Economia: corrida para o fundo

Mundo pode estar numa “corrida para o fundo”
Claudia Safatle – VALOR ¹

O mundo pode estar caminhando para uma “espiral negativa”.

Um círculo vicioso onde a austeridade fiscal traria mais desemprego, menos consumo privado, queda da arrecadação de impostos, recessão.

O acordo do governo dos Estados Unidos com o Congresso para aumentar o teto da dívida pública pacificou temores imediatos, mas criou a percepção de que a política fiscal restritiva decorrente do acordo pode desacelerar em mais 0,5 ponto percentual o já baixo crescimento da economia americana esperado para 2012 e agravar o já elevado nível de desemprego.

A isso se agrega a crise de confiança que se esparrama pela Europa e que ameaça se tornar uma crise financeira, com danos para o sistema bancário da Zona do Euro, carregado de títulos dos governos, o que acentua o risco de estagnação ou mesmo de uma recessão global.

Foi com base nesse quadro dramático que o governo brasileiro tomou medidas duras para o mercado de derivativos cambiais na semana passada e anunciou, nesta semana, um programa de incentivos fiscais para garantir alguma competitividade à indústria.

Medidas são para proteger o país, diz Barbosa

“Situação extraordinária requer medidas extraordinárias”, comentou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Ele foi um dos artífices da MP 539 que, no dia 27, deu um duro golpe no mercado de derivativos. A MP instituiu o IOF de 1% sobre as variações das posições vendidas em câmbio dos bancos, empresas e fundos e paralisou o mercado, comprometendo inclusive as operações de hedge cambial.

Barbosa também esteve no centro da concepção do programa Brasil Maior, que pretendeu assegurar condições mínimas de competitividade da indústria no mercado mundial, onde ele prevê que a concorrência ficará mais acirrada.

“Não se trata de uma volta aos anos 70″, disse. A crise internacional está gerando um grau elevado de desconfiança e o Brasil, dos Bric, é o país mais aberto para receber fluxos de capitais externos e apreciar ainda mais a taxa de câmbio. “Com essas medidas queremos proteger nossa demanda”, disse o secretário.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Com os olhos na tela do celular que estampava as quedas nas bolsas de valores, ontem, pelo mundo e aqui, ele avaliou: “Está se consolidando, hoje, o risco de uma desaceleração ou, até, de uma recessão americana. E há uma grande incerteza financeira na Europa.”

Assinalou que comungava dos mesmos temores que têm sido apontados pelo economista Paul Krugman, de uma volta prematura da contração fiscal, tal como ocorreu em 1937, abortar a recuperação econômica nos Estados Unidos (que levou o país à depressão até a Segunda Guerra). Resultado de uma polarização das forças políticas do país que deixou o mundo em estado de perplexidade.

“É o mito da contração fiscal expansionista”, citou Barbosa, referindo-se à crença de que uma política de corte do gasto público gera um ambiente de grande confiança, capaz de animar o gasto e o investimento privado e de reativar as forças da economia.

“Nem a ‘The Economist’ acredita mais nisso”, disse, reportando-se à edição da revista britânica do dia 14 de julho, que trouxe um texto intitulado ” A história mostra que austeridade e crescimento não andam juntos”.

Os EUA, que demandariam mais estímulos fiscais, vão ter que cortar gastos. A Europa, que tem um grave problema de demanda, quer resolver a crise pelo lado da oferta. “Estão indo para uma linha onde não há o agente do crescimento”, comentou o secretário.

Liquidez elevada e juros muito baixos devem perdurar no mundo ainda por um bom tempo, pelo menos por todo o próximo ano, estimulando operações altamente alavancadas em derivativos e em commodities, explicou. Isso motivou as medidas cambiais.

“O governo sentou à mesa de operação e quer saber o que os investidores estão fazendo. Não há nada proibido. Apenas queremos saber”, disse Barbosa. Ainda estão frescos na memória do governo os efeitos colaterais da crise de 2008, que derrubaram empresas altamente alavancadas em derivativos que apostavam na apreciação do real.

“Queremos dar ao Conselho Monetário Nacional uma visão sistêmica dos movimentos individuais nesse mercado.” Ele reconhece que o mercado de derivativos tem importantes funções, dentre elas a de proteger os exportadores do risco cambial, mas acredita que ele gera, também, “externalidades negativas” que o governo quer evitar.

As conversas dos dirigentes da BM&FBovespa, Febraban e Cetip com o Ministério da Fazenda, para dar aplicabilidade à medida, prosseguem. O secretário admitiu desde o primeiro dia que poderão ser feitas as adequações necessárias à implementação da MP, mas nega mudanças no mérito da decisão.

“Na primeira reunião eles nos pediram 60 dias de prazo. Demos o prazo, estamos avaliando e não há qualquer medida iminente.”

Sobre o risco de uma migração desse mercado para fora do país, Barbosa comentou: “Pode ocorrer de uma parcela do mercado, mas não de todo ele.”

Ainda que haja a possibilidade de uma fatia importante dessas operações migrar, ele foi claro:
“Esse é um risco que estamos dispostos a correr para não ter que perder empregos aqui e perder, também, setores industriais inteiros por conta de uma apreciação temporária do câmbio – por excesso de alavancagem – mas longa o suficiente para produzir efeitos permanentes na economia.”

Diante de tantos perigos, o governo reafirma que a economia está preparada para enfrentar mais essa crise, mas sabe que ninguém passa incólume por ela.

Ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lembrou que o arsenal de medidas tomadas na avalanche de 2008 está à disposição para ser resgatado caso seja preciso.

¹ Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras.
E-mail claudia.safatle@valor.com.br

Banco central a serviço dos banqueiros

O BC vai bem, a serviço da banca

O Banco Central está com um parafuso solto.

Seu diretor de administração, Altamir Lopes, recomendou à patuleia que, caso ela receba notas manchadas ao sacar dinheiro nos caixas eletrônicos à noite, deverá procurar uma delegacia e registrar um Boletim de Ocorrência.

A proposição é absurda, impertinente e facciosa.

É absurda porque, se dois irmãos, João e José, saírem pela madrugada e um assaltar uma padaria enquanto o outro vai a um caixa eletrônico para sacar R$ 20, João colocará o butim num envelope de depósitos automáticos e irá para a noite.

José, tendo recebido a nota manchada, deverá ir à delegacia registrar o ocorrido.

Pelo menos um delegado, em Santo André, com razão, reteve a cédula.

É impertinente, porque não há norma que ampare a recomendação desse ritual. Procurando inibir as explosões de caixas eletrônicos, a banca passou a usar um dispositivo que mancha as cédulas.

Para impedir que essas notas circulem, o Conselho Monetário Nacional baixou uma Resolução (n 003981). Ela diz que “as instituições financeiras, ao receberem cédulas inadequadas (…) deverão retê-las e recolhê-las ao Banco Central”.

Portanto, eles não podem colocar essas notas nos seus caixas eletrônicos, repassando-as a clientes que pagam taxas de R$ 1,30 a R$ 2 pelo saque.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Se os diretores do Banco Central lidam com assuntos da alta finança com a mesma ligeireza com que opinam sobre a baixa poupança, vai-se mal.

Querem impor à clientela a obrigação de batalhar numa delegacia pela recuperação de um valor que lhe pertence.

A recomendação é demófoba.

É no andar de baixo que estão pessoas para quem perder R$ 20 ou R$ 50 significa uma refeição.

Levada ao pé da letra, a recomendação deveria pedir que se fizesse um B.O. para que o banco explicasse por que colocou notas manchadas no seu caixa.

Parece que a proposta também é inócua, pois a polícia informa que a bandidagem já teria aprendido a limpar a tinta derramada nas notas.

Existem no Brasil 180 mil caixas eletrônicos.

Estima-se que as chances de uma pessoa receber notas manchadas sejam de três em 100 mil.

Admitindo-se que sejam de três em dez milhões as chances de o freguês receber uma nota dessas fora do horário de expediente, o montante de cédulas bichadas que os caixas eletrônicos despejam diariamente dificilmente passaria dos R$ 10 mil.

Se os bancos resgatassem as notas no dia seguinte, nenhum deles faliria.

Sairia mais barato do que uma consultoria companheira.

A troca da nota deve ser feita mediante a exibição do extrato do caixa, registrando-se a transação no cadastro do freguês.

Se um cidadão recebe vinte notas manchadas num mês, será possível suspeitar que se trata de um cambista dos assaltantes.

A Febraban endossou a recomendação demófoba do BC.

Perdeu uma oportunidade de defender os depositantes.

Em abril do ano passado, quando o Estado do Rio estava submerso numa enchente que matou perto de mil pessoas, a veneranda guilda da banca teve um apagão moral e informou à patuleia que nenhuma conta ou dívida teria seu vencimento prorrogado.

Nos dias seguintes, voltou atrás e desculpou-se.

Parecia ter tomado jeito, mas teve uma recaída.

Elio Gaspari/O Globo

Bancos: nada de tarifas em operações on-line

Bancos poderão oferecer conta eletrônica isenta de tarifas

Entrará em vigor amanhã (1º) a medida do Conselho Monetário Nacional que cria a opção de os bancos oferecerem a seus clientes a conta-corrente movimentada exclusivamente por meios eletrônicos (internet, caixa eletrônico e celular).

Com isso, o cliente fica isento da cobrança de tarifas.

Segundo o Banco Central, a medida é mais uma alternativa para promover a inclusão financeira em todos os níveis.

Os bancos podem decidir se oferecem esse tipo de movimentação a seus clientes, com acréscimo de cláusula adicional ao contrato de direitos e obrigações, sem cobrança.

Tarifas bancárias com novos valores a partir de hoje

Depois de longa luta por parte dos consumidores, as tarifas bancárias – grande fonte de receita dos bancos. Em alguns correspondem a até 47% do faturamento – descem a patamares menos escorchantes. Ufa!

A partir de hoje, por determinação do Conselho Monetário Nacional, os bancos só poderão reajustá-las de seis em seis mêses. A medida é complementada por normativa do Banco Central, para que todos os bancos utilizem as mesmas siglas e descrições, nas informações aos clientes.

A nomenclatura padronizada – a atual sopa de letrinhas só serve pra confundir a vítima, quer dizer o cliente – irá facilitar a comparação dos preços dos serviços. A concorrência entre os bancos, aumentará provocando uma redução nas tarifas. A medida determina, também, que as instituições financeiras são obrigadas a oferecer serviços essenciais gratuitos.