Augusto Frederico Schmidt – Poesia

Boa noite.
Alma
Augusto Frederico Schmidt

Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui …
Sou o que serei …

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Gerardo Mello Mourão – Poesia

Boa noite.
Excertos de Os Peãs
Gerardo Mello Mourão

In illo tempore- 1549
floresciam os machos no país dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
“mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que
todas achariam maridos, por ser a terra larga e grossa”
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
(MOURÃO, 1986, p. 85)

§

E engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo dia em correger o mastro- mas onde
o sítio do desejo?
(MOURÃO, 1986, p. 174)

§

Junto ao teu esquife debruçados
morta- já nada te perguntaremos
decifrada e fatal em teu sarcófago:
sobre o teu lábio agora as chaves são de cinza
e do mistério morto o pulso
nunca tomaremos:
fora belo rasgar os vidros de amanhã
ao sopro de diamante dos oráculos.
(MOURÃO, 1986, p.49)

§

Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponês e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro dos meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e meu próprio massacre…”
(MOURÃO, 1986, p. 377)

§

Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracati,
há Romano de Mãe d’Água,
Sinfrônio de Jaboti,

Azulão em Pernambuco,
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo,
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da Ipueiras.

Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor

Charles Baudelaire – Poesia

Boa noite.
Ao leitor
Charles Baudelaire

O disparate, o erro, o pecado, a cobiça
Desgastam nosso corpo e ocupam nossa mente,
E alimentamos nosso remorso indulgente,
Como o mendigo à vérmina que nele viça.

Pecados pertinazes, arrependimentos
Fracos: sai caro tudo o que enfim se confessa,
E aos caminhos de lama voltamos depressa,
Crendo lavar as manchas com prantos odientos.

Satã Trimegisto é, na almofada do mal,
Quem devagar embala nossa alma encantada,
E pelo sábio químico é vaporizada
Toda nossa vontade, esse rico metal.

São do Diabo os cordéis que a todos nós comandam!
Achamos iscas para coisas doentias;
Para o inferno adiantamo-nos todos os dias
Sem horror, através das trevas que tresandam.

Tal depravado pobre que beija e degrada
Da meretriz já velha seu seio mofino,
Roubamos sem tardar um prazer clandestino
Que esprememos como uma laranja passada.

Como um milhão de helmintos, em nossa cabeça
Um mundo de Demônios farreia em tumulto,
Até que, ao respirarmos, a Morte, esse oculto
Rio, com surdas queixas, para os pulmões desça.

Se o estupro e o veneno, se o incêndio e o punhal
Não bordaram ainda com traços ferinos
O esboço chão de nossos indignos destinos,
É que a audácia de nossa alma não é total.

Entre chacais, panteras, cadelas de caça,
Escorpiões, macacos, abutres, serpentes,
Chiantes e guinchantes, monstros estridentes
Na jaula vil de nossos vícios em devassa,

Há um mais feio, mais maligno, mais imundo!
Mesmo sem grandes gestos e sem grandes gritos,
De bom grado da terra faria detritos
E com um só bocejo engoliria o mundo;

É o Tédio! — com o olhar de pranto vacilante,
Fumando o narguilé, sonha um enforcamento.
Tu conheces, leitor, esse monstro incruento,
— Leitor irmão — hipócrita — meu semelhante!

in As flores do mal

Martha Medeiros: Um minuto de silêncio

Tenho percebido que a poesia anda visitando as redes sociais com uma frequência que não havia antes. Atores e atrizes dizem poemas, Betos e Marias dizem poemas, e os versos se espalham por escrito também, alguns fotografados direto dos livros. Poesia, veja só. Aquela flor atrevida que surge entre os tijolos dos muros e as lajes das calçadas, e que altera a visão do mundo.

Não foi combinado, ninguém propôs, não marcaram dia e hora para começar. Começou. Alguém lembrou de Bandeira numa terça, outro puxou uma Cecília Meireles na quarta, um Manoel de Barros veio à tona sexta-feira, e das páginas os versos saltaram para o universo digital, que estava mesmo precisando de algo mais depurado do que a bruta troca de ofensas entre dois lados.

A poesia como resposta ao que não nos foi perguntado: merecemos uma sociedade tão desnutrida de valor, tão árida, estéril e nefasta? Em meio a um país fúnebre, contando mortos e motos, sendo infectado diariamente pela estupidez e assistindo a ascensão da miséria intelectual como se fosse um triunfo, vem a poesia em nosso socorro e traz um pouco de luz. Palavras cintilantes, como vagalumes aqui e ali, acendendo tochas na escuridão.

A poesia, que tantos acham difícil e solene, vem juntar-se aos nossos estilhaços, às nossas lives e postagens, vem nos acariciar e sussurrar belezas, vem promover um breve instante de comoção, vem preencher o vazio e espantar essa esquisita friagem vinda da região central do Brasil, esse espírito glacial que intenciona trocar nossos vestidos vaporosos e camisas coloridas por fardas que enrijecem o caminhar, a liberdade dos passos. Vem ela, a poesia, colocar-se a postos para esse confronto de delírios, ofertando, em contraste, sua magia. Em vez de lunática, inteligentemente anárquica; em vez de pirada, inspirada. Esparramando bom astral por onde passa.

A poesia está no varal e suas roupas penduradas, no semblante da moça dentro do ônibus, num guarda-chuva preto atrás da porta, na chama da vela que treme ao abrirem uma janela, nas mãos dadas dentro do cinema. A poesia está no resto de bolo na geladeira, no vapor que embaça o espelho depois do banho, na cama desarrumada do quarto. Seu filho dormindo também é um poema.

A poesia não é oculta, e sim discreta. Basta um convite do olhar e ela se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do tédio, do desencanto, do barulho.

Hoje estou aqui para saudar a reação espontânea de tantos internautas, necessária resistência diante da tentativa de arrancarem de nós o que é sentimental, deixando-nos apenas palavras rudes e paredes com marcas de tiros. A poesia, milagreira, retorna. Flor que brota no cimento, e que, insolente e bela, nos salva, nem que seja por um minuto, aquele respeitoso minuto de silêncio.

Charles Bukowski – Poesia

Boa noite.
Escala
Charles Bukowski

Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal

num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este…

podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.

Adalcinda Camarão – Poesia

Boa noite.
Amor
Adalcinda Camarão

Teus olhos se espreguiçam no meu peito
e dormem o riso morno das abelhas
tontas de mel rolando
amor – amado…
Teus lábios escrevem poemas sós, secretos,
nos meus lábios lacrados desta sede
que só tu sabes a paixão imensa…
Tuas mãos debulham rimas
em todo o meu dorso dourado
da tua presença
à sombra da tarde que escoa…
Tentar ficar longe de ti é fiasco, é legenda.
Fica rente a ti blasfêmia que Deus abençoa.

Ana Martins Marques – Poesia

Boa noite.
Ana Martins Marques
Poema de trás pra frente

A memória lê o dia
de trás para frente

acendo um poema em outro poema
como quem acende um cigarro no outro

que vestígio deixamos
do que não fizemos?
como os buracos funcionam?

somos cada vez mais jovens
nas fotografias

de trás para frente
a memória lê o dia

in O livro das dessemelhanças

Bakhtin,Literatura,Blog do Mesquita

Maria Luise Weissmann – Poesia

Boa noite.
Meus olhos
Maria Luise Weissmann

Quando tu vens,
meus olhos voltam-se
à escuridão
como à morte.

Desde que deixaram-te
entrar, (traidores!),
agora vivem sempre
sob a guilhotina.

Elisa Lucinda – Poesia

Boa noite.
Cor-respondência
Elisa Lucinda

Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

Charles Bukowski – A Índole da Multidão

Boa noite.
A Índole da Multidão
Charles Bukowski

Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
-ENFIM- SÃO AQUELES QUE PREGAM
PAZ

Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam Paz
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado Com Os Conhecedores.

Cuidado
Com Aqueles
Que Estão SEMPRE
LENDO
LIVROS

Cuidado Com Aqueles Que Ou Destestam
A Pobreza Ou Orgulham-se Dela

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Eles Precisam de LOUVOR Em Retorno

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Eles Temem O Que
Desconhecem

Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos

Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
CUIDADO Com O Amor Deles

Seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força Em Seu Ódio
Há Força Suficiente Em Seu
Ódio Para Matá-lo, Para Matar
Qualquer Um.

Não Esperando Solidão
Não Entendendo Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Difira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte

Considerarão Seu Fracasso
Como Criadores
Apenas Como Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
ENTÃO TE ODIARÃO

E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta

Sua Mais Refinada
ARTE

(Traduzido por Clarah Averbuck)