Ferreira Gullar – Poesia

Boa noite.
Verão
Ferreira Gullar

Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração — resiste.

Imagem – Artistas Minjin Kang & Mijoo Kim
‘Sentimental Vacation’ – Somewhere in the World, 2020

Ferreira Gullar – Não há vagas

Boa noite

Não há vagas

Ferreira Gullar

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
não há vagas

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 09

No Corpo – Ferreira Gullar

No Corpo
Ferreira Gullar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Ferreira Gullar – Verso na tarde – 01/07/2017

Estranheza do Mundo
Ferreira Gullar¹

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.

Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.

Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:

é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.

Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

¹José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930
+ Rio de Janeiro, RJ. – 4 de dezembro de 2016

Biografia de Ferreira Gullart

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ferreira Gullar – Versos na tarde – 13/07/2015

Poemas portugueses V
Ferreira Gullar¹

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis –
eu colho a ausência que me queima as mãos.

¹José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Ferreira Gullar – Versos na tarde – 07/06/2015

Estranheza do Mundo
Ferreira Gullar ¹

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C

>> biografia de Ferreira Gullar


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Ferreira Gullar – Versos na tarde – 25/04/2015

Dois e dois: Quatro
Ferreira Gullar¹

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Ferreira Gullar – Versos na tarde – 25/05/2014

Quando
Ferreira Gullar ¹

com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo te espetalas
quando
com meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui em baixo?
senão colher com a repentina
mão de delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C

>> biografia de Ferreira Gullar


[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Educação: Crase em questão

Com educação não há humilhação.
Se dependesse do ex-deputado João Herrmann Neto, a crase estaria com os dias contados. É de sua autoria o projeto de lei 5.154, de 2005, que extingue o uso do acento grave para indicar a ocorrência de crase. O fenômeno fonético-sintático continuará existindo, diz o projeto, sugerindo equivocadamente que um fato lingüístico se sujeite ao crivo da lei.

Chegou-me ao conhecimento a iniciativa do parlamentar através da revista Língua Portuguesa, a qual, em sua edição de novembro de 2005, estampa opiniões de renomados especialistas no assunto, como Evanildo Bechara – defensor do citado sinal – e Celso Pedro Luft – para quem se justificaria o sinal diacrítico nos casos em que sua presença evita ambigüidade, como em “A menina cheira a rosa” (aspira o perfume do flor) e “A menina cheira à rosa” (exala o perfume da flor).

Marcas vermelhas

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Anos a fio, transmitindo informações sobre a língua, sinto-me modestamente credenciado a refletir sobre o assunto. Da experiência de sala de aula, fica, para mim, a lição de que se trata de tópico complexo. Crasear com segurança implica relativo domínio da sintaxe da língua no que tange às relações de regência, razão por que, talvez, o aprofundamento na questão devesse ser feito durante o ensino médio.

Não poucas vezes os manuais didáticos se embrenham nos mistérios da crase ainda no ensino fundamental, o que pode ser contraproducente e (o que é pior!) frustrante para os aprendizes, que acabam por não extravasar seus pendores para a escrita em razão de marcas e marcas vermelhas em seus textos escolares.

O aforismo de Gullar

O que dizer, por exemplo, do sinal da crase com pronomes relativos? Basta que se compare, ilustrativamente, “A situação à qual cheguei” com “A situação a que cheguei” para verificar quanta ginástica tem de fazer o professor a fim de clarear um caso desses e não ficar simplesmente na substituição do antecedente por um elemento masculino, o que resultaria em construções do tipo “O local ao qual cheguei” e “O local a que cheguei”.

Como se vê, trata-se de assunto que tem suas complexidades e que deve ser ensinado pausadamente à medida que se vão apresentando aportes sintáticos. Isso, por si, justificaria a extinção do sinal como queria o deputado?

Na matéria publicada em Língua Portuguesa, João Herrmann argumenta que a crase, desde sua instituição, não tem feito outra coisa senão humilhar muita gente. É bem possível que esteja subjacente ao argumento do legislador o aforismo “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, criado, jocosamente, em 1955, pelo poeta maranhense Ferreira Gullar, um conhecedor profundo da arte de crasear. Quem lê a biografia do poeta, fica sabendo que ele, na juventude, debruçou-se por dois anos sobre estudos gramaticais, após ser advertido por erros de português em uma de suas redações. Um exemplo célebre de que se pode conciliar criatividade com técnica, pois Gullar se tornou um de nossos mais festejados poetas…

Uma política de simplificação

Jocosidade à parte, o aforismo gullariano nos permite outra leitura. Não só a crase, mas a gramática em si, ou as normas da língua culta, nada disso foi feito para humilhar. Tudo isso é conhecimento e requer de nós esforço para o seu domínio. Lembra-me aqui texto de José Carlos de Azeredo em que esse estudioso enfatiza que nossos estudantes fazem, ainda no ensino fundamental, importantes reflexões sobre o mundo das ciências e seria despropositado imaginá-los incapazes de refletir também sobre a língua. Cabe, evidentemente, ao educador dosar a exigência nessas reflexões, sob pena de preterir os rudimentos indispensáveis à aprendizagem, como tivemos a oportunidade de comentar em “Um diagnóstico preciso”, publicado neste Observatório.

O projeto do deputado João Herrmann concede às editoras de livros o prazo de três anos para se adaptarem à lei. É evidente, também, que, se aprovada, a nova legislação levará à obsolescência gráfica nosso atual patrimônio livresco, o que certamente implicará vultosos gastos.

Subjaz, a nosso juízo, à iniciativa do parlamentar a convicção de que temos um ensino precário e talvez seja plausível intervir em um aspecto do sistema gráfico que oferece dificuldade aos usuários. Na opinião da professora Maria Helena de Moura Neves, “uma iniciativa desse tipo teria de fazer parte de uma política global de simplificação das notações diacríticas, que não perdesse de vista o sistema como um todo”, posição com a qual concordamos, embora achemos que, na situação em que se encontra a educação brasileira, o projeto – ainda que ampliado na direção do que sugere a professora – está muito longe de ser prioridade. Com uma educação de verdade, certamente a crase
Por Walter Rossignoli/Observatório da Imprensa