Patti Smith: “É preciso dar muitos passos para conseguir ser livre”

Narradora, poeta e cantora underground, ela se define, aos 73 anos, como uma sobrevivente. A pandemia lhe confirmou que a liberdade é uma conquista mental e, para que a sociedade americana despertasse, ela saiu às ruas para cantar e incentivar as pessoas a votar. Seus livros, assim como sua vida, estão escritos com lembranças de Robert Mapplethorpe e Sam Shepard, seus dois grandes amores. E também de Janis Joplin, Bob Dylan e William Burroughs, que lhe ensinou o segredo da arte: manter o nome limpo e não fingir.

A cantora e poeta Patti Smith, fotografada neste ano por Steven Sebring. STEVEN SEBRING

Escritora, cantora, artista performática e pintora, quando Patti Smith (Chicago, 73 anos) é indagada sobre quantas Pattis coexistem, responde com palavras de Walt Whitman: “Contemos multidões”. Testemunha de uma Nova York de aluguéis baratos e “drogas que acabaram com muita gente”, entrou no mundo beat e no entorno warholiano quando a fábrica de bicicletas de Nova Jersey em que trabalhava fechou e, aos 19 anos, mudou-se para a baixa Manhattan. Corria o ano de 1971 quando o fotógrafo Robert Mapplethorpe a incentivou a cantar seus poemas. Ele —que acabaria se tornando um ícone gay— foi um de seus grandes amores. O dramaturgo Sam Shepard foi outro.

E por seu marido, o guitarrista Fred Sonic Smith, abandonaria esse mundo para se dedicar a criar seus filhos em Detroit. Mas Sonic morreu e, “para alimentá-los”, Smith voltou aos palcos. Tinha 44 anos. Aos 55, começou a publicar suas memórias. Só Garotos (Companhia das Letras) narra com ternura e crueza —conta que Mapplethorpe se prostituía para pagar o aluguel— a história de amor entre os dois, que, em seu leito de morte, o fotógrafo lhe implorou para que escrevesse. Conseguiu fazer isso em 2010, 21 anos depois que ele morreu de AIDS.

Vestida com roupas masculinas, ela representa a independência e a sabedoria de saber viver com pouco. A conversa é por telefone. Ela está em seu apartamento de Nova York. Em uma apuração angustiante, Joe Biden é confirmado como presidente eleito de seu país. Pergunto-lhe se tem um café ao lado —seu “único vício” aparece continuamente em seus livros (o mais recente, O Ano do Macaco, foi lançado em 2019) e a marca Lavazza a nomeou “embaixadora cultural”. Responde que sim: “Preto, sem açúcar e com um pouco de canela”.

P. Você saiu às ruas para cantar e incentivar as pessoas a votar. Em 2016, escreveu que aqueles que se calaram tinham vencido as eleições. Quem ganhou estas?
R. As pessoas falaram. Nunca haviam votado tantas. O fato de as pessoas se mobilizarem é uma vitória. Somos uma sociedade que às vezes precisa despertar.

P. O amor —por seus parceiros, por seu cachorro ou pela memória de seus pais— define sua escrita. Precisou subir em um palco e dar chutes para compensar tanto amor?

R. Você dificilmente pode mostrar seu amor se não mostrar sua raiva. A raiva costuma ser fruto da busca pela verdade, por isso as pessoas protestam nas ruas. A música que fazemos comunica essas emoções.“A arte te aproxima do que as pessoas chamam de Deus. Como artista, busco revelações. Para mim, a arte é uma viagem de descobrimento”. STEVEN SEBRINGP. Entre seus amores, coloca no mesmo nível seu cachorro Bambi e o dramaturgo Sam Shepard.

R. São dois dos meus favoritos. Bambi se deixou atropelar quando íamos entregá-lo para adoção porque minha irmã mais nova era alérgica. Peguei comida e saí com ele. Durante um dia, percorremos todos os lugares onde tínhamos sido felizes. Aí ele se colocou na frente do caminhão de quem ia adotá-lo. Sam e eu fomos um casal selvagem. Sempre pude contar com ele. No final, quando tinha ELA [esclerose lateral amiotrófica], fui ajudá-lo. Estávamos na cozinha. Tomávamos café. Eu lhe fiz um sanduíche e ele disse: “Patti Lee, nós nos transformamos em uma obra de Beckett”. Sempre me chamava pelo meu segundo nome. Só minha mãe, Johnny Depp e ele faziam isso.

P. Você é inclassificável, mas nunca foi questionada como artista.

R. Como me aconselhou William Burroughs, procurei proteger meu nome e não menti.

P. No entanto, foi questionada pessoalmente quando era namorada de Mapplethorpe —certa imprensa publicou que era lésbica.

R. Também fui criticada por algumas feministas quando me mudei para Detroit com meu marido para cuidar dos meus filhos. É preciso dar muitos passos para conseguir ser livre. Se é [livre] porque alguém se questiona em cada decisão. Existem pessoas que buscam uma identidade no pertencimento a um grupo, mas você tem de buscá-la em si mesmo. Ser mãe não me oprimiu. Mas entendo que isso pode acontecer com outras pessoas. Para mim, o sacrifício é parte de nossa evolução como seres humanos. Quando você se sacrifica, cresce.

P. Sacrificou-se por amor a Mapplethorpe?

R. De forma nenhuma. Nós nos conhecemos quando tínhamos 20 anos. Tivemos uma relação de amantes jovens. Jamais pensei que ele estava questionando sua sexualidade. Eu também não tinha muita experiência. Depois ele se atreveu a considerar algumas coisas. Estávamos lidando com questões fundamentais sabendo muito pouco. Ele me pediu que contasse.

P. É chocante que alguém que representava a ruptura sofresse tanta autorrepressão.

R. É chocante hoje. Em 1968, ocultar a homossexualidade era comum. Os jovens eram internados em hospitais psiquiátricos por isso. Era um estigma. E ele queria se tornar um artista e salvar nossa relação. Não sabíamos mais.P. Talvez soubessem pouco, mas tinham certeza de que seu amor estava acima de tudo.

R. Acreditamos em nós mesmos através do outro. Quando alguém tem essa confiança em você, isso o mantém por toda a vida. Ainda hoje, quando tenho um momento de desânimo, busco esses instantes na memória e ganho força. Você pode recorrer à memória para se fortalecer.

P. Vive tanto na sua cabeça quanto na realidade?

R. Vivo no passado e no presente. Na minha cabeça e na rua. Às vezes, olhar para trás é doloroso. Perdi tanta gente: meu marido, Robert, Sam, meus pais, meu cachorro, meu irmão… Mas outras vezes uma fotografia ou um livro te permitem trazê-los até o presente e te devolvem essa pessoa por um momento. A imaginação serve para viajar para o desconhecido ou para o conhecido. Tem essa força. Seria um erro não aproveitar esse potencial.

R. Conheceu Mapplethorpe aos 19 anos, quando se mudou para Nova York.

R. Eu trabalhava em uma fábrica de bicicletas que fechou. Procurava trabalho. Cheguei com a roupa do corpo, mas havia restaurantes, sabia que encontraria alguma coisa. Encontrei trabalho em uma livraria, mas tive que dormir uma semana na rua porque não tinha o depósito para alugar um quarto. A escassez não me assusta. Cresci acostumada a ela.

P. Passou fome quando criança?

R. Aprendi o que era a fome e a não afundar com isso porque algum dia a comida voltava para casa. Lidar com as dificuldades não foi tão difícil para mim quanto pode ser para outra pessoa. Eu sabia resistir. Além disso, era romântica. Associava ser artista ao sacrifício. Pense em Van Gogh. Tinha essa ideia: precisava estar disposta a uma vida de sacrifício se queria ser artista.

P. Sentia que passando fome dava o primeiro passo?

R. Era ingênua, mas aceitar o sacrifício te fortalece. Robert vinha de uma família de classe média e, para ele, passar fome era insuportável.

P. Fala de si mesma como “uma garota má que tentava ser boa”. E de Mapplethorpe como “um garoto bom que tratava parecer mau”.

R. Eu era travessa. Tive de me espevitar e aprender a roubar um pouco, nada sério: pegar comida e correr. Para Robert, isso era inconcebível. Ele era inteligente, aplicado, a esperança de sua família. Mas ele queria ser outra coisa. Por isso queria ser mau, para se afastar daquilo que se esperava dele.

P. Por que ser bom tem má reputação na arte?

R. Mitificamos aspectos malditos da criação. Eu tive uma forte educação bíblica. Aprendi que ser boa tinha a ver com sua capacidade de se sacrificar em favor de uma causa maior. Mas também entendi que nunca seria uma santa.

P. Seus pais eram testemunhas de Jeová?

R. Minha mãe. Meu pai não era religioso, mas lia a Bíblia. Acreditava que era grande literatura e me transmitiu isso.

P. Aos 19 anos, teve um filho e o deu para adoção. Voltou a vê-lo?

R. Posso responder em privado?

P. Claro, mas pergunto porque fala desse episódio em suas memórias, assinalando que não passa um dia sem pensar nele.

R. Consegui entrar em contato com ele. Ele disse que queria ser parte de nossa família, mas de maneira privada. Isso responde à sua pergunta?

P. Tenho outra: prefere que não mencionemos esse assunto?

R. Faça com essa informação o que acreditar que possa ser mais útil para todos.

P. Entre seus modelos, sempre cita Jo, a irmã escritora de Mulherzinhas, e Jim Morrison, o cantor do The Doors. Que combinação!

R. Morrison relacionou poesia e rock and roll, mas o que realmente me mostrou um caminho foi Dylan, simplesmente porque experimentou tudo. Para mim, parecia Picasso: nunca parou de mudar. Quando alguém que muda é seu modelo, a mensagem é: você deve buscar seu caminho de diferentes maneiras.

P. Por isso lhe deu um branco ao cantar A Hard Rain’s A-Gonna Fall quando recebeu o Nobel em nome dele?

R. Foi humilhante. A orquestra estava tocando, os reis me olhando, a câmera me enfocando, e senti o horror. Subir em um palco nunca tinha me intimidado. Mas o extraordinário aconteceu depois: recebi uma enxurrada de mensagens. A falha humanizou minha atuação. Os momentos que explicam nossa humanidade são os que nos tocam. Aprendi uma lição: as pessoas perdoam um erro em público se você é honesta e conta o que está lhe acontecendo.

P. Relaciona a arte com o atrevimento.

R. Burroughs dizia: “Um artista vê o que outros não veem”. Robert queria fazer algo que ninguém tivesse feito.

P. E você?

R. Para mim, não se trata de conseguir o que nunca se viu. Acredito que a arte te aproxima do que as pessoas chamam de Deus. Como artista, busco revelações. Para mim, a arte é uma viagem de descobrimento.

P. Prefere os artistas que transformam seu tempo àqueles que o refletem.

R. Quero que a arte me leve além do mundo em que estou. Não leio muita não-ficção, a menos que esteja estudando algo, porque só a ficção tem lugar para a improvisação e o inesperado. O mesmo me ocorre com a música. Prefiro ouvir Coltrane, e que cada vez seja diferente. Gosto mais daquilo que se redefine continuamente do que daquilo que permanece inalterado.

P. O que você transformou como artista?

R. Tenho uma banda e sou mulher. Passei de escrever poesia a cantá-la em um palco, transformando-a em rock. As únicas regras que tenho são as de decoro. Quando escrevi Só Garotos, decidi fazer um livro responsável. Tudo o que aparece nele é verdade. Não só o que Robert [Mapplethorpe] fez ou a natureza da nossa relação. Também qualquer dado sobre as livrarias ou sobre o preço de um cachorro-quente. Não é um trabalho de fantasia: tudo aconteceu. Mas, além desse livro, que Robert me pediu, sou fiel à minha busca, não aos fatos.

P. O Chelsea Hotel foi sua universidade?

R. Não terminei meus estudos, mas ali eu tinha o professor William Burroughs e o professor Allen Ginsberg, as grandes mentes do momento, no quarto ao lado.

P. Quando criança, era uma grande leitora. Por que não estudou na universidade?

R. Comecei em uma, mas tinha de trabalhar na fábrica. Não era suficientemente boa para conseguir uma bolsa de estudos. Não conseguia me esforçar pelo que eu não gostava. Minha mãe trabalhava o dia todo como garçonete e meu pai era operário. Mas não tinham preconceitos. Isso os tornava confiáveis. Cresci em um ambiente de carências materiais, mas não mentais. Discutiam o tempo todo. Muitas vezes por dinheiro. Mas ficaram sempre juntos, não porque tivessem filhos, mas porque riam juntos.

P. Aprende-se algo com a escassez?

R. É um romantismo e uma realidade. Hoje não preciso de muito. Outro dia, estava com minha filha e me pediram que autografasse um livro. Estava com uma camisa listrada, assim como a da foto do livro, que era de 1972. Minha filha disse: “Olha, você é a mesma pessoa”.

P. Você é?

R. Acredito na evolução, mas vejo que minhas excentricidades continuam sendo as mesmas.

P. Ainda se veste em brechós?

R. Compro muito pouco. Camisas que comprei há 30 anos ainda duram, e uma amiga faz minhas jaquetas. Em geral, uso roupa masculina.

P. Quando Mapplethorpe era seu namorado, você usava gravata e ele, calças de lamê.

R. Ele, sim, gostava de se enfeitar. Para mim, a roupa masculina é mais leve. Costuma ser mais confortável e permite que você se mova. O mínimo que peço da roupa é que não me oprima.

P. Mesmo tendo vivido cercada pelas drogas de seus amigos, descreve o café como seu único vício.

R. Nunca tive vícios porque cresci com uma mãe que fumava dois maços por dia e, quando ela não tinha dinheiro para comprar tabaco, eu a via chorar de ansiedade. Decidi que não queria depender de algo que, em sua ausência, me fizesse sentir assim. Além disso, era uma menina doente. Tive tuberculose e minha mãe teve de lutar para me manter com vida. Eu não iria para Nova York para jogar todo aquele esforço no lixo! Depois vi como morriam amigos. Janis Joplin era poucos anos mais velha do que eu e morreu de overdose. Posso ter sido romântica com a questão da fome para me transformar em artista, mas nunca fui com a morte precoce. Sou uma sobrevivente. Tenho 73 anos e espero viver até os 93.

P. Talvez mitifique o café: deu dinheiro a um garçom para que abrisse sua própria cafeteria.

R. E quase abri um. Queria chamá-lo de Café Nerval: um lugar pequeno que só servisse café, pão e azeite de oliva.

P. Um negócio perfeito!

R. Meu amor pelo café vem da infância. Meus pais o tomavam assim que se levantavam, e não nos davam. Isso me fascinava.

P. Nerval escreveu em Aurélia: “Os sonhos são uma segunda vida”. Seus últimos livros são assim?

R. Sou uma sonhadora diurna. Às vezes penso em um estúdio em Nova York que adoro. Não posso pagá-lo, mas imagino que uma idosa o oferece para mim porque já não precisa dele. Eu me entretenho imaginando. Stevenson disse: somos dois —um caminha no mundo, e o outro, em sonhos.

P. Em seus livros, conta todos os tipos de problemas, mas não os de sua família. Não tinham?

R. Claro que sim. Meu marido morreu quando meus filhos tinham 6 e 12 anos. Sabemos muito de perdas, mas nem por um segundo esqueço o que as pessoas estão sofrendo no mundo. Quando eu era jovem, só queria ser artista. Não tinha o desejo de formar uma família e ter filhos. Mas fiz isso e abri um caminho que acabou salvando minha vida. Proteger a infância deles fez com que minha empatia aumentasse.

P. Para falar de racismo, descreveu Billie Holiday com sua gardênia, seu chihuahua e seu vestido enrugado por ter que dormir em um banco quando não foi admitida em um hotel.

R. Não sou uma ativista como Greta Thunberg ou como minha filha, mas procuro utilizar minha voz.

P. Você escreveu que soube quem era Pessoa não pelo que ele escreveu, mas pelo que leu.

R. No final, é o que você guarda. E em sua biblioteca Pessoa tinha Blake, Baudelaire e romances policiais.

P. O que um escritor deve ter para estar em sua biblioteca?

R. Um idioma. Rimbaud está comigo desde que tinha 19 anos. Nerval também. São guias. Não preciso entender tudo que diziam. A chave é que algo toque você. A poesia é escrita em um código secreto que às vezes é difícil de entender.

P. O que pensa da Nobel Louise Glück?

R. Tenho de ser honesta e dizer que não estava em meu radar. Mas vou lê-la.

P. Sempre se sentiu livre?

R. Sim. Na pandemia, pensei: não parei de me sentir livre, apesar de estar encerrada. Acho que é um privilégio, uma conquista mental que alguém alcança quando dedica sua vida a não atrapalhar e a fazer algo que lhe permite crescer como pessoa.

P. Onde deixa sua raiva?

R. No palco, quando dou um chute. Não sou vingativa. Já errei e me perdoaram. Procuro fazer o mesmo. Não peço perdão por ser como sou e quando me irrito com Trump ou com ditadores de outros países, saio às ruas e protesto.

Origem e limites do Capitalismo de Vigilância

Em obra emblemática, Soshana Zuboff recorre a Marx, Harvey e até Skinner para descrever a nova fase do sistema. Mas talvez lhe escape que, muito além de superlucros, trata-se de garantir controle máximo sobre o comportamento humano.

Por Rob Lucas, na Nueva Sociedad | Tradução por Simone Paz

Quase todo ano, desde 2013, um traço crucial vem sendo prognosticado ou evidenciado por pelo menos alguma grande publicação, mesmo que em retrospectiva — pela The Economist, o The Guardian, Oxford English Dictionary, Financial Times. Trata-se do “techlash”, a reação contra o excesso digital. Se procurássemos uma origem para esse discurso, provavelmente ela estaria nas revelações feitas por Edward Snowden em 2013, mas os gigantes da tecnologia só se tornaram um motivo de preocupação real para a classe dominante com as revoltas políticas de 2016. O fato de empresas e Estados terem à disposição uma quantidade impressionante de dados sobre nós, aparentemente, fica menos problemático se esses dados estiverem sob o controle seguro de pessoas com as quais nos identificamos tacitamente.

As campanhas de Barack Obama foram as primeiras a tirar o máximo proveito da microfocalização, que faz uso intensivo de dados; mas foi quando os especialistas em dados — muitas vezes, as mesmas pessoas — emprestaram suas habilidades a Donald Trump e à campanha do Brexit, que o Facebook apareceu como um servo do dinheiro da direita. Leis foram aprovadas, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados de 2016, da União Europeia; e a Lei de Privacidade do Consumidor de 2018, aprovada pelo estado da Califórnia. Organizações no mundo inteiro tiveram que ajustar seus procedimentos de assinatura de boletins informativos, mas os “donos dos dados” seguiram em frente.

Neste contexto de discurso destaca-se uma figura em especial, pela importância de sua contribuição e pelos elogios que tem recebido. Começando em 2013, com vários artigos no Frankfurter Allgemeine Zeitung, e culminando no livro de 2019, A Era do Capitalismo de Vigilância (“The Age of Surveillance Capitalism”), Shoshana Zuboff (na foto abaixo) descreve um novo tipo de capitalismo, inclinado a nos transformar em ratos de laboratório da psicologia comportamental. Incrivelmente, para um livro que parecia um tanto marxiano — por incluir entre seus temas não apenas o capitalismo, mas também a expropriação, o excedente econômico e as enormes assimetrias de poder –, A Era do Capitalismo de Vigilância ganhou a aprovação de Obama, que havia comandado uma grande expansão da vigilância em massa sob o programa Prism, da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Zuboff, sendo a quarta ganhadora do Prêmio Axel Springer, entrou para o mesmo grupo do capitalista-mor da vigilância, Mark Zuckerberg, do inventor das redes, Tim Berners-Lee; e do aspirante a capitalista da vigilância, Jeff Bezos — todos eles ganhadores do mesmo prêmio em as edições anteriores. Como explicar que uma crítica tenha sido canonizada tão imediatamente? A continuidade do trabalho de Zuboff faz com que seja muito didático traçar sua trajetória como um todo.

A história de Zuboff, nascida em 1951, começa na fábrica de seu avô materno, empresário e inventor que pode ter lhe inspirado o gosto pelos negócios e pela tecnologia. Em Harvard, ela estudou com um dos principais behavioristas, B.F. Skinner, e iniciou uma tese em psicologia social intitulada “The Ego at Work” (O Ego no Trabalho). Mas desde seus anos de estudante ela tinha um pé no mundo da gestão empresarial: trabalhou por um tempo na Venezuela como “assessora de mudanças organizacionais” para a empresa estatal de telecomunicações, período no qual estudou os trabalhadores que vinham das regiões de selva. Pouco depois de concluir seu doutorado, passou a examinar as implicações psicológicas e organizacionais do trabalho com computadores, culminando em um livro que hoje é considerado um clássico: In the Age of the Smart Machine: The Future of Work and Powe [“Na era das máquinas inteligentes. O futuro do trabalho e do poder”] (1988)

Com foco em estudos etnográficos sobre algumas poucas empresas norte-americanas que vinham introduzindo novas tecnologias da informática, In the Age of the Smart Machine oferece uma explicação humanística das dificuldades dos trabalhadores e gerentes em se adaptar. Em seu gênero, talvez possa ser interpretado como uma contribuição não-marxista para os debates sobre o processo de trabalho que ocorriam na época — e que começaram com o livro publicado em 1974 por Harry Braverman, Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Mas Zuboff não se limitou a enfatizar as repercussões da automação para os trabalhadores, pois a informatização do processo de trabalho não apenas reproduzia algo feito pelo corpo humano: produzia um novo fluxo de informações que formava um “texto eletrônico” que viria a se tornar fundamental para o novo processo de trabalho.

Para Zuboff, o verbo “automatizar” (automate), portanto, precisava ser complementado pelo de “informar”, para o qual ela cunhou um novo verbo em inglês, informate. A maior parte do livro era dedicada à “informação” nesse sentido, investigando como os trabalhadores lidavam com a textualização do ambiente de trabalho, como a importância dada ao conhecimento tinha levado a uma nova “divisão do aprendizado” e como os gestores tentavam reforçar a sua autoridade. As análises de Zuboff sobre as culturas digitais que se desenvolveram em torno dos quadros de avisos na década de 1980 eram presságios misteriosos do que estava por vir na era das mídias sociais de massa. No último terço do livro, ela estudava as repercussões mais sombrias do texto eletrônico, quando usado para apoiar a vigilância sobre os trabalhadores em uma materialização do “poder panóptico”. Zuboff perguntava-se: se a informação passasse a ser uma ferramenta de “certeza e controle” gerencial, então as pessoas seriam reduzidas a “servir a uma máquina inteligente”? Invocando Hannah Arendt, ela visualizou o ideal comportamental de uma sociedade controlada pela vigilância e pelos empurrões, tornando-se uma realidade na informatização do local de trabalho. Mas a análise de Zuboff apontava uma alternativa, baseada em um uso mais horizontal do texto eletrônico.

In the Age of the Smart Machine serviu para Zuboff obter um cargo permanente em Harvard, mas ela ainda mantinha um pé fora do mundo acadêmico e, em 1987, foi contratada como consultora da empresa Thorn EMI pelo executivo-chefe Jim Maxmin, que se tornaria seu co-autor e marido. Na década de 1990, ele dirigiu uma escola de verão para executivos de meia-idade, incentivando-os a refletir sobre coisas do tipo: qual “patrimônio líquido” é suficiente. De sua casa em um lago na Nova Inglaterra, Zuboff e Maxmin administravam um fundo de investimento em comércio digital enquanto trabalhavam no livro The Support Economy: Why Corporations Are Failing Individual and the Next Episode, of Capitalism [“A economia como rede de apoio. Por que as empresas vêm falhando com os indivíduos e o próximo episódio do capitalismo”], publicado em 2002, que investigou a história corporativa para criar uma periodização da “lógica de negócios”. Mas o fio condutor era uma história sobre o longo processo de surgimento do indivíduo autônomo que teria feito Hegel corar. Os desejos desse indivíduo sempre antecederam o que as empresas estivessem fazendo, à espera de serem libertados por empresários astutos, capazes de se alinharem com o consumidor final e fundar uma nova lógica de negócios.

Josiah Wedgwood foi o primeiro desses grandes homens, Henry Ford o segundo; embora as mulheres fossem as maiores protagonistas não-reconhecidas da história capitalista, em seu papel de principais consumidoras. Baseando-se na noção de capitalismo gerencial de Alfred D. Chandler e no conceito de uma segunda modernidade, proposto por Ulrich Beck, Soshana e Maxmin descreveram como, no mundo iluminado por Ford, a crescente individualidade psicológica acabou colidindo contra as rochas das organizações burocratizadas e das culturas corporativas masculinistas: essa era a contradição central e motivadora de sua teoria. As empresas estavam preocupadas apenas com o “valor da transação” e viam o consumidor final meramente como um meio. Os relacionamentos combativos com os consumidores eram sintomas de uma “crise de transação”. Chegara, portanto, a hora de um novo profeta manifestar esses desejos latentes. Com apenas uma guinada copernicana para o consumidor final, as empresas encontrariam um mundo de “valor de relacionamento” acumulado. Eles precisariam se basear em novas tecnologias e economizar custos através da fusão de infraestruturas digitais, com foco no fornecimento de “suporte” configurado para o indivíduo. A “revolução” econômica projetada parecia envolver a generalização de algo mais próximo de um assistente pessoal de executivos.

Soshana expôs essas ideias em artigos para a imprensa de negócios, mas sua fragilidade conceitual se mostrava muito maior quando o mundo dos sonhos encarava a realidade. Steve Jobs foi apresentado como um “líder histórico” capaz de corrigir os erros do capitalismo americano em nome do “suporte”; Obama também foi recrutado naturalmente. Em 2008, Soshana fez uma peregrinação pelo Vale do Silício “na esperança de encontrar líderes que entendessem a crise”, mas ficou enojada ao ver a obsessão que existe em ganhar dinheiro com publicidade. Decepcionada com os rumos da tecnologia americana, deu início ao projeto que viraria seu próximo livro. Se The Support Economy era uma utopia dos consultores de gestão, A Era do Capitalismo de Vigilância é a distopia que surge quando a profecia falha. Neste mundo, o que está fundamentalmente errado é um modelo de negócios ruim, que vem se descontrolando. É um volume extenso e indisciplinado de quase 700 páginas, cujo enfoque desliza do sistemático ao ensaístico. Estruturado em três partes, vai das “bases” até o “avanço” do capitalismo de vigilância, antes de ampliar o objeto de análise para considerar a tecnologia como base do poder. Vamos examiná-las uma a uma.

Zuboff começa voltando para uma questão central de seu primeiro livro: se seremos reduzidos a trabalhar para as máquinas ou se ocorrerá o oposto. Só que agora, esse problema envolve a “civilização da informação”. Porém, não são as máquinas em si que estão em jogo, porque o capitalismo de vigilância é uma “forma de mercado” com seus próprios “imperativos econômicos”, e Zuboff vê a tecnologia como fundamentalmente moldada pelos fins econômicos a que serve. A primeira parte também nos leva de volta ao marco da Economia de Apoio (The Support Economy): o capitalismo gerencial, a segunda modernidade, o longo processo de emergência do indivíduo e a primazia das necessidades do consumidor na história econômica. Mas a contradição entre o capitalismo individual e gerencial encontra agora expressão na aceitação massiva da internet e nos distúrbios de 2011 no Reino Unido. A Apple ainda aparece como o messias previsto, o iPod defende as necessidades do consumidor, mas existem duas Apple — a humana e a divina — porque a empresa nunca se entendeu adequadamente como a empresa de “suporte” orientada à assessoria que Zuboff defende. Se era para a Apple ter sido a Ford da terceira modernidade, é o Google que realmente vai inventar um novo tipo de empresa. O mundo, portanto, falhou em efetuar a transição prevista e o capitalismo de vigilância preencheu o vazio, tornando-se a “forma dominante de capitalismo”.

O objetivo de Zuboff é revelar as “leis do movimento” dessa maneira, traçando um paralelo com a explicação de Ellen Wood para as origens do capitalismo propriamente dito. Em seus inícios, o Google experimentou um ciclo virtuoso ou “ciclo de reinvestimento do valor comportamental”: as pessoas precisavam das buscas, e as buscas poderiam ser melhoradas com a coleta de “dados comportamentais” produzidos pelos usuários. Até então, o Google conseguia ser o tipo de empresa de Zuboff, mas, ao contrário da Apple, não tinha um modelo de negócios sustentável. Após a quebra das “pontocom”, os capitalistas de risco estavam famintos e, assim, forçaram uma mudança no aproveitamento do excedente para uso em publicidade direcionada. Nessa mudança, os dados comportamentais tornaram-se um “ativo de vigilância” e matéria-prima para a produção de “derivados comportamentais”, “produtos de previsão” e “futuros comportamentais”, as coisas que o Google realmente vendia aos anunciantes, para obter “receitas derivadas da vigilância”.

Isso, para Zuboff, foi um processo de “acumulação primitiva” ou “expropriação digital”, e para isso ela pede ajuda para Karl Marx, Hannah Arendt, Karl Polanyi e David Harvey. Como outros antes dela, Zuboff acrescenta um item à lista de mercadorias fictícias de Polanyi: terra, trabalho, dinheiro e dados comportamentais. Como o mundo digital era inicialmente uma terra sem lei, o Google foi capaz de se apresentar como um magnata ladrão e pegar para si os abundantes “recursos naturais humanos”. Se os monopólios foram estabelecidos, não foi no sentido tradicional de distorcer os mercados ao eliminar a concorrência, mas como um meio de “encurralar” o fornecimento de dados, direcionando os usuários para os redis da vigilância. Enquanto In the Age of the Smart Machine analisava a “divisão do aprendizado” no local de trabalho, essa divisão agora caracteriza a sociedade em geral, pois os capitalistas de vigilância formam uma nova “casta sacerdotal” com uma surpreendente concentração de poder.

O clima político que instalou-se após o 11 de setembro levou a um “excepcionalismo de vigilância” que facilitou a metamorfose do Google, e foi gradualmente descobrindo suas afinidades eletivas com a CIA; por sua vez, os aparelhos de segurança dos EUA ficaram felizes em contornar os controles constitucionais, entregando a tarefa da coleta de dados a um setor privado pouquíssimo regulamentado.

Uma porta giratória seria estabelecida entre o capital de vigilância e o governo Obama, enquanto o Google canalizaria grandes recursos para atividades de lobby. Em pouco tempo, o Facebook havia aderido ao jogo, usando o botão “Curtir” para seguir os usuários online e vender derivados dos dados resultantes. Aonde quer que fossem, outros começavam a segui-los: sob a liderança de Satya Nadella, a Microsoft passou a extrair os dados dos usuários comprando a rede social LinkedIn, lançando sua assistente pessoal Cortana e introduzindo a vigilância no sistema operacional Windows. Apoiada pelo Congresso, a Verizon também entrou no jogo, dando início à espionagem por meio do provedor de serviços de internet e usando os dados resultantes para direcionar a publicidade.

Se a primeira parte do livro cobre a maior parte da teoria de Zuboff, a segunda foca no avanço do capitalismo de vigilância no “mundo real”, à medida em que seu modelo de negócios focado em previsões deixa de seguir comportamentos para, em vez disso, modelá-los e intervir neles. Os tecnólogos previram há muito tempo que chegaria um tempo em que os computadores saturariam a vida cotidiana a ponto de ela, ao fim, desaparecer. À medida em que os capitalistas de vigilância buscam uma previsão perfeita, eles são forçados a se mover nessa direção, buscando “economias de alcance” — uma maior variedade de fontes de dados — e “economias de ação”: gerando modelos para tornar as variáveis ​​mais previsíveis. Dessa forma, eles desenvolvem um novo “meio de modificação comportamental”. Um de seus arautos foi R. Stuart Mackay, que na década de 1960 desenvolveu a telemetria para rastrear animais selvagens, antes de passar para a ideia de configurar seu comportamento de forma remota.

Agora os indivíduos se tornaram objetos de monitoramento constante e as seguradoras podem adquirir a capacidade de desligar remotamente o motor de um carro quando o pagamento está atrasado. A infraestrutura digital, portanto, muda de “uma coisa que temos para uma coisa que nos possui” (Soshana aprecia um quiasmo). Aplicativos e pulseiras para rastrear sua atividade, Google Home e Alexa, TVs inteligentes, a tecnologia biométrica do Facebook, as “cidades inteligentes”, os sensores portáteis do setor de saúde, “tecidos interativos”, brinquedos infantis ou simplesmente o próprio smartphone: estamos sujeitos à espionagem constante e à “transferência” de nosso comportamento na forma de dados — e há poucas chances de evitá-lo. Com base nisso, análises detalhadas do “padrão de vida” dos indivíduos podem ser realizadas, enquanto o Baidu usa sistemas de rastreamento e localização para prever movimentos na economia chinesa. Os metadados sobre padrões de comportamento tornam-se ferramentas para a realização de perfis psicométricos, enquanto mecanismos capazes de ler estados emocionais são desenvolvidos.

O Facebook cruzou a linha da manipulação social com seus experimentos de “contágio emocional”, enquanto o jogo de “realidade aumentada” Pokémon Go direcionou o “tráfego de pedestres” para as localizações das empresas contribuintes, levantando a questão de saber se os capitalistas de vigilância poderiam estar se aventurando no projeto de “arquiteturas de escolha”. Os experimentos de modificação do comportamento realizados na Guerra Fria, visando presidiários e pacientes, desencadearam uma reação legislativa que impediu um maior desenvolvimento; mas agora as empresas privadas avançam, sem nenhum obstáculo de processo democrático, na busca de “resultados garantidos”. A própria consciência do consumidor torna-se uma ameaça aos ganhos; a liberdade e o “direito ao tempo futuro” estão em perigo. O capitalismo de vigilância incorpora um novo tipo de capitalismo não menos transcendental do que o capitalismo industrial, e “a luta pelo poder e controle na sociedade não está mais associada aos dados ocultos da classe e sua relação com a produção, mas, pelo contrário, [sic] aos dados ocultos da modificação do comportamento projetado e automatizado.

A terceira parte de In the Age of the Smart Machine era dedicada à “técnica” como “dimensão material do poder”. Aqui passamos, de maneira parecida, ao tipo de poder prenunciado pelo capitalismo de vigilância. O termo usado por Zuboff é “instrumentalismo”: “a instrumentação e instrumentalização do comportamento para fins de modificação, previsão, monetização e controle.” Se o totalitarismo mobilizou a violência para se apoderar da alma, o instrumentalismo silenciosamente observa e molda o comportamento. Skinner foi seu profeta e seu livro, Walden II, a utopia. Para os comportamentalistas, a liberdade é uma lacuna na explicação que deve ser superada estendendo a ciência comportamentalista à sociedade, e agora a visão que eles propunham está sendo realizada por capitalistas de vigilância que buscam “substituir a sociedade pela certeza”, enquanto buscam seu próprio “utopismo aplicado”. A “física social” do professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alex Pentland, incorpora o ataque, numa tentativa de substituir a política por um plano tecnocrático em nome do “bem maior”. “O bem maior pra quem?”, pergunta Soshana Zuboff, com razão.

Atualmente, existem “classificações creditícias” de radicalismo, e “classificações ameaçadoras” derivadas das redes sociais, e a recém-criada Geofeedia rastreia a localização dos manifestantes. O sistema de crédito social chinês — que espia os cidadãos e aplica punições e recompensas de acordo com isso — não pode ser esquecido, embora Zuboff não pareça saber muito bem o que fazer com ele. Em parte, “conclusão lógica” da busca pela “certeza” que percebemos sob um capitalismo de vigilância — muito mais instrumental do que totalitário –, o sistema de crédito social se diferencia na medida em que visa resultados sociais, e não de mercado. Também é, diz Zuboff, de importância duvidosa para sua história, pois é formada por uma cultura não democrática que não está interessada na privacidade; mas ao mesmo tempo “transmite a lógica do capitalismo de vigilância e do poder instrumental que produz”.

Agora, o indivíduo está cercado, preso a modos patológicos de sociabilidade por meio de técnicas derivadas da indústria do jogo, incapaz de forjar um senso de identidade adequado. Quando as pessoas modelam seu comportamento para apresentá-lo na internet, surgem “efeitos apavorantes” na vida cotidiana. Há pinceladas de Sherry Turkle e Nick Carr nos lamentos de Zuboff pelo lar entendido como um espaço meditativo para o cultivo do eu. São necessárias “propostas sintéticas”, no que parece referir-se a medidas legislativas como o “direito ao esquecimento” e o Regulamento Geral de Proteção de Dados (2016) estabelecido na UE e apoiado por ações coletivas.

Em conclusão, voltamos à relação entre mercados, conhecimento e democracia. No raciocínio de Friedrich Hayek e dos comportmentalistas, a liberdade dos participantes do mercado estava associada à ignorância. Com informações cada vez mais completas, os capitalistas de vigilância ameaçam esse duo. De acordo com a visão otimista de Zuboff, o capitalismo de outrora já foi baseado nas “reciprocidades orgânicas” entre empresas e pessoas. A troca de mercado equitativa formou o ímpeto para a Revolução Americana, e os industriais britânicos foram forçados a fazer concessões democráticas porque dependiam das “massas”. Com a mudança para o modelo de valor máximo para os acionistas, essas reciprocidades diminuíram; agora, os capitalistas de vigilância sobrecarregaram essa dinâmica, produzindo organizações de “hiperescala” com avaliações desproporcionais no mercado de ações, pequenas bases de funcionários e pouca dependência da sociedade. Não houve nenhum “movimento duplo” polanyiano impondo limites sociais à exploração de dados comportamentais, e agora enfrentamos uma “recessão democrática”, enquanto perdemos a associação vital dos mercados com a democracia. Soshana termina com uma série de referências que poderiam agradar qualquer atlantista liberal: Arendt sobre o totalitarismo, o desprezo de George Orwell por James Burnham e a queda do Muro de Berlim.

Embora muitas vezes ornamentado, A Era do Capitalismo de Vigilância apresenta um quadro interessante da paisagem infernal provocada pela tecnologia capitalista atual. Zuboff tem razão ao afirmar a necessidade de novos nomes para lidar com as transformações que os gigantes tecnológicos usam para nos castigar. A expressão “capitalismo de vigilância” identifica algo real e, embora ela não tenha sido a primeira a cunhá-la, agora parece ser provável que ganhará uso generalizado — para seu mérito. Também há algo surpreendente em seu antigo projeto de vincular o poder tecnológico à psicologia comportamental. Zuboff dedicou grande parte de sua vida intelectual para forjar um Anti-Skinner que colocasse o indivíduo psicológico no centro do palco, travando uma guerra contra suas reduções positivistas nas mãos de cientistas, gerentes e capitalistas de vigilância. Provavelmente, aqui fica mais convincente. Mas as reivindicações fundamentais de Na Era do Capitalismo de Vigilância são político-econômicas por natureza e devem ser avaliadas como tal.

O que podemos dizer, então, de seus conceitos de expropriação e desapropriação digital? Como os defensores da propriedade intelectual há muito afirmam, há algo especialmente estranho na noção de que dados são coisas que podem ser roubadas, já que não são bens raros, como Evgeny Morozov apontou em uma revisão publicada no The Baffler. Minha posse de uma determinada construção de dados não impede que todos os outros a tenham. Os dados comportamentais também podem ser vistos como representações, e é preciso recorrer ao pensamento mágico para igualar sua representação à posse. Se alguém me espiar e escrever o que eu faço, meu comportamento ainda é meu. Ele, é claro, deixou sua marca em algo que eu não tenho, mas ele não fez isso desde o início.

A ideia de que certos dados possam ser “gastos” também faz pouco sentido e, como não é o caso, também não há espaço identificável acima deles. Isso torna impossível traçar a linha entre o primeiro “ciclo de reversão inofensivo” de dados comportamentais do Google e o aproveitamento de um “excedente comportamental”. Aqui, os conceitos quantitativos de economia política se tornam enganosos, uma vez que não estamos realmente falando sobre magnitudes contínuas, mas sobre diferentes usos de dados: para melhorar um mecanismo de busca e para melhorar a publicidade direcionada e, assim, ganhar dinheiro.

Podemos ficar tentados a chamar o último de “excedente” em relação ao primeiro, mas e se os mesmos dados forem usados ​​para ambos? E se é o uso comercial que transforma-o em excedente, e não uma quantidade nominal de conduta, o que deveríamos fazer sobre o fato de Soshana Zuboff ver o sistema de crédito social chinês — destinado ao controle social e não ao marketing — como um sanguessuga do comportamento excedente? Novamente, sobra de quê? Será que alguma parte do sistema de crédito social é inofensiva, assim como o Google em seus inícios?

Essa noção substancialista de comportamento lembra a visão de mundo do socialismo ricardiano, em que o trabalho é visto como algo acumulado nos artefatos da economia capitalista. Isso ajudou a sustentar um certo ponto de vista moral: se é nosso trabalho, deve ser nosso. E há uma certa qualidade intuitiva na ideia de que uma determinada coisa incorpore diretamente uma determinada quantidade de trabalho, desde que pensemos em empresas individuais (como o histórico de negócios tende a fazer) ou commodities específicas, e não na economia como um todo. Essas ideias já existem há muito tempo e continuamos a encontrar vestígios delas na noção emaranhada de que: se postarmos algo no Facebook permite que Zuckerberg ganhe dinheiro, esse deve ser um trabalho produtivo — uma consequência semi-humorística disso é a demanda “Salários para Facebook» (Wages for Facebook). Soshana distingue sua posição ao concentrar-se no comportamento e não no trabalho, mas o substantivismo e o ponto de vista moral são praticamente os mesmos, embora façam ainda menos sentido no caso dos dados.

Zuboff afirma que o capitalismo de vigilância é a forma dominante de capitalismo, com o Google e o Facebook se tornando a vanguarda de uma dinâmica que podemos verificar em toda a economia. Essas empresas são, sem dúvida, muito poderosas e têm capitalizações de mercado extraordinárias, mas quase todas as suas receitas provêm da publicidade. Mesmo quando entramos na informatização onipresente, nas cidades inteligentes e em outros processos semelhantes, a receita de publicidade ainda é a principal razão pela qual as empresas privadas acumulam dados sobre os usuários. Quem compra esses anúncios? Em grande parte outras empresas, o que significa que a publicidade em geral é um custo para eles e, portanto, uma dedução de seus lucros totais: em termos de economia política clássica, é um dos faux frais da produção. A lucratividade dos anunciantes é limitada pela de empresas de outros setores, dado que dependem delas para obter receita. Não importa o quão radicalmente os capitalistas de vigilância transformem a propaganda, desde que ela represente seu negócio principal, sua capacidade de guiar o capitalismo como um todo será limitada.

Na visão de Zuboff, os capitalistas de vigilância buscam a “certeza total” e o controle real da totalidade do comportamento do usuário com seus produtos de previsão. Embora uma vantagem na previsão possa traduzir-se numa vantagem ao colocar anúncios em banner e, assim, fornecer mais receita, isso tem limites lógicos. Mesmo se a certeza ou o controle fossem teoricamente possíveis, os anunciantes ainda não seriam capazes de garantir as vendas de outras empresas à vontade, porque se a renda disponível dos consumidores fosse finita, cada transação segura diminuiria o alcance de outras, fazendo com que a “certeza” se auto enfraquecesse. Faz mais sentido rastrear, direcionar e prever o comportamento do usuário com precisão suficiente para que várias empresas paguem para participar da captura dos mesmos consumidores. Fora isso, perseguir uma previsão cada vez mais perfeita seria jogar dinheiro no buraco. Além do mais, o comportamento que faz sentido prever permanece quase inteiramente no reino da atividade de mercado — levantando a questão, independentemente da retórica, de se é realmente possível verificar para qual direção da “totalidade” os capitalistas de vigilância estão nos conduzindo. Talvez a economia da atenção — de acordo com a qual a atenção do usuário é uma mercadoria rara, buscada pelas empresas — seja uma abordagem mais útil aqui.

Embora aconselhável a procura de explicações sociais para os avanços tecnológicos, Zuboff pode ter se perdido em sua inclinação a pensar em termos de “formas de mercado” e a reduzir a tecnologia a fins econômicos. É sintomático que ela hesite em relação ao sistema de crédito social chinês. E embora reconheça a contribuição do Estado para alimentar o capitalismo de vigilância, tem surpreendentemente pouco a dizer sobre certos detalhes de seu papel: Prism, Snooper’s Charter, Five Eyes… Eles aparecem, essencialmente, como um reino neutro e passivo, que às vezes vai para onde a empresa o conduz, que tem algumas leis ruins e precisa de leis melhores. Mas qualquer história da tecnologia americana demonstra que o Estado está longe de ser neutro ou passivo. Geralmente, ele lidera a iniciativa de impulsionar uma grande mudança tecnológica, coordenando empresas ou arrastando-as para perto de si, como vemos na computação, nas redes, armas, máquinas=ferramentas, etc. Se as mudanças fundamentais ocorrem por meio dos atos de grandes empresários, isso é algo que deve permanecer na sombra.

Desde o seu início, o Estado moderno tem sido um aparelho de coleta de informações. Quando os meios de armazenamento e processamento de dados se tornaram disponíveis para eles — no início, mecânicos, e eletrônicos depois –, eles simplesmente facilitaram o que vinha acontecendo há muito tempo. O cartão perfurado de Hollerith e seus descendentes tornaram possível automatizar o processamento de dados, incluindo, como se sabe, dados sobre campos de concentração nazistas e sobre o internamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. A própria vigilância baseada em computador tem suas origens nesta história de longa data, que é importante ter em mente ao tentar periodizar eventos mais próximos do presente. Ao longo da década de 1970, a TRW — uma empresa com interesses nos setores aeroespacial, automotivo, eletrônico, informático e de processamento de dados — coletou grandes quantidades de dados sobre dezenas de milhões de consumidores americanos para vender a credores em potencial. E, sem surpresa, dado o escopo de suas operações, a TRW estava intimamente ligada à CIA. Embora a tentativa de Soshana Zuboff de interpretar politicamente a fundação do capitalismo de vigilância — como o ato de pessoas específicas em uma conjuntura específica — seja admirável, ela esconde essa história mais longa da ciência da computação na vigilância estatal e seus cruzamentos com o setor privado. É aqui que encontramos os motivos mais convincentes de preocupação.

Afinal de contas, por que que eu deveria me importar se o Facebook me mostra horríveis anúncios publicitários e talvez até me convença de comprar alguma coisa, se essa é a única repercussão que o gigantesco acúmulo de dados tem sobre mim? É no momento em que abandonamos o simples intercâmbio do mercado — que formalmente sou livre para abandonar — e, junto com isso, o principal foco do capital de vigilância propriamente dito, que essa assimetria de conhecimento se torna verdadeiramente problemática. Seremos submetidos à manipulação digital, paga pelo licitante com o lance mais alto? Aqueles de nós que se mobilizem para além dos rituais clássicos da participação democrática, seremos rastreados, agrupados e neutralizados antes de que possamos representar uma ameaça real? As desigualdades sociais serão discretamente fortalecidas pelas classificações que nos são impostas por aqueles que estão em posição de supervisionar? Responder a essas questões com seriedade implicará entender o Estado como força ativa no desenvolvimento tecnológico, como um campo diferenciado e longe de ser neutro. A regulação normativa do capital de vigilância por si só não será suficiente — nem mesmo apoiada pelos movimentos sociais — porque qualquer desafio sério, se tornará, também, um desafio para o estado de vigilância.

A uberização da vida

Quando há mais ou menos dez anos o Vale do Silício começou a oferecer aplicativos de geolocalização, ninguém sabia bem para que serviria aquilo.

E, como aconteceu com outras tecnologias, o uso inicial foi pífio. No primeiro momento, alguns poucos usuários registravam a chegada em bares e restaurantes que frequentavam e até a Google chegou a fracassar com o Latitude, uma rede social cujo status era a posição do usuário no globo. Quase uma década mais tarde, 2018 chega ao fim marcado pelo uso de aplicativos de geolocalização cujo melhor exemplo é o Uber. O sistema de transporte, hoje com 20% de capital da Arábia Saudita, virou paradigma para a desregulamentação, ou o que está sendo classificado por diferentes autores de “uberização”.

Minha implicância com os aplicativos de transporte privado vem da percepção de que os veículos aumentaram a quantidade de carros nas ruas, desmontando qualquer possibilidade de política urbana de mobilidade, substituída por uma barafunda de automóveis guiados por pessoas que, por não conhecerem o lugar em que trafegam, seguem o aplicativo de geolocalização sem terem ideia do que estão fazendo. A tecnologia pode ser muito útil, por exemplo, quando é usada para geolocalizar o transporte coletivo e oferecer ao usuário a possibilidade de saber onde está o ônibus em que pretende embarcar, como faz o Moovit e outros apps de transporte coletivo, exemplo que prova de que a tecnologia não é em si boa ou ruim, depende de a serviço de quem está operando.

No caso específico do Uber, a tecnologia está operando a favor da precarização do trabalho. No Brasil, seja pelas altas taxas de desemprego, seja pela possibilidade de complementação de renda – há muitos motoristas de aplicativos que fazem apenas viagens de ida e volta ao local de trabalho –, ou pela simples suposição de oferta de liberdade, maior dos paradoxos da geolocalização. Se até um certo momento a internet oferecia a seu usuário a possibilidade de não estar em lugar nenhum – fazendo da presença virtual quase uma experiência de desmaterialização –, hoje quase tudo na rede funciona exatamente ao contrário, justamente a partir da localização.

Se é verdade que 2018 intensificou a “uberização” da vida, talvez seja verdade também que o ano começou há uma década, mais precisamente em outubro de 2008, momento da crise do mercado financeiro norte-americano, cujos desdobramentos se vê nas insurgência das ruas de Paris ou nos resultados das diferentes eleições que levaram a extrema-direita a ocupar o lugar de “antissistema”, como tão bem analisa o filósofo Marcos Nobre na revista piauí.

A mim interessa pensar a oposição entre sistema e antissistema não a partir do sistema político, como faz Nobre, mas tomando o termo “sistema” com a sua designação mais abrangente e, por isso mesmo, capaz de nos ajudar a pensar mudanças cotidianas sutis que certos “sistemas” nos trouxeram. O Whatsapp, por exemplo, surgiu como forma de burlar as altas tarifas cobradas pelas operadoras por mensagens de texto. Justo por serem caras, eram usadas de forma contida, apenas para pequenos avisos. Hoje, mesmo que cada assinante de telefonia celular tenha direito a trocas de SMS gratuitos, o sistema entrou em completa decadência ou foi dominado pelo mundo do spam.

Aos poucos, e em 2018 mais do que nunca, passamos a mediar afetos e a gerir a vida cotidiana a partir do aplicativo. Era para ser antissistema – operadoras de telefonia e suas tarifas – e em muito pouco tempo virou o grande sistema. A torção faz com que a ideia de ser antissistema seja difundida como forma de impulsionar o sistema e permitir a sua existência. Combinamos geolocalização com uberização – só possível graças ao funcionamento de sistemas muito complexos – e com a estranha difusão da ideia de que a cada adesão a um novo sistema estamos agindo contra um sistema.

No exemplo do Uber nas ruas do Rio, cada motorista está de fato agindo contra uma forma de concessão pública de autonomia para taxistas que se transformou em feudo político para prefeitos e deputados federais. Prevalece a lógica de que vale tudo contra um inimigo poderoso. É no mínimo curioso que hoje, pelo menos no Rio, a melhor forma de se locomover em veículo privado voltou a ser o táxi que, via aplicativo da prefeitura, oferece descontos, não cobra preço dinâmico, dispensa a geolocalização porque conhece o trajeto e ainda pode transitar nas faixas exclusivas. Com alguma sorte, nos próximos anos, vamos poder dizer o mesmo dos partidos de esquerda, a serem reabilitados no gosto popular pelos atuais estragos da uberização da vida.

Por Carla Rodrigues

Comportamento,Tecologia,Censura,Opressão,Blog do Mesquita

Precisamos falar sobre imagens

Rijksmuseum, Amsterdam, 2014

O título deste texto não é um chamado, um apelo, credo íntimo ou estético, apenas a constatação banal de que imagens, muitas delas, nos impelem a falar. E, como se não bastasse a eloquência visual de que muitas são portadoras, falamos também por elas, em seu lugar, como se compelidos à tradução que transforma o visível em legível. Falamos tanto e talvez, entre outras razões, porque, apesar da enxurrada cotidiana a que somos submetidos e para a qual também contribuímos, a definição de imagem seja ainda escorregadia e sua percepção, problemática. Ora deduzimos das fotografias aquilo que estaria atrás do que mostram, como um subtexto a ser extraído e explicitado, ora as utilizamos para fazer calar os discursos pela força de uma evidência visual que julgamos indiscutível.

A história recente do olhar é também a história do olho ameaçado pelo excesso de visível e pela falta de imagens. A fotografia eloquente, através da qual algo fala, e a fotografia como elemento comprobatório, muda e inibidora do verbo, são apenas dois dos possíveis modos de nos confrontarmos com o visível que nos rodeia. E, ainda assim, talvez não se trate ainda de imagens num sentido mais pleno ou radical, se aceitarmos que a existência de uma imagem depende não tanto de sua capacidade de afirmar o visível, mas de fazer com que o olhar hesite diante daquilo que vê. Daí a situação paradoxal na qual, mesmo em excesso, a imagem, como algo que se destaca do visível, continua a fazer falta.

Tomo como exemplo o Facebook, esse espaço de murmúrios e lamentos, sem entradas ou saídas, jardim de nossos narcisos em flor, pulsões escópicas cotidianas e compulsivos compartilhamentos de links em geral mais eficazes para a sobrevida da informação do que para seu metabolismo. Lugar também do desacordo, do desagravo, da gritaria, da citação e dos gatos. O que poderia ser – e às vezes é – um dispositivo de enlace crítico ou poético entre texto e imagem acaba reduzido ao cacoete da redundância ilustrativa ou da legendagem infinita, preferencialmente sob a forma lapidar do comentário breve. O layout dos murais verticais incentiva, ou pelo menos não impede, o tensionamento de imagens e textos.

Nesse ambiente, porém, toda imagem já funciona de antemão como comentário – e aí não importa muito se o tema é a última novidade futebolística, a catástrofe urbana do dia, o menu do almoço de domingo ou a menina tomando banho de esgoto na sua cidade. As condições de visibilidade de uma imagem na rede são precárias, entre tantos motivos, porque o ambiente midiático de compartilhamento tem como modelo a informação jornalística, a mensagem. Por mais distintas que sejam as fotos disseminadas, tudo fica nivelado pela ilusão de transparência e pelo imediatismo da codificação social. Assim, o mundo das imagens é frequentemente tomado por imagem do mundo, através de fotos que afirmam o que mostram e mostram o que afirmam.

Kunsthistorisches Museum, Viena, 1987

As duas fotos acima constituem cenas de leitura de imagens em ambientes museológicos. Uma delas faz parte de meu arquivo pessoal, a outra viralizou recentemente nas redes sociais por apresentar um grupo de jovens de costas para A ronda noturna, de Rembrandt, e não só isso, mas também o magnetismo das pequenas telas de seus celulares, enquanto a grande tela fica evidenciada ali atrás por abandono. Nesse caso, parece que, ao compartilhar a imagem, compartilhava-se também a ideia de que certo mundo perceptivo teria chegado ao fim. Jovens alienados, não se fazem mais espectadores como antigamente etc. O olhar tátil, da concentração imersiva, da capacidade de experimentar uma pintura grandiosa em sua potência plástica e estética se perdeu. É o fim do mundo, ou pelo menos, o fim de certo mundo em que ainda éramos capazes de detectar a verdadeira imagem no brejo da mediocridade circundante.

Essa melancolia não é completamente infundada. Entretanto, se abrirmos mão do seu catastrofismo, recuando um pouco na leitura, talvez a foto nos diga bem menos sobre o fim dos tempos do que sobre a condição perceptiva em tempos de hipermediação do visível. Diante dela, como diante de uma cena flagrada em determinado instante, talvez o que se mostre seja não mais do que um grupo de jovens muito louros, provavelmente estudantes do ensino médio ou secundário, sentados perto uns dos outros e com os olhos voltados para seus celulares. Ao fundo, uma grande tela escura com homens “de antigamente” procurando alguém ou alguma coisa num ambiente de sombras atingido por um feixe de luz.

Não entrarei aqui na história do quadro, cujo título é uma espécie de falsa legenda, já que não se trata ali de uma ronda propriamente dita nem de uma cena noturna. A fotografia me atrai por dois motivos: em primeiro lugar porque a pintura sempre retorna para assombrar a imagem digital, e é exatamente assim, como coisa assombrosa, ao mesmo tempo distante e presente, que o quadro comparece na foto; por outro lado, a cena é emblemática de um problema bastante contemporâneo: como chegar a fazer com que uma imagem seja reconhecida em sua potência, seja realmente vista em meio à algazarra do visível? O desafio da formação de público se encontra aí com o problema ainda mais escorregadio da formação do olhar.

Diante da perda de prestígio cultural do campo artístico, muitos museus redefiniram sua missão cultural tentando e testando o ajuste entre essas duas questões – vale lembrar que o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) criou a sua Escola do Olhar –, aliando a necessidade de formação de público a certa pedagogia do olhar. Sem diminuir a importância desses programas, em alguns dos quais já participei como artista, e reconhecendo o importante desafio que assumem, há também na proliferação veloz dessas iniciativas o risco de transformação dos museus em entidade pedagógica e da arte em aula infinita.

Independentemente da classe social ou do público que se pretende atrair para dentro dos museus, nem sempre os procedimentos propiciam de fato uma experiência do olhar. Ocorre muito quando, desajeitada ou apressadamente, tenta-se facilitar a compreensão das obras lançando mão de recursos lúdicos não tão cuidadosamente formulados como deveriam. Nos piores casos, a arte se transforma em pretexto luxuoso para atividades colaterais que infantilizam o espectador. O espectador emancipado fica aprisionado nos projetos de emancipação do seu próprio olhar.

Voltando aos jovens visitantes do Rijksmuseum, o fato de estarem de costas e desatentos ao quadro não significa que estejam rejeitando a pintura de Rembrandt. Irritados com os comentários agressivos, funcionários do Rijksmuseum esclareceram no Facebook que aquelas pessoas estavam na verdade consultando em seus celulares o novo aplicativo do museu, portanto continuavam interessadas no quadro, provavelmente em sua história, podendo também ampliar partes e detalhes, conforme as possibilidades do aplicativo.

Podemos questionar a pertinência, a necessidade ou a importância desse tipo de aplicativo para a formação do olhar, mas, apesar da indignação generalizada, é bem pouco provável que o novo app do Rijksmuseum seja mais nocivo do que um audioguia mal preparado ou um texto de parede excessivamente pedagógico. Lembro de um professor que acompanhava minha turma do Liceo Gaudenzio Ferrari à Galleria degli Uffizzi, em Florença, e falava tanto que desviava nossos olhos. É claro, a voz de um professor também é capaz de aproximar o olho da potência do que é visto, assim como os novos aplicativos também têm permitido aos pesquisadores e professores de História da Arte uma visualização dos meandros da pintura ampliando detalhes como nunca antes havia sido possível. Oferecem a possibilidade de um contato visual exploratório, quase arqueológico.

Interessa também não descolar totalmente o debate em torno das tecnologias de visão do contexto universitário do ensino de arte, já que no Brasil dependemos fortemente da reprodução de imagens. Assim, o problema se desviaria da recusa enojada ou do deslumbramento fútil com os novos aparatos de visualização, levando em conta que visualizar não é o mesmo que perceber. Tanto o olhar supersônico quanto o excesso de informação biográfica não garantem por si sós uma percepção mais apurada nem um encontro decisivo com um fato ou objeto artístico. Se o problema da formação do olhar dependesse exclusivamente do incremento ótico, não precisaríamos das histórias da arte, da arqueologia, dos antropólogos da imagem ou da própria crítica.

Por outro lado, é ingênuo acreditar que somos capazes de uma experiência puramente visual do visível. Não existe uma tal ilha da pureza sensorial fora da condição mediada da imagem na qual, por bem ou por mal, estamos instalados. Não há como escapar inteiramente dos “aplicativos” que orientam a compreensão de uma imagem, sejam eles os tradicionais guias turísticos, os discursos históricos, as ferramentas conceituais da teoria da arte, a pedagogia museológica ou nossa própria inércia perceptiva.

O acesso à porção invisível do visível não passa necessariamente pelo aumento da capacidade ótica ou pela erudição desenfreada, mas por certa cautela diante da imagem. Como sugere John Berger, talvez seja uma boa hora para perguntas ingênuas cujas respostas podem ser tudo menos simples. O que impele a pintar, desde o Paleolítico até os nossos dias? O que toda pintura têm em comum? Talvez um olhar digressivo, uma aproximação ao mundo imaginal – nas brechas entre o material e o espiritual – dos ícones bizantinos, um olhar demorado sobre o retrato espantosamente próximo de uma jovem do primeiro século em El Fayoum, ou o espanto produzido pelas pinturas pré-históricas cada vez mais recuadas no tempo, ajudem a desarmar algumas armadilhas do visível que nos rodeia.

Como o liberalismo produz vergonha alheia inclusive na música e na história

Mas o que é isso? Inacreditável a limitação cognitiva das mentes(?) ditas liberais!

Chamar compositores de música clássica famosos apenas pelos sobrenomes pode ser “prejudicial” hoje em dia, de acordo com um artigo publicado na revista liberal norte-americana Slate. A peça foi imediatamente ridicularizada online.

Escrevendo para a Slate, Chris White, professor assistente de teoria musical na Universidade de Massachusetts Amherst, questionou como alguns compositores, como Beethoven ou Mozart, costumam ser chamados apenas por seus sobrenomes, enquanto outros não. Na verdade, continuar usando esses monônimos hoje pode ser visto como “desatualizado e prejudicial”, argumentou.

Quando dizemos ‘esta noite, você vai ouvir sinfonias de Brahms e Edmond Dede’, estamos tratando linguisticamente o primeiro como estando em um plano diferente do último, uma diferença originalmente criada por séculos de preconceito sistemático, exclusão, sexismo , e racismo.

Para mudar a situação, o autor instou as pessoas a usarem os nomes completos dos compositores para que “possamos nos concentrar mais em sua música do que nas práticas culturais do passado que elevaram os homens brancos heterossexuais em detrimento de todos os outros”.

O artigo foi imediatamente ridicularizado online, com muitos sentindo que sua opinião era rebuscada e demais até mesmo para uma revista liberal. “Eu quero participar de uma de suas reuniões de argumento de venda. As histórias que não fazem sucesso, têm que ser melhores do que as que você publica”, twittou um leitor. “Pare de tirar sarro de Slate,” outro comentou brincando.

Alguns até juraram usar apenas o nome de batismo “completo” de Mozart a partir de agora, que consiste em quatro nomes diferentes.

As pessoas tentaram educar o autor sobre por que os monônimos se prendem a compositores específicos em primeiro lugar. “Se houvesse um conhecido Bob Beethoven ou Jimmy Wagner, faríamos a distinção. Incluímos o primeiro nome de Edmond Dede porque ele não é tão conhecido”, escreveu uma pessoa.

“Que bobagem no Slate!” um tweet lido. “Dede não é musical igual a Beethoven. Fama, e não racismo, nos permite identificar o compositor apenas pelo sobrenome. Isso vale para Dante, Chaucer, Shakespeare também. E artistas e cientistas como Picasso e Einstein, também.”

Outro usuário do Twitter acrescentou que “acontece o mesmo com pessoas tão famosas que podem usar seu primeiro nome, o que inclui muitas mulheres e pessoas de cor: Oprah, Beyonce, Ellen, Kanye, Chappelle, Kobe, Hillary, LeBron . “

Fatos & Fotos do dia 21/10/2020

Vídeo de #Doria e tabelinha com #Pazuello na #vacina #chinesa enfureceram #Bolsonaro -> Fonte: #Veja


#Motocicletas #Bikes #Design #Engenharia #Motores #Engines #Mecânica #Mecanics #Mechanics #Engineering #BlogdoMesquita #José #Mesquita
+ Motocicletas&Bikes-> www.mesquita.blog.br



 

Esqueçam o #trolóló#. O objetivo é #Apud #Raimundo #Sodré […]”manter a #massa, a massa mãe[…] sob tacões. Pressionem o #Senador #Rogério #Carvalho (#PT/SE), autor do #PL 3877/2020 apresentado hoje no #Senado e já com anúncio de #votação em #Plenário nesta quinta-feira. Em vez de parar com a #remuneração da #sobra de #caixa dos #bancos que já alcança 23% do #PIB, estão #legalizando essa #vergonha!
#blogdomesquita

#Elsa #Peretti
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Duas opções: Leia esse texto ou continui no limbo da desinformação midiática. A paranoia com a #Huawei. Por favor, leia o texto para acelerar o #5G dos neurônios.

Impressiona a incapacidade e/ou a capacidade, ambas? – só os Deuses sabem o porque – do exercício diuturno, aqui no #Bozaquistão, de distorcer fatos, mídia “venal” em geral.

A Huawei opera no #Brasil, lembro quando forneci serviços a um terceirizado, que em 2002 a #Embratel já operava com diversos equipamentos Huawei na rede deles. Hoje não disponho de informações sobre a amplitude da presença deles no Brasil com relação a 2g,3g ou lte. 

 

A #Ericsson e #Samsung são líder de mercado 5G e a Huawei vem em terceiro lugar junto com #Nokia, #ZTE, #Cisco e #HP/Aruba. 

O fato real é que pela legislação vigente no Brasil, qualquer empresa pode utilizar a mesma infraestrutura de antenas ou colocar novas, nas torres existentes, e implementar novo #hardware nos #datacenter. Talvez a única vantagem da Huawei – tenho um filho, engenheiro de computação e especialista em implantação e segurança de redes de computação que trabalhou com eles em 2007, na #Irlanda, no implemento de uma rede #LTE/4g – “Eles são muito rápidos e eficientes, e trabalham 24h sem parar, em vários turnos, com muitos funcionários e engenheiros. Eles, Huawei fazem em uma semana algo que outra empresa demoraria um mês”, certa vez ele me disse.

Resumo:

 

  • Reserva de Mercado nunca levou nenhum país à frente. A reserva de mercado para computadores decretada pela ditadura de 64, atrasou a tecnologia, calculam os especialistas, em 30 anos, no mínimo, em tecnologia computacional.
  • A #Huawei opera no #Brasil desde a existência de #2G.
  • A Huawei oferece somente infra-estrutura para possibilitar a operação do 5G.
  • Qualquer operadora pode usar qualquer #software que desejar para operar o 5G.
  • Sem a Huawei e amarrado à #acordos de #tecnologia e #comerciais, a meu sentir, o Brasil irá demorar dez anos para implantar a #tecnologia 5G.
  • A Huawei está cerca de 2 anos à frente, em tecnologia de qualquer outro concorrente.
  • O domínio pelos USA da tecnologia 5G irá demorar bastante.
  • Alinhamento automático unilateral nunca beneficiou nenhum país.
  • Durante a ditadura de 64 o Brasil fechou o mercado de computadore e criou a 
  • Nem durante a ditadura implantado em 64 no Brasil – leia-se Geizel – os interesses nacionalistas (sim, eles já existiram) por parte dos militares foram controlados por acordos de subserviência.
  • Geisel chegou a denunciar – pesquise na área do #Direito #Internacional – o que significa denunciar um acordo entre países.

Coloque-se em fila indiana todos os #corruptos membros da gangue e “parças” do #corvo, e teremos mais de um quilômetro de folha corrida.


 

Fatos e Fotos do dia 20/10/2020 – O dia todo todo dia

Da série “Assim caminha a humanidade” ou “A vida como não deveria ser” ou “Só o liberalismo nos salvará”.
#Mansão sob o #viaduto no cruzamento das #Av. St. #Dumont e #Santana Jr. #Fortaleza #Ceará

#Fotografia #Morador de rua #Sem #Teto #Homeless #Blogdomesquita


Quando faz sentido o “Brasil acima de tudo”! I
#Gripen #Aviões #Caças #FAB #Força #Aérea #Brasileira
#blogdomesquita


Da série “Assim caminha a humanidade” ou “A vida como não deveria ser” ou “Só o liberalismo nos salvará”.
#Lixo #TrabalhoInfantil #Fotografia #Infância #DireitosHumanos #TrabalhoInfantil #ChildLabour #Educação #Escolas #Fome #Economia #Liberalismo #Hayek #Mises #AyanRandt #BlogdoMesquita


#Idmaray #Breuil
Um dia sem dançar é um dia perdido
#Ballet #Dança #Bailarinas #Dancers #Arte #Art #Fotografias #Art #BlogdoMesquita #José #Mesquita
+ Artes-> www.mesquita.blog.br

 

As empresas do Japão que ajudam pessoas a desaparecer

Em todo o mundo, dos Estados Unidos à Alemanha ou Reino Unido, diversas pessoas decidem desaparecer sem deixar rastros, abandonando suas casas, empregos e famílias para começar outra vida. Getty Images

Desaparecimento é facilitado no Japão graças à legislação sobre privacidade

Muitas vezes fazem isso sem nem olhar para trás.

No Japão, essas pessoas são conhecidas como jouhatsu.

O termo significa “evaporação”, mas também se refere a pessoas que desaparecem propositalmente e escondem seu paradeiro, por anos ou às vezes até décadas.

“Fiquei farto das relações humanas. Peguei uma mala e desapareci”, diz Sugimoto, de 42 anos, que pediu para que seu primeiro nome fosse ocultado nesta reportagem.

“Eu simplesmente fugi.”

Ele afirma que em sua pequena cidade natal todos o conheciam por causa da família dele e de seu próspero negócio local, que Sugimoto deveria ter tocado adiante.

Mas ter esse papel imposto a ele causou-lhe tanta angústia que Sugimoto deixou cidade para sempre e não disse a ninguém para onde estava indo.

De dívidas inevitáveis ​​a casamentos sem amor, as motivações que levam ao jouhatsu variam.

O sociólogo Hiroki Nakamori pesquisa jouhatsu há mais de uma década – GettyImages
Mas muitos, independentemente de seus motivos, procuram empresas para ajudá-los no processo.

Essas operações são chamadas de “mudança noturna”, um sinal da natureza secreta do processo para quem deseja virar um jouhatsu.

Essas empresas ajudam as pessoas que desejam desaparecer a se retirarem discretamente de suas vidas e ainda fornecem hospedagem em locais distantes.

“Normalmente, os motivos para a mudança costumam ser positivos, como ir para a universidade, conseguir um novo emprego ou um casamento. Mas também há mudanças tristes, quando o motivo é ter desistido da faculdade, perder o emprego ou quando você quer fugir de alguém que o persegue.”

Assim conta Sho Hatori, que fundou uma empresa de “mudança noturna” na década de 1990, quando a bolha econômica japonesa estourou.

Segundas vidas

Quando criou a empresa, ele acreditava que o motivo pelo qual as pessoas decidem fugir de suas vidas problemáticas era a ruína financeira, mas logo descobriu que também havia “motivos sociais”.

“O que fizemos foi ajudar as pessoas a começar uma segunda vida”, diz ele.

O sociólogo Hiroki Nakamori pesquisa o fenômeno jouhatsu há mais de dez anos.

Ele diz que o termo começou a ser usado na década de 1960 para descrever pessoas que decidiram desaparecer.

As taxas de divórcio eram (e ainda são) muito baixas no Japão, então algumas pessoas decidiram que era mais fácil sair e abandonar seus pares do que passar por procedimentos de divórcio complexos e formais.

“No Japão é mais fácil desaparecer” do que em outros países, diz Nakamori.

Privacidade é algo que é protegido com unhas e dentes.

Seria capaz de fugir e deixar tudo para trás? GettyImages

Pessoas desaparecidas podem sacar dinheiro em caixas eletrônicos sem serem descobertas,. E membros da família não podem acessar vídeos de câmeras de segurança, que poderiam ter gravado seus entes queridos enquanto fugiam.

“A polícia não vai intervir a menos que haja outro motivo, como um crime ou um acidente. Tudo o que a família pode fazer é pagar caro a um detetive particular. Ou simplesmente esperar. É isso.”

Fiquei chocada

Para os que ficam para trás, o abandono e a busca por seu jouhatsu podem ser insuportáveis.

“Fiquei chocada”, disse uma mulher que conversou com a reportagem da BBC, mas optou por permanecer no anonimato.

O filho dela, de 22 anos, desapareceu e nunca mais entrou em contato.

“Ele ficou desempregado duas vezes. Ele deve ter ficado muito triste com isso.”

Quando parou de ter notícias dele, ela dirigiu até onde morava, procurou no local e então esperou em seu carro por dias para ver se ele aparecia.

Isso nunca aconteceu.

Ela disse que a polícia não tem ajudado muito e que apenas informou que só poderiam se envolver no caso se houvesse suspeitas de que ele havia cometido suicídio.

Mas como não havia nenhuma pista disso, eles não investigam nada.

“Eu entendo que existem agressores e que a informação pode ser mal utilizada. Talvez a lei seja necessária, mas criminosos, agressores e pais que querem procurar seus próprios filhos são tratados da mesma forma por causa da proteção. Como isso pode acontecer?”, questiona.

“Com a lei atual e sem dinheiro, tudo o que posso fazer é verificar se meu filho está no necrotério. É tudo o que me resta.”

Os desaparecidos

Para muitos jouhatsu, embora tenham deixado suas vidas para trás, a tristeza e o arrependimento continuam.

“Tenho a sensação constante de que fiz algo errado”, diz Sugimoto, o empresário que deixou esposa e filhos na pequena cidade.

“Não vejo (meus filhos) há um ano. Disse a eles que faria uma viagem de negócios.”

Seu único arrependimento, diz ele, foi deixá-los.

Sugimoto vive escondido em uma região residencial de Tóquio.

A empresa de “mudança noturna” que o abriga é comandada por uma mulher chamada Saita, que prefere não dizer seu sobrenome para manter o anonimato

Ela mesma é uma jouhatsu que desapareceu há 17 anos.

Fugiu de um relacionamento fisicamente abusivo. “De certa forma, sou uma pessoa desaparecida, inclusive agora.”

Tipos de clientes

“Tenho vários tipos de clientes”, continua.

“Há pessoas que fogem da violência doméstica e outras que fazem isso por ego ou interesse próprio. Eu não julgo. Nunca digo: ‘Seu caso não é sério o suficiente’. Todo mundo tem suas angústias.”

Para pessoas como Sugimoto, a empresa ajudou a enfrentar sua própria batalha pessoal.

Mas mesmo que ele tenha conseguido desaparecer, isso não significa que os rastros de sua antiga vida não permaneçam.

“Só meu primeiro filho sabe a verdade. Ele tem 13 anos”, diz ele.

“As palavras que não consigo esquecer são: ‘O que o pai faz da vida é problema dele, e não posso mudar isso’. Soa mais maduro do que eu, não?”

Biblioterapia: A cura pela leitura

Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.
Mariane Morisawa/Valor, de São PauloLiteratura,Leitura,Livros

Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego?

Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia.

Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz.

“O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados.

Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo.

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O discurso dos quem exigem seu privilégio ao ódio

Com a redemocratização do Brasil durante a década de 1980, aqueles que sempre estiveram a margens dos processos de decisões do jogo politico, econômico e social no Brasil começaram a lutar por uma igualdade e uma equidade nos seus direitos constitucionais e de liberdade individual de cada ser enquanto cidadão.

Movimentos como da consciência negra, a luta das comunidades indígenas pela preservação de seu modo de vida, o movimento LGBT, os sem-terra e sua busca pela reforma agrária, sindicatos de trabalhadores, enfim, todos aqueles que antes estavam sendo silenciados durante um longo período da história nacional agora expõem os problemas e opressões, reivindicando seus direitos que estavam sendo suprimidos por tanto tempo. liberdade.

Entretanto, estas disputas e encarniçadas lutas na busca de leis que concretizem o respeito as diferenças e que acarrete numa igualitária justiça gera a ojeriza, medo, rancor e o mais profundo ódio das forças conservadoras de uma classe e grupo contrária a equidade do espaço público, da democracia e acima de tudo, do direito de cada ser decidir para si o que é mais adequado a seu modo de vida, ideias e pensamento.

Este grupo, ao qual podemos jocosamente dar a alcunha de “cidadãos de bem”, reforça para si toda uma tentativa de manter um status quo baseado num repressivo aparato social, econômico e cultural que acaba por marginalizar boa parte da sociedade, pois ignorantemente acredita ser maioria, o que é uma das grandes falácias que o senso-comum destes leva como verdade absoluta justificando seus escusos preconceitos.

O “cidadão de bem” dorme em berço esplendido da hipocrisia: se diz cumpridor das leis, contra as drogas, sem preconceitos, fiel a esposa e família. Mas na surdina infringe uma série de leis no transito, consome algumas gramas “inofensivas” de maconha e cocaína na madrugada enquanto procura alguma garota ou garoto de programa nas sinaleiras, e ai de seus filhos se acabaram namorando um negro ou se declararem gays, seriam “deserdados por destruírem a honra da família”.

Porém no contexto atual, percebeu-se que muitos com este pensamento retrógrado e agressivo aos poucos estão perdendo a vergonha, e evidenciando publicamente este lado sinistro de suas ideias nada aprazíveis. discurso.jpg Acuados e perdendo seus privilégios que por grande e longa duração de tempo mantiveram para disseminar uma falaciosa supremacia e superioridade enquanto indivíduos perante outros grupos sociais, o “cidadão de bem” perdeu a vergonha que nunca teve e agora destila seu discurso de ódio e violência publicamente. Facilitado pela rápida e fácil disseminação de ideias através da internet e suas redes sociais, além da conivência de uma mídia ainda pautada na busca irracional pela audiência, que segue diretrizes que convergem com os interesses defendidos dentro deste discurso de Ódio.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento

Na democracia o “cidadão de bem” pode ter este direito de possuir ideias nada benfazejas a uma convivência na sociedade mais equilibrada, coesa e justa. Vivemos em um país com um estado democrático, que acaba partindo desta prerrogativa de liberdade de pensamento que até mesmo é possivel e garantido por lei adotar um discurso contra a democracia e seus tramites para as decisões acerca do que é melhor para a nação como um todo. Mas neste contexto, é um tanto cômico nos depararmos em pessoas exigindo a volta de um regime totalitário numa democracia ser algo perfeitamente possível e sem nenhuma repressão, quando bem sabemos que fazer justamente o contrário sem que haja derramamento de sangue é ensinado pela história como uma utopia.