Charles Baudelaire – Poesia

Boa noite
Albatroz
Charles Baudelaire

Há marujos que, por desfastio frequente,
Caçam albatrozes, grandes aves do mar
Seguindo, companheiros da rota indolente,
O navio sobre o abismo a navegar.
Canhestros e embaraçados, esses reis
Do alto azul, mal os põem nos sobrados,
Deixam as asas, qual lasso bote a remos,
Arrastar-se, brancas e imensas nos lados.
O viageiro aéreo, agora mole, tísico,
Ave antes tão bela, que ridícula e feia!
Há quem, com o cachimbo, lhe arranhe o bico,
Há quem lhe imite o voo enfermo que coxeia.
O poeta é igual ao príncipe que afronta
As nuvens e a tormenta, e se ri da caçada;
Exilado no solo entre a arruaça tonta,
As asas de gigante impedem-lhe a passada.

Pintura de Christian Schloe

 

 

 

 

Bolsonaro e Guedes: a dupla do capitalismo da morte

Parabéns aos envolvidos! Bolsonaro e Guedes articulam congelamento das aposentadorias por dois anos e desvinculação do mínimo.

Sim o tempo reina; ele retomou sua brutal ditadura. E está-me empurrando, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão: “Vai, anda, burrico! Vai, sua, escravo! Vai, vive, maldito!” Charles Baudelaire

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Charles Baudelaire – Homem livre – Poesia

Homem livre
Charles Baudelaire

Homem livre, hás de sempre amar o mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
E nem teu ser é menos acre ao se abismar.

Apraz-te mergulhar em tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.

Mas ambos sempre sois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou teus fundos abismos,
Mar, ninguém viu jamais teus tesouros íntimos,
Porque muito sabeis guardá-los secretos!

Porém passados são séculos inumeráveis
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a crueldade e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

Charles Baudelaire – Versos na tarde – 30/08/2017

Tristeza da lua
Charles Baudelaire ¹

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos torna essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no peito.

¹ Charles Pierre Baudelaire
* Paris, França – 09 de Abril de 1821
+ Paris, França – 31 de Agosto de 1867


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Charles Baudelaire – Versos na tarde

A Uma Passante
Charles Baudelaire ¹

A rua ia gritando e eu ensurdecia,
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com as mãos suntuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado como um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efêmera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

¹ Charles Pierre Baudelaire
* Paris, França – 09 de Abril de 1821 d.C
+ Paris, França – 31 de Agosto de 1867 d.C


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Arte – Pintura Johan Jongkind

Para alguns estudiosos o artista holandês Johan Barthold Jongkind – 1819/1891 – que foi rejeitado na Primeira Mostra de Arte Impressionista, em Paris, foi responsável por influenciar artistas como Monet, Manet e Camille Pissarro.
Edouard Manet chamou-lhe o “pai das paisagens modernas” e Claude Monet foi seu pupilo. Charles Baudelaire e Emile Zola também elogiaram o seu trabalho. Catorze anos antes de a corrente do mesmo nome surgir, já Johan Jongkind mostrava nas suas telas traços do que seria o Impressionismo.

Morreu pobre e em vida não teve seu trabalho reconhecido, não tendo suas telas alcançado preços que o livrassem da miséria. No entanto, somente 10 meses após sua morte, seus quadros se valorizaram exponencialmente, chegando alguns trabalhos a valer 200 vezes mais do que enquanto estava vivo.

© Johan Jongkind, "Casas ao longo de um canal perto de Crooswijk" (Wikicommons)
© Johan Jongkind, "Paisagem perto de Roterdão" (Wikicommons).
© Johan Jongkind, "Roterdão" (Wikicommons).
© Johan Jongkind, "Paisagem perto de Nevers" (Wikicommons).
© Johan Jongkind, "Moinhos perto Roterdão" (Wikicommons).
© Johan Jongkind, "Luar em Roterdão" (Wikicommons).
© Johan Jongkind, "Porto de Roterdão" (Wikicommons)

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Baudelaire – Versos na tarde

A uma mendiga ruiva
Charles Baudelaire ¹

Ruiva e branca a aparecer
Cuja roupa deixa ver
Por seus rasgões a pobreza
Como a beleza

Para mim, poeta sem viço,
Teu corpo jovem enfermiço,
Todo manchas e agruras,
Só tem doçuras.

E calças ( muito mais bela
Que a Rainha da Novela
Com os seus coturnos brancos)
Os seus tamancos.

Em vez de molambos, mal
Que te envolva roupa real,
Chegando as ondulações
Até os talões;

Em vez de meia de crivos,
Para os olhos dos lascivos
Um punhal na perna linda
Fulgure ainda;

E laços mal apertados
Mostrem aos nossos pecados
Os teus seios a brilhar
Como um olhar;

Para seres desnudada
Tu te faças de rogada.
Possam expulsar teus braços
Dedos devassos;

Pérolas formosas, ou
Sonetos, os de Belleau
Que os galantes na prisão
Sempre te dão,

Ao grupo a dos rimadores
Dedicando-te primores,
E olhando o teu escarpim
No varandim,

Muito pagem a sonhar
E muito Senhor Ronsard
Olhariam com sigilo
Teu fresco asilo!

No leito dos teus delírios
Terás mais beijos que lírios
Tua lei dominará
Mais de um Valois!

– Contudo segue a tua lida,
Só por sobras de comida
Jogadas por distanciadas
Encruzilhadas;

E só quer teu sonho louco
Jóias que valem bem pouco
Que eu nem posso, ó Deus clemente,
Dar de presente.

Nada te orna neste instante,
Perfume, rubim, diamante,
Só tua nua magreza!
Minha beleza!

tradução de Pietro Nasseti

¹ Charles Pierre Baudelaire
* Paris, França – 09 de Abril de 1821 d.C
+ Paris, França – 31 de Agosto de 1867 d.C