Os mais belos versos da MPB

Lucinha Lins – Tango Para Nancy

“Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha”.

Chico Buarque/Edu Lobo – Tango de Nancy

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A canção expandida de Chico Buarque

Tom Jobim, maestro soberano, já dizia: Chico Buarque é craque; tem seu lugar assegurado entre os maiores na história da canção e também da literatura brasileira.Blog do Mesquita,Chico Buarque,Tua Cantiga,Música,MPB

O que se busca aqui é observar um outro campo de atividade em que o artista vem se destacando: a forma de atuação nas redes sociais e na relação com o jornalismo. As estratégias de divulgação do novo disco “Caravana” trazem novos dados ao debate que acrescentam algo em relação ao texto publicado recentemente, aqui no Observatório da Imprensa, sobre o novo trabalho dos Tribalistas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Como tem sido comum nesses tempos, a divulgação do disco se deu por “aperitivos” disponibilizados nas redes: trechos de algumas canções ambientadas no estúdio onde foram gravadas. A primeira a ser divulgada “Tua Cantiga”, parceria com Cristóvão Bastos, motivou reações de segmentos feministas que viram na letra traços machistas.

“Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante? Pelo contrário, machismo é ficar com a família e a amante” publicou o compositor em sua página no facebook acrescentando, com uma ironia fina que parece ter saltado das páginas do pasquim,  ter se tratado de conversa entreouvida na fila de um supermercado.

O passo seguinte foi a estratégia de diálogo com os jornalistas. Em vez da coletiva, a assessoria do compositor enviou para a imprensa link sigiloso para audição do álbum e texto de 14 mil caracteres do jornalista Hugo Sukman com referências literárias e musicais do novo discocontextualizando alguns aspectos de criação que dificilmente seriam identificados pela crítica.

Constituem aquilo que é chamado na teoria linguística de interdiscurso: algo que está na constituição do objeto criado- no caso as canções do disco-  mas não aparece de forma explícita, se mostra nas entrelinhas. A boa crítica busca desvendar o interdiscurso mas o resultado é, quase sempre, hipotético.

No Zero Hora, o Professor de Literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Guto Leite, por exemplo, demonstrou uma relação da canção “Tua Cantiga” com as clássicas histórias infantis como Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida ou A Rainha Má – referências também sinalizadas no texto de Sukman — para falar sobre a uma certa consciência elegante do artista com a passagem do tempo.

“Ouvir uma canção inédita de Chico Buarque é lembrar do quanto pode ser complexa uma canção. Trata-se de objeto de arte e aqui isso significa uma forma que recusa leituras rápidas ou imediatas”, escreveu o professor.

Ao explicitar o interdiscurso, Chico produz uma narrativa expandida das canções, ampliadas com o texto sobre suas inspirações. O texto de divulgação indica duas referências da canção que dá título ao disco Caravana”: uma ligada à música e a outra à literatura – os dois polos criativos da trajetória de Chico: São elas a música “Caravan” de Duke Ellington e o romance “O Estrangeiro” de Albert Camus, definido por Roland Barthes como o grau zero da escritura por sua forma minimalista de descrição dos acontecimentos.

Há uma espécie de contraste entre a exuberância do tema de Caravan e a narrativa direta de Camus presente, como interdiscurso, na letra da canção: “Sol/ a culpa deve ser do sol/que bate na moleira/ o sol”. As caravanas periféricas invadindo as praias cariocas ecoam presídios lotados e navios negreiros na melodia de inspiração jazzística. Jogada de craque: a canção e a explicitação de suas referências.

Mas não é só. A própria página de Chico no Facebook compartilhou as críticas dos principais jornais do país: do Correio Braziliense ao Estadão, fossem elas positivas ou não. E uma das canções do novo álbum “Desaforos”, o compositor fala das intolerâncias nos ambientes virtuais e espaços públicos. O conjunto das estratégias para divulgar o trabalho na rede aparentemente deu resultado.

As canções foram ouvidas, comentadas, compartilhadas e criticadas. O lançamento de “Caravana” contribuiu com sua parcela para o esforço de restaurar um ambiente dialógico no país – fundamental para reagirmos à crise ética, econômica e de linguagem –, algo que se dá na relação entre arte e vida.

A caravana do artista atravessa as bolhas algorítmicas monológicas e nos conecta com a expansão dos universos narrativos: entre Albert Camus e Chapeuzinho Vermelho, o jazz e o lundu encontramos o velho/novo Chico Buarque.
Por Pedro Varoni/Observatório da Imprensa

‘Apesar de você, amanhã há de ser outro dia’

Em tempos complicados, nos quais corruptos não mudam e pessoas se entregam ao pessimismo, sempre resta a poesia.

Ninguém é capaz de expressar sentimentos como os poetas. Sejam os nossos sentimentos ou os do conjunto de uma sociedade. E a poesia fala várias línguas ao mesmo tempo.

No Brasil, existiram poucos poetas como Chico Buarque, o genial letrista e músico que, nos duros anos da ditadura militar, expressou o sentimento da sociedade naquele momento de trevas e dramático.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A letra de uma de suas músicas mais famosas, Apesar de Você, foi à época, e continua sendo hoje, um exemplo da força da poesia, essa que sempre intrigou e irritou os poderes autoritários.

Esse poema de Chico chamou a atenção dos militares que o interrogaram para saber quem era aquele você.

Hoje o Brasil não vive uma ditadura. É uma democracia das mais firmes do continente, mas que começa a mostrar rachaduras.

Hoje o você da canção pode ser muitas coisas, até nós mesmos, que vivemos no Brasil e mostramos pessimismo diante do futuro incerto desse país.

Podem ser os políticos corruptos, que resistem à mudança, os saudosos da autoridade, os cínicos que resistem a aceitar que o Brasil, sua economia, sua democracia, sua esperança no futuro têm que crescer.

Os que continuam mais firmes em defender seus direitos e privilégios do que em pensar com generosidade no futuro da sociedade que representam.

Apesar deles, Chico poderia escrever novamente, “amanhã há de ser outro dia”.

E será, porque a sociedade brasileira irá sair mais madura do drama que está vivendo. Apesar das polêmicas e divisões, é uma sociedade que cresceu democraticamente, mais exigente com os políticos e com a democracia.

Uma sociedade que, por exemplo, já não admitiria uma guerra contra a Lava Jato que, pela primeira vez nesse país, está julgando e prendendo essa parcela do poder político e econômico que sempre se sentiu imune às punições.

Hoje, o Brasil sabe melhor do que ontem o que quer e o que não quer.

“Você vai ter que ver

A manhã renascer

e esbanjar poesia”.

Espero que o genial poeta volte hoje a ter razão como teve quando escreveu essa música, que como toda a verdadeira arte, não morre porque é atemporal.


Juan Arias/El Pais

“Down” no “high society”. O retrato de um imbecil grosseiro, por Paulo Nogueira

pedrosaNão me agrada nem um pouco expor a miséria intelectual e a falta de modos de alguém.Mas é chocante o retrato que Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo, traça do bobalhão que ofendeu as filhas e o próprio Chico Buarque pelas redes sociais.

É alguém que, pela idade e pelos ambientes que frequenta, se fosse exigir demais ter raciocínio, não seria que tivesse modos.

Tá “down” no “high society”, como cantavam há quase 40 anos a Elis Regina e a Rita Lee.

Quem é o ‘jornalista chic’ que Chico vai
processar por calúnia. Por Paulo Nogueira

Chico Buarque tomou uma grande decisão: processar quem o insulta na internet.

O primeiro da fila é o “jornalista” João Pedrosa, que chamou Chico e família de ladrões num comentário no Instagram.

Coloquei aspas em jornalista porque não se conhece nada de relevante, ou mesmo irrelevante, que Pedrosa tenha publicado na imprensa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]

Uma visita a seu Facebook revela um revoltado online e um esnobe da “alta” sociedade.

Em 2014, depois de uma decisão do STF e pouco antes da Copa, ele publicou por exemplo o seguinte texto:

“”STF decide que não houve quadrilha”. Então tá! LULADRÃO não era o chefe do mensalão, mas DILMERDA ainda é a PRESIDANTA. BLACK BLOC neles! Se nem de cadeia os políticos tem mais medo, deveriam temer a morte. O BRASIL PRECISA DE TERRORISMO! Agora juiz ladrão não é só no futebol, mas no supremo também. NÃO VAI TER COPA !!!!!!!!!!!”

Pouco tempo depois, prosseguiu:

O Supremo Tribunal Federal é uma quadrilha! O dinheiro roubado do PT não só pagou as multas como comprou os juízes ! O chefe Luladrão escapou, e agora a quadrilha também. BLACK BLOC neles ! NÃO VAI TER COPA! O Brasil chegou num ponto que a violência se justifica. Essa decisão foi feita na véspera do carnaval para enganar (de novo!) o país. A última solução é o terrorismo, ou então, vudu. País de merda!

Parêntese: um amigo de Pedrosa, o jornalista Mario Mendes, comentou neste post: “Gosto de vudu. Pratico.”

Percebe-se, aí, um doente, um psicopata, um desequilibrado que se julga no direito, publicamente, de pregar terrorismo, dizer que o STF foi comprado e chamar Lula de Luladrão e Dilma de Dilmerda.

Fora isso, decreta que o Brasil é um país de merda.

Ora, ora, ora.

Talvez aqui, no último ponto, ele tenha um laivo de razão, porque merece críticas um país que deixa alguém como Pedrosa fazer impunemente acusações tão graves.

É por isso que Chico deve receber palmas, e de pé.

Chico Buarque – Versos na tarde – 01/01/2016

Roda Viva
Chico Buarque¹

Tem dias que a gente se sente,
Como quem partiu ou morreu,
A gente estancou de repente,
Ou foi o mundo então que cresceu.
A gente quer ter voz ativa,
No nosso destino mandar,
Mas eis que chega a roda viva,
E carrega o destino pra lá.

Roda mundo, roda-gigante,
Roda moinho, roda pião,
O tempo rodou num instante,
Nas voltas do meu coração.

A gente vai contra a corrente,
Até não poder resistir,
Na volta do barco é que sente,
O quanto deixou de cumprir,
Faz tempo que a gente cultiva,
A mais linda roseira que há,
Mas eis que chega a roda viva,
E carrega a roseira pra lá.

A roda da saia, a mulata,
Não quer mais rodar, não senhor,
Não posso fazer serenata,
A roda de samba acabou,
A gente toma a iniciativa,
Viola na rua, a cantar,
Mas eis que chega a roda viva,
E carrega a viola pra lá.

O samba, a viola, a roseira,
Um dia a fogueira queimou,
Foi tudo ilusão passageira,
Que a brisa primeira levou,
No peito a saudade cativa,
Faz força pro tempo parar,
Mas eis que chega a roda viva,
E carrega a saudade pra lá…

¹ Francisco Buarque de Hollanda
* Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944 d.C


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Vinicius de Moraes – Versos na tarde – 24/11/2014

Encomenda
Vinicius de Moraes¹

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê?
como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
Nem de arbitrária fantasia …
Não … Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

¹Marcus Vinicius de Mello Moraes
* Rio de Janeiro, RJ. – 19 de Outubro 1913 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. 09 de Julho 1980 d.C

>> Biografia de Vinicius de Moraes


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