FaceBook e notícias falsas

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas.

Mark Zuckerberg em Barcelona, no passado mês de fevereiro
Mark Zuckerberg em Barcelona, no passado mês de fevereiro CORDON PRESS

Iniciativa para evitar a divulgação de farsas conta com a participação de agências brasileiras

O Facebook se associou a veículos especializados na confirmação de notícias para evitar a presença de notícias falsas na rede social. O processo seguirá dois passos, como explica a revista Wired: de um lado, os usuários poderão marcar as notícias como falsas para que uma equipe do Facebook revise se estas publicações procedem de veículos reais ou de sites que tentam dar a impressão de sê-lo (por exemplo, bbc.co em vez de bbc.com).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Caso a notícia proceda de um veículo real, mas o conteúdo seja posto em dúvida, o Facebook remeterá a informação a veículos que comprovarão se se trata ou não de uma notícia falsa. Caso pelo menos dois desses veículos duvidem da veracidade da informação, as histórias aparecerão marcadas como “questionadas”. Poderão continuar sendo compartilhadas, mas terão menor presença na página principal de cada usuário.

No momento, a empresa se associou a cinco veículos, todos membros da Poynter’s International Fact Checking Network. São eles Snopes, FactCheck.org e Politifact, além da ABC News e da agência de notícias AP. Não se descarta a incorporação de mais veículos ao projeto, o que além disso permitiria corroborar notícias publicadas em outros idiomas além do inglês. Falamos aqui dos três primeiros, nem tão conhecidos, e da rede Poynter.

O código ético da Poynter

Poynter é uma associação criada em setembro de 2015 que reúne entidades que se dedicam a comparar a veracidade de notícias e declarações. Conta com um código de princípios ao qual seus membros aderem. Este código inclui o compromisso de transparência das fontes, metodologia e organização, além da aplicação dessas comprovações independentemente do viés ideológico do protagonista ou da publicação.

Mais de 40 veículos de todo o mundo assinaram esse código. Além dos já mencionados, estão líderes como Observador, de Portugal, Full Fact, do Reino Unido, as agências brasileiras Lupa e Truco, e El Objetivo da rede espanhola de TV La Sexta.

Snopes, desmentindo farsas desde 1995

Snopes continua investigando farsas e lendas urbanas desde 1995, quando David Mikkelson abriu a página. Desde então se tornou uma referência, a ponto de, quando começou a polêmica sobre se a farsa tinha influído nas eleições norte-americanas, a revista The Atlantic já se perguntou se o Facebook deveria comprar o Snopes. Não chegaram a isso ainda. O Snopes contava em 2015 com 15 funcionários, como explicou seu fundador em uma entrevista publicada no Washington Post. Também explicou que o Facebook já usava seus desmentidos “para determinar quem não deveria ter muito alcance orgânico”. E acrescentava que os rumores têm sucesso porque “se referem a algo que as pessoas já acreditam ou confirmam algo que as pessoas querem acreditar”.

A capa do Snopes.A capa do Snopes.
Barbara Binowski, responsável pelos conteúdos do Snopes, afirmou no site Backchannel que “a maioria das notícias falsas são incrivelmente fáceis de desmentir porque, obviamente, são lixo”. É muito mais difícil corrigir informação errada de meios de comunicação tradicionais.

No momento, Snopes reúne em seu site algumas notícias divulgadas recentemente e colocadas em dúvida: Fisher Price lançou um brinquedo para crianças que é o balcão de um bar (falso), Trump disse que cortará a Seguridade Social norte-americana (falso, até o momento), uma mulher sem teto conseguiu viver de graça durante oito anos na Trump Tower (falso) e um menino doente morreu nos braços de um homem vestido de Papai Noel (sem comprovação).

Politifact, um site vencedor do Pulitzer

Politifact é um site fundado em 2007, de propriedade do jornal da Flórida Tampa Bay Times. Dedica-se a confirmar a veracidade das afirmações de políticos e analistas, medindo-as com seu Truth-O-Meter (algo como um “verdadômetro”). Também escolhe uma “mentira do ano”. A de 2016 é, exatamente, o conjunto de notícias falsas que levou o Facebook a tomar medidas (por exemplo: que Hillary Clinton estaria envolvida em uma rede de pederastia sediado em uma pizzaria). Em 2015 ganhou a campanha eleitoral de Donald Trump e em 2014, os exageros sobre o ebola.

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas
 Politifact levou um Prêmio Pulitzer em 2009 por sua cobertura da campanha presidencial de 2008, na qual analisou mais de 750 declarações políticas. O site conta com dez funcionários, dirigidos por Angie Drobnic Holan. Em sua home page nos deparamos com o desmentido de um tuíte de Donald Trump e a confirmação (parcial) de outras declarações do presidente eleito sobre os elevados impostos a empresas nos Estados Unidos. O site também inclui históricos de veracidade: segundo o Politifact, 69% das afirmações de Trump examinadas são falsas em sua maior parte, totalmente falsas ou embustes ridículos. Para comparar, no caso de Clinton a porcentagem é de 26%.

FactCheck.org, de comprovar campanhas de televisão a seguir as redes sociais

FactCheck.org é um projeto do centro de estudos Annenberg da Universidade da Pensilvânia. Desde 2003, o site tenta confirmar a veracidade das declarações de líderes políticos, prestando atenção especial às campanhas eleitorais. Da mesma forma, desmente notícias que se tornaram virais, como por exemplo que Hillary Clinton ganhou apenas em 57 dos 3.141 condados (ganhou em pelo menos em 487). Na capa do FactCheck.org também encontramos um artigo sobre os exageros de Trump e outro dedicado às mentiras em relação ao fracking.

O veículo conta com 8 pessoas. O diretor do site, Eugene Kiely, garantiu que “estão encantados de trabalhar com o Facebook para ajudar a combater as notícias falsas na medida do possível”, para então lembrar que “contamos com recursos limitados e nosso objetivo principal é corroborar as afirmações feitas por políticos”.

A editora, Lori Robertson, explicou em uma entrevista recente à rede de televisão CBC que não é tão fácil mudar a opinião das pessoas, mesmo que fatos contrastados sejam apresentados: “Depende se as opiniões dessas pessoas estão muito arraigadas”. Cabe lembrar que, em 2015, 29% dos norte-americanos (e 43% dos republicanos) continuavam pensado que Obama é muçulmano.

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas

Robertson acrescentou que “antes nos concentrávamos nos anúncios televisivos, mas fomos ampliando nosso alcance e agora falamos também do que se diz em comícios, tuítes, publicações do Facebook…”. Mas não acredita que vivamos na era da pós-verdade: “O aumento de visitas a nosso site demonstra que muita gente continua se preocupando com o que é certo”.

Quem faz o fact check dos fact-checkers?

Esses veículos também estão sujeitos a crítica. São muitos, sobretudo de origem conservadora, que os acusam de ter seus próprios vieses. Ou seja, não é que Trump minta mais do que Clinton, o que ocorre é que o Politifact investiga mais a direita.

É indiscutível que todos temos vieses. Inclusive a própria escolha de que notícias ou declarações se quer confirmar e quais não estariam influenciadas por essas preferências. Mas também é fácil aceitar que esses fact-checkers fazem seu trabalho de forma honesta: basta olhar seu arquivo para comprovar que, no mínimo, têm a intenção de tratar todos os temas sem partidarismo.

Por exemplo, continuando com o Politifact, podemos mencionar seu Obameter, que avalia se o atual presidente norte-americano cumpriu as 510 promessas que fez em sua campanha eleitoral em 2012. Cumpriu 47% das promessas e mais 27% de projetos parcialmente obtidos.

E o que é mais importante: além de sua vontade de se manter à margem de partidarismos, esses veículos explicam seus métodos e citam fontes, e por isso o leitor tem pelo menos a possibilidade de verificar se é verdade que uma notícia é falsa. Os sites superpartidários ou de farsas não podem dizer o mesmo.

De fato, assim que o acordo foi publicado, o site nacionalista e racista Breitbart publicou artigos tentando desqualificar o trabalho desses veículos. Por exemplo, afirma em sua home page que o “Facebook contratou fact-checkers de esquerda como orientação do pensamento”. Tendo em conta os conteúdos desse site, não é de se estranhar que estejam preocupados.
ElPais

Notícias falsas: Como reconhecê-las antes de partilhar

Um passo a passo de checagem para não disseminar mentiras pelas redes sociais

Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.
Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.

As notícias falsas não são nenhuma novidade, mas nas últimas semanas falou-se muito sobre elas. Segundo alguns veículos de comunicação, esses boatos poderiam ter influenciado os resultados das eleições norte-americanas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Embora a afirmação seja discutível, é fato que a campanha foi muito polarizada e teve, além disso, um elevado componente emocional: poucas vezes os candidatos geraram sentimentos tão confrontados como Donald Trump e Hillary Clinton, o que teria contribuído para que as notícias fossem ainda mais comentadas e compartilhadas. As autênticas e as falsas.

Os sites que teriam criado e distribuído essas mentiras teriam agido por motivação política, mas também econômica: essas matérias chamam a nossa atenção por serem mais sensacionalistas (exemplo: Clinton vendeu armas ao Estado Islâmico) e, além disso, como a notícia é inventada, o título não precisa competir com os de outros veículos sobre o mesmo tema.

Identificar uma notícia falsa nem sempre é fácil. Em caso de dúvida, estes são seis sintomas que deveriam pelo menos nos fazer suspeitar.

1. A notícia é boa demais para ser verdade. Em abril circulou uma citação de Dom Quixote que parecia se adequar com perfeição àquilo que alguns pensam sobre o partido espanhol Podemos. Falava inclusive de marionetes e cavalgadas, como se Cervantes tivesse antevisto a polêmica do último 6 de janeiro. Obviamente, tratava-se de uma falsa citação.

Também parecia quase perfeita a história de uma caçadora que posava com um leão que havia abatido e que, em plena gravação do vídeo, era atacada por outro leão, no que parecia um ato de justiça animal. Era, na verdade, parte de um experimento.

Às vezes, estas histórias têm origem em piadas, como a frase de Fidel, também falsa, em que dizia que Cuba reataria com os Estados Unidos quando este país tivesse um presidente negro, e o Papa fosse latino-americano. E, não, Castro tampouco disse que só morreria depois de assistir à destruição dos Estados Unidos.

De fato, e numa linha muito similar, muitas vezes são levadas a sério publicações assumidamente satíricas. A intenção de veículos como Sensacionalista e The Onion não é, nem de longe, enganar ninguém, e sim parodiar a atualidade (e seu tratamento jornalístico). Mas se não conhecermos o site, ou, pior, se for difundido em outro veículo sem perceber que se trata de conteúdo humorístico, corremos o risco de nos confundir.

Em geral, é preciso desconfiar de histórias que encaixam de uma forma tão perfeita que parecem pré-fabricadas. Em geral, são mesmo.

2. Não há fontes mencionadas. O melhor do boato do Quixote é que era facilmente comprovável: bastava ir ao site gutenberg.org, procurar a edição online do texto e fazer uma busca do fragmento. Por isso, a maior parte dos boatos e notícias falsas não menciona nenhuma fonte, o que dificulta seu rastreamento.

Por exemplo, um dos boatos mais compartilhados durante as eleições norte-americanas dava conta de que o papa Francisco apoiava Donald Trump. O texto falava de “meios de comunicação”, citava um comunicado sem links e, em algumas versões, chegava inclusive a incorporar declarações de “fontes próximas ao Papa”, mas sem dar nomes.

Também é preciso desconfiar se a fonte é alguma variante do clássico “um amigo de um amigo”. Ou seja, se são citados dados vagos, como “todo mundo conhece alguém que…” ou “já vi muitos casos de gente que…”. No mínimo, é muito possível que o autor esteja extrapolando a partir de casos episódicos, ignorando qualquer outra informação que contrarie sua versão.

Às vezes, atribui-se a declaração a um veículo para lhe dar credibilidade, como ocorreu com a também falsa declaração de Trump de que “os republicanos são os eleitores mais estúpidos”. Pelo menos nesses casos, pode-se recorrer à fonte citada para confirmar ou não a informação.

Como reconhecer uma notícia falsa antes de compartilhá-la com seus amigos
 Se o possível boato for uma foto, pode-se procurar a imagem no Google Images– usando inclusive filtros por data, para evitar o ruído gerado no buscador nos dias em que esse material é notícia. Às vezes, trata-se de fotos publicadas previamente e que nada têm a ver com a suposta notícia. Essa busca também pode ajudar a identificar montagens.

No caso de notícias sobre virais, como vídeos, fotos e outros, é importante que o veículo tenha conversado com o autor da publicação original. Às vezes, trata-se de conteúdo humorístico ou de montagens que podem ser levadas a sério quando tomadas fora de contexto.

3. O resto do site tampouco parece confiável. Se a notícia continua parecendo suspeita, outras três coisas podem ser comprovadas muito facilmente sem sair do site que a publicou:

  • O veículo. Obviamente, os veículos de comunicação convencionais também publicam notícias falsas, mas por engano e ocasionalmente, não de forma sistemática e porque seja parte do seu modelo de negócio, como ocorre em outros casos. Agora, é verdade também que, quando um veículo respeitado comete um erro desse tipo, as consequências são piores, porque em geral se confia mais nessa publicação.
  • Se não conhecemos o veículo, frequentemente basta dar uma olhada na capa para saber se o resto das suas notícias parecem confiáveis, ou se estamos diante de uma publicação satírica ou fanaticamente partidária. Segundo uma reportagem do Buzzfeed, essa última categoria difunde entre 19,1% e 37,7% de notícias falsas, enquanto nos veículos tradicionais analisados (CNN, ABC e Politico) o percentual não chegava a 1%.
  • A URL. Muitas notícias falsas sobre as eleições foram divulgadas por meio de sites que imitavam os endereços de veículos de comunicação, mas que não eram autênticos, como bbc.co em vez de bbc.com. Além disso, nas redes sociais, as contas podem ser identificadas: se aparece o selo azul ao lado do nome no Twitter e no Facebook, pelo menos sabemos que se trata da página oficial da publicação.

4. Não foi publicada em outros veículos. Se uma informação apareceu em outros veículos de comunicação, é menos provável que seja falsa. Obviamente, pode se tratar de uma notícia exclusiva, mas, mesmo nesses casos, é provável que outros veículos a repercutam. Por outro lado, não se pode descartar que o boato se reproduza sem que ninguém tenha tomado o cuidado de tentar confirmar sua veracidade.

No caso de informação política, uma boa ideia pode ser buscá-la também em veículos que tenham uma outra linha editorial. Mas a distorção não é necessariamente apenas da parte do veículo: muitas vezes, nós acreditamos naquilo em que queremos acreditar. É muito fácil questionar os boatos que contradigam as nossas ideias, mas não vemos nenhum inconveniente em dar como certos aqueles que as reforçam.

5. Lembra alguma coisa. Muitas dessas notícias seguem um esquema que já foi utilizado em outras ocasiões. Frequentemente, é possível até mesmo rastrear a origem dessas notícias falsas em lendas urbanas clássicas, como a história de Ricky Martin e a geleia, cuja primeira versão aparece em um relato humorístico dos anos 50.

Podemos lembrar, também, a carta falsa do prefeito de Zaragoza explicando que não proibiria a carne de porco nos restaurantes das escolas a pesar dos pedidos dos muçulmanos, um boato que já havia circulado na França e na Bélgica. Algo semelhante aconteceu com as histórias que diziam que o Facebook passaria a ser pago, assim como as correntes que ameaçavam com o fechamento do Messenger e do Hotmail. Em outras histórias, como a da suposta “camisinha armadilha”, encontramos analogias com mitos de várias culturas (a vagina dentada).

6. O Snopes a desmentiu antes. Este conselho aparece no final, mas bem poderia ser a primeira coisa a fazer. Este site é a principal ferramenta na hora de confirmar ou desmentir um boato, pelo menos em língua inglesa. Para mencionar alguns exemplos recentes, a origem do Black Friday não está na venda de escravos e Donald Trump não ganhou no voto popular, apesar do que disseram algumas notícias falsas. Há também alguns casos clássicos, como o das galinhas de quatro coxas da Kentucky Fried Chicken. O site também contém um banco de dados com os veículos que divulgam notícias falsas.

Logicamente, uma notícia pode ser autêntica e também engraçada. Ou pode seguir um esquema que lembre o de outras grandes histórias. Ou pode ser publicada em um veículo do qual não sabemos nada. Por vezes acontece de a realidade acabar imitando as lendas urbanas. Muitas boas atraem a atenção justamente por esses motivos. Mas quando vários desses indicadores aparecem juntos, convém no mínimo desconfiar.

Obama em Cuba: quando um “fake” se torna realidade

A frase premonitória que Fidel nunca disse sobre Obama, o Papa e CubaA frase premonitória que Fidel nunca disse sobre Obama, o Papa e CubaA frase, atribuída ao líder cubano em 1973, é boa, mas era só uma piada

Com a visita de Barack Obama a Cuba, voltou a circular na Internet um comentário sarcástico supostamente feito por Fidel Castro em 1973 e que teria de transformado em uma assombrosa premonição involuntária:

“Os Estados Unidos só irão dialogar conosco quando tiverem um presidente negro e houver no mundo um Papa latino-americano”.

O problema é que Castro nunca disse isso.

Este é um dos memes que estão sendo compartilhados no Twitter, em espanhol.

Segundo o site Snopes, que se dedica a investigar e desmentir lendas urbanas, essa frase começou a ser espalhada como verídica por causa de um artigo do escritor argentino Pedro Jorge Solans publicado no jornal El Diario, também da Argentina, há pouco mais de um ano.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Nesse texto, Solans diz que a história lhe foi contada por Eduardo de la Torre, então estudante universitário e hoje taxista em Cuba.

Fidel Castro teria dito a frase numa entrevista coletiva, em resposta a uma pergunta do jornalista britânico Bryan Davis.

– Quando o senhor acha que poderão ser restabelecidas as relações entre Cuba e Estados Unidos, dois países tão distantes apesar da proximidade geográfica?

Fidel Castro, segundo essa versão, o olhou fixamente e respondeu para todos os que estavam na sala:

– Os Estados Unidos só irão dialogar conosco quando tiverem um presidente negro e houver no mundo um Papa latino-americano.

Em meados de 2015, a frase foi publicada como verídica na imprensa da Espanha e América Latina, como recorda o site argentino Periodismo.com.

O problema é que não há nenhuma outra fonte nem qualquer registro oficial da frase, segundo o Snopes. Tampouco se sabe qualquer coisa a respeito de Bryan Davis, o jornalista que teria feito a pergunta a Castro, segundo o site Skeptics.

E tampouco há rastro dessa frase antes de dezembro de 2014, como recordam oThe Guardian e o Periodismo.com.

Ou seja, ela surgiu na mesma época em que Estados Unidos e Cuba anunciaram o restabelecimento das suas relações diplomáticas.

Na verdade, todas as referências anteriores ao artigo do El Diario apresentam a frase como uma piada que era contada naqueles dias na ilha, como no caso da coluna publicada em 22 de dezembro pelo jornalista Ortiz Tejeda, no jornal mexicano La Jornada.

Nessa versão, Castro não responde a nenhum jornalista, e sim ao próprio Che Guevara, e a conversa ocorre em 1961:

– Fidel, alguma vez voltaremos a ter relações diplomáticas com os ianques?

Fidel responde:

– Isso só será possível no dia em que o presidente dos Estados Unidos for negro e o Papa argentino, como você…

O jornal Havana Times também menciona o ocorrido alguns dias mais tarde, em 27 de dezembro de 2014, afirmando se tratar de uma piada que aproveita a coincidência de três fatos que todos antes consideravam impensáveis.

“Washington e Havana só retomarão as relações ‘no dia em que o presidente dos Estados Unidos for negro e o Papa argentino”, diz uma piada comum nos últimos dias na ilha, colocada na boca de um fictício Fidel Castro dos anos sessenta, e que resume muito bem as mudanças que ocorreram no mundo desde então e a imensa agitação política presenciada agora.
El País/Jaime Hancock

Internet – A informação falsa que circula na web.

Europa estuda proibir uso de informação falsa na internet. O objetivo seria facilitar o acesso das autoridades à informação, durante a investigação de crimes ou atos terroristas, mas a medida deve enfrentar oposição.
Associated Press

FRANKFURT – Alguns países europeus estão propondo declarar ilegal o uso de dados falsos na hora de abrir contas de e-mail e registrar websites, uma decisão que poderá ajudar em investigações de pedofilia e terrorismo, mas que poderá encontrar resistência entre os defensores do direito à privacidade.


Os governos holandês e alemão tomam a dianteira na defesa da proposta, elaborando leis que tornarão ilegal o fornecimento de dados falsos a provedores de internet, e obrigarão as empresas telefônicas a guardar registros detalhados sobre o comportamento dos consumidores. O objetivo seria facilitar o acesso das autoridades à informação, durante a investigação de crimes ou atos terroristas.


Mas os europeus valorizam a privacidade, e já se manifestaram contra outras medidas que levariam à estocagem de dados pessoais para fins comerciais ou fiscalização do governo.


“Os povos da Europa têm uma longa história de luta pela liberdade pessoal, e é improvável que aceitem essas regulamentações”, disse o consultor de tecnologia Graham Cluley, do grupo inglês Sophos. “Ninguém discorda que é preciso combater o terrorismo e o crime organizado de modo decisivo, mas introduzir uma vigilância restritiva sobre o público em geral e as empresas de internet, sem as salvaguardas adequadas, parece orwelliano”, afirmou ele.