Covid-19, menu degustação da crise climática

O abismo no qual um coronavírus precipitou muitos países ilustra o custo humano da negligência em relação a um perigo já perfeitamente identificado.

Evocar o destino não pode esconder o óbvio: prevenir é melhor que remediar. Os adiamentos atuais na luta para mitigar o aquecimento global, porém, podem levar a fenômenos muito mais dramáticos. Em março de 2020, a crise da saúde relegou as notícias sobre o clima para longe das manchetes. No entanto, este mês será marcado como o décimo consecutivo com uma temperatura média acima do normal na França. “Uma série de dez meses ‘quentes’ consecutivos em escala nacional é sem precedentes”, observa a Météo France, cujos dados permitem voltar até 1900.

O inverno passado bateu todos os recordes, com temperaturas 2 °C acima do normal em dezembro e janeiro e 3 °C em fevereiro. Como forma de se tranquilizar, as pessoas preferiram lembrar a espetacular melhoria na transparência atmosférica. Vislumbres de esperança: o Himalaia tornou-se de novo visível no horizonte de cidades do norte da Índia, assim como o Mont Blanc nas planícies de Lyon.

Não há dúvida de que a interrupção de grande parte da produção levará a uma redução sem precedentes nas emissões de gases de efeito estufa. Mas podemos realmente acreditar que um declínio histórico vai começar? Ao revelar a vulnerabilidade de nossa civilização e as fragilidades associadas ao modelo de crescimento econômico globalizado, por causa da hiperespecialização e dos fluxos incessantes de pessoas, bens e capitais, a Covid-19 causará um eletrochoque salutar? A crise econômica e financeira de 2008 também gerou uma queda significativa nas emissões, mas em seguida elas rapidamente voltaram a subir, quebrando novos recordes…

Prenúncio de possíveis colapsos mais sérios, o atual naufrágio sanitário pode ser visto ao mesmo tempo como um modelo em escala e como uma experiência acelerada do caos climático que se aproxima. Antes de se tornar um problema de saúde, a multiplicação de vírus patogênicos remete também a uma questão ecológica: o efeito das atividades humanas na natureza.2 A exploração interminável de novas terras perturba o equilíbrio do mundo selvagem, enquanto a concentração de animais nas fazendas favorece as epidemias.

O vírus afetou primeiro os países mais desenvolvidos, porque sua velocidade de propagação permanece intimamente ligada às redes de comércio marítimas e sobretudo aéreas, cujo desenvolvimento constitui igualmente um dos vetores crescentes das emissões de gases de efeito estufa. A lógica do curto prazo, do just in time, e a extinção das precauções mostram a capacidade autodestrutiva aos seres humanos da primazia concedida ao ganho individual, à vantagem comparativa e à competição.

Ainda que certas populações ou regiões se mostrem mais vulneráveis que outras, a pandemia afeta gradualmente todo o planeta, assim como o aquecimento global não se limita aos países que emitem mais CO2. A cooperação internacional se torna então essencial: frear o vírus ou as emissões de gases do efeito estufa localmente será inútil se o vizinho não fizer o mesmo.

Difícil fingir ignorância diante do acúmulo de diagnósticos. A intensidade da pesquisa e do debate científico tornou a maioria das informações acessíveis, e a precisão destas está sendo constantemente refinada. No caso da Covid-19, vários especialistas alertam sobre ela há anos, em particular o professor Philippe Sansonetti, docente do Collège de France, que apresenta a emergência infecciosa como um grande desafio do século XXI.

Não faltaram alarmes claros: vírus da influenza como o H5N1 em 1997 e o H1N1 em 2009; coronavírus como o COV-1 em 2003, depois o Mers em 2012. Da mesma forma, o relatório Charney, enviado ao Senado dos Estados Unidos há quarenta anos, já alertava sobre as possíveis consequências climáticas do aumento da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. As estruturas multilaterais de compartilhamento de conhecimento e ação conjunta existem há cerca de trinta anos, com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e, depois, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Finalmente, os cientistas não evitam esforços para informar os tomadores de decisão e as empresas sobre a ameaça de um aquecimento que se acelera.

Os cenários de crise também são conhecidos. Muito rapidamente após o aparecimento da Covid-19, vários pesquisadores e autoridades de saúde alertaram para o perigo de uma pandemia. A ironia da situação é que, em meados de abril de 2020, os países menos afetados são os vizinhos mais próximos da China: Taiwan, seis mortos; Cingapura, dez mortos; Hong Kong, quatro mortos; Macau, zero. Escaldados pelo episódio da Sars em 2003 e conscientes do risco da epidemia, eles imediatamente colocaram em prática as medidas necessárias para reduzi-la: controles sanitários nas entradas, testes em quantidade, isolamento de pacientes e quarentena para os potenciais contaminados, uso generalizado de máscara etc.Aquecimento Global,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 01

Na Europa, os governos continuaram a administrar o que consideravam suas prioridades: reforma previdenciária na França, Brexit do outro lado do Canal da Mancha, crise política quase perpétua na Itália… Então, para as semanas que estavam por vir, eles prometeram ações ou meios que já deveriam ter aplicado meses antes! Esse descuido os levou a tomar medidas muito mais drásticas que aquelas que poderiam ter sido suficientes no devido tempo, não sem maiores consequências no plano econômico, social ou das liberdades públicas. Sempre deixando para amanhã o cumprimento de seus compromissos assumidos em 2015 no âmbito do Acordo de Paris sobre o clima – ou negando a assinatura dele por seu país, como fez o presidente norte-americano –, os Estados procuram ganhar tempo. Na verdade, eles o estão perdendo!

Cavando nossa dívida ambiental

A súbita aceleração experimentada pela propagação do vírus na Europa antes do confinamento deveria deixar uma impressão duradoura nas pessoas. Os sistemas naturais raramente evoluem de maneira linear em resposta a distúrbios significativos. Nesse tipo de situação, é preciso saber detectar e levar em consideração os primeiros sinais de desequilíbrio antes de se confrontar com acelerações incontroláveis que podem levar a pontos de não retorno. Quando cuidadores ou funcionários de casas de repouso, deixados sem proteção e sem rastreamento, tornam-se eles próprios portadores do vírus, isso cria focos de contaminação em ambientes altamente sensíveis, que podem levar ao colapso dos sistemas de saúde, o que impõe um confinamento generalizado.

Da mesma forma, em termos de mudança climática, efeitos de retardo e retroações positivas – efeitos de retorno que amplificam a causa de partida – aprofundam nossa dívida ambiental, como um tomador de empréstimo sem dinheiro cujos novas contratações para pagar uma dívida antiga seriam feitas a uma taxa cada vez mais alta. A diminuição da cobertura de neve e o derretimento das geleiras se traduzem no desaparecimento de superfícies que refletem naturalmente a radiação solar, criando condições para uma aceleração do aumento da temperatura nas regiões envolvidas, resultando em um derretimento ainda mais reforçado que alimenta ele próprio o aquecimento. Assim, o derretimento do permafrost do Ártico – que cobre uma área duas vezes maior que a Europa – poderia levar a emissões maciças de metano, um poderoso gás de efeito estufa que multiplicaria por dez o aquecimento global.

Parte crescente da população sente a urgência de agir, faz suas próprias máscaras, organiza ajuda para os idosos. Mas qual é o sentido de pedalar, fazer compostagem ou reduzir seu consumo de energia quando o uso de combustíveis fósseis ainda é amplamente subsidiado e sua extração alimenta o aparato de produção e os números do “crescimento”? Como sair do repetitivo fenômeno das crises amplificado pelo discurso político-midiático: negligência, agitação, terror e depois esquecimento?Aquecimento Global,Meio Ambiente,Poluição

Porque existem duas diferenças fundamentais entre a Covid-19 e as mudanças climáticas: uma diz respeito às possibilidades de regular o choque sofrido, e a outra, à nossa capacidade de se adaptar a ele. A autorregulação das epidemias por aquisição de imunidade coletiva não faz da Covid-19 uma ameaça existencial para a humanidade, que já superou a peste, o cólera ou a gripe espanhola em condições sanitárias mais difíceis.

Com uma taxa de mortalidade provavelmente situada em torno de 1% – bem inferior a outras infecções –, a população do planeta não está ameaçada de extinção. Além disso, e mesmo que tenham sido negligentes no início, os governos dispõem do conhecimento e das ferramentas apropriadas para vir em socorro dessa autorregulação natural e diminuir o choque.

Relativamente circunscrita, a crise da Covid-19 pode ser comparada em sua dinâmica aos incêndios que queimaram a floresta australiana em 2019. Há um começo e um fim, embora este último atualmente seja muito difícil de definir e um retorno sazonal da epidemia não esteja descartado. As medidas adotadas para se adaptar a ela são relativamente bem aceitas pela população, desde que sejam percebidas como temporárias.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

Por outro lado, a inação em questões climáticas nos fará sair dos mecanismos de regulação sistêmicos, levando a danos graves e irreversíveis. Podemos esperar uma sucessão de choques variados, cada vez mais fortes e frequentes: ondas de calor, secas, inundações, ciclones, doenças emergentes. O gerenciamento de cada um desses choques se assemelhará ao de uma crise de saúde do tipo Covid-19, mas sua repetição nos fará entrar num universo no qual as tréguas se tornarão insuficientes para se recuperar. Imensas áreas com uma grande parte da população mundial se tornarão inviáveis para viver ou simplesmente não mais existirão, pois serão invadidas pela subida do nível das águas.

É todo o edifício de nossas sociedades que está ameaçado de colapso. O acúmulo de gases de efeito estufa em nossa atmosfera é ainda mais deletéria pelo fato de que o CO2, o mais difundido deles, só desaparecerá muito lentamente, com 40% permanecendo presente na atmosfera após cem anos e 20% após mil anos.

Cada dia perdido em reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis torna ainda mais caras as ações a serem tomadas no dia seguinte. Cada decisão rejeitada como “difícil” hoje levará a decisões ainda mais “difíceis” amanhã, sem esperança de “cura” e sem outra escolha a não ser adaptar-se, seja qual for o caso, a um novo ambiente, cujo funcionamento teremos dificuldade para dominar.

Devemos afundar no desespero enquanto aguardamos o apocalipse? A crise da Covid-19 ensina, pelo contrário, a imperiosa utilidade da ação pública, mas também a necessária ruptura com a marcha anterior. Após uma aceleração tecnológica e financeira predatória, esse tempo suspenso se torna um momento de tomada de consciência coletiva e de questionamento de nosso modo de vida e de nossos sistemas de pensamento.

O vírus Sars-COV-2 e a molécula de CO2 são objetos nanométricos, invisíveis e inodoros para o comum dos mortais. No entanto, sua existência e seu efeito (patogênico em um caso; criador do efeito estufa no outro) são amplamente aceitos, tanto pelos tomadores de decisão como pelos cidadãos. Apesar da inconsistência do que os governos apregoam, o essencial da população rapidamente compreendeu as questões envolvidas e a necessidade de certas medidas de precaução. A ciência representa nos tempos atuais um guia precioso para a decisão, com a condição de não se tornar uma religião que foge das necessidades de demonstração e de contradição. E a racionalidade deve mais do que nunca levar à exclusão de interesses particulares.

Decrescimento de produtos insustentáveis

Todos os países dispõem de reservas estratégicas de petróleo, mas não de máscaras de proteção… A crise da saúde coloca em primeiro plano a prioridade que deve ser dada aos meios de subsistência: alimentação, saúde, moradia, meio ambiente, cultura. Ela também lembra a capacidade da maior parte das pessoas de entender o que acontece por vezes mais rapidamente que os tomadores de decisão. As primeiras máscaras caseiras apareceram assim, quando a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye, ainda considerava seu uso inútil…

Por outro lado, parecemos mais bem preparados para reagir a ameaças concretas imediatas que para construir estratégias que nos permitam fazer frente aos riscos mais distantes, com efeitos ainda pouco perceptíveis.5 Daí a importância de uma organização coletiva motivada apenas pelo interesse geral e de um planejamento que articule necessidades.

Muito mais que a Covid-19, o desafio climático leva a questionar nosso sistema socioeconômico. Como tornar aceitável uma evolução tão drástica, uma mudança ao mesmo tempo social e individual? Antes de tudo, não confundindo a atual – e deletéria – recessão com a redução benéfica de nossa produção insustentável: menos produtos exóticos, que desperdiçam muita energia, caminhões, carros, seguros; mais trens, bicicletas, camponeses, enfermeiras, pesquisadores etc. As consequências concretas desse decrescimento só se tornarão aceitáveis para o maior número de pessoas quando recolocarmos a justiça social entre as prioridades e promovermos a autonomia dos coletivos em todos os níveis.

Um teste muito concreto e rápido da capacidade dos governos de derrubar os dogmas de ontem estará em sua atitude em relação ao Tratado da Carta da Energia. Esse acordo, que entrou em vigor em 1998 e vem sendo renegociado desde novembro de 2017, criou um mercado internacional “livre” de energia que envolve 53 países. Com o objetivo de tranquilizar os investidores privados, ele lhes concede a possibilidade de processar em tribunais arbitrais com poderes exorbitantes qualquer Estado que possa tomar decisões contrárias à proteção de seus interesses, decidindo, por exemplo, sobre a interrupção do uso da energia nuclear (Alemanha), a moratória das perfurações no mar (Itália) e o fechamento de usinas a carvão (Holanda).

E não se priva de sancionar os Estados por suas atitudes ambientalmente responsáveis: no fim de março de 2020, pelo menos 129 casos desse tipo foram objeto de uma “resolução de controvérsias”,6 um recorde em matéria de tratados de livre-comércio. Resultado: condenações para os Estados em um total de mais de US$ 51 bilhões.7 Em dezembro passado, 280 sindicatos e associações pediram à União Europeia que se retirasse desse tratado, que consideram incompatível com a aplicação do Acordo de Paris sobre o clima.Fome,Economia,Capitalismo,A vida como não deveria ser,Pobreza,Crianças,Fotografias

Trata-se menos de um plano para reviver a economia de ontem, da qual os países industrializados precisarão ao sair da crise da saúde, do que um plano de transformação em direção a uma sociedade na qual todos possam viver com dignidade, sem colocar em perigo os ecossistemas. A amplitude do recurso indispensável ao dinheiro público – que ultrapassará tudo que um dia conhecemos – oferece uma oportunidade única de condicionar apoios e investimentos à sua compatibilidade com a mitigação da mudança climática e a adaptação a essa mudança.

Philippe Descamps é jornalista do Le Monde Diplomatique; Thierry Lebel é hidroclimatologista, diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) e do Instituto de Geociências Ambientais (IGE, Grenoble, França) e colaborador dos trabalhos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

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Estudo alerta para significativa emissão de CO² em margens de rios e lagos secos

Para a manutenção da vida na Terra, apenas 0,03% de gás carbônico (CO2) na atmosfera terrestre é suficiente.

Mesmo apesar de todos esforços científicos e também educacionais, presenciamos todos os dias noticiários sobre o aumento do desmatamento, onde só piora mais ainda esse fator. Já se falam também em uma nova Pandemia mais devastadora do que a que nós estamos vivenciando. E a que se vivência atualmente é só um ensaio para a próxima! Onde iremos parar se não começarmos a pensar? Na destruição do Globo em massa! É lamentável depois de tudo isso nada ser mudado, avaliado, pensado…. É lamentável!

O seu excesso faz com que a temperatura global aumente provocando desequilíbrios – o aumento de 3,5 °C da temperatura do planeta é capaz de promover a extinção de 70% de todas as espécies, de acordo com uma projeção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Um estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com o Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ) na Alemanha e o Catalan Institute for Water Research (ICRA) na Espanha, descobriu que as taxas de emissão de CO2 em áreas secas de ambientes aquáticos, como bordas de rios, lagos e reservatórios, que secam em períodos de estiagem, são significativas em escala global.

De acordo com o pesquisador do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade da UFJF, Nathan Barros: “Nos modelos atuais, estes fluxos não são considerados e diziam que eram insignificantes. Nossa hipótese era que os fluxos não eram insignificantes”.

A razão disso é que os sedimentos expostos pela dessecação de ambientes aquáticos podem contribuir para elevar as taxas de emissões de CO2 para a atmosfera mais do que a superfície da água durante períodos inundados.

Os pesquisadores testaram essa hipótese realizando uma investigação em escala global para quantificar os fluxos de CO2 em 196 áreas secas de ambientes aquáticos de todos os continentes, com exceção da Antártica, em diferentes tipos de ecossistemas de águas interiores e zonas climáticas.

Os resultados sugerem que as áreas investigadas, consideradas “insignificantes”, emitem mais CO2 do que áreas de lagos e lagoas inundadas. Barros explica que é importante entender os fluxos dos gases de efeito estufa causadores das mudanças climáticas e o tamanho dessa emissão.

Aquecimento Global: Potenciais ataques fatais de calor e umidade em alta

Cientistas identificam milhares de eventos extremos, sugerindo alertas severos sobre aquecimento global já estão chegando.

O número de eventos potencialmente fatais de umidade e calor dobrou entre 1979 e 2017 e está aumentando em frequência e intensidade. Foto: Dave Hunt / AAP

Surtos intoleráveis ​​de umidade e calor extremos que podem ameaçar a sobrevivência humana estão aumentando em todo o mundo, sugerindo que os piores cenários de alerta sobre as consequências do aquecimento global já estão ocorrendo, revelou um novo estudo. Um bilhão de pessoas viverá em um calor insuportável dentro de 50 anos.

Os cientistas identificaram milhares de surtos não detectados anteriormente da combinação de clima mortal em partes da Ásia, África, Austrália, América do Sul e América do Norte, incluindo vários pontos quentes ao longo da costa do Golfo dos EUA.

A umidade é mais perigosa do que o calor seco, porque prejudica a transpiração – o sistema de refrigeração natural do corpo que salva vidas.

O número de eventos potencialmente fatais de umidade e calor dobrou entre 1979 e 2017 e está aumentando em frequência e intensidade, de acordo com o estudo publicado na Science Advances.

Nos EUA, a região costeira do sudeste do Texas ao Panhandle da Flórida experimentou condições extremas dezenas de vezes, com Nova Orleans e Biloxi, Mississippi, as mais atingidas.

Os incidentes mais extremos ocorreram ao longo do Golfo Pérsico, onde a combinação de calor e umidade ultrapassou o limite teórico de sobrevivência humana em 14 ocasiões. Doha, capital do Catar, onde a Copa do Mundo será realizada em 2022, estava entre os lugares para sofrer – ainda que brevemente – esses eventos climáticos potencialmente fatais.

As descobertas ameaçadoras são uma surpresa para os cientistas, pois estudos anteriores haviam projetado que eventos climáticos extremos ocorreriam no final do século, principalmente em partes dos trópicos e subtrópicos, onde a umidade já é um problema.

“Estudos anteriores projetaram que isso aconteceria daqui a várias décadas, mas isso mostra que está acontecendo agora”, disse o principal autor Colin Raymond, do Observatório da Terra da Universidade Columbia, de Lamont-Doherty. “Os últimos tempos desses eventos aumentarão e as áreas que afetam crescerão em correlação direta com o aquecimento global”.Aquecimento Global,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 01

Os estudos anteriores contaram com o calor e a umidade médios registrados durante várias horas em grandes áreas, enquanto a equipe da Columbia analisou dados horários de 7.877 estações meteorológicas individuais, permitindo identificar incidentes curtos e localizados.

Em condições secas, o corpo transpira o excesso de calor pela pele, onde evapora. A umidade impede a evaporação e pode até detê-la completamente em condições extremas. Se o núcleo do corpo superaquecer, os órgãos podem rapidamente começar a falhar e levar à morte em poucas horas.

Os meteorologistas medem o efeito de calor / umidade na escala Centígrada chamada “bulbo úmido”, conhecida como “índice de calor” ou leituras Fahrenheit “reais” nos EUA.

Mesmo as pessoas mais fortes e bem adaptadas não podem realizar atividades comuns ao ar livre, como caminhar ou cavar uma vez que a lâmpada úmida atinge 32 ° C, embora a maioria tenha dificuldades antes disso. Em teoria, os seres humanos não podem sobreviver acima de 35 ° C na escala de bulbo úmido – o pico sofrido em pequenas áreas da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, segundo o estudo.

Surtos ligeiramente menos extremos, mas mais frequentes, foram detectados na Índia, Bangladesh e Paquistão, noroeste da Austrália e regiões costeiras ao longo do Mar Vermelho e no Golfo da Califórnia, no México.Ambiente,Meio ambiente,Ecologia,Mudanças Climáticas,Aquecimento Global,Água,Seca,Blog do Mesquita

“Podemos estar mais próximos de um ponto de inflexão real do que pensamos”, disse o co-autor Radley Horton.

O ar condicionado deve ajudar a mitigar o impacto de algumas pessoas em países ricos, como EUA e Catar, mas períodos mais longos em ambientes fechados podem ter conseqüências econômicas devastadoras, segundo Horton. O ar condicionado também não é uma opção para a maioria das pessoas nos países mais pobres de alto risco, onde a agricultura de subsistência continua sendo comum.

Kristina Dahl, climatologista da Union of Concerned Scientists nos EUA, disse que o novo artigo mostra “quão próximas as comunidades ao redor do mundo estão dos limites”.

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Estudo prevê que Um Bilhão de pessoas viverá em um calor insuportável dentro de 50 anos

O custo humano da crise climática será mais difícil e mais cedo do que se pensava anteriormente, revela pesquisa.

Um agricultor indiano atravessa o leito de uma lagoa que secou durante uma crise de água. Foto: Sanjay Kanojia / AFP via Getty Images

O custo humano da crise climática será mais difícil, mais amplo e mais cedo do que se pensava anteriormente, de acordo com um estudo que mostra que um bilhão de pessoas serão deslocadas ou forçadas a suportar calor insuportável a cada aumento adicional de 1C na temperatura global.

No pior cenário de aceleração de emissões, as áreas que atualmente abrigam um terço da população mundial serão tão quentes quanto as partes mais quentes do Saara em 50 anos, alerta o jornal. Mesmo na perspectiva mais otimista, 1,2 bilhão de pessoas ficará fora do confortável “nicho climático” em que os humanos prosperam por pelo menos 6.000 anos.

Os autores do estudo disseram que ficaram “chocados” e “impressionados” com os resultados, porque não esperavam que nossa espécie fosse tão vulnerável.

“Os números são espantosos. Eu literalmente dei uma olhada dupla quando os vi pela primeira vez ”, disse Tim Lenton, da Exeter University. “Eu já estudei pontos críticos do clima, que geralmente são considerados apocalípticos. Mas isso chegou em casa com mais força. Isso coloca a ameaça em termos muito humanos.”

Em vez de considerar a mudança climática como um problema de física ou economia, o artigo, publicado no Proceedings da Academia Nacional de Ciências, examina como ela afeta o habitat humano.

A grande maioria da humanidade sempre viveu em regiões onde as temperaturas médias anuais estão entre 6 ° C e 43 ° C, o que é ideal para a saúde humana e a produção de alimentos. Mas esse ponto ideal está mudando e diminuindo como resultado do aquecimento global causado pelo homem, o que coloca mais pessoas no que os autores descrevem como extremos “quase imperdoáveis”.Ambiente,Meio ambiente,Ecologia,Mudanças Climáticas,Aquecimento Global,Água,Seca,Blog do Mesquita

A humanidade é particularmente sensível porque estamos concentrados na terra – que está aquecendo mais rápido que os oceanos – e porque o maior crescimento futuro da população estará nas regiões já quentes da África e da Ásia. Como resultado desses fatores demográficos, o ser humano médio experimentará um aumento de temperatura de 7,5 ° C quando a temperatura global atingir 3 ° C, prevista para o final deste século.

Nesse nível, cerca de 30% da população do mundo viveria em calor extremo – definido como uma temperatura média de 29 ° C (84 ° F). Essas condições são extremamente raras fora das partes mais devastadas do Saara, mas com o aquecimento global de 3C, elas devem envolver 1,2 bilhão de pessoas na Índia, 485 milhões na Nigéria e mais de 100 milhões no Paquistão, Indonésia e Sudão.

Isso aumentaria enormemente as pressões migratórias e colocaria desafios aos sistemas de produção de alimentos.

“Acho justo dizer que as temperaturas médias acima de 29 ° C são inabitáveis. Você teria que se mudar ou se adaptar. Mas há limites para a adaptação. Se você tiver dinheiro e energia suficientes, poderá usar o ar-condicionado e voar com os alimentos e poderá ficar bem. Mas esse não é o caso da maioria das pessoas ”, disse um dos principais autores do estudo, Prof Marten Scheffer, da Universidade de Wageningen.

Ecologista em treinamento, Scheffer disse que o estudo começou como um experimento mental. Ele já estudara a distribuição climática de florestas tropicais e savanas e imaginou qual seria o resultado se aplicasse a mesma metodologia aos seres humanos.

“Sabemos que os habitats da maioria das criaturas são limitados pela temperatura. Por exemplo, os pingüins são encontrados apenas em água fria e os corais somente em água morna. Mas não esperávamos que os humanos fossem tão sensíveis. Nós nos consideramos muito adaptáveis ​​porque usamos roupas, aquecimento e ar condicionado. Mas, de fato, a grande maioria das pessoas vive – e sempre viveu – dentro de um nicho climático que agora está se movendo como nunca antes.”

Ficamos impressionados com a magnitude ”, ele disse. “Haverá mais mudanças nos próximos 50 anos do que nos últimos 6.000.”

Os autores disseram que suas descobertas devem estimular os formuladores de políticas a acelerar cortes de emissões e trabalhar em conjunto para lidar com a migração, porque cada grau de aquecimento que pode ser evitado salvará um bilhão de pessoas de sair do nicho climático da humanidade.

“Claramente precisaremos de uma abordagem global para proteger nossos filhos contra as tensões sociais potencialmente enormes que a mudança projetada poderia invocar”, disse outro dos autores, Xu Chi, da Universidade de Nanjing.

Gás metano no Ártico?

Quão significativa é a descoberta de 2 milhões de focos de metano no Ártico que a NASA fez?

O derretimento do permafrost está liberando metano em áreas árticas.
Embora já se saiba que o derretimento da camada de solo congelado do Ártico está causando a liberação de metano e outros gases de efeito estufa, o problema ainda não foi dimensionado adequadamente.

A NASA, no entanto, relatou identificar pelo menos dois milhões de “pontos críticos” de emissão de metano em apenas 30.000 quilômetros quadrados de permafrost no Ártico.

As descobertas mais recentes da instituição mais conhecida por sua exploração espacial, apresentadas recentemente em um artigo publicado na revista Geophysical Research Letters, também podem ajudar a entender melhor o processo de liberação de gás naquela área do planeta.

E isso, por sua vez, também ajudará a estimar melhor as emissões de metano no Ártico.

A contribuição da NASA é mais que bem-vinda porque, como Esprit Smith, da equipe de imprensa da organização, explica, o Ártico se estende por milhões de quilômetros quadrados, muitos deles inacessíveis aos seres humanos.
As medições de metano feitas no nível do solo cobrem apenas uma parte mínima do Ártico. Getty Imagens

“Essa inacessibilidade limitou a maioria das observações no solo a locais com infraestrutura existente, uma pequena fração do vasto e variado terreno do Ártico”, lembrou Smith.

“Embora as observações por satélite não sejam detalhadas o suficiente para os cientistas identificarem padrões-chave e influências ambientais de pequena escala nas concentrações de metano”.

Foi isso que fez os cientistas do Experimento de Vulnerabilidade Boreal no Ártico da NASA (ACIMA) tentarem encontrar uma maneira de preencher essa lacuna.

Para fazer isso, em 2017 eles usaram aviões equipados com a nova geração do Espectrômetro de Imagem por Infravermelho Visível no Ar (AVIRIS – NG), um instrumento altamente especializado, para sobrevoar um pedaço da paisagem do Ártico.

E foi o AVIRIS – NG que permitiu a identificação dos dois milhões de pontos críticos de emissão de metano.

“Consideramos pontos críticos aquelas áreas que excedem 3.000 partes por milhão”, disse Clayton Elder, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em Pasadena, Califórnia, responsável pela operação.

40 metros
Os dados coletados também permitiram que Elder e sua equipe identificassem um padrão: em média, os pontos críticos do metano estavam concentrados principalmente em aproximadamente 40 metros de corpos d’água, como lagos e córregos.

O efeito dominó que pode transformar a Terra em uma estufa irreversivelmente.

Após a marca de 40 metros, a presença de pontos quentes tornou-se gradualmente mais escassa.

E a cerca de 300 metros da fonte de água eles caíram quase completamente.

Lagos Thermokarst formados pelo derretimento do permafrost no Alasca.

Segundo a NASA, Elder e sua equipe ainda não sabem ao certo por que 40 metros é o “número mágico”, mas os estudos adicionais que eles realizaram no terreno dão uma idéia.

“Após dois anos de estudos de campo que começaram em 2018 em um lago do Alasca com um ponto de metano, descobrimos um degelo abrupto de permafrost logo abaixo do ponto de acesso”, explicou Elder.

“É essa contribuição adicional do carbono do permafrost – carbono que está congelado há milhares de anos – que dá aos micróbios comida para mastigar e converter em metano à medida que o permafrost continua a degelar”, afirmou ele.O derretimento do permafrost tem tido conseqüências inesperadas.

O AVIRIS-NG já havia sido usado anteriormente para ajudar a medir as emissões de metano causadas por seres humanos em áreas povoadas, mas é a primeira vez que o instrumento é usado para encontrar pontos críticos em áreas anteriormente inexploradas.

Os cientistas estão apenas arranhando a superfície do que é possível com os novos dados, mas suas primeiras observações são valiosas.

“Ser capaz de identificar as causas prováveis ​​da distribuição de pontos críticos de metano, por exemplo, os ajudará a calcular com mais precisão as emissões desse gás de efeito estufa nas áreas que não pudemos observar”, afirmou Simth.

“E esse novo conhecimento melhorará os padrões da dinâmica do metano no Ártico e, com isso, nossa capacidade de prever o impacto da região no clima global e os impactos das mudanças climáticas globais no Ártico”, concluiu.