Fatos & Fotos – 21/09/2017

“O PSDB caiu na vala comum”, diz deputado tucano

Por Sylvio Costa

“Se você criticava a corrupção na época do governo do PT, como você pode agora participar do governo e até apoiar o adiamento de investigação?”

Ele é um dos mais notórios “cabeças pretas”, nome usado para designar os jovens parlamentares que cobram da cúpula do seu partido novas atitudes em relação à política e ao país. Sua tônica, assim como dos colegas de bancada cuja cabeleira o tempo ainda não tornou mais branca, é a defesa da independência em relação ao governo Michel Temer.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Apesar de ser deputado federal de primeiro mandato, Daniel Coelho (PSDB-PE) – que completará 39 anos no dia 4 de novembro – circula na Câmara com a desenvoltura dos veteranos. Isso pode ser atribuído, em parte, à experiência acumulada como deputado estadual e vereador no Recife, por dois mandatos. Mas a razão principal é que sua voz passou a reverberar mais tanto entre os tucanos quanto no conjunto dos deputados.

Um dos 21 deputados do PSDB que votaram pela investigação de Temer, na análise da primeira denúncia enviada por Janot, ele já anuncia que voltará a se manifestar pelo encaminhamento favorável da segunda denúncia.

Nesta entrevista, Daniel Coelho mostra como é uma cabeça preta por dentro. Diz que todos os partidos políticos estão “destruídos”. Afirma que o PSDB caiu na “vala comum” ao adotar uma posição seletiva em relação à corrupção, condenando a de Dilma, Lula e do PT, mas aceitando a de Temer. Critica a proposta de reforma da Previdência. Defende uma agenda liberal, mas com compromisso com os mais pobres. Fala que Lula está em franco declínio popular mesmo no Nordeste, região natal tanto do líder petista quanto de Daniel. Demonstra temor quanto à candidatura de Jair Bolsonaro, que “cresce muito e cresce rápido”. E adianta que seu preferido para disputar a Presidência da República pelo partido é Geraldo Alckmin. “Acho que Doria não tá preparado, não tem ainda experiência. Precisa andar mais”, resumiu.

Congresso em Foco: A recente caravana de Lula ao Nordeste mostrou que ele continua tendo força na sua região. Por quê?
Daniel Coelho Acho que tem ali um recall de classes D e E. É exatamente aquele eleitor em que a informação chega por último. A informação chega nele, de fato, durante a eleição. Por enquanto, está muito distante. Acho que o Lula se desidrata. Ele continua sendo forte no estado, mas não tem mais o desempenho que já teve. Já perdeu A e B e está perdendo forte na C. Depois que você perde nas classes A e B, a tendência é perder nas outras também.

E por que perdeu?

“Os partidos estão completamente destruídos. Todos. Não tem nenhum partido que tenha hoje uma imagem de coerência”

Porque as pessoas hoje encaram que ele é igual aos outros na questão da corrupção. É corrupto. Não é outra coisa. Eu vi uma pesquisa em Pernambuco mostrando que nem o eleitor de Lula acredita mais que ele é honesto. Não adianta a narrativa que os caras fazem na política de que é perseguição. As pessoas não estão acreditando. O cara até pode dizer que vota nele, mas acreditar que ele é honesto não mais. Votar num cara que você sabe que é corrupto não é todo mundo que está disposto a fazer. Então o crescimento assustador do Bolsonaro, que você vê hoje no Nordeste, vem daí

Ele está crescendo no Nordeste também?

Cresce muito e cresce rápido. Essa coisa dessa radicalização e dessa polarização, que estimula a intolerância e dificulta o bom debate político, ajuda o Bolsonaro. Primeiro, porque você mistura tudo e todo mundo passa a ser corrupto, e o cara fora.  E depois ele é meio que o outro polo. O PSDB e a maioria de suas lideranças têm, historicamente, posições mais moderadas, mais de centro, e ele fica fora dessa polarização e vai ocupando espaço. Ele cresce e tem potencial de crescimento exatamente com esse eleitor que vai se decepcionando com Lula. O voto de Lula no Nordeste não é um voto ideológico, é um voto de identificação de classe. As pessoas votam em Lula no Nordeste não por identificação com a pauta da esquerda, mas porque encaram a política como a disputa do pobre contra o rico. É preocupante esse crescimento, e ele ocorre em um cenário meio de terra arrasada.

“As pessoas não acreditam em mais nada. E isso é no Brasil todo, não é só no Nordeste. Os partidos estão completamente destruídos. Todos eles”

Terra arrasada em que sentido?
No sentido de que as pessoas não acreditam em mais nada. E isso é no Brasil todo, não é só no Nordeste. Os partidos estão completamente destruídos. Todos. Não tem nenhum partido que tenha hoje uma imagem de coerência. Se quiser, a gente sai pegando as posições dos partidos um por um e aí você vê que todos os partidos no Congresso Nacional mudaram de posição sobre os mesmos temas só porque virou o governo. Então os caras que defendiam uma coisa passaram a defender outras, e vice-versa. Então você teve um descrédito completo. Isso é que é preocupante. Os partidos já estão destruídos perante a população. A grande tarefa da reforma política hoje é construir ou reconstruir os partidos porque hoje eles estão mortos.

E essa crítica o senhor estende ao PSDB?
Claro, claro. A crítica é a todos. Não tem diferença não. O PSDB está dividido, mas a análise positiva que tenho do PSDB é que metade da bancada está mantendo no governo Temer as mesmas posições que tinha no governo Dilma.

Que posições?
Do ponto de vista ético, de cobrar investigação e de ter votado para afastar Dilma, afastar Cunha e afastar Temer… o partido que mais deu votos para os três afastamentos foi o PSDB. E também na análise de temas mesmo. Se houve incoerência no PSDB foi durante o governo Dilma, quando em alguns momentos pode ter votado contra teses do próprio partido. Metade da bancada tem votado nas mesmas posições, independentemente do governo. Mas é metade. A outra metade tem sido incoerente, como todos os demais. E o partido, perdido. Quanto aos demais partidos, é aquilo. Se o governo for meu, eu apoio tudo. Se não for, eu sou contra tudo.

“Sempre fui contra o PSDB entrar no governo. Não só eu, havia outros. O grupo era pequeno, não era essa metade que tem hoje”

Ser coerente hoje seria o quê? Entregar os ministérios?
Não só isso, esse é só um fator. Na verdade, sempre fui contra o PSDB entrar no governo. Não só eu, havia outros. O grupo era pequeno, não era essa metade que tem hoje. A minha ideia era que o partido fechasse uma agenda com pautas definidas e oferecesse apoio na votação de determinados projetos, sem aceitar cargos no governo Temer. Outras questões, outros projetos a gente analisaria depois. Essa era a posição que eu considerava adequada na época. Hoje, a presença do PSDB na administração federal legitima um governo que tem as mesmas práticas que nós criticávamos no governo do PT. Se você criticava a corrupção na época do governo do PT, como você pode agora participar do governo e até apoiar o adiamento de investigação? Isso é total incoerência. É completamente sem lógica.

Quais os pontos fundamentais dessa agenda?
O primeiro ponto fundamental dessa agenda não foi nem abordado pelo governo e o governo não quer falar nele. A primeira grande questão é a reforma do Estado, a redução do Estado. Todas as reformas são importantes, mas a reforma do Estado é a mais importante de todas. Não posso pedir sacrifício à sociedade se o governo continua gastando da maneira que gasta. Uma crítica que era constante ao governo Dilma, e que o PSDB fazia com muita frequência, era ao tamanho do governo. A quantidade de cargos comissionados e de ministérios, as indicações políticas… o governo Temer continuou fazendo igual. Teve ministro que nem saiu da cadeira. Mudou o governo e ficou a mesma lógica. É essa crítica que o PSDB fez na TV, com muita polêmica, ao modelo de cooptação. A gente criticava isso lá atrás. E depois passou a participar disso? A primeira reforma a enfrentar é esta. É fazer uma redução imensa na quantidade de cargos comissionados, é reduzir ministérios, é fazer uma discussão de empresas ineficientes que precisam ser vendidas. Uma discussão não da maneira em que é feita hoje, de um governo que está com buraco de caixa e quer vender empresa pública para tapar o buraco. O custo do Congresso. A Câmara dos Deputados custa R$ 5,2 bilhões por ano, é muito dinheiro. E se você for olhar, a menor parte desse custo está ligada aos mandatos dos deputados. Está relacionada com a estrutura gigantesca que você tem aqui dentro. Depois que você discutiu tudo isso e reduziu o Estado, aí você tem condição de dizer. Olha, nós reduzimos o Estado ao máximo, não deu, e a conta não fecha. Vamos ver agora que tipo de sacrifício precisa ser discutido com a sociedade para que as contas públicas se equilibrem.

“Vejo R$ 51 milhões em mala de Geddel e ouço que vou ter que pagar a reforma da Previdência. Como? Todo mundo roubou e eu pago a conta? Não tem mais credibilidade para fazer uma reforma dessa”

Aí entraria, por exemplo, na discussão da reforma da Previdência?
Aí você poderia discutir uma reforma da Previdência, mas não da maneira como foi apresentada. Ela deve ser em parcelas. Primeiro, você reduz o tamanho do Estado, você vai no custeio. Depois, você faz uma reforma específica onde estão os privilégios inaceitáveis: aposentadoria especial de parlamentar, situações em que as pessoas trabalham menos e se aposentam com remuneração maior… aí você tem um último passo, considerando a situação específica da população. Por exemplo, idade mínima faz todo sentido para o serviço público, para quem trabalha com o intelecto, para quem tem remuneração de R$ 20 mil, R$ 30 mil. Mas idade mínima para um ajudante de pedreiro? O cara não consegue trabalhar até 62 anos de idade, é impossível. Se faço uma reforma da Previdência linear, tratando igual o rico e o pobre, estou discriminando o pobre. Está equivocada essa discussão de que a reforma da Previdência vem para acabar com o privilégio. A condição de vida das pessoas é diferente, eu preciso ter uma regra que considere que o cara que ganha salário mínimo e pega três ônibus para trabalhar não aguenta trabalhar até os 65 anos. Com 50 anos, ele está fora do mercado, acabou. Um jornalista com 50 anos está no auge da capacidade intelectual dele, da experiência, vai trabalhar muito mais. Discutir a reforma da Previdência sem discutir a reforma do Estado antes leva ao que estamos vendo. Você não tem apoio popular e não tem apoio congressual. Hoje, Temer tem maioria aqui pra tudo, não tem para a Previdência.

E não terá? Nem no ano que vem?
Não terá. Nem no ano que vem. Não consegue nem pautar. Vai ficar do jeito que está, eu acho. Não pauta a reforma da Previdência. Porque não tem credibilidade exatamente por isso. Hoje há dúvidas sobre a necessidade da reforma. Qual é a sensação que tem? Estou em casa assistindo o que está acontecendo no país e vejo R$ 51 milhões em mala de Geddel, aí vê que o cara da JBS diz que deu R$ 50 milhões pra um, 150 pra outro e aí ouço que eu vou ter que pagar a reforma da Previdência. Como é isso? Todo mundo roubou e eu pago a conta? Não tem mais credibilidade para fazer uma reforma dessa.

Das reformas em discussão, alguma tem chance de emplacar?
A tributária tem uma grande dificuldade. O governo não abre mão de receita e o Congresso não vai aprovar aumento de imposto. Então não sei como essa conta vai fechar. Não sei qual a capacidade que o relator, o Hauly, que é do nosso partido, vai ter para melhorar nossa legislação tributária sem mexer na balança. Ou seja, sem aumentar imposto nem tirar receita do governo. Não faz 308 [número mínimo de deputados para aprovar emenda constitucional] com aumento de imposto. A trabalhista acho que foi avanço, eu concordei com a reforma, acho que foi bem feita e foi boa para o país. Fora ela, não consigo ver mais nada não.

E as eleições? Podem ajudar o país a retomar o caminho da, sei lá, racionalidade política?
Espero, primeiro, que a gente não caia na ameaça do populismo, seja ele de esquerda ou de direita. O populismo de esquerda poderia vir por meio de uma candidatura Lula, embora eu ache que ele não será candidato porque não haverá condições legais. Mas acho que um governo dele seria bem mais populista do que foram os anteriores. Ele está construindo a agenda de um caminho diferente daquele que ele teve lá atrás. Hoje, um governo dele seria bem populista. Se ele não puder ser candidato, não acho que haja na esquerda um candidato com possibilidade de vitória. Agora, eu vejo uma boa dose de populismo na candidatura de Marina, na candidatura de Ciro, na candidatura de Bolsonaro. São candidaturas que têm uma dose de populismo e são os candidatos que estão colocados. Por isso defendo no PSDB a candidatura de Alckmin. Do ponto de vista da competitividade eleitoral, quem vai dizer é o tempo, se ela é competitiva ou não. Mas acho que ele foge dessa agenda populista. Não acredito que ele embarque nessa agenda de falar o que é mais fácil para absorver um dos lados da polarização.

E o Doria?
Acho que Doria não tá preparado, não tem ainda experiência. Precisa andar mais. Tem que governar São Paulo, mostrar os resultados, pode ter um papel relevante na eleição de Alckmin. Mas, simplesmente de prefeito virar candidato [a presidente] automaticamente, acho que é um caminho muito curto. Não é a melhor opção para o Brasil. Precisamos de um cara que saiba conversar com todo mundo, que tenha equilíbrio. Sempre vai haver oposição e sempre vai haver crítica, mas o momento pede uma agenda mais consensual para o país. Seria muito ruim uma agenda radical, na esquerda ou na direita, vencer e impor a sua vontade a quem perder. Isso aumenta o conflito na sociedade. A gente está precisando diminuir o conflito. Acho que o Alckmin poderia governar para todos. Não seria um candidato radicalizado que governaria apenas para os seus.

“O Nordeste não é tucano nem petista. É governista. O interior do Nordeste é muito dependente do investimento federal”

O PSDB sempre teve muita dificuldade na sua região, no Nordeste…
Muita, mas ele ganhou com Fernando Henrique…

Ganhou, com um empurrão do PFL, que era governo em vários estados, mas desde 2002 o PSDB não tem bons resultados no Nordeste, né?
É. Existem várias teses. O Nordeste não é tucano nem petista. O Nordeste é governista. Quando o PSDB governava, o Nordeste votou no PSDB. O interior do Nordeste é muito dependente do investimento federal. É muito difícil o governo federal perder no interior do Nordeste. Estamos vivendo agora um caos completo porque o governo perdeu a capacidade de investir. Isso pode alterar esse governismo histórico. Lula tem uma popularidade muito grande, mas, ele não sendo candidato, não acredito que consiga passar essa força para o PT ou para outro candidato. Com certeza, para o PSDB vai ser um desafio se posicionar no Nordeste. É uma região difícil para o PSDB. O mesmo discurso é percebido de maneira diferente no Nordeste e no Centro-Sul.

Dá um exemplo.
O Nordeste, de uma forma geral, acredita mais na intervenção estatal. É mais aceita lá essa ideia, que a esquerda defenda, de que o Estado é que vai trazer o desenvolvimento. No Centro-Sul, o eleitor tende a aceitar melhor um discurso mais liberal. Por isso o PSDB precisa aprender a se comunicar melhor no Nordeste, o que não significa mudar aquilo em que você acredita. Você fala discurso liberal, as pessoas são contra. Você explica o que é, as pessoas vão mudando de opinião. No governo Fernando Henrique, o neoliberalismo virou um xingamento. Estava na hora de o PSDB assumir a agenda econômica liberal e mostrar por que a agenda estatizante e intervencionista deu errado no Brasil e no mundo todo. Num país do nosso tamanho, com as nossas condições, a agenda estatizante deu errado. O PSDB devia ter mais coragem de peitar isso para mudar conceito, sobretudo no Nordeste.

“Esse governo é uma fábrica de escândalos. Não duvido que fatos novos apareçam. A gente sabe do histórico do PMDB”

As investigações sobre corrupção atingiram gravemente figuras do PSDB, incluindo o ex-presidente nacional Sérgio Guerra, do seu estado, e o atual presidente, hoje licenciado, Aécio Neves. Qual o tamanho do prejuízo para o partido?
Acho que o PSDB sofre com a corrupção, não dá para esconder isso, é evidente. Sofre como os demais partidos. A gente chegou num patamar que é muito ruim, que é as pessoas acharem que todos os partidos são corruptos. O PSDB, também. O PT talvez tenha tido um ganho com isso. O PT teve o primeiro desgaste com a corrupção, mas acho que hoje há uma imagem de generalização da corrupção. Até partidos pequenos, que acham que estão fora disso, acho que estão enganados. Vai falar com o povo lá na ponta, não sei as pessoas veem que partido tal tá fora. Essa posição seletiva dos partidos em relação à corrupção do PMDB e do PT nessas viradas de governo, deixou todo mundo no mesmo barco. Não sei se há um sentimento específico com o PSDB.  Mas ele talvez tenha perdido a oportunidade de se diferenciar. Se ele tivesse optado por manter agora a mesma linha crítica que teve no período Dilma, mesmo tendo pessoas do partido acusadas, ele poderia ter se diferenciado. Na hora que ele se divide e deixa de se posicionar, fica na vala comum. Mas não acho que haja alguma coisa específica de corrupção contra o PSDB. A corrupção está em todos os partidos e no PSDB, isso é um fato. E acho que é assim que as pessoas estão encarando.O senhor vê alguma possibilidade de os deputados aceitarem alguma denúncia contra Temer?
Evidente que o episódio Janot ajudou o governo porque gerou dúvidas na sociedade…

Qual dos episódios?
A soma deles, né? A coisa da JBS, a foto com o advogado são fatos que não caracterizam parcialidade, mas geram dúvidas. Se gera dúvidas, você enfraquece [a acusação]. Já não houve pressão popular aqui pelo afastamento de Temer. Votei pelo afastamento, mas não recebi pressão de ninguém. Votei porque achei que era correto. Agora, acho que está mais frágil ainda. Mas esse governo é uma fábrica de escândalos. Não duvido que fatos novos apareçam. A gente sabe do histórico do PMDB, sabe como o governo é tocado, sabe o que aconteceu anteriormente. Pode vir um fato novo e ele ser afastado. Com a segunda denúncia, não acredito que mude muito a votação da última. Poderiam aumentar os votos pelo afastamento se não houvessem ocorrido esses episódios com a JBS.

Qual a opinião sobre o conteúdo dessa segunda denúncia?
Não analisei profundamente o conteúdo jurídico, mas acho que poucos mudarão de posição. A tendência é de confirmação de votos, de ambos os lados. Não há motivo para quem já achava que ele devia ser investigado deixar de manifestar de novo o seu voto a favor das investigações. O processo tende a ser curto, mas com certeza se for mais uma vez repetida a posição de negar a investigação, só vai aumentar o descrédito do Congresso Nacional na sociedade.

*****

Temer embolsou US$ 11 milhões pessoalmente! via

*****

Estamos no penúltimo ato da Guerra Híbrida.
Eu venho escrevendo desde o mensalão que estão todos juntos, e misturados, nas bandalheiras, nas três esferas da federação – municipal, estadual e federal.
Mas, adjetivarem-me logo de petistas. E ainda irá aparecer mais, se os Bilderbergs deixarem.
Quem viver verá.
Lembre-se; não há virgem na zona.
PS. Como canta o Belchior; “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não me enganam não”!

*****

Brasil: da série “só dói quando eu rioBlog do Mesquita,PSDB,Bolsa Família

*****

Brasil da série “um buraco chamado Braziu”Amazônia,Blog do Mesquita
“Estados Unidos fará uma base militar na Amazônia,para combater tráfico de drogas e armamentos”. Hahahahahaha.
E tem quem acredite nessa cândida intenção. Hahahahaha.
Deem uma “lidinha” aí geeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeente!Amazônia,Blog do Mesquita

*****

Brasil da série “Um buraco chamado Braziu”
Maluf discursando na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

*****

Arte – Pintura Thorvald Erichsen,Norwegian 1868-1939
Landscape,Oil on canvas
Blog do Mesquita,Arte,Artes Plásticas,Thorvald Erichsen,Norwegian 1868-1939, Landscape,Oil on canvas

*****

Brasil da série “Um buraco chamado Braziu”
Sr. Ministro Alexandre de Moraes, do STF, derrubou com liminar, mecanismo que condicionava a participação em competições à regularidade fiscal. Vergonha.Alexandre de Moraes,STF,Blog do Mesquita

*****

O Estadão quer o fim do Ministério Público. Nada de mensalão, nada de petrolão, nada de quadrilhão. Seríamos felizes para sempre.

*****

Tenho uma duvida a respeito da “cura gay”; quem for Bissexual toma meio comprimido? Como que funciona?

*****

Comissão de Ética – hahahaha – da Presidência da República, abre procedimento para investigar a conduta ética – hahahaha – de Moreira Franco e Elizeu Padilha.Blog do Mesquita,Gargalhada,Pato Donald

*****

Arte – Escultura

Arte, Escultura,Blog do Mesquita

*****

‘Lava Jato’ na PM de SP: coronel detalha desvio milionário e envolve outros 18 coronéis

Em carta obtida pelo EL PAÍS, ele apresenta roteiro do que pretende delatar sobre esquema que desviou mais de 200 milhões entre 2005 e 2012. Um deputado estadual é citado

‘Lava Jato’ na Polícia Militar
Cerimônia de formatura de policiais militares em São Paulo. ALEXANDRE CARVALHO A2IMG
Um tenente-coronel promete revelar as entranhas e os beneficiários de um esquema que desviou mais de 200 milhões de reais da Polícia Militar de São Paulo. Detido desde março no presídio militar Romão Gomes no Tremembé, zona norte de São Paulo, o tenente-coronel José Afonso Adriano Filho negocia um acordo de delação premiada com o Ministério Público do Estado de São Paulo. 

Nos corredores do Tribunal de Justiça Militar de São Paulo, o caso é apelidado de Operação Lava Jato’da PM. Isso tanto pelo valor desviado quanto pela alta patente dos beneficiários e envolvidos. Além de tentar um acordo com o Ministério Público, o tenente-coronel escreveu uma carta, enviada à Corregedoria da Polícia Militar, em que tenta demonstrar uma espécie de lealdade à corporação e dá um roteiro do que pretende delatar.

No documento, obtido pelo EL PAÍS, Adriano levanta suspeitas de que 18 coronéis e um deputado estadual receberam recursos desviados da Polícia Militar. Ao longo de 15 páginas, o coronel se diz disposto a colaborar com investigações e sugere à Corregedoria que faça determinadas perguntas a essas 19 pessoas. Informa também que parte dos “documentos comprobatórios” de suas denúncias estão em um pendrive e um CD apreendidos pela polícia quando foi preso. Diz até que “depósitos bancários foram efetuados em dezenas de vezes, para atender a demanda desses oficiais, em épocas distintas, para diversos fins”. Mas o coronel reclama do que chama de “total parcialidade” da Corregedoria da PM. Para ele, a investigação da corporação poupou oficiais mais graduados.

Em carta, o coronel José Afonso Adriano Filho menciona
Em carta, o coronel José Afonso Adriano Filho menciona “depósitos bancários” para atender a demandas de coronéis que pretende delatar DANIEL HAIDAR EL PAÍS 

No fim de agosto, Adriano foi condenado pelo Tribunal de Justiça Militar de São Paulo à perda de patente e de aposentadoria. Ainda responde a uma ação penal por peculato e é investigado em mais de 20 inquéritos. Adriano tenta uma delação premiada para receber punição mais branda em troca de revelações às autoridades.

Até se aposentar em outubro de 2012, Adriano trabalhou mais de 12 anos no Departamento de Suporte Administrativo do Comando-Geral da Polícia Militar de São Paulo. Fez boa parte da carreira no setor, que é responsável por compras e licitações na corporação. Esteve lá em gestões de sucessivos comandantes da PM e de vários secretários de Segurança nos governos de Geraldo Alckmin (PSDB), Alberto Goldman (PSDB) e José Serra (PSDB). Algumas aquisições do Departamento de Suporte Administrativo precisam ser aprovadas pelo comandante-geral da PM e até pelo secretário estadual de Segurança Pública. Nas investigações da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, até agora foram identificados desvios e fraudes em mais de 200 compras entre 2005 e 2012, com mais de 20 fornecedores envolvidos – incluindo empresas de fachada.

O jornal Folha de S. Paulo revelou em 2015 que as investigações começaram restritas aos anos 2009 e 2010, mas foram ampliadas depois das reportagens do jornal. Ainda assim, o único punido até agora foi o tenente-coronel Adriano.

Ele acabou preso preventivamente depois que um outro investigado disse em depoimento à Corregedoria da PM que foi ameaçado. De acordo com esse investigado, o coronel Adriano lhe falou para “ficar com o bico calado, pois estava mexendo com peixe grande”. A prisão foi decretada pelo juiz Marcos Fernando Theodoro Pinheiro, que assumiu um dos inquéritos contra Adriano depois que o juiz José Álvaro Machado Marques, inicialmente responsável pelo caso, se declarou impedido para julgar o coronel. O capitão Dilermando César Silva, subordinado de Adriano no departamento de compras, também foi preso, mas responde a processo em liberdade.

Autoridades que acompanham o caso temem que o esquema não seja totalmente investigado pelo Ministério Público e pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. Procurado, o corregedor da PM, coronel Marcelino Fernandes, não quis dar explicações sobre o andamento das investigações das denúncias mencionadas na carta de Adriano. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo disse que “foi instaurado um Inquérito Policial Militar para apurar os fatos. O IPM está em segredo de Justiça, motivo pelo qual detalhes da investigação não podem ser passados”.

Como envolve pelo menos uma autoridade com foro privilegiado, um deputado estadual, a negociação da delação premiada de Adriano depende do aval do procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio. O Ministério Público informou que a proposta de colaboração premiada está sendo avaliada. “No momento, as informações estão sob análise, não cabendo ao MPSP tecer qualquer tipo de consideração sobre tais tratativas”, afirmou, em nota.

*****

Arte – Pintura de Otto Kubel (German, 1868 – 1951)

Blog do Mesquita,Arte,Artes Plásticas,Pinturas,Otto Kubel (German, 1868 - 1951)

*****

Mariana Aydar – Te faço um cafuné

*****

Comportamento,Blog do Mesquita,Capitalismo,Miséria

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

 

Gestão Doria: investigar corrupção? Nem pensar

Saída de secretário e controladora que investigavam corrupção em SP abre crise na gestão Doria

Gestão João Doria

Saída de Natalini da Secretaria do Meio Ambiente faz conselheiros da área renunciarem. Ele havia enviado denúncias de irregularidades para controladora de São Paulo, também demitido.

A demissão de mais um secretário da gestão João Doria  na Prefeitura de São Paulo trouxe uma nova crise de imagem ao Governo municipal nesta semana. Gilberto Natalini, vereador do Partido Verde (PV), foi demitido da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para, segundo a versão oficial, acomodar outro partido aliado da base governista na Câmara.

A saída dele acontece após a denuncia de indícios de corrupção dentro da pasta, que levaram a secretaria a adotar procedimentos mais rígidos de licenciamento ambiental desagradando construtoras.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Natalini deixa o Governo dias depois da demissão da controladora-geral do município, Laura Mendes de Barros, que investigava as denúncias feitas pela área ambiental da gestão.

Ela também liderava outra investigação relacionada a suspeitas de cobrança de propina de funcionários da prefeitura para liberar propagandas proibidas pela Lei Cidade Limpa. A prefeitura afirmou, segundo os veículos nacionais, que a demissão dela se deu “por questões administrativas operacionais”.  

O ex-secretário ambiental, que reassumiu nesta semana sua cadeira na Câmara Municipal, contou ao EL PAÍS que entregou um documento à Controladoria-Geral do Município no que indicava irregularidades encontradas na pasta.

“É um relato sobre um levantamento que nós fizemos de problemas no licenciamento ambiental em São Paulo. Encaminhamos para a controladoria para eles fazerem uma investigação e comprovar ou não os indícios que a gente descobriu”, diz ele.

Entre as irregularidades, aponta o ex-secretário, estão erros administrativos e suspeitas de facilitações para determinados tipos de processos.

“Quando eu entrei, identificamos que acontecia. Investigamos, trocamos as pessoas [envolvidas] em maio. Tudo junto à controladoria, para onde enviamos o relatório e onde continuou a investigação”, destaca ele, que diz que o número de funcionários com cargos importantes demitidos chegou a oito. 

Depois das denúncias, o vereador diz que os processos ficaram mais rígidos, e o setor imobiliário passou a pressioná-lo nos últimos dois meses.

“Depois que eu encaminhei para a investigação nós mudamos a metodologia local e imprimimos ali os ritos da lei. Lógico que cumprindo a lei, demora mais para sair a licença. E começou a ter reclamação do setor de incorporação imobiliária.

Começaram a reclamar que estava demorando muito e eu disse que estava demorando porque estávamos fazendo vistorias e não laudos fajutos com vistorias fajutas, pedindo a documentação completa”, ressalta.

“Eles ficaram muito nervosos, muito bravos, dizendo que a gente estava parando o mercado imobiliário”, ressalta ele, que afirma não ter havido conversas com Doria sobre o tema.

“O prefeito me chamou, falou que precisava fazer um rearranjo político-partidário, que estava negociando com outro partido e precisava do cargo”.

A conversa aconteceu na quinta-feira, dia 17 de agosto, depois de ele próprio ter procurado o prefeito para confirmar a informação dada por um jornalista de que seu cargo estava sendo negociado.

Natalini evita associar sua saída às pressões da construtora ou às denúncias de corrupção. O atual secretário da pasta, Fernando Von Zuben, que assumiu o lugar do vereador, ao menos por enquanto provisoriamente, diz que a secretaria está funcionando normalmente, que a demissão se deu por um rearranjo político e que a pasta está implementando um procedimento eletrônico que até outubro deve reduzir o processo de licenciamento ambiental dos 400 dias atuais para 80 dias úteis, só permitindo que eles sejam iniciados com todos os documentos corretos.

“Tudo está sendo investigado”, ressalta ele. “As pressões ocorrem aqui diariamente. Elas vêm de sindicatos de funcionários, de organizações não-governamentais, de conselhos de parques, de autoridades, de vereadores, de empreiteiras, de pequenas e médias empresas. Isso faz parte da democracia em qualquer país democrático do mundo”, diz ele.

“A pressão existe e todas as que eu presenciei foram de grupos querendo que as coisas andassem, mas nunca nenhum tipo fora da normalidade.”

Após a demissão do ex-secretário, entretanto, cinco dos sete membros do Conselho Gestor da secretaria ambiental renunciaram a seus cargos. Segundo o site G1, que teve acesso à carta de renúncia coletiva, o grupo afirmou que discorda “da demonstração de desprestígio da área ambiental da Prefeitura de São Paulo nos últimos quatro anos”.

O ‘toma lá, dá cá’ entre o Governo Alckmin e a Justiça, segundo um estudo da FGV

Pesquisadora vê troca de favores entre Poderes num jogo para atender interesses corporativistas.Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, em 2016.

Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, em 2016. CIETE SILVÉRIO A2IMG

Gestão tucana e MP estadual contestam conclusões do estudo

Em abril de 2014, o então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Renato Nalini, suspendeu uma liminar da primeira instância que garantia a implantação, em até 60 dias, de duas equipes médicas mínimas no Centro de Detenção Provisória de Serra Azul, perto de Ribeirão Preto.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O magistrado acatava assim um recurso movido pela Procuradoria do Estado. Em sua justificativa, mencionava o esforço orçamentário que o Estado teria de fazer e argumentava que a carceragem já possuía um enfermeiro, um cirurgião dentista, dois auxiliares de enfermagem, dois psicólogos e dois assistentes sociais.

Entretanto, 60 presos haviam morrido no ano anterior por falta de atendimento médico. Esta era uma das principais provas que constavam nos autos da ação movida pelo defensor público Bruno Shumizu, que após a negativa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, em 2015.

A história acima se repete em grande parte dos 566 casos que passaram pela presidência do TJ entre 2012 e 2015 após o Governo de Geraldo Alckmin (PSDB) entrar com um pedido de suspensão de segurança, que é um instrumento utilizado por entes públicos para questionar uma sentença da primeira instância e pedir, diretamente à presidência do TJ, a anulação de seus efeitos. Os casos foram analisados pela pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Luciana Zaffalon, que chegou ao seguinte panorama: quase metade das resoluções foram favoráveis ao Governo.

Dos 15 processos relacionados à segurança pública que chegaram à presidência do TJ, ela constatou que 13 foram suspensos, atendendo aos interesses do Governo Alckmin. A justificativa usada com mais frequência é a de que o Estado teria de fazer um esforço orçamentário, segundo o estudo. Alckmin também foi atendido em 82% dos casos que tratam de licitações, contratos e atos administrativos, segundo a pesquisadora. Ele só foi derrotado em todas as ações que demandavam a aplicação do teto remuneratório para as carreiras públicas.

Essa tendência favorável ao Governo é um dos efeitos, segundo explica a especialista em sua tese de doutorado em Administração Pública e Governo, da politização da Justiça paulista, rendida à lógica do toma lá, dá cá. Zaffalon, que também foi ouvidora-geral da defensoria, mapeou o processo legislativo que resultava em aumentos de salários e bonificações para os membros da Justiça, Ministério Público e Defensoria paulistas.

Ela argumenta que essa política salarial generosa tem impacto sobre as decisões (ou omissões) dos integrantes dessas instituições em relação ao Palácio dos Bandeirantes. A pesquisa, disponível on-line, abarca os anos de 2011 a 2016 e conclui que “diante dos resultados observados, a existência de freios e contrapesos é praticamente ausente no Estado de São Paulo”.

A conclusão é questionada pelos principais atores analisados no estudo, incluindo o Ministério Público e a Defensoria Pública do Estado. Para o Governo Alckmin, trata-se de uma análise “parcial e equivocada”. Questionado pela reportagem, a gestão paulista diz que não é o Executivo que define as políticas salariais das carreiras. Já o Tribunal de Justiça disse que a tese ainda será analisada e, se for o caso, contrastada.

Triangulação na Assembleia

Para a tese, que se transformará em livro em breve, Luciana Zaffalon vasculhou os projetos de lei e propostas legislativas que passaram pela Assembleia entre 2011 e junho de 2016 e que afetavam a Justiça paulista. Constatou que 83% delas resultavam em algum benefício corporativo. Além disso, 47% das propostas previam vantagens como auxílios, gratificações ou bonificações que a serem custeadas.

A Assembleia também transferia a Alckmin a palavra final sobre verbas extras, segundo a pesquisadora: “Chama a atenção a Assembleia transferindo pra Governo a possibilidade de negociação orçamentária e as práticas remuneratórias das carreiras. Só o TJ ficou com 21% de todas as suplementações orçamentárias de 2015. É muito dinheiro”, explica a pesquisadora ao EL PAÍS.

Um dos exemplos da pesquisa é a trajetória salarial do Ministério Público de São Paulo. A pesquisadora concluiu que só 3% dos integrantes da carreira não superava o teto constitucional, equivalente ao salário do ministro Supremo Tribunal Federal, em 2015. Analisando a folha de pagamento, sem considerar décimo terceiro salário e férias, o rendimento mensal médio do MP foi de 46.036 reais — enquanto o teto era de pouco mais de 33.000 reais. Só no MP os complementos remuneratórios, como auxílios, bonificações e outros penduricalhos, representaram um gasto 421 milhões de reais. O Ministério Público, no entanto, contesta e diz que nenhum de seus membros “recebe mais do que o teto”. Argumenta que “pagamentos de natureza indenizatória, em que o promotor de Justiça é ressarcido por despesas que realizou no cumprimento de sua função, não constituem remuneração”.

Postos no Governo Alckmin

Zaffalon destaca os vasos comunicantes entre a carreira no Ministério Público e postos de destaque no Governo Alckmin para defender que essas conexões acabam influenciando as condutas dos promotores que deveriam fiscalizar a gestão estadual. “Se a gente olha para o histórico do Estado, os últimos sete secretários de segurança [como Alexandre de Moraes, hoje ministro no STF, e o atual chefe da pasta Mágino Alves] são oriundos do MP. Hoje o secretário de Justiça do Governo também veio de lá”, afirma. O secretário de Educação de Alckmin, Renato Nalini, foi por anos o presidente do Tribunal de Justiça, responsável direto por avaliar os pedidos de suspensão feitos pelo Palácio dos Bandeirantes.

“Como o Estado tem se comportado, sobretudo nas áreas de periferia? Uma das atribuições do MP é o controle do externo da atividade policial”, questiona a pesquisadora, que critica o alto número de mortes cometidas por policiais e o que vê como falhas na conduta do Ministério Público na hora de investigá-los.

O MP ressaltou em nota ao EL PAÍS que os convites para que seus membros ocupem secretarias têm “caráter estritamente pessoal” e não impedem que a instituição “cumpra o seu papel”, uma vez que “inúmeros membros do Governo estadual têm sido processados na esfera cível e penal”. A nota ainda diz que “só nas Promotorias do Patrimônio Público há cerca de 1.500 inquéritos e ações civis que envolvem agentes públicos, boa parte deles ligada ao governo estadual”. Já o Governo Alckmin diz que “o quadro de secretários é amplo” e escolhido “de forma a melhor atender ao interesse público”.

UM JUDICIÁRIO MAIS CARO QUE NA EUROPA

A remuneração média das carreiras jurídicas em São Paulo não apenas é superior à média nacional como também à de alguns países europeus, segundo o estudo da FGV. Um membro do MP paulista, por exemplo, tem um rendimento anual médio, contanto com décimo terceiro salário e férias, de 157.130 euros. Na França, o rendimento anual para a mesma carreira jurídica é de 113.478 euros; na Alemanha, 73.679 euros; em Portugal, 85.820 euros; na Espanha, 111.932 euros; e na Suécia, 69.318 euros.

O dados de São Paulo refletem também o alto custo do Poder Judiciário para os brasileiros e brasileiras de forma geral. Segundo a pesquisa, a despesa anual do Judiciário do país por habitante é de 94,23 euros, enquanto na Suécia é de 66,70 euros; na Holanda, de 58,60 euros; na Itália, de 50 euros; em Portugal, de 43,20 euros; e na Espanha, de 27 euros. Cerca de 89% desse gasto no Brasil destina-se ao pagamento de salários, enquanto que nos países europeus essa média cai para 70%.

Doria afundou na droga: A cracolândia acabou?

Com ações apressadas e improvisadas, cracolândia torna-se a primeira pedra no sapato de DoriaPoliciais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado.

Policiais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado. PAULO WHITAKER REUTERS

Decisões levadas a cabo ao longo desta semana expuseram série de contradições da Administração do prefeito e de seu plano para tratar os dependentes químico.

“A cracolândia acabou”. Esta é a frase constantemente usada por João Doria, prefeito de São Paulo (PSDB), ao se referir ou responder a perguntas sobre esta região do centro da capital paulista. No último domingo, uma megaoperação policial em articulação com o Governo do Estado expulsou os usuários de crack e traficantes que se aglomeravam no “fluxo”, o mercado aberto de drogas que ocupava a alameda Dino Bueno e seu entorno.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Estas vias estão de fato livres agora, como diz o prefeito, mas as ações levadas a cabo nesta área ao longo da semana, muitas delas apressadas e improvisadas, expuseram uma série de contradições da Administração Doria e de seu plano para tratar os dependentes químicos – batizado de Redenção.

A questão da cracolândia voltou para os holofotes com a mesma força que a polícia limpou o local, tornando-se a primeira pedra no sapato de Doria em um momento no qual ele aparece como o principal nome do PSDB para disputar a presidência da República — uma possibilidade que ele já não nega publicamente.

A semana terminou, entretanto, com uma boa notícia para o prefeito. A Justiça autorizou o Executivo municipal a buscar e apreender, durante 30 dias, “pessoas em estado de drogadição” que estejam vagando na região da cracolândia para que sejam examinados pelas equipes multidisciplinares e, após aprovação judicial, internados compulsoriamente.

O pedido da prefeitura foi feito às pressas pela Procuradoria Municipal do Município na última terça-feira, uma vez que a operação policial de domingo fez com que os dependentes químicos se espalhassem por outros 23 pontos da cidade, segundo a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A maioria, cerca de 600 pessoas, está aglomerada na praça Princesa Isabel, a 400 metros da antiga cracolândia.

A dispersão dificultou um dos eixos do projeto Redenção, que é o cadastramento prévio de cada usuário através “de uma abordagem contínua, de caráter não impositivo”. O próprio secretário de Saúde, Wilson Pollara, admitiu publicamente na última quinta-feira que o programa anticrack ainda estava em fase de implementação e que não estava prevista uma grande operação policial.

Aliás, o documento do projeto diz que a ação de agentes da GCM, da PM e da polícia civil agiriam na retaguarda, “para dar apoio aos servidores” que atuariam nos lugares de uso de drogas. Pollara também admitiu que ele próprio não havia sido avisado sobre as ações policias na cracolândia até o dia de sua realização. A prefeitura garante, contudo, que a dispersão vai ajudar na abordagem, uma vez que não haverá presença do tráfico.

“Isso é uma balela completa. Porque o tráfico está lá, as pessoas estão usando, a droga está chegando. A droga não chega só na cracolândia, chega a todos os lugares”, explica o promotor da Saúde Arthur Pinto Filho. O Ministério Público de São Paulo, que participou da elaboração do Redenção, vem sendo um dos principais críticos das últimas ações de Dória, ao dizer que a prefeitura abandonou seu projeto Redenção nesta última semana.

“Nós avisamos o prefeito e os secretários que a dispersão era o pior cenário que poderia acontecer. Quando eles espalham as pessoas pela cidade, acontece o óbvio: essas pessoas que tinham, umas mais e outras menos, contato com os agentes de saúde e da assistência social perdem esse vínculo”.

Além disso, argumenta o promotor, esses usuários estão “zanzando, buscando seu refúgio”. “A GCM diz que hoje estão espalhados por 23 pontos, mas em três horas podem ser 15 pontos e em cinco horas podem ser 30”. Ele também acusou a prefeitura de querer, com sua petição judicial, levar a cabo uma “caçada humana” por São Paulo sem precedentes no resto do mundo.

“O programa não iria trabalhar só com a abstinência. Iria ser com abstinência e a redução de danos. Agentes da saúde e assistentes sociais iriam, 24 horas por dia, atuar na região para fazer a aproximação, levantar cada situação e patologia. E a partir desses dados fazer um projeto terapêutico individualizado, que é o que funciona”.

A gestão Doria assegura, por sua vez, que a busca e apreensão de usuários será feita apenas em último caso e respeitando os direitos humanos. Neste sábado, o secretário da Saúde Pollara afirmou em entrevista à Globo News que os critérios de abordagem serão “psiquiátricos”, e que “aqueles que estiverem conscientes” do que estão fazendo serão “respeitados”.

Ele previu ainda que 100 pessoas deverão ser levadas compulsoriamente pelos agentes públicos. O Executivo afirma também ter aumentado consideravelmente nos últimos dias o número de assistentes sociais que estão nas ruas, algo que era visível na praça Princesa Isabel na última sexta-feira.

“A prefeitura e o Estado estão de fato tomando conta da parte social, tentando fazer a reinserção. Tem uma assistência social ativa nesses núcleos que estão se formando. Eles não fizeram só uma operação policial, está tendo sim uma segunda parte”, afirma Clarice Sandi, pesquisadora e professora da UNIFESP que trabalha com assistentes sociais na cracolândia. Ela não acredita que a dispersão em si atrapalhe no vínculo, mas sim a iniciativa da prefeitura em levar à força os usuários para avaliação médica.

“Foi um tiro no pé. Agora alguns usuários já não querem entrar nas vans e ir para albergues porque acham que vão ser internados compulsoriamente. Uma medida que considera internações em massa é de fato higienista”, diz.

Entretanto, Sandi é uma das especialistas que defendem a realização da operação policial do último domingo sob o argumento de que “algo tinha de ser feito” para estancar uma violência que, para ela, “aumentou muito nos últimos tempos”. “Não que antes fosse ok. Mas funcionários começaram a ser roubados e ameaçados. Já vi mulheres transsexuais apanhando muito. E tem muita criança lá”, conta ela.

“Óbvio que não sou a favor da policia entrar apavorando, mas estava tudo muito errado antes também. Mas só agora virou um problema de direitos humanos. Havia 150 crianças vivendo naquela região expostas aquilo e não tinha ninguém falando de direitos humanos antes”.

A megaoperação provocou, entretanto, a queda de Patrícia Bezerra da secretaria de Direitos Humanos. Na última quarta-feira ela disse, durante uma reunião com movimentos sociais que veio a público, que a ação policial havia sido “desastrosa”. No encontro, afirmou ainda: “Agora a besteira já está feita (…) Estou incomodada tanto quanto vocês. Também acho injusto”. Milton Flávio, secretário de relações institucionais, assumiu interinamente em seu lugar. Em coletiva de imprensa logo após assumir a pasta, ele se referiu aos dependentes químicos de “craqueiros”.

Outro revés sofrido pela Administração Doria foi a liminar da 3ª Vara de Fazenda Pública proibindo a o Município de lacrar e demolir compulsoriamente os edifícios desta região. Ainda que a prefeitura diga estar de acordo com a liminar, a decisão atrapalha os acelerados planos de Doria de revitalização da região da cracolândia, batizada de Nova Luz. Nesta terça, máquinas da prefeitura começaram a demolir um edifício com três pessoas dentro.

Outros moradores e comerciantes também foram desapropriados à força, tendo pouco ou nenhum tempo para retirar seus pertences. Entradas de edificações da rua Helvétia e da alameda Dino Bueno foram, segundo relatos, emparedas com pertences e até animais de estimação dentro. “Os termos de desapropriação apresentavam irregularidades, alegando problemas com com botijão de gás, falta de interruptor… Mas nenhum prazo foi dado para que esses imóveis fossem reparados”, explicou o defensor público Rafael Lessa nesta semana.

Agora, a administração Doria corre para aplicar o seu programa anticrack, o Redenção, e provar que ele respeita o seu próprio lema de Governo: o de fazer de São Paulo uma cidade mais humana. “O programa é um projeto de médio prazo com início, meio e fim que iria minguando a cracolândia. O que tem de fazer agora? A GCM e a PM devem abrir aquelas ruas e deixar aquilo decantar.

Aquela massa humana vai parar em algum lugar e se estabilizar. Quando aquilo se acalmar, aí deve começar o projeto Redenção, enquanto a polícia faz seu papel de investigação”, explica o promotor Arthur Pinto. Já Marcela (nome fictício), uma assistente social da prefeitura que atua na Cracolândia, pede cautela: “O Doria fala em acelerar São Paulo, mas não existe acelerar com essas pessoas [os dependentes químicos]. Porque se você acelera, você atropela. E vai deixando rastro para trás”.
Felipe Betim/ElPais

A ‘maré cinza’ de Doria toma São Paulo e revolta grafiteiros e artistas

Prefeitura apaga grafites da av. 23 de Maio e diz, agora, que fará seleção de novos artistas

Funcionário apaga pichação contra Doria em São Paulo.Funcionário apaga pichação contra Doria em São Paulo. FERNANDO CAVALCANTI

Para especialista, declarar “guerra ao picho” é “tiro no pé” do novo prefeito da cidade

O tucano não é o primeiro a encampar a batalha contra o que para uns é apenas vandalismo, e para outros é arte e expressão urbana. Todos os prefeitos da cidade, independentemente do partido e com menor ou maior afinco, colocaram em prática ações para apagar e coibir o que se convencionou chamar de “arte de rua não autorizada”.

Mas o tucano parece disposto a levar o embate com pichadores e grafiteiros a um novo patamar. “Se preferirem continuar pichando a cidade, terão o rigor da lei. É tolerância zero”, disse após apagar os grafites da 23 de Maio, que segundo ele já estavam antigos e haviam sido pichados. A ação desatou apoio, mas também uma chuva de críticas nas redes sociais e fora delas, onde artistas de várias áreas e paulistanos comuns criticaram a falta de diálogo na tomada de decisões e acusaram a gestão de apagar grafites mesmo sem estar, segundo os critérios da prefeitura, “danificados” por pichações.

A comoção foi tal que o secretário  da Cultura, André Sturm, disse em entrevista ao Estado de S. Paulo nesta terça que a avenida pode receber um Festival do Grafite, com artistas recrutados pela prefeitura e materiais fornecidos pela gestão. Tudo, explicou Sturm, para responder ao “ruído” provocado pela maré cinza. “Ficou muito cinza e há uma vontade de fazer”, disse o secretário.

Especialistas apontam que a cruzada do prefeito tem tudo para ser um tiro no pé – assim como ocorreu com seus antecessores. “O picho trabalha com a noção de perseguição e proeza. Então se ele diz que vai perseguir pichadores, isso pode servir como atrativo para que os jovens pichem mais ainda”, afirma Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Unifesp que fez seu mestrado sobre o tema.

De acordo com ele, desde que Jânio Quadros foi prefeito, em 1985, iniciativas de combate ao picho são implementadas “e são malsucedidas”. Nesta terça-feira, Doria teve mais um amostra do tipo de jogo de paciência que resolveu travar com os pichadores: os novos muros cinzas da 23 de Maio foram pichados com frases alusivas ao prefeito _e logo pintados de novo pela prefeitura. Dias antes, várias pichações específicas contra o prefeito surgiram na cidade.

Picho e Deic

Doria passa tinta cinza em mureta da 23 de Maio.
Doria passa tinta cinza em mureta da 23 de Maio. F. A. / SECOM-PMSP
O jovem RGS/BR, de 25 anos, foi um dos três pichadores que escreveu “Fora Temer” e “Doria Pixo é Arte” nas paredes de um prédio em frente ao Terminal Bandeira, no centro de São Paulo, já na esteira da “guerra do spray” reativada.
Ele afirma que o discurso de “tolerância zero” de Doria pode fazer com que a polícia “passe a ser mais violenta com os pichadores, uma vez que essa truculência tem o aval dos governantes”. Ele cita um caso ocorrido em 2014, no qual cinco PMs foram acusados de matar dois pichadores rendidos em um prédio no bairro da Mooca, na zona leste da cidade. Pixação diz também que mesmo grafiteiros famosos, como os Gêmeos, “que fazem rolê de burguês, em galeria de arte, também estão riscando a casa dos bacanas de forma ilegal”.

No Brasil tanto a pichação ou o grafite feito em prédios públicos ou privados sem autorização é crime, com pena prevista de três meses a um ano de prisão mais o pagamento de multa. A pena de prisão, no entanto, é geralmente convertida em serviços comunitários. Neste front legal, os pichadores também podem sentir os efeitos da nova cruzada. Doria já disse que quer aumentar o valor da multa e, na segunda-feira, o secretário da Segurança Pública do Governo Alckmin, Mágino Alves, o principal aliado de Doria, anunciou que o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) vai atuar contra o grupo de pichadores.


Vídeo feito pela artista plástica Barbara Goy mostra pintura dos grafites da av. 23 de Maio e foi compartilhado quase 60.000 vezes no Facebook.

Para antropólogo e professor da Unifesp Pereira, além da desigualdade social, espacial e da desorganização da cidade, uma parcela da população é levada para a pichação porque ela oferece “visibilidade e projeção social para o jovem periférico, que resolve circular e ocupar o centro da cidade”. “É preciso fomentar práticas e políticas públicas para que este jovem se expresse de outras maneiras que não o picho, e isso não tem sido feito”, diz o professor.

Guilherme Valiengo, um dos diretores do documentário Cidade Cinza, sobre a cena do grafite e da pichação em São Paulo, afirma que o prefeito precisa tentar entender quem é esse “transgressor”. “Se o cara está botando o nome dele no topo de um prédio ou na rua é porque ele quer dizer alguma coisa. Será que essa é a única oportunidade que ele tem de aparecer? É preciso entender quem são essas pessoas, se elas têm acesso a entretenimento, saúde e cultura. Apenas apagar é querer calar essa voz”, diz.

Em nota, o grupo Pixoação criticou as medidas de Doria. “O prefeito pede que os pichadores (sic) se tornem artistas. Primeiro podemos sugerir que ele estude um pouco mais sobre arte contemporânea”, diz o documento. “Já há alguns anos se sabe que não se fala de arte sem se falar de política, e que as obras que ocupam as bienais e principais mostrar pelo mundo não são dos artistas que decoram a sala dele”, segue o texto.

Nova York e Miami

Não é só no Brasil que a relação entre arte e urbana e zeladoria tem conflitos inerentes e linhas tênues entre convivência e exaltação. Doria tem insistido que é contra a pichação, e não o grafite, mas os dois aparecem muitas vezes em áreas não autorizadas. Enquanto se debate o que é arte ou não e o que deveria ser preservado ou não nos grafites apagados, o principal museu da cidade, o MASP, se prepara para receber no ano que vem uma exposição da obra do grafiteiro norte-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que, parte de uma dupla, se consagrou ao espalhar mensagens pelas ruas de Nova York nos anos 70.

Na Nova York de Basquiat ou na Londres do grafiteiro Ben Eine também há políticas repressivas com relação ao grafite (já o picho é considerado uma expressão artística brasileira). Nas cidades, ou em Berlim, a pintura é permitida apenas em alguns locais pré-determinados. Na Inglaterra as multas por grafitar espaços públicos ou privados sem autorização pode chegar a 5.000 libras (cerca de 20.000 reais). Na capital britânica, porém, a arte de rua é considerada um chamariz do turismo e, como tal, é promovida.

Doria disse ter interesse nesse apelo turístico do grafite. Anunciou a criação de um “grafitódromo”, inspirado em um bairro de Miami, onde a prática do grafite é liberada. O prefeito se refere a Wynwood Walls, alguns quarteirões da cidade com galpões antigos que foram adaptados para receber galerias e lojas, e tiveram seus muros pintados por grafiteiros famosos. A proposta também não escapa da polêmica. O antropólogo Pereira acredita que a medida é outro equívoco. “A tendência de ser algo para inglês ver é grande. Pegou mal para o próprio artista estar num espaço tão chapa branca quanto um grafitódromo, isso pode até gerar mais tensões e instigar mais práticas de subversão e mais picho”, diz o professor.

Quanto à proposta de fazer uma curadoria em alguns espaços da cidade para a realização e murais, ideia defendida por Doria, Valiengo, do documentário Cidade Cinza, afirma que isso sempre ocorreu na cidade. “Você pode até patrocinar alguns grafiteiros para pintar em regiões específicas, como ocorre nos túneis da avenida Paulista, ou na radial Leste. Só que a transgressão está no DNA da coisa”, diz. “E quanto aos milhares de grafiteiros e pichadores que existem e não foram chamados para participar? Eles vão pichar onde tiverem vontade, não adianta querer enquadrar”.

Djan Ivson, conhecido no mundo do picho como Djan Cripta, questiona as prioridades de Doria. “Será que a pichação é realmente o maior problema da cidade? São Paulo não tem problemas com moradia, saúde, educação, transporte publico?”, diz. “O picho pode até incomodar, porém está longe de ser o maior problema da cidade”, afirmou.

O condomínio seguro que converte as cidades brasileiras em inseguras

O modo de habitar tem trazido impactos para a vida cotidiana. Especialistas propõem reflexão

Condomínio residencial em São PauloCondomínio residencial em São Paulo TUCA VIEIRA
“Não sabe brincar, não desce pro play”. Play, no caso, é a abreviação de playground, o parquinho infantil que formou gerações de meninos e meninas no pátio de edifícios residenciais Brasil afora.

O significado da frase é evidente, o que ela retrata, não. O fato de que esta espécie de provérbio, a ser evocado em diferentes situações cotidianas, tenha nascido do ato de “descer pro play” serve como um símbolo de uma forma de se habitar, em que desde a brincadeira de criança até a ginástica dos adultos é resolvida intramuros.

É também revelador do quanto a vida em condomínios verticais está enraizada nas cidades brasileiras.
[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Parábola à parte, quem cresceu em uma família de classe média entre as décadas de 1980 e 2010 provavelmente conhece bem o assunto. Não à toa. Foi no final dos anos 1970, que os condomínios verticais começaram a surgir nos grandes centros urbanos do país. Hoje, eles são praticamente tudo o que o mercado imobiliário oferece.

Em uma reflexão rápida, é difícil imaginar que as coisas poderiam ter tomado outro rumo. Afinal, com 21 das 50 cidades mais violentas do mundo – segundo ranking de 2015 da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal – é de se esperar que as pessoas busquem muros para proteção.

No desenho de uma cidade, contudo, nenhuma reflexão pode ser tão rápida, já que tudo que se constrói (ou que se põe abaixo) causa um impacto em níveis diferentes. Assim, é praticamente unanimidade entre urbanistas que se os condomínios fornecem sensação de segurança para seus condôminos, são eles também a causa de cidades cada vez mais desiguais e inseguras.

Apesar disso, reforçam que a conclusão não propõe uma cruzada contra quem escolhe viver atrás de muros ou contra o mercado imobiliário, mas uma necessidade de se repensar com urgência um modelo tão naturalizado que, como visto no caso do playground, já deu ensejo até para a criação de axiomas.

Eles geram desigualdade, argumentam os especialistas, porque concentram apenas pessoas de um mesmo poder aquisitivo convivendo entre si. “Essa lógica tem sido responsável por produzir uma sociedade dividida em nichos em que o contato com o outro fica cada vez mais distante e, por isso mesmo, o diálogo cada vez mais difícil”, argumenta o sociólogo Eduardo Marques, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM).

São também geradores de insegurança, dizem, porque todos os serviços e instalações oferecidas nos condomínios usam muito espaço para se viabilizarem, o que produz quarteirões inteiros murados, onde o pedestre não tem motivo para passar, fazendo das calçadas lugares desertos.

Pegue a publicitária Luiza Oliveira, 28 anos, como exemplo. Ela mora em um conjunto de prédios na zona sul da capital paulista em que são oferecidas aulas de ginástica, yoga, pilates e judô. Além disso, há piscinas, quadras, um mercado para necessidades de última hora e uma minifeira semanal de produtos orgânicos.

Os funcionários do condomínio têm um cadastro digital e todo dia colocam o dedo em um leitor ótico para ter acesso às instalações. O carro dos moradores tem um chip eletrônico que é identificado na hora da entrada na garagem, onde seguranças observam a movimentação. A publicitária quase não utiliza as facilidades oferecidas, mas seus pais sim. Ela própria, quando precisa fazer alguma coisa, usa o carro para se deslocar, já que o bairro em que vive é formado basicamente todo por condomínios verticais como o dela.

“Essa lógica tem sido responsável por produzir uma sociedade dividida em nichos em que o contato com o outro fica cada vez mais distante”

As facilidades e o esquema de segurança do condomínio da Luiza poderiam supor um local de alto luxo, inacessível para grande parte da população, mas hoje muito da descrição é regra em lançamentos imobiliários com diferentes faixas de preço. “Não se trata de ser contra o mercado imobiliário, mas é importante mostrar que o modelo de moradia vendido hoje, que é baseado no marketing da segurança e no conforto proporcionado pelos serviços oferecidos, está produzindo cidades insustentáveis”, diz o urbanista Vinicius Netto.

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Netto elaborou uma pesquisa que mostra numericamente que ruas com prédios que começam na linha da calçada, não tem afastamento lateral para outras construções e, por fim, abrigam pequenos comércios no térreo são mais usadas por pedestres.

Essas características juntas possibilitam o que é chamado de “fachadas ativas”, ou seja, construções que oferecem alguma interação com o passante. Para chegar à conclusão, Netto e outros pesquisadores fizeram milhares de medições do movimento de pedestre, entre 9h e 19h, nas cidades de Porto Alegre, Florianópolis, e Rio de Janeiro.

Ao definir três tipos de modelos de ocupações diferentes – as contínuas, representadas por ruas com fachadas ativas; as híbridas em que há uma mistura de construções; e as isoladas, que podem muito bem ser representadas pelos condomínios verticais com suas torres de moradia e muros –, o estudo de Netto chegou à conclusão que em bairros com características contínuas há uma circulação até três vezes maior de pedestres do que em bairros de desenho isolado. “Só existe espaço público se existe vitalidade deste espaço e, para que isso aconteça, é necessário pensar no tipo de construções que estamos produzindo”, diz.

Tabela elaborada na pesquisa desenvolvida no Rio de Janeiro por Netto, Vargas e Saboya pelo CNPq
Tabela elaborada na pesquisa desenvolvida no Rio de Janeiro por Netto, Vargas e Saboya pelo CNPq VINÍCIUS NETTO REPRODUÇÃO
O condomínio, como tem sido desenhado, ao mesmo tempo em que interrompe o tecido urbano – ao criar grandes quarteirões isolados e murados –, também faz com que as pessoas só andem de carro, reforçando uma característica já cruel das cidades brasileiras que é um modelo de deslocamento voltado para o transporte individual e não coletivo.
O fato de o transporte coletivo ser um dos principais problemas estruturais do país reforça tudo isso. Mas e a segurança? “Uma rua com vitalidade, com janelas de prédios e casas coladas à calçada, com comércios abertos, cria uma segurança natural. As pessoas se sentem mais observadas”, diz Netto. Janelas são como olhos, os outros são nossa proteção natural.

CADÊ O ARQUITETO?

A urbanista Nádia Somekh brinca com seus alunos da Universidade Mackenzie, em São Paulo, que hoje as construções residenciais da cidade são feitas com “projetos carimbo”: prédios beges, com portarias de vidro, jardins sem personalidade e varandas gourmets. Hoje a moda é essa, mas já foi diferente.

Já houve o período em que todo o lançamento tinha um quê de neoclássico, por exemplo. Se formos reparar, é possível demonstrar claramente em uma linha do tempo quando as construções da cidade deixaram de ter “personalidade”: final dos anos 1970, começo dos anos 1980, mesma data em que tem início a proliferação de condomínios verticais.

“Para a construtora, é muito mais barato criar um projeto padrão que é praticamente reproduzido sem custos adicionais”, diz Netto. Por isso, completa Somekh, houve uma dissociação entre arquitetura e prédios em São Paulo. Quem caminha pelo bairro de classe média alta de Higienópolis, por exemplo, vê prédios antigos, de antes dos anos 1970, com estilo e desenhos próprios.

“É uma lógica de planilha. Os prédios altos, por exemplo, são mais baratos de construir, porque cada andar adicionado significa um gasto a menos de logística, já que toda a equipe e logística já está alocada em um lugar. O problema é que o que é bom para o Excel, nem sempre é bom para a cidade”, diz.

“A insegurança é explorada pelo marketing imobiliário para vender o modelo do condomínio. O modelo do condomínio, por sua vez, gera mais insegurança, já que a segurança natural, propiciada pela presença de outros pedestres na rua, é quebrada exatamente pela presença do condomínio. Logo, temos um efeito circular cumulativo”, comenta Netto.

O fato deste tipo de moradia ser praticamente a única disponível e o modelo vender bem e custar pouco para as construtoras que constroem projetos muito semelhantes e em alta escala, aliada à questão da falta de planejamento urbano, tem feito com que os condomínios verticais se espalhem por todas as cidades brasileiras.

Adensamento e verticalização

Marques ressalta que o fenômeno não é só brasileiro. Praticamente todos os países da América Latina, América do Norte e Ásia têm passado por um processo semelhante. “Lima, no Peru, por exemplo, é um forte exemplo desse tipo de urbanização”, diz o sociólogo. Uma vista aérea das regiões centrais de São Paulo sugere um verdadeiro paliteiro de construções desconexas. E, de fato, a capital paulista, em uma mistura de legislações, ideias urbanísticas e modelos idealísticos de cidade, é um dos melhores exemplos para se entender quando e por que teve início a proliferação de condomínios verticais.

Em 1973, a construtora Takaoka lançou o empreendimento Ilhas do Sul, um conjunto de torres residenciais em que havia todo tipo de serviços e facilidades disponíveis. Não por acaso, Takaoka foi a mesma construtora responsável por Alphaville, um gigante condomínio horizontal lançado na mesma época nas bordas de São Paulo.

Ele seguia em muito os moldes das edge city, os bairros de subúrbio americano, em que as pessoas trabalham no centro e vivem afastadas em lugares mais tranquilos, aprazíveis e seguros. O Ilhas do Sul era, de certo modo, Alphaville sem sair de dentro da cidade. A ideia deste tipo de moradia, contudo, não nasceu espontaneamente, do nada.

Uma das explicações possíveis, segundo Netto, está no imaginário idealístico de um novo modelo de cidade que, no Brasil, é simbolizada pela capital nacional. “O ideal de Brasília é o de uma ‘cidade jardim’ em que morar bem é um dos quesitos mais importantes. Desse modo, ela propõe uma ocupação do solo espraiada, que é o contrário do adensamento populacional existente, por exemplo, em bairros de configuração contínua, em que uma construção é colada à outra e existe uma mistura entre comércio e residência”, diz o urbanista.

O condomínio seguro que converte as cidades brasileiras em insegurasFoto Tuca Vieira
O ideal resultou em legislações que propunham uma fuga do adensamento, visto, na época, como sinônimo de insalubridade. A urbanista Nádia Somekh, que estuda a história da verticalização, revela que a lei de ocupação do solo da cidade de São Paulo em 1970 consistia em uma defesa da saúde pública.

Defendia-se a tese de que era necessário “evitar uma superconcentração” e que os “prédios deveriam ter uma condição sanitária e de higiene alta”. As leis, como mostra a pesquisa de Somekh, produziram torres residências distantes umas das outras e longe das calçadas. Somado a isso, o fato de que para construir um prédio alto era necessário um terreno grande, fez com que as construtoras começassem a oferecer todo tipo de serviço na venda dos apartamentos, como os já mencionados playgrounds.

A fuga do adensamento trouxe ainda um espraiamento da cidade, que, em tudo, foi interessante para as construtoras que puderam explorar cada vez mais terrenos. Não à toa, Somekh mostra que apesar dos 28 mil edifícios de apartamentos de São Paulo, a cidade tem uma densidade relativamente baixa. Apesar do que uma primeira impressão pode passar, um quarteirão ocupado com sobrados pode ser mais denso do que um quarteirão com duas torres residenciais.

“São uma série de contribuições que somadas desenvolveram esse modelo de moradia”, diz Netto. É a questão da segurança, mas também a do adensamento, do tipo de transporte escolhido como preferencial na cidade e da busca de um modo de via mais bucólico. Ele completa: “Ninguém diz que não se vive bem nestes locais, mas habitabilidade não pode ser a única questão na formação de uma cidade”.

Cidades não são construções monolíticas. Muito pelo contrário, cidades são vivas e sujeitas a modificações constantes. “Em São Paulo, por exemplo, começam a surgir incorporadoras que tentam trabalhar mais com o conceito de rua viva, que constroem prédios sem muros e menos padronizados”, diz Marques.

O Plano Diretor recentemente aprovado na capital paulista, ele lembra, é outro ponto que, ao incentivar construções com fachadas ativas e propor uma volta às ruas da cidade, pode trazer mudanças nos próximos anos. Além disso, há um movimento claro da sociedade civil por reocupação de espaços públicos, expresso, por exemplo, em hortas comunitárias e a opção pelo uso da bicicleta. “Hoje, os prédios não ajudam a construir a cidade, são, na verdade barreiras para as pessoas e seus encontros, mas isso sempre pode mudar”
André de Oliveira/El País

No Brasil da Lava Jato, urnas punem PT, mas não outros investigados no escândalo

O PT perdeu cerca de 60% das prefeituras. Analistas discutem o peso da do fator corrupção no voto.

eleicoes-2016blog-do-mesquita

Em ano dominado pela Operação Lava Jato, em que o assunto corrupção foi mote de manifestações a conversas de bar, o PT saiu como o grande derrotado das eleições municipais.

No melhor dos cenários, terá sofrido uma queda de 58,6% no número de prefeituras pelo Brasil – número semelhante, 44,8%, indica o encolhimento nas Câmaras municipais.

Para grande parte do eleitorado, a punição das urnas significa uma vitória contra a [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]corrupção. Em Perdizes, bairro de classe média alta de São Paulo, quando anunciada a vitória em primeiro turno de João Dória (PSDB) – uma das mais acachapantes e surpreendentes das eleições – os gritos de um homem se sobressaíam em meio à comemoração generalizada: “O PT acabou, chupa petralha, agora vocês vão ter que trabalhar, acabou a boquinha!”.

A surra foi no PT ou na corrupção como um todo? Alguns indicadores ajudam a responder a questão.

O quase de Fernando Haddad

Eleito em São Paulo teve menos votos que a soma de brancos, nulos e ausentes
Candidatos das ‘bancadas da bala’ exploram discurso do medo e miram prefeituras
PP, por exemplo, legenda campeã em citações na Lava Jato, com 32 políticos investigados, tornou-se ontem a quarta maior força em número de prefeituras. São 494. O PMDB, vencedor histórico quando o assunto é o número de administrações municipais, manteve sua média ao eleger 1.027 prefeitos.

Na Lava Jato, tem ao menos sete políticos em investigação, sendo que alguns têm grande projeção nacional, como Renan Calheiros, presidente do Senado, e Romero Jucá, ex-ministro do Governo Temer. Além do suposto envolvimento em esquemas de corrupção, há uma série de novos vereadores, prefeitos e aspirantes ao cargo que disputarão o segundo turno e têm problemas na Justiça. Afinal, as urnas punem corruptos e candidatos enroscados, de forma geral, em problemas judiciários? Para especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, a resposta é não.

“É difícil mostrar cientificamente como funciona a punição ao corrupto na política brasileira, mas minha pesquisa mostra empiricamente que quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”, diz a cientista política Nara Pavão, que desenvolveu uma linha de estudo em universidades do exterior sobre o comportamento do eleitorado.

Segundo ela, dados concretos mostram que a percepção da corrupção aumentou nos últimos dez anos no Brasil, mas que a tolerância do eleitorado também aumentou. “Essa é uma dinâmica perversa, mas é importante lembrar que a corrupção é apenas uma das múltiplas dimensões da avaliação do eleitorado. Se o voto é influenciado por processos judiciais, ele também depende de outras questões, como situação econômica, políticas sociais, ideologia”, analisa Nara. Neste contexto, o PT, que governou por quase 14 anos, também é ligado à mais grave recessão em ao menos 25 anos, com 12 milhões de desempregados.

“Quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”

Para o sociólogo Jessé de Souza, que tem dedicado seus estudos às novas classes trabalhadoras emergentes no Brasil, nos últimos anos existiu uma fulanização da corrupção na figura do PT. “Este tema tem sido usado de forma manipulativa e desta vez não foi diferente. Ao apontar para o PT, o problema da corrupção, que é sistêmico do programa político brasileiro, é esvaziado. Assim, o castigo da urna é torto em alguns casos e em outros não acontece”, diz.

“Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta”

Segundo Andrei Roman, coidealizador do site Atlas Político (que através de um banco de dados mapeia perfis e atuação de políticos brasileiros), cenários polarizados, como o descrito por Souza, são os que mais desfavorecem a punição política por meio das urnas. “Esperava-se que a Lava Jato teria a capacidade de ‘limpar a política’. Mas não é isso que está acontecendo. Por conta de um cenário de exacerbação da polarização política, movimentos favoráveis ao impeachment fecham os olhos para evidências de corrupção dentro do Governo. E a esquerda, incrédula com o Judiciário, passou a não dar mais crédito à operação”, comenta Roman.

Para Nara, os momentos de polarização também favorecem o uso político das acusações de corrupção, o que acaba por banalizar a questão. “Neste contexto, o eleitor acaba conseguindo descartar acusações com mais facilidade. Além disso, muitas vezes as notícias que chegam são usadas apenas para reforçar um comportamento que o eleitorado já tinha. Quando a informação não serve a esse fim, ela é simplesmente descartada”, diz a pesquisadora.

Ao escolher vereadores o eleitorado costuma se informar mais sobre o candidato, buscando informações em sites de monitoramento político e votando em quem tem atuação nos bairros em que os eleitores vivem, por exemplo, identificou a reportagem. Quando o assunto é o poder Executivo, contudo, a coisa muda um pouco de figura. “Minha escolha de vereadora é por uma pessoa que atua em projetos sociais dos quais eu sou próximo. Agora quando escolho para cargos altos, como prefeito, governador e presidente, o dado de se tem um processo na Justiça ou não, importa menos.

Quase todos estão envolvidos em algum tipo de escândalo”, diz o analista de pesquisa de mercado, Cleber Valvassori. Outros entrevistados relataram o mesmo procedimento: uma pesquisa apurada para o Legislativo e um voto que leva em consideração diferentes pontos para o Executivo.

Segundo Nara, as escolhas para Executivo e Legislativo são sempre diferentes. A primeira é bem mais impessoal que a segunda, mas o peso de processos judiciais seria o mesmo na balança da opção. Acontece, contudo, que esse não é o peso central. Nem aqui, nem no resto do mundo. Recentemente, o EL PAÍS publicou um texto tratando da percepção de que políticos corruptos não são punidos na Espanha.

A conclusão? Essa percepção é geral e mundial. Um raciocínio habitual é equiparar com cinismo a corrupção em todos os partidos: para que entrem outros corruptos, que fiquem os meus. “O principal obstáculo para o castigo tem relação com o partidarismo: os seguidores de um partido tendem a ver a corrupção dessa partido como menos grave”, diz Jordi Muñoz, professor da Universidade de Barcelona, citado na reportagem que analisa a vitória do conservador Partido Popular espanhol.

Justiça e transparência

Não há um levantamento acurado de quantos políticos com problemas judiciais participaram ou foram eleitos neste pleito. Ao fazer um levantamento caso a caso, a ferramenta Atlas Político é a que mais se aproxima da resposta, mas não consegue chegar a um número preciso pela falta de transparência do sistema Judiciário. “Existem dezenas de tribunas, cada um com sua especificidade própria na divulgação de processos, então fica muito difícil cruzar dados de cada um deles”, explica Roman.

A dificuldade do acesso à base de processos é uma faca de dois gumes. O professor Ivar Hartmann, do curso de Direito da FGV-RJ, explica que no caso da Justiça do Trabalho, por exemplo, uma decisão do Conselho Nacional de Justiça proibiu que processos fossem publicados na Internet.

“Algumas empresas estavam começando a montar banco de dados com funcionários que já processaram empregadores no passado, assim, a pessoa era desclassificada de seleções para vagas automaticamente”, conta. Contudo, Hartmann acredita que isso poderia ser facilmente resolvido com uma resolução que obrigasse, por exemplo, que os tribunais divulgassem processos de pessoas com vida política.

Há ainda outra questão. Se o senso comum diz que todo político é corrupto, existe o fato de que muitos poucos políticos conseguirão passar por toda uma vida entre Executivo e Legislativo sem um processo sequer. E isso não é, muitas vezes, sinônimo de desvios. “Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta.

Só que muitas vezes as ações judiciais são movidas por conta de prestação de contas e não por uma denúncia mais séria, por exemplo”, comenta Roman. Com a dificuldade de acessar processos, fica difícil também discriminá-los e todos acabam caindo em um mesmo balaio indigno.

“Eu não estou certa de que mais transparência do Judiciário, neste caso específico, signifique algo com para o eleitor. Talvez o ideal fosse que ele só recebesse informações sobre condenações”, analisa Nara. A pesquisadora ainda volta à questão de que a corrupção é usada cada vez mais como arma política e isso só reforça a impressão de que todos são corruptos. “Esse tipo de percepção diminui o peso eleitoral da corrupção: se ela é percebida como uma constante entre os políticos, deixa de ser um critério útil de escolha”.
André de Oliveira/El País

Mobilidade Urbana: Metrô de SP tem menor oferta de linhas entre principais metrópoles do mundo

Passagem é mais barata que em grandes cidades da América e Europa, mas extensão é uma das menores, deixando metrô paulistano pequeno para uma tarifa tão grande.Estação da Sé, na última sexta.

São seis horas da tarde em uma das estações de metrô mais movimentadas de São Paulo, a Sé, no coração da cidade.

Por ali circulam, diariamente, 620.000 passageiros. Nesse horário de pico, as pessoas se empurram na tentativa de entrar no vagão que já chega apertado.

A tensão é tamanha, que há seguranças nas plataformas para tentar evitar acidentes com o empurra-empurra.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A tarifa aumentou, e parece que a gente tá aqui pedindo esmola”, disse a diarista Débora, de 47 anos (ela não quis ter seu sobrenome divulgado), ao se referir à demanda por um transporte melhor.

MAIS INFORMAÇÕES

O preço para andar de transporte público na capital paulista tem sido mote de diversas manifestações lideradas pelo Movimento Passe Livre. Mas, comparando com o valor de outras sete cidades da Europa e América, a tarifa paulistana, que no início do ano subiu de 3,50 para 3,80 reais juntamente com o ônibus e os trens, não fica entre as mais caras. Porém, levados em conta fatores como quilômetros de extensão, número de linhas e o tamanho da população, o metrô em São Paulo fica pequenoperto de uma tarifa tão grande.

O bilhete paulistano só é mais caro que o da Cidade do México e de Buenos Aires. Convertidos os valores em dólares, a capital mexicana tem o menor preço: 0,27 dólares, contra 0,94 em São Paulo. A tarifa mais cara é a de Londres: 8,61 dólares. Mesmo ficando longe desse valor, a tarifa paulista é alta. Débora afirma abastecer seu Bilhete Único toda semana com 70 reais. Por mês, são cerca de 300 reais, ou um terço do salário mínimo (880 reais).

A capital da Inglaterra, com o metrô mais caro, foi também a primeira do mundo a construir linhas debaixo da terra e tem hoje a maior extensão de trilhos: inaugurado em 1863, o metrô inglês tem 400 quilômetros de extensão para uma população de oito milhões de pessoas. São Paulo começou a construir a sua linha em 1974. Hoje tem 68 quilômetros para uma população de 11 milhões de pessoas. Menor que São Paulo, somente o metrô de Buenos Aires, com 60 quilômetros de extensão. Mas a capital argentina tem uma população quase quatro vezes menor que a de São Paulo.

A diarista Débora usa o metrô todos os dias. Ela estava na estação da Sé esperando o tumulto diminuir antes de tentar entrar em um vagão. “Falta trem, né? Se tivesse mais, melhoraria”, disse. Alguns até conseguiam entrar no trem apertado. Outros tantos seguiam amontoados, no que deveria ser uma fila.

O calor só aumentava. “Prefiro esperar para não acabar me machucando”, disse a analista de Recursos Humanos, Kelly Siqueira, de 37 anos, que aguardava a filadiminuir. O tempo que ela fica esperando, uma média de meia hora todos os dias, é metade do que ela gasta no percurso até onde mora, na Vila Carrão (zona sudeste).

No comparativo com os outros países, a quantidade de linhas do metrô também deixa São Paulo na lanterna. Somente Santiago do Chile, com cinco milhões de habitantes, tem o mesmo número de linhas que São Paulo: cinco. Mas a extensão do metrô chileno, que começou a ser construído em 1975, é de 94 quilômetros.

Em Paris, com dois milhões de habitantes, são 16 linhas. Nova York, com uma população de oito milhões de pessoas, há 21 linhas de metrô. No comparativo, não foram levadas em conta as linhas de trens das cidades. Veja o gráfico completo aqui.

Os atrasos sucessivos do metrô

As cinco linhas do metrô paulistano transportam por dia 4,7 milhões de pessoas. Se colocada sobre um mapa da cidade, a malha metroviária de São Paulo é curta demais para uma cidade tão grande. À problemática dessa limitada extensão se somam os sucessivos atrasos na entrega de novas estações.

Neste momento, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) trabalha na expansão das linhas 5-lilás e 2-verde. Além disso, tenta concluir o projeto inicial da linha 4-amarela. A primeira previsão era de que as obras dessa linha, iniciadas em 2004, fossem concluídas em 2012. Das 11 estações prometidas da linha amarela, falta entregar quatro.

Há um ano, após sucessivos atrasos na entrega de obras da linha amarela, o Governo estadual rompeu o contrato com o consórcio responsável pelas obras, o Isolux Córsan-Corviam. Na época, a expectativa era que uma nova concorrência fosse aberta até setembro do ano passado para a retomada das obras. O edital, porém, foi publicado somente no final de novembro.

A entrega das propostas técnicas e comerciais de consórcios interessados em assumir essas obras  ficou marcada, inicialmente, para o dia 13 de janeiro. Mas essa data também foi adiada. Segundo o Metrô, o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) – que está financiando as obras – solicitou o adiamento, após alguns questionamentos das concorrentes em relação ao edital. A nova data para o recebimento e abertura das propostas é o dia 17 de março. A divulgação da vencedora deve ocorrer no mesmo mês.

A partir de então, o prazo do Metrô para a entrega das estações dessa linha varia de 12 a 36 meses, dependendo da estação (Faltam as estações Higienópolis-Mackenzie, Oscar Freire, São Paulo-Morumbi, Vila Sônia). Ou seja, na mais otimista das hipóteses, a conclusão da linha amarela deve ser feita em 2019.

A expansão da linha lilás também está atrasada. Prevista para ser entregue em 2014, ganhou prazo novo no ano passado: 2018.

Tais fatores fazem com que a demanda pelo transporte, que já é alta em São Paulo, se sobressaia ainda mais em relação à oferta, principalmente nos horários de pico. Durante a realização desta reportagem, alguns trens chegavam vazios à Sé, na tentativa do Metrô de desafogar a estação.

Mas é como enxugar gelo: Quanto mais trens passavam, mais gente chegava e os vagões seguiam cheios. A demora na expansão da malha viária de São Paulo deixa milhares de pessoas, assim como Débora e Kelly, sem coragem de, sequer, entrar na fila.

Hoje, tanto o metrô quanto o trem de São Paulo são alvos de investigações por suspeita de corrupção envolvendo pagamento de propinas e formação de cartel na disputa de licitações.
Marina Rossi/El País