Síria – Genocídio – Fotografias

A Marcha da Insensatez – Bombardeio da coalizão liderada pelos USA em Deir ez-Zor,Al Mayadeen,Síria,matando 42 civis – 29/06

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Quem é Hamza, o filho de Bin Laden que pode ser o novo líder da Al-Qaeda

Uma nova mensagem de áudio, divulgada recentemente em uma das redes da Al-Qaeda, voltou a lançar luz sobre uma figura emergente dentro do grupo radical: a voz da mensagem é de alguém que afirma ser Hamza Bin Laden, um dos filhos de Osama Bin Laden.

YouTube/GettyHamza Bin Laden é considerado por vários analistas como o filho preferido de Osama para se transformar em seu sucessor – Image copyrightYOUTUBE/GETTY

Não é a primeira vez que o filho de Bin Laden faz uma gravação para a Al-Qaeda. Mas foi a primeira vez que o grupo radical apresentou oficialmente Hamza como seu membro.

Desde que Osama Bin Laden, líder da organização, foi morto pelas forças especiais americanas em Abbottabad, no Paquistão, em 2011, a Al-Qaeda parecia estar perdendo sua força e influência, a ponto de parecer, ao menos sob os olhos do Ocidente, relegado à sombra do grupo autodenominado Estado Islâmico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Apesar disso, analistas afirmam que o grupo extremista não está menos perigoso.

Segundo Fawaz Gerges, autor dos livros The Rise and Fall of Al-Qaeda(“Ascensão e Queda da Al-Qaeda”, em tradução livre) e ISIS: A History (“EI: Uma História”) e especialista em política no Oriente Médio, Hamza Bin Laden tem todas as credenciais para se transformar no novo líder da organização.

Carisma e popularidade

Nos últimos anos, a Al-Qaeda tem sido liderada pelo egípcio Ayman al Zawahiri, com uma abordagem mais pragmática.

Sua nova estratégia se concentrou em conseguir mais apoio local, com o objetivo de ser um grupo “muito mais duradouro” do que o Estado Islâmico (EI), explicou à BBC Charles Lister, membro do Middle East Institute, centro de estudos localizado nos Estados Unidos.

Mas, com a liderança do filho de Osama, o grupo poderia ter muito mais sucesso.

Getty ImagesA Al-Qaeda pode mudar de estratégia e tentar objetivos mais próximos do que os Estados Unidos e a Europa – Image copyrightGETTY IMAGES

“A Al-Qaeda está desesperada para ter uma nova imagem, principalmente se levarmos em conta a ascensão do EI nos últimos anos e a sombra que ele jogou na Al-Qaeda”, afirmou Gerges.

“Hamza Bin Laden é a nova cara da Al-Qaeda. É carismático e muito popular entre os soldados”, explicou o acadêmico.

Gerges ainda acrescentou que Hamza era o “filho favorito de Osama”.

De acordo com o pesquisador, já se comentava a possiblidade de Hamza suceder o pai, já que, apesar de ser jovem, o filho de Bin Laden tem experiência na Al-Qaeda.

Desde 2001

A Al-Qaeda já divulgou várias mensagens de Hamza Bin Laden. E a primeira aparição pública do filho de Osama havia ocorrido ainda em 2001.

Getty ImagesDepois da morte de Bin Laden, o comando da Al-Qaeda ficou nas mãos de Ayman al Zawahiri (esq.) Image copyrightGETTY IMAGES

Na época, ele tinha apenas dez anos e foi visto em um vídeo perto dos destroços de um helicóptero americano caído na província de Ghazni, Afeganistão. Ele foi mostrado caminhando perto de combatentes do Talebã.

Desde então, ele começou a pregar o assassinato de “infiéis” e a usar um uniforme militar.

Um vídeo divulgado em 2005, chamado O Mujahedin do Waziristão, mostrava Hamza participando de um ataque da Al-Qaeda contra forças de segurança paquistanesas na região montanhosa da fronteira com o Afeganistão.

Nos anos seguintes, ele publicou poemas sobre as proezas militares da Al-Qaeda instigando os militantes a “acelerar a destruição de Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Dinamarca”.

O filho de Bin Laden tem hoje cerca de 25 anos e, segundo Gerges, com “novas ideias” de que a Al-Qaeda acredita “precisar” para se renovar.

Guerra de duas frentes

A primeira mensagem com a voz de Hamza foi divulgada em 2015, na qual ele pregava a violência contra os Estados Unidos e seus aliados, com uma convocação à jihad (“guerra santa”) aos combatentes do grupo em Bagdá, Cabul e Gaza, tendo como “alvos” Washington, Londres, Paris ou Tel Aviv.

Meses depois, em maio de 2016, ele divulgou mais uma mensagem convocando a intifada e falando da “libertação” de Jerusalém e da “revolução” na Síria.

ReutersA Al-Qaeda quer deixar claro que o grupo também tem presença na Síria e que não é apenas o EI que está tentando derrubar o governo do país
Image copyrightREUTERS

Em julho, ele falou sobre vingar a morte de seu pai em um discurso de mais de 20 minutos.

E, em sua última mensagem, Hamza fala sobre a convocação de jovens sauditas para que “derrubem” a monarquia de seu país e se juntem à Al-Qaeda da Península Arábica, que opera principalmente no Iêmen.

Essa convocação contra a Arábia Saudita, segundo Gerges, pode significar uma possível mudança de estratégia do grupo jihadista – que antes se concentrava apenas em inimigos mais distantes no Ocidente.

“O que Hamza está dizendo é que o EI não é o único grupo declarando guerra aos governos da Arábia Saudita, Síria e Iraque; que eles também participam disso.”

O problema, de acordo com o especialista, é que agora as potências ocidentais enfrentam uma guerra em duas frentes: “Uma frente contra o Estado Islâmico no Iraque, Síria e Líbia e outra contra a Al-Qaeda no Afeganistão, Paquistão, Iêmen e outros cenários”, explicou Gerges.
Com dados da BBC

NYT’ destaca ameaça de terrorismo na Rio 2016

Reportagem também fala da criminalidade em ascensão na cidade The New York Times afirma que homens presos no Brasil por suposta combinação de ameça terrorista tem perfis semelhantes aos que cometeram massacres em Nice e Munique

O jornal norte-americano The New York Times traz na edição desta quinta-feira (4) uma matéria sobre a Olimpíada Rio 2016, que começa nesta sexta (5).

O editorial analisa que os líderes locais e a sociedade brasileira estão mal preparados para uma ameaça de ataque terrorista como aqueles em Munique, em 1972, e Atlanta, em 1996.

Eles não têm experiência com o problema e não têm recursos humanos e financeiros suficientes. Além disso, a estrutura da segurança pública no país é fraca.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A cooperação internacional está ajudando, mas o Brasil deve enfrentar o desafio e melhorar as suas instituições no futuro.

O texto do New York Times lembra que no dia 21 de julho a Polícia Federal prendeu 12 suspeitos sob a acusação de tentativa de estabelecer conexões com o Estado islâmico. As prisões foram realizadas sob uma nova lei antiterrorismo que entrou em vigor este ano. Os suspeitos, que se chamavam “Defensores da Shariah”, têm sido ridicularizados na mídia social por falta de armas militares ou de formação, e por nem sequer saber um do outro, além da utilização de serviços de mensagens móveis como WhatsApp e Telegram. Mas homens com perfis semelhantes cometeram massacres em Nice e Munique.

> > The New York Times No Game: The Olympics, Rio and Terror

The New York Times afirma que homens presos no Brasil por suposta combinação de ameça terrorista tem perfis semelhantes aos que cometeram massacres em Nice e Munique

Há uma razão histórica que torna difícil até mesmo discutir a questão do terrorismo no Brasil. Entre os anos 1964 e 1985 a ditadura usou a palavra “terroristas” para classificar grupos pacíficos que se opunham a ele. Desde então, sob o regime democrático, a liderança política tem evitado usar esta palavra.

Os grupos fundamentalistas, como a Al Qaeda ou o Estado islâmico, estão longe de ser a realidade dos brasileiros, que há mais de um século convivem com uma grande comunidade árabe – de sete a dez milhões, incluindo o presidente interino, Michel Temer, um filho de imigrantes libaneses – próspera e bem integrada, comenta o The New York Times.

Os brasileiros estão lidando não só com a inexperiência das autoridades com o terrorismo, mas também com a falta de recursos de segurança. O Rio de Janeiro está passando por um colapso financeiro; bombeiros, médicos, policiais e professores ficam sem receber seus salários. Às vezes, não há dinheiro para suprimentos básicos, como a gasolina para carros da polícia.

O New York Times acrescenta que a atual crise política, incluindo o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, e a pior recessão econômica em 25 anos fez com que um maioria da população se colocasse contra ou indiferente aos Jogos Olímpicos – apenas 40 por cento dos brasileiros acreditam que tal evento seja bom para o país.

O governo está focado no risco de lobos solitários, inspirado por grupos fundamentalistas, que pode se direcionar a delegações estrangeiras. Apesar da forte cooperação internacional, a polícia brasileira e os serviços de inteligência não têm agentes e especialistas com experiência sobre o modus operandi do Estado Islâmico, diz o The New York Times.

Há também uma preocupação com a taxa de homicídios em ascensão no Rio de Janeiro. O governo informou 2.100 assassinatos de janeiro a maio deste ano, um aumento de 13 por cento sobre o mesmo período em 2015. A cidade é dominada pelo crime, com a circulação descontrolada de armas automáticas e policiais despreparados.

A Força Nacional, que é encarregado de proteger instalações desportivas durante os Jogos Olímpicos, está sendo coagida pelos grupos paramilitares em áreas pobres, restringindo os movimentos dos oficiais e estabelecendo regras para o seu comportamento – por exemplo, proibindo-os de ir a bares nestes comunidades.

Para a maioria dos brasileiros, crime todos os dias é uma ameaça muito mais iminente do que o terrorismo. Mas isso não faz a ameaça do terrorismo menos perigoso ou real, finaliza o The New York Times.
JB

Terrorismo – Lobos solitários: o que está por trás dos suicidas assassinos

Terrorismo,França,Blog do MesquitaCombinação explosiva do desequilíbrio emocional com a influência nociva e distorcida de ideologias

A sequência quase vertiginosa, nos quatro cantos do mundo, de ataques e ameaças de ataques atribuídos a terroristas mergulha o Ocidente na histeria e na paralisia, diante da absoluta imprevisibilidade das ações.

Nem mesmo a Jornada Mundial da Juventude, maior evento católico do mundo, com a presença do próprio Papa Francisco, e que este ano está sendo realizada na Polônia reunindo milhões de fiéis, ficou imune. Apesar do caráter pacífico e de fé da celebração, a divulgação de ameaças de ataques se repetiu, inclusive com a prisão de um iraquiano, na véspera da JMJ, por posse de material explosivo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A escalada frenética dos episódios protagonizados pelos chamados “lobos solitários”, e nos mais distantes pontos do planeta, levanta uma questão: ou o chamado Estado Islâmico possui uma sofisticada, eficiente e incomparável estrutura, ou a iniciativa individual – tendência que cresce cada vez mais – tem motivações muito mais complexas e ainda não investigadas de forma adequada, e que se travestem de luta ideológica. Tragicamente, nos dois casos o resultado é morte, dor e perplexidade.

Na totalidade das ações dos “lobos solitários”, o ataque termina em suicídio. Resta às investigações traçar supostos roteiros e juntar peças para tentar elucidar o caso. Diante do evidente silêncio do autor do atentado, o Estado Islâmico não hesita em tomar para si a autoria. Afinal, quem poderá negar?

Relatório divulgado neste mês pelo Serviço Europeu de Polícia (Europol) aponta que os “lobos solitários”, na verdade, sofrem de problemas emocionais, que podem se agravar por aspectos ideológicos ou religiosos, o que os torna capazes de cometer esses crimes e de se suicidar. O relatório destaca que, apesar de o Estado Islâmico ter reivindicado os recentes ataques em Orlando, Nice e Alemanha, nenhum dos quatro atentados foram planejados pelo grupo, nem apoiados logisticamente.

Por outro lado, se o suicídio seria uma marca destas ações, e estaria supostamente ligado à total entrega do seu autor à ideologia e à causa do Estado Islâmico, por que os grandes líderes terroristas não estão entre os que se matam? Quais foram os líderes destes grupos extremistas que se suicidaram? Quais foram os chefes que fizeram o que eles recomendam que seus comandados façam? Osama Bin Laden, o terrorista de maior notoriedade em todo o mundo, foi incansavelmente caçado durante dez anos, e lutou por sua sobrevivência nos mais improváveis esconderijos até ser morto em 2011, por forças dos Estados Unidos, num bunker no Paquistão.

O que todos esses indícios, e até o relatório do Serviço Europeu de Inteligência, mostram é que as ações individuais suicidas que têm se multiplicado no mundo são impulsionadas muito mais por uma combinação explosiva de desequilíbrio emocional com a influência nociva de mandamentos ideológicos do que propriamente por razões políticas.

Neste mês de julho, a Academia Nacional de Medicina promoveu um seminário debatendo exatamente os mitos e tabus do suicídio. O acadêmico e psiquiatra Antônio Nardi explorou novas questões sobre o tema, ressaltando que o suicídio é, além de um problema mental, um problema social, pouco abordado tanto na sociedade quanto no curso médico de forma geral.

O psiquiatria destacou ainda que o suicídio está invariavelmente ligado a doenças mentais, dentre as quais é possível destacar a depressão. Nesse aspecto, é possível falar sobre casos que chamam a atenção, tanto na história mundial como nos noticiários atuais, como os Kamikazes e os chamados homens-bomba. Nardi chamou a atenção para o fato de que, apesar da narrativa apresentada para estes casos – de que há uma motivação política para o suicídio – estudos apontam que as pessoas ligadas a esses casos apresentam indicadores de doenças mentais.

Por dentro da estratégia do Estado Islâmico em redes sociais no Brasil

Uma adolescente brasileira pede dicas pelo Twitter para participar de um grupo ligado ao autodenominado “Estado Islâmico” (EI) no aplicativo de mensagens Telegram. A resposta chega horas depois, publicada em português por um perfil anônimo que escreve em árabe, turco e inglês: “Clique neste link e entre em nosso canal”.

Perfil ligado ao EI no Twitter publica hashtags em português e chama atenção por uma enorme fotomontagem que mostra o Congresso Nacional, em Brasília, em chamas
Perfil ligado ao EI no Twitter publica hashtags em português e chama atenção por uma enorme fotomontagem que mostra o Congresso Nacional, em Brasília, em chamas – Image copyrightTWITTER

Assim, com poucos cliques, a jovem e uma rede invisível de brasileiros têm seu primeiro contato com grupos de propaganda extremista recém-criados em língua portuguesa. Nestes ambientes, encontram fotos, vídeos e textos religiosos publicados a cada 3h ou 4h – imagens de cadáveres e decapitações são frequentes, intercaladas a homenagens a “mártires” mortos em combate e a detalhes sobre territórios conquistados pelo grupo no Oriente Médio.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Aplicação de punição das chibatadas a um adúltero solteiro no acampamento de Yarmouk”, diz uma das postagens de um dos grupos do EI no Telegram, vista por 123 seguidores. O texto é seguido por um vídeo impublicável e fotos em alta resolução do rosto do homem espancado.

Outras publicações registram detalhes da guerra pelo controle de territórios na Síria e no Iraque – tudo em português. “Pela graça de Allah, os Soldados do Califado conseguiram destruir dois veículos BMP e danificar um veículo Hummer, além de queimar dois quartéis das aglomerações do exército da milícia Rafidi, matando todos que estavam lá dentro.”

Membros do EI divulgam vídeos, fotos e notícias em tempo real em grupos online em portuguêsMembros do EI divulgam vídeos, fotos e notícias em tempo real em grupos online em português – Image copyrightTELEGRAM

Além dos grupos de propaganda, onde apenas os administradores podem fazer postagens, o Telegram também hospeda “salas de bate-papo” gerenciadas por membros do EI. É nestas últimas que articulações práticas sobre ataques seriam realizadas, segundo agências internacionais de inteligência que monitoram riscos de atos terroristas no Brasil.

Na última quinta-feira, dez brasileiros supostamente simpatizantes do extremismo foram presos pela Polícia Federal, sob suspeita de planejar ataques na Olimpíada do Rio de Janeiro. Segundo o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, os detidos estavam distribuídos em 10 Estados e não se conheciam pessoalmente. Assim como os perfis mapeados pela reportagem, eles se comunicavam por redes sociais – e alguns teriam feito um juramento de lealdade ao EI.

“Aparentemente, era uma célula absolutamente amadora, sem nenhum preparo”, disse o ministro em entrevista coletiva no fim da manhã de quinta-feira. De acordo com ele, a probabilidade de um ataque na Olimpíada é “mínima”.

Essa investigação identificou apenas brasileiros envolvidos em supostas atividades preparatórias para ataques durante os Jogos. No Twitter e no Telegram, entretanto, a maioria dos conteúdos extremistas voltados ao Brasil é publicada por estrangeiros, que alimentam uma máquina de “notícias positivas” sobre o Estado Islâmico, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Do Twitter para o Telegram

Imagens de confrontos divulgadas em alta resolução em grupo do EI em português no Telegram
Imagens de confrontos divulgadas em alta resolução em grupo do EI em português no Telegram – Image copyrightTELEGRAM

Entre todas as redes sociais pesquisadas pela reportagem – Facebook, Twitter, Instagram e Telegram -, a principal porta de entrada de brasileiros a páginas que exaltam o grupo extremista é o Twitter. Dezenas de perfis efêmeros, sem fotos, excluídos e recriados diariamente, exaltam atividades do Estado Islâmico e publicam links para notícias e informações recentes ligadas ao grupo.

A forte estratégia midiática dos vídeos violentos divulgados internacionalmente pelo EI – muitos feitos com equipamento de última geração e efeitos especiais – também é notada, em menor escala, na atividade voltada ao público brasileiro. Um dos perfis no Twitter, que se baseia na Síria e publica seguidamente hashtags em português ligadas ao grupo, chama atenção por uma enorme fotomontagem que mostra o Congresso Nacional, em Brasília, em chamas.

Para especialistas consultados pela BBC Brasil, o objetivo principal destes articuladores é popularizar o grupo entre pessoas que vivem longe do Oriente Médio e estimular os chamados lone wolves (em inglês, lobos solitários, ou pessoas que simpatizam com ideias do grupo, mas não fazem parte de sua estrutura formal) a entrarem em ação isoladamente em seus países.

Um importante artigo publicado em março do ano passado ressalta a percepção sobre a importância do Twitter para os jihadistas. Em The ISIS Twitter Census(Censo do Estado Islâmico no Twitter, em tradução livre), pesquisadores do Brooking Institute mapearam 46 mil contas ligadas ao EI na rede social em 2014.

Segundo os autores, três em cada quatro dos perfis usam o árabe como idioma principal; um em cada cinco preferem o inglês. A grande maioria das contas mapeadas pelo estudo estava hospedada no Iraque, na Síria e na Arábia Saudita. Houve poucos registros no Ocidente – três contas na França, uma no Reino Unido, uma na Bélgica e, um detalhe que passou despercebido na época, duas no Brasil.

“O uso da rede social visa espalhar propaganda e recados para todo o mundo, além de pescar pessoas vulneráveis ao radicalismo”, diz o artigo, que destaca ser difícil identificar provas concretas de recrutamento pelo microblog.

“O recrutamento não é evidente no Twitter. Ele acontece em ferramentas como Kik, WhatsApp e Skype, que são usadas de ‘um para um’. O que eles fazem publicamente no Twitter é pescar interessados.”

No Brasil, segundo o governo e consultorias internacionais de inteligência, o Telegram se tornou um dos principais espaços para estas conversas “um a um”. Mas quem são os brasileiros que embarcam nestes bate-papos?

Vulnerabilidade e aceitação

Uso do Telegram se divide entre grupos de propaganda, onde apenas os administradores podem fazer postagens, e
Uso do Telegram se divide entre grupos de propaganda, onde apenas os administradores podem fazer postagens, e “salas de bate-papo”, onde articulações práticas sobre ataques seriam realizadas – Image copyrightTELEGRAM

Os principais alvos de recrutadores de organizações extremistas costumam ser jovens e membros de setores mais vulneráveis da sociedade, explica o especialista Vladimir de Paula Brito, agente da Polícia Federal e pesquisador dothink tank Inasis (sigla em inglês para Associação Internacional para Estudos de Segurança e Inteligência).

Segundo ele, os aliciados normalmente se sentem excluídos socialmente e, ao se juntar a grupos extremistas, mesmo que apenas virtualmente, se sentem valorizados em sua nova microcomunidade. “Eles (aliciados) são atraídos pela possibilidade de ser alguém naquele conjunto (comunidade formada por apoiadores dos extremistas). Até o termo ‘lobo solitário’ soa como enaltecedor. Eles buscam notoriedade, atenção”, afirmou.

O pesquisador afirmou ainda que a abordagem a novos adeptos é mais eficaz em países europeus, onde o fator religioso está frequentemente relacionado a situações de exclusão social de imigrantes. No Brasil, onde a radicalização religiosa e o ressentimento relacionado à imigração ocorrem de maneira distinta, o recrutamento seria mais difícil. “Mas aqui os recrutadores podem canalizar outros discursos, como o da exclusão social”.

À BBC Brasil, Brito elogiou ação das autoridades na prisão dos suspeitos na quinta-feira, mas ressaltou que o fato de aliciados e aliciadores não precisarem mais se encontrar pessoalmente diminui a possibilidade de que sejam identificados e presos.

Segundo o juiz federal Marcos Josegrei da Silva, o grupo detido pela Polícia Federal era composto por homens entre 20 e 40 anos. Embora nascidos no Brasil, todos os detidos usavam apelidos inspirados em nomes árabes. As autoridades, entretanto, não forneceram detalhes sobre o perfil e as motivações dos suspeitos.

‘Ameaça vem de fora’

Exemplos de postagens em português em grupo ligado ao EI
Exemplos de postagens em português em grupo ligado ao EI
Image copyrightTELEGRAM

Para o português Vasco da Cruz Amador, consultor de inteligência e segurança e CEO da agência Global Risk Awareness, de Londres, os principais riscos aos Jogos Olímpicos no Brasil “não vêm de dentro”.

“A principal ameaça que notamos acompanhando mais de cem grupos e páginas ligadas ao EI no Telegram é externa, não interna”, disse Amador à reportagem. “A maior parte dos chamados para lobos solitários que interceptamos apela para estrangeiros, e não para brasileiros”, diz.

Dados divulgados por agências como a Global Risk Awareness ou a SITE Intelligence Group, dos Estados Unidos, mostram que o EI estaria usando as salas de bate-papo do Telegram para convocar atos efetivos durante a Olimpíada.

Uma das principais inovações seria o estímulo para que lobos solitários utilizem drones com explosivos ou objetos pontiagudos. Entre os alvos principais estariam delegações de Israel, Estados Unidos, França e Inglaterra.

Além de oferecerem dicas para obtenção de vistos e passaportes, os extremistas forneceriam instruções para a obtenção de armamento no Brasil – na tríplice fronteira, no sul do país, ou em favelas cariocas. Lobos solitários estrangeiros, segundo as agências, estariam sendo convocados a usar recursos como sequestro, envenenamento e acidentes de trânsito durante os Jogos.

“As prisões no Brasil por suposta ligação com planos de terror do Estado Islâmico provam o amplo alcance do terror atualmente. Nenhum país onde exista internet está imune”, avaliou Rita Katz, diretora do SITE Inteligence Group, em sua conta no Twitter.
Ricardo Senra e Luis Kawaguti/BBC Brasil

EI está preparando terroristas para atacar Ocidente, diz CIA

Em relatório enviado ao Congresso, agência afirma que “Estado Islâmico” planeja novos ataques contra inimigos externos. Apesar dos progressos no campo de batalha, grupo mantém capacidade terrorista, reconhece diretor.

Vídeo de propaganda do EI mostra combatentes do grupo no Iraque e na Síria
Vídeo de propaganda do EI mostra combatentes do grupo no Iraque e na Síria

O diretor da CIA, John Brennan, alertou o Congresso americano nesta quinta-feira (16/06) sobre os planos futuros do grupo extremista “Estado Islâmico” (EI) contra o Ocidente, informou a agência de notícias AP.

Num relatório preparado para o Comitê de Inteligência do Senado, ao qual a AP teve acesso, Brennan diz que o EI está trabalhando para dirigir e inspirar novos ataques contra inimigo externos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“O EI tem um grande quadro de combatentes ocidentais que poderiam servir como potenciais operadores para ataques no Ocidente”, afirma se referindo a atentados recentes como os de Paris e Bruxelas.

O diretor da agência de inteligência americana diz que as lideranças do grupo extremista têm tentado enviar combatentes aos países-alvo como requerentes de asilo ou até em viagens normais, com documentação.

Brennan acrescentou que o EI incentiva seguidores a fazer ataques como “lobos solitários” nos países onde vivem. É o caso do americano de origem afegã Omar Mateen, que matou 49 pessoas numa casa noturna gay em Orlando no último domingo. Brennan classificou o massacre como “ato abominável de violência gratuita”.

Perdas e ganhos

Os EI está aos poucos cultivando suas ramificações para formar uma rede interconectada, segundo a CIA. O ramo líbio é o mais avançado e perigoso, e o braço da organização na Península do Sinai se tornou o “mais ativo e com maior potencial terrorista no Egito”, atacando posições oficiais e militares do governo, aponta Brennan. O ramo no Iêmen estaria enfrentando dificuldades, assim como os do Afeganistão e Paquistão, devido à rivalidade com o Talibã.

Apesar de descrever o EI como um “adversário tremendo”, o diretor da CIA diz que a coalizão internacional liderada pelos EUA tem imposto perdas aos terroristas na Síria e no Iraque. O EI têm tido dificuldade em repor seus combatentes, pois menos deles estão viajando à Síria, e muitos desertaram.

“O grupo parece estar muito longe de concretizar a visão divulgada por Abu Bakr al-Baghdadi [líder do EI], quando declarou o califado há dois anos em Mossul”, afirmou.

A capacidade do EI de arrecadar dinheiro tem diminuído, mas os extremistas ainda obtêm uma receita mensal de 10 milhões de dólares, com a arrecadação de impostos e o comércio de petróleo, apontou o diretor.

“Infelizmente, mesmo com todos os progressos contra o EI no campo de batalha e na esfera financeira, nossos esforços não têm reduzido a capacidade terrorista do grupo e seu alcance global”, disse Brennan.

Qual é o risco de ataque terrorista na Rio 2016?

Apesar de Brasil não ter um histórico de ações terroristas internacionais, evento do porte dos Jogos Olímpicos oferece riscos, principalmente para delegações estrangeiras. Abin leva a sério ameaça do “Estado Islâmico”.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) levou a sério uma ameaça contra o Brasil publicada no Twitter por um militante do “Estado Islâmico” (EI) em novembro de 2015.

No tuíte, o francês Maxime Hauchard disse que o país seria o próximo alvo do grupo responsável pelos recentes atentados em Paris e Bruxelas, que deixaram dezenas de mortos. O diretor de contraterrorismo da Abin, Luiz Alberto Sallaberry, afirmou que a mensagem eleva a probabilidade de o país sofrer ataques terroristas e também estimula as adesões de brasileiros ao grupo jihadista.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Especialistas ouvidos pela DW divergem sobre o risco de ataques durantes os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mas eles concordam que, apesar de o país não ter um histórico de ações terroristas internacionais nem estar envolvido em conflitos geopolíticos, um evento da magnitude dos Jogos Olímpicos – com delegações de mais de 200 países e grande audiência mundial – eleva o nível de alerta, pois se trata de uma vitrine para chamar a atenção internacional.

“Há o risco de terrorismo no Brasil porque o país vai abrigar um evento do porte dos Jogos Olímpicos. Eu acho que os brasileiros não seriam alvos diretos, mas os Jogos serviriam de palco, onde atletas internacionais poderiam ser atacados”, diz Fernando Brancoli, especialista em segurança internacional da FGV-Rio/CPDOC. “Haverá atletas de Israel, da França e dos Estados Unidos, que tradicionalmente são vistos como alvos potenciais pelo EI ou por outros grupos terroristas.”

Para Brancoli, a maior ameaça vem dos chamados lobos solitários, que são mais difíceis de serem rastreados por agirem sozinhos e, portanto, não se comunicarem. Trata-se de pessoas que se autorradicalizam e não necessariamente foram treinadas por grupos terroristas. “Além disso, é mais fácil obter uma grande quantidade de explosivos, fertilizantes [usados na construção de bombas] e armas no Brasil do que em outros países”, afirma.

O especialista em segurança internacional Héctor Luis Saint-Pierre, da Unesp, opina que a probabilidade de o Brasil sofrer um ataque agora é a mesma que os Estados Unidos teriam em 2001 ou a França antes dos atentados no final do ano passado. “Talvez eles não estivessem contando com a possibilidade de atos terroristas. E é justamente nessa falta de cálculo que os terroristas operam. O Brasil é vulnerável a ataques terroristas como qualquer outro país. Nenhum sistema é absolutamente seguro”, diz.

Já o especialista em segurança Antônio Flávio Testa, da UnB, avalia que um ataque no Rio de Janeiro é muito difícil de ocorrer, já que o governo federal está se preparando há meses e os Jogos vão acontecer basicamente em apenas uma cidade. “O EI já tem dificuldades imensas na Europa e nos EUA para realizar atentados. Abrir mais uma frente [na América do Sul] durante esse grande evento internacional teria um custo muito grande”, avalia.

Abin: “Não existe risco zero”

Em entrevista à DW no final do ano passado, Sallaberry afirmou que o Brasil trabalha discretamente, com o apoio de serviços de inteligência estrangeiros, para monitorar eventuais ameaças. Mas, ao mesmo tempo, ele admitiu que “não existe risco zero quando o tema é segurança e, muito menos, quando se trata de terrorismo”.

Os Jogos Olímpicos já foram alvo de atentados terroristas. Em 1972, durante os Jogos de Munique, 11 membros da delegação de Israel e um policial alemão foram mortos por militantes do grupo Setembro Negro, ligado à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Em 1996, em Atlanta, duas pessoas morreram por causa da explosão de uma bomba no Parque Olímpico.

Segundo a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), do Ministério da Justiça, o Brasil contará com um efetivo de 85 mil pessoas para garantir a segurança da Rio 2016, entre eles 47 mil profissionais de segurança pública, incluindo cerca de 9.500 da Força Nacional, 18.500 policiais militares e 1.822 policiais civis do Rio de Janeiro. Além disso, as Forças Armadas vão disponibilizar 38 mil soldados.

Em documento sobre a segurança dos Jogos, a Sesge diz que a cooperação é a principal ferramenta das forças de segurança contra o terrorismo, ao lado da capacitação e investimentos em equipamentos. A secretaria lembra que a Polícia Federal tem uma divisão de terrorismo há mais de 20 anos e adidâncias em mais de 20 países, além de participar da Interpol, onde troca informações com 190 países.

Para Brancoli, o Brasil está bem preparado. Mas, com a lei antiterrorismo aprovada no final de fevereiro pelo Congresso, abre a possibilidade da naturalização de práticas que podem ser danosas para a sociedade civil, como a criminalização de movimentos sociais.

“Eu estaria menos preocupado com um ataque terrorista no Brasil, apesar de as chances existirem. Sou mais reticente sobre essas práticas que vêm a reboque da constituição jurídica do que é um terrorista. Essas ferramentas poderiam ser usadas pelo governo não só contra terroristas, mas também para enfrentar opositores e cercear os direitos individuais dos brasileiros”, conclui.
DW

A estratégia midiática do Estado Islâmico

A especulação sobre a posição ideológica dos terroristas tornou-se uma certeza quando, na tarde daquele dia, os canais do Estado Islâmico na Telegram, a plataforma de mídia social preferida pelos jihadistas, fizeram circular em língua inglesa uma reivindicação de responsabilidade.

O texto, transferido para a página, em WordPress, da Amaq News Agency, a agência de notícias “oficial” do Estado Islâmico, foi instantaneamente transmitido, por milhões de computadores e desmartphones, para veículos jornalistas e comentaristas do mundo inteiro.

Foi assim que o Estado Islâmico assumiu o espaço da narrativa em torno dos atentados, embora a declaração de responsabilidade não fornecesse qualquer nova informação e, na realidade, parecesse uma fusão de detalhes da operação já observados pelas reportagens da mídia ocidental.

Na avalanche de incertezas que se seguiu aos atentados, os responsáveis pela propaganda do Estado Islâmico puderam ditar seu texto – literalmente, palavra por palavra – para uma audiência internacional e especificamente ocidental. A divulgação da reivindicação de responsabilidade primeiramente na língua inglesa não foi um erro.

Dirigida, em primeiro lugar e principalmente, aos inimigos ocidentais do Estado Islâmico, a declaração foi uma maneira de capitalizar o tumultuado noticiário da mídia internacional logo depois dos atentados em Bruxelas. Seja por meio de manchetes ou pelo Twitter, os responsáveis pela propaganda manipularam uma audiência global – tanto de opositores quanto de simpatizantes – para disseminar sua mensagem de intimidação e realçar a percepção da ameaça do Estado Islâmico.

O grupo preferia divulgar filmes com assassinatos

A técnica não é nova. Na verdade, os terroristas mais recentes adotaram há muito tempo a “propaganda do fato”, uma tática que, nas palavras do especialista em operações de informação do exército australiano Jason Logue, envolve “planejar e executar operações que têm por objetivo exclusivo a atração de sua propaganda”. O Estado Islâmico usa a mídia como nenhuma outra organização terrorista.

Ele sabe que, embora o território e os recursos sejam fundamentais para o sucesso total de sua insurreição agressiva na Síria e no Iraque, a mídia é a arena onde se trava a guerra de ideias, onde a relevância do grupo – e, em última instância, a longevidade de suas concepções – pode ser preservada e talvez intensificada, mesmo que passe por perdas de território.

O terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Continua durante as horas, os dias de as semanas que se seguem, alimentado pela mídia. Em reconhecimento a isso, o Estado Islâmico priorizou a propaganda do fato e, com certeza, parece executá-lo cada vez melhor.

Apenas algumas horas depois que explodiram as primeiras bombas em Bruxelas, os responsáveis “oficiais” pela propaganda do Estado Islâmico foram repassando pouco a pouco, a uma audiência ávida por informações, uma série de reivindicações, em várias línguas e em multimídia, que pareciam simplesmente novas versões do que a mídia já divulgara. Por ocasião dos atentados de Paris, esse tipo de declaração levou 15 horas para vir à tona. Na terça-feira levou metade do tempo.

No passado, o grupo preferia divulgar filmes com assassinatos como principal veículo de propaganda do fato, como, por exemplo, as decapitações praticadas por Mohammed “Jihadi John” Emwazi ou a imolação do piloto jordaniano Mu’adh al-Kasasbeh. No entanto, à medida que a mídia foi se tornando mais experiente e o consumidor mais insensível, esses filmes aparentemente perderam parte de sua capacidade de ocupar as pautas globais.

Por outro lado, ações terroristas de pilhagem ou de saque contra o inimigo “cruzado” em terras distantes – infinitamente mais difíceis de serem realizadas – ainda não chegaram ao ponto do rendimento decrescente na atenção global. Isso provavelmente significa que devemos esperar por mais.

Usar “o peso da mídia contra a mídia”

Nas últimas semanas, entre reportagens sobre perdas territoriais, morte de líderes e a prisão de Abdeslam, o tema de cobertura da mídia ocidental concentrou-se na promoção de um “o declínio do Estado Islâmico”. Ao conseguir operações como os atentados de Bruxelas e, então, capitalizar habilmente o tumulto de mídia que se seguiu, o Estado Islâmico pode, até certo ponto, substituir a percepção de declínio por outra que transmita a ideia oposta.

Não importa se a cobertura que se segue for negativa – digamos, criticando a brutalidade do grupo ou questionando sua legitimidade religiosa. Para o Estado Islâmico, desde que seja nos termos dos responsáveis por sua propaganda e transmita a suposta força e onipresença do grupo, qualquer cobertura é boa cobertura.

Nesse sentido, o terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Em vez disso, continua por horas, dias e semanas, alimentado pela mídia.

Ao mesmo tempo em que procuram criar um impasse econômico e instabilidade política, operações como as de Bruxelas, Istambul, Jacarta e Paris também continuam porque tornam possível aos terroristas – sejam eles seguidores do Estado Islâmico ou da al-Qaida – tomar controle do discurso da mídia e lutar pelo domínio absoluto da informação.

Portanto, independentemente de quanto a liderança do Estado Islâmico estava envolvida no planejamento propriamente dito dos atentados de terça-feira – ou se o grupo está reivindicando como sua uma operação em grande parte autônoma, como já fez no passado –, eles incentivam eventos como esses também para que sua equipe de comunicação possa, como diz o estudioso de insurreições Neville Bolt, usar “o peso da mídia contra a mídia”. Avaliado por esse prisma, o Estado Islâmico está matando em nome de ficar no ar – e está conseguindo o que quer.

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Charlie Winter, é jornalista
Publicado originalmente na revista The Atlantic, 23/3/2016 sob o titulo “Why ISIS propaganda works?” Tradução de Jo Amado.

Como Bruxelas virou centro do extremismo islâmico na Europa

Burocracia excessiva, descentralização do Estado, rivalidade entre valões e flamengos e má integração de minoria muçulmana são algumas das explicações para capital belga ter se tornado foco do jihadismo.

Bruxelas foi alvo de atentados no aeroporto internacional Zaventem e na estação de metrô de Maelbeek, próxima a prédios da União Europeia. Os ataques desta terça-feira (22/03) foram reivindicados pelo grupo jihadista “Estado Islâmico” (EI).

Apesar de ser esta a primeira vez que a capital belga é alvo de atentados, ela tem sido frequentemente associada ao terrorismo islâmico. A DW lista a seguir quatro fatores que contribuíram para que Bruxelas se tornasse centro do jihadismo na Europa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Recrutas belgas” do “Estado Islâmico”

O especialista em terrorismo Guido Steinberg afirma haver uma relação entre os frequentes alertas terroristas em Bruxelas e o que ele chama de “recrutas belgas”, cidadãos do país europeu que se uniram ao grupo “Estado Islâmico” na Síria. “O EI decidiu contra-atacar na Europa. E como ele dispõe de muitos recrutas belgas e também franceses, Bruxelas é, ao lado de Paris, um dos pontos centrais da onda de atentados dos últimos meses”, afirmou Steinberg à emissora alemã de noticias N-TV.

De fato, as autoridades de segurança de Bélgica identificaram centenas de jovens do país que viajaram à região de guerra no Oriente Médio. Este é o caso do francês Salah Abdeslam, que reside no distrito de Molenbeek, em Bruxelas, e de Abdelhamid Abaaoud, dois presumíveis responsáveis pelos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris. As autoridades do país estimam que mais de 450 belgas partiram para a Síria e outros centros do EI no mundo árabe.


Abdelhamid Abaaoud é um dos mentores dos atentados de Paris

Segundo o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR), dos 11 mil combatentes estrangeiros que se juntaram aos jihadistas na Síria e no Iraque entre 2011 e 2013, quase um quinto saiu da Europa Ocidental. Com pelo menos 296 recrutas, a Bélgica ocupa o topo dessa lista, em números absolutos.

Para efeito de comparação, na Alemanha, país de população oito vezes maior, estima-se que haja até 240 combatentes do jihad, a “guerra santa”. Proporcionalmente à população, a Bélgica tem 27 jihadistas para cada milhão de habitantes, sendo, portanto, o principal “fornecedor” de combatentes europeus. “Os belgas afrouxaram as rédeas quanto à observação da cena [jihadista] e a medidas preventivas”, comentou à DW Asiem El Difraoui, cientista político especializado em Oriente Médio.

Para muitos especialistas, a discriminação e má integração dos muçulmanos à sociedade está na origem do problema. Cerca de 6% dos belgas são muçulmanos. Segundo apontou um estudo da Rede Europeia Contra o Racismo, mesmo quando falam a língua perfeitamente ou são falantes nativos, eles são tratados como estrangeiros.

A ONG Anistia Internacional também criticou o governo belga pela falta de esforços para a integração. Segundo um estudo de 2012, facilitou-se às empresas a recusa de candidatos a emprego por motivos religiosos. As mulheres muçulmanas que usavam o véu foram as mais afetadas. A frustração resultante de situações como essa propicia a radicalização e o recrutamento por grupos fundamentalistas islâmicos.

Estado bilíngue e descentralizado

Muitos especialistas em segurança internacional apontam há bastante tempo a Bélgica como o “calcanhar de Aquiles” da Europa, no que tange à violência islâmica. Os fatores citados são a grande população muçulmana, estruturas estatais fragmentadas pelas profundas cisões entre flamengos e valões (de língua francesa), e um histórico de mercado de armas de fogo (legais e ilegais).

“A Bélgica ostenta uma posição central no coração da Europa. É um país pequeno, cuja localização favorece o movimento de pessoas com intenções hostis”, afirma o primeiro-ministro belga, Charles Michel, insistindo, no entanto, que sua coalizão de centro-direita está enfrentando o problema.

Na opinião do cientista político El Difraoui, o conflito interno entre Flandres e Valônia contribui para o fracasso na luta contra o terrorismo islâmico. “Os belgas estão, simplesmente, preocupados demais consigo mesmos.” Há anos a rivalidade entre flamengos e valões tem impedido o governo de cuidar dos problemas internos do país, diz o especialista.

Ataques paralisam Bruxelas e deixam Europa em alerta máximo

O professor do Centro de Terrorismo e Contraterrorismo da Universidade de Leiden, Edwin Bakker, também afirma que a extrema descentralização, que tem sido a resposta da Bélgica às forças regionais que tentam dividi-la há décadas, enfraquece a reação do Estado a ameaças como o terrorismo.

“A Bélgica é um Estado federado e isso sempre é uma vantagem para terroristas. Os diferentes níveis administrativos travam o fluxo de informações entre os investigadores.” Além disso, como grande fabricante de armas durante muito tempo, a Bélgica também se tornou um centro de distribuição para o tráfico de armas a partir dos Bálcãs e de outros locais.

“Em algumas partes de Bruxelas, existem áreas onde a polícia tem pouca influência, áreas muito segregadas, que não se sentem parte do Estado belga”, acrescenta Bakker. “Embora vizinhos possam ter visto algo acontecendo, eles não passam a informação adiante à polícia.”

Polícia caótica

É difícil dizer quem seja o responsável pela segurança da capital da Bélgica, hoje notória como local de origem de alguns dos terroristas que executaram os atentados do 13 de Novembro em Paris.

Com cerca de 1,2 milhão de habitantes, Bruxelas está longe de ser uma das maiores metrópoles da Europa, mas tem uma estrutura municipal e política extremamente complicada. Críticos do sistema criticam que esse nó entrava os esforços para melhorar a segurança e combater o terrorismo.

Luta contra a radicalização da juventude belga

“Em termos de segurança, Bruxelas é um exemplo perfeito de verdadeiro caos”, afirmou o prefeito de Vilvoorde, Hans Bonte, à rede de TV RTBF. Sua cidade nos arredores da capital também já foi apontada como um epicentro de terrorismo, mas tem liderado esforços para erradicar o problema.

Em vez de uma administração centralizada, Bruxelas tem um total de 19communes, extremamente autônomas e que dispõem de seus próprios prefeitos, vereadores e regras locais. Alguns dos conselhos municipais dessas áreas contam com até 50 membros.

Aos prefeitos, cabe administrar não apenas a educação e os bens públicos, mas também manter a segurança em suas áreas. E muitas vezes as administrações dependem de coalizões frágeis para se manter no poder. Entre essas prefeituras está a de Molenbeek, apontada por órgãos de inteligência como local de concentração de diversos terroristas que atacaram Paris.

Toda a área que compreende as prefeituras é, em princípio, comandada por uma espécie de primeiro-ministro. Na prática, ele tem pouco poder, e a questão da segurança não faz parte de suas atribuições.

Para complicar ainda mais, também existe a figura de um governador para toda a área, uma função burocrática que representa os interesses do governo federal na região. Por fim, a capital ainda tem três comissões para atender a suas comunidades linguísticas em assuntos como educação e cultura, cada uma com seu próprio parlamento.

Prisão de Salah Abdeslam em Molenbeek

Essa fragmentação também se estende à polícia local. A cidade não possui um departamento de polícia, mas seis – todos independentes –, cujas zonas de atuação se estendem por várias prefeituras. O efetivo policial total da área da capital inclui 5 mil homens, que não respondem a um comando unificado, e sim a seis colégios formados pelos prefeitos na área de cada uma das zonas de atuação. Esses prefeitos também têm interesses que muitas vezes não coincidem entre si, além de serem rivais no plano federal, pois vários deles também são deputados.

Há também outros complicadores, como o fato de a vigilância no interior dos trens de Bruxelas ser uma atribuição da polícia federal e o policiamento das estações de trem ser responsabilidade das polícias locais.

Vários políticos já propuseram uma unificação dos seis departamentos de polícia da capital, mas, também aqui, a iniciativa esbarra nas divisões do Estado belga. O movimento de unificação é liderado pelos partidos da região de Flandres, de maioria flamenga; e os políticos francófonos de Bruxelas são contra a unificação, por temerem perder sua autonomia regional.

Molenbeek

Todos os problemas da Bélgica parecem se refletir nesse distrito a oeste de Bruxelas, lar de muitos muçulmanos, principalmente de famílias oriundas do Marrocos e da Turquia. Desde os atentados terroristas de 13 de novembro de 2015, o nome Molenbeek é quase sempre lembrado quando se fala em extremismo islâmico na Europa.

Salah Abdeslam, capturado em Molenbeek após 125 dias foragido

Lá morava Salah Abdeslam, um dos mentores dos ataques na capital francesa. E também lá ele foi preso pela polícia belga, na última sexta-feira. Um membro destacado do grupo por trás dos atentados a trens de Madri, que em 2004 mataram 191 pessoas, era natural de Marrocos e vivia em Molenbeek.

O distrito bruxelense está relacionado a dois ataques terroristas na França em 2015. Autoridades de segurança afirmam que Amedy Coulibaly, responsável por quatro mortes num mercado judaico em Paris na época do atentado contra o tabloide satírico Charlie Hebdo, em janeiro, adquiriu armas em Molenbeek. Assim como o homem que foi dominado antes de conseguir disparar suas armas num trem de alta velocidade Thalys, que viajava entre Amsterdã e Paris, em agosto.

Um suposto complô para atacar a polícia belga em janeiro de 2015, evitado com uma operação policial que matou dois homens na cidade belga de Verviers, tinha conexões com Molenbeek. E um francês acusado de matar a tiros quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas, em 2014, também passou um tempo no distrito.

A prisão de Abdeslam, em 18 de março de 2016, voltou a chamar a atenção para o distrito e as dificuldades da polícia belga. Depois de quatro meses fugindo, o jovem de 26 anos foi preso em Molenbeek, a apenas alguns metros da casa de sua família e praticamente sob o nariz das autoridades belgas.

“Ou Salah Abdeslam foi muito esperto, ou os serviços belgas foram muito incompetentes – o que é mais provável”, afirmou o deputado francês Alain Marsaud, ex-investigador especializado em terrorismo.
DW