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Por que cidades precisam mais do que nunca de árvores

Megacidades como Paris e Londres têm projetos ambiciosos para se tornarem mais verdes. Algo indispensável, segundo ecologistas, para frear os efeitos das mudanças climáticas nas cada vez mais populosas áreas urbanas.    

Pessoas caminham em parque de ParisParis construirá quatro florestas urbanas dentro da cidade ao longo de 2020

Não muito tempo atrás, muita gente não tinha certeza se as árvores deveriam ter um lugar nas cidades. Pedestres, carros, casas e prédios compunham áreas urbanas – não havia muito espaço para a natureza.

Mas as árvores agora têm um lugar fundamental em muitas grandes cidades do mundo, diz Sonja Dümpelmann, historiadora da paisagem da Universidade da Pensilvânia – mesmo que, na maioria delas, ainda estejam lutando por espaço.

Para colher os benefícios das paisagens urbanas, ecologistas dizem que é fundamental que as árvores sejam vistas como mais do que uma mera adição estética às cidades. Isso é especialmente verdade agora que metade da população mundial vive em espaços urbanos – até 2050, estima-se que outras 2,5 bilhões de pessoas se mudarão para cidades.

Árvores são chave quando se trata de regular os microclimas, filtrando a poluição do ar, fornecendo sombra, absorvendo CO2, ajudando a evitar inundações repentinas. Além disso, atuam como um antídoto importante para o efeito de ilha de calor urbana, que torna as cidades muito mais quentes do que as áreas rurais vizinhas.

“As árvores podem fazer uma enorme diferença na temperatura de uma cidade”, diz Tobi Morakinyo, climatologista urbano que pesquisa o efeito de resfriamento de árvores em Akure, sudoeste da Nigéria. Segundo ele, o uso de árvores para gerar sombra em edifícios pode resfriá-los em até 5°C.

Em cidades quentes da África subsaariana como Akure, onde as temperaturas médias máximas de verão podem chegar a 38°C, esse efeito de resfriamento é uma ferramenta importante. Segundo Morakinyo, as cidades podem empregar árvores tanto contra o estresse térmico quanto contra os custos de resfriamento.

“Além dos serviços ecológicos que as árvores urbanas proporcionam, há também as qualidades que não podemos colocar em valor monetário”, acrescenta Cris Brack, ecologista florestal da Universidade Nacional Australiana e diretor do Arboretum Nacional em Camberra. “São a biodiversidade, a estética e nossa necessidade visceral de experimentar a natureza”, completa Brack, referindo-se ao conceito de ‘biofilia’ – a ideia de que os seres humanos têm um desejo inato de se conectar com a natureza.

Evidências sugerem que habitantes de regiões com mais árvores experimentam níveis mais baixos de estresse e doenças mentais.

Luta contra o cimento

A necessidade de árvores nas cidades é cada vez maior, mas elas frequentemente lutam contra ambientes urbanos opressivos. Abaixo do solo suas raízes podem ser sufocadas por tubos de água, estradas e estacionamentos subterrâneos, e acima pela poluição, linhas de energia e tráfego. Árvores também enfrentam danos causados por carros, condições climáticas cada vez mais extremas e remoções para dar lugar a canteiros de obras.

Talvez o desafio moderno mais duro para as árvores da cidade, diz Somidh Saha, ecologista florestal urbana do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, seja a estiagem. Após a onda de calor sem precedentes na Europa em 2018, um estudo coassinado por Saha constatou que 30% das árvores plantadas em Karlsruhe, no sudoeste da Alemanha, nos quatro anos anteriores haviam morrido – tanto direta quanto indiretamente por falta de água.

“Sem água suficiente, as árvores se tornam fracas e isso as torna vulneráveis a doenças”, diz Saha. Ao mesmo tempo, o declínio das populações urbanas de aves e mamíferos arborícolas, como morcegos, deixa as populações de insetos sem controle, e as árvores locais mais vulneráveis.

Projetos em megacidades

Projetos ecológicos ambiciosos surgiram em várias megacidades ao redor do mundo nos últimos anos – Nova York plantou um milhão de árvores entre 2007 e 2015; o prefeito de Londres, Sadiq Khan, espera tornar verde mais da metade da capital até 2050; Paris, por sua vez, anunciou que construirá quatro florestas urbanas ao longo de 2020.

Mas fora da Europa, em lugares como a Índia e a Nigéria, onde faltam recursos e vontade política para tornar o verde urbano uma prioridade, as árvores nas cidades são muito mais escassas.

Como a mudança climática traz temperaturas mais quentes e chuvas mais imprevisíveis, as cidades estão exigindo um novo tipo de resiliência das árvores urbanas. Para muitas cidades do mundo, os ecologistas dizem que isso significa plantar espécies mais exóticas.

Pessoas caminham no Central Park, em Nova YorkNova York plantou um milhão de árvores em cerca de uma década

A ideia, porém, encontra bastante resistência. Os ecologistas Brack e Saha argumentam, no entanto, que espécies alternativas geralmente se adaptam melhor ao ambiente artificial de uma cidade – especialmente diante do aumento das ondas de calor. O bordo de três dentes, nativo da China, Coreia e Japão, é uma espécie que poderia aparecer em maior número em outras partes do mundo à medida que a temperatura global aumenta.

Há também uma distinção importante a ser feita entre árvores “exóticas”, o que significa apenas que não são locais, e as “invasivas”, que são prejudiciais, espalhando-se muito rapidamente e dominando o meio ambiente.

Quanto à vida selvagem local, estudos contínuos estão sendo realizados em lugares como Canberra, onde quase todas as espécies de árvores da cidade são exóticas. Ali, os pássaros comem com prazer frutas de plantas não nativas, e os mamíferos encontram casas onde quer que haja um buraco apropriado.

Empenho cidadão

Uma solução para preservar as árvores urbanas que tem crescido em popularidade nos últimos anos é o envolvimento dos moradores. O programa de poda de Nova York permite que os habitantes da cidade tenham aulas para se tornarem cuidadores oficiais das árvores, e Berlim – um lugar que normalmente tem excluído os cidadãos de cuidar da flora urbana – está agora permitindo que os residentes solicitem licenças para manter canteiros e propôs que eles reguem árvores no verão.

O envolvimento dos cidadãos tem seus prós e contras, diz Dümpelmann, e estes tipos de programas podem ou não ser eficazes dependendo da cultura local. Mas até mesmo regar árvores sozinho “demonstrou ser um esforço de manutenção realmente relevante”, comenta.

Embora o plantio de árvores em espaços urbanos seja uma forma eficaz e bastante eficiente de adaptação às mudanças climáticas, Dümpelmann enfatiza que não é uma solução holística. “É algo em que devemos trabalhar ao mesmo tempo em que abordamos as causas fundamentais da mudança climática”, diz.

Além de usar as árvores como ferramenta de geoengenharia, ecologistas urbanos ressaltam que mais árvores nas cidades poderiam mudar as perspectivas da vida urbana e dar às pessoas uma maior compreensão de como valorizar a natureza como parte de uma cidade sustentável e habitável – não separada dela.

Isso significa ver as árvores como seres vivos, em crescimento, diz Brack, não paradas no tempo, ou imunes aos estresses da vida em ambientes urbanos.

Urbanismo – Impressionantes espaços ao ar livre para todos

Há um boom criativo na arquitetura e design ao ar livre. Dominic Lutyens explora como as áreas públicas recém-concluídas oferecem uma sensação de liberação e relaxamento.

Amplos espaços abertos – praças, jardins, praças e parques – sempre foram oásis atraentes em cidades movimentadas. São lugares para socializar ou para se divertir com leituras e banhos de sol. Agora, mais do que nunca, eles são sinônimos de liberdade, proporcionando uma sensação de libertação e descanso do confinamento doméstico. E com o distanciamento social uma realidade para muitos de nós, gastar tempo em grandes espaços ao ar livre faz bem à saúde de várias maneiras.

Superkelin é um parque urbano de 1 km de comprimento criado pelos arquitetos dinamarqueses BIG e paisagistas Superflex (Crédito: Iwan Baan)

Superkilen, Copenhagen

O mobiliário urbano convencional não tem lugar em Superkilen, um espaço pavimentado extraordinário de 1 km de extensão, classificado como um ‘parque urbano’ em Nørrebro, um bairro povoado por comunidades de mais de 60 países, ao norte do centro da cidade de Copenhague. Combinando instalações esportivas com playgrounds infantis e assentos abundantes, é dividido em áreas codificadas por cores – quadrados chocantes de rosa, vermelho e laranja – indicando diferentes atividades. Os edifícios adjacentes são parcialmente pintados com as mesmas cores, criando a ilusão de que o espaço é maior do que é.

O projeto foi iniciado pela cidade de Copenhague e Realdania, uma associação dinamarquesa privada que financia projetos de arquitetura e foi projetado pelos arquitetos dinamarqueses de alto perfil Bjarke Ingels Group (BIG) em colaboração com os arquitetos paisagistas Topotek1 e o coletivo de artistas Superflex.

O espaço em Superkilen foi colorido em chocantes rosa, vermelho e laranja (Crédito: Torben Eskerod)

De maneira incomum, uma extensa consulta às comunidades locais resultou na inclusão de objetos que eles apreciam particularmente, desde uma fonte marroquina e aparelhos de ginástica como os de Venice Beach, Los Angeles, até letreiros de neon do Catar e da Rússia. Uma placa de metal embutida no chão ao lado de cada objeto o nomeia e explica sua origem.O Marsa Plaza foi projetado pelos arquitetos londrinos Acme e apresenta treliças e coberturas de pedra (Crédito: Francisco Noguera)

Marsa Plaza, Omã

A recente expansão de Mascate, capital de Omã, ao longo da costa, viu a criação de um novo porto, marina e sua Marsa Plaza de múltiplos propósitos. A Acme venceu um concurso internacional para criar o último – um espaço de 5.000 metros quadrados, concluído em 2018. A praça é delimitada por dois lados por edifícios médios e baixos, e tem vista para a marina e o mar. Possui fontes e um anfiteatro usado para shows e noites de cinema, e abriga mercados de alimentos e exposições de arte. “A pegada dos novos edifícios foi restrita para maximizar a área externa”, diz Duarte Lobo Antunes, um dos arquitetos do projeto.

“Omã tem uma cultura muito descontraída e é um popular destino de férias no Oriente Médio”, continua Lobo Antunes. “Em Muscat, as pessoas geralmente se socializam à noite, principalmente de maio a setembro, quando, durante o dia, evitam lugares sem sombra”.

Os edifícios da praça apresentam treliças e dosséis projetados feitos de uma pedra chamada rosa do deserto em tons neutros, do creme ao marrom, que proporcionam graus variados de sombra e vislumbres do mar. Passos levam em direção à marina, aumentando a sensação de espaço ilimitado. As linhas gráficas da praça acenam com os padrões tradicionalmente encontrados nos pisos de Omã. “A praça reflete a informalidade de Mascate. É um lugar onde as pessoas podem andar e se reunir em locais diferentes “, acrescenta Lobo Antunes.Uma área gramada com paisagismo de Dan Pearson oferece um oásis relaxante na cidade (Crédito: John Sturrock)

Gasholder Park, Londres

O Gasholder Park, em King’s Cross, Londres, funde um vestígio da arquitetura industrial do século XIX – um gasômetro vitoriano abandonado – com um novo pavilhão, projetado por Bell Phillips Architects, e paisagismo pastoral, por Dan Pearson. O projeto envolveu desmontar a armação de guia circular de 250 m de altura e 40 m de diâmetro interno da antiga localização (agora espaço público Praça Pancras) e movê-la para um local com vista para o Canal de Regent.O Gasholder Park combina a arquitetura industrial do século XIX com um novo pavilhão da Bell Phillips Architects (Crédito: John Sturrock)

Essa união entre o antigo e o novo não atrapalha, graças à adição de Bell Phillips de uma colunata circular de aço polido com uma cobertura que percorre o perímetro interno da estrutura da guia. Esses círculos concêntricos incluem uma área grande, exuberante e gramada, plantada com alegres flores amarelas e brancas. A luz refletida nas superfícies espelhadas tem o efeito de amolecer e até desmaterializá-las. Todas as noites, a iluminação branca e fresca inspirada em um eclipse solar, criado pelos designers de iluminação Speirs e Major, ilumina a estrutura em ciclos de 20 minutos, intercalados com dramáticos períodos de escuridão de dois minutos.

“Algumas partes do parque parecem isoladas, outras mais ativas, com corredores e crianças brincando perto dos pais – há uma escola nas proximidades”, diz Hari Phillips, co-diretor da Bell Phillips. “O bloqueio nos fez perceber o quão preciosos são os espaços abertos, particularmente em cidades de alta densidade”.A instalação do StoDistante na Toscana foi criada pelo Caret Studio (Crédito: Giulio Margheri)

StoDistante, Itália

Concluído em maio passado, o StoDistante (‘estou mantendo distância’ em italiano) é uma instalação em Vicchio, perto de Florença. Muitos artistas italianos famosos nasceram perto desta cidade do século XIII, incluindo Giotto, que dá nome à Piazza Giotto, uma de suas praças. Agora, essa nova instalação, criada pelos arquitetos locais Caret Studio, está trazendo a praça firmemente para o século XXI, abordando os regulamentos atuais de distanciamento social da Toscana.O padrão de grade pintado combina com o cenário pitoresco da praça (Crédito: Giulio Margheri)

A intervenção discreta do Caret Studio oferece uma solução elegante para o distanciamento social sem prejudicar o cenário pitoresco da praça: pintou um padrão de grade de quadrados brancos diretamente no chão de paralelepípedos usando tinta removível branca. “As praças criam uma grade para guiar o movimento das pessoas ao redor da praça com segurança”, explica Giulio Margheri, cofundador do Caret Studio em 2014 com Matteo Chelazzi e Federico Cheloni, dois dos quais nascidos em Vicchio. “As pessoas sabem que quando estão em cada quadrado branco, ficam a 1,8 m do centro do próximo.” A esperança é que o espaço seja usado como cinema e academia ao ar livre, pois as restrições às reuniões públicas serão amenizadas em um futuro próximo.

“O município de Vicchio apoiou o projeto desde o início”, lembra Margheri. “Vemos o StoDistante como uma estratégia de design que pode ser implantada em áreas públicas em outras cidades, permitindo que os cidadãos reativem os espaços abertos após o bloqueio”.The Spur é a adição final à High Line e apresenta uma escultura monumental de Simone Leigh (Crédito: Timothy Schenck)

The High Line, Nova Iorque

Quando Ricardo Scofidio, parceiro da prática de arquitetura de Nova York Diller Scofidio + Renfro, se envolveu no projeto High Line em 2003, ele teve uma visão de preservar as qualidades intocadas dessa estrutura elevada que caiu em desuso em 1980. Isso desutilizou A seção de viadutos da linha ferroviária central de Nova York, conhecida como West Side Line, evoluiu ao longo dos anos de uma relíquia pós-industrial para um habitat fértil para plantas que prosperam em diferentes microclimas.

Scofidio, que reformou a linha em um parque em colaboração com James Corner Field Operations e o designer de planta Piet Oudolf, não queria suprimir a natureza: “Não queríamos que as plantas fossem aprisionadas por meio-fio, mas desfocam a linha. entre plantas e hardscape ”, lembra ele. “Incentivamos as plantas a ultrapassar a estrutura, a crescer através das rachaduras.”

Agora, esta grande atração nova-iorquina com vista para o rio Hudson possui bancos feitos de trechos de trilhas, 120 espécies de plantas e bétulas que fornecem sombra.The High Line combina com sucesso natureza e arquitetura (Crédito: Iwan Baan)

A última seção da linha a ser aberta, o Spur, que se estende ao longo da 30th Street, foi projetada pela mesma equipe e aberta no ano passado. No entanto, aqui a cultura assumiu o controle da natureza: nessa conjuntura, a linha incha em uma grande praça onde peças monumentais de arte ocupam o centro do palco; a peça inaugural é a Brick House de Simone Leigh, uma escultura de uma mulher negra cujo tronco se transforma em uma casa de barro. O Spur também é um local de música. A praça também apresenta elementos estilizados, incluindo plantadores gigantescos inclinados. Como James Corner coloca: “Este espaço dramático é ladeado por assentos generosos, com vista e imersão na imensa escala da cidade, abrindo novas vistas”.

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Proteger a natureza expulsando os pobres?

Ambiente,Cidades,Moradias,Habitação,Urbanismo,Brasil,Meio ambiente,Ecologia,Blog do MesquitaAngélica Tanus Benatti Alvim entrevistada por João Vitor Santos, no IHU | Imagem: Felipe Rau

Quando ocorre um vazamento de óleo, a viscosidade do líquido faz com que ele se alastre e vá sufocando tudo que encontra pela frente, seja na água, seja na terra. E, na área contaminada pelo óleo, a vida se estabelece de forma precária. Essa metáfora é ilustrativa e revela como a professora, arquiteta e urbanista Angélica Alvim compreende o crescimento desajustado de cidades brasileiras, o que chama de urbanização dispersa.

“Os problemas da urbanização dispersa têm muito a ver com os problemas das cidades brasileiras, que crescem de forma espraiada, como se fosse uma mancha de óleo, sem planejamento”, reitera, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Para ela, mais do que projeto de urbanização, é preciso um ajuste de foco, numa visão mais sistêmica e integrativa com a realidade da falta de moradia, de moradias precárias e a necessidade de preservação ambiental.

“Precisamos trabalhar de forma mais próxima das realidades, não é possível darmos as costas para a participação dessa população. Esta população está lá [em áreas de preservação], então como vamos trabalhar para ela morar melhor sem degradar o meio ambiente? Esse é o primeiro ponto”, tensiona.

Angélica observa que as pessoas ocupam áreas de preservação por pura falta de planejamento e política habitacional. “É preciso ter uma visão sistêmica sobre o problema, é preciso ofertar habitação em áreas consolidadas, habitação a preços acessíveis, onde há infraestrutura”, sugere.

Ou seja, sem a oportunidade de ocupar espaços e áreas já urbanizadas, muitas pessoas são forçadas a avançar sobre locais de preservação ambiental. A professora ainda aponta que, quase na mesma proporção em que as pessoas são empurradas para áreas periféricas e de preservação, há um esvaziamento populacional de áreas mais centrais.

É o caso de centros de grandes cidades, como São Paulo e mesmo Porto Alegre, que pouco servem à moradia. “Não adianta proibir urbanização em áreas mais frágeis, que estão nas regiões periféricas, próximas às represas, e não dar oportunidade de criar conjuntos e áreas de interesse social nas regiões centrais”, aponta.

Entretanto, a professora diz que também é preciso pensar nas áreas já degradadas e que abrigam moradias extremamente precárias. Para ela, a solução não é simplesmente desocupar, retirar as pessoas dali. “É preciso políticas públicas integradas, em que habitação, desenvolvimento urbano, saneamento e as políticas de transporte e mobilidade sejam feitas de forma integrada para que essas pessoas consigam estar ali sem degradar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, as pessoas que precisarem ser removidas não percam essas relações que têm com o local”, sugere.

Para ela, isso passa até por urbanizar algumas dessas áreas já degradadas, “mas uma urbanização que articule infraestrutura de saneamento ambiental, como também dignidade da habitação e infraestrutura verde”.

Na entrevista, Angélica ainda reconhece o grande papel de movimentos de luta pela moradia, mas aponta que é necessário também trabalhar o pensamento sistêmico nesses grupos. “O processo dos movimentos de moradia é extremamente legítimo, eles precisam ser cada vez mais parte de um trabalho articulado entre estado e município, e a universidade tem um papel a cumprir, contribuindo com a capacitação desses movimentos”, analisa. Um caminho, segundo ela, é qualificar esses movimentos com assistência e formação que trabalhem não só pela luta por uma casa digna, mas também pela preservação do meio ambiente nas cidades.

“Assessoria técnica é uma saída importante, porque ela não precisa apenas ser vista como assistência técnica em relação à habitação, mas pode contribuir para uma maior capacitação dos movimentos de moradia em relação ao problema habitacional entendido de forma mais ampla, em que a questão ambiental é parte desse conjunto”, completa.

Angélica Tanus Benatti Alvim é arquiteta e urbanista, graduada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, mestra e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo – USP. Atua como professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde também é diretora. Ainda é docente do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo.

Entre suas publicações mais recentes, destacamos “Envelhecimento ativo e saudável nos espaços públicos de áreas protegidas: o Parque Linear Cantinho do Céu em São Paulo” (Oculum Ensaios (PUCCAMP), v. 16, p. 128-145, 2019) e “Memórias e atualidade Espaços públicos da área central de Presidente Prudente” (Minha Cidade, v. 222.01, p. 1-3, 2019).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como analisa a gestão e manutenção de áreas ambientalmente protegidas na Região Metropolitana de São Paulo? E por que muitas dessas áreas acabam dando origem a assentamentos precários?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Em relação à gestão das áreas protegidas da Região Metropolitana de São Paulo, precisamos entender um pouco a complexidade do tema. A Região Metropolitana de São Paulo tem 39 municípios, e 39% desse território está em áreas de proteção dos mananciais, que é uma região protegida por lei desde meados dos anos 1970. Essa é a grande área protegida da Região Metropolitana de São Paulo.

Depois, temos algumas Unidades de Conservação e Áreas de Proteção Ambiental – APA, como, por exemplo, os parques estaduais e municipais, mas principalmente os estaduais, como o da Cantareira, do Guarapiranga, entre outros. Mas são áreas que têm a gestão, em geral, do Estado através da Secretaria do Meio Ambiente. A Área de Proteção de Mananciais tem várias sub-bacias que são protegidas por lei, que hoje são de gestão do Estado, mas também com forte participação dos Comitês de Bacia, sobretudo do Comitê de Bacias do Alto Tietê e dos Subcomitês de Bacias.Ambiente,Cidades,Moradias,Habitação,Urbanismo,Brasil,Meio ambiente,Ecologia,Blog do Mesquita

Eu avaliaria a gestão dessas áreas como falha. Por mais que tenhamos legislações extremamente importantes e que definem um processo de gestão, inclusive na área de proteção de mananciais compartilhada, acredito que ainda há várias lacunas a serem vencidas. Estamos diante de um processo de urbanização que muitas vezes esbarra no processo de proteção dessas áreas, mas, ainda assim, encontra brechas para ocupar essas regiões, às vezes de forma bastante predatória.

Esses assentamentos precários têm a ver com o processo histórico de urbanização da Região Metropolitana de São Paulo. A Região Metropolitana paulista, durante muitas décadas, foi uma área que sempre atraiu muita população de todo o Brasil. Se olharmos os anos 1960 e 1970, por exemplo, com a forte industrialização que ocorreu na região e com a ausência de oportunidades em outras partes do país, veremos que a região metropolitana de São Paulo é a que teve o crescimento populacional em maior ritmo. Esse processo de ocupação e urbanização intenso, principalmente a partir dos anos 1950 e 1960, com a forte urbanização de áreas frágeis ambientalmente, deu origem a uma precariedade nessa urbanização, dissociado de um processo de planejamento. Não é que não houvesse um Plano Diretor, principalmente no município de São Paulo, e legislações, como a Lei de Proteção de Mananciais, que vão buscar impedir essa urbanização, mas é muito difícil sua implementação.

Urbanizar áreas de esvaziamentos

Ou seja, não necessariamente a urbanização vai respeitar a legislação. Mas, se a legislação tem tanta importância assim, como atuar sobre esse território? Seria necessário não apenas ter legislações que visem coibir a urbanização de determinadas áreas – como são as leis que criam as nossas áreas de proteção ambiental –, mas legislações que deem a oportunidade de urbanizar as regiões que vão se esvaziando, como as áreas centrais, por exemplo. Não adianta proibir a urbanização em áreas mais frágeis, que estão nas regiões periféricas, próximas às represas, e não dar oportunidade de criar conjuntos e áreas de interesse social nas regiões centrais.

Nos anos 1970, por exemplo, houve a criação de áreas de habitação social em regiões distantes, como na Zona Leste de São Paulo, onde também há áreas frágeis ambientalmente. No ABC Paulista, por exemplo, temos toda a ocupação das indústrias no eixo Anchieta-Imigrantes, principalmente em São Bernardo, Santo André e Diadema. Não por acaso esses municípios são os mais afetados por áreas protegidas ambientalmente, por isso há um congelamento de diversos espaços; contudo, é lá que estão as oportunidades de emprego.

É um ritmo de urbanização tão intenso que a legislação e o processo de planejamento não dão conta e, ao mesmo tempo, não há políticas públicas de fato efetivas para fazer com que se tenha políticas habitacionais em locais mais centrais nesses municípios e em São Paulo, bem como políticas públicas que olhem para essa realidade de urbanização e busquem minimizar o problema, oferecendo moradia digna para essas pessoas em áreas protegidas ou próximas dessas áreas.

IHU On-Line – Como é possível resolver essa equação: necessidade de urbanização e manutenção das áreas de preservação?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Algumas têm urbanização e outras são ocupadas precariamente, precisando ainda de muito investimento do Estado. Agora, não podemos negar que essas pessoas estão lá, por isso é preciso fazer algo que concilie a urbanização de forma sustentável — esse é um grande desafio — com a preservação e a recuperação dessas áreas. É preciso entender que o problema não é da população de baixa renda e das ocupações precárias, é uma situação muito complexa, porque é um conjunto de fatores que está associado a uma ausência de políticas públicas que por muitos anos não olharam de forma atenta para esses processos, especialmente os processos que se dão nas áreas consolidadas.

O que acontece com as áreas consolidadas? Existe hoje uma valorização exagerada e intensa dessas áreas, então só quem pode pagar pode morar nas áreas consolidadas. É muito difícil conseguir pagar moradia em áreas propícias à urbanização. Houve muitos investimentos de infraestrutura, de empregos, de circulação e mobilidade nas áreas consolidadas, enquanto nas regiões frágeis, mais periféricas, onde há áreas de preservação ambiental, legislações proibiram a ocupação e a infraestrutura de saneamento ambiental. Ao mesmo tempo, não havia controle e fiscalização dessa população que foi se instalando ali. Havia, inclusive, uma conivência do Estado; por muitos anos os municípios foram coniventes em razão dos votos e de questões políticas.

Esse é um modelo de urbanização que acaba afetando os recursos naturais, os quais foram, por muitos anos, entendidos como fontes inesgotáveis. E agora, como fazer diante da escassez de recursos hídricos? É preciso ter uma visão sistêmica sobre o problema, é preciso ofertar habitação em áreas consolidadas, habitação a preços acessíveis, onde há infraestrutura. E onde não há é preciso urbanizar essas áreas, mas uma urbanização que articule infraestrutura de saneamento ambiental, como também dignidade da habitação e infraestrutura verde. Porque não é possível só urbanizar e não conscientizar essas pessoas do papel que elas têm em preservar e recuperar o meio ambiente — as áreas protegidas.

Ambiente,Cidades,Moradias,Habitação,Urbanismo,Brasil,Meio ambiente,Ecologia,Blog do MesquitaMapa da represa. Imagem: Nossa São Paulo

Remover, mas como?

Nas áreas protegidas em que não pode haver ocupação, é preciso remover as pessoas. Agora, remover como? Tem que levar as pessoas para morar nas proximidades, porque não podemos retirá-las das redes de solidariedade que já fizeram, das áreas em que sempre viveram. Portanto, não dá para remover tudo. Como fazer isso de forma muito delicada e com um projeto sustentável?

É preciso políticas públicas integradas, em que habitação, desenvolvimento urbano, saneamento e as políticas de transporte e mobilidade sejam feitas de forma integrada para que essas pessoas consigam estar ali sem degradar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, as pessoas que precisarem ser removidas não percam essas relações que têm com o local.

IHU On-Line – Em que medida essas lógicas de ocupação urbana da Região Metropolitana de São Paulo se replicam em outras cidades brasileiras?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Hoje em dia, os problemas da urbanização dispersa têm muito a ver com os problemas das cidades brasileiras, que crescem de forma espraiada, como se fosse uma mancha de óleo, sem planejamento. Esse é um modelo muito comum, lógico que em menor escala e com feitos menos perversos em várias cidades brasileiras. Por exemplo, quando viajamos pelo interior paulista, ou mesmo no Rio Grande do Sul ou em áreas de Minas Gerais, observamos a ocupação de fundos de vales, áreas de encosta, ao longo das Áreas de Preservação Permanente – APPs, onde temos cursos d’água.

Vemos um modelo de urbanização não só de população de baixa renda, porque também há uma população de alta renda ocupando áreas impróprias à urbanização. Esse é um processo que ocorre de maneira geral nas cidades brasileiras em função de uma ausência de planejamento e de políticas públicas que, por muitos anos, desconsideraram a realidade das cidades, em que vários planos eram feitos para a cidade ideal, não para a cidade real. Esse é um problema recorrente do processo de urbanização brasileiro pós anos 1960, quando se dá um processo histórico intenso de urbanização.

Mais recentemente, mesmo com o Estatuto da Cidade, a urbanização, principalmente a urbanização dispersa, ainda não foi fruto de uma revisão. E como fazer isso? É preciso ter um olhar atento a esse modelo. Se observarmos a própria política habitacional recente, como o Minha Casa Minha Vida, veremos que os empresários vão construir nas áreas mais distantes, porque os terrenos são mais baratos. Mas, quando se constrói um conjunto habitacional distante, se induz uma urbanização aliada a esse conjunto. Portanto, também se leva infraestrutura e estrada, mas com isso acaba se induzindo a uma urbanização que vai junto com o conjunto habitacional e, muitas vezes, ela não é planejada. Isso acontece em menor escala em diversos municípios, mas é um problema real que deve ser fruto de um processo de planejamento mais integrado.

IHU On-Line – Esse é o aspecto mais importante para melhorar o planejamento urbano das cidades do país?

Angélica Tanus Benatti Alvim – É um ajuste de foco no planejamento urbano, mas imagino que precisamos trabalhar de forma mais próxima das realidades, não é possível darmos as costas para a participação dessa população. Esta população está lá [em áreas de preservação], então como vamos trabalhar para ela morar melhor sem degradar o meio ambiente? Esse é o primeiro ponto.

Por outro lado, é preciso pensar que existem muitas áreas centrais em que se dá um processo de esvaziamento intenso — isso acontece em várias cidades brasileiras. Por isso, é necessário pensar projetos de habitação de interesse social nessas áreas, que aparentemente são mais caras, mas têm menor investimento em infraestrutura porque já estão consolidadas. Então, não podemos desperdiçar essa infraestrutura. O Estado precisa ter uma visão mais sistêmica sobre a cidade e olhar para ela como um todo. Ao mesmo tempo que é essencial urbanizar as regiões mais precárias, inclusive removendo a população em áreas de risco, é imprescindível investir nas áreas centrais.

No interior, hoje, há também uma proliferação de loteamentos de alto padrão nas áreas periféricas. Estes loteamentos também acabam sendo vilões desse processo, não só por degradar o meio ambiente — muitas vezes não degradam, mas privatizam as áreas protegidas. Vemos muitas áreas de matas, que poderiam ser parques e praças públicas, que acabam sendo privatizadas por grandes condomínios. E, claro, há condomínios que também degradam, seja por não possuírem sistemas de tratamento de esgoto, seja de outras formas. Eu vi, no interior paulista, muitos problemas com a falta de tratamento de esgoto, que é algo recorrente em várias cidades brasileiras.

Existem vários estudos, como o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, que tem um trabalho maravilhoso sobre planos ambientais para as cidades brasileiras. Então, é necessário ter planos urbanos ambientais nas cidades brasileiras porque é preciso compreender que tem muita gente morando em áreas de risco, suscetíveis a enchentes, deslizamentos etc.

IHU On-Line – Como podemos relacionar desastres e catástrofes com a ocupação de forma precária de áreas de preservação nas grandes cidades? Como avalia as políticas públicas que vem sendo empregadas para evitar grandes tragédias?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Nas áreas onde o relevo é mais acidentado isso é mais crítico ainda. Vários municípios brasileiros estão assentados em áreas muito acidentadas e necessitam desse sistema de planejamento mais integrado; inclusive a própria segurança pública, com sistemas de alerta, com a defesa civil, deve ser parte desse processo de planejamento. O risco, muitas vezes, é um risco em cadeia, porque a população de baixa renda que está morando ali sofre no primeiro momento, mas não é só ela, é toda uma cidade.

Eu diria que esse processo de urbanização brasileiro que ocorreu ao longo dos últimos 50 anos foi perverso em relação às áreas de proteção, não só sob o ponto de vista de ocupação das áreas mais precárias, mas também, de um modo geral, da própria urbanização. Para buscarmos soluções hoje não é fácil, porque trata-se de um problema complexo, não dá para sair removendo todas as pessoas. Tem que se fazer trabalhos, encarar esse problema não só com planejamento urbano, mas com projetos localizados em que a população seja parte desse processo.

IHU On-Line – Experiências de cidades colombianas como Bogotá e Medellín têm sido estudadas como forma de repensar as grandes cidades. No que essas cidades podem inspirar na busca pela solução dos problemas brasileiros?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Nas cidades colombianas, eles têm um problema muito sério em relação a áreas ambientalmente protegidas ocupadas pela população de baixa renda. Mas lá foi feito um projeto muito importante que teve respaldo em um planejamento nacional de habitação. E esse planejamento também teve um trabalho muito forte com as municipalidades em Medellín e Bogotá. É um plano de urbanização das áreas precárias, em que foi feito um trabalho de conscientização dessa população, além de projetos de urbanização e redes de água e esgoto.

Assim, conseguiram fazer um trabalho integrado com a população, levando, inclusive, mobilidade e educação. Em Medellín temos o projeto das bibliotecas parques [Parques Biblioteca foram construídos para promover práticas educativas, culturais e sociais de seus bairros circundantes], que também teve em Bogotá, junto com o projeto de acessibilidade, como, por exemplo, os Metrocables — aqui chamamos de teleférico. Juntamente com isso eles fizeram um trabalho de melhoria da autoestima da população, o que levou também a uma melhoria em relação à questão do tráfico de drogas, que era muito pesado nessas regiões.

IHU On-Line – No Brasil, existem experiências interessantes de preservação de espaços e melhora nas condições de habitação de populações mais pobres?

Angélica Tanus Benatti Alvim – A realidade que conheço é muito de São Paulo, mas existem algumas experiências, como em Curitiba, na região de Pinhais. Em São Paulo, temos o programa Guarapiranga, feito nos anos 1990, e o programa Mananciais, que é uma retomada do programa Guarapiranga, mas que extrapola até a área da Represa Billings. É um programa do Governo do Estado em parceria com as prefeituras da região da Guarapiranga e com as prefeituras da região da Billings. Como o problema é muito complexo em São Paulo, eles acabam não tendo tanta visibilidade em termos de melhoria da qualidade de vida das pessoas, mas foram programas, principalmente o Guarapiranga, que tiveram efeitos importantes na qualidade da água.

De qualquer forma, na região da Billings, temos alguns efeitos interessantes, mas que são bem pontuais, por exemplo: o projeto do Cantinho do Céu, que foi a recuperação de um trecho muito pequeno da Represa Billings — dois quilômetros. Foi um projeto piloto, mas que acabou não tendo continuidade e hoje se tem a proposta de manutenção desse projeto.

Outro exemplo que está em fase de implementação fica na área de São Bernardo do Campo, no Jardim Alvarenga, também no Jardim Cocaia, onde a prefeitura da cidade fez uma política integrada; esse é um exemplo válido de política habitacional, urbana e ambiental. Há também um projeto, que não chega a pegar muito a população de baixa renda, mas que recupera o meio ambiente e a orla, que é o Parque Piracicaba, ao longo do Rio Piracicaba, e que promove uma recuperação ambiental e de urbanidade da área da cidade de Piracicaba. Aos poucos esses projetos de conscientização têm sido feitos. Em Belém do Pará, o Parque Mangal das Garças é outro exemplo relevante.

IHU On-Line – São projetos que possuem na gênese essa perspectiva mais integrada?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Mais integrada e que tenta buscar a reconciliação dos parques e das áreas de preservação e a melhoria da qualidade de vida das populações que moram no entorno. Mas estes projetos não são simples, são projetos que exigem essa visão integrada, que muitas vezes extrapola a esfera municipal. Por isso, a maioria desses projetos que estou citando como exemplo tem que ter uma articulação entre o município e o Governo do Estado e, na maioria das vezes, precisa de recursos do Governo Federal. São pequenos exemplos e iniciativas que dependem de continuidade, que não são feitas em um governo só, portanto é preciso ter consciência de que a articulação em diversas instâncias é fundamental e entender esses projetos como parte de um processo que extrapola os diversos governos.

IHU On-Line – Como analisa as lutas dos movimentos sociais de moradia atualmente? De que forma podem inserir em seus pleitos, além da busca por moradia digna, a preservação ambiental de espaços públicos?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Estamos em um momento em que, de uns anos para cá, os movimentos de moradia cresceram. A partir da Constituição Federal tivemos um processo de ampliação desses movimentos, por diversos motivos, pois há mais instrumentos para legitimar esses processos. Então, os movimentos de moradia hoje têm uma força maior. Por outro lado, falta também, dentro dos movimentos de moradia, uma conscientização maior sobre o problema ambiental, porque muitas vezes eles — de forma legítima — focam somente na busca pela moradia. Com isso, ocorre uma certa segmentação: “eu olho para o problema da moradia e não consigo entender que essas moradias precisam ser compreendidas dentro de um sistema mais amplo, que é o problema ambiental que está naquela área”. Contudo, faz parte de um processo de conscientização que está em construção, e esta construção está sendo feita.

De qualquer forma, o processo dos movimentos de moradia é extremamente legítimo, eles precisam ser cada vez mais parte de um trabalho articulado entre estado e município, e a universidade tem um papel a cumprir, contribuindo com a capacitação desses movimentos. Além disso, assessoria técnica é uma saída importante — temos a lei de assistência técnica de 2008 —, porque ela não precisa apenas ser vista como assistência técnica em relação à habitação, mas pode contribuir para uma maior capacitação dos movimentos de moradia em relação ao problema habitacional entendido de forma mais ampla, em que a questão ambiental é parte desse conjunto.

Por exemplo, devemos trabalhar com infraestruturas verdes em conjunto com essa população. É trabalhar pequenas ações, como a ação da reciclagem e outras que fazem parte desse conjunto de iniciativas que são locais. Então, os arquitetos e urbanistas têm um papel a cumprir junto com o próprio Estado.

IHU On-Line – Qual a função dos parques urbanos nas grandes cidades? Em que medida esses espaços relacionam preservação ambiental e melhor qualidade de vida para a população?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Os parques urbanos são extremamente importantes, não só para a preservação ambiental da fauna, da flora e dos cursos d’água, mas também para a urbanidade das pessoas e da cidade. É no parque urbano que podemos ter atividades de lazer e ligadas à saúde e à própria saúde física, como, por exemplo, no caso dos idosos, que hoje precisam de áreas onde tenham práticas de lazer para grupos da terceira idade. Na cidade contemporânea o parque tem função essencial para a qualidade de vida, para a saúde e para a ampliação da longevidade das pessoas. Por outro lado, eles também têm uma função ecossistêmica importante para a preservação dos recursos naturais. Por exemplo, a água é um bem valiosíssimo hoje, então ter estes cursos d’água protegidos por áreas de preservação ambiental e parques é fundamental para garantirmos a disponibilidade do recurso para a população em geral. Não é só para quem mora no entorno, mas é toda uma região que depende daquele recurso.

As áreas verdes são fundamentais para a preservação ecossistêmica da cidade, por isso, pensar cidades que incluem em seus planos diretores sistemas de parques urbanos é bem-vindo. Quando falamos da urbanidade, falamos também de um parque que concentra atividades físicas e culturais, como orquestras — ir no final de semana ver a orquestra tocar no parque fará bem a todo mundo. Isso também é ponto de recursos, porque o turismo aumenta quando se tem parques urbanos, pois gera mais atratividade para aquela cidade. Com isso, todo mundo ganha.

IHU On-Line – Mas, para isso tudo, é importante pensar esses espaços como públicos. Correto?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Sim. Eu já parto do pressuposto que o parque é um espaço público, e o espaço público é lugar do encontro e da diversidade, porque é ali que podemos encontrar todos e todas, independente de raça, de gênero. É o lugar da diversidade, é o lugar da civilidade.

IHU On-Line – A privatização dos espaços públicos é uma discussão séria e, por exemplo, está em pauta no Rio Grande do Sul, como na questão da privatização do Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, além de outros parques municipais em Porto Alegre, como o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido como Harmonia. Gostaria que senhora detalhasse mais essa perspectiva de que o parque tem que ser público.

Angélica Tanus Benatti Alvim – Ainda não consegui formular bem o problema da privatização dos parques. Mas é um problema, porque o parque é público, esses bens são públicos. Será que o fato de eles serem privatizados para a gestão, tira o caráter público? Essa é uma questão para discutirmos. Acredito que não tire, mas, ao mesmo tempo, quanto a iniciativa privada vai ganhar com isso? Será que ainda não é função do Estado? Na minha opinião sim, porque não é possível retirar do Estado a responsabilidade de gerir os espaços públicos com qualidade.

Agora, como conciliar a ausência de recursos à manutenção desses espaços públicos com qualidade? É preciso entender melhor o que significa privatização, mas, ao mesmo tempo, é necessário garantir que essa privatização não vai tirar o caráter público e o caráter civilizatório de lugar de diversidade desses parques.

IHU On-Line — Vejamos com mais vagar o exemplo do Parque da Harmonia em Porto Alegre. Lá acontece, no mês de setembro, o Acampamento Farroupilha. É um dos parques que se cogita entregar à iniciativa privada. A iniciativa privada faria uma série de melhorias naquela área, mas colocaria empreendimentos pagos como restaurantes e museus. Embora se preserve áreas públicas e gratuitas, esse tipo de empreendimento altera a configuração e propósito do parque?

Angélica Tanus Benatti Alvim – Isso não pode acontecer. Os parques urbanos em áreas centrais acabam contribuindo para valorizar o entorno, o que é um problema. Quando falo que defendo um planejamento mais integrado e sistêmico, é nesse sentido: como fazer com que a população de baixa renda também tenha acesso a morar no entorno dessas áreas mais valorizadas? Só a implantação de residências de interesse social garante isso? Não, precisamos de políticas públicas mais incisivas.

Alemanha aposta em autobahns para bicicletas

Governo investirá 25 milhões de euros em vias expressas para ciclistas, a serem usadas sobretudo para se deslocar de casa para o trabalho. Menos tráfego nas estradas deve ser apenas um dos benefícios.

Ciclista na AlemanhaPara distâncias maiores, combinação de via expressa e bicicleta elétrica pode ser interessante

O governo federal alemão planeja investir neste ano 25 milhões de euros na expansão de vias expressas para bicicletas. As chamadas autobahns para bicicletas devem ser usadas principalmente pelo número crescente de pessoas que percorrem longas distâncias até o local de trabalho ou estudo.

Sem semáforos nem cruzamentos, seria possível chegar muito mais rapidamente à universidade ou ao trabalho e, ao mesmo tempo, aliviar o tráfego nas estradas. Ir de uma cidade a outra, ou do subúrbio ao centro de bicicleta é uma boa ideia tendo em vista as rodovias congestionadas, a poluição do ar e o sedentarismo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Quase 17 quilômetros de bicicleta?

Um estudo do Instituto Federal de Pesquisas em Construção, Urbanismo e Desenvolvimento Espacial (BBSR) apontou recentemente que os alemães percorrem, em média, 16,8 quilômetros entre suas casas e o trabalho. É realista o uso de bicicleta para percorrer tais distâncias?

Marcus Peter, da Universidade Técnica de Hamburgo (TUHH), analisou onde faz sentido a construção de vias expressas para bicicletas na região metropolitana da cidade no norte da Alemanha.

“Tal infraestrutura é destinada, principalmente, para pessoas que usam a bicicleta para percorrer uma faixa de entre cinco a dez quilômetros”, explica. “Se o caminho é mais longo, as pessoas tendem a não percorrê-lo de bicicleta.”

Bicicletas elétricas para transportar mercadorias

Mas, mesmo que o trabalhador tenha que percorre, em média, mais de dez quilômetros para chegar a seu local de trabalho, Peter diz que o investimento em autobahns para bicicletas traria vantagens significativas. “Vejo um grande potencial para quem tem que percorrer uma faixa de até dez quilômetros, o que pode gerar um alívio do tráfego nas rodovias”, opina.

O especialista dá razão ao estudo de viabilidade do projeto Radschnelweg Ruhr (via expressa para bicicletas do Ruhr), região no oeste do país. A ideia é que, com seus mais de 100 quilômetros, a autobahn para bicicletas acabe com cerca de 52 mil viagens de carros diárias, percorridas por mais de 400 mil quilômetros.

Além disso, as bicicletas elétricas, que vêm ganhando espaço no país, poderiam contribuir para que mais cidadãos utilizassem as vias expressas. Graças ao seu motor elétrico, pessoas com menos preparo físico também poderiam percorrer distâncias maiores em um período razoável de tempo, e, assim, se beneficiar das autobahns para bicicletas.

Peter vê as vias expressas não somente como uma opção para os trabalhadores, mas aponta que elas poderiam ser usadas também para outros percursos, como para ir ao supermercado ou ao cinema.

Assim, uma via expressa para bicicletas daria mais flexibilidade às pessoas que querem sair à noite e que têm, geralmente, problemas para voltar para casa devido a ônibus e trens que não operam depois de certa hora.

Um pequeno passo na direção certa

Até agora, municípios e estados assumiam os custos sozinhos das vias expressas para bicicletas. Segundo Peter, de uma forma geral, os 25 milhões de euros com os quais o governo federal quer subsidiar a expansão representa “um passo na direção certa”.

A Associação dos Ciclistas da Alemanha (ADFC) também avalia o investimento como um “importante sinal político”. No entanto, o orçamento seria muito pequeno para ser dividido por toda a Alemanha, já que a construção de um quilômetro de via expressa para bicicletas custa entre 500 mil e 2 milhões de euros.

Assim, com o valor de 25 milhões de euros poderiam ser construídos somente de 12 a 50 quilômetros. Por isso, a ADFC pede que o investimento seja multiplicado por dez, o que resultaria em cerca de 300 quilômetros de vias expressas para bicicletas no país.
DW

A imprensa e as redes sociais na guerra contra o lixo

São mais de 7 bilhões de pessoas ao redor do mundo gerando lixo diariamente e as previsões são de que até 2025 a tonelagem seja o dobro das atuais.
Lixo urbano Wikimedia CC
Lixo urbano na Indonésia. Foto: Wikimedia / CC

Por Cristiana Cyrino Borges de Andrade e Cláudio Magalhães

Segundo o Banco Mundial (2012), em 2025 serão 4,3 bilhões de habitantes urbanos (contra 2,9 bilhões em 2002), produzindo 1,42 quilo de lixo por dia, num total de 2,2 bilhões t/ano. Além do planeta dar sinais de esgotamento por acumular tantos resíduos, mostra que o modelo de exploração dos recursos naturais está fadado ao fracasso.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

As consequências das mudanças climáticas, nos âmbitos ambiental (degelo da Antártida, desaparecimento de espécies vegetais e animais etc.) e saúde pública (retorno de doenças antes erradicadas e a proliferação de vetores que disseminam outras patologias, como o aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika vírus), e mais recentemente o temor de uma epidemia de febre amarela no país, são demonstrativos dessa falência.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (2013), o Brasil desperdiça, a cada ano, cerca de R$ 10 bilhões por falta de destinação adequada de resíduos. Dados da Abrelpe (2014) mostram que58,4% dos resíduos coletados no país tiveram destinação adequada (aterro sanitário), mas “mesmo com uma legislação mais restritiva […], 3.334 municípios, correspondentes a 59,8% do total, ainda fazem uso de locais impróprios para destinação final dos resíduos coletados”.

Diante desse cenário, é importante refletir de que forma os meios de comunicação – analógicos e digitais – podem contribuir de forma assertiva para a disseminação de informações de qualidade e a ampliação do debate sobre o tema na sociedade. Notadamente, percebemos que a grande imprensa rotineiramente abre espaço para temas como aquecimento global, degelo do Ártico, aumento das temperaturas, mas raramente para uma análise local dos problemas, por exemplo, trazendo a questão para o Brasil. Geralmente o tema “resíduos” ganha destaque na mídia nacional quando os garis paralisam os serviços de coleta ou ocorre algum problema em um aterro sanitário.

A greve dos garis no Rio de Janeiro durante o carnaval de 2014 foi uma excelente oportunidade para a sociedade brasileira se debruçar sobre o debate dos resíduos sólidos frente à nova legislação e o desenfreado descarte de resíduos. O que se viu durante sete dias foram montanhas de plásticos, garrafas de água, latas, caixas de papelão e, claro, lixo comum transbordando por toda a capital fluminense. Não teria sido esse um ótimo momento para uma mobilização emergencial de educação ambiental com os cariocas? Com os turistas foliões?

Numa análise superficial do noticiário dos dois jornais de maior circulação no Brasil – O GloboFolha de S.Paulo –, ambos se limitaram a retratar os fatos, claro, dando ênfase à gravidade da situação, às doenças correlacionadas, como leptospirose e diarreias, mas não avançaram no debate chamado a sociedade para a corresponsabilidade, nem situando a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) nesse contexto.

O envolvimento da sociedade

O Globo publicou uma nota de opinião, levantando a hipótese de oportunismo político do movimento, em pleno carnaval, com a cidade repleta de gente e com 3 mil toneladas de lixo pela cidade todos os dias, sem desmerecer que os garis podiam ganhar mais. No bate-pé entre Prefeitura do Rio e garis, os trabalhadores dos resíduos venceram: pediram R$ 1.200 e levaram R$ 1.100, um aumento real de 37%, em cima do salário de R$ 803.

Um dos preceitos da política nacional é reduzir a geração de resíduos, e para isso é necessário que as pessoas acessem o mínimo de informação para se mobilizar, como atestam Braga e Mafra (2000): “Além disso, precisam compartilhar visões, emoções e conhecimentos sobre a realidade das coisas à sua volta, gerando a reflexão e o debate para a mudança.”

Pensar em políticas públicas e de mobilização da sociedade para reduzir a geração de resíduos e fazer seu descarte de forma correta é essencial. Com esse intuito, foi desenhada, depois de 20 anos tramitando no Congresso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), legislação que prevê uma série de exigências a todos os 5.570 municípios brasileiros. Entre elas, e uma das mais significativas, é a construção do plano municipal de gestão dos resíduos sólidos, que cada cidade deve ter. Nesses planos devem constar, entre vários itens, a implantação da coleta seletiva com a participação de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis; e a adoção de programas e ações de educação ambiental que promovam a não geração, a redução, a reutilização e a reciclagem de resíduos sólidos .(PNRS, 2012)

Uma das questões colocadas pela nova legislação é a responsabilidade compartilhada, que prevê o envolvimento de toda a sociedade, incluindo população, indústria, comerciantes, importadores, distribuidores, consumidores finais e serviços públicos de limpeza urbana com a questão, considerada um princípio norteador da PNRS, por Costa e Crespo (2012): “É uma mensagem para que todos os atores façam sua parte.”

Comunicação para o desenvolvimento humano

Mais do que envolver a população, é fundamental que a questão seja tomada com política de governo, como bem descreve Acselrad (2000): “A participação democrática e a socialização da política seriam condições do desenvolvimento, que contaria com a participação da sociedade nos fóruns de discussão sobre as decisões de interesse público.”

Na visão de Acselrad, um caminho viável do desenvolvimento é repensar as articulações entre dimensões econômicas, sociais e político-institucionais. Um dos modelos seria movido pelos processos temporais de inovação, velocidade de circulação da informação e o uso do conhecimento tecnológico. O outro teria foco na cidadania como condição do desenvolvimento.

Se o envolvimento da população se mostra como essencial para o sucesso de um processo de mudança – nesse caso, o da redução de geração de resíduos e adoção na prática diária de medidas ambientais, separação de materiais e destinação para a coleta seletiva –, a comunicação para o desenvolvimento humano e social, bem como para a promoção da autonomia dos sujeitos, se apresenta como item fundamental de mobilização social, à medida que, segundo Marteleto e Silva (2004), o acesso à informação é um elemento-chave para o desenvolvimento econômico e social de comunidades e grupos sociais.

“A capacidade de obter informações, além dos contornos restritos da própria comunidade, é parte do capital relacional dos indivíduos e grupos. As transformações dependem das redes existentes entre os indivíduos do grupo e atores localizados em outros espaços sociais, ou seja, do capital social da comunidade [na relação com o Estado].”

Uma iniciativa interessante de mobilização adotada pela Prefeitura de Belo Horizonte, em 2011, foi a colocação de um lixômetro na Praça Sete, Centro da capital, com os resíduos que são recolhidos diariamente no local, atirados ao chão pelos pedestres.

Lixômetro Lixo Reciclagem

Sensibilização social: lixômetro colocado na Praça Sete . Foto: Divino Advíncula/Portal PBH

Comunhão e compartilhamento

Nesse cenário, pode-se afirmar que o acesso à informação se revela como uma das formas de tornar os sujeitos mais conscientes sobre seu papel nesse contexto dos resíduos sólidos. Para Henriques et.al (2007), a mobilização social vai ao encontro de “um projeto que permita o desencadeamento de ações concretas de cooperação e colaboração. Onde os cidadãos se sintam efetivamente envolvidos no problema que se quer resolver e compartilhem a responsabilidade por sua solução”.

O autor afirma ainda que “a comunicação no processo de mobilização é dialógica, na medida em que não é a transferência do saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores. […] Isso significa dizer que a existência humana é, por si, uma existência dialógica, porque o homem é um ser de relação”.

Mas apenas isso não é suficientemente bastante, na visão de Henriques et.al (2007), que afirma ser “necessário cumprir outras funções que devem estar integradas e articuladas”, como:

“Difundir informações – […] a rede comunicativa se estabelece por meio da difusão (divulgação e publicização) do tema mobilizador […] dando visibilidade da iniciativa aos diversos atores.

Promover a coletivização – a simples difusão não é garantia de que as pessoas irão se sensibilizar e participar da mobilização. A coletivização pode ser alcançada pelo sentimento e certeza de que não se está sozinho na luta pela mudança, há outros atuando com o mesmo sentido e propósito.

Registrar a memória do movimento – a existência de um banco de dados e outros modos de organização do acervo e da memória do movimento com o intuito de registrar sua trajetória também é fundamental para fortalecer a mobilização.

Fornecer elementos de identificação com a causa e com o projeto mobilizador – cabe à comunicação uma articulação entre valores e símbolos no processo de construção da identidade de um movimento, estabelecendo uma maneira estruturada a produção de elementos que orientem e gerem referências para a interação dos indivíduos, possibilitando, assim, um sentimento de reconhecimento e pertencimento capaz de torná-los corresponsáveis.”

Busca-se então na comunicação a ferramenta para articular a necessidade de mobilizar e conscientizar a sociedade sobre a redução de geração dos resíduos. É importante lembrar que a comunicação passou por uma verdadeira transformação nos últimos anos, haja visto o processo de globalização, que rompeu de vez com os limites geográficos, principalmente a partir da evolução tecnológica, que interligou países, processos, informações e pessoas de todo o mundo.

Conforme Castro (2012), as mudanças do mundo analógico para o digital impactaram profundamente as relações e influências na vida social. “Uma das características mais marcantes desse processo de mudança é a passagem da comunicação unidirecional (produção-mensagem-recepção) para a comunicação bidirecional, dialógica e interativa”, que se resume: “Produção-mensagem-recepção-resposta ao campo da produção. Nesse sentido, a digitalização permite recuperar o sentido latino da palavra comunicação, no sentido de comunhão e compartilhamento.”

Uma política pública de reciclagem

O uso dos aparelhos celulares inteligentes (smartphones), com acesso à internet e cada vez mais difundidos, principalmente entre jovens e adolescentes, e também as redes sociais permitem uma vastidão de conexões, compartilhamentos de ideias, imagens (fotos e vídeos) e também a troca de informações, pensamentos e reflexões. Como atualmente vive-se uma realidade cada vez mais digitalizada, em que “novos atores sociais vêm aparecendo no cenário midiático – “eles acessam e se apropriam das novas mídias de maneira formal (através de cursos) ou informal” (Castro, 2012) –, seria possível pensar a difusão de informações sobre a nova política de resíduos por canais/plataformas diferenciados.

Para se ter ideia, segundo dados do Relatório Consolidado Indicadores de 2012 a 2016 da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o ano de 2016 fechou com 244.066.759 de linhas telefônicas móveis em operação no Brasil, para uma população de 205,2 milhões de pessoas. Diante disso, pensar como usar essa poderosa ferramenta em favor do meio ambiente e da melhoria da qualidade de vida nas cidades é um desafio interessante. Pode ser por meio de parceria com as operadoras de telefonia? Sim, por que não? Elas também têm sua responsabilidade dentro da política nacional de resíduos. Os fabricantes de celulares também, já que são responsáveis pelo recolhimento das baterias e aparelhos inservíveis. Todos da cadeia produtiva são responsáveis. O setor de eletroeletrônicos já está se organizando e discutindo como trabalhar essa logística.

Além dos meios de comunicação mais tradicionais, como TVs e rádios, e, claro, via projetos nas escolas, as prefeituras de todo o país poderiam pensar em como articular seus cidadãos para a questão dos resíduos fazendo uso das redes sociais mais acessadas por jovens (Facebook, Snapchat, Instagram e Twitter) para difundir não apenas conceitos, mas também programas de educação ambiental e mobilização social.

Produzir vídeos, fotos e textos curtos informativos, usando essas plataformas, seria uma forma de colocar a temática no cotidiano da cidade pelo meio digital, além de esquetes e peças teatrais em praças, parques e locais de grandes aglomerações. Esse tipo de campanha de comunicação pode se tornar uma ferramenta ágil e efetiva em municípios de pequeno a grande porte, desde que com um planejamento bem executado e com foco no resultado de diminuir a geração de resíduos e alavancar uma política pública local de reciclagem.

Novas ferramentas de comunicação estão aí e devem ser usadas para que o tema de resíduos sólidos seja amplamente divulgado. Campanhas de educação para o cidadão devem fugir das antigas e corriqueiras cartilhas. Afinal, economizar papel é um dos primeiros passos que deveriam ser seguidos para manter mais florestas de pé e evitar o desperdício.

***

Cristiana Cyrino Borges de Andrade e Cláudio Magalhães são, respectivamente, jornalista e mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local e jornalista, doutor em educação e professor do Centro Universitário UNA

O voluntário que faz uma cidade economizar milhões por ano

“É muito fácil fiscalizar o governo municipal”, diz Jaime Klein, 40 anos, que dedica quatro horas de seu dia a fazer com que a Câmara e a Prefeitura de São José (SC) gastem melhor o dinheiro público. 

Jaime KleinJaime Klein entre pilhas de pastas sobre fiscalização de órgãos públicos; sua equipe contribuiu, por exemplo, para elevar a economia da Câmara Municipal de R$ 300 mil para R$ 8,5 milhões anuais. Image copyright CAIO CEZAR

“É muito fácil fiscalizar o governo municipal”, diz Jaime Klein, 40 anos, que dedica quatro horas de seu dia a fazer com que a Câmara e a Prefeitura de São José (SC) gastem melhor o dinheiro público.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em três anos, a equipe montada por Klein contribuiu, por exemplo, para elevar a economia do Legislativo da cidade – verba não gasta devolvida aos cofres públicos – de R$ 300 mil para R$ 8,5 milhões anuais. Ajudou ainda a suspender licitações suspeitas e colocou uma lupa sobre gastos da prefeitura.

Com uma pequena sala, receita mensal de R$ 6 mil e 35 voluntários, o Observatório Social de São José integra uma rede homônima de ONGs que se espalhou por cidades médias e pequenas do Brasil nos últimos dez anos – e hoje soma mais de 100 entidades em 19 Estados, com atuação forte no Sul do país. Só em Santa Catarina, 19 cidades contam com esse tipo de iniciativa, segundo o site do OSB, o Observatório Social Brasileiro.

Muitas delas, tocadas por voluntários como Jaime Klein, dedicados a monitorar os gastos de municipalidades, evitando excessos, desperdícios e desvios, e ajudando a economizar dinheiro público.

A inspiração é o Observatório Social de Maringá (PR), que surgiu em 2005 após um escândalo de corrupção na cidade.

Logo no primeiro trabalho, a entidade paranaense descobriu que uma compra de ácido acetilsalicílico (AAS), ao preço de R$ 0,009 por comprimido, tinha sido registrada na ata da licitação por R$ 0,09 – superfaturamento de 900%. Houve denúncia e restituição de R$ 63 mil ao erário.

No caso de São José, cidade de 236 mil habitantes vizinha à Florianópolis, o Tribunal de Contas do Estado obrigou neste mês a prefeitura, após denúncias do Observatório Social, a divulgar uma série de informações que faltavam no site da gestão, como relação de veículos oficiais, gastos com combustível e dívidas municipais.

Observatório Social de São JoséKlein e equipe no Observatório Social de São José: pente fino em Diários Oficiais, portais de transparência, projetos de lei e sessões na Câmara Image copyright CAIO CEZAR

“É fácil fiscalizar. O que falta é recurso. Hoje tenho uma receita de R$ 6 mil e já estamos fazendo esse barulho todo”, diz Klein, que é formado em Ciências Contábeis e ganha a vida como auditor interno no governo de Santa Catarina.

Rotina de fiscalização

Em geral, o modus operandi de Klein é o seguinte: a equipe faz um pente fino em Diários Oficiais, portais de transparência, projetos de lei e sessões na Câmara. Denúncias de moradores também entram na pauta.

Diante de casos suspeitos, solicita mais dados por meio da Lei de Acesso à Informação. Depois, encaminha questionamentos aos gestores públicos. Quando não há providências, reporta o caso aos vereadores, Ministério Público, Tribunal de Contas e Polícia Civil.

O roteiro inclui ainda a divulgação de editais públicos para aumentar a concorrência e acompanhamento de pregões de olho em lances suspeitos.

“O nosso forte hoje são as licitações. Divulgamos todas. Quando começamos, uma média de três empresas participavam dos processos. Hoje essa média subiu para 12. Com mais empresas, o preço vem para baixo e qualquer tipo de conluio cai por terra”, afirma Klein, tendo ao fundo um mapa com o custo de cada Legislativo municipal em Santa Catarina.

O auditor nasceu em família típica de agricultores do interior do Estado. Trabalhou na roça em Peritiba (a 440 km da capital) até os 15 anos, quando foi completar o ensino médio em Florianópolis.

Sede da Prefeitura de São José (SC)Sede da Prefeitura de São José (SC); denúncias de ONG suspenderam por duas vezes licitação milionária do estacionamento rotativo da cidade.
Image copyright CAIO CEZAR

Por não ter conseguido cursar universidade pública, interrompeu os estudos por vários anos. Depois se formou contador porque à época não tinha dinheiro para pagar a faculdade de Direito – curso que hoje frequenta à noite.

“Trabalhava em dois empregos antes da formatura, em 2003. Pegava seis ônibus por dia. Em outubro de 2003 prestei concurso para contador da Secretaria da Fazenda e fiquei em quarto lugar. Depois, em 2007, fiz concurso para auditor interno, e passei em primeiro lugar”, conta, orgulhoso.

Marcação cerrada

Quando recebeu a reportagem, Klein conversava com uma TV local sobre transparência nos atos públicos. Na mesma tarde, usou a internet para rebater afirmações do presidente da Câmara Municipal, que divulgava pelo Facebook supostas economias de recursos pela Casa.

Na postagem, o integrante da ONG dizia que o vereador “esquecera” de contar à população que apoiara projetos para aumentar as cadeiras e os gastos da Câmara, além de uma concorrência para construção de uma nova sede de R$ 10 milhões.

Quase invisível atrás da pilha de pastas verdes com processos na pequena sala da ONG, ele lembra como a entidade atuou para suspender, por duas vezes, a licitação milionária do estacionamento rotativo da cidade.

A concorrência acabou barrada pelo Tribunal de Contas em novembro do ano passado por incluir exigências que poderiam implicar em direcionamento da disputa, como apresentação e teste de equipamentos pelas empresas selecionadas em apenas 72 horas.

Orla de São José (SC)Orla de São José; Observatório Social da cidade integra uma rede de ONGs que se espalhou por cidades médias e pequenas do Brasil nos últimos dez anos.melhor o dinheiro público. Image copyright CAIO CEZAR

“O Observatório não é contra a Zona Azul, estacionar aqui é um problema. Mas somos contra uma licitação que não tem isonomia e igualdade de competição”, justifica.

Controle social

Um dia típico de trabalho de Klein começa por volta das 7h30. Às 8h, já está na ONG ou em reuniões fora do escritório, e às tardes exerce suas funções “oficiais” como auditor do Estado.

Ele chega a dar até cinco palestras por mês sobre controle social e transparência, e planeja viajar mais por Santa Catarina para ajudar a abrir novos observatórios – hoje são 19 no Estado. “Só não dou mais palestras pelo trabalho na secretaria e agora pela faculdade de Direito.”

Uma menina dos olhos da ONG é um projeto que deverá preparar alunos de uma universidade para acompanhar, ao vivo, a abertura de todas as licitações da prefeitura e da Câmara Municipal.

Órgãos locais de controle reconhecem a importância do trabalho da ONG, que se mantém com doações e recursos de entidades do comércio e indústria. “Essa atuação é um exemplo de como o diálogo entre instâncias de controle e sociedade civil pode aprimorar a fiscalização do uso dos recursos públicos. A consolidação do observatório deve muito a Klein”, diz Gerson Sicca, auditor do TCE-SC.

“Os observatórios sociais são hoje espaços fundamentais para que o cidadão exerça controle sobre os atos da administração pública”, avalia Cibelly Caleffi, procuradora do Ministério Público de Contas junto ao TCE-SC.

Sessão da Câmara Municipal de São José (SC)Moradores acompanham sessão da Câmara Municipal de São José; para coordenador de ONG, cidadão precisa fiscalizar os eleitos Image copyright CAIO CEZAR

Cotidiano

Para Klein, casado há 19 anos, o ideal de um dia livre é um churrasco com parentes e amigos na casa que comprou neste ano no município vizinho de Santo Amaro da Imperatriz, na subida da serra catarinense.

“É uma terapia, no meio do campo. É bem pequeno, um lote. É para sair do apartamento, porque a gente fica muito trancado”, diz ele, que já está se envolvendo na administração do condomínio rural que abriga a casa.

Evangélico, ele se diz “um pouco afastado” das atividades de diácono na Assembleia de Deus. “Porém continuo frequentando todos os finais de semana.”

O auditor também defende transparências nas diferentes denominações religiosas. “Todas as igrejas têm problemas. Onde tem pessoas tem coisas erradas. Todas as igrejas precisam de mais transparência. Algumas igrejas transformaram a fé em comércio, e isso é totalmente contrário à Bíblia.”

Sobre a descrença de muitos brasileiros com a política, afirma que o Brasil ainda precisa consolidar o que chama de “tripé da cidadania”: voto, pagamento de impostos e fiscalização dos eleitos. Para ele, o país exerce apenas os dois primeiros elementos.

“No caso dos impostos, damos um cheque em branco para as prefeituras darem contrapartida em serviços. Ninguém entrega um cheque ou procuração em branco na vida cotidiana sem cobrar resultados depois. É isso que falta na participação política do cidadão: fiscalizar os eleitos.”

Bairro hipster de Londres ganha escritório coletivo em árvore

Um pequeno escritório de aluguel foi construído em torno de uma árvore em um parque de Londres, no coração da região de Hoxton.

A área é conhecida como reduto de hipsters londrinos.
A iniciativa, uma estrutura temporária de papel e plástico, oferece aluguel de mesas de trabalho ou do escritório inteiro. Para gente como a comerciante de vinhos, Wieteke Teppema, é a solução perfeita para quem não tem uma base fixa.
“Estou sempre a caminho de algum lugar. Entre uma reunião e outra, posso me sentar, ler emails e trabalhar”, disse à BBC. Todo o lucro com os aluguéis será reinvestido nos parques da área.

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Resistir é preciso!

Edith Ballard e Shopping

Edith Ballard e Shopping 01Foto Maryjane Midgmink

Dizem que tudo na vida tem um preço.

Mas o ditado não se aplica a Edith Macefield Ballard, a mulher que fez admiradores por todo o todo o mundo, quando teimosamente rejeitou proposta de US $ 1 milhão para vender sua casa para um centro comercial em Seattle – EUA.

Edith morreu no ano passado, de câncer de pâncreas, aos 86 anos.

Ela continuou vivendo na pequena e velha casa, mesmo após as grossas paredes de concreto subirem ao seu redor quase batendo na porta de sua cozinha.

Edith Ballard e Shopping 02Foto Maryjane Midgmink

Ao morrer Edith não deixou herdeiros e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer com a velha casa de dois quartos construída em 1900.


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