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Como ler mais rapidamente

“Não há atalhos”, diz Elizabeth Schotter, professora assistente de psicologia da Universidade do Sul da Flórida, onde dirige o Laboratório de Movimentos Oculares e Cognição.

Crédito: Ilustração de Radio

Os adultos com formação universitária costumam ler entre 200 e 400 palavras por minuto (uma taxa de escuta confortável é de cerca de 150 palavras por minuto). Os leitores de velocidade mais rápida reivindicam até 30.000 palavras por minuto, momento em que a pesquisa sugere uma perda significativa de compreensão.

Pode ser bom ler um manual do usuário de uma impressora de escritório, mas não leia “Anna Karenina” e espere entender. “Nesta era moderna, sempre queremos fazer tudo mais rápido”, diz Schotter, cujo laboratório usa vídeo em alta velocidade para analisar os olhos dos leitores enquanto eles passam pelo texto. A obsessão pela leitura rápida dos EUA confunde Schotter; em média, as pessoas leem duas vezes mais rápido que podem ouvir confortavelmente. A leitura é visual e cognitivamente complicada; não há problema em reler uma linha porque é confuso ou, melhor ainda, permanecer em uma frase tão bonita que faça você querer fechar os olhos.

Você costuma ler mais rápido lendo mais. Uma das maiores influências no seu ritmo é o que os psicolinguistas chamam de efeito de frequência das palavras; quanto mais vezes você encontrar uma palavra, mais rápido a reconhecerá. Seus olhos se fixarão por mais tempo em palavras menos familiares, aumentando a probabilidade de você parar na “morada”, por exemplo, do que na “casa” mais comum.

Leitores hábeis começam a prever palavras e significados, mesmo em sua visão periférica embaçada, o que lhes permite pular mais palavras, especialmente as curtas. Os leitores pulam a palavra “the”, por exemplo, cerca de 50% do tempo. “Se você gastar todo o seu tempo lendo ‘Harry Potter’, ficará muito bom em ler ‘Harry Potter’ ‘”, diz Schotter, que sugere incluir uma ampla variedade de textos para expandir seu vocabulário.

Às vezes, você precisará reler uma palavra, uma frase ou até um parágrafo para entender seu significado. Os pesquisadores chamam essas regressões, e os leitores mais rápidos geralmente os fazem menos do que os leitores mais lentos. Alguma escrita é mais difícil de decodificar e prever e é mais provável que desencadeie regressões.Literatura,Poesia,Frases,Blog do Mesquita (2)

Entre os mais difíceis estão o que os psicolinguistas chamam de sentenças no caminho do jardim, como “As roupas de algodão são feitas de mudas no Mississippi”. Se a velocidade é seu objetivo, quanto mais clara a prosa, mais rápido você lerá. “Parte do fardo”, diz Schotter, “é do escritor”.

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Fremdschämen, a constrangedora ‘aula’ sobre nazismo dos brasileiros aos alemães

O termo alemão para “vergonha alheia” resume o que foi a enxurrada de críticas de internautas brasileiros a um vídeo da Embaixada alemã afirmando que nazismo é de direita

GETTY | EPV

Uma palavra sintetiza a aula sobre nazismo que um grupo de brasileiros tentou dar aos próprios alemães na Internet: fremdschämen (vergonha alheia). O que era para ser um vídeo sobre como se ensina a história do nazismo, publicado no Facebook pela Embaixada da Alemanha em Brasília e pelo Consulado Geral no Recife, se tornou um campo de guerra nas redes sociais.

De um lado, brasileiros que não acreditam no holocausto e garantem que o nazismo era uma ideologia de esquerda, contestavam a história divulgada pelo Governo alemão. Do outro, brasileiros envergonhados pediam desculpas pelos comentários exaltados. E no meio, a embaixada alemã tenta equilibrar os ânimos e corrigir os néscios: “O holocausto é um fato histórico, com provas e testemunhas que podem ser encontradas em muitos lugares da Europa”, publicou em resposta a um internauta que afirmou que  o “holofraude está com os dias contados”.

No vídeo institucional, a Alemanha explica que desde cedo as crianças são ensinadas confrontar os horrores do holocausto, como parte do pensamento de conhecer e preservar a história para não repeti-la. No país é crime negar o holocausto, exibir símbolos nazistas, fazer a saudação “Heil Hitler“. O vídeo deixa claro que o nazismo é uma ideologia da extrema direita. “Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas“, afirma no vídeo Heiko Mass, ministro das Relações Exteriores.

Muitos internautas contestaram o ministro: “Extremistas de direita? O partido de Hitler não se chamava Partido dos Trabalhadores Socialistas? Onde tem extrema direita?”, perguntou um internauta, em relação ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), que ficou ativo no país entre 1920 e 1945. O partido de Hitler misturava uma cultura paramilitar racista, populista, antissemita e anti-marxista, algo como “contra tudo o que está aí” e ” ou pelos verdadeiros alemães “de bem”.

Houve quem tentasse explicar onde estava o erro da embaixada: “Não é só pelo nome do partido. É uma concentração de poder no Estado. A esquerda (comunismo/socialismo) acredita em poder centralizado no governo para a construção de uma sociedade melhor. A direita acredita na descentralização desse poder, por isso advoga um poder maior ao indivíduo e não ao coletivo (…)”. Isto é, como Hitler centralizava o poder, logo, ele não poderia ser de direita, segundo esse internauta.

Enquanto alguns tentavam ver o lado positivo da iniciativa e marcavam amigos para tentar provar que o nazismo é, sim, de direita – “(…) se o Consulado alemão explicando que o nazismo é de extrema direita não te convencer, não sei o que mais poderá”, escreveu um internauta. Outros até ameaçaram a embaixada: “[Vocês] perderam uma enorme chance de ficar de boca fechada. Mas não se preocupem. Estou compartilhando este post na Alemanha. Vamos ver o que irão dizer!”

Damaris Jenner, responsável para assuntos de imprensa na embaixada, explica que a ideia era falar sobre como se ensina história na Alemanha. “Na semana em que pensamos em fazer esse vídeo, aconteceram as manifestações em Chemnitz e vários jornais brasileiros noticiaram”, diz ela. Os protestos foram realizados por militantes da extrema direita desde o final de agosto contra a morte de um alemão, supostamente esfaqueado por dois imigrantes, e que terminaram em atos de violência.

“Achamos que seria interessante ligar esses dois assuntos para mostrar essa discussão na Alemanha”, afirma Jenner. Mas a reação dos internautas surpreendeu. “Não imaginávamos que repercutiria dessa forma”, diz. “Nosso vídeos costumam ser bem assistidos, mas esse foi excepcional”. Até o fechamento desta reportagem, o vídeo tinha mais de 630.000 visualizações na página da embaixada. Jenner diz que, além da audiência alta, fez diferença o engajamento dos usuários. “Geralmente tem menos debate”, diz. Ela afirma que alguns comentários foram respondidos “de forma cordial” pela própria embaixada ou pelos consulados que replicaram o vídeo, mas que em muitos casos os próprios usuários responderam uns aos outros.

"Quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal"; "direitos humanos ao invés de humanos de direita" e "nós somos todos humanos", nos cartazes em protesto em Chemnitz, na Alemanha, no dia 3 de setembro.
“Quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal”; “direitos humanos ao invés de humanos de direita” e “nós somos todos humanos”, nos cartazes em protesto em Chemnitz, na Alemanha, no dia 3 de setembro. MATTHIAS RIETSCHEL (GETTY IMAGES)

Apesar da polêmica e de alguns comentários pouco cordiais de usuários, a embaixada não pretende retirar do ar a publicação. “Isso é um assunto importante em muitos países atualmente”, diz Jenner, sobre a temática levantada pelo vídeo. “Mas as reações daqui são devido a situação política do Brasil”, afirma. Desde as jornadas de junho de 2013, o país vive um clima acirrado de polarização política. Grupos alinhados ao pensamento da direita se uniram em torno do impeachment da petista Dilma Rousseff. Enquanto grupos de esquerda acusavam os adversários de golpe. Neste cenário, a defesa falaciosa de que o nazismo seria um movimento de esquerda se tornou comum entre militantes da direita nas redes sociais.

Na escola, os alemães começam a aprender sobre o nazismo quando têm  entre 13 anos e 15 anos. E no Brasil também. “Os alunos da rede pública estudam este tema em História em dois momentos do ciclo básico: no nono ano do ciclo fundamental e no terceiro ano do ensino médio”, afirma o professor de história da rede pública de São Paulo Danilo Oliveira. A diferença é que, enquanto na Alemanha a história do Terceiro Reich está nas ruas, no turismo e nas memórias das famílias, no Brasil, as lembranças do passado de influência nazista vão sendo apagadas pelo desinteresse sobre o tema.

É o que aconteceu com a Fazenda Cruzeiro do Sul, em Paranapanema, interior do Estado, onde funcionou na década de 1930 uma colônia nazista. A história da fazenda ganhou destaque a partir do trabalho do historiador Sydney Aguilar que descobriu como 50 meninos órfãos do Rio de Janeiro foram escravizados por dez anos a ponto de terem sido privados até mesmo de seu nome, eles só ganhavam números. Essa história foi contada no filme Menino 23, lançado em 2016. O prédio da sede, construído com tijolos com o desenho da suástica, já não existe mais. O proprietário começou a demolir a estrutura em 2012, e terminou em 2016. E só restou à Procuradoria Geral do Estado processar o dono.

O professor Oliveira admite que o nível de informação dos brasileiros sobre grandes temas da humanidade, como o nazismo, pode piorar nos próximos anos. Isso porque a diferença entre as ideologias de direita e esquerda são mais aprofundadas nas disciplinas de história e sociologia no ensino médio, que deixarão de ser obrigatórias se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para esta etapa de estudos for aprovada. Por enquanto, como disse um internauta, “brasileiros questionando a embaixada alemã sobre nazismo é 8 a 1 para Alemanha”. Mas pelo andar das coisas, esse placar ainda tem potencial para crescer muito.
ElPais

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Negligenciadas e subvalorizadas: roupas íntimas na Idade Média

Por Madeleine Colvin

Apesar de ser uma das roupas mais importantes, a roupa íntima é a parte de roupas medievais que é frequentemente ignorada e inexplorada na ficção histórica e no figurino. Os trajes modernos e a moda parecem ter um fascínio pelos espartilhos e crinolinas da era vitoriana, mas têm pouco interesse no que veio antes. O que podemos dizer sobre esse elemento da moda, que tem sido negligenciado por muito tempo?

Embora os espartilhos possam estar relacionados a roupas de baixo modernas, como “spanx” e outras engenhocas de treinamento da cintura e modelagem do corpo, e quanto às roupas íntimas anteriores, elas são totalmente ignoráveis? E as roupas de baixo dos homens? Este artigo é uma breve visão geral de como era a cueca na Idade Média e como ela se compara ao que provavelmente usaremos hoje. Embora as roupas íntimas modernas pareçam estar em busca de diminuir e ficar menos visíveis a cada ano, na verdade ela teve grandes começos!

As roupas de baixo vitorianas e a silhueta com espartilho costumam ser o que vem à mente quando alguém pensa em roupas íntimas históricas … “Catálogo de moda ilustrado: verão de 1890” por Internet Archive Book Images, via Wikimedia Commons

A roupa de baixo dos homens é muito mais prevalente nas fontes históricas da arte do que a das mulheres, possivelmente porque a idéia de um homem sem roupa era considerada humorística em oposição à obscena. Havia dois itens comuns de roupas íntimas na idade média: braies e sob túnicas. Se quisermos pensar no que os homens vestem hoje em dia, eles podem ser comparados às camisetas e boxers modernas.

Um undertunic do estilo do século XIV dobrado em braies. Braies medievais para homens de ArmStreet.

As roupas de baixo e as camisas dos homens modernos geralmente são feitas de uma mistura de algodão ou algodão / poliéster e são elásticas para permitir que elas se ajustem à forma do corpo e não sejam visíveis sob a roupa exterior. As roupas íntimas medievais eram um pouco diferentes – embora elas não fossem visíveis, não era um insulto parecer espreitando em lugares que suas roupas externas não cobrem. As túnicas eram longas e onduladas, às vezes até o chão ou o joelho, dependendo do comprimento das roupas externas. Geralmente, as túnicas eram geralmente colocadas nas roupas íntimas de um homem.

Na Idade Média, calças como as conhecemos hoje não estavam na moda.  As interpretações modernas de trajes costumam considerar as calças da Idade Média como “calças justas”, mas na verdade eram feitas de duas peças de tecido separadas e não se tornaram um item singular que se assemelha a “calças” até o final do século XV. Em vez disso, os homens usavam meias compridas e ajustadas que iam dos pés aos quadris e criavam uma aparência geral semelhante às calças justas. Eles estavam amarrados na cintura para amarrar as cuecas (roupas íntimas) ou a um cinto de pano separado, usado sob as roupas. Devido à natureza dessas “calças”, os braiestinha alguns desenhos diferentes, variando de cuecas boxer curtas e semelhantes a longas e penduradas frouxamente sob o joelho em montes ondulados de tecido. Alguns dos exemplos mais famosos podem ser encontrados na Bíblia Maciejowski (Bíblia Morgan), que apresenta um número de homens sem roupa, dando-nos uma maior compreensão do que o homem comum na idade média usaria sob sua roupa.

Homens em um pátio vestindo Braies medievais, da Bíblia Maciejowski

Então, a roupa íntima masculina era um pouco mais volumosa, mas não tão diferente da atual. O que aconteceu antes para as mulheres, antes da cintura apertada e das roupas íntimas estruturadas? É uma resposta bastante simples: gloriosa falta de forma. Nos dias de hoje, a mulher pode optar por atingir sua figura preferida através de roupas íntimas ajustadas, mas as roupas íntimas iniciais eram mais propensas a ser apenas um vestido de linho folgado. As imagens de referência de mulheres em roupas íntimas na Idade Média são poucas (é mais provável que sejam retratadas como completamente nuas ou totalmente vestidas), mas esse vestido largo é o mais comumente observado. Essa peça era frequentemente chamada de “bata” ou “camisa” e era a roupa mais comum para mulheres há mais de 500 anos, desde o início do período medieval até o Renascimento.

Uma reconstrução moderna de uma camisa do século XIV pelo fabricante de roupas ArmStreet.

Alguns designs e materiais diferentes podem ser observados com a camisa, sendo o material mais comum o linho. Os civis mais pobres podem usar roupas de baixo feitas de tecido de cânhamo, enquanto as mulheres nobres são conhecidas por usar avental de seda. As roupas de baixo sempre foram descritas em manuscritos como sendo brancas ou esbranquiçadas, feitas de tecido opaco ou de material mais transparente e transparente (que provavelmente era de linho ou seda muito, muito fino). Alguns vestidos, como os usados ​​pelo coloquialmente conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” na Bíblia Wenceslas, usam vestidos com cintas de espaguete com um torso mais ajustado que parece fornecer algum suporte comparável ao sutiã moderno.

O conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” da Bíblia de Wenceslaus IV

Com roupas tão folgadas, é fácil supor que a moda do dia deve ter sido de silhuetas semelhantes, mas esse não foi o caso! Particularmente nos séculos XIV e XV, a moda parecia favorecer o ajuste apertado sobre os vestidos de lã de seda, exibindo um peito apertado e cintura justa, brilhando em uma saia reta e cheia. Um exemplo pode ser retirado do Livro da Cidade das Senhoras (1405), onde podemos ver mulheres usando vestidos lisonjeiros e contornados.

O Livro da Cidade das Senhoras – século XV

Você também pode estar se perguntando o que as mulheres fizeram por roupas íntimas na parte inferior do corpo. A resposta para isso é… ninguém sabe! Não há fontes históricas confiáveis ​​sobre o assunto, e é uma conclusão comum que as mulheres não usavam cuecas de nenhuma variedade. Se o fizeram, podemos assumir que eles eram semelhantes aos dos homens, parecendo pequenos shorts. Os pesquisadores tendem a discordar sobre esse assunto, e atualmente não há resposta definitiva para essa pergunta.

Nos tempos modernos, pode parecer contraproducente usar uma camisa solta e ondulada sob uma roupa apertada, mas a roupa de baixo era usada para mais do que apenas apoio na Idade Média. Também fornecia uma camada extra vital de calor e protegia a pele sensível das roupas externas de lã com coceira. Também protegeu roupas caras do suor e de outros desgastes, prolongando sua vida útil e exigindo muito menos lavagem, o que era especialmente importante em materiais delicados, como a seda.

Toda vez que fazemos uma descoberta histórica, aprendemos cada vez mais sobre a vida cotidiana na Idade Média. Há apenas alguns anos, descobrimos uma série de roupas íntimas do século XV que se assemelham a sutiãs , mudando completamente nossa perspectiva sobre roupas íntimas históricas. Assuntos domésticos, como roupas íntimas, podem parecer banais, mas entender coisas assim ajuda a aprofundar nosso conhecimento do passado e a entender quem nos tornamos hoje. É fácil esquecer que os itens que são frequentemente negligenciados e subvalorizados são os mais essenciais.

Refletindo sobre tudo, fica claro que o verdadeiro uso utilitário de roupas íntimas realmente não mudou muito nos últimos 700 anos. No entanto, não se pode deixar de notar que, enquanto as roupas íntimas medievais eram largas e largas, as roupas íntimas modernas parecem estar ficando cada vez menores. Sem mencionar que roupas íntimas e tiras parecem ter saído de moda há alguns anos, reservadas para serem usadas apenas com o mais puro dos vestidos. Há muito a dizer sobre a diferença nos padrões de beleza da Idade Média até hoje – mas talvez eu guarde isso em outro momento. Espero que este artigo tenha trazido alguma clareza à questão da roupa íntima e tenha despertado interesse no que normalmente permanece oculto – depois de tudo isso, é apenas uma breve visão geral, há muito mais a ser descoberto!

Nossos agradecimentos a Madeleine Colvin e Mykhaylo “Miha” Skorobogatov, da ArmStreet, por este artigo. A ArmStreet é uma empresa internacional com escritórios nos EUA, Austrália e Ucrânia. Sediada em Milwaukee, WI, EUA, foi fundada como uma cooperativa de vários mestres e designers de jogos LARP, e agora é líder mundial em trajes medievais de alta qualidade. Clique aqui para visitar o site deles . Você também pode gostar deles no Facebook ou segui-los no Twitter @armstreet .v

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NY exporta sem-tetos

Nova York gasta 89 milhões de dólares para ‘exportar’ sem-teto para o resto dos EUA. Programa da prefeitura da maior cidade do país envia milhares de famílias a outras localidades

Uma pessoa sem-teto nas ruas de Nova York.
Uma pessoa sem-teto nas ruas de Nova York. S. PLATT (GETTY)

Quando tomou posse como prefeito de Nova York, Bill de Blasio prometeu acabar com a desigualdade que dividia a cidade entre pobres e ricos. Para isso estabeleceu como prioridade combater a crise do aumento do número de pessoas em situação de rua na maior metrópole dos Estados Unidos. Quase seis anos depois, o democrata é criticado por outros prefeitos por um programa que lhe permitiu exportar milhares de famílias sem lar para outras localidades de todo o país.

O polêmico programa chamado Assistência Especial Única (SOTA, na sigla em inglês) está subordinado ao Departamento de Serviços a Pessoas sem-teto (DHS). De acordo com a informação revelada pela imprensa local, a cidade destinou 89 milhões de dólares (363,5 milhões de reais) para cobrir o transporte, o aluguel de um ano e os móveis de 12.482 pessoas que se mudaram da cidade. Isso equivale a 5.070 famílias desde que o programa foi lançado, em agosto de 2017.

A cidade os espalhou por mais de 370 localidades em 32 Estados, incluídos territórios remotos como Porto Rico e Havaí. As autoridades de Nova York nunca informaram às cidades de acolhida sobre o estado financeiro dos novos residentes. A realocação é feita, além disso, sem que o beneficiário tenha que demonstrar qualquer vínculo com a comunidade de destino.

Newark, no outro lado do rio Hudson, em Nova Jersey, identificou 1.200 famílias que fazem parte deste programa. Agora se dispõe a adotar uma ordem municipal para proibir que sua vizinha continue lhe enviando sem-teto através do SOTA. André Wallace, prefeito de Mount Vermont, no condado de Westchester, também exige que Bill de Blasio se encarregue das pessoas que lhe enviou.

A Coalizão para as pessoas em situação de rua quantifica em 63.840 os indivíduos nessa situação na cidade de Nova York, numa contagem feita sempre nos meses de janeiro. As cifras, segundo a organização, não pararam de crescer desde que De Blasio assumiu. No caso dos homens adultos, o número duplicou durante os últimos 10 anos, superando os 18.000. As famílias passaram de 9.600 para 15.000 nesse período.

Legalidade duvidosa

Algumas das pessoas atendidas pelo programa foram parar em Honolulu, no Havaí, a quase 5.000 quilômetros de Nova York. O democrata John Mizuno, que preside o comitê de Saúde Pública do Senado havaiano, escreveu ao secretário de Justiça dos EUA pedindo que revise a legalidade da política adotada por Nova York. Considera que o programa “não garante a segurança, o bem-estar e o apoio que necessitam” essas pessoas deslocadas. “É uma receita para o desastre”, afirma. O Havaí conta com um programa semelhante.

As autoridades de Irvington, em Nova Jersey, lamentam por sua vez a falta de coordenação e supervisão. Tony Vauss, seu prefeito, insiste em que as pessoas sem casa são “cidadãos vulneráveis” que precisam de atenção permanente. Quando a ajuda desaparece, são os lugares de acolhida que precisam se encarregar deles. Como a prefeita de Torrington, em Connecticut, que ficou sabendo do programa nova-iorquino pela imprensa.

A gravidade da crise, diz a coalizão, “não é uma surpresa”. Pode-se comprová-la passando em frente ao albergue masculino administrado pela ONG Basic Housing no bairro do Upper West Side. É um fervedouro de gente que entra e sai do prédio. Há alguns anos, ali havia apartamentos para aluguel turístico, que foram incorporados ao sistema para responder ao aumento da população de pessoas “sem-teto”.

Os especialistas do Manhattan Institute dizem que o programa reflete o “desespero” por tratar de reduzir o censo das pessoas em situação de ria. E embora levá-los a outras cidades com moradia mais barata possa ser útil, a Coalizão de Pessoas Sem-Teto adverte que não se trata de uma opção realista para pessoas que não puderem ser autossuficientes quando o subsídio expirar.

Economia para o contribuinte

“É injusto que a maior cidade dos EUA aborde o problema das pessoas sem-teto enviando-as a outras comunidades sem avisá-las”, lamenta o prefeito de Yonkers, Mike Spano. Essa localidade nos subúrbios de Nova York já recebeu mais de 130 famílias, embora nunca tenha tido uma notificação oficial. A solução, concordam os prefeitos, não é enviar essas pessoas a outras cidades.

O DHS nega estar “exportando” as famílias e insiste em que o programa foi concebido para ajudar os beneficiários a encontrarem uma moradia onde possam iniciar uma nova vida. Para justificá-lo, explica que acolher os sem-teto nos albergues municipais custa até 70.000 dólares (285.880 reais) para uma família com filhos, enquanto que pagar-lhes um aluguel em outra cidade ronda os 17.500 dólares (71.470 reais).

O argumento da economia para o contribuinte, entretanto, é questionável, e não só porque se transfere o custo a outras cidades. Comprovou-se que 35% dos beneficiários do programa de assistência se mudaram para dentro dos limites da área metropolitana, onde os aluguéis são mais altos. E muitos, além disso, acabam voltando em poucos meses aos albergues de Nova York, por causa das más condições das suas moradias.

O Senado do Estado de Nova York está investigando o programa de assistência por causa dos numerosos protestos dos prefeitos. A própria Prefeitura, depois de detectar “vulnerabilidades severas” em sua execução e nas responsabilidades assumidas pelos proprietários dos imóveis de acolhida, também está analisando a questão.

A Era dos Coletivos de Solidão

Solidão,BlogdoMesquita 03

A dominação social deste século só sobreviverá se criar novos sujeitos. Sociedades, onde os diferentes se relacionam, precisam ser reduzidas a massas inertes de indivíduos-dados. Esta distopia é, também, o calcanhar de aquiles do projeto. A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está assumindo a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjetividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida

É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico, tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa.

Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autônomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autônomos. A autonomia da auto-escravatura.

O objetivo deste modelo civilizacional é substituir o conceito de responsabilidade social pelo conceito de culpa. Os problemas que isso pode suscitar não são problemas políticos. São problemas de polícia ou de terapia. Estamos às portas de uma era não relacional em que os atributos que definem grupos de população são naturalizados e separados entre si de modo a não ser visível a relação que há entre eles. Criam-se assim segregações que não se tomam como tal e antes parecem o resultado natural de diferenças que não suscitam outro sentimento que não o da indiferença. Assim, diferenças e hierarquias, que até há pouco eram consideradas chocantes e revoltantes, tendem hoje a ser percebidas como triviais e até aceitáveis porque expressão de características inatas em relação às quais a sociedade pouco pode fazer. Por exemplo, a concentração da riqueza aumentou escandalosamente nas últimas quatro décadas e a ostentação da riqueza convive indiferentemente com a mais abjeta pobreza. Por sua vez, as discriminações por motivos raciais, sexuais, religiosos ou outros ganham crescente aceitação entre públicos insensíveis às lutas dos movimentos anti-racistas, anti-sexistas, anti-homofóbicos, anti-fundamentalistas, os mesmos públicos que estão sempre disponíveis para ignorar ativamente as conquistas contra a discriminação que esses movimentos têm obtido. Assim, quem é rico merece ser rico porque tem as qualidades para o ser, tal como quem é pobre merece ser pobre por não ter as qualidades necessárias para deixar de o ser. Na construção deste modelo civilizatório estão envolvidos vários processos. Muitos dos quais parecem nada ter a ver com ele.

1. Do conhecimento à informação. O novo modelo civilizatório assenta na produção aparentemente ilimitada de informação e na confusão entre informação e conhecimento. É cada vez mais comum a ideia de que vivemos numa sociedade de informação. A abundância de informação não é um bem incondicional. Lembremos que em caso de inundação o recurso mais escasso é água potável. Semelhantemente, vivemos hoje inundados por informação, mas carecemos cada vez mais de informação potável, isto é, confiável. Por outro lado, informação não é conhecimento (qualquer que seja o tipo de conhecimento). A informação fornece dados, enquanto o conhecimento visa compreender ou explicar a origem, o significado e as implicações dos dados. A informação é o presente simultaneamente eterno e efêmero, enquanto o conhecimento é a ponte entre o passado, o presente e o futuro. Estas diferenças tornam-se cada vez menos evidentes quando, para sonho de uns e pesadelo de outros, parece próximo o tempo em que um supercomputador desvendará o segredo da vida e do universo ao prever a estrutura tridimensional das proteínas em todas as suas (infinitas) sequências. E, não por acaso, a mais poderosa biomáquina, um ícone exemplar da inteligência artificial, chama-se Mente Profunda (deep mind) e os seus processos designam-se como tecnologia de aprendizagem profunda. A verdade é que, mesmo que tal seja possível, a máquina nunca poderá explicar ou entender os resultados a que chegar. Mas para o novo modelo civilizatório o significado dos dados está cada vez mais reduzido à utilidade econômica que eles possam ter para quem os detenha.

2. Das relações sociais aos dados. A confusão entre conhecimento e informação é fundamental para ocultar ou trivializar as relações sociais e as desigualdades de poder que estão por detrás dos dados. As formas de dominação modernas reproduzem-se por via da extração de recursos assente em relações de poder desigual que tornam possíveis decisões unilaterais e a apropriação indevida de valor. Historicamente, essa extração teve duas formas principais: os recursos naturais (a exploração da natureza) e os recursos humanos (de que o trabalho escravo é a forma mais brutal). Hoje, a estas duas formas juntam-se uma terceira: a extração de dados. Esta extração é cada vez mais massiva em função da imensa agregação de dados tornada possível pelas novas tecnologias de informação e comunicação, os big data. Aliás, a obtenção destes dados tem a mesma designação que o extrativismo mineiro: escavação de dados (data digging). O próprio termo “dados” contém em si toda a ambivalência da armadilha digital. Os dados são efetivamente roubados; mas, depois de manipulados e vendidos a utilizadores comerciais ou políticos, são devolvidos ao público como sendo oferecidos e, de fato, propriedade comum. O país com o maior número de utilizadores do facebook é a Índia, mas os centros de dados obtidos por este meio estão localizados nos EUA, na Europa e em Singapura. A apropriação do valor dos dados está concentrada numa empresa, mas quem é que se sente ao serviço de uma empresa quando o uso, a entrada e a saída da empresa são livres?

A manipulação destes dados por parte das grandes empresas de comunicação eletrônica é a grande responsável pela progressiva substituição das relações sociais pelos dados enquanto explicação, fundamento, sentido e valorização da vida coletiva. Os dados são obtidos por instrumentos tecnológicos cujos parâmetros e critérios não são do domínio público por estarem protegidos por patentes. Esta opacidade é a condição essencial da suposta transparência dos dados e, portanto, da sua utilização aparentemente neutra. A sociedade métrica em que estamos a entrar visa transformar o caráter relacional da vida social em desempenhos individuais quantificados e sem outra relação entre si senão as diferenças numéricas e as agregações que são feitas a partir delas. Tudo o que não é quantificável é desqualificado mesmo que seja a felicidade ou sentido da vida e da morte.

3. Da política à polícia e à terapia. As relações sociais e as desigualdades de poder que podem explicar os dados deixam de ser visíveis e relevantes enquanto causas. São tratadas quando muito como consequências. Os conflitos que fatalmente geram são despolitizados. Passam a ser assunto de polícia e nisso consiste a criminalização crescente do protesto social. Em alternativa, são temas para terapia contra a depressão, a alienação, a fadiga crônica, o impulso suicidário. A terapia permite que indivíduos solitários não se sintam sós. Fazem parte de comunidades imaginadas de consumidores de ansiolíticos, de álcool, de drogas, de medicinas alternativas, de academias de prontidão física, de meditação. São coletivos de partilha de destino sem esperança ou cuja esperança reside em perder o medo de viver sem ela.

4. Das redes à solidão coletiva. Os big data não visam individualmente os indivíduos (passe o pleonasmo); visam coletivos homogêneos de indivíduos, organizados invisivelmente segundo os seus gostos de consumo, de política ou de religião. Desta forma, os big data permitem combinar a máxima personalização com a máxima massificação. Os indivíduos, longe se sentirem sós ou isolados, sentem-se auto-escolhidos por grupos mais ou menos vastos com quem não têm outras relações senão as que a internet permite. As redes sociais são a expressão mais acabada da nova solidão, a pertença superficial, seletiva, isenta de compromissos extra-comunicacionais a colecivos cada vez mais organizados pelo mercado comercial, político ou religioso dos big data. Claro que as redes sociais também permitem intensificar a comunicação que começou por ser física e presencial, mas do ponto de vista dos big data a única dimensão comunicacional que conta é a digital. E é mesmo crucial que entre o indivíduo massivamente personalizado e o objeto de consumo não existam intermediários. O indivíduo tem à sua disposição um mundo que considera feito por si, apesar de ter sido feito por outros, e que pensa ser seu, apesar de ser propriedade, muitas vezes patenteada, de outros.

5. Do pensamento crítico à peritagem. O estudo crítico, livre e independente das assimetrias sociais não é bem-vindo neste mundo da sociedade métrica. Os dados são “tratados” por especialistas que aparentemente não têm nenhuma lealdade ou preferência senão a que se espelha nos dados. São considerados objetivos por serem tidos por neutros e não por serem conhecidos os critérios e os métodos que mobilizam as suas análises. Enquanto no caso do liberalismo científico a neutralidade (que, de fato, nunca existiu) era o resultado da aplicação de metodologias que garantiam a objetividade, na ação dos especialistas a objetividade é o resultado da suposta neutralidade. O especialista é o juiz sempre parcial na farsa da imparcialidade da era não-relacional.

Este tipo de especialização é um híbrido entre informação e conhecimento, e traduz-se em análises e relatórios preparados por encomenda de quem tem interesse em que os dados sustentem certas conclusões, e não outras. Este híbrido dificilmente pode ser produzido nas universidades e centros de investigação, pelo menos enquanto umas e outros se pautarem pelo princípio de que o valor do conhecimento nunca é redutível ao valor de mercado que possa ter ou não ter. Não admira, pois, que a ação dos especialistas seja cada vez mais um monopólio de empresas de consultoria. Estas empresas nunca podem oferecer conclusões desconfortantes para os clientes e nunca podem prever os piores cenários sob pena de os seus próprios acionistas as desertarem. Foi por isso que nenhuma dela previu a crise financeira de 2008 nem preverá qualquer crise futura. Na era dos coletivos de solidão, a consultoria é a voz dos poderes que criam os coletivos e o silenciamento dos indivíduos coletivamente solitários.
por Boaventura de Sousa Santos

Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 05

A Alta Idade da Mediocridade e a cruzada contra a racionalidade

Comportamento,Blog do mesquitaUm fantasma ronda o Brasil – o fantasma da racionalidade. Todas as potências da velha mediocridade unem-se numa aliança para conjurá-lo: a grande mídia e seus “soldados” reprodutores e propagadores de suas ideologias, sobretudo, os “filósofos de facebook” e suas diversas variações de “patente”.
No período atual, por alguns chamados de “Alta Idade da Mediocridade”, contemplamos uma nova Cruzada; agora contra a racionalidade. Há
um ataque sistemático a discussões racionais. Um argumento racional postado no facebook, por exemplo, é logo atacado por frases prontas construídas por informações que não se sabe a fonte. Se cobrares a fonte de tais informações será identificado em poucos segundos como herege, pois onde já se viu querer discutir um assunto de natureza social, política ou econômica, por exemplo, a partir de dados confiáveis! É o segundo pecado capital! O primeiro é não reproduzir e levar à frente as informações medíocre que se espalham pelas redes sociais, sobretudo as imagens simplificadoras da “realidade”.

A regra é ser medíocre. Está determinado pelas formas celestiais que não se deve sair da média das ideias. A ordem é ser mediano. Informado exclusivamente pela grande mídia; pois, medíocre que se preze é aquele que nunca leu um livro sobre o assunto, mas que possui muitas considerações sobre ele, além de ter um repertório (reduzido, é verdade) de “adjetivos esteriotipados” para usar nos “debates”.

Exigir nas redes sociais fontes confiáveis em um debate sobre política ou economia tornou-se um grande pecado nesses dias; com direito a ser queimado em um fogueira. “Filósofos, Sociólogos, Cientistas Políticos do facebook” uní-vos! Queimem todos os livros acadêmicos e sua pecaminosas universidades. Não falem (muito menos escrevam) a palavra “embasamento”, esta atrai demônios do passado. Não esqueçam de assassinar exemplarmente em praça pública os professores hereges… sobretudos os que tiverem gravados o símbolo da besta disfarçado de titulação. E comece a inquisição…

Referências Bibliográficas:
Obs: fontes não mencionadas por medo de ser interpretado como herege.
Leia também: “A Alta Idade da Mediocridade e a cruzada contra a racionalidade II: As redes sociais como tribunal da mediocridade”

Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

É possível ser anônimo na era da internet?

Professor do Oxford Internet Institute diz que hoje temos mais aparelhos tecnológicos com sensores para captar dados sobre nós.

Ilustração que mostra uma mulher ao lado de uma arte gráfica baseada em códigos binários de informática

“No futuro, todo mundo terá seus 15 minutos de anonimato.” É o que disse o artista Banksy. Mas com tudo online, de status de relacionamento a destinos de férias, é mesmo possível ser anônimo – mesmo que brevemente – na era da internet?

Esse dizer, uma brincadeira com a famosa frase de Andy Warhol dos “15 minutos de fama”, foi interpretada de várias formas por fãs e críticos. Mas sublinha a real dificuldade de manter algo privado no século 21.

“Hoje, nós temos mais aparelhos digitais do que nunca, e eles possuem mais sensores para captar mais dados nossos”, diz Viktor Mayer-Schoenberger, professor do Oxford Internet Institute.

E isso importa. De acordo com uma pesquisa da empresa de recrutamento Careerbuilder, nos Estados Unidos, no ano passado, 70% das empresas usaram as redes sociais para analisar candidatos a vagas, e 48% checaram a atividade dos funcionários nas redes sociais.

Instituições financeiras também checam perfis em redes sociais quando decidem se dão empréstimos ou não.

Uma TV rosa com o logo: "No futuro, todo mundo será anônimo por 15 minutos", do show de Banksy, Los Angeles, 2006
É mesmo possível ser anônimo na era da internet?

Outras empresas, por sua vez, estão criando modelos com hábitos de compras, visões políticas e usam, inclusive, inteligência artificial para prever hábitos futuros com base em perfis de redes sociais.

Uma maneira de tentar obter controle é deletando redes sociais, o que algumas pessoas fizeram depois do escândalo da empresa Cambridge Analytica, quando 87 milhões de pessoas tiveram seus dados usados secretamente para campanhas políticas.

Mas, ainda que deletar contas em redes sociais seja a maneira mais óbvia para remover informações pessoais, isso não terá impacto nos dados guardados por outras empresas.

Felizmente, alguns países oferecem proteção.

O Brasil tem o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, e a Lei Geral de Proteção de Dados, aprovada em 2018. A lei, que entrará em vigor em 2020, proíbe o uso indiscriminado de dados pessoais. Além disso, garante aos cidadão o direito de saberem como e para o que as suas informações serão usadas.

A União Europeia tem sua versão: o GDPR, que regula a proteção dos dados, e inclui o “direito de ser esquecido” – basicamente, que um indivíduo tem o direito de ter informações pessoais removidas de onde quiser.

No ano passado, houve 541 pedidos de que informações fossem removidas no Reino Unido, segundo apuração da BBC, ante 425 do ano anterior e 303 em 2016-17. Os números reais podem ser mais altos, já que o Information Commissioner’s Office (Departamento de Informação) só se envolve depois que uma reclamação inicial à empresa que guarda os dados é rejeitada.

Mas Suzanne Gordon, do Departamento de Informação, diz que isso não é necessariamente objetivo: “O GDPR fortaleceu os direitos das pessoas de pedirem que organizações deletem seus dados se acreditam que não são necessários. Mas o direito não é absoluto e em alguns casos deve ser balanceado contra outros direitos e interesses competidores, como, por exemplo, a liberdade de expressão.”

O “direito de ser esquecido” ficou notório em 2014 e levou a vários pedidos de que informações fossem removidas – um ex-político que procurava a reeleição e um pedófilo são alguns exemplos –, mas nem todos foram aceitos.

Empresas e indivíduos que tenham dinheiro para tal podem contratar especialistas para ajudá-los.

Uma indústria inteira está sendo construída ao redor da “defesa de reputação” com empresas desenvolvendo tecnologia para remover informação – por um preço – e enterrar notícias ruins de mecanismos de busca, por exemplo.

Uma empresa, Reputation Defender (“defensora da reputação”), fundada em 2006, diz que tem um milhão de clientes, como profissionais e executivos. Ela cobra cerca de 5.000 libras (cerca de R$ 25 mil) pelo pacote básico.

Ela utiliza seu próprio software para alterar os resultados do Google sobre seus clientes, ajudando a colocar as notícias ou textos menos favoráveis mais para o fim dos resultados e promovendo as histórias favoráveis no lugar.

Imagem de um homem com o logotipo do Google refletido várias vezes em seu rostoDireito de imagem GETTY IMAGES
Empresas de defesa de reputação querem remover informações pessoais de bancos de dados e sites

“A tecnologia foca no que o Google vê como importante quando indexa sites no topo ou na parte de baixo dos resultados de busca”, diz Tony McChrystal, diretor da empresa.

Geralmente, as duas maiores áreas que o Google prioriza são credibilidade e autoridade que a página tem, e quantos usuários se engajam com os resultados de busca e o caminho que o Google vê que cada usuário único segue.

“Trabalhamos para mostrar ao Google que um maior volume de interesse e atividade estão ocorrendo nos sites que queremos promover, sejam sites novos que criamos ou sites estabelecidos que já aparecem nos resultados das buscas, enquanto sites que queremos suprimir mostram um percentual mais baixo de interesse.”

A empresa diz que atinge seu objetivo em 12 meses.

“É impressionantemente efetivo”, ele diz, “já que 92% das pessoas não navegam depois da primeira página de resultados do Google e mais de 99% não passam da segunda página”.

Mayer-Schoenberger, de Oxford, aponta que, enquanto empresas de defesa de reputação possam ser efetivas, “é difícil entender por que só pessoas ricas podem ter acesso a isso, e por qual razão isso não pode beneficiar todo mundo”.

Um membro da equipe do British Museum faz os ajustes finais para uma seleção de uma obra de Andy Warhol, em fevereiro de 2017Direito de imagem GETTY IMAGES
Andy Warhol previu uma vez que todo mundo teria 15 minutos de fama

Então, será que podemos nos livrar de todos nossos rastros online?

“Se formos responder de uma maneira simples, não”, diz Rob Shavell, cofundador e chefe executivo do DeleteMe, um serviço de assinatura que remove dados pessoais de bancos de dados públicos, corretoras de dados e sites de busca.

“Você não pode se apagar completamente da internet a não ser que algumas empresas e indivíduos que operem serviços de internet sejam forçados a mudarem fundamentalmente como eles operam”, afirma.

“Estabelecer regulamentações fortes para permitir que consumidores tenham autonomia para decidir como sua informação pessoal pode ser recolhida, compartilhada e vendida já é um bom caminho para encarar o desequilíbrio de privacidade que temos agora.”

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SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS

A filósofa e ativista francesa Simone de Beauvoir dizia que os opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices entre os próprios oprimidos. Nessa mesma linha, Paulo Freire sentenciara: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

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A filósofa e ativista francesa Simone de Beauvoir dizia que os opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices entre os próprios oprimidos. Nessa mesma linha, Paulo Freire sentenciara: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

Isso explica o sindicalista pelego, o pobre que propaga o falacioso discurso da meritocracia, a mulher que diz que outra mulher foi violentada sexualmente porque “usava roupas curtas”, o negro que declara que falar sobre racismo é vitimismo e o judeu que apoiou o regime nazista.

E assim tem sido desde os primórdios da civilização humana.

Uma das primeiras medidas do Império Romano ao conquistar novos povos era se aliar às elites locais que, em troca de receber alguns privilégios, garantiam a manutenção do poder de Roma.

Séculos depois, durante o processo de colonização, os europeus se aproveitaram de uma guerra civil para esfacelar o Império Inca e fomentaram conflitos étnicos entre os diversos povos africanos.

Os resultados dessas empreitadas: os colonizados, divididos, lutaram entre em si, em vez de combater o principal inimigo em comum: o colonizador.

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No Brasil, a elite jamais saiu de casa para manifestar seus interesses.

Para isso, sempre que precisaram, convocaram a classe média (que não se reconhece enquanto explorada) que prontamente ocupou às ruas para “protestar” contra governos que colocaram em prática políticas que minimamente beneficiariam os setores populares, como foram os casos de João Goulart e Dilma Rousseff, depostos por golpes de Estado.

A classe alta também não mata diretamente os pretos e pobres, recruta pessoas entre os próprios pretos e pobres para fazer isso.

Antes se chamavam “Capitães do Mato”; hoje “policiais”.

Por Francisco Fernandes Ladeira
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.
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A Itália é o Marco Zero para a guerra contra as mulheres

Uma aliança de políticos italianos de extrema direita, russos afiliados a Putin e ativistas anti-LGBT dos EUA estão se reunindo em uma cidade italiana no centro da guerra contra as mulheres.

BuzzFeed News; Getty Images

Brian Brown (esquerda), Matteo Salvini e Alexey Komov.

Brian Brown fez seu nome lutando contra a igualdade no casamento na Califórnia, e sua Organização Nacional para o Casamento uma vez teve um orçamento de milhões. Mas suas ações despencaram quando a Suprema Corte permitiu que casais do mesmo sexo se casassem em todo o país com o apoio da maioria dos americanos. Sua “Marcha para o Casamento” anual em Washington foi tão mal frequentada que os progressistas alegremente compartilharam fotos de grama vazia em torno de seu ponto de encontro no National Mall.

Mas agora ele está de volta.

Neste fim de semana, Brown estará no centro das atenções novamente, como a conferência do Congresso Mundial de Famílias (WCF) que ele organiza para a cidade italiana de Verona. Anunciado como um encontro para “defender a família natural como a única unidade fundamental e sustentável da sociedade”, o evento será realizado durante três dias em um palácio do século XVII. Brown deve falar no mesmo programa que um dos políticos mais influentes – e divisores – da Europa, o vice-primeiro ministro italiano Matteo Salvini, do partido de extrema-direita Lega, que se tornou famoso pela retórica anti-imigração e sua personalidade no Facebook. Outros oradores incluem um ministro do governo húngaro de extrema direita, um ativista anti-LGBT da Nigéria, e o presidente da Moldávia alinhado pela Rússia.

NBC Newswire / Getty Images

Brian Brown

Por trás de tudo isso está uma aliança de ativistas conservadores que conecta um grupo de russos próximos a Vladimir Putin com políticos italianos de extrema direita e grandes atores da direita religiosa dos Estados Unidos. Em um momento em que as conseqüências da investigação do advogado especial Robert Mueller questionam se as preocupações sobre a interferência da Rússia na política ocidental foram exageradas, o WCF é um lembrete das muitas maneiras pelas quais Putin ajudou a virar a política do Ocidente de cabeça para baixo. Um movimento conservador social que perdeu muito de seu apoio popular procurou Moscou para encontrar novos canais para o poder.

Depois de alguns anos de reuniões em pequenas e antigas capitais comunistas, a reunião em Verona dá ao WCF a chance de retornar ao Ocidente com o apoio de um partido que está na vanguarda de uma aliança européia de direita . A localização é significativa: a pequena cidade a uma hora a oeste de Veneza tornou-se o marco zero para um novo ataque aos direitos das mulheres sob o partido Lega de Salvini.

O governo local de Verona declarou recentemente que a cidade é “ pró-vida ” e desviou fundos para grupos antiaborto, uma medida que foi introduzida pelos governos locais em todo o norte da Itália. O ex-vice-prefeito de Verona, que agora serve como ministro da família da Itália, quer desfazer a linguagem da Constituição italiana garantindo o direito ao aborto, e está buscando novas medidas para evitar que casais gays se tornem pais. Outro legislador local propôs que as pessoas possam adotar fetos como forma de impedir que as mulheres façam abortos. E um senador de uma região vizinha está procurando rever as leis de divórcio para enfraquecer as proteções para as mulheres e abusar das vítimas.

Todas essas iniciativas foram possíveis graças ao terremoto político que fez do partido Lega a força política dominante da Itália em 2018. Salvini não é um conservador social comprometido – na verdade, ele é um ex-comunista divorciado. Mas ele buscava o apoio dos mesmos círculos de Moscou que cultivavam laços com a direita religiosa do Ocidente, e desde então ele acolheu fundamentalistas católicos em seu partido, ao tentar unir a direita italiana por trás dele. A Itália é o teste mais claro para saber se a mesma fórmula que devolveu o direito religioso à influência na Casa Branca pode funcionar na Europa Ocidental.

Mas ex-membros do partido Lega vêem o cortejo de Salvini pelo direito religioso como um movimento calculado e cínico. Flavio Tosi, ex-prefeito de Verona e ex-rival do partido Lini, de Salvini, disse ao BuzzFeed News que Salvini reconheceu que grupos neofascistas foram “órfãos” pelos principais partidos da Itália e perseguiram seus partidários.

E assim, assim como os imigrantes, Salvini acha que feministas e outros progressistas sociais são alvos políticos úteis.

“Ele entendeu que tinha que encontrar o inimigo.”

J. Lester Feder / Notícias do BuzzFeed

Alberto Zelger

Quando foi lançado pela primeira vez na década de 1990 por um trio de historiadores e sociólogos obscuros , o Congresso Mundial das Famílias se intitulou como uma conferência acadêmica voltada para a reversão das taxas de natalidade em declínio no Ocidente. Ao longo dos anos, seus fóruns semestrais incluíam desde especialistas em educação da primeira infância até cruzadas contra a pornografia, passando a querer a realeza européia.

Também atraiu várias figuras importantes da direita religiosa dos EUA, à medida que se transformou em um centro de grupos antiaborto e anti-LGBT em todo o mundo. Sua importância cresceu durante os anos em que o presidente Barack Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton estavam promovendo os direitos LGBT e das mulheres em todo o mundo. Isso foi especialmente útil para Brown – assim como ele estava sendo derrotado em sua cruzada de anos para parar a igualdade no casamento nos EUA, ele começou a planejar se tornar internacionalBrown não respondeu a vários pedidos de comentários.

A organização de Brown escolheu Verona após a aprovação de uma legislação anti-aborto inédita em 2018. Conhecido pelo nome de seu patrocinador, Alberto Zelger, a legislação financia os que são conhecidos nos EUA como “centros de gravidez em crise” para desviar as mulheres de abortos. Embora esses centros sejam comuns nos EUA, eles quebraram um tabu na Itália. Os italianos votaram esmagadoramente para manter o aborto legal em 1981, mas agora o dinheiro do governo estava sendo usado para impedir as mulheres de acessar o procedimento.

A lei Zelger, que já foi introduzida em dezenas de outros governos locais no norte da Itália, é especialmente alarmante para os defensores dos direitos reprodutivos, porque as fortes proteções legais italianas para o acesso ao aborto também estão sendo minadas por um movimento crescente entre os médicos para se recusarem a realizar o procedimento. por motivos religiosos. No início deste mês, o líder de uma associação ginecológica italiana alertou que a escassez de provedores de aborto estava atingindo níveis críticos, porque muitas universidades agora se recusam a ensinar o procedimento.

Os tribunais da Itália também recentemente desferiram golpes chocantes nos direitos das mulheres. No início deste mês, um tribunal reduziu a sentença de um homem por matar sua esposa, citando sua “raiva e desespero” sobre seu relacionamento com outro homem. Em outro, uma condenação por estupro foi descartada em um caso em que os juízes duvidaram da suposta vítima porque ela parecia “muito masculina” para ser um alvo atraente.

Em nível nacional, os ativistas pelos direitos das mulheres estão especialmente alarmados com a revisão das leis de divórcio propostas por um senador do partido Lega, que um oficial de direitos humanos da ONU alertou que poderia reverter drasticamente as proteções para mulheres e vítimas de abuso doméstico.

“É apenas uma maneira de colocar as mulheres de volta em seu lugar”, disse Giulia Siviero, uma jornalista de Verona que também é porta-voz de uma coalizão feminista chamada Non Una di Meno que está organizando protestos contra a reunião do WCF.

Ivan Romano / Getty Images

Matteo Salvini

Siviero vê a Itália como um campo de provas do que acontece com os direitos das mulheres quando um nacionalista oportunista ganha o poder. Salvini foi eleito em 2018 com uma campanha com retórica anti-imigrantes Trumpianos, mas ele ganhou pouco mais de 17% dos votos e foi forçado a fazer parceria com um partido maior para assumir o controle do governo. Ele é agora o político mais popular na Itália com seu partido apoiado por 1 em cada 3 italianos, e seu melhor caminho para o poder é consolidar tantas facções à direita quanto possível.

“É um terreno comum na ideologia. Eles se reúnem em questões de imigração e no corpo das mulheres – eles se encaixam ideologicamente ”, disse Siviero. “É como se a Lega criasse uma espécie de tanque onde todas essas partes pudessem se juntar em uma grande panela.”

Quando perguntado se ele estava tentando defender a “família cristã” durante um fórum de direita no verão passado, Salvini respondeu: “Não para mim – eu sou divorciado”. Mas ele também está feliz em se apresentar como um defensor dos fundamentalistas católicos. Quando ele tomou posse como vice-primeiro ministro em junho passado, Salvini segurou um terço na mão, um gesto que chocou até mesmo alguns membros de seu próprio partido por cruzarem regras bem estabelecidas na política italiana sobre as fronteiras entre religião e política.

Ele é agora um dos maiores heróis da direita global e os maiores vilões da esquerda. “A Itália é agora o centro do universo da política”, Steve Bannon tem dito da ascensão de Salvini ao poder.

O líder não oficial da direita religiosa de Lega é o ex-vice-prefeito de Verona e membro do Parlamento da União Européia, Lorenzo Fontana, que pediu a Salvini para ser uma testemunha de seu casamento. O mentor espiritual de longa data de Fontana é considerado um padre que acredita que a homossexualidade é “uma rebelião contra Deus” causada pelo diabo.

J. Lester Feder / Notícias do BuzzFeed
Flavio Tosi

“Eu sei que Salvini não dá a mínima para o rosário – eu lhe disse que ele é cínico”, disse ao BuzzFeed News Flavio Tosi, ex-prefeito de Verona que já foi o mentor de Fontana. Tosi disse que a Lega não estava interessada em causas fundamentalistas até que Fontana se aproximou de Salvini.

O porta-voz de Salvini, após perguntas sobre alegações de que ele estava apoiando causas sociais conservadoras por conveniência política, disse em uma mensagem do WhatsApp: “Controvérsias inexistentes. Nós protegemos as famílias italianas. Mas o divórcio, o aborto, a igualdade de direitos entre mulheres e homens, liberdade de escolha para todos não estão em questão ”. O porta-voz de Fontana não respondeu a um pedido de comentário.

Salvini, cuja maneira favorita de se comunicar com o público é por meio de livestreaming no Facebook, se destaca no tipo de chauvinismo que excita as pessoas que odeiam o feminismo. Em 2016, ele ridicularizou uma das mulheres mais importantes da Itália dizendo que uma boneca sexual era sua “dupla”. A polícia italiana está investigando outro incidente, no qual uma mulher de 22 anos recebeu centenas de mensagens insultuosas depois de Salvini. postou uma foto dela on-line carregando uma placa durante um protesto contra Salvini que dizia “Melhor uma puta do que uma fascista”.

“Que moça adorável”, ele twittou.

“Salvini é um católico fundamentalista convicto? Absolutamente não. Ele é sexista ”, disse Siviero, o porta-voz da coalizão feminista. “Mas ele acompanha pessoas que representam esse outro mundo em que ele não acredita completamente, e assim sela a relação entre a extrema direita e o catolicismo.”

Os líderes do WCF ficaram entusiasmados em abraçar Salvini apesar de sua retórica freqüentemente abusiva em relação a mulheres e imigrantes. “Orgulho de estar em cromo com o vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini”, twittou Brown após uma reunião no final do ano passado.

O que é assustador, disse Siviero, é que essas idéias são “contagiosas”. Seja ou não as propostas mais radicais da Lega para reverter os direitos das mulheres se tornarem lei, eles estão “plantando uma semente” que está dando vida a novas facções marginais direitistas . Estes incluem grupos neofascistas em um país onde a ideologia foi proibida desde a Segunda Guerra Mundial.

Mas nesta conferência, ao contrário dos realizados na Europa Oriental, Siviero disse que o WCF enfrentará uma reação adversa. Non Uno di Meno realiza quatro dias de protestos , incluindo uma conferência internacional com o fundador da organização feminista argentina que os inspirou. E o líder do parceiro de coalizão de Lega no governo denunciou a conferência, dizendo que o grupo tem “visões medievais sobre as mulheres”.

Paul Archuleta / FilmMagic

Alexey Komov

No centro da rede de alianças que liga o WCF à Itália está um russo pouco conhecido chamado Alexey Komov, com conexões com grandes potências em Moscou.

Komov tornou-se conhecido pelos círculos conservadores religiosos ocidentais há cerca de uma década, se autodenominando “defensor da família cristã e profissional de marketing e consultor imobiliário e empresário”. Komov estava “muito ansioso” por desempenhar um papel de liderança no WCF Um membro americano do comitê organizador chamado Austin Ruse disse ao BuzzFeed News, mas sua primeira tentativa de levar a conferência a Moscou foi rejeitada porque estava quase pronta.

O grupo aceitou sua candidatura para o WCF de 2014 quando retornou com o apoio de alguns poderosos oligarcas russos, incluindo um banqueiro de investimentos chamado Konstantin Malofeev. Eles começaram a planejar uma cúpula de 2014 a ser realizada no Kremlin, que eles promoveram como as ” Olimpíadas ‘do movimento pró-vida internacional apoiando a Família Natural’.

A cúpula de Moscou aconteceu em um momento extraordinário. Todos os olhares estavam voltados para a Rússia, com as Olimpíadas de Inverno a serem realizadas em Sochi em janeiro de 2014. A preparação para os Jogos foi ofuscada por um confronto global sobre os direitos LGBT. Putin, que estava no poder desde 1999, começou a se colocar como defensor dos valores ortodoxos contra o Ocidente hedonista, a saber, através de uma campanha para demonizar a homossexualidade, resumida na aprovação de uma lei que proíbe a chamada propaganda gay. Grandes atores da direita religiosa dos EUA – que amadureceram com uma mentalidade da Guerra Fria que via a Rússia como um inimigo sem deus – de repente estavam se perguntando se Putin era o contrapeso à administração Obama que eles estavam esperando.

Logo, Komov começou a empurrar os limites do que alguns organizadores americanos estavam acostumados. Ruse disse que sua organização e outros patrocinadores do WCF quase saíram de uma reunião de planejamento em outubro de 2013 porque Komov queria incluir Scott Lively, um ativista anti-gay de Massachussets que desempenhou um papel fundamental em inspirar a infame lei “Kill the Gays” de Uganda. autor de um livro que sugeria que os homossexuais eram responsáveis ​​pelo Holocausto. Komov também discursou de forma espetacular durante uma coletiva de imprensa em Washington no início de fevereiro de 2014, sugerindo que centenas de pessoas foram assassinadas para encobrir a verdadeira história do assassinato de John F. Kennedy e questionar se a al-Qaeda foi responsável pelos ataques de 11 de setembro.

Quando a Rússia tomou a Crimeia em fevereiro de 2014, de repente pareceu uma má ideia estar abertamente alinhada com os russos. O governo dos EUA impôs sanções a Malofeev, que financiava rebeldes seperatistas no leste da Ucrânia ao mesmo tempo em que apoiava o WCF. O WCF finalmente retirou seu nome da conferência de Moscou, mas muitos de seus principais participantes participaram do encontro, que foi rapidamente redigitado .

Um porta-voz de Malofeev se recusou a comentar esta reportagem, escrevendo: “Não comentamos rumores e conjeturas extraídas de recursos desconhecidos para nós por jornalistas”.

Dezenas de e-mails de Komov sobre a reunião foram vazados em 2014 por um grupo de hackers, que mostraram que Komov estava envolvido em outro dos principais projetos de Malofeev – construindo relações com grupos de extrema direita em toda a Europa. Em uma nota, Komov chamou um dos líderes neofascistas mais conhecidos da Itália de “amigo”.

O vazamento incluiu um e-mail de Brown, no qual ele disse a Komov, “o Fórum foi incrível e toda essa imprensa funcionará para o maior benefício do movimento mundial pró-família se respondermos adequadamente”.

Komov encaminhou este e-mail para Malofeev com a nota: “O império contra-ataca :)”

Brown negou que os russos tivessem domínio sobre o WCF, dizendo ao BuzzFeed News no verão de 2018 que “nunca havia sido absolutamente solicitado por seus associados russos, amigos ou Alexey Komov para fazer algo que pudesse minar os Estados Unidos. ”

“Acho triste que haja uma tentativa de pintar todos os russos como antiamericanos e não unidos a nós na família”, disse ele. Komov não respondeu a um pedido de comentário para este artigo.

Komov começou a cortejar Lega desde o momento em que Salvini assumiu o controle da festa. Ele foi convidado a participar da convenção de 2013, na qual Salvini foi selecionado como secretário do partido. E ele tem um papel de liderança em uma organização que foi fundamental na mediação de uma reunião entre Salvini e Putin em 2014. Salvini, desde então, provou ser um aliado importante para a Rússia na UE, trabalhando para desfazer as sanções impostas pelo bloco. Há também novas alegações da revista italiana Espresso de que a petroleira estatal russa estava procurando maneiras de canalizar dinheiro para o partido de Salvini.

A conferência de Verona faz com que essas relações completem o ciclo.

Verona é uma “combinação perfeita” para o WCF, escreveu Brown em um e-mail de captação de recursos no ano passado, pouco depois do anúncio do evento. “O vice-primeiro ministro Matteo Salvini nos receberá em seu maravilhoso país de braços abertos.”

“Nunca fomos mais eficazes do que somos agora”, continuou ele, “e pretendemos fazer ainda mais no próximo ano”.

Extremismo,Ministro,Itália,Blog do Mesquita

O extremismo é um projeto global

Extremismo,Blog do MesquitaQue Bolsonaro é despreparado todo mundo sabe. Mas o que muita gente ainda não aceita é que existe um projeto global por trás de seu governo, extremamente bem organizado, do qual ele é só a ferramenta útil. Querem ver o exemplo da semana passada? Se liguem no que rolou na Itália.

Pano de fundo: Matteo Salvini, ministro do Interior (espécie de Casa Civil do país), é o premier de fato. Ele faz parte da Lega Nord, um partido que faz populismo com racismo e xenofobia, demonizando “comunistas” e minorias em geral. Seu principal projeto: uma lei chamada “Decreto Sicurezza”, espécie de “lei anti-crime” do Moro. Basicamente uma lei jogando pra torcida, com ações inócuas e midiáticas. Soa familiar, não?

Antes de ser aprovada, a lei já fez uma vítima. Uma professora foi suspensa e teve salário cortado pela metade depois de uma batida do governo em seu colégio. Crime: “permitir” que alunos fizessem um vídeo que compara o decreto de segurança às leis raciais do fascismo.

Perseguição a professores. Soa familiar? Salvini, depois, voltou atrás, e disse que a punição era “exagero”. Sim, soa familiar.

Quem mais vem perseguindo professores e alunos, chegando ao ponto de expelir uma universidade para fora do país? Viktor Orbán, o Bolsonaro da Hungria.

Salvini, Bolsonaro e Orbán são políticos da nova onda de populismo de extrema direita. Não é coincidência que seus inimigos sejam os mesmos: professores (e jornalistas, “o comunismo”, George Soros etc). Todos estão seguindo um manual extremamente previsível de anti-iluminismo.

O projeto é criar novas oligarquias, destruir as instituições públicas e privadas e substituí-las por suas próprias instituições e amigos. Na Hungria, Orbán dá o caminho.

Seus familiares e amigos fazem negócios com o governo (Hol van Queiroz?) enquanto ele busca apoio público mirando em inimigos comuns, jogando sobretudo com o medo das pessoas em relação à segurança). Cria os fantasmas que depois diz combater. Em meio a isso, toma controle do Judiciário e sufoca a mídia usando a tática do “eles estão contra mim e só produzem fake news”. Soa familiar? Porque é.

Salvini, nesta semana, levou a Lega Nord ao topo da Europa.

A extrema -direita fez 34% dos votos nas eleições do Parlamento Europeu, resultado só alcançado por cinco partidos nos 70 anos da democracia italiana pós-guerra.

Ironicamente, entre eles, está o Movimento 5 Stelle, que venceu as eleições nacionais do ano passado esmagando os partidos tradicionais empunhando a bandeira da anti-política. O M5S abraçou a extrema -direita Lega para formar seu governo. Salvini foi colocado no cargo de ministro do Interior pelo M5S. Do topo ao chão, o M5S fez apenas 17% nas europeias, metade do ano passado, chegando atrás também do Partido Democrático, de esquerda.

O movimento-fenômeno liderado por um comediante e que sonhava derrotar o establishment criou cuervos.