gerais. Essa semana, Cleuzenir Barbosa, uma das candidatas laranja, entregou ao Ministério Público as trocas de mensagens em que um assessor do ministro pede para que ela transfira parte da sua cota para uma gráfica com a qual ela não estava fazendo serviço algum. Disse também que o ministro conhecia o esquema para lavar dinheiro do PSL. Cleuzenir fugiu para Portugal com medo dos que ela chama de “bandidos”. Fez muito bem.

O ministro era o presidente do PSL mineiro e responsável por definir quem seriam os candidatos no estado. O seu envolvimento com candidatos laranja está muito mais claro do que o de Bebianno, que foi demitido. Segundo Onyx Lorenzoni, o presidente da República nem sequer cogita demitir o ministro do Turismo, a não ser que haja “algo de gravidade, de responsabilidade direta dele”. Mas o que seria mais grave que desviar dinheiro do povo para patrocinar candidatos de mentira? Empregar parentes e amigos das milícias cariocas já sabemos que não é. Fazer caixa 2 também perdeu a gravidade. Mas se o ministro brigar com o Carluxo…hum…aí, sim, o bicho vai pegar.

Durante a campanha eleitoral, o ministro do Turismo dizia, em sua propaganda,que era contra o fundo partidário e o foro privilegiado. Pois bem, ele não só usou — e desviou — recursos do fundo partidário como, com a mesma cara de pau de Flávio Bolsonaro, recorreu ao STF pedindo foro. É o bolsonarismo em estado bruto.

Mas não foi só em Minas e Pernambuco que o PSL desviou verba pública. No Rio Grande do Sul, a presidente do diretório regional e candidata ao Senado Carmen Flores usou parte da grana do fundo partidário para abastecer as contas bancárias de seus parentes. A sua filha recebeu pelo aluguel de um imóvel que foi sede do partido durante a campanha. A neta recebeu para panfletar na rua. Além da contratação dos parentes, Carmen Flores usou a verba para mobiliar a sede. Tudo foi comprado em uma loja da rede “Carmen Flores”. Sim, ela usou verba pública para comprar móveis para o partido em sua própria loja.

Como toda boa bolsonarista, Carmen estava perdida e não sabia muito bem o que fazia ali. Só tinha um coração batendo pelo mito. “Eu não sabia o que era PSL, eu era Bolsonaro. Sempre admirei a causa Bolsonaro. O ministro Onyx Lorenzoni e o presidente, na época deputado [Bolsonaro], jogaram no meu colo em 20 de março a presidência do partido”, falou. Foi dessa forma atabalhoada que a empresária caiu de paraquedas na presidência do PSL gaúcho. A política na nova era se faz nas coxas.

Quando ainda nem havia se lançado candidato, o deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS) reclamou com Gustavo Bebianno, então homem de confiança de Bolsonaro, sobre o modo com que Carmen conduzia o partido. “Quando relatei os problemas, ele disse que, se eu continuasse contra a Carmen, poderia ficar sem legenda para concorrer. Me ameaçou”, contou à Folha.

Agora vamos para mais um episódio do capanguismo político no Rio de Janeiro. As relações de Flávio Bolsonaro com o crime organizado vão ficando cada vez mais claras e já começam a surgir os primeiros indícios de que há uma interligação com o laranjal do PSL.

Na quinta-feira, a Folha mostrou como o dinheiro do fundo eleitoral entregue a candidatas do PSL-RJ, presidido por Flávio Bolsonaro, beneficiou a empresa de Alessandra Ferreira de Oliveira, uma ex-assessora sua. Essa empresa recebeu R$ 55,3 mil a partir de pagamentos de 42 candidatos, sendo que R$ 26 mil tiveram como origem 33 candidatas que só receberam a grana nos últimos dias de campanha. Dessas 33 candidatas, 26 tiveram menos de 2.000 votos. Na época em que sua empresa cuidava das contas das candidatas, Alessandra também trabalhava no gabinete da liderança do PSL na Alerj, exercida por Flávio.

Também foram beneficiadas duas parentes de Valdenice de Oliveira Meliga, a Val, não a do Açaí, mas a tesoureira do diretório estadual do PSL. Ela também ajudou a vender os serviços da empresa de Alessandra para as candidaturas do PSL-RJ. Por um acaso, Val é irmã de Alan e Alex Rodrigues Oliveira, aqueles milicianos que fizeram campanha para o Flávio e seu pai e que foram presos por integrarem uma quadrilha de extorsões.

A irmã e a nora de Val também realizaram transferências para a empresa da ex-assessora de Flávio Bolsonaro. Perceba como o bolsonarismo se mostra realmente muito preocupado em ajudar a família brasileira. Ou, como andam dizendo nas redes sociais, a familícia brasileira.

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Flávio e Jair Bolsonaro prestigiam festa de aniversário dos irmãos de Val, milicianos presos na Operação Quarto Elemento. “Essa família é nota mil”, escreveu Flávio em seu Instagram.Foto: Reprodução/Instagram

Família Bolsonaro participa de festa de aniversário dos irmãos de Val, milicianos presos na Operação Quarto Elemento.

Na sexta-feira, a ligação com as milícias cariocas voltou a perturbar ainda mais Flávio Bolsonaro. A revista IstoÉ descobriu dois cheques da sua campanha que foram assinados pela Val, o que mostra que ela era uma pessoa da sua mais alta confiança. Flávio chegou a dar uma procuração autorizando Val a assinar os cheques de despesas da campanha em seu nome. Era dela a responsabilidade pelas contas da sua campanha ao Senado. Não foi à toa que Jair e Flávio Bolsonaro compareceram à festa de aniversário dos seus irmãos milicianos antes de serem presos.

Um desses cheques descobertos pela revista estava endereçado à empresa de Alessandra Ferreira Oliveira, a dona da empresa que recebeu verbas das candidaturas laranjas do PSL no Rio. É aí que o laranjal se encontra com as milícias. “Enquanto a irmã de milicianos assinava cheques em nome do ’01’, funcionária do gabinete do filho do presidente mantinha empresa paralela para ‘esquentar’ verba e reter no PSL dinheiro do fundo eleitoral”, publicou a Isto É.

Portanto, ficamos assim: o senador Flávio Bolsonaro é amigo de milicianos. Empregou parentes de milicianos. Concedeu honrarias para milicianos. Defendeu chefe de milícia na Câmara. Deu procuração para uma irmã de milicianos movimentar sua contas de campanha.

O caso é complexo e ainda há muito o que ser investigado. Muitas perguntas não foram esclarecidas. Qual é a participação de Jair Bolsonaro no laranjal do PSL? Qual é o contexto das transações financeiras que Jair e Michele Bolsonaro mantiveram com Fabrício Queiroz? Jair Bolsonaro, amigo próximo de Queiroz por três décadas, não sabia que ele indicava parentes de milicianos para o gabinete do seu filho? Flávio Bolsonaro, depois de anos exaltando as milícias, não sabia de nada? Quem matou Marielle Franco?

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Flávio Bolsonaro autorizou irmã de milicianos a assinar cheques de sua campanha ao Senado

Flávio Bolsonaro,Senador,Brasil,Milícias,Corrupção,Queiroz,PSL,Blog do MesquitaEx-funcionária de Flávio Bolsonaro na Alerj faturou R$ 55 mil durante a campanha eleitoral.

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente Flávio Bolsonaro (PSL), autorizou sua ex-funcionária Valdenice de Oliveira Meliga – irmã de dois milicianos presos, os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira – a assinar em seu nome cheques de despesas da campanha vitoriosa ao Senado. Reportagem da revista IstoÉ deste fim de semana exibe dois desses cheques: um de R$ 3,5 mil e outro R$ 5 mil.

Valdenice era lotada no gabinete do então deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), foco da investigação que tem o ex-policial Fabrício Queiroz como suspeito de “movimentações atípicas” de milhões de reais.

“Dona de uma empresa de eventos, a Me Liga Produções e Eventos, Val era uma das pessoas a quem ele deu procuração, conforme documento enviado à Justiça Eleitoral, para cumprir a tarefa. Mas não só. Aos poucos, Val Meliga revela-se uma personagem que pode ser tornar ‘nitroglicerina pura’ para Flávio Bolsonaro. Ela é uma das pontas de um intrincado novelo que une as duas maiores fragilidades que hoje fustigam o filho do presidente da República e seu partido, o PSL: além do envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro, o uso de supostos laranjas e expedientes na campanha para fazer retornar ao partido dinheiro do fundo partidário”, diz trecho da reportagem assinada por Wilson Lima.

A publicação diz que um dos cheques assinados por Valdenice (R$ 5 mil), referente à contabilidade das contas de Flávio, foi destinado à Alê Soluções e Eventos Ltda, empresa de Alessandra Cristina Ferreira de Oliveira. Ela também era funcionária do gabinete do agora senador na Alerj, com salário de R$ 5,1 mil.

Além disso, Alessandra estava vinculada à liderança do PSL na Alerj, do qual Flávio era o líder titular. Na época da campanha, continua a reportagem, Alessandra atuava como primeira tesoureira do PSL, mas sua empresa não foi contratada apenas para fazer a contabilidade do então candidato.

“Ela, a primeira-tesoureira do PSL, ou seja, a pessoa a quem cabia destinar os recursos, fez, por meio de sua empresa, a contabilidade de 42 campanhas eleitorais do PSL do Rio. Ou seja: cerca de um a cada cinco postulantes a um cargo político pelo PSL do Rio deixou sua contabilidade aos serviços da Alê, empresa de Alessandra, tesoureira do partido. Assim, a responsável por entregar e distribuir os recursos do partido tinha parte do recurso de volta para as contas de uma empresa de sua responsabilidade”, acrescenta a IstoÉ.

A matéria diz ainda que, para atrair candidatos, Alessandra Oliveira oferecia pacote de contabilidade mais barato do que os disponíveis no mercado àquela época. A revista explica que, “normalmente”, a administração das contas de uma campanha eleitoral tem preço fixado em R$ 4 mil por empresas de contabilidade, mas Flávia cobrou R$ 750 de candidaturas “menores”. A tabela de importância seguia os seguintes critérios: R$ 3 mil para candidatos com chances medianas de se eleger; R$ 5 mil para os candidato mais fortes, caso de Flávio Bolsonaro. Ela faturou no “atacado”, acrescenta a publicação, e não no “varejo”, e ao todo embolsou R$ 55 mil com as campanhas.

Área de milícia

“Há outros aspectos estranhos que envolvem a empresa de contabilidade de Alessandra. A Alê Soluções foi constituída em maio de 2007. E, no começo, era somente uma empresa de eventos, como a de Val Meliga. Segundo, porém, o registro junto à Receita Federal, existem dez atividades econômicas secundárias mais tarde incorporadas à empresa. O mais próximo de contabilidade que aparece são ‘Serviços combinados de escritório e apoio administrativo'”, continua a matéria.

“A empresa tem capital social de R$ 60 mil. Para a Receita Federal, a Alê Soluções está localizada na Estrada dos Bandeirantes 11216, na Vargem Pequena. Talvez seja só coincidência, mas a Vargem Pequena, em Jacarepaguá, é uma das áreas cariocas dominadas pelas milícias. Para o Tribunal Regional Eleitoral, no entanto, o endereço anotado é Avenida das Américas número 18000 sala 220 D, no Recreio dos Bandeirantes. Esse é simplesmente o endereço da sede do PSL do Rio”, acrescenta.

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O elo entre Flávio Bolsonaro e a milícia investigada pela morte de Marielle

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Flávio Bolsonaro ao lado do pai. FOTO WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL

Flávio Bolsonaro e caso Fabrício Queiroz
Operação Intocáveis busca miliciano que tinha mãe e mulher lotadas no gabinete do então deputado estadual. Filho de presidente diz que nomeações foram feitas por Queiroz, que confirmou informação

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega. As duas mulheres são o elo entre o senador eleito Flávio Bolsonaro e o grupo miliciano Escritório do Crime, um dos mais poderosos do Rio.

O grupo é também suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Segundo o jornal O Globo, Raimunda e Danielle são, respectivamente, mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, vulgo Gordinho, tido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das lideranças do Escritório do Crime. As duas foram lotadas no gabinete do então deputado estadual Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, mas o filho do presidente diz não ter sido responsável pelas nomeações.

Adriano, que está foragido, foi um dos alvos da Operação Intocáveis, realizada nesta terça-feira por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público. Foram presos cinco suspeitos de integrar a milícia que agia nas comunidades de Rio das Pedras e Muzema. Além do suposto envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson, o grupo é acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras.

Entre os detidos esta o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, vulgo Tartaruga, que irá a júri popular no caso da chacina da Via Show, ocorrida em 2003. Apesar disso, em 2004 o deputado Flávio Bolsonaro propôs uma “menção de louvor e congratulações” ao então capitão Pereira. Adriano também foi homenageado. Tanto Ronald como Adriano foram ouvidos em 2018 pela Delegacia de Homicídios como parte das investigações caso Marielle.

Apesar do foco da ação desta terça ser o combate às milícias, a operação deve desgastar ainda mais o primogênito do clã Bolsonaro no caso Queiroz. Isso porque, além do parentesco com um suspeito do envolvimento na morte de Marielle e Anderson, Raimunda é mencionada no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras como sendo responsável por parte dos depósitos feitos na conta do ex-motorista Fabrício Queiroz. Ela e Danielle foram exoneradas do gabinete de Flávio em 13 de novembro, segundo consta no Diário Oficial.

Em nota, Flávio afirmou ser “vítima de uma campanha difamatória com o objetivo de atingir o Governo de Jair Bolsonaro”. Segundo ele, “a funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz”.

De acordo com o senador, ele não pode “ser responsabilizado por atos que desconheço”. Horas depois, o próprio Queiroz confirmou, por meio de nota divulgada por sua defesa, que veio dele a indicação para a contratação, um ato de solidariedade com a família, “que passava por grande dificuldade, pois à época ele [Adriano Nóbrega] estava injustamente preso, em razão de um auto de resistência”.

Não é a primeira vez que o clã Bolsonaro se vê envolvido na discussão sobre milícias. Em 2008, época em que ainda era deputado federal, Jair chegou a defender a atuação destes grupos criminosos no plenário da Câmara. “Existe miliciano que não tem nada a ver com ‘gatonet’ e venda de gás. Como ele ganha 850 reais por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade”, afirmou. Em outra ocasião, naquele mesmo ano, o capitão da reserva foi ainda mais direto: “Elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas”.

Queiroz é citado no relatório do COAF após ter sido identificada uma movimentação atípica no valor de 1,2 milhão de reais em sua conta entre 2016 e 2017, valor incompatível com seus vencimentos de assessor parlamentar segundo o órgão. De acordo com ele, o valor seria fruto de operações de compra e venda de carros usados. Depois que o caso veio à tona, o ex-motorista de Flávio desapareceu. Segundo o colunista do Globo, Lauro Jardim, ele ficou abrigado por duas semanas em uma casa na comunidade Rio das Pedras, onde a milícia alvo da Operação Intocáveis agia.

Nos últimos dias documentos do COAF divulgados pelo Jornal Nacional apontam que Flávio realizou um pagamento milionário de título bancário, além de ter recebido 96.000 reais pagos em espécie, em vários depósitos de 2.000 reais. Ele afirma que o título é referente ao pagamento de um imóvel adquirido na planta, e que os depósitos são fruto da venda de um apartamento – o comprador, Flávio Guerra, confirma a compra. Segundo ele, a opção por realizar vários depósitos no caixa eletrônico foi feita para evitar “pegar fila” na agência bancária.
ElPais/GilAlessi

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Como Flávio Bolsonaro ocupou um cargo na Câmara dos Deputados enquanto fazia faculdade e estágio no Rio

Flávio Bolsonaro,Políticos,Brasil,Corrupção,MilíciasDireito de imagemREUTERS/ADRIANO MACHADO
Flávio e Jair Bolsonaro durante pronunciamento do presidente

Entre 2000 e 2002, Flávio Bolsonaro, então com 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes: faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário duas vezes por semana no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Ocupadas ao mesmo tempo por quase um ano, todas essas atividades exigiam a presença física do primogênito do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e hoje senador eleito pelo PSL-RJ, segundo as instituições ouvidas pela BBC News Brasil.

A faculdade e o estágio integram o histórico de Flávio Bolsonaro tanto no LinkedIn quanto no site da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Não há referência, no entanto, ao cargo parlamentar em seus dois currículos disponíveis na internet.

A ocupação na Câmara consta, entretanto, na declaração do Imposto de Renda dele de 2001 entregue à Justiça Eleitoral, no portal de transparência da Casa e no Diário Oficial da União.

Procuradas, a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro afirmou que não iria responder aos questionamentos da BBC News Brasil e a assessoria do presidente Jair Bolsonaro não respondeu até a publicação desta reportagem.

O posto de assistente técnico de gabinete foi ocupado por Flávio na liderança do PPB, partido pelo qual Jair Bolsonaro havia sido eleito para seu terceiro mandato na Câmara. Esse mesmo posto comissionado foi ocupado antes por outro membro da família de Jair Bolsonaro: a então mulher dele, Ana Cristina Siqueira Valle, deixou o cargo uma semana antes de ser substituída por Flávio.

Presença obrigatória

Não há informações públicas disponíveis sobre os salários pagos a Flávio e Ana Cristina à época. Mas, segundo declaração do Imposto de Renda de Flávio, o cargo de assistente técnico de gabinete rendeu em 2001 o equivalente a R$ 4.712 por mês, ou R$ 13,5 mil em valores corrigidos..

Esses cargos comissionados alocados nas lideranças de partidos na Câmara (considerados cargos de natureza especial, ou CNE) são ocupados a partir de indicações por critérios políticos e/ou técnicos. Em geral, os escolhidos são militantes ligados ao comando do partido; servidores concursados em outros órgãos públicos que recebem um adicional para trabalhar no Congresso; ou apadrinhados dos deputados da sigla, que em alguns casos loteiam os cargos do escritório da liderança entre si.

As normas da Câmara determinam que essas funções só podem ser exercidas pelos funcionários em Brasília. Questionada pela BBC News Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação sobre a norma vigente à época, a Câmara dos Deputados afirmou que os cargos de natureza especial, como o ocupado por Flávio nos anos 2000, “têm por finalidade a prestação de serviços de assessoramento aos órgãos da Casa, em Brasília. Desse modo, não possuem a prerrogativa de exercerem suas atividades em outra cidade além da capital federal”.

No mesmo período em que ocupava esse cargo em Brasília, Flávio relata em suas páginas no LinkedIn e no site da Assembleia Legislativa fluminense que exercia outras duas atividades: faculdade de Direito na Universidade Candido Mendes e estágio na Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Registro da Câmara

Registro oficial do cargo que Flávio Bolsonaro exerceu na Câmara

Procurada pela BBC News Brasil, a Defensoria Pública afirma não haver registro de que Flávio Bolsonaro tenha atuado formalmente no órgão, mas informa que um defensor público do núcleo de sistema penitenciário (que não quis ser identificado na reportagem) relata que Flávio foi seu estagiário voluntário duas vezes por semana.

Não há informações precisas sobre o período em que esse estágio ocorreu. O parlamentar divulga duas datas diferentes nas duas versões de seu currículo: de março de 2001 a janeiro de 2002 (no LinkedIn) e de agosto de 2000 a outubro de 2001 (no site da Assembleia Legislativa). Não havia pagamento de bolsa de estudos, controle de frequência ou carga horária mínima, mas o jovem era “assíduo e interessado”, segundo o tutor, que respondeu a perguntas da BBC News Brasil por meio da assessoria de imprensa da Defensoria Pública.

Descrição semelhante de Flávio Bolsonaro é feita por dois estudantes contemporâneos dele na Universidade Candido Mendes, com quem a BBC News Brasil conversou. Eles pediram para não ser identificados na reportagem.

Controle por chamada

O curso de Direito tinha carga horária diária média entre quatro e cinco horas nos dois primeiros anos e a presença dos alunos era controlada à época por chamada, segundo dois ex-professores e dois ex-alunos, que afirmaram à reportagem terem sido colegas de Flávio em disciplinas matutinas. Procurada, a Candido Mendes não informou em que turnos Flávio cursou suas disciplinas por questões de privacidade.

Como, então, o filho mais velho de Jair Bolsonaro conseguiu conciliar estágio voluntário e faculdade privada no Rio de Janeiro com emprego público em Brasília, duas cidades distantes em mais de 1.000 km ou quase uma hora e meia de voo?LinkedIn

Currículo de Flávio Bolsonaro em seu perfil no LinkedIn


A experiência profissional de Flávio Bolsonaro em um cargo comissionado na Câmara dos Deputados não aparece nos perfis publicados em seu site oficial, no site da Assembleia Legislativa do Rio e em sua página na rede LinkedIn.

Flávio Bolsonaro ocupou o posto de assistente técnico de gabinete de dezembro de 2000 a junho de 2002, quando saiu a pedido. Meses depois, se elegeu deputado estadual do Rio pelo próprio PPB.

O controle de presença de Flávio Bolsonaro entre dezembro de 2000 e junho de 2002 era feito por meio de folha com a frequência mensal, em vez de ponto diário. Nesse modelo, a chefia do gabinete da liderança do PPB enviava todo mês à direção da Câmara um relatório com os dias em que Flávio trabalhou. Esse tipo de controle mais flexível é uma opção prevista nas normas internas da Casa.

Essa função ocupada por Flávio é paga com recursos do orçamento da Câmara dos Deputados e tem 15 atribuições previstas em lei. Dentre elas, acompanhar e relatar reuniões plenárias e de comissões na Câmara, prestar assistência regimental a deputados, elaborar pareceres e orientar parlamentares em votações e discussões na Casa e “transmitir, acompanhar e executar o cumprimento das instruções do Chefe de Gabinete”. Segundo o ato da Mesa Diretora da Câmara nº 45, de 17 de outubro de 1996, um funcionário que ocupa o mesmo cargo de Flávio pode ser “encontrado na administração e nas lideranças” da Casa.

Flávio BolsonaroDireito de imagemREUTERS/SERGIO MORAES
Em 2002, Flávio Bolsonar foi eleito deputado estadual

De acordo com os dados oficiais mais recentes, há 1.671 funcionários na Câmara em cargos de natureza especial. Estes são diferentes dos chamados secretários parlamentares (SP), que são lotados nos gabinetes dos deputados e autorizados por lei, caso seja necessário, a atuarem nas bases político-eleitorais dos parlamentares fora de Brasília.

IR Flávio
Declaração do Imposto de Renda de Flávio Bolsonaro do ano de 2001

Atualmente, há 16 níveis de remuneração para os CNEs que Flávio e a ex-mulher de Jair Bolsonaro ocuparam. Como assistente técnico de gabinete, Flávio recebeu R$ 56.548,63 em 2001 pelos 12 meses de trabalho naquele ano, segundo sua declaração do Imposto de Renda entregue à Justiça Eleitoral em 2002. De acordo com correção monetária pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), o montante totaliza R$ 162.132,81 em valores atuais, ou R$ 13,5 mil por mês.

Nesse documento, Flávio informou também morar em um apartamento na Tijuca (pertencente a sua mãe) e ser dono de um automóvel Gol 1.0 16v Turbo, modelo do ano, avaliado em R$ 25,5 mil (R$ 73,1 mil em valores atuais, também segundo o INPC).

Resposta da Câmara
Declaração oficial da Câmara sobre o exercício de cargos de natureza especial fora de Brasília

Carga horária no estágio e na faculdade

Além do cargo que ocupava em Brasília, o então universitário Flávio Bolsonaro também era estagiário na Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Segundo advogados ouvidos pela BBC News Brasil que estagiaram no início dos anos 2000 no órgão, a carga horária e as atribuições do estágio formal na instituição variavam de acordo com o defensor público responsável pela orientação. Em geral, ocupavam ao menos oito horas divididas em dois dias por semana e atreladas ao expediente do Tribunal de Justiça, de 11h às 18h.

Flávio Bolsonaro era, segundo a Defensoria fluminense, um estagiário voluntário sem qualquer vínculo formal com a instituição. De acordo com os estagiários formais daquela época, quem é voluntário ali tem contatos no órgão para conseguir a vaga, tem tempo livre, quer atuar e aprender mesmo sem conseguir passar no concurso oficial e/ou busca prestar serviço social, por não haver previsão de bolsa de estudo. Nos dois currículos, Flávio se refere a essa atividade apenas como estágio, sem detalhar se era voluntário. Ele não foi pago pela função.

“Lembro com bastante carinho do meu período na Defensoria Pública, no início da faculdade, aprendi muito, fiz muitos amigos”, afirmou o político em audiência pública na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, em abril de 2012.

Flávio começou a estudar Direito em 2000 na unidade da Candido Mendes no centro do Rio de Janeiro e se formou em 2005, segundo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O curso privado hoje tem carga horária total de quase 4.000 horas (incluindo estágio obrigatório) distribuídas em seis dezenas de disciplinas ao longo em dez semestres. O tamanho da grade curricular, segundo funcionários da instituição, variou pouco nos últimos 20 anos.

A carga horária podia ser cumprida pelos estudantes, caso quisessem ou precisassem, em disciplinas espalhadas pelos três turnos (manhã, tarde e noite). A frequência mínima exigida é de 75% das aulas.

BolsonaroDireito de imagemEVARISTO SA/AFP/GETTY IMAGES
Quando era deputado, presidente Jair Bolsonaro indicou parentes para cargos na Câmara

O campus em que Flávio estudou fica perto da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), à qual ele se elegeu, ainda estudante, na eleição de 2002 pelo mesmo partido em que trabalhou na Câmara naquele ano, o PPB – pela sigla também se reelegeu seu pai para a Câmara dos Deputados naquele ano, como o 21º candidato mais votado do Rio.

De 2003 a 2005, Flávio passou a conciliar faculdade e atividade parlamentar na Alerj. Em discurso na Casa em 2008 contra a obrigatoriedade do exame da OAB, o então deputado estadual afirmou: “Fiquei cinco anos estudando na faculdade de direito da Candido Mendes, aqui, no centro da cidade, dentre esses cinco anos, dois dedicados à prática forense, mais algumas centenas de horas de atividades extracurriculares, muito sacrifício, muita dedicação.”

Flávio, que obteve a carteira profissional da entidade em julho de 2006, afirma que o exame da ordem leva faculdades de Direito a prepararem profissionais para passar nessa prova, em vez de capacitá-los para o exercício da profissão, além de reduzir a oferta de advogados para a população.

Os dois currículos de Flávio não detalham esses dois anos dedicados à prática forense.

Histórico de cargos para familiares de Jair Bolsonaro

Ao longo das quase três décadas em que Jair Bolsonaro atuou como deputado federal, outros familiares dele trabalharam na Câmara dos Deputados.

A contratação de parentes nos três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) foi proibida somente a partir de 2008, após súmula do Supremo Tribunal Federal. A partir dali, ficaram proibidas, por exemplo, contratações de parentes de autoridades e de funcionários para cargos de confiança e em comissão, segundo a Câmara dos Deputados. A proibição também atinge o chamado nepotismo cruzado, em que dois políticos, por exemplo, contratam familiares um do outro.

A segunda mulher de Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle, que já tinha experiência profissional legislativa em outros gabinetes e comissões na Casa, ocupou o mesmo posto de assistente técnico de gabinete que Flávio Bolsonaro na liderança do PPB na Câmara. Ela ficou entre novembro de 1998, ano em que nasceu Jair Renan Bolsonaro, filho do casal, e dezembro de 2000.

O pai de Ana Cristina, José Cândido, a mãe, Henriqueta, a irmã, Andrea, e o irmão, André Luís, também ocuparam postos na Câmara antes da mudança da regra, mas no próprio gabinete do então deputado Jair Bolsonaro. Este negou ao jornal O Globo, que noticiou parte dessas contratações, quaisquer irregularidades na contratação dessas pessoas em cargos públicos e afirmou que não era casado formalmente à época, o que afastaria um eventual nepotismo.

Inacreditável: Gabinete de Bolsonaro atestou frequência de filha de Queiroz que era personal trainer no RJ

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Caso Queiroz e os Bolsonaros: ausências em depoimentos e perguntas sem respostas

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O senador eleito Flávio Bolsonaro. ROQUE DE SÁ. AGÊNCIA SENADO

O Ministério Público do Rio ameaçou endurecer contra o motorista Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, investigado por movimentações financeiras suspeitas. O caso já completou mais de um mês, e nesta terça-feira as duas filhas e a mulher de Queiroz não compareceram para depor. Em nota, o MP fala que o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras que cita os quatro membros da família “permitem o prosseguimento das investigações, com a realização de outras diligências de natureza sigilosa, inclusive a quebra dos sigilos bancário e fiscal”.

Sobram perguntas e faltam depoimentos na primeira crise enfrentada pelo clã Bolsonaro após as eleições de 2018. A defesa de Queiroz alegou que o ex-assessor ainda não se pronunciou perante as autoridades, tendo faltado a dois depoimentos, por estar com problemas de saúde. Por sua vez, Flávio diz que não deve explicação alguma, e que cabe ao seu ex-assessor explicar a origem e o destino de mais de 1,2 milhão de reais, ainda que todos os suspeitos tenham sido seus funcionários. Veja o que já se sabe até o momento, e que o capitão, seu filho e Queiroz já disseram (ou são cobrados a dizer) do caso.

O que é o caso Queiroz?

No dia 6 de dezembro o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou em um relatório que Queiroz, policial militar da reserva, ex-motorista de Flávio e amigo de longa data da família Bolsonaro, fez uma movimentação bancária de 1,2 milhão de reais, “incompatível com seu patrimônio”, entre 2016 e 2017. A investigação faz parte da operação Furna da Onça, um desdobramento da Lava Jato no Rio que já levou dez parlamentares fluminenses para a prisão.

Qual é a suspeita?
Uma das principais linhas de investigação trabalha com a possibilidade dos repasses feitos para a conta de Queiroz sejam uma espécie de pedágio cobrado por parlamentares de seus funcionários. Isso porque os depósitos feitos por outros integrantes do gabinete de Flávio para Queiroz coincidiam com as datas de pagamento da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A prática de confisco de salários é ilegal, mas bastante difundido em assembleias, câmaras e prefeituras do país.

Quem investiga o caso?
O caso dos servidores foi remetido ao Ministério Público do Rio de Janeiro, por não ter ligação direta com o esquema investigado pela Furna da Onça. O caso está sobre sigilo de Justiça.

Quem são os personagens principais?
Além de Queiroz, Flávio Bolsonaro, Jair e a primeira-dama Michelle, duas filhas e a mulher do motorista também são citadas no relatório do Coaf. As familiares de Queiroz faltaram a um depoimento que estava agendado para a terça-feira, 8. Nathalia, filha do motorista, trabalhava como personal trainer enquanto estava locada no gabinete de Flávio, como revelou a Folha de S.Paulo. No relatório do Coaf o nome dela aparece ao lado de transações de 84.000 reais. Além de Queiroz outros 22 servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro são investigados na Operação Furna da Onça.

O que Queiroz já disse?
O motorista, que já faltou a dois depoimentos ao Ministério Público do Rio, marcados desde que o caso veio à tona, negou que a origem do dinheiro seja irregular. Em entrevista ao jornal SBT Queiroz alegou “não ser laranja” do clã Bolsonaro, e disse que os depósitos e saques (que totalizam 1,2 milhão de reais) são referentes à “compra e venda de carros usados”. “Sou um cara de negócios. Eu faço dinheiro, compro carro, revendo carro… Sempre fui assim, gosto muito de comprar carro de seguradora. Na minha época, lá atrás, comprava um carrinho, mandava arrumar e revendia. Tenho uma segurança.”

Como o presidente Jair Bolsonaro está implicado no caso?
De acordo com as investigações, Queiroz realizou transferências que totalizaram 24.000 reais para a conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Jair afirmou que o valor dizia respeito a uma série de empréstimos feitos por ele ao motorista, que foi quitado com dez cheques de 4.000 reais. A conta da mulher teria sido usada porque ele não teria disponibilidade de ir ao banco em função da rotina de trabalho. O presidente sempre negou qualquer irregularidade, e disse não ter declarado o valor do empréstimo em sua declaração de Imposto de Renda porque os valores eram pequenos e muito parcelados, e acabaram se “avolumando”. “O empréstimo foi se avolumando e eu não posso, de um ano para o outro, [colocar na declaração] mais 10.000, mais 15.000. Se eu errei, eu arco com a minha responsabilidade perante o fisco. Não tem problema nenhum”.

Mas o capitão aproveitou para defender o Queiroz: “O Coaf fala em movimentação atípica, mas isso não quer dizer que seja ilegal, irregular. Pode ser outra coisa”, afirmou. Bolsonaro sempre admitiu ser próximo do motorista: “[Queiroz] foi trabalhar com o meu filho, sempre gozou de toda a liberdade e confiança nossa. Era uma pessoa que já foi pescar comigo. Já curtiu férias comigo, lá em Mambucaba, no Rio de Janeiro”. Por fim, após tomar posse, Bolsonaro disse saber que o ex-assessor “fazia rolo”, mas não explicou mais do que isso.

O que Flávio Bolsonaro já disse sobre o caso? E sobre a existência de funcionários que não iam ao gabinete?
Flávio Bolsonaro foi convidado a depor, mas também não compareceu e nem informou se o fará. Por ser parlamentar o senador tem a prerrogativa de escolher dia e horário para depor, e pode nem ir, uma vez que não foi intimado. No Twitter, em dezembro, ele ensaiou sua defesa: “Pela enésima vez, não posso ser responsabilizado por atos de terceiros e não cometi nenhuma ilegalidade. O ex-assessor é quem deve dar explicações”. Reportagens mostraram que os assessores envolvidos em depósitos para Queiroz mal apareciam para trabalhar. Um funcionário do gabinete Flavio, o tenente-coronel da Polícia Militar Wellington Sérvulo Romano da Silva, que aparece como tendo depositado valores para Queiroz, recebeu pagamentos mesmo fora do país: ele passou 248 dias em Portugal entre 2015 e 2016, segundo informações do Jornal Nacional. Ele só não teria recebido seus vencimentos da Assembleia em dois dos mais de 12 meses nos quais atuou supostamente a serviço do deputado. Apesar disso, Flávio disse que “todos da minha equipe trabalham e a prova de que o gabinete funciona bem são minhas crescentes votações”.

Quais as implicações para Flávio e Queiroz?
Ainda é cedo para saber. A menção no relatório do Coaf não significa a priori que a movimentação financeira foi ilegal, apenas atípica. Flávio assumiu uma vaga no Senado Federal com a polêmica ainda pairando sobre sua cabeça. Um eventual desdobramento negativo – como a comprovação de que ele confiscava parte do salário dos funcionários de seu gabinete da Alerj – pode fazer com que o caso passe para a Procuradoria Geral da República, que investiga parlamentares que tem direito a foro privilegiado. Já o motorista terá que apresentar provas de que o dinheiro que entrava e saia de sua conta realmente tinha relação com o comércio de veículos usados, como disse ao SBT.

Quando Queiroz irá prestar depoimento?
Ainda não se sabe. Seu advogado pediu às autoridades que qualquer oitiva envolvendo o motorista e seus familiares ocorra após o término do tratamento médico a que Queiroz se submeteu. Ele estava internado no hospital Albert Einstein para cuidar de um tumor intestinal, e agora deve passar por sessões de quimioterapia. O defensor apresentou ao Ministério Público os laudos que comprovam a doença do motorista.

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Presidente do Coaf rebate críticas de aliados de Bolsonaro: já fizemos quase 40 mil relatórios

‘Eu vejo como uma ótima oportunidade essa transferência (do órgão) para o Ministério da Justiça’, diz presidente do Coaf, hoje ligado à FazendaCOAF,Corrupção,Flávio Bolsonaro,Políticos,Brasil,Fabrício Queiroz,Motorista

Pouco conhecido da maioria dos brasileiros, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) existe há 20 anos e já produziu quase 40 mil relatórios apontando operações suspeitas que mereciam investigação de autoridades. Um deles colocou o órgão sob os holofotes nos últimos dias ao apontar movimentações atípicas relacionadas à família do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

O documento apontou transações de R$ 1,2 milhão em um ano na conta de um ex-motorista do gabinete de deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do futuro presidente e eleito senador em outubro. A conta recebeu depósito de outros sete servidores do parlamentar e repassou R$ 24 mil por meio de cheque para a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O mesmo relatório identificou operações atípicas de auxiliares de outros 20 deputados da Alerj, de 11 partidos, entre eles DEM, MDB, PSDB e PT.

Coaf, o órgão de 37 servidores que gerou mil relatórios para Lava Jato e pôs ex-assessor de Flávio Bolsonaro sob suspeita.

CO que disseram Bolsonaro, Onyx e Moro sobre depósitos suspeitos de ex-motorista
Que o trabalho de duas décadas não fosse amplamente conhecido antes é compreensível, reconheceu à BBC News Brasil o presidente do Coaf, Antônio Carlos Ferreira de Sousa, ao classificar a atuação de sua equipe como “técnica” e “discreta”.

Ele rebate, porém, cobranças de aliados de Bolsonaro, como a do futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que questionou na semana passada: “Onde é que estava o Coaf no mensalão? Onde estava o Coaf no petrolão?”.

“O Coaf é por excelência um órgão de inteligência, discreto. Cabe ao Coaf analisar ocorrências (suspeitas comunicadas por bancos e outras instituições financeiras) e gerar relatórios para o Ministério Público e a polícia. Em 20 anos, foram quase 40 mil relatórios de inteligência”, ressalta.

O presidente do Coaf ressalta que as operações suspeitas comunicadas ao órgão e os relatórios produzidos não significam que necessariamente houve crime ou irregularidade. Isso deve ser apurado pelos setores de investigação que recebem os relatórios, como a Polícia Federal, as polícias estaduais e o Ministério Público.

Ele lembra que o órgão produziu mais de mil documentos do tipo só para a Operação Lava Jato, que atingiu políticos do PT, PSDB, MDB, PP, entre outras siglas.

“A Lava Jato começou em 2014, mas o Coaf já tinha produzido 53 relatórios desde 2011 (sobre pessoas depois investigadas na operação)”, ressaltou.

“Talvez o senso comum não tenha tanta lembrança, mas já atuamos em várias outras operações. Recentemente, teve a Greenfield, que investigou fundos de pensão. O Coaf atuou fortemente”, acrescenta.

No caso do mensalão, o órgão gerou 44 relatórios entre 2005 e 2006. Atuou também na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou esse escândalo e que teve participação de Lorenzoni, como deputado federal do DEM.

“Nós ficamos integrados tecnicamente, com o corpo técnico, na CPI. E o relatório final, inclusive, recomendava o fortalecimento do Coaf”, disse.Michelle Bolsonaro,Fabrício Queiroz,Motorista,COAF,Corrupção,Flávio Bolsonaro,Políticos,Brasil

Direito de imagemEVARISTO SA/AFP

Sousa acredita que Moro (foto) pode fortalecer o Coaf, ampliando sua equipe, que hoje é de apenas 37 servidores

Mudanças
Depois de 20 anos sob a autoridade do Ministério da Fazenda, o Coaf será transferido para o Ministério da Justiça, pasta que será comandando pelo ex-juiz da Operação Lava Jato Sérgio Moro. Por escolha dele, Sousa será substituído no comando por Roberto Leonel de Oliveira Lima, hoje chefe da área de investigação da Receita Federal em Curitiba.

A ida do órgão para o Ministério da Justiça não preocupa Sousa, que não enxerga risco de interferência política como uma eventual reação ao relatório que levantou suspeitas sobre Bolsonaro e familiares.

“Ele (Lima) é um excepcional técnico, de refinada competência. Já era integrante da Receita Federal na força-tarefa da Lava Jato. Um servidor já experimentado que vai contribuir muito no Coaf”, disse o atual presidente sobre o sucessor.

A expectativa de Sousa é que Moro possa fortalecer o Coaf, ampliando sua equipe, que hoje é de apenas 37 servidores e não dá conta de analisar todo o volume de transações suspeitas comunicadas por bancos e outras instituições (mais de 2,9 milhões de comunicações apenas neste ano). Ele defende que o número de servidores seja dobrado e que o investimento em tecnologia seja constante, diante da permanente mudança nos tipos de transação financeira analisadas pelo órgão.

Moro negociou com Bolsonaro a transferência do órgão para sua pasta com o objetivo de ampliar sua atuação no combate à corrupção e ao crime organizado.

“Eu vejo como uma ótima oportunidade essa transferência para o Ministério da Justiça. O fortalecimento de investimento orçamentário (esperado na nova gestão), investimento em pessoas, em tecnologia, é uma garantia de que Coaf, além de continuar (o que faz hoje), vai sair mais forte”, avaliou o atual presidente do órgão.

‘Atividade técnica’
Instituições que registram operações vultosas – como bancos, corretoras, joalherias, concessionárias de automóveis e até empresas que agenciam atletas – são obrigadas a informar ao Coaf transações em dinheiro vivo acima de R$ 50 mil ou movimentações atípicas (por exemplo, quando incompatíveis com os rendimentos habituais do correntista).

O Coaf analisa os dados e produz relatórios que encaminha aos órgãos de investigação.

“De um lado você tem o banco analisando a vida dos clientes, lá na ponta. O Coaf recebe isso e tem o dever legal de tratar (os dados), consolidar e mandar para autoridade. Então, o Coaf não investiga ninguém, não olha individualmente a conta de nenhum cidadão. Ele traduz as informações recebidas em uma peça que vai facilitar o processo de investigação”, explica Sousa.

“Essa atividade é isenta, técnica, independente. Eu não vejo influência (política)”, reforçou.

Michelle Bolsonaro,Fabrício Queiroz,Motorista,COAF,Corrupção,Flávio Bolsonaro,Políticos,BrasilRelatório apontou movimentação bancária atípica de assessor que atuava como motorista de Flávio Bolsonaro (foto)
BBC

O silêncio ensurdecedor do motorista Bolsonariano

‘O silêncio sempre foi o melhor argumento para a iludir a razão.’
Emerson Vahldick

Estará o milionário motorista do Flávio Bolsonaro “acoitado” em um pé de goiaba?

No Bananil, o silêncio sempre foi o melhor argumento para ofuscar a razão e a lógica

Um esse silêncio que em algum tempo gritará. Depende do povo pressionar. Motoristas não movimentam R$1.236.000,00 em um ano. Fica evidente, cristalina a verdade de que tem algo errado nessa estória.

O silêncio desse “laranja” se deve apenas ao fato de ele não ter o que dizer…. Vão demorar muito para achar uma desculpa aceitável para quem não votou no despreparado, porque para quem votou é só mais uma fake news plantada pela esquerda.

A cada minuto que passa sem explicações para a trapaça dos Bolsonaro, menor fica o patrimônio político do desastrado capitão, fica evidente o logro a que foi submetida parcela importante da população brasileira.

A explicação é simples: O Flavio, tudo indica, não é tão diferente dos seus pares É prática generalizada os deputados, senadores e vereadores, nomearem uma penca de assessores que nem sabem ao certo onde fica a respectiva casa legislativa.

A única incumbência deles é “devolver” ao benfeitor parte de seus vencimentos Tudo indica que o motorista é quem recebia os repasses dos demais e “devolvia” a seus benfeitores.