Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita 02

Fatos & Fotos – O dia todo sendo atualizado – 22/01/2020

Bom dia.
“O segredo de uma boa velhice nada mais é do que um pacto honesto com a solidão.” Gabriel García Márquez

Design,Veículos,Hot Roads,Blog do Mesquita PL (1) 

Parte significativa dos brasileliros que está inerte?; domada?; catequizada?; doutrinada?, assiste a edificação de uma doutrina que tem como objetivo, à socapa – “bien compris” – cercear a democracia, destruir a pluralidade, o contraditório, a liberdade de expressão e as garantias individuais.

Os fatos nos são mostrados diariamente!
Censura no cinema, nas artes, exposições, cultura popular, imprensa, livros, educação… Só não admite quem está absolutamente marginalizado a tudo isso ou corrobora, por crença ou omissão, com essa forma de governo.
O pior destes hidrófobos é que eles não ligam para a História. Não aprendem nada.
Ainda bem que há os desvairados que combatem essa horda, e que acreditam que é da natureza das coisas a luz vencer a escuridão.

Da série: “Caminhado pela cidade ou A vida como não deveria ser!”


Blog do Mesquita,Lixo,Meio Ambiente,Saúde Pública,Blog do Mesquita PL


Segue um aperitivo do que será essa senhora no governo.

Regina Duarte diz que liberdade de expressão “tem que ter limites”Blog do Mesquita,Censura,Constituição Federal (3)


“A pior inimiga do meio ambiente é a pobreza”, disse Paulo Guedes em Davos.

Pobreza,Blog do Mesquita

Vocês prestaram à devida atenção nessa estupidez? Não? Pois então lá vai:
Declaração sem fundamento nenhum e sem provas estatistificas que sustente. Esse alucinado acordou pela manhã e resolveu falar como todos do governo falam para suas ovelhas no Brasil. O problema é que quem estava ouvido vive fora da bolha do mundo da fantasia que eles criaram. Sobre questão ambiental já culparam tantas pessoas que se alguém perguntar para eles quem são os verdadeiros culpados, nem eles sabem mais a reposta. Agora essa de culpar os pobres foi a pior de todas, mesmo por que a maioria dos pobres não tem acesso à terra, vivem da subsistência nas milhares de periferias dos povoados da região norte, com a qualidade de vida muitas vezes desumanas.
Ps. Paulo Guedes responde a três processos na justiça comum por fraude no sistema financeiro com títulos de estatais e por enriquecimento ilícito. Como pode este sujeito ser ministro?

O indiciamento do jornalista Glenn Greenwald, pelo MPFDF, além de ser uma ato descaradamente político, desrespeita a autoridade da medida cautelar concedida na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 601, do Supremo Tribunal Federal; pisoteia a liberdade de imprensa; a liberdade de expressão; os direitos fundamentais;afronta o art.5º da Constituição Federal, e é uma, mais uma, ameaça à tíbia democracia brasileira.
É claro o objetivo de depreciar o trabalho jornalístico de divulgação de mensagens realizado pela equipe do The Intercept Brasil em parceria com outros veículos da mídia nacional e estrangeira. Parece-me haver em alguns porões a tentativa de se estabelecer, em Macondo, uma Patocracia.
O jornalista que não se manifestar contra essa violência do Estado, deve repensar seriamente a sua escolha profissional.Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07


Brasil: da série “divagações sobre a história do Brasil, enquanto estou balançando na rede”
Prudente de Moraes — Prudente José de Morais e Barros (Itu, 4 de outubro de 1841 – Piracicaba, 13 de dezembro de 1902) foi um político brasileiro, primeiro governador do estado de São Paulo (1889-1890), senador e terceiro presidente do Brasil e primeiro político civil a assumir este cargo.
Foi, também, o Primeiro Presidente eleito em eleição direta. Governou de 1894 a 1898.
Depois dele só tivemos presidentes imprudentes e imorais.


Bárbara Sotero – LitografiaBarbara Sotero,Artes Plásticas,Gravura,Lithography,ContemporaryArt,FineArt,Engrave,Blog do Mesquita PL

Estamos em um guerra contra a razão e contra a clareza.
Impressiona esse furor atávico de produzir defesa do que não tem acusação. Espinoza, o Baruch, produziu um excelente ensaio sobre o exercício da ideologia na formatação de argumentos.

Um país é reflexo de seu líder, e vice-versa. Se o líder é culto, todos se cultivam, a cultura é valorizada. Se o líder é genial, o povo se faz mais criativo, pois o exemplo estimula. Se o líder é um tosco, os toscos brotão e reproduzem como ratos no esgoto.

Estamos em um guerra contra a razão e contra a clareza.
Impressiona esse furor atávico de produzir defesa do que não tem acusação. Espinoza, o Baruch, produziu um excelente ensaio sobre o exercício da ideologia na formatação de argumentos.
É triste observar o nepotismo, o populismo, a cretinice, a canalhice, a mediocridade que imperam no país nadarem de braçada à nossa frente.
Um país é reflexo de seu líder, e vice-versa. Se o líder é culto, todos se cultivam, a cultura é valorizada. Se o líder é genial, o povo se faz mais criativo, pois o exemplo estimula. Se o líder é um tosco, os toscos brotão e se reproduzirão como ratos no esgoto.Autorretrato,Pessimista,Blog do Mesquita

Frederico Fellini,Cinema,Blog do Mesquita

O Fellini que eu conheci

Ver Fellini filmando no auge da carreira é uma das coisas que nunca se apagaram da minha memória. Era uma festa.

Federico Fellini, nos anos 1970, nos estudios da Cinecittà.
Federico Fellini, nos anos 1970, nos estudios da Cinecittà. LOUIS GOLDMAN (GAMMA- RAPHO / GETTY IMAGES)

No último dia 20, o cineasta Federico Fellini completaria 100 anos.

O mundo inteiro começa a ressuscitar e celebrar esse gênio do celuloide, que atravessou as fronteiras de seu país para se transformar num personagem mundial, com seu neorrealismo e suas obras imortais.

O jornal me pediu que contasse algumas histórias de meus numerosos encontros com o diretor durante meus 18 anos como correspondente na Itália. A verdade é que cada encontro com ele acabava sendo uma epopeia. Porque Fellini se empenhava em dizer que ele não existia, que os jornalistas o tinham inventado. Era tímido como um adolescente e cheio de rituais. Por exemplo, era quase impossível que se dispusesse a conceder uma entrevista sem antes lançar mão de dois apetrechos dos quais não se separava nem no verão: um chapéu de feltro e um cachecol de lã. Sem eles, dizia, sentia-se nu. Sua timidez o levava às vezes a desconcertar os jornalistas jovens com seus rompantes. Lembro que ele alfinetou um desses repórteres, que o entrevistava para a RAI TV, logo após a primeira pergunta: “E ainda lhe pagam para fazer essas perguntas estúpidas?”

Essa cena se repetiu comigo, já jornalista veterano, quando ele marcou um encontro, após mil dificuldades, numa sala imensa de Roma. O jornal havia me pedido a entrevista para uma reportagem do suplemento de domingo, sobre os desenhos que um amigo de Fellini tinha preparado para um filme que se passaria no México e que nunca viu a luz.

O EL PAÍS mandou um fotógrafo de Madri. Sua tarefa, que se revelou hercúlea, era conseguir uma foto das caras juntas de Fellini e do desenhista. Algo quase impossível. O diretor combinou de se encontrar conosco num estúdio do centro de Roma, abarrotado de gente sua. Começou, como sempre, colocando dificuldades. Primeiro mandou que trouxessem o chapéu e o cachecol. Depois queria que na foto figurasse toda aquela gente sua. “Assim, todos juntos”, dizia. Suamos para convencê-lo de que tinha que ser uma foto só com as duas caras juntas. “Isso nem pensar, vamos parecer dois maricas”, falou prontamente. Quando por fim cedeu após muitas tentativas, e o fotógrafo conseguiu colocá-los juntos, Fellini se apaixonou pelos sapatos do meu colega. Perguntou-lhe onde os havia comprado. “Nos Estados Unidos”, respondeu. E Fellini: “Então já não gosto deles.” O fotógrafo, desesperado, aproveitou a distração e conseguiu a tão trabalhada foto.

Havia chegado a hora nada fácil da entrevista. Fellini queria fazê-la com todas aquelas pessoas e aquela confusão do camarim. Eu lhe disse que assim não seria possível, e ele então marcou comigo no dia seguinte, em outro lugar, às nove da manhã. Eu tinha medo de que ele não aparecesse. Esperei uma meia hora, e por fim apareceu com o chapéu e o cachecol. Sentamos ao redor de uma mesa enorme. Fellini tinha em sua mão um lápis e algumas folhas em branco. Parecia que era ele o entrevistador. Me disse que não poderia gravar. Fiz apenas anotações. E, já na primeira pregunta, mandou: “Puxa, que pergunta idiota!” Eu estava interessado em saber como nasciam os títulos tão originais de suas obras, e disse que o importante era que a resposta fosse inteligente. Sem me olhar, ele começou a rabiscar numa folha em branco. Depois levantou a cabeça e me explicou com calma, magistralmente, como nasciam os títulos das suas obras. Me explicou que nunca os tinha de antemão. Que começava a rodar e que o nome ia sendo engendrado nele como a criança no ventre da mãe, até nascer com sua personalidade.

Naquele entrevista, Fellini me contou um segredo: sua primeira vocação não havia sido o cinema, mas os desenhos animados. Quando criança, ele gastava todo o dinheiro que lhe davam em casa numa banca próxima para comprar gibis.

No meio da entrevista, o cineasta disse que não tinha mais nada a dizer e chamou seu secretário, um gordinho rechonchudo chamado Vicenzino, para que a prosseguisse com ele. Precisei usar toda minha experiência de jornalista veterano para convencê-lo de que outro dia entrevistaria Vicenzino, mas que agora queria conversar somente com ele.

Um dia, Fellini me deu um presente. Me deixou assistir, no Cinecitá de Roma, à rodagem de algumas cenas de seu terno filme Ginger e Fred. Ele havia convocado uma série de anões que atuariam no filme. Foram tantos que aquilo mais parecia uma reunião da categoria. O diretor tinha que escolher, e os anões se agarravam a ele suplicando. Fellini sempre foi enormemente humano, e talvez por isso parecesse um adolescente. Pude ver o carinho que dedicava àqueles anões. E ele me contou que costumava usar mulheres gordíssimas em seus filmes porque sua primeira experiência sexual, quando adolescente, foi com uma mulher muito gorda —e desde então tinha muito respeito por elas.

Ver Fellini filmando no auge da carreira é uma das coisas que nunca se apagaram da minha memória. Era uma festa.

Ele era tão tímido, e os jornalistas lhe davam tanto medo, que foi muito difícil levá-lo para a Stampa Estera, onde eu e outros 40 correspondentes trabalhávamos juntos, como as outras personalidades que costumávamos convidar para discussões. Por fim, numa tarde Fellini cedeu e anunciou que iria. Todos nós o esperamos numa sala. Ele demorava a chegar, e imaginamos o pior: que ele tivesse se arrependido. Saí por um instante, fui até o bar ao lado do edifício e ali o encontrei já de chapéu e cachecol, com algumas moedas na mão para dar um telefonema. Me apresentei e disse que os correspondentes o esperavam. “E eu estou telefonando para dizer que não vou porque, realmente, não tenho nada de novo para dizer a vocês.” Finalmente o levei à Stampa Estera.

Como sempre, ele começou explicando que já tinha dito tudo em seus filmes. Bastava vê-los e saberíamos tudo sobre ele. Meu colega Domenech, então correspondente da revista espanhola Interviu, quebrou o silêncio e lhe disse algumas coisas que havia visto em seu último longa E La Nave Va. Quando Domenech terminou, Fellini respondeu irônico: “Que maravilha. E eu sem saber que havia querido dizer todas essas coisas!”.

Numa manhã, quando foi publicado um livro que reunia várias entrevistas com ele, nós lhe perguntamos o que tinha achado. Respondeu: “Maravilhosas todas, porque Fellini não existe. Muita fantasia têm os jornalistas. Cada um criou um Fellini à sua medida”. Assim era ele, genial, tímido, humano, desapegado até de sua obra e um dos maiores do cinema mundial.

Dizem que cada cineasta tem um filme que o tornou famoso. Com Fellini é difícil fazer esse exercício, já que cada uma de suas obras poderia ser a melhor. Quem poderia dizer que Amarcord é melhor que A Doce Vida? Ou que Roma de Fellini? Ou Oito e Meio? Ou Noites de Cabíria? Ou A Estrada da Vida? Ou Casanova de Fellini? Ou o terno Ginger e Fred? Ou A Voz da Lua? Ou E La Nave Va?

Dizem que Fellini era o mais italiano do imenso conjunto de cineastas de seu tempo. Sem dúvida era o mais original. E isso que com ele, naqueles anos, pululavam cineastas também imortais como Pasolini, Visconte, Rosellini, Zeffirelli, Antonioni e Bertolucci. Foi a época de ouro do cinema italiano, que conseguiu conquistar o mundo. Ter podido conhecê-los e entrevistá-los é um dos maiores presentes do meu trabalho como correspondente em Roma.

E se Fellini era para mim o mais original, Pasolini era um gênio da inteligência, multifacetado porque era também poeta, semiótico, escritor, político crítico e profeta até de sua própria morte violenta. Homossexual como era, durante um jantar em Assis estava rodeado de mulheres extasiadas por escutá-lo. Num momento me confiou: “E pensar que morrerei sem conhecer a alma feminina”. Era um libertário que conseguia ser adorado por todos. E curioso como um gato.
JUAN ARIAS

Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita 02

Fatos & Fotos – O dia todo sendo atualizado – 20/01/2020

Embalando o meio dia desta segunda-feira com Gal Costa “Força Estranha”, de Caetano Veloso


Embalando esta manhã de segunda-feira com Céu & Herbie Hancock “Tempo De Amor”


“Davos verde debate reforma do capitalismo” Hahahahahaha.
Reforma? Hahahahahahahaha.
Reforma do Capitalismo? Hahahahahahahahah.
Hilários esses filhotes de Hayek.
Só muito marafo para ostentar uma alucinação desta.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita


Direto da caixa de produzir idiotas

Ana Maria Braga acaba de proferir uma “pérola” na Globo: “O estreito de Gibraltar liga o Oceano Atlântico ao Pacífico!’Certamente ela dirá que o Canal do Panamá liga o Atlântico ao Mar Mediterrâneo’.”
“K-ralho!” “Imprecionante”. Diria o Sinistro da Deseducação
Nem a Roseana Collor com as Pirâmides do Egito em Paris, consegue competir com essa Ana Ameba Praga.

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

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Yeats – E daí? – Poesia

E daí?
YeatsFilosofia,Literatura,Blog do Mesquita

Seus melhores amigos na escola
Achavam que ele iria ser famoso;
Ele também achava e assim se preparou,
Dedicou seus vinte anos ao labor;
“E daí?” cantou o fantasma de Platão, “e daí?”

Tudo o que escreveu, tudo foi lido,
Depois de algum tempo tinha ganho
Dinheiro para o que pudesse precisar,
Amigos que foram na verdade amigos;
“E daí?”, cantou o fantasma de Platão,”e daí?”

Realizou seus mais felizes sonhos:
Uma antiga casinha, esposa e um casal de filhos,
Canteiros de ameixeira e couve,
Sábios e poetas em sua volta;
“E daí?”, cantou o fantasma de Platão, “e daí?”

“Tudo está feito”, disse ele quando velho,
“De acordo com meus sonhos de menino”;
Deixa os tolos com seu ódio, não me desviei,
Alguma coisa eu trouxe à perfeição”;
“E daí?” – cantou mais alto a sombra de Platão.
(trad. Celso Japiassu)

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Sarah Westphal – Quase – Literatura

Sarah Westphal,Literatura,Blog do Mesquita 01

Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Sarah Westphal

Arquitetura,Blog do Mesquita 01

Mies van der Rohe, o homem que desmaterializou a arquitetura

Último diretor da Bauhaus, ele marcou como poucos o design e a produção arquitetônica da nossa era. Sua influência vai até os dias de hoje.    

BG 100-Jahre Bauhaus | Barcelona-Pavillon von Mies van der Rohe (picture-alliance/Arcaid/D. Clapp)Pavilhão de Barcelona, projetado por Mies van der Rohe, tornou-se ícone do Modernismo

Há exatamente 50 anos, em 17 de agosto de 1969, morria em Chicago o arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe. Se ele não tivesse existido, a paisagem urbana que nos rodeia, a concepção das fachadas de edifícios e as plantas das moradias que habitamos não teriam as mesmas feições que assumiram desde o início do século 20.

Retrato do arquiteto Ludwig Mies van der RoheLudwig Mies van der Rohe. “solitário caçador da verdade”

Nascido em Aachen, na fronteira alemã com a Holanda, em 27 de março de 1886, é o próprio Mies van der Rohe quem dá a chave para a compreensão de sua arquitetura ao comentar, num artigo publicado em 1961, a influência que as construções de sua cidade natal, a antiga capital do Sacro Império Romano Germânico, exerceu em sua obra.

Ludwig Mies (o sobrenome da mãe, van der Rohe, foi incluído por Mies mais tarde) frequentou a escola da catedral católica construída por Carlos Magno e ajudou o pai na firma de cantaria que possuía. Passando sua infância e adolescência entre lápides e igrejas medievais, sua formação não foi acadêmica, mas de natureza prática e religiosa.

Os primeiros anos

Nietzsche havia decretado a morte de Deus e os homens estavam entregues ao seu destino. “Sou a hora, e a hora é de assombros e toda ela escombros dela”, as palavras de Fernando Pessoa não poderiam definir melhor a crise de valores em que se encontrava a Europa entre o final do século 19 e início do século 20.

Esse era o contexto cultural que Mies encontrou em Berlim em 1905, quando foi trabalhar no escritório do arquiteto Bruno Paul. Dois anos mais tarde, um professor de filosofia, completamente idealista, queria que sua casa fosse construída por um arquiteto jovem. Paul indicou Mies, que aos 21 anos projetou e construiu a residência de Alois Riehl, um dos principais filósofos berlinenses do início do século 20.

O projeto de Riehl lhe abriu as portas da sociedade berlinense, pondo-o em contato com intelectuais e lhe possibilitando trabalhar com Peter Behrens, para quem os outros pais do movimento modernista da arquitetura, leiam-se Le Corbusier e Walter Gropius, também trabalharam entre 1907 e 1910.

Conjunto residencial Weissenhofsiedlung, em StuttgartEdifício projetado por Mies em 1927, no conjunto residencial Weissenhofsiedlung, em Stuttgart

Behrens, Berlage e “o solitário caçador da verdade”

Behrens incorporou os fundamentos de um novo estilo, baseado na síntese da vida e da arte, no espetáculo arquitetônico e na recepção estilizada da Antiguidade clássica. Ele distanciou-se do traço sinuoso do Art Nouveau, sendo precursor de um movimento baseado na linha reta.

No entanto, o ascetismo de Mies van der Rohe não combinava com um possível formalismo de Behrens, e Mies procurou a influência de outro precursor do movimento modernista, o arquiteto holandês Hendrik Berlage, com quem se encontrou em Amsterdã, em 1912.

Os princípios de Berlage baseavam-se no neoplatonismo da Idade Média, na filosofia de Santo Agostinho, cuja frase “a beleza é o brilho da verdade” tornou-se praticamente um axioma para Mies.

Seguindo os passos do mestre Berlage, a lei universal não era mais a verdade histórica, mas a procura da essência, da verdade da construção. Foi por essa busca constante da essência construtiva, da precisão do detalhe, que Walter Gropius apelidou Mies de “o solitário caçador da verdade”.

Casa Tugendhat, Patrimônio da Humanidade em Brno, República TchecaCasa Tugendhat, Patrimônio da Humanidade em Brno, República Tcheca

Desmaterialização da arquitetura

A aplicação da procura da essência na arquitetura tem como consequência sua desmaterialização. A arquitetura de Mies tornou-se somente estrutura e membrana externa ou, como ele mesmo dizia: uma arquitetura de “pele e osso”. A perfeição técnica dos detalhes viria apenas a apoiar esse sentimento de vazio do espaço, que segundo Mies, deveria ser preenchido pela vida.

Os projetos de Mies são, às vezes, completamente ideais, somente espaço, como seus arranha-céus de vidro de 1922 ou a residência Farnsworth, nos EUA, de 1950. Em outros, matéria e espaço interagem num jogo constante, como na residência Tugendhat de 1931, Patrimônio Histórico da Humanidade, na cidade tcheca de Brno.

Mies estava no auge de sua carreira na Alemanha, quando foi convidado para projetar o pavilhão alemão para a Feira Mundial de Barcelona em 1929, hoje ícone do modernismo arquitetônico. Em 1930, ele assumiu a direção da Bauhaus, em Dessau.

Prédio da Nova Galeria Nacional em BerlimNeue Nationalgalerie de Berlim foi único projeto do arquiteto na Alemanha após a Segunda Guerra

O nazismo no poder e a emigração para os EUA

Em abril de 1932, os nazistas fecharam a Bauhaus. Mies a transferiu com financiamento do próprio bolso para um galpão industrial em Berlim-Steglitz. Em julho de 1933, ela foi novamente fechada pelos nazistas, que a consideravam “bolchevismo cultural”.

Mies não se considerava uma pessoa politizada. É interessante seu comentário sobre um colega que havia trabalhado para os nazistas: “Não o desprezo por ser nazista, mas por ser mau arquiteto.”

Os anos de 1930 não foram fáceis para Mies, que não conseguia construir e vivia dos móveis que havia projetado. Emigrou para os EUA em 1938, aceitando o convite para dirigir o departamento de arquitetura do Instituto de Tecnologia de Illinois, em Chicago, cujo campus também projetou.

USA Chicago l Lake Shore Drive (picture-alliance/akg-images/G. Lachmuth)Prédios projetados por Mies van der Rohe nos EUA por volta de 1950

Na posse, foi saudado por Frank Lloyd Wright, que anos mais tarde o acusaria de haver fundado um novo classicismo nos Estados Unidos. E, de fato, com exceção da residência projetada para a senhora Farnsworth, em 1950, que lhe valeu um processo e, em época de caça às bruxas, a acusação de ser obra de comunista, Mies deu um caráter bastante clássico à sua arquitetura nos Estados Unidos.

Sua obra tornou-se mais estática, sem o jogo de diferenças que enriquecia a sua arquitetura anterior. Terminada em 1969, ano de sua morte, a Neue Nationalgalerie (Nova Galeria Nacional) de Berlim, seu único projeto construído na Alemanha após a Segunda Guerra, comprova esse classicismo, embora apresente a mesma conquista espacial de seus projetos anteriores, principal característica da obra de Mies van der Rohe.

A Casa Schminke

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Alexander Pushkin – A minha biblioteca é o meu harém

A minha biblioteca é o meu harémAlexander Pushkin,Literatura,Blog do Mesquita

Olho para as centenas de livros no meu gabinete e apercebo-me que não toquei na maior parte deles depois de os ter lido ou dado uma vista de olhos pela primeira vez. Mas nem sequer considero a hipótese de me desfazer deles – então, e se eu quiser abrir este ou aquele um dia destes? Gastei o meu último dinheiro tanto a adquirir novos livros como em prostitutas. Comprar livros novos é um prazer muito diferente do prazer de ler: examinar, cheirar, folhear um livro novo é a própria felicidade.

Os livros dão-me confiança pela sua disponibilidade, de que posso sempre aproveitar-me se quiser. O mesmo acontece com as mulheres – preciso de muitas delas e têm de se abrir à minha frente como os livros. Na verdade, para mim, os livros e as mulheres são semelhantes de muitas formas. Abrir as páginas de um livro é o mesmo que afastar as pernas de uma mulher – o conhecimento revela-se à nossa vista.

Todos os livros têm um odor próprio: quando abrimos um livro e cheiramos, cheiramos a tinta, e é diferente em cada livro. Rasgar as páginas de um livro é um prazer inenarrável. Mesmo um livro estúpido me dá prazer quando o abro pela primeira vez. Quanto mais esperto for, mais me atrai, e a beleza da capa não é importante para mim. Isto não é necessariamente verdade para as mulheres.

Tal como uma mulher se pode vir com qualquer homem habilidoso, assim um livro se abre a qualquer um que lhe pegue. Dará o prazer da sua sabedoria a quem for capaz de o compreender. Por isso sou cioso dos meus livros e não gosto de os dar a ninguém para ler. A minha biblioteca é o meu harém.

Alexander Pushkin

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Raynaldo Valinho Alvarez – Poesia

A Essência não se Perde
Raynaldo Valinho AlvarezArte,Escultura,Blog do Mesquita,Pé

Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar a partida, sem temer
deixar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai conosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
é lançada dos músculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, moram neles,
não como o minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

Começa assim; A praça da ignorância

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

De praça, quase não tem nada: não há banco para descanso, árvore ou gramado. Parece mais um calçadão, que liga a avenida Unter den Linden à rua Behrenstrasse. No meio da Bebelplatz, no entanto, algo chama a atenção dos mais atentos: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão. Dentro dele, prateleiras brancas vazias.

O monumento lembra um dos episódios mais emblemáticos do período nazista. Em 10 de maio de 1933, livros de intelectuais considerados críticos ou que não se encaixavam no padrão pregado pelo regime de extrema direita comandado por Adolf Hitler foram queimados em praças públicas em várias cidades da Alemanha.

Em Berlim, o palco deste ato de intolerância foi a Bebelplatz, que na época era chamada de Praça da Ópera. Em frente à praça estava o prédio da Universidade Humboldt de Berlim. Muitos universitários participaram deste ato de barbárie. Os livros queimados pertenciam principalmente às bibliotecas públicas e universitárias.

Para não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vaziasPara não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vazias

Entre os autores dos livros queimados estavam Karl Marx, Friedrich Engels, Sigmund Freud, Stefan Zweig, Thomas Mann, Bertold Brecht, Erich Kästner, e Ricarda Huch. A maior parte da “lista negra” dos extremistas de direita era composta por obras de Ciências Humanas. Deveriam ser banidos, sobretudo, livros de filosofia, sociologia, história e ciências políticas que colocassem em xeque a ideologia do regime ou abrissem espaço para um debate.

A queima dos livros marcou o auge da perseguição aos intelectuais, que havia começado lentamente e vinha sendo praticamente ignorada pela opinião pública por muito tempo. A propaganda era alma do negócio para atrair seguidores.

Primeiro foi publicado um manifesto defendendo a cultura alemã e pregando acabar com supostas mentiras. Logo em seguida veio a perseguição a professores. Estudantes deveriam denunciar professores judeus, comunistas e aqueles que fizessem críticas ao regime ou a Hitler.

Depois veio a decisão de banir livros de intelectuais que “alienavam a cultura alemã”. Obras foram saqueadas de bibliotecas e, em 10 de maio de 1933, jogadas em fogueira pública. Em Berlim, o ato símbolo da intolerância contou com a presença de Joseph Goebbels – o ministro da Propaganda do regime nazista.

Hoje na Bebelplatz, próximo ao monumento que lembra deste episódio histórico, há uma placa com a frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” A frase, escrita décadas antes, soa como uma premonição dos horrores que estavam por vir nos anos seguintes…

A Bebelplatz ganhou esse nome após a Segunda Guerra Mundial, mas poderia muito bem ser chamada de praça da ignorância. Afinal, marca o episódio que visava combater o conhecimento, a capacidade de reflexão proporcionada pela leitura e silenciar qualquer debate crítico. Ao acusar intelectuais, o regime nazista buscava a hegemonia de seu viés ideológico de extrema direita e promovia a ignorância como meio de manipulação da população.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã.