Agenda ambiental de Biden deve aumentar importância geopolítica da América do Sul

Meta de zerar emissões nos EUA até 2050 deve impulsionar interesse nas reservas de Argentina, Bolívia e Chile de lítio, usado em baterias, e em energias renováveis do Brasil.

Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo

A meta ambiciosa de zerar as emissões líquidas de carbono nos EUA até 2050 é o ponto de maior destaque do “Plano para Mudança Climática e Justiça Ambiental” apresentado pelo democrata Joe Biden durante a campanha à eleição presidencial da qual se saiu vencedor, derrotando o republicano Donald Trump.

O incentivo dado aos combustíveis fósseis, bandeira do republicano nos últimos quatro anos, dá lugar aos investimentos em energias renováveis, enquanto a negação científica das mudanças climáticas cede espaço para uma adesão ao esforço multilateral pela preservação ambiental.

A partir de 20 de janeiro de 2021, Joe Biden tem o desafio de recolocar os EUA, segundo maior emissor global de carbono, no Acordo de Paris. A saída do acordo costurado em 2015, anunciada por Trump meses depois de sua chegada à presidência, se concretizou no último dia 4 de novembro.

Espera-se que Biden seja mais rigoroso com as obrigações climáticas e ambientais em atividades intensivas em CO2, como a indústria de petróleo e gás, simpática à tradição republicana e que teve momentos auspiciosos com Trump.

Caso o novo presidente dos EUA realmente coloque em prática o seu plano climático e ambiental, a América do Sul deverá alcançar outro patamar de importância no xadrez internacional da geopolítica.

Lítio: “petróleo branco”

Para reduzir as emissões, Biden terá que estimular as alternativas existentes aos combustíveis fósseis. No caso da indústria automotiva, por exemplo, deve-se esperar por incentivos à massificação dos carros elétricos.

O processo de “eletrificação” é inerente à transição para uma economia de baixa emissão de carbono, em todas as áreas. Nesse cenário, não haverá mineral mais importante que o lítio, principal matéria-prima utilizada na fabricação de baterias. Não à toa, o elemento é chamado de “petróleo branco”.

Mantida a comparação com o combustível que moveu o mundo no século 20, a América do Sul seria uma espécie de Oriente Médio. Bolívia, Argentina e Chile formam o “triângulo do lítio”, região que concentra 68% das reservas do mineral no mundo.

Recentemente empossado como presidente da Bolívia, Luis Arce afirmou que o lítio é o passaporte para o desenvolvimento econômico e social do país andino. Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo.

Mas há uma diferença conceitual entre “reserva” e “recurso”. Reserva é o depósito de teores minerais, o que a Bolívia detém. Recurso, por sua vez, é aquilo que é extraído da reserva, algo que a Argentina e o Chile já estão fazendo.

“O mercado de lítio ainda é caracterizado por inúmeras empresas, mas poucos projetos são viáveis”, explica Emily Hersh, vice-presidente executiva da U.S. Critical Minerals, empresa de exploração mineral estadunidense.

“A América Latina abriga uma grande variedade de depósitos de lítio em vários estágios de desenvolvimento. Os países que investem em infraestrutura e demonstram compreensão da cadeia de fornecimento de baterias irão emergir como líderes no novo futuro energético”, afirma a especialista.

Atualmente, a China é o maior produtor mundial de lítio. No contexto da guerra comercial entre os dois países, é crucial para a segurança energética dos EUA no século 21 reduzir a dependência do mineral em relação ao país asiático.

Oportunidades para o Brasil

O economista Edmar Almeida, pesquisador do Instituto de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a demanda dos EUA pode gerar oportunidades para produzir baterias no Brasil e outros países da região que detêm lítio.

“À medida que a indústria de bateria ganhe terreno, a questão da cadeia produtiva da bateria assumirá um caráter estratégico. O Brasil já tem uma indústria de bateria bem consolidada, podendo abrir novas oportunidades”, assinala.

Almeida acredita, todavia, que a maior oportunidade de cooperação para o Brasil reside no segmento de energias renováveis, vetor fundamental da transição energética almejada por Biden. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, com cerca de 46% da energia produzida proveniente de fontes renováveis.

“É uma área em que o Brasil possui acordos com o governo americano, e o país já tem uma indústria renovável muito desenvolvida, com grande potencial de crescimento”, afirma.

O economista destaca, ainda, o potencial apresentado pelo país em programas de hidrogênio verde, solução escolhida pela Alemanha e pela União Europeia como meio para alcançar neutralidade na emissão de carbono até 2050 e fazer a transição para uma economia limpa.

“O fato de termos uma indústria elétrica já bastante descarbonizada cria condições únicas para a produção de hidrogênio verde, que não existem em outros países. O Brasil pode alavancar investimentos em projetos de P&D, projetos-piloto e projetos comerciais em hidrogênio verde. Temos uma chance única”, diz.

Amazônia: ponto sensível

A preservação da Amazônia se apresenta como o tema potencialmente mais delicado da relação do governo de Jair Bolsonaro com o novo presidente dos EUA.

Recentemente, Bolsonaro insinuou um conflito militar com a maior potência armamentista do mundo em resposta à ameaça feita por Biden na campanha de impor sanções comerciais ao Brasil pelas queimadas na região: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”, disse o presidente brasileiro no dia 10 de novembro, durante um evento de fomento ao turismo nacional.

Os planos de Biden para a preservação da floresta não se limitam às possíveis retaliações econômicas. Durante a campanha, ele propôs a criação de um fundo de 20 bilhões de dólares (cerca de 100 bilhões de reais) com outros países para garantir a proteção da Amazônia.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro recusou ajuda financeira de países do G7, anunciada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para combater os incêndios florestais na Amazônia. A decisão foi atribuída à necessidade de manter a “soberania” sobre a região, termo citado por três vezes durante seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU deste ano.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o descaso do governo Bolsonaro com a agenda ambiental e a Amazônia tende a deixar o Brasil em uma posição vulnerável em um cenário de aumento das pressões internacionais sobre o país.

“Para garantir a soberania sobre a Amazônia, o Brasil precisa preservá-la. Somos um dos maiores emissores de CO2 do mundo, e as nossas emissões são, em sua maior parte, provenientes de queimadas. É um padrão de emissões diferente das grandes potências industrializadas”, destaca.

Eleições 2020 nos EUA: A mídia, a continuidade do golpe e o enterro da democracia

Foto: OAS (Missão de Observação Eleitoral nas Eleições dos Estados Unidos, Washington DC)

“…a guerra híbrida é o novo horizonte de estratégias dos EUA para a troca de regime. Ela preserva os EUA dos riscos políticos e militares associados à intervenção direta e é muito mais econômica”.
(Andrew Korybko)

A semana dominada pela cobertura das eleições norte-americanas – provocando engajamentos e emoções que, desta vez, ultrapassaram o provincianismo habitual do brasileiro, chegando a manifestações bizarras nas ruas e redes sociais – mostrou como a chamada “guerra híbrida”, não linear, orienta as atenções e as opiniões do público, prolongando a mentalidade conservadora, colonizada e a naturalização do golpe político.

Entre as histórias recentes de nossos vizinhos que passaram por dramas semelhantes a nossa, vimos a Bolívia reagindo a um governo golpista com resistência nas ruas e no voto; e o Chile refundando o país após um ano de greves e mobilizações incessantes, recusando o Estado ausente socialmente e servil ao mercado (que vem sendo implantado no Brasil). Mas esses casos receberam apenas uma fração mínima da atenção da mídia nacional. A justificativa não é dada, é naturalizada: parece claro a todos que a eleição no país dominante é mais importante para o nosso cotidiano do que a dos nossos pares. Mesmo que nossos companheiros de escravidão reajam ao verdugo, mostrando caminhos de fuga.

O marketing governamental atrelou o governo Bolsonaro a Trump, um laço que se aperta na defesa do livre mercado e no campo moral e religioso. Uma proximidade que não traz quaisquer vantagens econômicas para o lado brasileiro, mas que reforça a sensação de uma cruzada cristã, branca e retrógrada, que preserva as diferenças socioeconômicas mas rejeita a diversidade cultural. Dado este nó, a mídia convence quem está (ou sente-se) de fora do pacto, defendendo que toda postura que integre as pautas identitárias (mas preserve a primazia do mercado) é a única oposição possível aos governos conservadores. Assim sendo, duas candidaturas similares em sua essência surgem à plateia como inimigos figadais, em um cenário anunciado como a maior democracia do mundo.

O show

Garantido o ingresso, o brasileiro se portou como se espera em um programa de auditório. Muitos assistiram com constrangimento a cidadãos apoiadores de Trump saírem às ruas em algumas capitais. Por outro lado, poucos tiveram a dignidade de se sentirem embaraçados com o entusiasmo da esquerda em relação à candidatura Biden. E raros notaram os esforços heroicos dos jornalistas para explicar um sistema eleitoral mal ajambrado e obtuso, cuja única intenção é a de mitigar o poder do voto e da representatividade. Eles conseguiram dar um tom racional a um sistema que sequer possui uma Justiça Eleitoral ou um mecanismo oficial para contabilização dos votos.

Salas de conferência inundadas, apuração estancada porque os conferentes tinham sono ou porque faltou tinta na impressora, unidades da Federação com diferentes métodos de apuração e de indicação de delegados… Sem falar nos malabarismos comoventes para explicar que um candidato com milhões de votos a mais não é necessariamente eleito. Também foi difícil descrever manifestações violentas de republicanos que pediam o fim da contagem de votos em um Estado e a não interrupção da contagem em outro.

O que o mundo viu está a anos-luz de distância de nossas urnas eletrônicas, ou do pleito boliviano que garantiu o voto em vilarejos isolados nos Andes, ou das eleições venezuelanas, consideradas pela CEELA (Conselho de Especialistas Eleitorais Latino-Americanos), em 2018, como “um dos melhores processos da América Latina”, pelo “modo como todo o processo eleitoral é verificado – antes, durante e depois das eleições –, a rapidez com que são transmitidos os resultados e a aposta na tecnologia, tanto no processo de votação como no de escrutínio”. O mundo viu, em plena sede do Império, um caos sujeito à judicialização, bravatas, regras estabelecidas por algum critério válido em antiquários e um desprezo monumental pela escolha popular.

O silêncio também imperou sobre fatos que não poderiam ser explicados no roteiro do espetáculo apresentado. Por que, segundo pesquisa da Forbes, bilionários americanos preferem Biden? Por que Trump, embora tenha pedido nestes grupos, dobrou seus votos entre negros e latinos? Por que todas as pesquisas (que mostravam uma onda azul) não chegaram nem perto da realidade?

Vale lembrar que a cobertura jornalística é bancada por poucas empresas, aqui e no exterior. Quase todas as agências de notícias internacionais possuem sede nos EUA. E, como lembra Andrew Korybko em “Guerras Híbridas”, nos noticiários de televisão e das agências de notícias há o desprezo ou a criminalização dos movimentos sociais e de resistência política. As conquistas da sociedade civil são negadas, a prevalência do mercado jamais é posta em dúvida. Os conglomerados midiáticos são parceiros da estratégia de despolitização da opinião pública, recortando a realidade, jogando com desinformação, apoiando o lawfare, narrando com normalidade interferências eleitorais externas, criando explicações de governos e selecionando quem serão seus adversários.

Os movimentos populares que garantem o governo venezuelano, que asseguraram a volta do MAS na Bolívia e que estão derrubando o neoliberalismo de guia turístico no Chile permaneceram nas ruas e entenderam o papel das mídias locais. Enquanto isso, boa parte da “resistência” brasileira está comprando fogos para comemorar a vitória de Biden. E acreditando que movimentos como Ele Não ou Black Lives Matter são revolucionários. E erguendo as mãos aos céus pela “salvação da Amazônia”.

Nesta guerra sem conflitos armados, continuaremos sendo derrotados pela mídia.

Febre do lítio: avanço global do ‘petróleo branco’ é estratégica para América Latina

Em meio à nuvem negra que paira sobre a indústria de mineração global, há um ponto brilhante e esperançoso: o lítio.

AFP
O interesse pelo lítio é tal que um banco de investimentos o apelidou de “o novo petróleo” – Image copyright AFP

Este ano parece ser chave para a decolagem da produção desse metal, indispensável para o funcionamento de muitas baterias de carros elétricos e outros dispositivos de alta tecnologia, incluindo iPhones.

Por isso, enquanto os produtores de petróleo lamentam seus infortúnios e as empresas de mineração tentam sobreviver ao naufrágio dos mercados, o setor de lítio vive bons momentos.

E isso promete trazer grandes benefícios a vários países sul-americanos, liderados por Argentina, Chile e Bolívia.

‘Nova Gasolina’

O preço do lítio importado da China dobrou em dois meses, entre novembro e dezembro de 2015, atingindo US$ 13.000 por tonelada, de acordo com a revista The Economist.

O interesse pelo metal é tamanho que o banco de investimentos Goldman Sachs o apelidou de “a nova gasolina”.

Um relatório da consultoria americana Allied Market Research estima que o mercado mundial de baterias de lítio poderia valer US$ 46 bilhões em 2022.

Parte da euforia tem a ver com o anúncio do empresário Elon Musk no início deste mês sobre seu desejo de expandir a produção dos carros elétricos Tesla.

Centenas de milhares de pessoas encomendaram com antecedência o novo Modelo 3, e o empresário está construindo uma fábrica gigante de baterias para os carros no deserto de Nevada, nos Estados Unidos.

“Para produzir 500.000 veículos por ano, basicamente precisamos absorver toda a produção de lítio no mundo”, disse Elon Musk em entrevistas.

Minas latinas

E esse é apenas um dos concorrentes do mercado de carros elétricos, sem mencionar os produtores de pilhas para computadores e outros dispositivos eletrônicos, que também precisam garantir boas fontes de lítio.

Cultura RM AlamyBolivia tem entre suas bonitas paisagens o Salar de Uyuni que é, talvez, o mais depósito do mineral. Image copyright Cultura RM Alamy

Na América Latina, há razões para olhar com muito interesse essa corrida: três nações localizadas em uma espécie de “triângulo de ouro” do lítio concentram reservas importantes do metal.

Argentina, Bolívia e Chile estão na mira da indústria mineira. Os três países agrupam cerca de 60% das reservas conhecidas de lítio, de acordo com estudos realizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em Inglês).

Isso levou a revista norte-americana Forbes a declarar há alguns anos que a área é a “Arábia Saudita do lítio”, em uma referência à abundância de petróleo no país do Oriente Médio.

Entre a paisagem colorida do Salar de Uyuni, a Bolívia tem o que pode ser o maior depósito do mineral.

Mas, de acordo com o especialista boliviano em lítio Ballivian Oscar Chávez, o grande problema da Bolívia é que o lítio de seu salar está muito misturado com magnésio, e insumos caros são necessários para separá-los.

Além disso, há fortes restrições a investimentos estrangeiros impostas pelas autoridades.

Isso embora o governo do presidente Evo Morales venha procurando estabelecer condições às multinacionais interessadas em explorar o lítio para permitir que o país sul-americano mantenha um controle significativo da indústria.

Morales diz que não quer repetir a história de mineração do país, em que entidades estrangeiras por séculos exploraram os recursos bolivianos sem deixar grandes benefícios para as comunidades locais.

A produção em larga escala na Bolívia ainda não começou. Mas há planos com uma fábrica estatal experimental de produção de carbonotado de lítio no Salar de Uyuni.

ReutersNa Bolívia, produção de lítio é complicada pela mistura do mineral com magnésio
Image copyright Reuters

Investimento estrangeiro

Na Argentina e no Chile, por sua vez, várias empresas privadas já extraem o metal, embora, como na Bolívia, alguns dizem que os esforços dessas nações deveriam concentrar-se na produção de baterias, de maior valor agregado, em vez de simples remoção do metal.

O Chile é responsável por cerca de 33% da oferta mundial de lítio.

Para o mercado, a chegada ao poder na Argentina de Mauricio Macri, um presidente simpático ao investimento estrangeiro, vai dinamizar a entrada de capitais externos no setor de exploração do lítio.

ReutersEvo Morales procura estabelecer condições para que Bolívia mantenha controle de sua indústria – Image copyright Reuters

Empresas japonesas, americanas, australianas e de vários países europeus participam, com planos ou projetos em curso, desta corrida para garantir fontes de lítio.

No entanto, como acontece com muitos outros setores de mineração na América Latina, há aqueles que alertam para possíveis consequências sociais e ambientais desse crescimento.

As paisagens quase intactas das grandes salinas andinas podem ser condenadas a desaparecer para satisfazer à demanda externa por baterias.

E ainda não se sabe se as comunidades que vivem no seu entorno receberão os benefícios de ser o epicentro mundial da produção da “nova gasolina”.
BBC

América Latina vive o fim da era dourada da esquerda no poder

Maduro conversa com Morales e Correa, em uma reunião na Bolívia.
Maduro conversa com Morales e Correa, em uma reunião na Bolívia.
Fot: Jorge Abrego/efe

Depois de anos de grande crescimento e inclusão social, a crise econômica e uma sociedade latino-americana nova, com gerações exigentes que demandam mais e melhor democracia e não toleram a corrupção nem o poder absoluto, estão derrubando um a um quase todos os Governos da região.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A Argentina viveu o início do eixo bolivariano, com a reunião de Mar del Plata de 2005, que marcou uma década de afastamento dos EUA e de políticas contrárias à ortodoxia econômica. O país austral também marcou o final, com a derrota do kirchnerismo em novembro passado, depois de 12 anos no poder. Só três semanas depois foi a vez das eleições na Venezuela, que representaram o princípio do fim do chavismo no poder com a conquista de dois terços do Parlamento pela oposição.

Agora a Bolívia também diz não à continuidade de Morales depois de 2019. O presidente equatoriano, Rafael Correa, também com problemas, anunciou que não tentará a reeleição em 2017.  E em poucas semanas, em abril, o Peru deve concluir o ciclo com a saída de cena de Ollanta Humala e o provável regresso de um Fujimori ao poder.

O Brasil, por outro lado, vive uma crise política econômica e política permanente, e o Partido dos Trabalhadores, que governa o país há quase 13 anos, corre sérios riscos de não fazer um sucessor para a presidenta Dilma Rousseff em 2018, quando o ex-presidente Lula, que governou o país de 2003 a 2010, poderia se candidatar novamente. Mas, denúncias de corrupção ininterruptas na mídia que atingem o próprio Lula e outros membros do partido, além de uma recessão que já entra no seu segundo ano, reduzem as chances de que esse intento seja bem-sucedido.

Algo parece evidente: na América Latina há correntes de fundo. Nos anos noventa triunfou o liberalismo. O início do século XXI chegou com um forte grito anti-neoliberal. Agora há uma guinada à direita? Ninguém parece corroborar com essa tese.

Os dados indicam, na verdade, que os cidadãos latino-americanos, sobretudo as novas gerações, depois de conseguir uma maior inclusão social e um aumento da classe média, querem mais, e se tornaram muito críticos com o poder. Reconhecem as conquistas de seus Governos mas não se conformam.

Morales, por exemplo, tem boa avaliação, poderia ganhar as eleições, mas quando esta semana perguntou-se se a população lhe permitiria mais uma reeleição, a ideia foi rechaçada com 51,3%. Querem mudança. Na Argentina, aconteceu algo parecido. Cristina Fernández de Kirchner tinha uma alta avaliação, mas, quando quis mudar a Constituição para poder continuar, perdeu em 2013 as eleições intermediárias, propostas quase como um plebiscito.

Os dados indicam, na verdade, que os cidadãos latino-americanos, sobretudo as novas gerações, depois de conseguir uma maior inclusão social e um aumento da classe média, querem mais, e se tornaram muito críticos com o poder.

Contra a corrupção

Em todos os países há uma linha comum: os protestos exigem maior transparência, luta contra a corrupção e uma troca geracional. A Bolívia foi o país com maior crescimento econômico do eixo bolivariano. No entanto, como aconteceu a seus correligionários, diante do enfrentamento da economia e do surgimento de casos de corrupção, optou por defender-se recorrendo a um discurso do qual os cidadãos parecem já cansados: uma conspiração orquestrada pelos EUA.

O fim da década dourada das matérias-primas também tem muito a ver com esta mudança de ciclo. As economias latino-americanas cresceram, entre 2003 e 2012, acima de 4%, segundo dados da CEPAL. Desde os anos sessenta, a região não registrou um período tão intenso. No entanto, as previsões do Fundo Monetário Internacional destacam que a economia latino-americana acabará 2016 com uma recessão do 0,3%.

A queda das matérias-primas é a principal causa. Entre 2011 e 2015, a queda dos preços dos metais e da energia (petróleo, gás e carvão) foi de quase 50%, segundo a CEPAL. Só em 2015, os produtos energéticos caíram 24%.

Estes anos de bonança e Governos de esquerda mudaram muitas coisas no continente. Durante a década de ouro, entre 2002 e 2012, os níveis de pobreza caíram de 44% para 29%, enquanto que os de pobreza extrema diminuíram de 19,5% para 11,5%, com um aumento considerável das classes médias.

Também houve um aumento notável do gasto público. E isso implicou em inclusão social. Uma amostra: entre 1999 e 2011, segundo a Unesco, o nível de escolarização inicial passou de 55% a 75%. No entanto, os cidadãos não se conformam. Querem mais e melhor. E tudo indica que quase nenhum Governo ficará em pé diante desta onda.
El País

Como o segundo maior lago da Bolívia desapareceu?

“Temos um lago que desapareceu, agora é pampa; um deserto onde não se pode semear nada, nem produzir; não há nada, muito menos vida.”

ReutersO lago Poopó virou um deserto

Com essas palavras, o dirigente camponês Valerio Rojas descreveu à agência de notícias Efe a situação do lago Poopó, o segundo maior da Bolívia, atrás do Titicaca.

O lago de água salgada, localizado no departamento de Oruro, que faz fronteira com o Chile, tinha uma extensão de 2.337 quilômetros quadrados.

Mas agora ele foi reduzido a três áreas úmidas, espécies de charcos, de menos de um quilômetro quadrado e apenas 30 centímetros de profundidade.

A catástrofe vinha sendo anunciada há anos e tem um forte impacto ecológico, econômico, social e político.

Ela representa a destruição de todo um ecossistema, a perda de espécies centenárias de fauna e flora, o desaparecimento de culturas pelo êxodo de comunidades que sobreviviam do lago e a falta de ações efetivas para enfrentar a seca.

ReutersUm lago de 2.337 km² foi reduzido a poucas áreas úmidas

Perdas ambientais e humanas

Segundo especialistas, cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e uma grande variedade de plantas desapareceram com a seca do Poopó.

O ornitólogo Carlos Capriles disse ao jornal boliviano La Razón que, entre as aves que foram forçadas a abandonar o lugar, havia três espécies de flamencos ameaçados de extinção.

“Com o desaparecimento do Poopó, o habitat (das aves) se reduz e aumenta o risco de extinção”, explicou Capriles.

O especialista explicou que o lago era o ponto de descanso de aves migratórias que se deslocavam do norte para o sul. “Falamos de cerca de 200 espécies que pereceram ou foram para outras áreas.”

ReutersSegundo ambientalistas, cerca de 200 espécies migraram ou morreram

Outros ativistas ambientais acrescentam que numerosos mamíferos, répteis e anfíbios ficaram sem habitat e alimento com a transformação do lago em praticamente um deserto.

Mas o pior aconteceu com os peixes, segundo Capriles. Eles não puderam migrar, como os outros animais, e morreram no local.

O Ministério do Meio Ambiente e Água confirmou a perda de uma grande quantidade de espécies únicas, ainda que não se saiba a quantidade exata. Eles planejam realizar uma contagem.

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias, em sua maioria de pescadores do lago, foram afetadas.

Com o deslocamento forçado também desaparece a cultura da comunidade, que sobrevivia do próprio lago Poopó em uma economia de subsistência.

Causas do desastre

A bacia do Poopó foi declarada, em 2002, um ecossistema de importância internacional onde a água é o principal fator que controla o ambiente, assim como a vegetação e a fauna.

Mas então como ele desapareceu?

As razões são complexas e vão desde os efeitos climatológicos e manejo problemático de recursos aquíferos até a atividade humana, a contaminação e a falta de atenção a um desastre que todos já viam que estava prestes a ocorrer.

ReutersPeixes foram os mais atingidos

As análises do governo apontam o fenômeno El Niño e o aquecimento global ocasionado pelos países industrializados como culpados.

O vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, Carlos Ortuño, cita dados científicos que estabelecem que a temperatura mínima aumentou 2,06º C nos últimos 56 anos, e que o El Niño provocou secas desde outubro.

A falta de água como fruto da ação humana também é apontada como uma das causas.

Os lagos Poopó e Titicaca dependem da entrada de água do rio Desaguadero. Mas um plano diretor da década de 1990 acabou privilegiando o Titicaca, impedindo a passagem de água para a bacia do Poopó.

Além disso, o próprio rio foi afetado pela atividade humana, que o usa para seus cultivos, sistemas industriais e de mineração.

A seca se deve, em parte, ao aquecimento global e ao fenômeno El Niño

Esta última atividade causa contaminação. Oruro é um departamento mineiro e a extração, há anos, é feita de forma “não responsável”, disse o vice-ministro Ortuño.

Mas ele também destacou a má administração de um fundo que foi feito para evitar a seca do lago.

Em 2010, a Bolívia e a União Europeia firmaram um acordo segundo o qual haveria um fundo de cerca de US$ 15 milhões para para o programa Cuenca Poopó (Bacia Poopó).

O ex-prefeito de Oruro, Luis Aguilar, em cuja gestão foi assinado o acordo, disse que seu sucessor foi “mal assessorado” no manejo do dinheiro, que foi usado para “projetos sem sentido” e foi “esbanjado” sem conseguir a recuperação do lago, de acordo com o jornal La Razón.

O ex-diretor do Serviço Departamental Agropecuário, Severo Choque, diz que também “não se priorizou de maneira adequada o trabalho específico no lago”.

Recuperação, um desafio

Vários críticos pediram que seja realizada uma investigação para descobrir os responsáveis pela falta de ação que permitiu o desastre.

“O custo desse desastre deve ser manejado com absoluta rigidez na identificação de seus responsáveis”, escreveu o colunista do jornal La Prensa Enrique A. Miranda Gómez.

Ele pediu que fosse colocada em prática uma política sustentável de “reprocessar o curso das água que vêm do Titicaca e investir em ajuda para populações afetadas, dando a elas infraestrutura produtiva, apoio social e sobretudo segurança aos mais jovens”.

ReutersMau uso da água também contribuiu para desaparecimento do lago

Na terça-feira, o governo boliviano e o departamento de Oruro anunciaram um plano para “reconstruir” o lago Poopó.

O vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, Carlos Ortuñez, e o governador de Oruro, Víctor Hugo Vásquez, informaram que seriam destinados US$ 3,25 milhões principalmente para ajuda humanitária e trabalho técnico sobre a corrente de água que chega ao Poopó através do rio Desaguadero.

Também citaram um financiamento internacional para o chamado Plano Diretor da Bacia do Poopó que vai exigir, segundo eles, US$ 130 milhões.

Este, segundo Ortuñez, será o “maior desafio” do governo para conseguir executar o plano que será elaborado por especialistas nacionais e internacionais.

Mas, enquanto isso, o segundo maior lago da Bolívia segue parecendo um deserto.
BBC

Criticada no passado por estatizações, Bolívia arranca elogios por expansão e estabilidade

Evo Morales (Reuters)

Políticas sociais adotadas no governo de Evo Morales triplicaram renda e reduziram desigualdade

“Sem o FMI, estamos melhor”. A declaração do presidente boliviano, Evo Morales, durante a abertura de uma conferência internacional sobre os direitos indígenas na última segunda-feira, em Santa Cruz de la Sierra, foi apenas sua mais recente crítica ao Fundo Monetário Internacional.

Em fevereiro, ele disse que a instituição deveria ressarcir os danos que causou ao longo de 20 anos de políticas neoliberais na América Latina.

As constantes críticas contrastam com o tom elogioso do último relatório do fundo sobre o país, que parabeniza a Bolívia por sua boa gestão econômica e pelo rápido crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

Os números preliminares indicam que a nação mais pobre da América do Sul cresceu 6,5% no ano passado, o melhor resultado em três décadas. Mas não se trata de um dado positivo isolado. De 2007 a 2012, a expansão anual média do PIB no país foi de 4,8%. E, para este ano, o FMI projeta um crescimento acima de 5%.

Política prudente

Analistas de mercado atribuem os bons números a uma política econômica prudente que soube aproveitar o cenário favorável de alta do preço do gás – principal produto boliviano.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

“Há vários anos, o desempenho macroeconômico da Bolívia tem sido muito bom. Essa performance, ativamente apoiada em políticas sociais, ajudou a aumentar em quase três vezes a renda média da população e reduziu a pobreza e a desigualdade”, afirmou recentemente Ana Corbacho, economista que chefiou a última missão de monitoramento do FMI ao país, em conferência com jornalistas.

Além de incensada pelo FMI, a administração do autointitulado governo socialista também é bem avaliada pelo Banco Mundial e a Economist Intelligent Unit – consultoria ligada à revista inglesa The Economist, crítica costumaz do ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega. A agência de classificação de risco Moody’s também tece elogios à administração Morales e reconhece até mesmo aspectos positivos na nacionalização do setor de petróleo e gás em 2006.

Arrecadação crescente

O último relatório anual da instituição sobre o país diz que, apesar de estatizações em geral terem impactos negativos “no clima de negócios” e “enfraquecerem” a produção no setor de energia, “no caso da Bolívia, a nacionalização do setor de hidrocarbonetos (petróleo e gás) claramente fortaleceu as receitas do governo”.

Carlos Villegas, presidente da empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (Reuters)
Estatização de petrolíferas gerou mais receita ao governo

Com arrecadação crescente, a administração Morales conseguiu reduzir consideravelmente a dívida pública, elevar os investimentos e acumular reservas internacionais de US$ 14 bilhões – o equivalente à metade do PIB boliviano, segundo o FMI.

E apesar da estatização de alguns setores da economia, o país passou a atrair mais capital externo produtivo. Nos últimos quatro anos, a entrada do chamado investimento estrangeiro direto ficou em média em 3,5% do PIB boliviano, uma taxa relativamente alta.

O único problema é que os recursos estão muito concentrados no setor de gás – são investimentos de empresas que agora atuam como fornecedoras de serviços para o governo, observa Sarah Glendon, analista da Moody’s. Com isso, a economia não tem se diversificado.

Revertendo privatizações

O governo de Morales diz que nacionaliza apenas setores estratégicos que eram do Estado antes da leva de privatizações dos anos 90, recomendada pelo FMI. São empresas de petróleo, gás, eletricidade, telecomunicação, transporte aéreo e ferroviário e de alguns metais – quase todas já estatizadas, em geral após o pagamento de alguma compensação.

As medidas teriam respondido aos anseios populares. A população não viu benefícios após as privatizações dos anos 1990, período em que a desigualdade social cresceu, e isso levou a anos de instabilidade política, diz a analista da Moody’s. Antes de Morales, a Bolívia teve quatro presidentes em menos de cinco anos.

O atual presidente chegou ao poder em 2006, se manteve no cargo em 2009 em eleições antecipadas e poderá concorrer ainda a um terceiro mandato em outubro. Ele lidera as pesquisas com folga.

A previsibilidade política acaba favorecendo os negócios, afirma Glendon. “Apesar de muitos investidores se preocuparem com o perfil de esquerda e intervencionista do governo de Evo Morales, sua administração fez uma boa gestão macroeoconômia e trouxe anos seguidos de estabilidade política que não existia antes”.

Vulnerabilidades

Mercado de coca em La Paz (AP)
Apesar dos avanços, país ainda é pobre e precisa diversificar sua economia

Mas, apesar de todos os avanços, a Bolívia ainda permanece um país pobre e com uma economia pouco diversificada. A renda per capita é de cerca de US$ 2.700 por ano (no Brasil tem sido acima de US$ 10 mil nos últimos anos), e o setor de petróleo e gás responde por metade das exportações e um terço das receitas do governo. Quase todo o combustível é vendido para apenas dois países – Brasil e Argentina.

As mesmas instituições que elogiam a atual gestão dizem que o governo precisa melhorar mais o ambiente de negócios para atrair recursos para outros setores, com objetivo de sustentar um crescimento mais dinâmico e perene num horizonte longo.

No curto prazo, porém, os analistas vêem poucos riscos para a atual trajetória de expansão econômica, apesar da expectativa de que o governo vai acelerar os gastos neste ano eleitoral, pressionando as contas públicas.

“Muito coisa teria que dar errado para a Bolívia viver uma nova crise como há 15 anos”, acredita Federico Barriga, analista da Economist Intelligence Unit.

Para Ana Corbacho, do FMI, “a economia boliviana está em uma posição muito confortável para enfrentar possíveis choques externos”, graças às robustas reservas internacionais.

“Estamos mostrando ao mundo inteiro que você pode ter políticas socialistas com equilíbrio macroeconômico”, disse o ministro da Economia e Finanças, Luis Arce, em entrevista recente ao jornal The New York Times. “Tudo o que nós fazemos é com objetivo de beneficiar os pobres. Mas você tem que fazê-lo aplicando a ciência econômica”.
Mariana Schreiber/BBC

Narcotráfico: documento do Itamaraty confirma acusação de Serra à Bolívia

Documento do Itamaraty enviado à Câmara dos Deputados mostra que o aumento da oferta de cocaína no Brasil é consequencia do crescimento da produção durante o governo de Evo Morales.

A Bolívia, segundo o relatório, ao mesmo tempo que aumenta a repressão ao tráfico, paradoxalmente, estimula a produção de folha de coca.


Documentos oficiais produzidos pelo governo durante a gestão do presidente Lula reforçam a acusação de José Serra (PSDB) contra o governo da Bolívia.

O pré-candidato acusou o governo boliviano, na última quarta-feira, de ser “cúmplice” dos traficantes que enviam cocaína para o Brasil.

Em reação, a rival petista Dilma Rousseff disse que Serra “demoniza” a Bolívia.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Dados colecionados pelo governo, porém, avalizam a versão do tucano.

Sob condição de anonimato, uma autoridade da Divisão de Controle de Produtos Químicos da Polícia Federal falou à Folha que, segundo relatórios oficiais da PF, 80% da cocaína distribuída no país vem da Bolívia -a maior parte na forma de “pasta”.

O refino é feito no Brasil.

Para a PF, a evolução do tráfico revela que há “leniência” do país vizinho.

Serra usara uma expressão análoga: “corpo mole”.

A PF atribui o fenômeno a aspectos culturais, pois o cultivo da folha de coca é legal na Bolívia.

O produto é usado de rituais indígenas à produção de medicamentos. Seu excedente abastece o tráfico

Num documento endereçado à Comissão de Relações Exteriores da Câmara, em 2007, o Itamaraty disse que, “entre 2005 e 2006, a área de produção de folha de coca na Bolívia cresceu de 24.400 para 27.500 hectares”.

Folha de S.Paulo

Eleições 2010: Marina Silva, Serra, cocaína e Bolívia

Evo Morales, sabe-se lá por quais razões, ao romper com a DEA — sigla em inglês para Departamento Anti-Drogas dos Estados Unidos — , Lula protestou contra as sanções impostas pelos USA à Bolívia. Frise-se que além do Brasil ficaram ao lado de Evo Morales, Venezuela, até aí nenhuma surpresa e, pasmem a Espanha. Esse é o tipo de apoio que deixa o mundo perplexo, pois o combate às drogas é uma unanimidade global, independente de cores ideológica.

Com esse apoio, Lula, com o Brasil controlado pelo narcotráfico, abriu um flanco para que José Serra possa bater em uma questão crucial que incomoda toda a sociedade brasileira. Pode-se dizer que Lula pode transformar em pó — com trocadilhos, por favor — boa parte do percentual de aprovação ao seu (dele) governo. Serra, nas entrelinhas, deixa a indagação: será que os interesses políticos de Lula estão acima da proteção aos jovens do Brasil? Acredito que com a sociedade brasileira seriamente preocupada com o avanço do consumo de drogas, principalmente pelo devastador “crack”, subproduto da cocaína, Serra tem um excelente tema para o palanque eleitoral. Dificilmente se encontra um eleitor que não apoie o combate às droga.

Sábado, em Cuiabá, Serra voltou a acusar Lula, pela falta de segurança pública, e a Bolívia pela entrada de cocaína no território brasileiro: “O presidente da República é o culpado pela falta de segurança, porque ele é o corresponsável”.

E completou: “Noventa por cento da cocaína consumida no Brasil vem da Bolívia”.

Serra não é nenhum neófito. Bater na Bolívia é como bater penalty sem goleiro.

O Editor


A pré-candidata do PV à Presidência, Marina Silva, criticou neste sábado, em Campinas, as declarações do adversário José Serra (PSDB) sobre o combate ao narcotráfico na Bolívia.

Para ela, não se pode fazer generalizações neste caso.

Nos últimos dois dias, Serra acusou o governo boliviano de ser cúmplice do narcotráfico e de fazer “corpo mole” para resolver o problema.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

– Não é assim que se trata um país irmão. Acho que a gente tem que ter muito cuidado na relação com os países e, sobretudo, com nossos vizinhos para não fazermos generalizações.

Os problemas que são enfrentados em relação ao narcotráfico na Bolívia talvez não sejam diferentes dos de outros países e até mesmo daqui – declarou.

Marina citou um caso típico brasileiro, que, na visão dela, também não deve ser tratado de forma genérica, sob o riso de se cometer injustiças.

– Imagine se a gente fosse generalizar a violência que acontece nas favelas, como se isso fosse com a conivência do governo – afirmou.

Segundo ela, não se pode atribuir a entrada de drogas da Bolívia no Brasil exclusivamente a uma omissão do governo vizinho.

– Sabemos que temos graves problemas na fronteira com o Acre com o tráfico de drogas, mas longe de mim em querer atribuir isso a uma ação deliberada do governo.

O povo boliviano não merece esse tipo de generalização – disse.

Sílvia Amorim/O Globo

Evo Morales se afasta de Hugo Cháves

“Um Estado forte o bastante para dar tudo o que você precisa também é forte o bastante para tirar tudo o que você tem”
(Lyndon B. Johnson)

Nem um outro maluquete como o Evo Morales – que não vê a uva nem o ovo – , aguentou a convivência destrambelhada do caudilhesco doidivanas do Caribe.

A real inovação do bolivarianismo é que a exemplo de técnicas usadas por marqueteiros, eles descobriram uma maneira de apodrecer democracias jovens por dentro. Uma tal de “astroturfing”.
O Editor


Evo Morales se descola do chavismo

Que Hugo Chávez caminha a passos largos para se tornar um ditador de perfil paternal-nacionalista, bem ao estilo dos governos latino-americanos de ultra direita nos 70, parece algo fora de questão. Sua estridência, contudo, acaba facilitando o discurso conservador que, em nome da “democracia”, hostiliza qualquer movimento político que defenda um Estado forte para prover o mínimo às camadas pobres da população – Lula e seu criticadíssimo Bolsa-Família que o digam.

Mas essa é, afinal, uma falsa questão, que serve somente para alimentar rancores ideológicos empedernidos. A questão mais importante é a qualidade da democracia que esse processo de redescoberta do Estado está criando, após o suposto triunfo definitivo do liberalismo nos anos 90. E há surpresas aí.

A “democracia” bolivariana, no projeto capitaneado por Chávez, engole e destrói instâncias de poder que serviriam como contraponto ao governo e como aperfeiçoamento político. Não há possibilidade de representação desatrelada do Estado – pior, não há representatividade nem mesmo dentro do Estado, uma vez que o Estado deixou de ser mediador e passou a ser tutor, exatamente como no fascismo.

O chavismo se apresenta como elemento de unidade absoluta – a adesão a ele é a única forma de abrir algum canal de acesso ao Líder.

Para não deixar dúvidas sobre isso, Chávez recentemente declarou: “Não admitirei que minha liderança seja contestada, porque eu sou o povo, caramba!”. Amalgamado com o “povo”, o presidente venezuelano transforma cada crítica a seu governo como uma crítica a esse “povo” – devidamente militarizado e pronto a reagir violentamente em caso de contestação.

É uma massa crescentemente conservadora e que quer manter intocada a “sua” Venezuela, cuja imensa máquina burocrática só funciona por meio da corrupção e do autoritarismo.

A representação política ampla, nesse cenário, é uma impossibilidade óbvia. No Brasil de Lula parece estar ocorrendo semelhante processo, ainda que de modo bem mais sutil. O presidente brasileiro, montado em uma imensa popularidade e em suas certezas morais, considera que a melhora das condições de vida das classes mais pobres do país seja suficiente para considerar sua missão cumprida.

Trata-se de um reducionismo típico desses tempos de utilitarismo político: o PT surgiu como o partido que daria voz àqueles que não tinham, dentro das regras do jogo democrático; hoje é somente uma máquina voltada para se garantir no poder, transformando o projeto de inclusão e diversificação política em um arremedo de democracia, que cheira a bonapartismo – a massa ultraconservadora criada pelo Bolsa-Família é, assim, uma barreira natural às reivindicações políticas de progressistas que contestem os (maus) usos e costumes do centrismo pragmático do lulismo, a começar por sua leniência em relação à corrupção e ao parasitismo.

Assim, tanto Lula quanto Chávez, guardadas as proporções, oferecem uma visão desabonadora do bolivarianismo no que diz respeito ao espírito da democracia gerada por esse modelo. Uma exceção, no entanto, parece ser Evo Morales.

O presidente boliviano vem cumprindo sua promessa de dar poder à grande maioria da população de seu país, os índios, que passaram séculos sob escravidão e exploração sistemática.

Ainda que seja um chavista de coração – e isso significa que é avesso a alguns dos pilares democracia, como imprensa livre –, Evo vem revolucionando a Bolívia ao redesenhar o mapa político para tornar os índios atores dessa transformação. O poder está sendo descentralizado, de modo a fazer de comunidades indígenas unidades administrativas com autonomia, e a legislação indígena será reconhecida como válida tanto quanto o sistema oficial.

Some-se a isso sua austeridade fiscal e seu programa diversificado de investimentos, que ganharam a simpatia da classe média, e temos a equação que torna o governo de Evo um dos mais estáveis, populares e bem-sucedidos do universo bolivariano. Considerando-se que a Bolívia era aquele país que até outro dia tinha um presidente de manhã e outro à noite, e em que os índios não existiam como cidadãos, é um feito e tanto.

blog do Marcos Guterman
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Hugo Cháves quer implantar escuta telefônica oficial. O Big Brother Bolivariano

E lá vem o doidivanas das Caraíbas, estendendo o braço do seu (dele) viés caudilhesco.

Não satisfeito com as pirotecnias e demais artifícios pseudo democráticos utilizados para engessar a oposição na Venezuela, o bananeiro presidente quer bisbilhotar as conversas telefônicas de todos os que ousarem falar em liberdade.

O cudilho quer implantar o BBB – Big Brother Bolivariano.
Argh!
Contra a censura! Sempre!
O editor

Ditadura – Chávez abre caminho para oficializar escuta telefônica

A Assembleia Nacional venezuelana aprovou em primeira votação um projeto que obriga as empresas de telecomunicações públicas e privadas a instalar centrais de escutas telefônicas que gravarão ligações 24 horas por dia para entregá-las ao Ministério Público, quando solicitadas. A disposição foi incluída na reforma parcial do Código Orgânico Processual Penal, que está em discussão na Casa.

No artigo que trata da “interceptação e gravação de comunicações privadas”, o novo texto diz que “os entes públicos ou privados que prestem serviços de telecomunicações criarão unidades permanentes (para trabalhar) 24 horas e 7 dias por semana, sendo encarregadas de processar e fornecer as informações requeridas pelo Ministério Público ou pelas autoridades competentes.”

Segundo a oposição o texto também abre a possibilidade para que o Ministério Público ordene gravação das conversas sem ter de pedir a autorização de um juiz. Os governistas negam. “A verdade é que na prática isso não faz muita diferença”, explicou ao Estado o cientista político venezuelano Sadio Garavini di Turno, da Universidade Central da Venezuela. “Como o Judiciário está alinhado com o governo, eles teriam pouca dificuldade em conseguir essa permissão.”

O projeto agora passará pela Comissão de Política Interior da Assembléia. Seu presidente, o deputado Tulio Jiménez, negou que ele ponha fim ao sigilo telefônico.

Por Ruth Costas, no Estadão