Narcotráfico e a nova guerra do ópio

“Apenas” 272 Toneladas de Crack foram apreendidas no Rio de Janeiro em 2016.

De janeiro a maio de 2017 as apreensões aumentaram 72% em relação ao mesmo período em 2016.
Agora vão imaginando p que passa em helicópteros, jatinhos…

Nos anos 80, o General norte americano Paul Gorman, comandante de tropas americanas sediadas no Panamá, declarou: “O povo norte-americano deve compreender que nossa segurança e a de nossos filhos está ameaçada pelos cartéis latinos da droga que tem mais êxito subversivo nos EUA do que tudo o que vem de Moscou (…) Para empreender uma ação armada com qualquer fim, o lugar propício para encontrar dinheiro e fuzis é o mundo das drogas.”

Em 1985, um grupo de investigadores da Intellience Review, publicou um livro intitulado NARCOTRÁFICO S.A. – A NOVA GUERRA DO ÓPIO”- recomendo a leitura. Disponível na Amazon, mas somente em inglês e espanhol, onde lemos a afirmação: “Os herdeiros da velha Companhia Britânica das Ìndias Orientais – a mesma monarquia britânica e algumas das mesmas casas bancárias – iniciaram a nova Guerra do Ópio, exatamente com o mesmo objetivo da primeira vez: saquear as nações, destruí-las e sobretudo manter o poder do império”.

No Brasil, enquanto nos ocupamos, inútil e quixotescamente, com a invencível corja de ratos politicos, o povo, do topo à base da pirâmide, somos bucha de canhão em uma guerra assimétrica, que nos aterroriza e que nos faz reféns das drogas e das quadrilhas que se multiplicam, cooptando a infância e a juventude, destruindo famílias e matando mais gente de fome, doença, tiroteios, assaltos e acidentes de trânsito, que em guerras declaradas.

PS.1.E ainda há inocentes que acreditam que um apocalipse dessa dimensão pode ser resolvido com pena de morte e Polícia. Os policiais são heróis, mas não podem fazer milagres.
PS.2. O nome George Soros não ficaria estranho nesse texto.
E o mantra é simples na seara da ciência econômica; sem demanda não há oferta.

Doria afundou na droga: A cracolândia acabou?

Com ações apressadas e improvisadas, cracolândia torna-se a primeira pedra no sapato de DoriaPoliciais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado.

Policiais fizeram uma megaoperação na região da Cracolândia, em São Paulo, no domingo passado. PAULO WHITAKER REUTERS

Decisões levadas a cabo ao longo desta semana expuseram série de contradições da Administração do prefeito e de seu plano para tratar os dependentes químico.

“A cracolândia acabou”. Esta é a frase constantemente usada por João Doria, prefeito de São Paulo (PSDB), ao se referir ou responder a perguntas sobre esta região do centro da capital paulista. No último domingo, uma megaoperação policial em articulação com o Governo do Estado expulsou os usuários de crack e traficantes que se aglomeravam no “fluxo”, o mercado aberto de drogas que ocupava a alameda Dino Bueno e seu entorno.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Estas vias estão de fato livres agora, como diz o prefeito, mas as ações levadas a cabo nesta área ao longo da semana, muitas delas apressadas e improvisadas, expuseram uma série de contradições da Administração Doria e de seu plano para tratar os dependentes químicos – batizado de Redenção.

A questão da cracolândia voltou para os holofotes com a mesma força que a polícia limpou o local, tornando-se a primeira pedra no sapato de Doria em um momento no qual ele aparece como o principal nome do PSDB para disputar a presidência da República — uma possibilidade que ele já não nega publicamente.

A semana terminou, entretanto, com uma boa notícia para o prefeito. A Justiça autorizou o Executivo municipal a buscar e apreender, durante 30 dias, “pessoas em estado de drogadição” que estejam vagando na região da cracolândia para que sejam examinados pelas equipes multidisciplinares e, após aprovação judicial, internados compulsoriamente.

O pedido da prefeitura foi feito às pressas pela Procuradoria Municipal do Município na última terça-feira, uma vez que a operação policial de domingo fez com que os dependentes químicos se espalhassem por outros 23 pontos da cidade, segundo a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A maioria, cerca de 600 pessoas, está aglomerada na praça Princesa Isabel, a 400 metros da antiga cracolândia.

A dispersão dificultou um dos eixos do projeto Redenção, que é o cadastramento prévio de cada usuário através “de uma abordagem contínua, de caráter não impositivo”. O próprio secretário de Saúde, Wilson Pollara, admitiu publicamente na última quinta-feira que o programa anticrack ainda estava em fase de implementação e que não estava prevista uma grande operação policial.

Aliás, o documento do projeto diz que a ação de agentes da GCM, da PM e da polícia civil agiriam na retaguarda, “para dar apoio aos servidores” que atuariam nos lugares de uso de drogas. Pollara também admitiu que ele próprio não havia sido avisado sobre as ações policias na cracolândia até o dia de sua realização. A prefeitura garante, contudo, que a dispersão vai ajudar na abordagem, uma vez que não haverá presença do tráfico.

“Isso é uma balela completa. Porque o tráfico está lá, as pessoas estão usando, a droga está chegando. A droga não chega só na cracolândia, chega a todos os lugares”, explica o promotor da Saúde Arthur Pinto Filho. O Ministério Público de São Paulo, que participou da elaboração do Redenção, vem sendo um dos principais críticos das últimas ações de Dória, ao dizer que a prefeitura abandonou seu projeto Redenção nesta última semana.

“Nós avisamos o prefeito e os secretários que a dispersão era o pior cenário que poderia acontecer. Quando eles espalham as pessoas pela cidade, acontece o óbvio: essas pessoas que tinham, umas mais e outras menos, contato com os agentes de saúde e da assistência social perdem esse vínculo”.

Além disso, argumenta o promotor, esses usuários estão “zanzando, buscando seu refúgio”. “A GCM diz que hoje estão espalhados por 23 pontos, mas em três horas podem ser 15 pontos e em cinco horas podem ser 30”. Ele também acusou a prefeitura de querer, com sua petição judicial, levar a cabo uma “caçada humana” por São Paulo sem precedentes no resto do mundo.

“O programa não iria trabalhar só com a abstinência. Iria ser com abstinência e a redução de danos. Agentes da saúde e assistentes sociais iriam, 24 horas por dia, atuar na região para fazer a aproximação, levantar cada situação e patologia. E a partir desses dados fazer um projeto terapêutico individualizado, que é o que funciona”.

A gestão Doria assegura, por sua vez, que a busca e apreensão de usuários será feita apenas em último caso e respeitando os direitos humanos. Neste sábado, o secretário da Saúde Pollara afirmou em entrevista à Globo News que os critérios de abordagem serão “psiquiátricos”, e que “aqueles que estiverem conscientes” do que estão fazendo serão “respeitados”.

Ele previu ainda que 100 pessoas deverão ser levadas compulsoriamente pelos agentes públicos. O Executivo afirma também ter aumentado consideravelmente nos últimos dias o número de assistentes sociais que estão nas ruas, algo que era visível na praça Princesa Isabel na última sexta-feira.

“A prefeitura e o Estado estão de fato tomando conta da parte social, tentando fazer a reinserção. Tem uma assistência social ativa nesses núcleos que estão se formando. Eles não fizeram só uma operação policial, está tendo sim uma segunda parte”, afirma Clarice Sandi, pesquisadora e professora da UNIFESP que trabalha com assistentes sociais na cracolândia. Ela não acredita que a dispersão em si atrapalhe no vínculo, mas sim a iniciativa da prefeitura em levar à força os usuários para avaliação médica.

“Foi um tiro no pé. Agora alguns usuários já não querem entrar nas vans e ir para albergues porque acham que vão ser internados compulsoriamente. Uma medida que considera internações em massa é de fato higienista”, diz.

Entretanto, Sandi é uma das especialistas que defendem a realização da operação policial do último domingo sob o argumento de que “algo tinha de ser feito” para estancar uma violência que, para ela, “aumentou muito nos últimos tempos”. “Não que antes fosse ok. Mas funcionários começaram a ser roubados e ameaçados. Já vi mulheres transsexuais apanhando muito. E tem muita criança lá”, conta ela.

“Óbvio que não sou a favor da policia entrar apavorando, mas estava tudo muito errado antes também. Mas só agora virou um problema de direitos humanos. Havia 150 crianças vivendo naquela região expostas aquilo e não tinha ninguém falando de direitos humanos antes”.

A megaoperação provocou, entretanto, a queda de Patrícia Bezerra da secretaria de Direitos Humanos. Na última quarta-feira ela disse, durante uma reunião com movimentos sociais que veio a público, que a ação policial havia sido “desastrosa”. No encontro, afirmou ainda: “Agora a besteira já está feita (…) Estou incomodada tanto quanto vocês. Também acho injusto”. Milton Flávio, secretário de relações institucionais, assumiu interinamente em seu lugar. Em coletiva de imprensa logo após assumir a pasta, ele se referiu aos dependentes químicos de “craqueiros”.

Outro revés sofrido pela Administração Doria foi a liminar da 3ª Vara de Fazenda Pública proibindo a o Município de lacrar e demolir compulsoriamente os edifícios desta região. Ainda que a prefeitura diga estar de acordo com a liminar, a decisão atrapalha os acelerados planos de Doria de revitalização da região da cracolândia, batizada de Nova Luz. Nesta terça, máquinas da prefeitura começaram a demolir um edifício com três pessoas dentro.

Outros moradores e comerciantes também foram desapropriados à força, tendo pouco ou nenhum tempo para retirar seus pertences. Entradas de edificações da rua Helvétia e da alameda Dino Bueno foram, segundo relatos, emparedas com pertences e até animais de estimação dentro. “Os termos de desapropriação apresentavam irregularidades, alegando problemas com com botijão de gás, falta de interruptor… Mas nenhum prazo foi dado para que esses imóveis fossem reparados”, explicou o defensor público Rafael Lessa nesta semana.

Agora, a administração Doria corre para aplicar o seu programa anticrack, o Redenção, e provar que ele respeita o seu próprio lema de Governo: o de fazer de São Paulo uma cidade mais humana. “O programa é um projeto de médio prazo com início, meio e fim que iria minguando a cracolândia. O que tem de fazer agora? A GCM e a PM devem abrir aquelas ruas e deixar aquilo decantar.

Aquela massa humana vai parar em algum lugar e se estabilizar. Quando aquilo se acalmar, aí deve começar o projeto Redenção, enquanto a polícia faz seu papel de investigação”, explica o promotor Arthur Pinto. Já Marcela (nome fictício), uma assistente social da prefeitura que atua na Cracolândia, pede cautela: “O Doria fala em acelerar São Paulo, mas não existe acelerar com essas pessoas [os dependentes químicos]. Porque se você acelera, você atropela. E vai deixando rastro para trás”.
Felipe Betim/ElPais

Deveríamos tratar porte de drogas como tratamos infração de trânsito

Tendo crescido na periferia de Miami, ele viu amigos e familiares se tornarem dependentes do crack, recorrerem a crimes para sustentar o consumo e acabarem presos ou mortos ao se envolver com o tráfico. Essa visão mudou quando começou sua carreira como pesquisador nos anos 1990.
Em sua busca por uma forma de evitar que as drogas viciem, ele estudou o comportamento de dependentes e chegou à conclusão de que estas substâncias não são tão viciantes como imaginava. Hart oferecia US$ 5 a dependentes para que não tomassem uma segunda dose diária de crack.
Se a primeira havia sido alta, os dependentes normalmente optavam por uma nova dose. Mas, se a primeira havia sido pequena, era provável que abrissem mão da segunda. Isso mostrou a Hart que, quando uma alternativa era oferecida as estas pessoas, eles tomavam uma decisão racional.

O cientista replicou o estudo com a droga metanfetamina e chegou aos mesmos resultados. Ainda descobriu que, ao aumentar o valor para US$ 20, todos optavam pelo dinheiro. Essa descoberta fez Hart investigar a fundo o universo da drogas e chegar à conclusão de que muitas das premissas nas quais se baseiam as atuais políticas governamentais sobre drogas são falsas.

Sua experiência está resumida em Um Preço Muito Alto (Editora Zahar), que será lançado neste mês no Brasil. No livro, Hart detalha episódios pessoais com as drogas – ele chegou a traficar maconha – e explica como sua afinidade por esporte, música e literatura, além do tempo em que serviu no Exército e dos conselhos recebidos por seus mentores, o levaram por um caminho diferente.

Hoje, Hart é professor de psicologia e psiquiatria na Universidade Columbia, o primeiro negro a ocupar esse cargo, e é pesquisador da Divisão de Abuso de Substâncias do Instituto de Psiquiatria de Nova York

A BBC Brasil conversou com Hart, que está no Brasil para lançar seu livro e realizar palestras sobre drogas. Na entrevista a seguir, ele defende que problemas sociais, como a pobreza, falta de educação e o desemprego crônico, são fatores mais preponderantes do que o potencial viciante de substâncias químicas.

Ainda diz que é preciso esclarecer a população sobre os mitos e reais perigos das drogas para que as pessoas tomem decisões conscientes quanto a seu uso e advoga pela descriminalização, mas não pela legalização. “Ainda somos muito ignorantes para isso”, diz.

BBC Brasil – O senhor diz que a política empregada contra as drogas está equivocada. Por quê?

Carl Hart – A política de drogas da maioria do mundo é baseada em premissas falsas como, por exemplo, dizer que as drogas são muito viciantes, perigosas e imprevisíveis. Na verdade, a maioria das pessoas que usa drogas o faz de forma segura. Pense o seguinte: dirigir é estatisticamente perigoso, mas não temos a premissa de que uma motorista certamente sofrerá um acidente ou que passará por uma situação perigosa. Mas fazemos isso com as drogas. Ao basear esta política em mentiras, as leis criadas em torno dela não refletem a realidade.

Um Preço Muito Alto (Divulgação)

No livro, Hart mescla experiências pessoais e pesquisas

BBC Brasil – Em seu livro, o senhor diz que só 10% a 20% das pessoas se viciam em crack e metanfetamina. Esse índice é alto ou baixo?

Hart – Não sou eu quem diz isso, mas as pesquisas feitas nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. Considero esse índice relativamente baixo porque isso significa que a grande maioria das pessoas não se vicia nestas drogas. Mesmo entre as que se viciam, normalmente isso normalmente ocorre quando elas são jovens, e, quando somos jovens, cometemos erros.

BBC Brasil – Por que algumas pessoas se viciam e outras não?

Hart – Por várias razões. Algumas porque tem outros problemas psiquiátricos como ansiedade, esquizofrenia ou depressão. Elas usam drogas e não percebem que têm um problema a ser tratado. Outras pessoas são celebridades ou muito ricas e nunca tiveram alguém dizendo a elas o que fazer. Quando usam drogas elas, não farão isso de forma responsável. Outras se viciam porque se drogar é a melhor opção que têm em suas vidas. Questões sociais normalmente têm um papel mais importante do que qualquer outro fator. Mas podemos influenciar nestas questões.

BBC Brasil – Como?

Hart – Se as pessoas estão desempregadas e sem alternativas, podemos tentar garantir que elas tenham empregos significativos. Podemos mostrar que são valorizadas socialmente e fazer com que sejam incluídas na sociedade.

BBC Brasil – Por que o senhor não concorda com a noção de que a maconha é a porta para o vício em outras drogas?

Hart – Porque os dados não apóiam essa noção. É verdade que usuários de heroína e cocaína usaram maconha em algum momento de suas vidas, mas o inverso não é verdadeiro. Os últimos três presidentes americanos experimentaram maconha e chegaram a um dos cargos mais poderosos do mundo. É assim com a maioria das pessoas que fuma maconha em algum momento: eles seguem com suas vidas, trabalham, pagam impostos.

A maconha não leva a drogas mais pesadas. Os últimos três presidentes americanos experimentaram maconha e chegaram a um dos cargos mais poderosos do mundo. É assim com a maioria das pessoas que fumam em algum momento: eles seguem com suas vidas, trabalham, pagam impostos. 

Carl Hart

BBC Brasil – O senhor diz que é um erro separar a maconha de outras drogas tidas como mais pesadas, por quê?

Hart – Todas as drogas são psicoativas e interferem com o cérebro para gerar seu efeito. Todas são potencialmente perigosas, mas também podem ser usadas de forma segura se as pessoas têm acesso a informações e são educadas sobre o assunto. Por isso não faz sentido tratar a maconha de forma diferente, como hoje fazemos com o álcool, por exemplo. Um pessoa pode morrer de abstinência de álcool, mas não de maconha, de cocaína ou heroína.

BBC Brasil – E por que tratamos álcool de forma diferente?

Hart – Porque a população em geral é muito informada sobre o álcool. Não podemos dizer que, quando uma pessoa bebe, ela enlouquece e mata seus familiares. Ninguém acreditaria em você. Mas quando isso é dito sobre cocaína e, de certa forma, da maconha, as pessoas acreditam porque não tem conhecimento ou experiência sobre estas drogas. Se algo é reiterado por tanto tempo, como estamos fazendo sobre o perigo das drogas, as pessoas têm isso como verdade, mesmo que não seja.

BBC Brasil – Tendo tudo isso em mente, como deveríamos lidar com as drogas?

Hart – A primeira coisa a ser feita é corrigir as premissas sobre drogas e acabar com a desinformação. As pessoas pensam que ficarão viciadas ao usar cocaína uma vez ou que a maconha leva a drogas mais pesadas. Em ambos os casos, é mentira, assim como muitos dos danos que as drogas supostamente causam ao cérebro. Depois, é preciso criar leis para tratar o consumo ou porte de drogas como tratamos uma infração de trânsito. Não deveríamos prender pessoas. Deveríamos multá-las ou dar um alerta. Não deveríamos fazer uma guerra contra drogas porque não fazemos uma guerra contra dirigir carros e é possível pode morrer disso. Temos que mudar nossa abordagem se queremos aumentar a segurança de toda nossa sociedade. É preciso manter estas pessoas fora da prisão, onde há outros problemas e doenças.

BBC Brasil – Por que isso não é feito?

Hart – Há governos que fazem o que sugiro, como os da Noruega e da Suíça, mas suas sociedades são homogêneas. Em sociedades como a brasileira e a americana, que são muito diversas social e etnicamente, a política de drogas é usada como uma ferramenta para perseguir grupos que não são muito bem quistos e mostrar que eles são inferiores. O racismo tem um papel nisso. Ninguém admite, mas é que vemos quando analisamos as evidências e os dados.

BBC Brasil – Algumas pessoas podem pensar que o senhor defende a legalização das drogas, mas não é esta posição que o senhor defende, certo?

Hart – Não. Somos ainda muito ignorantes para legalizar as drogas. Primeiro, temos que acabar com os mitos e descriminalizar o porte e o consumo de drogas em vez de responsabilizar as drogas por tudo que há de errado na sociedade.

BBC Brasil –Em grandes cidades do Brasil, como Rio e São Paulo, os governos vêm tentando acabar com áreas de consumo conhecidas como “cracolândias”. Parte desse esforço envolve internar essas pessoas à força em clínicas com o aval de suas famílias. Como o senhor vê esse tipo de política?

É preciso criar leis para tratar o consumo ou porte de drogas como tratamos uma infração de trânsito

Hart – Você gostaria que fizessem isso com você? Provavelmente não. Fazer isso é ridículo.

BBC Brasil – O argumento é que estes dependentes estão num estado crítico que não permite a eles tomar esse tipo de decisão se precisam de tratamento ou não.

Hart – Quem pensa assim está completamente errado. Em minha pesquisa, dei milhares de doses de crack para dependentes, e estas pessoas tinham condições de tomar decisões por si mesmas. Se uma pessoa comete um crime ou infração, ela devem ser punidas, mas você não pode forçar ela a fazer algo contra sua própria vontade. Isso é uma barbárie.

BBC Brasil – Ao mesmo tempo, em São Paulo, a prefeitura oferece emprego, com remuneração de R$ 15 por dia de trabalho, cursos de capacitação e abrigo para os dependentes. Isso pode funcionar?

Hart – Parece ser um passo na direção certa. Mas é preciso ter certeza que estas pessoas acreditam que suas vidas melhorarão se elas fizerem isso, deixar claro que isso as tirará de uma situação terrível e que as levará a ter uma vida mais responsável e que permitirá a elas cuidar de suas famílias.

BBC Brasil – Como podemos mostrar isso a elas?

Hart – As pessoas não são estúpidas. Se você diz a elas que ganharão certa quantia em dinheiro para fazer certa coisa e que espera-se delas certas atitudes, elas sabem que fazer isso será bom. Foi o que a minha pesquisa mostrou.

BBC Brasil – Mesmo os mais jovens têm capacidade de usar racionalmente as drogas? Muitos pais acreditam que eles não estão preparados.

Hart – Antes de mais nada, nem todos os pais foram criados da mesma forma. Então, não dou ouvidos a pais que falam sobre algo que não entendem. Sou pai. Tenho filhos de 13 e 19 anos. Sei que eles agirão racionalmente com as drogas porque ensinei isso a eles. Expliquei a eles desde muito cedo. Mas as drogas não são o principal assunto entre nós. Em vez disso, os questiono sobre como eles se comportarão em sociedade e como contribuirão para ela. Eles fazem coisas erradas como qualquer criança, porque querem testar limites. Mas, no fim das contas, um adolescente sabem o que é ir longe demais se os pais fizeram um bom trabalho. O problema é que há muita gente que não é um bom pai ou mãe.

BBC Brasil – Como o senhor prepara o seus filhos para as drogas?

Hart – Passo a eles o mesmo tipo de conhecimento de que estamos tratando em nossa conversa. Sei, por exemplo, que uma das principais drogas consumidas por adolescentes é o álcool, então, falamos muito sobre isso. Também falamos muito sobre maconha, a droga ilegal mais usada. Explico que eles e os amigos devem começar por doses menores e tomar cuidado com o lugar onde usam este tipo de droga. Ainda digo que, em caso de qualquer problema, eles devem me ligar. Não porque quero julgá-los, mas quero garantir que eles estão seguros.

Internar pessoas à força é uma barbárie. Dependentes de crack podem tomar decisões racionais por conta própria

Carl Hart

BBC Brasil – No livro, o senhor reconta sua própria experiência com as drogas. Por que decidiu incluir esse relato pessoal?

Hart – Porque queria que todos soubessem que a maioria de nós usou drogas em algum momento e que isso não impede alguém de ser um membro produtivo da sociedade. Muitas pessoas são hipócritas e dizem que nunca usaram drogas. Não queria ser hipócrita.

BBC Brasil – O senhor ainda usa drogas?

Hart – Claro que sim. Eu bebo e tomo medicamentos.

BBC Brasil – E drogas ilegais?

Hart – Sou muito inteligente para usar drogas ilegais. O corpo não faz distinção entre drogas legais e ilegais. Não preciso buscar drogas nas ruas. Posso ir ao meu médico para conseguir isso. Esse é um dos benefícios de envelhecer e ser responsável: poder obter suas drogas legalmente.

BBC Brasil – O senhor defende uma posição polêmica. Sofreu algum tipo de represália ou prejuízo por conta disso?

Hart – Com certeza. Às vezes, as pessoas acreditam que defendo a legalização de drogas e me tratam de forma diferente, mas a maioria das reações têm sido positivas. Dizem que gostariam de poder dizer o que digo.

BBC Brasil –Mas o senhor perdeu financiamentos de pesquisa, não?

Hart – Ninguém disse que foi por causa disso, mas é o que suspeito. Isso não me surpreende. Porque, assim como a polícia, cientistas se beneficiam da histeria criada em torno das drogas. Se você diz à população que drogas são terríveis, o dinheiro dado para policiais e cientistas aumenta para lutar contra o impacto e efeitos das drogas.

BBC Brasil – O quão difícil é contrariar uma noção tão estabelecida na nossa sociedade?

Hart – É difícil, mas sou um negro que cresceu nos Estados Unidos. A dificuldade faz parte da minha vida.

Rafael Barifouse/Da BBC Brasil em São Paulo

Fotografias – Cracolândia, São Paulo

fotógrafo italiano crack crackolândia

Fotógrafo italiano vai à Cracolândia e registra efeito da droga: “Queria saber até onde o ser humano pode chegar”

<= O fotógrafo italiano Alessio Ortu caminha na madrugada de São Paulo 

Na última semana de novembro, o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou a decisão de terceirizar o atendimento aos usuários de crack da região central da capital paulistana.

O novo espaço da Cracolândia, que funcionará de segunda a sábado e tem previsão de ficar pronto até fevereiro de 2014, deve contar com área de internação que terá “moradias de crise” para 30 dependentes químicos, atividades esportivas e culturais para 100 usuários por dia, 21 leitos de desintoxicação e dormitórios onde os dependentes poderão morar por até três meses.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Com o objetivo de “devolver o sentido de dignidade e humanidade a quem é desprezado por todos”, o fotógrafo italiano Alessio Ortu passou um ano clicando a cada 15 dias os viciados em crack. O resultado da série foi o projeto “Simulacrum Praecipitii” (“A imagem do abismo”, em latim), composto de livro, exposição e documentário. Este último percorre atualmente vários festivais de cinema, de Gramado a Mar Del Plata. Alessio falou sobre o que viu durante o período em que frequentou a Cracolândia e afirma: “Nem todo dependente de lá é ladrão como mostram”. A entrevista a seguir foi realizada por Igor Zahir da revista Marie Claire.

De onde surgiu a ideia de fazer o projeto “Simulacrum Praecipitii”?

Alessio Ortu: Tudo começou quando, alguns anos atrás, me mudei para São Paulo e me impressionei com essa realidade vista no centro da cidade. Algo tão diferente de outros lugares que morei na Europa e América do Norte. Em setembro de 2011 dei início ao projeto e fotografei durante um ano.

As fotos geraram um livro, uma exposição e um documentário, certo?

Sim. Do livro surgiu a exposição, que ficou em cartaz no Palácio da Justiça em novembro. O documentário “Simulacrum Preacipitii – a visão do abismo” estreou em festivais de Gramado, Goiás, Cuba e Mar Del Plata. No início do próximo ano a exposição entrará em cartaz na OAB. Assista ao trailer abaixo:

Como se comportavam as mulheres que você clicou? Eram violentas?

O temperamento de todos eles –homens e mulheres – é igual. Quando percebem que você chega lá com boas intenções, querendo ajudá-los e não se aproveitar de uma situação, eles colaboram. Eles querem ser ouvidos. Fui quase sempre bem acolhido.

Como elas reagiam quando propôs clicá-las?

A maioria pedia dinheiro para alguma coisa e perguntavam qual era o objetivo. O que ajudou também é que cheguei neles de modo diferente dos jornalistas. Antes mesmo de começar a clicar, via outros profissionais tentando fazer fotos de longe, sem serem percebidos. Isso deixa os moradores de lá muito irritados porque se sentem roubados. Agi diferente: fui lá e pedi autorização.

Como era a rotina de fotos?

Não dá para ir todo dia, pois você fica marcado e é perigoso. Ia lá toda semana ou a cada 15 dias, saía bem cedo de casa e ia direto para o foco da Cracolândia. Às vezes levava horas para chegar na pessoa certa, porque tem fugitivos, traficantes, pessoas que não queriam aparecer e outras que estavam loucas e não entendiam nada do que eu falava. Mas, quando começava a fotografar, ficava mais fácil. Quando um deles já estava sendo clicado, os outros ficavam mais confiantes. Às vezes tinha até fila de espera para as fotos.

Como você os abordava?

Eu os parava nas ruas e ia direto ao ponto: perguntava se fumavam crack, se moravam nas ruas e se queriam ser clicados. Explicava que estava fazendo um projeto pessoal, sem ligação com a mídia ou fins comerciais. Acho que o fato de eu ser estrangeiro também ajudou um pouco, pois eles ficavam interessados nos meus motivos para me interessar por essa realidade em São Paulo.

Foi atacado por algum viciado?

Não, em nenhum momento. Havia pessoas mais agressivas, que não queriam ser clicadas, mas eu respeitava e não insistia. Vi brigas entre elas, algumas até mais violentas, mas simplesmente observei. Vi prostitutas que usavam a prostituição para comprar o crack.

Como foi ver uma realidade bem diferente da europeia?

Foi bem impactante ver o tamanho do problema. Na Europa a realidade social é mais controlada. Não tem essa pobreza extrema. O mais chocante é que isso acontece sob nossos olhos, num lugar lindo e histórico. É muito descuido.

Muitas fotos de sua série têm o foco nas mãos. Por quê?

Veio de forma muito natural, já que as mãos retratam muito de nossa alma. Elas fazem tudo, principalmente para quem mora nas ruas. Eles as usam para comer, catar lixo, roubar, se prostituir, se drogar. As mãos dessas pessoas são destruídas, mostrando os sinais da devastação da vida nas ruas. São claramente feias, mas consigo ver uma beleza plastificada nelas.

Você viu coisas que as pessoas associam às drogas? Prostituição, crimes…

Vi mulheres que usavam a prostituição para comprar o crack. Também não me interessava porque acho isso sensacionalista, já que, infelizmente, é um dos únicos jeitos que elas têm de conseguir as drogas. Mulheres se prostituem, crianças e outras pessoas catam lixo, tralhas de casas. Por incrível que pareça, a minoria rouba para se drogar. Apesar da mídia mostrar o contrário, poucos roubam. Na Cracolândia as pessoas catam lixo para comprar a droga. Essa é a realidade.

Qual história mais mexeu com você?

Vários casos, mas o dos menores de idade é impressionante. Não pude mostrar o rosto deles, então tive que clicar com as mãos cobrindo, já que, segundo a lei, eles não devem aparecer. A história deles é muito triste: são meninos e meninas entre 14 e 16 anos, que estão vivendo nas ruas.

Você se envolveu emocionalmente em algum momento?

Sem dúvida. Fui lá principalmente para conhecer a história dessas pessoas e devolver a dignidade e humanidade para elas, que são ignoradas e desprezadas por todos. Cada pessoa que encontrava perguntava a história pessoal, para saber como acabaram nessa situação. Cada caso é muito impactante porque mostra a gravidade do problema e o quanto é difícil escapar da situação.

É uma realidade paralela?

Sim, e o pior: acontece no meio da cidade. Ninguém se importa com esse problema, as pessoas preferem fingir que nada está acontecendo. Isso também foi um dos motivos que me levaram a fazer esse projeto: deixar de ignorar o assunto. As pessoas tendem a não querer saber sobre isso, até como forma de autoproteção. É uma carga espiritual muito negativa, a tendência é que a população evite contato com os moradores de lá. Com essa série, quis me confrontar com esse aspecto da população que mora num nível de pura sobrevivência. Queria saber até onde o ser humano pode chegar para continuar existindo.

Confira algumas imagens:

Sabrina, uma das clicadas na série
Sabrina, uma das clicadas na série
Alessio Ortu diante de dois viciados em crack. Um deles, a direita, usa a droga há 20 anos
Alessio Ortu diante de dois viciados em crack. Um deles, a direita, usa a droga há 20 anos
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Fonte:www.pragmatismopolitico.com.br

Cracolândia. Do populismo à incompetência. Liberada a tortura

Ao tempo da Liga das Nações tivemos uma conferência (1909) e três convenções sobre “drogas nocivas”, com foco especial no ópio, gerador de duas guerras diante do interesse monopolístico e da indústria farmacêutica. As duas guerras do ópio envolveram China e Grã-Bretanha (1839-42 e 1856-60). A ganhadora foi a Grã-Bretanha.

Na Organização das Nações Unidas (ONU), a principal convenção em face do fenômeno transnacional das drogas foi a de Nova York, em1961. Essa Convenção entrou em vigor em 1964. Na Convenção de 1988, realizada em Viena, comprovou-se que o sistema bancário e o financeiro internacional estavam sendo empregados para circulação e lavagem de dinheiro das drogas ilícitas da criminalidade organizada sem fronteiras.

A esse quadro deve-se acrescentar que nos últimos 25 anos a “guerra às drogas” implicou gastos estimados em US$ 25 bilhões. Mais ainda, nos últimos 20 anos, como comprovam fotografias aéreas e por satélites, nos países dos Andes, a área de cultivo da folha de coca, que representa a matéria-prima para a elaboração do cloridrato de cocaína (pó), continua com a mesma extensão de 200 mil hectares: os plantios andinos migram, mas continuam a atender a indústria da cocaína. Parêntese: a folha de coca é andina.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O panorama acima mostra, pelos múltiplos interesses e sem esquecer que insumos químicos necessários ao refino não são controlados, tratar-se de um fenômeno complexo. E se torna de difícil solução quando envolve a redução da demanda e as políticas sociossanitárias decorrentes do consumo e da dependência química e psicológica.

A situação criada pela aglomeração de dependentes químicos em centros urbanos, com todos os graves problemas decorrentes (crimes, violência, degradação humana etc), levou diferentes países a busca de soluções que atendessem as metas constitucionais de respeito à dignidade humana e aos compromissos internacionais. As primeiras medidas inovadoras e progressistas vieram da Confederação Helvética. A primeira delas, liberação de parques para consumo, restou em absoluto insucesso. As áreas livres de consumo foram ocupadas por gente vinda de outros países e fez-se a alegria dos traficantes, ou melhor, de operadores de redes de abastecimento que colocam traficantes nos denominados “nós da rede para ofertas”.

Dos ambientes abertos, a Suíça passou aos fechados. Os dependentes residentes passaram a receber a chamada “dose-oficial” em locais com assistência médica, primeiro passo tendente a cortar o cordão de ligação umbilical com os nacotraficantes. No ano de 1994, chamou a atenção da comunidade acadêmica internacional o programa sociossanitário implementado em Frankfurt, a quinta maior cidade da Alemanha. As narcossalas, com ações sociais, deram tratamento digno aos dependentes e, logo no segundo ano de implantação, o consumo de drogas pesadas caiu pela metade.

O discurso conservador de que as narcossalas levariam ao aumento do consumo foi desmentido pelas pesquisas realizadas pelas universidades, governo e organismos internacionais de saúde pública. As confederações do comércio e da indústria, na Alemanha, participam do programa de narcossalas e investem milhões de euros todos os anos. A vencedora do Nobel de Medicina, Françoise Barre Sinoussi, acompanhou e recomendou a implantação das denominadas “salas seguras para uso” (narcossalas) na França. Num caso de overdose, segundo cálculo das autoridades sanitárias de Frankfurt, os custos médico-hospitalares para cada usuário foi, quando da implantação das salas seguras de consumo, estimado em 350 euros. Com a queda de consumo, contatou-se economia e um grande avanço no trato humano para a questão da toxicodependência.

Nos EUA, apesar do desagrado do então presidente George W.Bush, continuaram a funcionar, com destaque para Nova York, os centros para emprego de metadona, droga substitutiva e indicada para controlar situação de abstinência por dependentes de heroína. Em outubro de 2011, a Suprema Corte do Canadá entendeu legítimas (constitucionalmente permitido) as políticas sociossanitárias voltadas a restabelecer a dignidade do dependente com a recuperação. Em outras palavras, liberou as narcossalas.

Na Espanha, depois da publicação no jornal de maior circulação do país de uma foto de um drogado, com agulha espetada no pescoço e seringa pendente, chegou-se à decisão de implantar as narcossalas, com resultados marcados por êxitos. Uma outra vertente consistiu em aberturas de comunidades terapêuticas ou centros modelares para tratamento. Um exemplo. Na cidade italiana de Rimini, com o maior porcentual de sucesso em tratamentos no mundo, funciona a comunidade terapêutica de San Patrignano: num grupo de 10 jovens, 7mabandonam as drogas com o tratamento. http://www.sanpatrignano.org/?q=it/ricerca_scientifica_oltre

Com o silêncio do governo federal que possui uma Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin, deram sinal verde e teve início, na quarta-feira 4, o Plano de Ação Integrada Centro Legal, com a ocupação pela Polícia Militar da região conhecida desde o início dos anos 90 por Cracolândia. Conforme escrevi na revista CartaCapital, o tal plano, sintetizado pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania de São Paulo e pela Coordenação de Políticas sobre Drogas, está baseado “na dor e no sofrimento” dos dependentes de crack. Dependentes que ocupam a chamada região da Cracolândia em fase de reurbanização e objeto de especulação imobiliária, com incentivos fiscais aos interessados em investimentos.

A polícia militar, já nas ruas, terá a tarefa de evitar a oferta do crack ao dependente e, caso escape o controle, não permitirá o uso no território da Cracolândia. Com os usuários sem acesso ao crack, entrarão na fase conhecida no campo médico por abstinência, produtora de sofrimentos e perturbações mentais. Aí, buscarão, na visão distorcida dos governos municipal e estadual, a rede de saúde para tratamento.

Em outras palavras, busca-se, pela tortura, uma eventual corrida do dependente às autoridades sanitárias, que ainda não possuem um posto no território da Cracolândia.

Com a sutileza de um “bulldozer”, a dupla Alckmin-Kassab substituiu a “tortura da roda” da Idade Média ou a tortura pelo silício, usada ainda por ordens religiosas, pela abstinência forçada e geradora de desumano padecimento.

Esqueceu-se que o Brasil aderiu à Declaração Universal de Direitos Humanos que proíbe a tortura e condena ações cruéis e castigos desumanos e degradantes.

A Secretaria Estadual de Direitos Humanos do Estado e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos não se opuseram às ações voltadas à imposição de sofrimentos e às ações policialescas contidas no Plano, que resultam em migração de dependentes para outros bairros e reações violentas por parte desses toxicodependentes.

Já é a segunda vez que Kassab fere elementares princípios de direitos humanos. Na primeira vez conduziu à força usuários para desintoxicação em centros de saúde. Depois de desintoxicados estavam livres para voltar à Cracolândia. Agora, e em dupla com o governador do Estado, usa a tortura indireta. Mas, como alerta o especialista Marcelo Ribeiro, “a estratégia não tem lógica. A sensação de fissura provocada pela abstinência impede que o usuário tenha consciência de que precisa de ajuda. Ela causa outras reações, como violência. Além disso, nenhum lugar do mundo está livre das drogas”. O delegado Sérgio Paranhos Fleury e os comandantes do DOI-Codi eram menos sutis que Alckmin-Kassab, pois usavam direto o pau de arara, o trono do dragão e o capacete de choque elétrico. O método, no entanto, era igual ao do plano Alckmin-Kassab: torturar e, pelo sofrimento incontido, obter o resultado desejado.

Em resumo, Kassab começou com a internação compulsória e migrou para a tortura disfarçada. Alckmin e o Tribunal de Justiça, por meio do desembargador destacado para a área de Crianças e Adolescentes, embarcaram na onda do sofrimento.

Num pano rápido. A dupla Kassab-Alckmin executa um plano desumano e com a mais rudimentar das técnicas policiais, ou seja, impedir a oferta de crack acompanhando a movimentação dos consumidores. Enquanto isso, a ministra Maria do Rosário encolhe-se e mergulha no silêncio da conivência.
Por Wálter Fanganiello Maierovitch/Terra Magazine.

A guerra contra o crack: Brasil já tem pelo menos 29 grandes cracolândias, dispersas por 17 capitais

Em 17 capitais brasileiras, já há atualmente 29 cracolândias com alta concentração de consumidores. Todas são itinerantes e vão se movimentando segundo o ritmo das incursões policiais e brigas entre traficantes.

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[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Em nove dessas cidades, os principais pontos de consumo de crack estão nas áreas centrais. As informações estão no mapeamento feito pela Secretaria Nacional Antidrogas em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na semana em que o governo federal lançou um plano de R$ 4 bilhões de combate ao crack, o Estado teve acesso com exclusividade a 16 dos 27 mapas das capitais.

Segundo o mapeamento da Fiocruz, cada região brasileira tem suas especificidades. Nenhuma cidade do Brasil, no entanto, se assemelha à capital paulista, onde o crack já está presente desde o fim dos anos 1980. Para dar conta da complexidade paulistana, pesquisadores esquadrinharam o território da cidade em mais de cem mapas. E descobriram que pelo menos cinco cracolândias na capital têm mais de cem pessoas.

“Já pesquisei nos Estados Unidos e na Alemanha e nunca vi nada no mundo parecido com São Paulo”, diz Francisco Bastos, pesquisador da Fiocruz e coordenador do estudo. Bastos explica que os mapas também vão servir como referência para que as equipes de saúde entrem em contato com consumidores.

No trabalho final, que deve ser divulgado no ano que vem, foram listados mais de 5 mil pontos de consumo de crack no Brasil. Em um ano, pesquisadores ouviram 21 mil consumidores e atualmente tentam chegar ao total de usuários nas ruas. A ideia é que, com esse estudo em mãos, União e Estados possam direcionar melhor ações e recursos para combater a expansão do uso da droga.

Distribuição. Na Região Norte, segundo a pesquisa, as concentrações de usuários de crack são pequenas e dinâmicas. Lá também se consome o oxi, derivado da pasta-base de cocaína misturado com querosene. No Nordeste, existem cenas variadas. Em Salvador, a concentração de usuários nas ruas é grande como a das cidades do Sudeste. No Recife, há uma mistura de pequenos e grandes redutos. No Sul do Brasil, em cidades como Porto Alegre e Florianópolis, as cracolândias são de tamanho médio.

No Sudeste estão as cracolândias mais visíveis e impressionantes. E se espalham por todo o território de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

O Distrito Federal, na região Centro-Oeste, também se destaca pela alta densidade – existem lá pelo menos cinco cracolândias, que estão presentes tanto no Plano Piloto quanto em municípios vizinhos, como Ceilândia e Gama.
Bruno Paes Manso – Estado de S. Paulo 

Cracolândias, a hora das narcossalas

O Brasil continua mergulhado nas trevas e demora em adotar medidas eficazes para contrastar o fenômeno sociossanitário representado pelo crack, cujo consumo se espalhou pelas cidades brasileiras.
Editor – José Mesquita 

Diante desse quadro, com prefeitos e governadores despreparados, o governo federal anunciou, em fevereiro deste ano, um acanhadíssimo projeto de centros regionais de referência, e isso para capacitar 15 mil profissionais de saúde em 12 meses.

O desatino maior deu-se na capital de São Paulo, onde o prefeito Gilberto Kassab já promoveu, com o auxílio da polícia, a internação compulsória de usuários frequentadores da Cracolândia, localizada na degradada zona central.

Depois de obrigados a se desintoxicar em postos de saúde, os dependentes voltaram rapidamente à Cracolândia para novo consumo. Quanto à polícia paulista, revelou-se incapaz de interromper a rede dos seus fornecedores de crack.

No momento, Kassab pensa em uma segunda overdose de desumanidade, e o Rio de Janeiro, com falso discurso humanitário, repete, em essência, a fórmula piloto do alcaide paulistano, ou seja, internações compulsórias para desintoxicação. Kassab vem sendo contido pelo secretário para Assuntos Jurídicos, que parece ter percebido a afronta à liberdade individual, constitucionalmente garantida.

Como o prefeito sonha com a reurbanização do centro da cidade, os usuários de crack viram um estorvo para a concretização de sua meta. E quando colocada a Polícia Militar em ronda permanente pela Cracolândia, os consumidores, em farrapos, migram para o vizinho bairro de Higienópolis, tido como aristocrático.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Kassab sofre, então, a pressão de uma classe social privilegiada, que não suporta nem estação de metrô no bairro, por entender inconveniente a presença dos não residentes.

Mais ainda, muitos higienopolistas reagem, quando topam com um drogado, como a desejar uma solução tipo Rio Guandu, época do governo Carlos Lacerda no Rio.

Diante das multiplicações das cracolândias, o governo federal tarda em ousar e partir para a adoção de narcossalas, também chamadas de salas seguras para consumo.

Até o Nobel de Medicina, Françoise Barre Simousse (isolou o vírus HIV-Aids), preconizou a adoção de narcossalas na França, em face da resistência do direitista presidente Nicolas Sarkozy, que prefere a cadeia para os usuários, como FHC e Serra nos seus governos.

A respeito, o Conselho Municipal parisiense tenta derrubar a proibição de Sarkozy e está pronto para implantar uma narcossala piloto em Paris.

Para os membros das respeitadas e francesas Associação Nacional para a Prevenção do Álcool e das Dependências (Anpaa) e Associação para a Redução de Riscos (AFR), a “história epidemiológica e a experiência clínica demonstram que o projeto de uma sociedade sem consumo de drogas é ilusório.

As posturas proibicionistas e repressivas são inócuas. Isso porque a cura raramente se dá apenas com a abstinência”. A abstinência, frisaram, causa exclusão. Ou seja, afasta dos sistemas de proteção e de acompanhamento uma parcela frágil e frequentemente marginalizada de consumidores- de drogas.

Barre Simousse recomenda a adoção da política de Frankfurt implementada em 1994, ao enfrentar o problema representado por 6 mil drogados que vagavam pelas ruas.

A experiência espalhou-se por outras oito cidades alemãs e vários países-, como Suíça e Espanha, aderiram aos ambientes fechados de consumo. Nos EUA, existem salas seguras para uso de metadona, droga substitutiva à heroína.

Com as narcossalas de Frankfurt, o número de dependentes caiu pela metade até 2003. Os hospitais e os postos de saúde, antes delas, atendiam 15 casos graves por dia, com um custo estimado de 350 euros por intervenção.

O sistema alemão de Frankfurt oferece acolhida aos que vivem marginalizados e em péssimas condições de saúde e econômicas. Sem dúvida, virou uma forma de aproximação, incluindo cuidados médicos, informações úteis e ofertas de formação profissional e de trabalho.

Nas oito cidades alemãs e entre os usuários dos programas de narcossalas, caiu o índice de mortalidade em virtude da melhora da qualidade de vida. E pesquisas anuais sepultaram a tese de que as narcossalas poderiam estimular os jovens a ingressar no mundo das drogas.

As federações do comércio e da indústria alemãs apoiam os programas de narcossalas com 1 milhão de euros. E ninguém esquece a lição do professor Uwe Kemmesies, da Universidade- de Frankfurt:
“Podemos reconhecer que a oferta de salas seguras para o consumo de drogas melhorou a expectativa e a qualidade de vida de muitos toxicodependentes que não desejam ou não conseguem abandonar as substâncias”.

Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Crack: Flagrantes

Brasil: da série “A vida como não deveria ser”!
Usuários de crack em Manguinhos, Rio – Foto:  Domingos Peixoto, O Globo

O crack já é uma epidemia, e não se vê nenhuma ação concreta e eficientae, de nenhum órgão de goverono, para solucionar essa praga que já responde por altos índices de homicídios no Brasil, com a maioria das vítimas situadas na faixa etária de 15 a 24 anos.

Para o professor da PUC de Minas, e um dos principais estudiosos do problema, Luiz Flávio Sapori, ” a fatia mais considerável da violência nas principais cidades brasileiras está relacionada à introdução do crack. Em especial no Nordeste, onde estão as capitais que tiveram o maior aumento de homicídios.”

Para Sapori,  “o crack é a droga mais danosa da sociedade atual”. Os dados das pesquisas do professor mineiro são alarmantes.
“Nos anos anteriores à inserção da droga na capital mineira, no meio da década de 90, o comércio de drogas era responsável por 8% dos crime contra a vida. A partir de 1997, este percentual cresceu consideravelmente, alcançando 19% dos crimes até 2004, e 33% em 2006.”

O Editor


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Narcotráfico: o consumidor financia o crime organizado

Narcotráfico: consumidor financia criminosos

A revista IstoÉ que está nas bancas põe o dedo na ferida, em reportagem de Francisco Alves Filho e Débora Rubin: o papel do consumidor no financiamento da atividade criminosa.

A revista mostra que quem cheira cocaína e fuma maconha é parte da engrenagem que move o tráfico de drogas.

“É preciso que a sociedade assuma a responsabilidade de discutir e enfrentar com firmeza esta questão”, diz a reportagem, que apresenta os números impressionantes:

só o Rio de Janeiro consome por ano 90 toneladas de maconha, 8,8 toneladas de cocaína e 4,2 toneladas de crack.


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