Este excerto de “A Peste”, de Albert Camus de 1947 parece que foi escrito hoje

A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes, entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem.

Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes.

Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranquilizar nossos concidadãos. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros, e o narrador pede desculpas. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita a respeito, mas a única justificativa é que houve enterros durante toda essa época e que, de certo modo, o obrigaram, como obrigaram a todos os nossos concidadãos, a preocupar-se com enterros.

Não é que ele goste desse tipo de cerimônias, preferindo, pelo contrário, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, os banhos de mar. Mas, afinal, os banhos de mar tinham sido suprimidos, e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos. Era a evidência. Na verdade era sempre possível esforçar-se por não vê-la, fechar os olhos e recusá-la, mas a evidência tem uma força terrível que acaba sempre vencendo.

Qual o meio, por exemplo, de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados? Pois bem, o que caracterizava no início , nossas cerimônias era a rapidez. Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida.

Os doentes morriam longe da família, e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão. (…)

Num extremo do cemitério, num local coberto de árvores, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitavam as conveniências, e foi só muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sem preocupações de decência, os homens e as mulheres.

Para todas essas operações era preciso pessoal, e este estava sempre prestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros oficiais, depois improvisados, morreram de peste. Por mais precauções que se tomassem, o contágio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o mais extraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durante todo o tempo da epidemia. (…)

Mas, a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, então seu próprio excesso provocou consequências bastante cômodas, pois ela desorganizou a vida econômica e suscitou assim um número considerável de desempregados. (…)

Sabia também que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança”.

Giorgio Armani, carta para o mundo da moda: “não quero mais trabalhar assim, precisamos desacelerar e acabar com o desperdício”

Giorgio Armani tem um estilo próprio e não apenas em suas roupas e coleções de moda. Em uma carta recente, abordando o mundo da moda, ele fez uma série de considerações muito importantes sobre o momento que estamos vivendo e sobre o futuro desse setor, que deve necessariamente passar por mudanças: “desacelerar” e tornar a moda mais ética e sustentável.

Na  emergência que o mundo está vivendo, Giorgio Armani se destacou várias vezes por uma série de ações. Antes de tudo, ele foi um dos primeiros a não subestimar a situação do coronavírus, tanto que decidiu apresentar sua nova coleção a portas fechadas em Milão. Depois se distinguiu por ter doado 1.250 milhões de euros à hospitais e finalmente por ter disponibilizado seus meios de produção e fábricas para confecção de vestidos descartáveis para médicos e enfermeiros.

A carta desse famoso estilista foi publicada no WWD Women’s Wear Daily, uma revista dedicada ao universo da moda, lida principalmente por profissionais dessa área. Nela, Armani fez algumas reflexões muito importantes sobre o momento presente, mas também a respeito do futuro desse setor, que após essa experiência, sem dúvida precisará mudar.

Na carta, Armani se coloca contrário à “moda rápida”, ou seja, à moda descartável, em constante mudança e sempre pronta, independentemente se está em consonância com as estações do ano, o clima, a natureza e o meio ambiente. Isso não é mais aceitável e ele a define como  imoral.

“O declínio do sistema da moda, como a conhecemos, começou quando o setor de luxo adotou os métodos operacionais de moda rápida com o ciclo de entrega contínuo, na esperança de vender mais… Não quero mais trabalhar assim, é imoral. Não faz sentido que minhas jaquetas ou roupas que ficam na loja por três semanas, tornem-se imediatamente obsoletas e sejam substituídas por novas mercadorias, que não são muito diferentes das que as precederam. Eu não trabalho assim, acho imoral fazê-lo.”

Ele ainda completa:

“Sempre acreditei em uma ideia de elegância atemporal, na criação de roupas que sugerem uma maneira única de comprá-las: que durará com o tempo. Pela mesma razão, acho absurdo que, durante o inverno, na boutique, tenha roupas de linho e durante o verão, casacos de alpaca, pelo simples motivo que o desejo de comprar seja estimulado de forma imediata.”

Isso não é tudo, Armani pede a seu setor que faça ações concretas, mude e desacelere:

“Esse sistema, impulsionado por lojas de departamento, tornou-se a mentalidade dominante. Errado, precisamos mudar, essa história deve terminar. Essa crise é uma oportunidade maravilhosa de desacelerar tudo, realinhar tudo, traçar um horizonte mais autêntico e verdadeiro. Sem espetacularização, sem mais desperdício. “

O estilista contou em primeira mão, o que está fazendo para fazer toda essa mudança:

“Há três semanas trabalho com minhas equipes para que, após o bloqueio, as coleções de verão permaneçam nas boutiques pelo menos até o início de setembro, como é natural. E assim faremos, a partir de agora.  Essa crise também é uma excelente oportunidade para restaurar o valor da autenticidade: chega da moda como um jogo de publicidade, com desfiles de moda em todo o mundo, com o único objetivo de apresentar ideias sem graça. Simplesmente para se divertir com programas grandiosos, que hoje se revelam inapropriados e vulgares, também. Muitos dos desfiles, em todo o mundo, são feitos envolvendo transportes poluentes; com desperdício de dinheiro para os shows (as fashion weeks), são apenas pinceladas de esmalte afixadas sobre o nada.

O momento que estamos passando é turbulento, mas nos oferece a oportunidade verdadeiramente única de corrigir o que está errado, remover o supérfluo, encontrar uma dimensão mais humana… Essa talvez seja a lição mais importante desta crise.”

E se Armani diz tudo isso, esperamos que muitos estilistas da moda façam o mesmo,  seja por identificação com suas ideias ou por inspiração e admiração por esse profissional.

Realmente, precisamos dessa mudança. Do jeito que estava, não dava para continuar. Isto é fato!

Sigamos com as mudanças necessárias, nosso planeta está precisando!

Covid-19 é um desastre para todos … exceto homens brancos heterossexuais?

Mesmo uma catástrofe global como o Covid-19 não desencorajou os empreendedores de identidade de continuarem chamando a atenção para sua causa. Em vez de se unirem em uma luta comum, eles procuram explorar o Covid-19 para seu próprio fim.

Houve um tempo em que um desastre mortal como a atual pandemia levaria interesses e partidos concorrentes a deixar suas diferenças de lado para apoiar um ao outro contra um inimigo comum. Não é assim que as coisas funcionam hoje. Muitos traficantes de identidade simplesmente não conseguem resistir à tentação de transformar a pandemia em uma plataforma para suas políticas.

Qualquer pessoa que esteja lendo os numerosos posts feministas reclamando que as mulheres estão sofrendo o impacto da pandemia imaginaria que os homens estão se divertindo muito durante o bloqueio. Segundo um relato, o coronavírus é um “desastre para o feminismo”.

Uma observação interessante, dado o fato de que as estatísticas indicam que os homens têm mais probabilidade de morrer com isso do que as mulheres. Numa época em que dezenas de milhares de seres humanos perderam a vida, o autor desta última observação alerta que “em todo o mundo, a independência das mulheres será uma vítima silenciosa da pandemia”.

Os defensores da política de identidade feminista se referem à pandemia como uma “crise de gênero” que, segundo o senador australiano Mehreen Faruqi, carrega um “risco desproporcional” para as mulheres. É improvável que pessoas como Faruqi usem o termo ‘crise de gênero’ se uma pandemia represente um risco “desproporcional” para os homens.

Previsivelmente, a pandemia não só foi de gênero, mas também racializada. Aparentemente, não são apenas as mulheres que estão sofrendo. “Se o coronavírus não discrimina, por que os negros estão sofrendo o impacto?”, Pergunta Afua Hirsch, comentarista do The Guardian.

A racialização da pandemia é particularmente prevalente nos Estados Unidos, onde ex-candidatas presidenciais Elizabeth Warren, Kamala Harris e Cory Booker exigiram que o Centro de Controle de Doenças investigasse os “preconceitos implícitos” dos médicos. A implicação transmitida pela declaração deles é que os fanáticos dos profissionais de saúde são de alguma forma responsáveis ​​por colocar os pacientes negros em desvantagem.

Na realidade, se a proporção de afro-americanos morrendo de Covid-19 é maior do que a de brancos, é por causa de suas terríveis circunstâncias econômicas, e não por qualquer viés entre a profissão médica. A sobreposição de grupos entre “negros” e “pobres” é uma realidade que não pode ser ignorada, mas agrupá-lo com “preconceitos” gerais para fazê-lo sobre raça é apenas desonesto.

A racialização da pandemia levou inevitavelmente a responsabilizar os brancos, particularmente o ‘privilégio masculino branco’, responsável pela trágica catástrofe que assombra o mundo. Escrevendo dessa maneira no Salon, um inimigo zangado de ‘eleitores brancos racistas’ afirma que “o privilégio dos homens brancos está literalmente deixando a América doente”!

Outros oponentes do privilégio branco temem que “o distanciamento social possa levar a um aumento no nacionalismo branco”. Como essa racialização da pandemia ganha maior impulso, é apenas uma questão de tempo até que o Covid-19 seja renomeado como Vírus Branco. Alguns já afirmam que “o homem branco é o maior risco de espalhar o vírus”. Segundo o autor desta declaração idiota, homens brancos idosos são um incômodo para a saúde pública.

Os ativistas trans também pularam na onda de ‘nós estamos aguentando o peso’. Uma manchete da VICE reclama “Enquanto os hospitais se preparam para o Covid-19, as cirurgias trans que salvam vidas estão atrasadas”. Embora reconheça que “as instalações médicas possam em breve ficar sobrecarregadas para todos”, lamenta que “o atendimento das pessoas trans possa ser tratado como ‘não essencial’”. Segundo uma fonte, a pandemia atual é “perigosa” para as pessoas LGBT que fazem isso. não mora em famílias “muito solidárias”. Perigoso para as pessoas LGBTQ? Caso escapou à atenção deste escritor, o coronavírus é perigoso para todos.

Se todos os diferentes relatos apresentados por diferentes grupos de empreendedores de identidade devem ser acreditados, com exceção dos homens heterossexuais brancos, quase todo mundo está sofrendo o impacto da pandemia.

Infelizmente, as obsessões de identidade impedem as pessoas de verem o cenário geral.

Ao longo da história humana, os desastres sempre tiveram um impacto diferencial nas comunidades. Mas essas diferenças não são baseadas em identidade, nem são motivadas por ela. O que importa é a disponibilidade e acesso a recursos necessários para sobreviver em uma crise, bem como as desvantagens físicas tangíveis que tornam menos provável a sobrevivência de uma infecção. É por isso que são os pobres e os idosos que sofrem o peso do Covid-19. A atual obsessão com a identidade distrai a atenção de prestar assistência especial àqueles que não apenas realmente precisam dela, mas também a merecem.

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 11

Como ler mais rapidamente

“Não há atalhos”, diz Elizabeth Schotter, professora assistente de psicologia da Universidade do Sul da Flórida, onde dirige o Laboratório de Movimentos Oculares e Cognição.

Crédito: Ilustração de Radio

Os adultos com formação universitária costumam ler entre 200 e 400 palavras por minuto (uma taxa de escuta confortável é de cerca de 150 palavras por minuto). Os leitores de velocidade mais rápida reivindicam até 30.000 palavras por minuto, momento em que a pesquisa sugere uma perda significativa de compreensão.

Pode ser bom ler um manual do usuário de uma impressora de escritório, mas não leia “Anna Karenina” e espere entender. “Nesta era moderna, sempre queremos fazer tudo mais rápido”, diz Schotter, cujo laboratório usa vídeo em alta velocidade para analisar os olhos dos leitores enquanto eles passam pelo texto. A obsessão pela leitura rápida dos EUA confunde Schotter; em média, as pessoas leem duas vezes mais rápido que podem ouvir confortavelmente. A leitura é visual e cognitivamente complicada; não há problema em reler uma linha porque é confuso ou, melhor ainda, permanecer em uma frase tão bonita que faça você querer fechar os olhos.

Você costuma ler mais rápido lendo mais. Uma das maiores influências no seu ritmo é o que os psicolinguistas chamam de efeito de frequência das palavras; quanto mais vezes você encontrar uma palavra, mais rápido a reconhecerá. Seus olhos se fixarão por mais tempo em palavras menos familiares, aumentando a probabilidade de você parar na “morada”, por exemplo, do que na “casa” mais comum.

Leitores hábeis começam a prever palavras e significados, mesmo em sua visão periférica embaçada, o que lhes permite pular mais palavras, especialmente as curtas. Os leitores pulam a palavra “the”, por exemplo, cerca de 50% do tempo. “Se você gastar todo o seu tempo lendo ‘Harry Potter’, ficará muito bom em ler ‘Harry Potter’ ‘”, diz Schotter, que sugere incluir uma ampla variedade de textos para expandir seu vocabulário.

Às vezes, você precisará reler uma palavra, uma frase ou até um parágrafo para entender seu significado. Os pesquisadores chamam essas regressões, e os leitores mais rápidos geralmente os fazem menos do que os leitores mais lentos. Alguma escrita é mais difícil de decodificar e prever e é mais provável que desencadeie regressões.Literatura,Poesia,Frases,Blog do Mesquita (2)

Entre os mais difíceis estão o que os psicolinguistas chamam de sentenças no caminho do jardim, como “As roupas de algodão são feitas de mudas no Mississippi”. Se a velocidade é seu objetivo, quanto mais clara a prosa, mais rápido você lerá. “Parte do fardo”, diz Schotter, “é do escritor”.

Comportamento,Tecologia,Censura,Opressão,Blog do Mesquita

Fremdschämen, a constrangedora ‘aula’ sobre nazismo dos brasileiros aos alemães

O termo alemão para “vergonha alheia” resume o que foi a enxurrada de críticas de internautas brasileiros a um vídeo da Embaixada alemã afirmando que nazismo é de direita

GETTY | EPV

Uma palavra sintetiza a aula sobre nazismo que um grupo de brasileiros tentou dar aos próprios alemães na Internet: fremdschämen (vergonha alheia). O que era para ser um vídeo sobre como se ensina a história do nazismo, publicado no Facebook pela Embaixada da Alemanha em Brasília e pelo Consulado Geral no Recife, se tornou um campo de guerra nas redes sociais.

De um lado, brasileiros que não acreditam no holocausto e garantem que o nazismo era uma ideologia de esquerda, contestavam a história divulgada pelo Governo alemão. Do outro, brasileiros envergonhados pediam desculpas pelos comentários exaltados. E no meio, a embaixada alemã tenta equilibrar os ânimos e corrigir os néscios: “O holocausto é um fato histórico, com provas e testemunhas que podem ser encontradas em muitos lugares da Europa”, publicou em resposta a um internauta que afirmou que  o “holofraude está com os dias contados”.

No vídeo institucional, a Alemanha explica que desde cedo as crianças são ensinadas confrontar os horrores do holocausto, como parte do pensamento de conhecer e preservar a história para não repeti-la. No país é crime negar o holocausto, exibir símbolos nazistas, fazer a saudação “Heil Hitler“. O vídeo deixa claro que o nazismo é uma ideologia da extrema direita. “Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas“, afirma no vídeo Heiko Mass, ministro das Relações Exteriores.

Muitos internautas contestaram o ministro: “Extremistas de direita? O partido de Hitler não se chamava Partido dos Trabalhadores Socialistas? Onde tem extrema direita?”, perguntou um internauta, em relação ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), que ficou ativo no país entre 1920 e 1945. O partido de Hitler misturava uma cultura paramilitar racista, populista, antissemita e anti-marxista, algo como “contra tudo o que está aí” e ” ou pelos verdadeiros alemães “de bem”.

Houve quem tentasse explicar onde estava o erro da embaixada: “Não é só pelo nome do partido. É uma concentração de poder no Estado. A esquerda (comunismo/socialismo) acredita em poder centralizado no governo para a construção de uma sociedade melhor. A direita acredita na descentralização desse poder, por isso advoga um poder maior ao indivíduo e não ao coletivo (…)”. Isto é, como Hitler centralizava o poder, logo, ele não poderia ser de direita, segundo esse internauta.

Enquanto alguns tentavam ver o lado positivo da iniciativa e marcavam amigos para tentar provar que o nazismo é, sim, de direita – “(…) se o Consulado alemão explicando que o nazismo é de extrema direita não te convencer, não sei o que mais poderá”, escreveu um internauta. Outros até ameaçaram a embaixada: “[Vocês] perderam uma enorme chance de ficar de boca fechada. Mas não se preocupem. Estou compartilhando este post na Alemanha. Vamos ver o que irão dizer!”

Damaris Jenner, responsável para assuntos de imprensa na embaixada, explica que a ideia era falar sobre como se ensina história na Alemanha. “Na semana em que pensamos em fazer esse vídeo, aconteceram as manifestações em Chemnitz e vários jornais brasileiros noticiaram”, diz ela. Os protestos foram realizados por militantes da extrema direita desde o final de agosto contra a morte de um alemão, supostamente esfaqueado por dois imigrantes, e que terminaram em atos de violência.

“Achamos que seria interessante ligar esses dois assuntos para mostrar essa discussão na Alemanha”, afirma Jenner. Mas a reação dos internautas surpreendeu. “Não imaginávamos que repercutiria dessa forma”, diz. “Nosso vídeos costumam ser bem assistidos, mas esse foi excepcional”. Até o fechamento desta reportagem, o vídeo tinha mais de 630.000 visualizações na página da embaixada. Jenner diz que, além da audiência alta, fez diferença o engajamento dos usuários. “Geralmente tem menos debate”, diz. Ela afirma que alguns comentários foram respondidos “de forma cordial” pela própria embaixada ou pelos consulados que replicaram o vídeo, mas que em muitos casos os próprios usuários responderam uns aos outros.

"Quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal"; "direitos humanos ao invés de humanos de direita" e "nós somos todos humanos", nos cartazes em protesto em Chemnitz, na Alemanha, no dia 3 de setembro.
“Quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal”; “direitos humanos ao invés de humanos de direita” e “nós somos todos humanos”, nos cartazes em protesto em Chemnitz, na Alemanha, no dia 3 de setembro. MATTHIAS RIETSCHEL (GETTY IMAGES)

Apesar da polêmica e de alguns comentários pouco cordiais de usuários, a embaixada não pretende retirar do ar a publicação. “Isso é um assunto importante em muitos países atualmente”, diz Jenner, sobre a temática levantada pelo vídeo. “Mas as reações daqui são devido a situação política do Brasil”, afirma. Desde as jornadas de junho de 2013, o país vive um clima acirrado de polarização política. Grupos alinhados ao pensamento da direita se uniram em torno do impeachment da petista Dilma Rousseff. Enquanto grupos de esquerda acusavam os adversários de golpe. Neste cenário, a defesa falaciosa de que o nazismo seria um movimento de esquerda se tornou comum entre militantes da direita nas redes sociais.

Na escola, os alemães começam a aprender sobre o nazismo quando têm  entre 13 anos e 15 anos. E no Brasil também. “Os alunos da rede pública estudam este tema em História em dois momentos do ciclo básico: no nono ano do ciclo fundamental e no terceiro ano do ensino médio”, afirma o professor de história da rede pública de São Paulo Danilo Oliveira. A diferença é que, enquanto na Alemanha a história do Terceiro Reich está nas ruas, no turismo e nas memórias das famílias, no Brasil, as lembranças do passado de influência nazista vão sendo apagadas pelo desinteresse sobre o tema.

É o que aconteceu com a Fazenda Cruzeiro do Sul, em Paranapanema, interior do Estado, onde funcionou na década de 1930 uma colônia nazista. A história da fazenda ganhou destaque a partir do trabalho do historiador Sydney Aguilar que descobriu como 50 meninos órfãos do Rio de Janeiro foram escravizados por dez anos a ponto de terem sido privados até mesmo de seu nome, eles só ganhavam números. Essa história foi contada no filme Menino 23, lançado em 2016. O prédio da sede, construído com tijolos com o desenho da suástica, já não existe mais. O proprietário começou a demolir a estrutura em 2012, e terminou em 2016. E só restou à Procuradoria Geral do Estado processar o dono.

O professor Oliveira admite que o nível de informação dos brasileiros sobre grandes temas da humanidade, como o nazismo, pode piorar nos próximos anos. Isso porque a diferença entre as ideologias de direita e esquerda são mais aprofundadas nas disciplinas de história e sociologia no ensino médio, que deixarão de ser obrigatórias se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para esta etapa de estudos for aprovada. Por enquanto, como disse um internauta, “brasileiros questionando a embaixada alemã sobre nazismo é 8 a 1 para Alemanha”. Mas pelo andar das coisas, esse placar ainda tem potencial para crescer muito.
ElPais

Design,Moda,Comportamento,Roupas,Vestuário,História,BlogdoMesquita

Negligenciadas e subvalorizadas: roupas íntimas na Idade Média

Por Madeleine Colvin

Apesar de ser uma das roupas mais importantes, a roupa íntima é a parte de roupas medievais que é frequentemente ignorada e inexplorada na ficção histórica e no figurino. Os trajes modernos e a moda parecem ter um fascínio pelos espartilhos e crinolinas da era vitoriana, mas têm pouco interesse no que veio antes. O que podemos dizer sobre esse elemento da moda, que tem sido negligenciado por muito tempo?

Embora os espartilhos possam estar relacionados a roupas de baixo modernas, como “spanx” e outras engenhocas de treinamento da cintura e modelagem do corpo, e quanto às roupas íntimas anteriores, elas são totalmente ignoráveis? E as roupas de baixo dos homens? Este artigo é uma breve visão geral de como era a cueca na Idade Média e como ela se compara ao que provavelmente usaremos hoje. Embora as roupas íntimas modernas pareçam estar em busca de diminuir e ficar menos visíveis a cada ano, na verdade ela teve grandes começos!

As roupas de baixo vitorianas e a silhueta com espartilho costumam ser o que vem à mente quando alguém pensa em roupas íntimas históricas … “Catálogo de moda ilustrado: verão de 1890” por Internet Archive Book Images, via Wikimedia Commons

A roupa de baixo dos homens é muito mais prevalente nas fontes históricas da arte do que a das mulheres, possivelmente porque a idéia de um homem sem roupa era considerada humorística em oposição à obscena. Havia dois itens comuns de roupas íntimas na idade média: braies e sob túnicas. Se quisermos pensar no que os homens vestem hoje em dia, eles podem ser comparados às camisetas e boxers modernas.

Um undertunic do estilo do século XIV dobrado em braies. Braies medievais para homens de ArmStreet.

As roupas de baixo e as camisas dos homens modernos geralmente são feitas de uma mistura de algodão ou algodão / poliéster e são elásticas para permitir que elas se ajustem à forma do corpo e não sejam visíveis sob a roupa exterior. As roupas íntimas medievais eram um pouco diferentes – embora elas não fossem visíveis, não era um insulto parecer espreitando em lugares que suas roupas externas não cobrem. As túnicas eram longas e onduladas, às vezes até o chão ou o joelho, dependendo do comprimento das roupas externas. Geralmente, as túnicas eram geralmente colocadas nas roupas íntimas de um homem.

Na Idade Média, calças como as conhecemos hoje não estavam na moda.  As interpretações modernas de trajes costumam considerar as calças da Idade Média como “calças justas”, mas na verdade eram feitas de duas peças de tecido separadas e não se tornaram um item singular que se assemelha a “calças” até o final do século XV. Em vez disso, os homens usavam meias compridas e ajustadas que iam dos pés aos quadris e criavam uma aparência geral semelhante às calças justas. Eles estavam amarrados na cintura para amarrar as cuecas (roupas íntimas) ou a um cinto de pano separado, usado sob as roupas. Devido à natureza dessas “calças”, os braiestinha alguns desenhos diferentes, variando de cuecas boxer curtas e semelhantes a longas e penduradas frouxamente sob o joelho em montes ondulados de tecido. Alguns dos exemplos mais famosos podem ser encontrados na Bíblia Maciejowski (Bíblia Morgan), que apresenta um número de homens sem roupa, dando-nos uma maior compreensão do que o homem comum na idade média usaria sob sua roupa.

Homens em um pátio vestindo Braies medievais, da Bíblia Maciejowski

Então, a roupa íntima masculina era um pouco mais volumosa, mas não tão diferente da atual. O que aconteceu antes para as mulheres, antes da cintura apertada e das roupas íntimas estruturadas? É uma resposta bastante simples: gloriosa falta de forma. Nos dias de hoje, a mulher pode optar por atingir sua figura preferida através de roupas íntimas ajustadas, mas as roupas íntimas iniciais eram mais propensas a ser apenas um vestido de linho folgado. As imagens de referência de mulheres em roupas íntimas na Idade Média são poucas (é mais provável que sejam retratadas como completamente nuas ou totalmente vestidas), mas esse vestido largo é o mais comumente observado. Essa peça era frequentemente chamada de “bata” ou “camisa” e era a roupa mais comum para mulheres há mais de 500 anos, desde o início do período medieval até o Renascimento.

Uma reconstrução moderna de uma camisa do século XIV pelo fabricante de roupas ArmStreet.

Alguns designs e materiais diferentes podem ser observados com a camisa, sendo o material mais comum o linho. Os civis mais pobres podem usar roupas de baixo feitas de tecido de cânhamo, enquanto as mulheres nobres são conhecidas por usar avental de seda. As roupas de baixo sempre foram descritas em manuscritos como sendo brancas ou esbranquiçadas, feitas de tecido opaco ou de material mais transparente e transparente (que provavelmente era de linho ou seda muito, muito fino). Alguns vestidos, como os usados ​​pelo coloquialmente conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” na Bíblia Wenceslas, usam vestidos com cintas de espaguete com um torso mais ajustado que parece fornecer algum suporte comparável ao sutiã moderno.

O conhecido “Bohemian Bathhouse Babes” da Bíblia de Wenceslaus IV

Com roupas tão folgadas, é fácil supor que a moda do dia deve ter sido de silhuetas semelhantes, mas esse não foi o caso! Particularmente nos séculos XIV e XV, a moda parecia favorecer o ajuste apertado sobre os vestidos de lã de seda, exibindo um peito apertado e cintura justa, brilhando em uma saia reta e cheia. Um exemplo pode ser retirado do Livro da Cidade das Senhoras (1405), onde podemos ver mulheres usando vestidos lisonjeiros e contornados.

O Livro da Cidade das Senhoras – século XV

Você também pode estar se perguntando o que as mulheres fizeram por roupas íntimas na parte inferior do corpo. A resposta para isso é… ninguém sabe! Não há fontes históricas confiáveis ​​sobre o assunto, e é uma conclusão comum que as mulheres não usavam cuecas de nenhuma variedade. Se o fizeram, podemos assumir que eles eram semelhantes aos dos homens, parecendo pequenos shorts. Os pesquisadores tendem a discordar sobre esse assunto, e atualmente não há resposta definitiva para essa pergunta.

Nos tempos modernos, pode parecer contraproducente usar uma camisa solta e ondulada sob uma roupa apertada, mas a roupa de baixo era usada para mais do que apenas apoio na Idade Média. Também fornecia uma camada extra vital de calor e protegia a pele sensível das roupas externas de lã com coceira. Também protegeu roupas caras do suor e de outros desgastes, prolongando sua vida útil e exigindo muito menos lavagem, o que era especialmente importante em materiais delicados, como a seda.

Toda vez que fazemos uma descoberta histórica, aprendemos cada vez mais sobre a vida cotidiana na Idade Média. Há apenas alguns anos, descobrimos uma série de roupas íntimas do século XV que se assemelham a sutiãs , mudando completamente nossa perspectiva sobre roupas íntimas históricas. Assuntos domésticos, como roupas íntimas, podem parecer banais, mas entender coisas assim ajuda a aprofundar nosso conhecimento do passado e a entender quem nos tornamos hoje. É fácil esquecer que os itens que são frequentemente negligenciados e subvalorizados são os mais essenciais.

Refletindo sobre tudo, fica claro que o verdadeiro uso utilitário de roupas íntimas realmente não mudou muito nos últimos 700 anos. No entanto, não se pode deixar de notar que, enquanto as roupas íntimas medievais eram largas e largas, as roupas íntimas modernas parecem estar ficando cada vez menores. Sem mencionar que roupas íntimas e tiras parecem ter saído de moda há alguns anos, reservadas para serem usadas apenas com o mais puro dos vestidos. Há muito a dizer sobre a diferença nos padrões de beleza da Idade Média até hoje – mas talvez eu guarde isso em outro momento. Espero que este artigo tenha trazido alguma clareza à questão da roupa íntima e tenha despertado interesse no que normalmente permanece oculto – depois de tudo isso, é apenas uma breve visão geral, há muito mais a ser descoberto!

Nossos agradecimentos a Madeleine Colvin e Mykhaylo “Miha” Skorobogatov, da ArmStreet, por este artigo. A ArmStreet é uma empresa internacional com escritórios nos EUA, Austrália e Ucrânia. Sediada em Milwaukee, WI, EUA, foi fundada como uma cooperativa de vários mestres e designers de jogos LARP, e agora é líder mundial em trajes medievais de alta qualidade. Clique aqui para visitar o site deles . Você também pode gostar deles no Facebook ou segui-los no Twitter @armstreet .v

Miséria,Pobreza,Direitos Humanos,Blog do Mesquita 01

NY exporta sem-tetos

Nova York gasta 89 milhões de dólares para ‘exportar’ sem-teto para o resto dos EUA. Programa da prefeitura da maior cidade do país envia milhares de famílias a outras localidades

Uma pessoa sem-teto nas ruas de Nova York.
Uma pessoa sem-teto nas ruas de Nova York. S. PLATT (GETTY)

Quando tomou posse como prefeito de Nova York, Bill de Blasio prometeu acabar com a desigualdade que dividia a cidade entre pobres e ricos. Para isso estabeleceu como prioridade combater a crise do aumento do número de pessoas em situação de rua na maior metrópole dos Estados Unidos. Quase seis anos depois, o democrata é criticado por outros prefeitos por um programa que lhe permitiu exportar milhares de famílias sem lar para outras localidades de todo o país.

O polêmico programa chamado Assistência Especial Única (SOTA, na sigla em inglês) está subordinado ao Departamento de Serviços a Pessoas sem-teto (DHS). De acordo com a informação revelada pela imprensa local, a cidade destinou 89 milhões de dólares (363,5 milhões de reais) para cobrir o transporte, o aluguel de um ano e os móveis de 12.482 pessoas que se mudaram da cidade. Isso equivale a 5.070 famílias desde que o programa foi lançado, em agosto de 2017.

A cidade os espalhou por mais de 370 localidades em 32 Estados, incluídos territórios remotos como Porto Rico e Havaí. As autoridades de Nova York nunca informaram às cidades de acolhida sobre o estado financeiro dos novos residentes. A realocação é feita, além disso, sem que o beneficiário tenha que demonstrar qualquer vínculo com a comunidade de destino.

Newark, no outro lado do rio Hudson, em Nova Jersey, identificou 1.200 famílias que fazem parte deste programa. Agora se dispõe a adotar uma ordem municipal para proibir que sua vizinha continue lhe enviando sem-teto através do SOTA. André Wallace, prefeito de Mount Vermont, no condado de Westchester, também exige que Bill de Blasio se encarregue das pessoas que lhe enviou.

A Coalizão para as pessoas em situação de rua quantifica em 63.840 os indivíduos nessa situação na cidade de Nova York, numa contagem feita sempre nos meses de janeiro. As cifras, segundo a organização, não pararam de crescer desde que De Blasio assumiu. No caso dos homens adultos, o número duplicou durante os últimos 10 anos, superando os 18.000. As famílias passaram de 9.600 para 15.000 nesse período.

Legalidade duvidosa

Algumas das pessoas atendidas pelo programa foram parar em Honolulu, no Havaí, a quase 5.000 quilômetros de Nova York. O democrata John Mizuno, que preside o comitê de Saúde Pública do Senado havaiano, escreveu ao secretário de Justiça dos EUA pedindo que revise a legalidade da política adotada por Nova York. Considera que o programa “não garante a segurança, o bem-estar e o apoio que necessitam” essas pessoas deslocadas. “É uma receita para o desastre”, afirma. O Havaí conta com um programa semelhante.

As autoridades de Irvington, em Nova Jersey, lamentam por sua vez a falta de coordenação e supervisão. Tony Vauss, seu prefeito, insiste em que as pessoas sem casa são “cidadãos vulneráveis” que precisam de atenção permanente. Quando a ajuda desaparece, são os lugares de acolhida que precisam se encarregar deles. Como a prefeita de Torrington, em Connecticut, que ficou sabendo do programa nova-iorquino pela imprensa.

A gravidade da crise, diz a coalizão, “não é uma surpresa”. Pode-se comprová-la passando em frente ao albergue masculino administrado pela ONG Basic Housing no bairro do Upper West Side. É um fervedouro de gente que entra e sai do prédio. Há alguns anos, ali havia apartamentos para aluguel turístico, que foram incorporados ao sistema para responder ao aumento da população de pessoas “sem-teto”.

Os especialistas do Manhattan Institute dizem que o programa reflete o “desespero” por tratar de reduzir o censo das pessoas em situação de ria. E embora levá-los a outras cidades com moradia mais barata possa ser útil, a Coalizão de Pessoas Sem-Teto adverte que não se trata de uma opção realista para pessoas que não puderem ser autossuficientes quando o subsídio expirar.

Economia para o contribuinte

“É injusto que a maior cidade dos EUA aborde o problema das pessoas sem-teto enviando-as a outras comunidades sem avisá-las”, lamenta o prefeito de Yonkers, Mike Spano. Essa localidade nos subúrbios de Nova York já recebeu mais de 130 famílias, embora nunca tenha tido uma notificação oficial. A solução, concordam os prefeitos, não é enviar essas pessoas a outras cidades.

O DHS nega estar “exportando” as famílias e insiste em que o programa foi concebido para ajudar os beneficiários a encontrarem uma moradia onde possam iniciar uma nova vida. Para justificá-lo, explica que acolher os sem-teto nos albergues municipais custa até 70.000 dólares (285.880 reais) para uma família com filhos, enquanto que pagar-lhes um aluguel em outra cidade ronda os 17.500 dólares (71.470 reais).

O argumento da economia para o contribuinte, entretanto, é questionável, e não só porque se transfere o custo a outras cidades. Comprovou-se que 35% dos beneficiários do programa de assistência se mudaram para dentro dos limites da área metropolitana, onde os aluguéis são mais altos. E muitos, além disso, acabam voltando em poucos meses aos albergues de Nova York, por causa das más condições das suas moradias.

O Senado do Estado de Nova York está investigando o programa de assistência por causa dos numerosos protestos dos prefeitos. A própria Prefeitura, depois de detectar “vulnerabilidades severas” em sua execução e nas responsabilidades assumidas pelos proprietários dos imóveis de acolhida, também está analisando a questão.

A Era dos Coletivos de Solidão

Solidão,BlogdoMesquita 03

A dominação social deste século só sobreviverá se criar novos sujeitos. Sociedades, onde os diferentes se relacionam, precisam ser reduzidas a massas inertes de indivíduos-dados. Esta distopia é, também, o calcanhar de aquiles do projeto. A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está assumindo a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjetividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida

É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico, tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa.

Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autônomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autônomos. A autonomia da auto-escravatura.

O objetivo deste modelo civilizacional é substituir o conceito de responsabilidade social pelo conceito de culpa. Os problemas que isso pode suscitar não são problemas políticos. São problemas de polícia ou de terapia. Estamos às portas de uma era não relacional em que os atributos que definem grupos de população são naturalizados e separados entre si de modo a não ser visível a relação que há entre eles. Criam-se assim segregações que não se tomam como tal e antes parecem o resultado natural de diferenças que não suscitam outro sentimento que não o da indiferença. Assim, diferenças e hierarquias, que até há pouco eram consideradas chocantes e revoltantes, tendem hoje a ser percebidas como triviais e até aceitáveis porque expressão de características inatas em relação às quais a sociedade pouco pode fazer. Por exemplo, a concentração da riqueza aumentou escandalosamente nas últimas quatro décadas e a ostentação da riqueza convive indiferentemente com a mais abjeta pobreza. Por sua vez, as discriminações por motivos raciais, sexuais, religiosos ou outros ganham crescente aceitação entre públicos insensíveis às lutas dos movimentos anti-racistas, anti-sexistas, anti-homofóbicos, anti-fundamentalistas, os mesmos públicos que estão sempre disponíveis para ignorar ativamente as conquistas contra a discriminação que esses movimentos têm obtido. Assim, quem é rico merece ser rico porque tem as qualidades para o ser, tal como quem é pobre merece ser pobre por não ter as qualidades necessárias para deixar de o ser. Na construção deste modelo civilizatório estão envolvidos vários processos. Muitos dos quais parecem nada ter a ver com ele.

1. Do conhecimento à informação. O novo modelo civilizatório assenta na produção aparentemente ilimitada de informação e na confusão entre informação e conhecimento. É cada vez mais comum a ideia de que vivemos numa sociedade de informação. A abundância de informação não é um bem incondicional. Lembremos que em caso de inundação o recurso mais escasso é água potável. Semelhantemente, vivemos hoje inundados por informação, mas carecemos cada vez mais de informação potável, isto é, confiável. Por outro lado, informação não é conhecimento (qualquer que seja o tipo de conhecimento). A informação fornece dados, enquanto o conhecimento visa compreender ou explicar a origem, o significado e as implicações dos dados. A informação é o presente simultaneamente eterno e efêmero, enquanto o conhecimento é a ponte entre o passado, o presente e o futuro. Estas diferenças tornam-se cada vez menos evidentes quando, para sonho de uns e pesadelo de outros, parece próximo o tempo em que um supercomputador desvendará o segredo da vida e do universo ao prever a estrutura tridimensional das proteínas em todas as suas (infinitas) sequências. E, não por acaso, a mais poderosa biomáquina, um ícone exemplar da inteligência artificial, chama-se Mente Profunda (deep mind) e os seus processos designam-se como tecnologia de aprendizagem profunda. A verdade é que, mesmo que tal seja possível, a máquina nunca poderá explicar ou entender os resultados a que chegar. Mas para o novo modelo civilizatório o significado dos dados está cada vez mais reduzido à utilidade econômica que eles possam ter para quem os detenha.

2. Das relações sociais aos dados. A confusão entre conhecimento e informação é fundamental para ocultar ou trivializar as relações sociais e as desigualdades de poder que estão por detrás dos dados. As formas de dominação modernas reproduzem-se por via da extração de recursos assente em relações de poder desigual que tornam possíveis decisões unilaterais e a apropriação indevida de valor. Historicamente, essa extração teve duas formas principais: os recursos naturais (a exploração da natureza) e os recursos humanos (de que o trabalho escravo é a forma mais brutal). Hoje, a estas duas formas juntam-se uma terceira: a extração de dados. Esta extração é cada vez mais massiva em função da imensa agregação de dados tornada possível pelas novas tecnologias de informação e comunicação, os big data. Aliás, a obtenção destes dados tem a mesma designação que o extrativismo mineiro: escavação de dados (data digging). O próprio termo “dados” contém em si toda a ambivalência da armadilha digital. Os dados são efetivamente roubados; mas, depois de manipulados e vendidos a utilizadores comerciais ou políticos, são devolvidos ao público como sendo oferecidos e, de fato, propriedade comum. O país com o maior número de utilizadores do facebook é a Índia, mas os centros de dados obtidos por este meio estão localizados nos EUA, na Europa e em Singapura. A apropriação do valor dos dados está concentrada numa empresa, mas quem é que se sente ao serviço de uma empresa quando o uso, a entrada e a saída da empresa são livres?

A manipulação destes dados por parte das grandes empresas de comunicação eletrônica é a grande responsável pela progressiva substituição das relações sociais pelos dados enquanto explicação, fundamento, sentido e valorização da vida coletiva. Os dados são obtidos por instrumentos tecnológicos cujos parâmetros e critérios não são do domínio público por estarem protegidos por patentes. Esta opacidade é a condição essencial da suposta transparência dos dados e, portanto, da sua utilização aparentemente neutra. A sociedade métrica em que estamos a entrar visa transformar o caráter relacional da vida social em desempenhos individuais quantificados e sem outra relação entre si senão as diferenças numéricas e as agregações que são feitas a partir delas. Tudo o que não é quantificável é desqualificado mesmo que seja a felicidade ou sentido da vida e da morte.

3. Da política à polícia e à terapia. As relações sociais e as desigualdades de poder que podem explicar os dados deixam de ser visíveis e relevantes enquanto causas. São tratadas quando muito como consequências. Os conflitos que fatalmente geram são despolitizados. Passam a ser assunto de polícia e nisso consiste a criminalização crescente do protesto social. Em alternativa, são temas para terapia contra a depressão, a alienação, a fadiga crônica, o impulso suicidário. A terapia permite que indivíduos solitários não se sintam sós. Fazem parte de comunidades imaginadas de consumidores de ansiolíticos, de álcool, de drogas, de medicinas alternativas, de academias de prontidão física, de meditação. São coletivos de partilha de destino sem esperança ou cuja esperança reside em perder o medo de viver sem ela.

4. Das redes à solidão coletiva. Os big data não visam individualmente os indivíduos (passe o pleonasmo); visam coletivos homogêneos de indivíduos, organizados invisivelmente segundo os seus gostos de consumo, de política ou de religião. Desta forma, os big data permitem combinar a máxima personalização com a máxima massificação. Os indivíduos, longe se sentirem sós ou isolados, sentem-se auto-escolhidos por grupos mais ou menos vastos com quem não têm outras relações senão as que a internet permite. As redes sociais são a expressão mais acabada da nova solidão, a pertença superficial, seletiva, isenta de compromissos extra-comunicacionais a colecivos cada vez mais organizados pelo mercado comercial, político ou religioso dos big data. Claro que as redes sociais também permitem intensificar a comunicação que começou por ser física e presencial, mas do ponto de vista dos big data a única dimensão comunicacional que conta é a digital. E é mesmo crucial que entre o indivíduo massivamente personalizado e o objeto de consumo não existam intermediários. O indivíduo tem à sua disposição um mundo que considera feito por si, apesar de ter sido feito por outros, e que pensa ser seu, apesar de ser propriedade, muitas vezes patenteada, de outros.

5. Do pensamento crítico à peritagem. O estudo crítico, livre e independente das assimetrias sociais não é bem-vindo neste mundo da sociedade métrica. Os dados são “tratados” por especialistas que aparentemente não têm nenhuma lealdade ou preferência senão a que se espelha nos dados. São considerados objetivos por serem tidos por neutros e não por serem conhecidos os critérios e os métodos que mobilizam as suas análises. Enquanto no caso do liberalismo científico a neutralidade (que, de fato, nunca existiu) era o resultado da aplicação de metodologias que garantiam a objetividade, na ação dos especialistas a objetividade é o resultado da suposta neutralidade. O especialista é o juiz sempre parcial na farsa da imparcialidade da era não-relacional.

Este tipo de especialização é um híbrido entre informação e conhecimento, e traduz-se em análises e relatórios preparados por encomenda de quem tem interesse em que os dados sustentem certas conclusões, e não outras. Este híbrido dificilmente pode ser produzido nas universidades e centros de investigação, pelo menos enquanto umas e outros se pautarem pelo princípio de que o valor do conhecimento nunca é redutível ao valor de mercado que possa ter ou não ter. Não admira, pois, que a ação dos especialistas seja cada vez mais um monopólio de empresas de consultoria. Estas empresas nunca podem oferecer conclusões desconfortantes para os clientes e nunca podem prever os piores cenários sob pena de os seus próprios acionistas as desertarem. Foi por isso que nenhuma dela previu a crise financeira de 2008 nem preverá qualquer crise futura. Na era dos coletivos de solidão, a consultoria é a voz dos poderes que criam os coletivos e o silenciamento dos indivíduos coletivamente solitários.
por Boaventura de Sousa Santos

Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 05

A Alta Idade da Mediocridade e a cruzada contra a racionalidade

Comportamento,Blog do mesquitaUm fantasma ronda o Brasil – o fantasma da racionalidade. Todas as potências da velha mediocridade unem-se numa aliança para conjurá-lo: a grande mídia e seus “soldados” reprodutores e propagadores de suas ideologias, sobretudo, os “filósofos de facebook” e suas diversas variações de “patente”.
No período atual, por alguns chamados de “Alta Idade da Mediocridade”, contemplamos uma nova Cruzada; agora contra a racionalidade. Há
um ataque sistemático a discussões racionais. Um argumento racional postado no facebook, por exemplo, é logo atacado por frases prontas construídas por informações que não se sabe a fonte. Se cobrares a fonte de tais informações será identificado em poucos segundos como herege, pois onde já se viu querer discutir um assunto de natureza social, política ou econômica, por exemplo, a partir de dados confiáveis! É o segundo pecado capital! O primeiro é não reproduzir e levar à frente as informações medíocre que se espalham pelas redes sociais, sobretudo as imagens simplificadoras da “realidade”.

A regra é ser medíocre. Está determinado pelas formas celestiais que não se deve sair da média das ideias. A ordem é ser mediano. Informado exclusivamente pela grande mídia; pois, medíocre que se preze é aquele que nunca leu um livro sobre o assunto, mas que possui muitas considerações sobre ele, além de ter um repertório (reduzido, é verdade) de “adjetivos esteriotipados” para usar nos “debates”.

Exigir nas redes sociais fontes confiáveis em um debate sobre política ou economia tornou-se um grande pecado nesses dias; com direito a ser queimado em um fogueira. “Filósofos, Sociólogos, Cientistas Políticos do facebook” uní-vos! Queimem todos os livros acadêmicos e sua pecaminosas universidades. Não falem (muito menos escrevam) a palavra “embasamento”, esta atrai demônios do passado. Não esqueçam de assassinar exemplarmente em praça pública os professores hereges… sobretudos os que tiverem gravados o símbolo da besta disfarçado de titulação. E comece a inquisição…

Referências Bibliográficas:
Obs: fontes não mencionadas por medo de ser interpretado como herege.
Leia também: “A Alta Idade da Mediocridade e a cruzada contra a racionalidade II: As redes sociais como tribunal da mediocridade”

Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

É possível ser anônimo na era da internet?

Professor do Oxford Internet Institute diz que hoje temos mais aparelhos tecnológicos com sensores para captar dados sobre nós.

Ilustração que mostra uma mulher ao lado de uma arte gráfica baseada em códigos binários de informática

“No futuro, todo mundo terá seus 15 minutos de anonimato.” É o que disse o artista Banksy. Mas com tudo online, de status de relacionamento a destinos de férias, é mesmo possível ser anônimo – mesmo que brevemente – na era da internet?

Esse dizer, uma brincadeira com a famosa frase de Andy Warhol dos “15 minutos de fama”, foi interpretada de várias formas por fãs e críticos. Mas sublinha a real dificuldade de manter algo privado no século 21.

“Hoje, nós temos mais aparelhos digitais do que nunca, e eles possuem mais sensores para captar mais dados nossos”, diz Viktor Mayer-Schoenberger, professor do Oxford Internet Institute.

E isso importa. De acordo com uma pesquisa da empresa de recrutamento Careerbuilder, nos Estados Unidos, no ano passado, 70% das empresas usaram as redes sociais para analisar candidatos a vagas, e 48% checaram a atividade dos funcionários nas redes sociais.

Instituições financeiras também checam perfis em redes sociais quando decidem se dão empréstimos ou não.

Uma TV rosa com o logo: "No futuro, todo mundo será anônimo por 15 minutos", do show de Banksy, Los Angeles, 2006
É mesmo possível ser anônimo na era da internet?

Outras empresas, por sua vez, estão criando modelos com hábitos de compras, visões políticas e usam, inclusive, inteligência artificial para prever hábitos futuros com base em perfis de redes sociais.

Uma maneira de tentar obter controle é deletando redes sociais, o que algumas pessoas fizeram depois do escândalo da empresa Cambridge Analytica, quando 87 milhões de pessoas tiveram seus dados usados secretamente para campanhas políticas.

Mas, ainda que deletar contas em redes sociais seja a maneira mais óbvia para remover informações pessoais, isso não terá impacto nos dados guardados por outras empresas.

Felizmente, alguns países oferecem proteção.

O Brasil tem o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, e a Lei Geral de Proteção de Dados, aprovada em 2018. A lei, que entrará em vigor em 2020, proíbe o uso indiscriminado de dados pessoais. Além disso, garante aos cidadão o direito de saberem como e para o que as suas informações serão usadas.

A União Europeia tem sua versão: o GDPR, que regula a proteção dos dados, e inclui o “direito de ser esquecido” – basicamente, que um indivíduo tem o direito de ter informações pessoais removidas de onde quiser.

No ano passado, houve 541 pedidos de que informações fossem removidas no Reino Unido, segundo apuração da BBC, ante 425 do ano anterior e 303 em 2016-17. Os números reais podem ser mais altos, já que o Information Commissioner’s Office (Departamento de Informação) só se envolve depois que uma reclamação inicial à empresa que guarda os dados é rejeitada.

Mas Suzanne Gordon, do Departamento de Informação, diz que isso não é necessariamente objetivo: “O GDPR fortaleceu os direitos das pessoas de pedirem que organizações deletem seus dados se acreditam que não são necessários. Mas o direito não é absoluto e em alguns casos deve ser balanceado contra outros direitos e interesses competidores, como, por exemplo, a liberdade de expressão.”

O “direito de ser esquecido” ficou notório em 2014 e levou a vários pedidos de que informações fossem removidas – um ex-político que procurava a reeleição e um pedófilo são alguns exemplos –, mas nem todos foram aceitos.

Empresas e indivíduos que tenham dinheiro para tal podem contratar especialistas para ajudá-los.

Uma indústria inteira está sendo construída ao redor da “defesa de reputação” com empresas desenvolvendo tecnologia para remover informação – por um preço – e enterrar notícias ruins de mecanismos de busca, por exemplo.

Uma empresa, Reputation Defender (“defensora da reputação”), fundada em 2006, diz que tem um milhão de clientes, como profissionais e executivos. Ela cobra cerca de 5.000 libras (cerca de R$ 25 mil) pelo pacote básico.

Ela utiliza seu próprio software para alterar os resultados do Google sobre seus clientes, ajudando a colocar as notícias ou textos menos favoráveis mais para o fim dos resultados e promovendo as histórias favoráveis no lugar.

Imagem de um homem com o logotipo do Google refletido várias vezes em seu rostoDireito de imagem GETTY IMAGES
Empresas de defesa de reputação querem remover informações pessoais de bancos de dados e sites

“A tecnologia foca no que o Google vê como importante quando indexa sites no topo ou na parte de baixo dos resultados de busca”, diz Tony McChrystal, diretor da empresa.

Geralmente, as duas maiores áreas que o Google prioriza são credibilidade e autoridade que a página tem, e quantos usuários se engajam com os resultados de busca e o caminho que o Google vê que cada usuário único segue.

“Trabalhamos para mostrar ao Google que um maior volume de interesse e atividade estão ocorrendo nos sites que queremos promover, sejam sites novos que criamos ou sites estabelecidos que já aparecem nos resultados das buscas, enquanto sites que queremos suprimir mostram um percentual mais baixo de interesse.”

A empresa diz que atinge seu objetivo em 12 meses.

“É impressionantemente efetivo”, ele diz, “já que 92% das pessoas não navegam depois da primeira página de resultados do Google e mais de 99% não passam da segunda página”.

Mayer-Schoenberger, de Oxford, aponta que, enquanto empresas de defesa de reputação possam ser efetivas, “é difícil entender por que só pessoas ricas podem ter acesso a isso, e por qual razão isso não pode beneficiar todo mundo”.

Um membro da equipe do British Museum faz os ajustes finais para uma seleção de uma obra de Andy Warhol, em fevereiro de 2017Direito de imagem GETTY IMAGES
Andy Warhol previu uma vez que todo mundo teria 15 minutos de fama

Então, será que podemos nos livrar de todos nossos rastros online?

“Se formos responder de uma maneira simples, não”, diz Rob Shavell, cofundador e chefe executivo do DeleteMe, um serviço de assinatura que remove dados pessoais de bancos de dados públicos, corretoras de dados e sites de busca.

“Você não pode se apagar completamente da internet a não ser que algumas empresas e indivíduos que operem serviços de internet sejam forçados a mudarem fundamentalmente como eles operam”, afirma.

“Estabelecer regulamentações fortes para permitir que consumidores tenham autonomia para decidir como sua informação pessoal pode ser recolhida, compartilhada e vendida já é um bom caminho para encarar o desequilíbrio de privacidade que temos agora.”