Ferreira Gullar – Verso na tarde – 01/07/2017

Estranheza do Mundo
Ferreira Gullar¹

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.

Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.

Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:

é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.

Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

¹José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930
+ Rio de Janeiro, RJ. – 4 de dezembro de 2016

Biografia de Ferreira Gullart

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Ferreira Gullar – Versos na tarde – 13/07/2015

Poemas portugueses V
Ferreira Gullar¹

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis –
eu colho a ausência que me queima as mãos.

¹José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C


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Ferreira Gullar – Versos na tarde – 07/06/2015

Estranheza do Mundo
Ferreira Gullar ¹

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C

>> biografia de Ferreira Gullar


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Ferreira Gullar – Versos na tarde – 25/04/2015

Dois e dois: Quatro
Ferreira Gullar¹

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C


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Ferreira Gullar – Versos na tarde – 25/05/2014

Quando
Ferreira Gullar ¹

com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo te espetalas
quando
com meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui em baixo?
senão colher com a repentina
mão de delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C

>> biografia de Ferreira Gullar


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Educação: Crase em questão

Com educação não há humilhação.
Se dependesse do ex-deputado João Herrmann Neto, a crase estaria com os dias contados. É de sua autoria o projeto de lei 5.154, de 2005, que extingue o uso do acento grave para indicar a ocorrência de crase. O fenômeno fonético-sintático continuará existindo, diz o projeto, sugerindo equivocadamente que um fato lingüístico se sujeite ao crivo da lei.

Chegou-me ao conhecimento a iniciativa do parlamentar através da revista Língua Portuguesa, a qual, em sua edição de novembro de 2005, estampa opiniões de renomados especialistas no assunto, como Evanildo Bechara – defensor do citado sinal – e Celso Pedro Luft – para quem se justificaria o sinal diacrítico nos casos em que sua presença evita ambigüidade, como em “A menina cheira a rosa” (aspira o perfume do flor) e “A menina cheira à rosa” (exala o perfume da flor).

Marcas vermelhas

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Anos a fio, transmitindo informações sobre a língua, sinto-me modestamente credenciado a refletir sobre o assunto. Da experiência de sala de aula, fica, para mim, a lição de que se trata de tópico complexo. Crasear com segurança implica relativo domínio da sintaxe da língua no que tange às relações de regência, razão por que, talvez, o aprofundamento na questão devesse ser feito durante o ensino médio.

Não poucas vezes os manuais didáticos se embrenham nos mistérios da crase ainda no ensino fundamental, o que pode ser contraproducente e (o que é pior!) frustrante para os aprendizes, que acabam por não extravasar seus pendores para a escrita em razão de marcas e marcas vermelhas em seus textos escolares.

O aforismo de Gullar

O que dizer, por exemplo, do sinal da crase com pronomes relativos? Basta que se compare, ilustrativamente, “A situação à qual cheguei” com “A situação a que cheguei” para verificar quanta ginástica tem de fazer o professor a fim de clarear um caso desses e não ficar simplesmente na substituição do antecedente por um elemento masculino, o que resultaria em construções do tipo “O local ao qual cheguei” e “O local a que cheguei”.

Como se vê, trata-se de assunto que tem suas complexidades e que deve ser ensinado pausadamente à medida que se vão apresentando aportes sintáticos. Isso, por si, justificaria a extinção do sinal como queria o deputado?

Na matéria publicada em Língua Portuguesa, João Herrmann argumenta que a crase, desde sua instituição, não tem feito outra coisa senão humilhar muita gente. É bem possível que esteja subjacente ao argumento do legislador o aforismo “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, criado, jocosamente, em 1955, pelo poeta maranhense Ferreira Gullar, um conhecedor profundo da arte de crasear. Quem lê a biografia do poeta, fica sabendo que ele, na juventude, debruçou-se por dois anos sobre estudos gramaticais, após ser advertido por erros de português em uma de suas redações. Um exemplo célebre de que se pode conciliar criatividade com técnica, pois Gullar se tornou um de nossos mais festejados poetas…

Uma política de simplificação

Jocosidade à parte, o aforismo gullariano nos permite outra leitura. Não só a crase, mas a gramática em si, ou as normas da língua culta, nada disso foi feito para humilhar. Tudo isso é conhecimento e requer de nós esforço para o seu domínio. Lembra-me aqui texto de José Carlos de Azeredo em que esse estudioso enfatiza que nossos estudantes fazem, ainda no ensino fundamental, importantes reflexões sobre o mundo das ciências e seria despropositado imaginá-los incapazes de refletir também sobre a língua. Cabe, evidentemente, ao educador dosar a exigência nessas reflexões, sob pena de preterir os rudimentos indispensáveis à aprendizagem, como tivemos a oportunidade de comentar em “Um diagnóstico preciso”, publicado neste Observatório.

O projeto do deputado João Herrmann concede às editoras de livros o prazo de três anos para se adaptarem à lei. É evidente, também, que, se aprovada, a nova legislação levará à obsolescência gráfica nosso atual patrimônio livresco, o que certamente implicará vultosos gastos.

Subjaz, a nosso juízo, à iniciativa do parlamentar a convicção de que temos um ensino precário e talvez seja plausível intervir em um aspecto do sistema gráfico que oferece dificuldade aos usuários. Na opinião da professora Maria Helena de Moura Neves, “uma iniciativa desse tipo teria de fazer parte de uma política global de simplificação das notações diacríticas, que não perdesse de vista o sistema como um todo”, posição com a qual concordamos, embora achemos que, na situação em que se encontra a educação brasileira, o projeto – ainda que ampliado na direção do que sugere a professora – está muito longe de ser prioridade. Com uma educação de verdade, certamente a crase
Por Walter Rossignoli/Observatório da Imprensa

Marx se revira na tumba

A utopia matou o rato
Os capitalistas aprenderam a lição e viram que seria melhor perder alguns anéis do que todos os dedos. Karl Marx certamente morreria de vergonha se ainda estivesse vivo para ver em que se transformou, na Coreia do Norte, o sonho da sociedade igualitária e fraterna que ele concebeu.

Revoltado com a selvageria do capitalismo de sua época, quando o trabalhador não gozava de qualquer direito, concebeu uma sociedade que, em vez do domínio da burguesia, fosse governada pelos trabalhadores.

Na sua visão equivocada, o empresário nada produzia mas apenas se apropriava do que produziam os trabalhadores, que, como os criadores da riqueza, deveriam gozar dela e dirigir a sociedade.

Ignorava, logo ele, que tão ou mais importante que o trabalho manual é o trabalho intelectual, sem o qual a economia não avançaria e a sociedade tampouco. Numa coisa, porém, ele estava certo: o capitalismo é um regime voraz que, movido pela sede de lucro e poder, a tudo devora. Até a si mesmo, como acabamos de ver no caso da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que arrastou a economia norte-americana e a europeia a uma crise de consequências imprevisíveis.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A tomada de consciência, naquela época, do que era o capitalismo, alimentou a luta ideológica que conduziu à revolução comunista, inicialmente na Rússia e depois na Ásia e na Europa oriental, chegando até Cuba, na América Latina.
Só que, em nenhum desses casos, a classe operária assumiu o governo do país, mas, sim, o partido comunista ou, mais precisamente, os seus dirigentes, que passaram a usufruir dos privilégios próprios à classe dominante.

É verdade que, em quase todos eles, medidas foram tomadas em benefício dos trabalhadores, cuja condição de vida melhorou bastante, mas não tanto quanto nos países capitalistas desenvolvidos. É que os capitalistas aprenderam a lição e viram que seria melhor perder alguns anéis do que todos os dedos.

Isso durou grande parte do século 20, até que, para surpresa de muita gente, o sistema socialista começou a ruir e praticamente acabou.

E não foi em função de nenhuma guerra, de nenhuma invasão militar: acabou porque não tinha condições de competir com o capitalismo que, ao contrário do comunismo, não nasceu de uma teoria, mas do processo econômico mesmo.
Por isso o capitalismo é vital, criativo, voraz e destituído de ética, como a natureza. É evidente que um sistema, dirigido por meia dúzia de burocratas, não pode competir com um modo de produção que vive da iniciativa individual, ou seja, de milhões de pessoas, que querem melhorar de vida e enriquecer.

A República Popular da Coreia do Norte é filha da Guerra Fria que, após a Segunda Guerra Mundial, opôs os Estados Unidos e a União Soviética. Essa disputa teve um de seus momentos mais críticos na guerra entre o exército ianque, tropas chinesas e soviética na península coreana, dividindo-a em duas: a Coreia do Norte, comunista, e a Coreia do Sul, capitalista.

Mas não é só filha da guerra: é a perpetuação simbólica desse antagonismo, que já não existe mais em parte alguma, exceto lá. Como naquela época, até hoje a Coreia do Norte investe mais em armamento do que em qualquer outra coisa, mantém um dos maiores Exércitos do mundo e insiste em afirmar-se como potência nuclear.

Isto quando o sistema socialista já desmoronou no mundo inteiro e a própria China – que era a expressão máxima do radicalismo revolucionário – aderiu ao modo de produção capitalista. O governo da Coreia do Norte ignora tudo isto e assegura que o socialismo invencível dominará brevemente o planeta.

Mas as mentiras servem também para mitificar os próprios governantes, transformados em predestinados salvadores do povo.

Kim Jong-il, o ditador que acaba de morrer e que nascera na Sibéria, ganhou por berço a montanha sagrada de Paektu. A locutora que noticiou sua morte na televisão o fez em soluços, como durante a espetacular cerimônia fúnebre, milhares de crianças, mulheres e soldados desfilaram fingindo soluçar convulsamente. Todos soluçavam, menos o filho que o substituirá. É que os grandes líderes, como os deuses, não soluçam.

Marx morreria de vergonha: ali a história voltou a uma espécie de monarquia farsesca, onde o poder passa de pai para filho sob os aplausos da plateia assustada.
Ferreira Gullar/Folha de S.Paulo

Ferreira Gullar – Versos na tarde

Dois e Dois são Quatro
Ferreira Gullar ¹

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

¹ José Ribamar Ferreira
* São Luiz, MA. – 10 de Setembro de 1930 d.C


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