Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

A floresta amazônica no Brasil: vivendo nas sombras da violência e do desenvolvimento

No centro do desmatamento e dos conflitos de terra no Brasil, um pequeno agricultor viu o custo pessoal para sua família e comunidade de se manifestar. Seu filho se escondeu para escapar das ameaças de morte.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Maria Marcia Elpidia de Melo não vê seu filho Elmiro há mais de seis meses. O líder comunitário, de um assentamento agrário no Pará, na Amazônia brasileira, tem sido um crítico franco contra a apropriação de terras na região. No ano passado, seu filho de 20 anos foi espancado e recebeu ameaças de morte por agressores desconhecidos – e então ela o mandou para o esconderijo.

Ela tem 42 anos e mora em Terra Nossa desde 2006 como mãe solteira e com seu único filho em uma casa de tijolos de um andar. Manchava luz pela janela de Melo enquanto ela se inclinava sobre a mesa da cozinha, achando que o trabalho dela colocara sua vida em perigo. O pequeno agricultor e presidente da Associação de Produtores Rurais de Nova Vitória se tornou cada vez mais envolvido com disputas de terras.

“O que eu não posso aceitar é se eles matarem meu filho”, disse ela, com os olhos lacrimejando. “Ele está seguro por enquanto, mas não vou visitá-lo porque tenho medo de alguém me seguir.” Antes de se esconder, Elmiro ajudou a mãe em sua fazenda.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, um órgão de vigilância da violência rural, três habitantes da vila de Melo foram assassinados em 2018 – e desde então 16 pessoas na região receberam ameaças de morte por causa de conflitos de terra.
Árvores destruídas pelo fogo em Novo Progresso, Pará, Brasil em agosto do ano passado.Imagens aéreas de toras cortadas ilegalmente alinhadas na floresta amazônica

Grilagem de terras e ameaças

De Melo relatou vários incêndios provocados pelo homem e minas ilegais na delegacia de Novo Progresso ao longo do ano passado. Mas, em três ocasiões, ela diz, os homens envolvidos na exploração alertaram-na para “parar de protestar ou enfrentar a morte”. A força policial não respondeu a um pedido de comentário sobre as ameaças.

Terra Nossa, um assentamento de 350 famílias cercadas por uma floresta sufocante e acessível apenas por uma estrada de terra, está no epicentro do desmatamento na Amazônia. O município vizinho de Novo Progresso ganhou as manchetes internacionais em agosto do ano passado, quando incêndios florestais gigantescos tomaram conta da região, uma prática agrícola anual agora levada ao extremo pela apropriação de terras.

Cerca de 124 incidentes de incêndios foram registrados pelas autoridades de Novo Progresso em apenas um dia, coordenados em grande parte por um grupo, principalmente agricultores, procurando limpar a terra da floresta e reivindicá-la por si mesmos.

Leis e regulamentos atuais

De acordo com a agência espacial brasileira INPE, o desmatamento entre 1 de agosto e 30 de novembro de 2019 totalizou 4.217 quilômetros quadrados, ou 46.000 campos de futebol americano – mais do que o dobro dos números de 2018 no mesmo período.

Manifestantes no Rio de Janeiro exigem mais proteção para a Amazônia

Especialistas dizem que as leis atuais incentivam um processo interminável de incêndios, desmatamento e apropriação de terras. “Existe um incentivo claro na lei”, disse Brenda Brito, pesquisadora do Instituto Imazon, uma organização de pesquisa com sede no Brasil. “Ele permite que você ocupe terras públicas, finja que as está usando [para trabalho legítimo] e depois reivindique o título da terra”.

Em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afrouxou ainda mais as regulamentações, triplicando a quantidade de terras que podem ser reivindicadas e permitindo que aqueles que ocupam terras desde pelo menos 2014 recebam títulos – anteriormente o limite era 2008.

Apoio ao desenvolvimento

Das estradas de terra que cortam a Terra Nossa, usadas para transportar madeira extraída ilegalmente, surge uma cena de encostas empilhadas com troncos de árvores de décadas. “Era uma vez bonito aqui”, disse Melo. “Antes de todo esse negócio começar.”

Mas a Amazônia é uma das regiões mais pobres do Brasil, com 45% de seus 23 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza. Há raiva de alguns agricultores locais com a sugestão de que a floresta tropical seja priorizada sobre as condições de vida dos trabalhadores normais. Bolsonaro, eleito após fazer campanha para abrir a Amazônia à indústria, acendeu apoio ao desenvolvimento.

Vista aérea da terra limpa em Novo Progresso, Brasil

“O que eles esperam que façamos? Para alimentar nossa família com sujeira?” disse Agamenon da Silva Menezes, líder sindical de agricultores em Novo Progresso.

“Mesmo que a mudança climática seja real, e não tenho certeza se acredito, por que você [o Ocidente] pode ficar rico e esperar que o resto de nós fique feliz por permanecer pobre?” Menezes adicionado.

Conflito com as comunidades locais

Apesar da ampla condenação internacional, Bolsonaro incentivou e defendeu essas práticas. “O desmatamento e os incêndios nunca terminarão”, disse o presidente no ano passado, argumentando que “é cultural”.

Na busca pelo lucro, no entanto, os ocupantes de terras em grande escala – tanto fazendeiros locais ricos como estrangeiros – estão cada vez mais entrando em conflito com as comunidades locais.

“Onde há desmatamento, geralmente há desapropriação e violência”, disse Mauricio Torres, cientista social e especialista em apropriação de terras na Amazônia. “Para desmatar, é necessário remover as comunidades que ocupam essa floresta.”

Alguns argumentam que incêndios, desmatamento e apropriação de terras no Brasil são incentivados por leis e regulamentos.

A apropriação de terras e incêndios na Amazônia tiveram um impacto direto nas comunidades locais no Brasil

Terra Nossa, da casa de Melo, é incomum entre pequenos agricultores que usam a terra e a floresta circundante repleta de açaí e castanha do Brasil de forma sustentável. A onda de ocupação de terras revirou esse modo de vida.

Raione Lima Campos, advogada da Comissão Pastoral da Terra na região, diz que líderes locais como de Melo frequentemente se tornam alvo de madeireiros e fazendeiros quando falam.

Ela acrescenta que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), o órgão nacional para questões de reforma agrária, fez pouco esforço para resolver as questões de invasão e violência de terras. “O INCRA não tem interesse nisso”, acrescentou, referindo-se à falta de ação. “Sempre foi ruim, mas agora a situação piorou.” O INCRA não respondeu a uma solicitação de comentário.

Para De Melo, o resultado é uma mistura estonteante de desconfiança nas instituições públicas que deveriam protegê-la. Mas a apropriação de terras é apenas uma parte do plano de Bolsonaro – juntamente com a ferrovia Ferrograo para transportar soja, barragens hidrelétricas ao longo do rio Tapajós e a rodovia BR-163 através do Pará – projetada para abrir a Amazônia ao agronegócio.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

Passeando pelo jardim da casa de Melo, onde seu filho Elmiro já brincou entre as plantações de caju, pupunha e açaí, há uma sensação de que ela é completamente isolada e vulnerável, mas também no coração pulsante de uma das infra-estruturas mais significativas projetos no mundo.

“Esses grileiros são uma gangue organizada que está em toda parte”, disse ela. “Eles até têm políticos influentes no meio deles. Qualquer problema que eles tenham, como eu, acabará por desaparecer.”

Dinheiro,Economia,Ouro,BitCoin,Dolar,Euro,Real,Blog do Mesquita

O mundo poderá ser salvo por Grandes Empresas?

A economia mundial gera riqueza, assim como grande quantidade de gases de efeito estufa, desigualdade e perda de biodiversidade.    

Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020

Agora, companhias prometem resolver tais problemas. Mas elas realmente o farão?

Ao andar pela Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, tem-se a impressão de estar ocorrendo na cidade uma convenção de caridade, e não uma reunião de 119 bilionários e muitos presidentes de empresas importantes e representantes do setor econômico mundial.

“Vamos fazer dos negócios a melhor plataforma de mudança”, diz a placa na frente de uma loja alugada por uma empresa. Outra mostra “O crescimento é uma ilusão?” com letras de neon brilhantes e arredondadas que seria possível encontrar na parede de uma cafeteria hipster.

Mais adiante está a “tenda ODS”, que organiza sessões abertas sobre temas como o futuro do capitalismo, finanças sustentáveis ou direitos LGBTI – todos pagos por empresas que desejam mostrar como estão comprometidas em ajudar a alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU.

A mensagem que as empresas estão tentando passar é bem clara: nós acordamos; já se foram os dias em que o lucro era sobreposto à moral; agora nós nos preocupamos com o meio ambiente e em tornar este mundo um lugar melhor.

Mas as empresas não têm contado essa história há tanto tempo quanto o Fórum Econômico Mundial existe? E ainda assim o mundo não está no caminho certo para alcançar as metas que estabeleceu para si mesmo – tome como exemplos o Acordo do Clima de Paris, de 2015, ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Então as grandes empresas realmente cumprirão suas promessas desta vez?

Os manifestantes anti-Fórum Econômico Mundial na Promenade certamente já decidiram sua resposta. “Você realmente acha que as instituições e corporações que têm pensado e feito negócios de uma certa maneira podem mudar assim só para serem boas com os outros?”, pergunta Sebastian Justiniano, dando sua resposta logo em seguida: “Eu acho que não.”

Mudando para lucrar mais

Svein Tore Holsether discorda. Ele é o presidente da Yara, uma empresa norueguesa cujo principal negócio é a produção de fertilizantes sintéticos. Isso significa que a companhia é parte do setor agrícola, responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa.

Sentado em um canto tranquilo de um dos luxuosos saguões de hotel de Davos, Holsether explica por que quer transformar a Yara em uma empresa mais sustentável. “Eu acho que representa uma oportunidade de negócio incrível”, afirma. “Nós administramos nossos negócios com fins lucrativos, e isso é algo que precisamos para reinvestir e desenvolver o negócio.”

Ele fala sobre como a Yara mudou sua estratégia para o desenvolvimento de novas soluções após o Acordo do Clima de Paris; e sobre como a empresa, por exemplo, está planejando ajudar o agricultor a maximizar sua produção. Assim, será necessário menos terra, que ficaria livre então para árvores que absorveriam o CO2 do ar. Isso seria bom para o meio ambiente, para a segurança alimentar, para os agricultores – e, claro, para os resultados finais da Yara.

“Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que as empresas que são capazes de adaptar seus modelos de negócios tanto aos desafios como às oportunidades que vemos agora serão as que sobreviverão”, sublinha Holsether.

Na verdade, as empresas têm cada vez menos o poder de escolher se querem ou não se tornar verdes. O Relatório de Riscos Globais, divulgado antes do início do Fórum Econômico Mundial, listou fatores ambientais como a maior ameaça à ordem mundial. As condições climáticas extremas e os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas prejudicariam os negócios.

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

E até mesmo Larry Fink, presidente da maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, advertiu recentemente que as empresas que não levam sustentabilidade a sério podem ter problemas quando procurarem financiamento no futuro.

Se tal transformação da economia impulsionada pelo mercado acontecerá com a rapidez suficiente, isso já é outra questão. As emissões de dióxido de carbono da Yara, por exemplo, aumentaram de cerca de 10 milhões de toneladas em 2013 para 16,6 milhões de toneladas em 2018, apesar da nova estratégia de sustentabilidade.

Portanto, se as forças do mercado trabalham de forma lenta para fazer com que as empresas se comportem de maneira mais sustentável, o que pode acelerar esse movimento? Alguns argumentam que se faz necessária uma mudança de mentalidade econômica em relação a qual é o objetivo de uma empresa.

A grande ideia lançada em Davos neste ano foi o conceito de “capitalismo das partes interessadas”. É a noção de que as empresas não têm a responsabilidade apenas de gerar lucros para seus investidores, mas responsabilidade com todos os afetados por suas ações, como sua força de trabalho, consumidores ou meio ambiente.

Fazendo o “capitalismo das partes interessadas” funcionar

A economista Mariana Mazzucato é a favor do conceito – desde que ele seja mais do que apenas um chavão vazio. “Dada a crise que estamos enfrentando – não apenas o clima, mas também a desigualdade, os sistemas de saúde e o estado de bem-estar social que está entrando em colapso de várias maneiras ao redor do mundo –, não temos tempo para besteiras”, afirma.

Os governos devem repensar como investem na economia e, particularmente, o que exigem em troca disso. Afinal, dar dinheiro às empresas as torna partes interessadas, e uma parte importante disso. Como exemplo de como isso poderia funcionar, ela menciona o governo alemão, que vinculou empréstimos estatais a empresas siderúrgicas à sua capacidade de reduzir a pegada de carbono.

“Faça com que seja condicional”, afirma Mazzucato. “Eles precisam ou morrem. É o que fazemos em outras áreas. Você não pode usar crianças numa fábrica. Existe a lei e você será excluído do negócio. Nós precisamos tornar as coisas obrigatórias.” Ela acrescenta que, no entanto, isso só funcionaria com métricas adequadas que garantam que as empresas cumpram o que prometeram.

Uma iniciativa que trabalha com tais métricas é a empresa sem fins lucrativos World Benchmarking Alliance (WBA). O grupo elaborou uma lista das 2 mil empresas mais influentes do mundo que juntas representam metade da economia global. Atualmente, uma equipe de cerca de 50 pessoas está trabalhando em classificá-las de acordo com a forma como elas contribuem para alcançar os vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ao disponibilizar essas métricas gratuitamente, espera-se que seja possível responsabilizar as empresas e garantir que elas cumpram seus compromissos.

“É como as resoluções de Ano Novo”, conta o presidente da WBA, Gerbrand Haberkamp. “Nós sabemos que é difícil mantê-las. E é o mesmo para as empresas. Em fevereiro já é difícil ir à academia. É por isso que precisamos dessas métricas.”

Assim, as brilhantes campanhas de sustentabilidade são mais do que fumaça e espelhos? As empresas estão realmente começando a se comportar de forma mais responsável? Sim, parece que algumas realmente estão. Não necessariamente porque elas têm um coração grande, mas porque faz sentido em termos comerciais.

Elas estão mudando rápido o suficiente? Não, certamente não estão. Talvez seja melhor colocar nas palavras do cientista Johan Rockström: “Ainda estamos tendo ilhas de sucesso em um oceano de ignorância.”

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

Brasil da série “Só dói quando eu rio”

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

Ambiente,Amazônia,Brasil,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

Água: Insumo econômico e direito humano

Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada, no século 16, e europeus passaram a fundar vilas, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Permanecer junto aos grandes rios não era parte dos planos dos fundadores das primeiras cidades. O Colégio dos Jesuítas, pedra fundamental de São Paulo, por exemplo, foi edificado em um outeiro, lugar apropriado para a defesa contra possíveis ataques de índios, mas com pouca água. Mas, dessa vila nasceu a metrópole de quase 20 milhões de habitantes que demandam cerca de 80 litros por pessoa/dia de água tratada para suas necessidades domésticas. Volume impossível de ser obtido nos mananciais próximos, que, pelos critérios estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) têm capacidade sete vezes menor que a necessária para a população que atendem. É preciso ir buscar á água cada vez mais longe e tratar cada vez mais os recursos poluídos, para torná-los próprios ao consumo.

Os anos de 2014 e 2015 demonstraram, de maneira empírica, que as fontes disponíveis nas imediações das maiores metrópoles brasileiras não são suficientes para o abastecimento da forma como é feito atualmente: de maneira displicente, com perdas acima de 30% dos volumes tratados antes de chegar aos consumidores e com pouca ou nenhuma informação sobre as condições dos mananciais e a necessidade de uso mais racional do consumo.

Um levantamento da Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terá problemas de abastecimento nesta década. E, para tentar adiar a crise ao menos até 2030, será preciso desembolsar R$ 22 bilhões em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes superadas, com vazamentos generalizados. E nesse total não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, como a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros R$ 47,8 bilhões.

Os investimentos são urgentes também porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas procuram os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem a cada dia vítimas de diarreia, entram nas estatísticas de mortes por problemas gastrointestinais ?? em 2009, elas somaram 2.101 casos. Acredita-se que mais da metade poderia ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem adoecido, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.

Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, descobriu que crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas à diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação para essa situação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. “Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual.”

Dificuldades de gestão

Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território nacional é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. Nordeste e Sudeste, em oposição, concentram 72% dos habitantes e dispõem de menos de 10% da água. José Galizia Tundisi, autor do livro Água no Século XXI e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais (ver artigo na pág. 12), acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base de uma governança adequada, essencial para o controle do clima, do abastecimento e da produção de energia e de alimentos, entre outras atividades humanas.

Outro tema que emergiu como um ferimento exposto no cenário de escassez foi a necessidade de maior proteção aos mananciais, rios e nascentes que garantem a água para os grandes sistemas de abastecimento das metrópoles, como é o caso do sistema Cantareira em São Paulo e do Paraíba do Sul que atende o Rio de Janeiro. Os rios e nascentes que abastecem esses mananciais sofrem com o desmatamento de suas margens e a ocupação desordenada, tanto por habitações, principalmente ocupações ilegais e favelas, como por uma perigosa proximidade de lavouras e pecuária. Essas condições levam à contaminação por esgotos, no caso das favelas, ou a poluição por agentes químicos utilizados nas lavouras e, ainda, o assoreamento provocado pela atividade pecuária.

A água não é, evidentemente, apenas uma necessidade social, conforto de apenas abrir a torneira e dispor de água de boa qualidade em suas casas. É, também, um insumo econômico de necessidade básica. Muitas empresas compreenderam o risco que correm com a escassez e se adiantaram na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas demandas de água por tonelada de produto desde a década de 70. Segundo a associação do setor, a média era de 100 m³ de água por tonelada de celulose e caiu para 47 m³ atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha: não apenas ao reduzir o volume de água por unidade de produto, mas, ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reuso ?? como da alemã Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a empresa reduziu em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas, também, com a saúde da economia.

Recurso natural indispensável

Tudo o que é produzido no País tem uma cota de água embutida. Os especialistas denominam essa situação de “água virtual”. Para produzir 1 kg de arroz, por exemplo, são necessários três mil litros de água, e 1 kg de carne bovina exige 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos de 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho. Mas, para que os produtos cheguem às mesas de consumo, é preciso que a água esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E mais. Para um automóvel chegar à garagem, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos no fornecimento à população e tratamento de esgotos.

O estudo produzido pela ANA é um passo importante para o debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e deteriora a situação em outros municípios brasileiros. É necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. A sociedade, apesar dos problemas já evidentes no fornecimento de água às principais regiões consumidoras, ainda não trata o recurso como um bem finito. Mesmo com o país tendo atravessado 2014 com uma das mais importantes secas de sua história, administradores públicos relutam em apresentar a escassez de água como um problema estrutural. No discurso oficial, independente da instância de governo, o tema é colocado como conjuntural e que tende a ser superado “assim que as chuvas voltarem”.

Quando as razões da escassez de água são abordadas em boa parte da imprensa e das conversas , as mudanças climáticas, que recebem das Nações Unidas uma atenção especial desde a última década do século 20, não estão no centro da pauta e são lembradas apenas por especialistas em questões ambientais ligados à academia e a organizações da sociedade civil. Uma das principais teses do cientista Antonio Nobre, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia  (Inpa) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fala da relação entre a umidade que circula na Amazônia com a fertilidade dos estados do Sudeste, irrigados através do que ele chama de “Rios Voadores”. Esses “rios” são fluxos de umidade deslocados da Amazônia contra as encostas dos Andes, onde fazem uma curva em direção ao sudeste e em seu caminho, provocam chuvas sobre o Pantanal e lançam suas águas sobre os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Uma observação simples do comportamento das chuvas no verão de 2013/2014, mostra que as águas da Amazônia caíram com violência sobre os estados brasileiros do Acre e Rondônia. As cheias na região duraram cerca de quatro meses, justamente o período que normalmente é de chuvas no Sudeste. Essas águas que provocaram o transbordamento dos rios Madeira e Acre são as mesmas que não avançaram como umidade em direção ao Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

Privatizações frustradas

O planejamento do uso da água tem passado por transformações profundas nas últimas décadas e sofrido impacto de políticas públicas que ficaram ao largo de sua importância na produção e distribuição de água pelo país. É o caso do Código Florestal, aprovado em maio de 2012, que levou meses em uma discussão estéril sobre quantos metros deveriam ser preservados de matas ciliares no entorno de rios, lagos e represas. Em nenhum momento a preocupação com a segurança hídrica destacou-se no debate.

Estudos acadêmicos vêm alertando, há alguns anos, que a abordagem da água no Brasil é casual, não integrada e sem relação direta com a o processo da produção desse recurso, tema que, na realidade, é tratado por muitos engenheiros com certo desdém, sob o argumento de que “não é possível produzir água”, afinal, ela cai do céu. Mas, o fato é que o cuidado com rios e mananciais é fundamental para que as empresas de captação e tratamento possam oferecer água de boa qualidade para o consumo humano direto e outras atividades. Assim, é preciso questionar a estrutura jurídica da gestão de recursos hídricos, que torna o município o poder concedente para a exploração, tratamento e distribuição de águas, sem o cuidado de considerar que a dinâmica da Natureza não segue, evidentemente, as regras da geografia política.

O lógico, neste caso, seria uma gestão por bacias hidrográficas, o que vem sendo tentado desde os anos 90, e está presente na lei 9.433 de 1997, que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos, mas que não avança por conta dos interesses econômicos envolvidos na distribuição de água. O modelo atual reflete o intenso período de privatizações, no final do século 20, quando as empresas estaduais de água e saneamento foram desmembradas e surgiram, em lugar delas, empresas locais, sob controle da iniciativa privada, em modelo de concessão, ou por empresas públicas municipais ou as estaduais remanescentes do antigo sistema. Algumas dessas empresas estaduais se fortaleceram dentro de um modelo de gestão de capital aberto, inclusive com presença em bolsas de valores internacionais, como é o caso da paulista Sabesp.

A gestão da água a partir de uma ótica estritamente economicista pelas empresas de abastecimento e pelas propriedades rurais, responsáveis por 70% do consumo total, cria distorções capazes de comprometer seriamente não apenas o abastecimento das necessidades humanas diretas, mas, também, o desempenho da economia, com prejuízos para as empresas. Dados apresentados pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região apontam prejuízos em diversos setores industriais paulistas por conta da seca. A paralisação da Hidrovia Tietê/Paraná, por exemplo, tem o potencial de aumentar a conta da logística para os produtores rurais em mais de R$ 30 milhões e três mil trabalhadores podem ter perdido o emprego apenas em operações relacionadas à hidrovia e aos serviços em suas margens. No entanto os reflexos podem ser ainda maiores. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está calculando o impacto da escassez de água sobre o PIB paulista, o conjunto de bens e serviços produzidos em determinado período, geralmente de um ano, que atualmente representa um terço do PIB brasileiro.

Uma fração da solução de longo prazo para os problemas de escassez hídrica deveria vir da compreensão de que é parte da “função social” da terra preservar os serviços ambientais por ela prestados. Assim, proprietários rurais deveriam formar uma grande rede de produtores de água, capacitados, com tecnologia, assistência técnica e os recursos necessários para a identificação de nascentes e cursos d’água eventualmente secos pela derrubada da mata e implantação de plantios ou pastagens, e realizar as ações necessárias para a recuperação e perenização dessas fontes hídricas.

Produtores rurais também devem ser apoiados em ações que ajudem a proteger os mananciais em sua propriedade ou adjacentes da contaminação por qualquer tipo de produto químico utilizado nas lavouras ou por dejetos e contaminantes de origem animal. Esses produtos, quando levados aos rios, são contaminantes de alto impacto para a biodiversidade e torna o tratamento da água mais caro.

A revista científica Nature (Scientific American integra o mesmo grupo editorial da Nature) publicou, em 2012, um estudo da University of Leeds, da Inglaterra, em que aponta a perda de mais de 600 mil km² da floresta amazônica desde a década de 70. O estudo também aponta que no atual ritmo de destruição, cerca de 40% de todo complexo natural da região estará extinto até 2050. Isso comprometeria seriamente o regime de chuvas, reduzidas em mais de 20% nos períodos de seca.

Faixa de desertos

O Sudeste brasileiro está na faixa dos desertos  do hemisfério sul do planeta, na latitude do Trópico de Capricórnio. Ela atravessa enormes áreas continentais, como os desertos australianos de Great Sendy, Gibson e Great Victoria. Na África, estão as áreas desertificadas da Namíbia e do Kalahari e na América do Sul, o do Atacama. Sem qualquer coincidência, ambos desertos africanos, atualmente em expansão, estão alinhados frontalmente, dentro das margens latitudinais, com as regiões Sudeste e Sul do Brasil.

Essa porção territorial só se viu livre da desertificação com a exuberância da Amazônia e a formação da Mata Atlântica. Ambas foram determinantes para se criar um regime de chuvas que mantiveram essas partes do Brasil e da América do Sul com solos férteis e índices pluviométricos mais que satisfatórios à manutenção da vida.

O geólogo do Inpe e assessor da Agência Espacial Brasileira (AEB), Paulo Roberto Martini, tem sua teoria para esse fenômeno, em que a desertificação dessas regiões ocorrerá se o transporte de ar úmido for bloqueado ou escasseado, por ação natural ou antrópica. Exatamente o, aparentemente, vem ocorrendo. Investigações geomorfológicas mostraram que entre os anos 1000 e 1300 houve secas generalizadas e populações inteiras desaparecerem nas Américas. E isso pode ocorrer novamente, agora potencializado pela devastação de origem antrópica, ou seja, por iniciativa humana. “O solo da região Sul e Sudeste tem potencial enorme para se tornar desértico, basta não chover regularmente. A distribuição da umidade evitou que essa região da América do Sul fosse transformada num imenso deserto”, argumenta Martini. Mas ações humanas podem alterar radicalmente as opções adotadas pela Natureza.

Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock
Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock

A gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. O período de mudanças, no entanto, não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta fluindo à sua porta, pelos rios Negro, Solimões que formam o Amazonas. Em 2000, a gestão em Manaus foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.

Para os franceses, parecia fácil enfrentar esse desafio. Em Manaus havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço de água da cidade era ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom abastecimento” para a conta fechar. Mas esse raciocínio não era tão elementar quanto parece. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana de Manaus nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, serviço que, depois de funcional, é gratuito, sem a tradicional cobrança mensal de outras regiões.

A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da Amazônia e a Águas do Amazonas continuam privatizadas, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.

O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro.

Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento social é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o Brasil ainda tem muito a fazer. Pesquisa realizada pela organização Trata Brasil, que estuda gestão de água e esgotos no Brasil mostra que menos de 40% do todo o esgoto gerado nas 100 maiores cidades brasileiras é recolhido e tratado antes de ser lançado de volta nos mananciais, o que significa em números absolutos que cerca de 8 bilhões de litros de esgoto sanitário são lançados em rios, lagos e no Oceano Atlântico diariamente. Apenas para se ter uma ideia: é o bastante para encher 3.200 piscinas olímpicas a cada dia.

EM SÍNTESE: A água é um direito social e um insumo econômico de primeira necessidade. O Brasil precisa de uma gestão eficiente do recurso não apenas para garantir o acesso à água de qualidade pela população, mas também para garantir o bom desempenho da economia.
por Dal Marcondes, da Envolverde

Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (5)

Amazônia; A floresta em chamas

Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura
A bacia do rio Amazonas é mais ou menos do tamanho da Austrália. Formada ainda na infância do planeta pelo choque entre placas tectônicas, ela foi o berço de mares interiores e lagos continentais.

Há milhões de anos, ela possui um rico ecossistema tropical, com 400 bilhões de árvores e uma vegetação tão densa e úmida que chega a ser responsável por 20% do oxigênio da Terra, pela armazenagem de séculos de emissões de carbono e pela absorção de uma quantidade considerável do calor solar. Um quinto da água doce do mundo passa por seus rios, plantas, solo e ar.

Toda esta umidade alimenta e regula diversos sistemas planetários, como a formação de “rios voadores” por evapotranspiração – nome dado ao incessante fluxo de água expelida pela floresta, formando grandes corredores aéreos que levam chuva às regiões agrícolas da Argentina e do Meio-Oeste dos EUA.

Nos últimos 50 anos, porém, cerca de um quinto desta mata – algo em torno de 780.000km² – foi derrubada e queimada no Brasil, em cujo território estão quase dois terços da Bacia Amazônica.

A área devastada é maior do que a do Texas – estado americano com o qual ela guarda agora uma triste semelhança, com seus pastos silenciosos castigados pelo sol, seus campos de soja e suas igrejas evangélicas. Esse desmatamento histórico – aliado a níveis comparáveis de degradação e fragmentação florestal – tem alterado os regimes de chuvas e climas regionais.

A liberação de carbono armazenado na atmosfera é tão grande que vem neutralizando a atuação da floresta como sumidouro de carbono – o maior do mundo depois dos oceanos. Cientistas alertam que a perda de mais um quinto da mata tropical brasileira causaria um círculo vicioso conhecido como dieback, que ocorre quando o declínio da floresta é tão grande que acarreta uma perda cada vez maior – e irreversível – de biomassa. O colapso da Amazônia lançaria na atmosfera uma bomba de carbono de efeitos apocalípticos; o vapor que reflete a radiação solar antes que ela se converta em calor desapareceria; e os rios aéreos e terrestres encolheriam.

A perda catastrófica de mais um quinto da floresta tropical brasileira pode virar realidade em uma geração. Já aconteceu uma vez e está acontecendo de novo.

1 – A ZONA VERMELHA

CERTA MANHÃ DE ABRIL, uma piroga equipada com um pequeno motor apareceu na aldeia apurinã de Kamarapa, no sudoeste da Amazônia. A dúzia de índios apertados na estreita embarcação era a última de uma série de delegações aguardadas no povoado. Os barcos haviam começado a chegar na manhã anterior, atracando no pequeno ancoradouro de lama depois de quatro, seis ou até dez horas de viagem através do labirinto de águas profundas que é o sul da planície aluvial da Amazônia na estação das chuvas.

Os apurinãs estavam reunidos para discutir uma emergência. Nos últimos anos, criminosos armados de motosserras – os chamados grileiros – vinham penetrando cada vez mais nas reservas indígenas e outros territórios protegidos da Amazônia. Encorajados pela eleição de Jair Bolsonaro, eles passaram a agir com ainda mais ousadia nas áreas mais isoladas do Amazonas, o maior estado do Brasil e dono da maior extensão contínua de floresta tropical do planeta. “Com Bolsonaro, as invasões pioraram e vão piorar ainda mais”, diz Francisco Umanari, 42, um cacique apurinã. “O projeto dele para a Amazônia é o agronegócio. Se ninguém fizer nada, ele vai atropelar os nossos direitos e permitir uma invasão enorme da floresta. A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”, alerta.

deforestation-02-1562182241-1562358740
deforestation-01-1562182244-1562358734

Imagens de desmatamento em áreas da Amazônia em 24 de setembro de 2016. A escalada do desmatamento teve um pico em 2004, declinou na década seguinte, mas começou a crescer de novo em 2012, movida pelo boom das commodities e expansão do agronegócio.
Fotos: Gabriel Uchida

Durante dois dias, uma centena de apurinãs – homens, mulheres e crianças – se reúnem em uma maloca de teto de palha na beira do rio para discutir seus temores e planos. É uma corrida contra o relógio climático da Amazônia: em julho e agosto as chuvas cessam, diminuindo o volume dos rios e tornando ainda mais longas as viagens de barco entre as aldeias e as cidades mais próximas. A estação da seca também traz novas queimadas.

Em 2018, depois que os satélites do governo detectaram colunas de fumaça, um grupo de apurinãs foi ao local e descobriu que mil hectares de sua mata ancestral haviam desaparecido. “Ficamos chocados com o tamanho da devastação”, conta Marcelino da Silva, um dos membros do grupo. Para criar pastos, os grileiros abriram, a golpes de facão, quilômetros de caminhos pela mata, para que motocicletas pudessem transportar motosserras e barris de querosene floresta adentro. Como a área era remota demais para a extração de madeira, até as árvores mais valiosas foram usadas como combustível, e sementes de capim foram jogadas de helicóptero sobre as cinzas ainda fumegantes.

“Sabíamos que a zona vermelha estava vindo em nossa direção, mas não esperávamos um avanço tão rápido e de todas as direções”, diz Marcelino, referindo-se ao termo local para a fronteira agrícola que avança há cinco décadas sobre o sul do Amazonas. “Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”, afirma.

“A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”.

Segundo o Imazon, um centro de pesquisa brasileiro, nos primeiros meses de 2019 o desmatamento aumentou em mais de 50% com relação ao mesmo período do ano anterior. Metade disso ocorreu ilegalmente em áreas protegidas, inclusive nas centenas de reservas indígenas que cobrem um quarto da Amazônia brasileira e funcionam como uma barreira de proteção para o resto da floresta (no Amazonas, as terras indígenas respondem por quase um terço da área verde do estado).

Os povos indígenas da região já viram esse filme. Durante o desmatamento desenfreado dos anos 1970, 1980 e 1990, eles sofreram com o avanço de um “arco de fogo” ao longo das primeiras estradas de penetração do oeste da Amazônia. No fim da década de 1980, um verdadeiro crescente de fogo varria a floresta a partir de Belém, passando pelo interior do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. As chamas eram mais intensas em Rondônia, onde as centenas de queimadas eram visíveis até do espaço. deforestation-02-1562182241-1562358740deforestation-01-1562182244-1562358734 Imagens de desmatamento em áreas da Amazônia em 24 de setembro de 2016. A escalada do desmatamento teve um pico em 2004, declinou na década seguinte, mas começou a crescer de novo em 2012, movida pelo boom das commodities e expansão do agronegócio.Fotos: Gabriel Uchida Durante dois dias, uma centena de apurinãs – homens, mulheres e crianças – se reúnem em uma maloca de teto de palha na beira do rio para discutir seus temores e planos. É uma corrida contra o relógio climático da Amazônia: em julho e agosto as chuvas cessam, diminuindo o volume dos rios e tornando ainda mais longas as viagens de barco entre as aldeias e as cidades mais próximas. A estação da seca também traz novas queimadas. Em 2018, depois que os satélites do governo detectaram colunas de fumaça, um grupo de apurinãs foi ao local e descobriu que mil hectares de sua mata ancestral haviam desaparecido. “Ficamos chocados com o tamanho da devastação”, conta Marcelino da Silva, um dos membros do grupo. Para criar pastos, os grileiros abriram, a golpes de facão, quilômetros de caminhos pela mata, para que motocicletas pudessem transportar motosserras e barris de querosene floresta adentro. Como a área era remota demais para a extração de madeira, até as árvores mais valiosas foram usadas como combustível, e sementes de capim foram jogadas de helicóptero sobre as cinzas ainda fumegantes. “Sabíamos que a zona vermelha estava vindo em nossa direção, mas não esperávamos um avanço tão rápido e de todas as direções”, diz Marcelino, referindo-se ao termo local para a fronteira agrícola que avança há cinco décadas sobre o sul do Amazonas. “Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”, afirma. “A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”. Segundo o Imazon, um centro de pesquisa brasileiro, nos primeiros meses de 2019 o desmatamento aumentou em mais de 50% com relação ao mesmo período do ano anterior. Metade disso ocorreu ilegalmente em áreas protegidas, inclusive nas centenas de reservas indígenas que cobrem um quarto da Amazônia brasileira e funcionam como uma barreira de proteção para o resto da floresta (no Amazonas, as terras indígenas respondem por quase um terço da área verde do estado). Os povos indígenas da região já viram esse filme. Durante o desmatamento desenfreado dos anos 1970, 1980 e 1990, eles sofreram com o avanço de um “arco de fogo” ao longo das primeiras estradas de penetração do oeste da Amazônia. No fim da década de 1980, um verdadeiro crescente de fogo varria a floresta a partir de Belém, passando pelo interior do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. As chamas eram mais intensas em Rondônia, onde as centenas de queimadas eram visíveis até do espaço.

Imagem da devastação após incêndio na Amazônia em agosto de 1989. Desde a década de 1930, governos de direita no Brasil promoveram a colonização da floresta em termos nacionalistas.
Foto: Gamma-Rapho via Getty Images

Agora aquele arco de fogo foi reavivado pelo mesmo motivo: o avanço da fronteira do agronegócio, dominada pelo gado e pela soja. Bolsonaro e seus aliados no Congresso e no governo do Amazonas estão determinados a acelerar este processo em nome do progresso. Para isso, seria necessário extinguir leis e organismos criados para proteger a Amazônia – que abriga a maioria das espécies da Terra – e seus habitantes autóctones, cuja própria existência é execrada e negada por Bolsonaro e sua equipe, incapazes de compreender seu modo de vida.

AS ASSEMBLEIAS DOS APURINÃS são longas até para os padrões das democracias participativas de aldeia. No idioma deste povo, apurinã significa “o povo que fala”, um hábito incentivado pelo gosto deles pelo awyry, um estimulante verde feito de sementes trituradas. Pontuadas aqui e ali pelo som de awyry sendo aspirado através de tubos de osso polido, a assembleia do início de abril vai durar até o cair da noite em Kamarapa. Há muito o que discutir: o aumento das patrulhas armadas; uma rede de postos de monitoramento equipados com rádios; uma maior cooperação com etnias vizinhas, inclusive com inimigos tradicionais; buscar aliados em potencial no Brasil e junto à opinião pública e governos europeus e asiáticos, os principais mercados da carne e soja brasileiras. “Estamos fazendo o que podemos, nos organizando, monitorando e pedindo ajuda”, conta Fabiana Apurinã, uma jovem de 23 anos que veio de uma aldeia situada a horas dali, rio abaixo. “Somos guerreiros e vamos nos mobilizar para defender o nosso povo e a floresta. Mas precisamos de ajuda”, acrescenta.

uru-house-1562182557-1562359042

Uma criança corre dentro de uma maloca Uru-Eu-Wau-Wau na vila da tribo em 10 de junho de 2019. O contato com homens brancos nos anos 1970 causou uma guerra e trouxe ao povo indígena doenças devastadoras. Hoje, apenas 200 membros da tribo ainda estão vivos.  Foto: Gabriel Uchida

“Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”

A assembleia terminou com a redação de uma carta para a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão sob ataque do governo, e para o Ministério Público Federal. O documento alerta contra a expansão da zona vermelha e o esvaziamento dos organismos estatais de monitoramento e proteção ambiental. “Nosso território está sendo invadido, e estamos nos sentindo abandonados”, diz a carta. “Pedimos que o governo dê valor ao nosso passado e à nossa profunda ligação com esta terra. O desmatamento está avançando em nossa direção. Nossos territórios devem ser garantidos para nossos filhos, respeitando nossos direitos previstos na Constituição. Se o governo não o fizer, nós o faremos.”

2 – A MARCHA PARA O OESTE

NÃO HÁ SINAL de rádio ou celular nas aldeias da planície aluvial do rio Purus, no sul do Amazonas. Aqui as novidades chegam devagar, de barco. Na manhã do dia 2 de abril, uma embarcação traz a Kamarapa a notícia de que, nas ruas distantes do Rio e de Brasília, apoiadores de Bolsonaro haviam ido às vias de fato com manifestantes contrários ao decreto que ordenava que as Forças Armadas comemorassem o aniversário do golpe militar de 1964. Bolsonaro, ex-capitão do exército, havia feito uma campanha com elogios às políticas de terra arrasada e tortura da ditadura. Em aldeias como Kamarapa, onde o governo militar é lembrado por um programa que, na prática, era uma campanha de extermínio, a notícia foi recebida como uma declaração de guerra.

“Bolsonaro está aperfeiçoando o modelo da ditadura. É o mesmo racismo, os mesmos planos para a Amazônia”, diz um morador de 34 anos chamado Wallace. O pingente com a imagem de Che Guevara em seu colar de dentes de onça e seus discursos inflamados, permeados de ameaças separatistas, ilustram bem a ala militante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), da qual ele é membro consultivo. “Esse governo usa a mesma linguagem que os generais usaram quando tentaram destruir o nosso povo e a nossa cultura. Mas nós resistimos e sobrevivemos. E vamos resistir de novo. Precisamos agora é de coragem”, declara.

A posição de Bolsonaro com relação à Amazônia pertence a uma tradição política que precede a ditadura militar. Ela mistura autoritarismo e o medo de uma suposta vulnerabilidade da Amazônia à conquista estrangeira – ou, em sua versão moderna, à “internacionalização”. Nos anos 1930, o presidente Getúlio Vargas, um simpatizante do fascismo, convocou uma “Marcha para o Oeste” com o objetivo de povoar, desenvolver e defender a posse da floresta contra a cobiça de outros países. Trinta anos depois, o governo militar retomou o sonho não realizado de Vargas com planos de desenvolvimento para “inundar de civilização” a Amazônia.

Engenheiros militares comandavam equipes de operários que trabalhavam o dia inteiro para abrir as primeiras estradas a oeste do Mato Grosso – muitas delas copiavam o traçado das antigas trilhas de caça dos índios. Anúncios do governo na TV ofereciam terras e crédito para incentivar a emigração do superpopuloso litoral e das terras já cultivadas do cerrado. Imaginava-se uma Amazônia transformada: os colonos fariam daquele ermo impenetrável um centro de pecuária e pequenas propriedades agrícolas, todas conectadas a portos marítimos e ao mercado global por uma vasta rede de estradas. Índios ou não, os habitantes da floresta que levavam um modo de vida tradicional teriam que se adaptar e abrir passagem. “A ocupação da Amazônia será conduzida estrategicamente como uma guerra”, disse Castelo Branco, um dos líderes do golpe de 1964.

Contudo, como tantos outros sonhos amazônicos, os planos de ocupação da selva malograram. O desafio logístico de colonizar o “inferno verde” era maior do que se imaginava na caserna – e a qualidade do solo, muito pior. Os generais não conseguiram construir seu paraíso de pequenos proprietários sobre as cinzas da Amazônia. Mas as cinzas, essas ficaram. Em 1988, quando uma nova Constituição foi promulgada, três anos depois do fim da ditadura, mais de um décimo da Amazônia brasileira havia sido queimada ou degradada por colonos e empresários, com o apoio do governo. Os índios sofreram ainda mais: se, no início do século XX, seu número era estimado em alguns milhões, no fim da década de 1980 só restavam cerca de 200 mil.

Desde então a população indígena quadruplicou, um renascimento que se deve aos esforços do Brasil em conter e reverter a onda de desmatamento que começou a se intensificar no fim dos anos 1960. A Constituição de 1988 demarcou 43% da Amazônia como zona proibida para a atividade industrial e o desmatamento – uma área que inclui centenas de novos parques, reservas e mais de 400 terras indígenas, equivalente a duas vezes o tamanho da Espanha –, e estabeleceu normas e limites para os 57% restantes. Foi criado um órgão de fiscalização, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e a Funai foi reformulada para ajudar comunidades indígenas a protegerem suas terras e desenvolverem atividades silvícolas sustentáveis.

Além disso, os bancos de desenvolvimento internacionais endureceram os requisitos ambientais e sociais de ajudas e empréstimos, e ONGs e ativistas organizaram boicotes internacionais de sucesso, culminando na histórica Moratória da Soja, em 2006. Embora as queimadas e derrubadas não tenham cessado, a taxa de desmatamento, que havia atingido seu auge em 2004, entrou em um período de declínio.

Os índios sofreram ainda mais: se, no início do século XX, seu número era estimado em alguns milhões, no fim da década de 1980 só restavam cerca de 200 mil.

O boom das commodities da última década interrompeu essa tendência. O desmatamento – legal e ilegal – voltou a aumentar em 2012, impelido por um agronegócio em expansão e pelo crescimento do poder político dos ruralistas, que desejam levantar as restrições trazidas pela redemocratização à exploração da Amazônia.

Essa bancada apoiou um golpe parlamentar contra a presidenta de centro-esquerda Dilma Rousseff, em 2016, e ajudou a blindar seu sucessor, Michel Temer, cujo governo concedeu anistia a grileiros e tentou afrouxar as leis antiescravidão do país. Em 2016, o Mato Grosso se tornou o primeiro estado a revogar a proibição do “correntão”, um método de retirada de vegetação que consiste em uma grande corrente puxada por dois tratores, destruindo tudo em seu caminho.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (3)

Placa que indica área administrada pela Funai furada por tiros. O órgão de proteção aos indígenas não consegue conter o ataque de grileiros.
Foto: Gabriel Uchida

QUEM ME ACOMPANHOU EM KAMARAPA e em outras aldeias do sul da planície aluvial do Amazonas é um homem grande e simpático, que esconde um semblante taciturno. Grande conhecedor da história, biologia e culturas do oeste da Amazônia, ele se encaixa no estereótipo romântico do funcionário da Funai: respeitoso e defensor de seus parceiros indígenas, mas consciente do paternalismo e de outros males entranhados na cultura institucional do órgão. Ao vê-lo entregando barris de combustível e conversando com caciques no caminho para Kamarapa, é evidente que se trata de uma relação de afeto e confiança mútua.

Enquanto nossa lancha desce o rio, contornando grandes troncos submersos, ele descreve uma dupla emergência nas comunidades do interior da floresta, onde ele passa a maior parte do tempo. “Por volta de 2012, as coisas começaram a piorar todo ano”, conta. “Mais invasões, queimadas maiores, cortes no orçamento da Funai e do Ibama. Desde a eleição, a situação piora a cada dia. Todo santo dia tem alguma coisa”, lamenta.

illegal-logging-02-1562184675-1562359413
illegal-logging-01-1562184692-1562359408

Uma patrulha da Funai e membros da tribo Uru-Eu-Wau-Wau flagram a derrubada de árvores de grileiros na reserva em abril de 2018. Segundo os indígenas, um grupo de 15 homens invadiu o local de derrubou 20 km de florestas em uma semana.Fotos: Gabriel Uchida

Horas depois de assumir a presidência, no dia 2 de janeiro, Bolsonaro entregou a política florestal do país ao Ministério da Agricultura, administrada pela sisuda ruralista Tereza Cristina Costa. Também foi incluída no pacote a demarcação de terras indígenas, tradicional prerrogativa da Funai, entregue à secretária adjunta de Assuntos Fundiários, Luana Ruiz, herdeira de uma conhecida família do agronegócio. A Funai em si foi transferida do Ministério da Justiça para a pasta de Direitos Humanos, também rebaixada (o Congresso acabou revertendo a decisão). Em seguida, o governo mutilou o orçamento da Fundação. Desde janeiro, a Funai vem operando com 70% do orçamento previsto. Vários postos de monitoramento em áreas de alto risco na Amazônia foram abandonados, e operações já planejadas tiveram que ser reduzidas, muitas vezes deixando apenas um funcionário para mediar conflitos violentos em áreas remotas da floresta.

“Os índios entenderam o vínculo entre esses sistemas frágeis muito antes de nós: a conexão entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima… Quando ainda não se falava de mudança climática, eles já tentavam nos alertar”

O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, 44, cortou funcionários e verbas do parceiro mais importante da Funai no governo, o Ibama. Ele substituiu o conselho do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por oficiais da PM de São Paulo, parte do que o semanário Brasil de Fato chama de “militarização do setor ambiental”. Uma das exceções dignas de nota é a Coordenação de Políticas de Desenvolvimento Sustentável: depois de demitir todo mundo, Salles deixou-a vazia.

Nosso acompanhante é pessimista na hora de explicar o que está em jogo: “Daqui a 30 anos, quem sabe 15 com este governo, talvez todas as terras daqui até Lábrea já estejam desmatadas”, prognostica. Lábrea, a cidade mais próxima, está a centenas de quilômetros de distância dali.

“Isso seria o fim do Purus e da infinidade de plantas que os apurinãs estudam há tanto tempo. O Purus e seus afluentes deságuam no Solimões [trecho superior do rio Amazonas], então isso teria sérias consequências mais ao norte, aonde o desmatamento ainda não chegou. Os índios entenderam o vínculo entre esses sistemas frágeis muito antes de nós: a conexão entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima… Quando ainda não se falava de mudança climática, eles já tentavam nos alertar”, diz. Ele pediu para não ser identificado por medo de ameaças e represálias.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 0

Gado ao longo da rodovia BR-364, perto do município de Ariquemes, em Rondônia, em 2018. O Brasil tem uma pecuária de US$ 4 bi, mas segundo uma estimativa, um hectare de soja ou gado pode render entre US$ 25 a US$250, enquanto o de uma floresta com manejo sustentável rende US$ 850. Foto: Gabriel Uchida

3 – A ESTRADA

PERCORRENDO O INTERIOR de Rondônia ao longo das duas faixas da BR-364, é preciso muita imaginação para visualizar a paisagem que Arima Jupaú conheceu na infância. No fim dos anos 1960, os pastos que hoje vão até onde a vista alcança estavam cobertos de mata virgem, exuberante e cheia de vida. Ele não sabia o que era a fronteira da floresta, porque nenhum dos 10 mil jupaús que ali viviam jamais havia visto tal coisa. Foi só em 1970, quando os engenheiros militares abriram uma estrada de terra ligando o Mato Grosso a Porto Velho, que ele conheceu na prática o conceito de fronteira.

À medida em que os colonos iam chegando – meio milhão ao longo da década –, os jupaús aprenderam a temer a beira da mata como um lugar de doenças e violência, uma gigantesca lâmina que os deixaria à beira da extinção. “Nós fugíamos, e toda vez que olhávamos lá do alto, a sensação era de segurança”, recorda Arima, um dos 200 jupaús que restaram. “Achávamos que eles nunca nos alcançariam. Que a floresta era grande demais”, acrescenta.

O homem branco não parava de chegar. Ele vinha semear a terra, criar gado, extrair madeira e garimpar ouro e cassiterita, o principal minério do estanho. Os colonos mais agressivos formavam esquadrões da morte e massacravam todos os índios que encontrassem. Uma das primeiras lembranças de Arima foi a pele do seu tio esticada por pedaços de pau, como um espantalho – um recado de um grupo de garimpeiros do local. Os jupaús reagiram. “Falamos para os brancos irem embora, mas eles não ouviram”, conta Arima, que, ainda adolescente, comandava os ataques e era famoso pela pontaria no arco. “Nós os matamos e queimamos as casas deles. Perdemos a conta de quantos”, relata.

O desmatamento está desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amazônia, causando um atraso perceptível no início da estação das chuvas, que está ficando mais curta e mais quente.

Em 1981, dizimados pela tuberculose, gripe e sarampo, os líderes dos últimos jupaús se reuniram com a Funai para negociar uma trégua. “Aceitamos a paz porque eles disseram que protegeriam a nossa terra”, recorda. (Durante a reunião, por causa de um mal-entendido, um funcionário pensou que a tribo se chamava uru-eu-wau-wau, nome pelo qual os jupaús ficaram conhecidos mundialmente.)

Por volta da mesma época, funcionários do Banco Mundial em Washington aceitaram as garantias dos generais brasileiros, que pediam 1,6 bilhão de dólares para tirar sua desastrosa ocupação da Amazônia da lama – literalmente. A BR-364, um artéria crucial para o plano de desenvolvimento da região, virava um verdadeiro atoleiro no inverno, a estação das chuvas – e a situação não era muito melhor nos meses de estio. Para desbravar o oeste, a estrada precisava ser pavimentada.

O Banco Mundial apoiou o projeto, apesar de um parecer interno que alertava: a pavimentação de 1.400km de estrada intensificaria as catástrofes ambientais e humanas que já ocorriam na região. E foi exatamente o que aconteceu. Quando o clamor da comunidade internacional obrigou o banco a suspender os pagamentos, cinco anos depois, Rondônia tinha a maior taxa de desmatamento do Brasil, acompanhada de um aumento de 3.000% no número de cabeças de gado. O estado estava a caminho de se tornar o primeiro “deserto verde” da Amazônia até 1990.

first-contact-1562184966-1562360758

Tari, um membro da tribo Jupaú, como os Uru-Eu-Wau-Wau se autodeclaram, segura uma foto do primeiro contato da tribo com servidores da Funai. Embora ainda haja povos isolados, muitos indígenas querem contato com o mundo além da aldeia e pensam juntos em modelos alternativos de desenvolvimento que preserve a floresta
Foto: Gabriel Uchida

Saio de Porto Velho pela BR-364, acompanhado do filho de Arima, Awapu, um jovem de 27 anos e fala mansa. Ele mora em uma aldeia de quatro famílias em uma reserva indígena no sul de Rondônia com os pais, a esposa e dois filhos. Nos dias seguintes, vou acompanhá-lo em patrulhas na fronteira do território Uru-Eu-Wau-Wau, onde o número de grileiros já voltou ao patamar da geração anterior.

Ao longo da espinha dorsal da pecuária de Rondônia – uma indústria de 15 bilhões de reais – a paisagem é só pasto e campos de soja. Enquanto percorremos a estrada, Awapu descreve as várias zonas de conflito das terras indígenas do estado. No oeste, os karipunas enfrentam uma invasão em três frentes; no nordeste, a mata dos suruís foi tão devastada pelo garimpo ilegal de diamante que as opiniões na comunidade se dividem entre resistir ou participar. (Em março, o ministro de Minas e Energia anunciou que acabaria com as restrições à mineração em reservas indígenas.)

Segundo Awapu, o problema não são só as terras indígenas. A extração ilegal de madeira está crescendo nos parques e reservas naturais do estado, uma consequência direta dos acenos e políticas do governo. Em abril, Bolsonaro interveio pessoalmente para impedir que agentes do Ibama destruíssem máquinas confiscadas em uma operação contra madeireiros ilegais na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. A prerrogativa de destruir o caro maquinário de madeireiros e garimpeiros ilegais é a ferramenta de dissuasão mais eficaz do Ibama. Mas o órgão foi desautorizado pelo presidente em um vídeo postado nas redes sociais: “Não é pra queimar nada, maquinário, trator, seja o que for, não é esse procedimento, não é essa a nossa orientação”, sentenciou.

Contudo, a orientação de queimar árvores em vez de máquinas ilegais pode prejudicar o próprio agronegócio. Já existem estudos que confirmam o que os índios começaram a notar há décadas: o desmatamento está desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amazônia, causando um atraso perceptível no início da estação das chuvas, que está ficando mais curta e mais quente.

Se as terras indígenas de Rondônia forem devastadas, o estado virará sinônimo de desastre pela segunda vez na história recente, levando consigo a atividade econômica construída sobre as cinzas da floresta. “É nas matas protegidas de Uru-Eu-Wau-Wau que se encontram as principais bacias hidrográficas do estado”, diz Daniel Peixoto, um delegado da Policial Federal que comandou operações contra a máfia dos grileiros no território indígena de Uru-Eu-Wau-Wau. “Toda a nossa água vem de lá. É por isso que não temos seca. Sua conservação é estratégica até para o agronegócio e a pecuária”, explica.

patrol-01-1562185493-1562360819
patrol-02-1562185508-1562360824
patrol-03-1562185554-1562360830
patrol-04-1562185569-1562360835

Membros da tribo Jupaú, incluindo Arima e seu filho, Awapu, fazendo uma ronda para detectar invasões ou grilagem. A reserva abriga importantes bacias hidrográficas que servem toda a floresta. Fotos: Gabriel Uchida

AO RAIAR DO DIA, vou com Awapu tomar café e suco de açaí sem açúcar antes de embarcar em uma piroga em direção à ponta noroeste de Uru-Eu-Wau-Wau, um território de quase 18.000km² no sul de Rondônia. A área está no coração da zona vermelha local, onde o número de invasores pagos por pecuaristas está em alta. Dois outros moradores nos acompanham: Djurip, com seu arco e flechas de bambu, e Potei, armado de uma carabina enferrujada. “Depois da eleição, os grileiros ficaram mais atrevidos”, diz Awapu enquanto amarramos a canoa para entrar na mata. “Eles sabem que Bolsonaro pensa como eles – que a gente não trabalha e não merece tanta terra. Dizem que o presidente vai dar nosso território para eles. Eles acham que ninguém pode detê-los”, afirma.

A Comissão Pastoral da Terra registrou mais de 600 assassinatos ligados à luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amazônia, e um aumento de 20% de casos em 2018.

Passamos a manhã quase toda percorrendo em silêncio uma trilha de monitoramento. A mata é densa e adornada de cipós. Potei vai na frente. Ele para ao topar com outra trilha – mais rudimentar do que a nossa, porém perfeitamente visível. Os homens se espalham para investigar. Eles voltam de cara fechada. Awapu se ajoelha, esfrega a terra e desenha um ângulo reto com um graveto.

“Eles começam com essa forma de ‘L’”, diz ele, apontando para o caminho. “Quinze homens de facão podem abrir uma trilha de 20km em uma semana. Para marcar o terreno, fazer entradas. Quando as chuvas passam, eles voltam com motosserras para cortar as árvores menores e abrir caminho para os tratores, se houver alguma estrada por perto. O resto eles queimam. Em novembro, antes de as chuvas voltarem, eles plantam capim, que cresce rapidinho. E logo aquilo vira pasto. Então eles vendem para algum fazendeiro, que diz não ter conhecimento de nenhuma grilagem. É uma espécie de lavagem”, explica.

Para interromper o processo antes da queimada e do plantio, é preciso enfrentar grileiros armados em áreas isoladas, em meio às ossadas de meio século de conflito. Agora que o Estado está saindo da floresta, serão necessários outros métodos de dissuasão, como as patrulhas de índios capazes de se deslocar e se comunicar imperceptivelmente, e cujas flechas surgem da mata como um suspiro. Mas sempre existiu um desequilíbrio de forças. A Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica brasileira, registrou mais de 600 assassinatos ligados à luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amazônia, e um aumento de 20% de casos em 2018. A maioria das vítimas são índios e outros habitantes tradicionais da floresta que tentam organizar uma defesa conjunta contra o extrativismo ilegal.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (2)Na fronteira da reserva indígena dos Jupaús, a floresta encontra porções de terra ocupadas por gado. Sem a vegetação nativa, a solo superficial da região seca e se esgota rapidamente. A maioria das pastagens é degradada e abandonada dentro de 10 ou 15 anos. Foto: Gabriel Uchida

Uma hora de caminhada depois, a trilha chega ao fim. É ali que a floresta acaba e a fronteira do agronegócio começa. “Fronteira” não é uma metáfora ou um conceito em um relatório da ONU, e sim uma coisa concreta, que pode ser vista, tocada e atravessada. De um instante para outro, o frescor e a sombra da mata fechada dão lugar a uma ofuscante fornalha de capim, tostando sob o sol equatorial. De um lado, o que Euclides da Cunha chamou de “a última página a escrever-se do Gênesis”. Do outro, uma manada de zebus ruminando estupidamente. Awapu aponta para a única vegetação presente do lado das vacas: o capim que serve de forragem animal. “É isso que elas comem”, ele diz. E acrescenta, levantando o dedo para o horizonte: “Tudo isso era floresta quando eu era jovem.”

Paramos para comer biscoitos e peixe seco bem ali, na fronteira entre o Gênesis e o Apocalipse. Depois, enquanto nos preparamos para voltar ao rio, Djurip, o mais calado dos três, fala pela primeira vez: “Os brancos nunca respeitaram a nossa cultura porque não é uma cultura de dinheiro. Não é uma cultura do agronegócio. Eles dizem que somos gananciosos e queremos terra demais. Mas são os brancos que têm um apetite insaciável. São eles que estão devorando tudo”, protesta.

4 – O FANTASMA DE CHICO MENDES

ENQUANTO O SUDOESTE da Amazônia era devorado nos anos 1970, a floresta produzia um anticorpo. Um movimento social e político surgiu para refutar o falso dilema entre preservação e desenvolvimento. Unindo os povos da floresta – indígenas ou não –, ele falava a língua moderna da justiça, uma novidade na Amazônia. Seu líder era um seringueiro e sindicalista do sul do Acre chamado Chico Mendes. Enquanto as queimadas lambiam Rondônia em direção ao oeste, Mendes organizou uma coalizão de pessoas que dependiam da conservação da floresta. Essa aliança criou uma forma de ação não-violenta chamada “empate”. Em alguns empates, homens, mulheres e crianças formavam barreiras humanas em volta de árvores, desafiando os invasores – pobres como eles – a matá-los. Em outros, grupos armados atacavam as bases dos desmatadores, destruindo equipamentos e fazendo reféns. O jornalista Andrew Revkin presenciou aulas de ecologia e teoria marxista ministradas aos prisioneiros pelos homens de Mendes antes da destruição de um desses acampamentos.

Mendes ganhou o apelido de “Gandhi da Amazônia” antes de ser assassinado em 1988. Ele chegou ao auge da fama numa época em que o mundo começava a reconhecer os perigos da mudança climática e o Brasil se redemocratizava. Graças a essa feliz coincidência histórica, o legado do líder seringueiro sobreviveu na nova Constituição e no novo governo, principalmente por meio da criação de um arquipélago de “reservas extrativistas” destinadas à extração de borracha, castanha, frutas e outras atividades silvícolas sustentáveis. Em 2007, o então presidente Lula criou um instituto de conservação no seio do Ministério do Meio Ambiente. O órgão foi batizado com o nome de Chico Mendes, seu colega de sindicalismo no início dos anos 1980.

O nome de Mendes é tabu no governo Bolsonaro, e tem força o suficiente para incomodar. Quando questionado pela imprensa sobre o desmonte do Instituto Chico Mendes, Ricardo Salles sibilou: “Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?”. Este sentimento encontra eco no estado de nascença do seringueiro, o Acre, que em outubro elegeu Gladson Cameli – um barão da soja de segunda geração – para governador, cargo que já havia sido ocupado por um ex-conselheiro de Chico Mendes, o ecologista Jorge Viana. Cameli comemorou a vitória convocando uma reunião com executivos do agronegócio em Porto Velho. “A salvação econômica do Acre é o agronegócio. Rondônia, nosso vizinho e irmão, é a prova disso”, declarou.

Na Assembleia Legislativa do Acre, uma bancada minoritária de deputados vem tentando modernizar a visão de Chico Mendes e impedir que um novo arco de fogo devore as florestas do estado, ainda intactas em sua maioria. O grupo é capitaneado por Janilson Leite, médico indígena e vice-presidente da Assembleia. Conheci Leite certa noite em um auditório na sede do governo estadual, em Rio Branco. De óculos, vestindo um elegante terno azul-escuro, o deputado fala pausadamente, mas com uma veemência que surpreende quem se deixa levar por sua aparência de menino.

“Depois da ditadura, o Acre investiu nas comunidades rurais e na conservação, tornando-se mais dependente de recursos federais. E, segundo certos critérios, áreas de floresta como a nossa parecem ‘improdutivas’”, afirma Leite. “Não estou dizendo que a floresta é intocável, mas derrubá-la não é a solução. Se agregarmos valor à gestão sustentável que os povos indígenas e outros fazem dos recursos da floresta, veremos que eles contribuem muito mais para economia do que a pecuária e a soja. O potencial medicinal da floresta é enorme. Temos que construir laboratórios de pesquisa. Promover o ecoturismo e indústrias alimentícias que não demandem um plantio anual. Açaí, castanha, frutas…”

A riqueza da biodiversidade da Amazônia se deve aos nutrientes gerados pela constante decomposição de sua abundante vegetação, e não às finas camadas de solo que estão por baixo. Sem essa flora, a camada fértil do solo seca e se esgota rapidamente. Para que a produção se mantenha, é preciso fazer uso de onerosos sistemas de fertilização ou sair à procura de novas terras. A maioria dos pastos se degradam e são abandonados depois de 10 ou 15 anos.

Ou seja, a própria existência desta atividade (para não falar de sua expansão) depende de um ciclo interminável de destruição: é preciso desmatar mais para superar os problemas causados pela última derrubada, que eliminou a fonte natural de nutrientes do solo. A indústria da soja na Amazônia também tenta lidar com a rápida degradação do solo criando mais terras cultiváveis, saturando-as de doses cada vez maiores de fertilizantes e agrotóxicos. A ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza Cristina Costa, ganhou o apelido de “Musa do Veneno” por sua cruzada contra a proibição de pesticidas altamente tóxicos.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (7)
Imagem aérea da reserva indígena dos Jupaús em setembro de 2016. Cerca de 400 tribos vivem na bacia amazônica que forma um “corredor sagrado de vida” que vai dos Andes ao Atlântico. Foto: Gabriel Uchida

Além do mais, a maioria dos empregos criados por essas atividades é temporária: derrubar árvores.

Joaquim Francisco de Carvalho, ex-diretor do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, diz que uma hectare de gado ou soja pode valer de R$ 100 até R$ 1.000, enquanto o mesmo hectare de florestas exploradas de forma sustentável pode render mais de R$ 3.000. Mas a diferença mais importante não pode ser quantificada.

O manejo florestal conserva a biodiversidade e o que o etnobotânico e antropólogo Wade Davis chama de “etnosfera” da Amazônia – as últimas culturas com uma visão de mundo fundamentalmente diferente daquelas que nos conduziram à Era Antropocênica. Os habitantes originários da selva são seus defensores mais eficazes justamente por não vê-la como um depósito de recursos a serem extraídos e vendidos – sejam eles ouro, madeira ou créditos de carbono.

Isso não significa que a linguagem do comércio e desenvolvimento seja estranha aos habitantes da Amazônia. Com exceção de um número cada vez menor de tribos que nunca tiveram ou se recusam a ter contato com o homem branco, os índios querem se desenvolver e se comunicar com o mundo exterior. Marcos Apurinã, por exemplo, está tentando reviver a Aliança dos Povos da Floresta, uma iniciativa de Chico Mendes que uniu índios, quilombolas e outros grupos que praticam o extrativismo em pequena escala no Brasil.

“Temos nossas diferenças, mas temos um inimigo em comum, que é o agronegócio e os ruralistas”, diz Marcos. “Precisamos de uma tríplice aliança na fronteira, um plano comum de defesa e desenvolvimento da região. Também precisamos do Judiciário brasileiro, das cortes internacionais, das ONGs”, afirma.

Marcos é membro fundador do Comitê Nacional de Política Indigenista, um órgão consultivo criado em 2015 para servir de ponte entre grupos indígenas e organismos governamentais de desenvolvimento e sustentabilidade. “Temos ideias de desenvolvimento alternativas para gerar a renda de que precisamos para viver no mundo moderno. Passamos essas ideias ao governo. Mas, como em todo o resto, o processo parou quando Bolsonaro foi eleito. Não sabemos o vai acontecer”, inquieta-se.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (1)Porto em Boca do Acre. Foto: Mauro Toledo Rodrigues

O CAMINHO DO ACRE AO AMAZONAS, ao longo da BR-317, é similar à paisagem de Rondônia vista da BR-364: uma viagem monótona através de pastos sem fim, com pequenos trechos de mata quando a estrada atravessa uma reserva indígena. As criações de gado acabam junto com a estrada, na Boca do Acre, uma próspera e asseada cidade de 35 mil habitantes na beira do maior bloco de floresta tropical do mundo. Capital da pecuária do sul do Amazonas, Boca ostenta um estilo texano comum no interior do Brasil, com bares de caubóis e homens vestidos como o garoto-propaganda da Marlboro: camisa quadriculada desabotoada, cruz de ouro no peito, jeans, fivela desproporcionalmente grande, botas e chapéu de aba larga de palha ou couro – abaixado sobre os olhos, claro.

Em minha primeira manhã em Boca, faço uma visita surpresa a Dilermando Melo de Lima, figurão da pecuária local e presidente do Sindicato Rural de Boca do Acre. Setenta e dois anos, barrigudo e dono de um nariz em forma de couve-flor, eu o encontro sentado na varanda, bebendo café em companhia de um gato. Como todos na cidade, ele fala com prazer sobre gado e está otimista com relação ao futuro. “Olha, em Rondônia, no Acre e no Amazonas a pecuária é o futuro, pelo simples motivo de que a Amazônia tem as melhores condições para se criar gado”, acredita.

Quando questionado sobre as preocupações dos índios e outros grupos que dizem que o avanço da fronteira agrícola pode destruir os sistemas naturais que tornam a pecuária possível, ele faz um gesto de desdém.

“A floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado estão apostando no sucesso dele”

“Nós, pecuaristas, enfrentamos muitas dificuldades. Há leis e restrições demais. Áreas protegidas demais. A reserva Camicuã, aqui perto, tem 46 mil hectares de terra virgem. Não podemos nem encostar nela! Deviam nos dar autorização. A floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado estão apostando no sucesso dele”, afirma.

O velho pecuarista relaxa quando a conversa se afasta da política. Filho de um fazendeiro que migrou para a região nos anos 1930, Dilermando amolece ao descrever o vilarejo de pescadores e comerciantes da sua infância, quando as estradas de penetração ainda não haviam trazido os rebanhos para o norte e a brisa da manhã ainda não cheirava a matadouro. Ao recordar aqueles tempos que não voltam mais, ele parece mais um índio do que um fazendeiro. “Era tudo mata e rio naquela época. Daqui até Rio Branco. Mata e rio”, relembra.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

5 – NO LIMITE

NO INÍCIO DE MAIO, poucas semanas depois da conversa com Dilermando, a ONU publicou um histórico – e preocupante – relatório sobre biodiversidade. Realizado por especialistas das mais variadas disciplinas, o documento conclui que apenas uma “mudança transformadora” poderia evitar a extinção de um milhão de espécies de plantas e animais. Esses milhões de seres vivos que estão morrendo em florestas tropicais degradadas e fragmentadas – ou em oceanos ácidos e esgotados pela pesca – são apenas as primeiras vítimas de um processo de desintegração dos ecossistemas que ameaça “as próprias bases da economia, subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida do mundo”.

Ao clamar por uma “mudança transformadora”, os cientistas não estão apenas repetindo velhos apelos por uma economia ligeiramente mais verde, mas sem mudar as estruturas de nosso modelo de crescimento, produção e consumo. “Estamos falando de uma reorganização fundamental em todo o sistema, levando em conta fatores tecnológicos, econômicos e sociais, incluindo paradigmas, metas e valores”, diz Robert Watson, químico atmosférico britânico e diretor do painel de especialistas. Quanto à inspiração necessária para uma transformação desta envergadura, o relatório pede uma “participação plena e efetiva dos povos indígenas” no desenvolvimento de sistemas de governança ambiental baseados em “conhecimentos, inovações, práticas, instituições e valores (…) indígenas”.

Indígenas estão explorando formas alternativas de viver na floresta sem cortar árvores, como a pesquisa de novos medicamentos, ecoturismo e produção sustentável de açaí, oleaginosas e frutas. Foto: Gabriel Uchida
Este é o fruto de um diálogo tardio, porém cada vez mais intenso, entre a ciência ocidental e as culturas indígenas. Depois de décadas como espectadores à margem, os índios estão mais próximos do centro do palco nas cúpulas ambientais, apoiados por uma onda de estudos que confirmam sua antiga reivindicação de protetores mais naturais e eficazes da floresta.

Em novembro de 2018, uma delegação amazônica entregou um documento – a Declaração de Bogotá – à 14ª Conferência da Biodiversidade da ONU, na cidade egípcia de Sharm El-Sheikh. Nela, 400 etnias da bacia amazônica traçam um plano para criar um “corredor sagrado de vida”, formado por territórios indígenas contíguos dos Andes ao Atlântico. Dentro desses 200 milhões de hectares de floresta, as nações indígenas reuniriam seus conhecimentos ancestrais, demonstrando modos alternativos de vida e desenvolvimento. A declaração descreve a proposta como “um primeiro passo para garantir a existência de todas as formas de vida do planeta”.

Os signatários do documento buscam apoio e reconhecimento internacional para fazer frente aos governos que estão loteando a floresta para o agronegócio e a exploração de metais, madeira e petróleo. Para o governo Bolsonaro, a ideia de grupos indígenas aliados a países ocidentais e à ONU para enfrentar o desafio climático confirma séculos de paranoia nacionalista. Embora essa preocupação seja infundada, a Declaração de Bogotá enxerga o futuro da Amazônia da maneira certa: não como uma questão econômica ou um embate moral entre índios e caubóis, e sim como uma crise global que requer novas formas de ver o mundo e tudo o que ele contém.

Com a contribuição de Mauro Toledo Rodrigues.

Tradução: Bernardo Tonasse

Biodiversidade,Meio Ambiente,Fauna,Flora,Ecologia,Sustentabilidade,Blog do Mesquita

Nurit Bensusan¹ – Biodiversidade, a nossa única opção

“Se nós somos animais, por que na porta dos shoppings está escrito ‘é proibida a entrada de animais’ e nós podemos entrar?” Fui confrontada com essa pergunta muitas vezes quando tentava explicar às crianças que nós, humanos, somos uma espécie animal, parte da natureza, apenas mais um elemento da gigantesca biodiversidade do planeta. A pergunta, por si só, já diz muito. Crescemos acreditando que os humanos são uma espécie a parte e que o meio ambiente é apenas o cenário para nossa existência.

O resultado é que não nos vermos como parte da natureza, não reconhecemos o valor das outras espécies, dos ecossistemas e das paisagens e acreditamos que nossa tecnologia garantirá condições para a vida humana, a despeito das transformações do clima, das extinções de espécies e do desaparecimento das paisagens.

Não ficamos absolutamente estarrecidos com a notícia que a última vez que houve tão pouco gelo no Ártico como hoje foi há 115 mil anos. Não arrancamos os cabelos quando lemos que uma a cada oito espécies do planeta está ameaçada de extinção, totalizando mais de um milhão de espécies. Tão pouco deixamos de dormir com os números gigantescos do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Não nos angustia que abelhas desaparecem, cigarras não cantem mais, vagalumes não pisquem e golfinhos comam plástico…

 Mas deveríamos…

Muitos acham que as mudanças climáticas não são relevantes e que não fazem diferença na nossas vidas. Ainda assim, os termômetros sobem, as emissões de CO2 aumentam cotidianamente e os eventos extremos se tornam mais frequentes.

Muitos acreditam que o mais importante é aumentar a produção agropecuária a qualquer preço, destruindo o Cerrado e a Amazônia. Ainda assim, o desmatamento desses biomas traz enormes prejuízos, comprometendo a disponibilidade de água, a fertilidade dos solos, o controle de pragas e doenças e a estabilidade climática.

Podemos estar convencidos que a rica natureza brasileira é uma maldição a qual devemos superar para chegar a ser “desenvolvidos”. Ainda assim, é na nossa biodiversidade que reside a nossa maior possibilidade de crescer como um país mais justo e mais inclusivo.

Colmeia

Podemos até aplaudir as medidas tomadas pelo atual governo contra o meio ambiente. Podemos apostar que de fato existe uma indústria de multas ambientais que precisa ser contida. Podemos acreditar que os índios estão loucos para vender suas terras e se mudarem para a periferia das grandes cidades brasileiras. Podemos até dormir sossegados sabendo que nossos parques nacionais e outras áreas protegidas estão sob a mira desse governo que quer abrir esses espaços para a mineração, a grilagem e a exploração madeireira.

Ainda assim, o Brasil continua sendo a casa da natureza mais exuberante do mundo, com um enorme potencial econômico, seja no desenvolvimento de novos produtos, seja no turismo. Ainda assim, as multas ambientais fazem parte de uma política destinada a conter os avanços constantes de grileiros e de outros que fazem um uso inapropriado e ilegal dos recursos naturais brasileiros. Ainda assim, os povos indígenas preferem continuar em suas terras, mantendo sua cultura e aproveitando eventuais elementos da nossa sociedade que lhes sejam convenientes, como celulares, computadores e educação universitária. Ainda assim, abrir parques e outras áreas protegidas para atividades como a mineração e a exploração madeireira não deixa de ser vender o futuro para apostar num presente tacanho.

Hoje, dia internacional da biodiversidade, talvez seja uma oportunidade para pensar: será que com essa exuberante biodiversidade que existe no Brasil, não seria possível uma nova forma de desenvolvimento? Será que o conhecimento que povos indígenas e comunidades locais possuem da natureza combinado com a ciência feita no país não delinearia novos e promissores caminhos? Como expandir as inúmeras experiências bem sucedidas de uso equilibrado da biodiversidade Brasil afora?

É hora de pensar no nosso destino, como humanidade que divide o planeta com inúmeras espécies; pensar para onde nos conduzirão os descaminhos ambientais do Brasil; pensar se a biodiversidade não é, de fato, nosso passaporte para um mundo melhor…

E para ajudar, fica o verso do poeta Manoel de Barros: “Quem não tem ferramentas de pensar, inventa”.

¹Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Política e Dioreito do ISA e especialista em Biodiversidade

Foto: Pixabay
Ambiente,Meio ambiente,Ecologia,Diversidade,Biodiversidade,Brasil,Blog do Mesquita

Brasil atrasa entrega de relatório sobre conservação da biodiversidade às Nações Unidas

Ambiente,Meio ambiente,Ecologia,Diversidade,Biodiversidade,Brasil,Blog do Mesquita

A cada quatro anos, o Brasil deve entregar um relatório com os avanços nacionais quanto à implementação da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB/Nações Unidas). Este é um compromisso assumido pelo país enquanto membro da Convenção, previsto no artigo 26 da CDB (ratificada e promulgada pelo Decreto Federal nº 2.519/1998). No relatório deve constar, por exemplo, ações brasileiras quanto ao atendimento das 20 Metas de Aichi até 2020. O sexto relatório nacional para a CDB, elaborado sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, deveria ter sido entregue até 31 de dezembro de 2018.

De acordo com José Pedro de Oliveira Costa, ex-secretário de Biodiversidade do MMA, a Convenção é de extrema importância, sendo o elemento basilar da questão ecológica mundial. “Foi acordada durante a Rio 92 e o Brasil foi o primeiro país a assiná-la. É um dos elementos de orgulho nacional, nós que somos o país mais biodiverso do mundo e temos grande responsabilidade para com o cumprimento de seus desígnios. É o que vimos fazendo até agora, tendo com isso granjeado significativo respeito no rol das nações”, esclarece.

Quem está à frente da elaboração do Sexto Relatório Nacional para a CDB é a equipe do departamento de Conservação de Ecossistemas da Secretaria de Biodiversidade (SBio) do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Enquanto diretora, Ana Paula Leite Prates coordenou a elaboração do relatório desde o início de 2018. No atual governo, quem assumiu a responsabilidade foi Regis Pinto de Lima, que, em função da SBio estar sem secretário, permaneceu por apenas dois meses e se transferiu para o ICMBio. Na página da Secretaria figura Rodrigo Martins Vieira como diretor substituto do Departamento. Aparentemente, a equipe de elaboração está “acéfala”.

Contudo, há expectativa de entrega do relatório até junho deste ano. Segundo Bráulio Ferreira de Souza Dias, ex-secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (CDB) e atual professor do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), a maioria dos países costuma atrasar e muitos prometem remeter seus documentos até outubro, com aval da Convenção. “Se o governo concluir e mandar o relatório ainda este ano, estará tudo bem. Se não, os dados do Brasil não serão incluído no 5° Global Biodiversity Outlook (GBO) e nos documentos que o Secretariado tem que concluir até março de 2020 para que seja considerado pelas reuniões preparatórias da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima – COP (Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice – SBSTA e Subsidiary Body for Implementation – SBI), que ocorrerão em junho de 2020, quando será feito um balanço da implementação das Metas de Aichi em todo o mundo nesta década. Esta avaliação será a base para negociar e aprovar o Plano Estratégico Global de Biodiversidade para a próxima década, com as novas metas globais de biodiversidade”, esclarece o professor.

Segundo o Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), o sexto relatório nacional consiste em sete seções: 1) Informações sobre as metas estabelecidas em nível nacional; 2) Medidas de implementação adotadas, avaliação da sua eficácia, obstáculos relacionados e necessidades científicas e técnicas para atingir as metas nacionais; 3) Avaliação dos progressos realizados para atingir cada uma das metas nacionais; 4) Descrição da contribuição nacional para o atingimento de cada uma das Metas de Aichi; 5) Descrição da contribuição nacional para o atingimento das metas da Estratégia Global para a Conservação de Espécies Vegetais; 6) Informações adicionais sobre a contribuição dos povos indígenas e comunidades locais para o atingimento das Metas de Aichi, se não tiver sido registrado nas seções anteriores; 7) Perfis de biodiversidade dos países atualizados.

De acordo com Bráulio Dias, “falta terminar de coletar os dados, consultar outros setores do governo e da sociedade para receber mais dados, consolidar e formatar o relatório e só então será traduzido para o inglês – portanto, há muito trabalho pela frente”. O governo costuma buscar financiamento e contratar consultoria para elaborar os relatórios. No caso do documento em aberto, seria através do projeto “Technical Support to Eligible Parties to Produce the Sixth National Report to the CBD (6NR – LAC II)”, implementado e executado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no valor de US$ 100.000,00.

O rito normal de tramitação dos relatórios nacionais para a CDB seria a partir da SBio para a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), em seguida voltaria para o MMA e seguiria dali para o Ministério das Relações Exteriores (MRE) até chegar à CDB. A Conabio é interministerial e intersetorial e sua reunião de 07.12.2018 – última do ano e que daria aval ao relatório da CDB – foi cancelada por ação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Essas entidades alegaram que o prazo regimental de 15 dias para envio dos materiais ao encontro não foi respeitado. O então coordenador dos trabalhos da Conabio no MMA, Ugo Eichler Vercillo, havia antecipado a reunião em alguns dias.

Todavia, ((o))eco apurou que não foi apenas a data que motivou o cancelamento da reunião, mas sim o impasse em torno do novo mapa das Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade, instrumento de política pública do MMA. As entidades alegaram que a adoção do novo mapa traz entraves ao avanço de atividades produtivas. Mesmo com a reclamação, o Ministério do Meio Ambiente publicou o novo mapa de Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade através da Portaria nº 463, de 18 de dezembro de 2018. Da diretoria do órgão, se ouve que uma revisão geral do mapa deve sair até junho, para resolver “sobreposições”.

A situação tende a se agravar por algumas questões, como o fato de a Conabio não estar na nova estrutura do MMA; o próximo secretário de Biodiversidade, que deverá ser o Brigadeiro Médico Eduardo Serra Negra Camerini da Aeronáutica, não ter experiência na área ambiental – Camerini era até então diretor do Departamento de Saúde e Assistência Social do Ministério da Defesa –; e que a nova diretora do Departamento de Gestão Ambiental Territorial do MMA, Elisa Romano Dezolt, é ex-lobista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e trabalhou para alterar o chamado marco legal da biodiversidade (Lei 13.123/2015) em favor do setor privado. Com isso, percebe-se que a qualidade ambiental, tanto do mapa de Áreas Prioritárias quanto do próximo relatório da CDB, pode estar comprometida pela influência ainda maior dessas entidades no processo, se realmente forem publicados este ano.

Para Bráulio Dias, o assunto é urgente. “Seria impensável fazer um balanço da implementação das Metas de Aichi em 2020 e publicar o GBO5 sem os dados do Brasil. E seria um grave erro deste governo se não der a atenção devida à biodiversidade, tanto no plano nacional quanto internacional”, alertou.

Aquecimento Global,Meio Ambiente,Biodiversidade,Desmatamento,Poluição

Parar a perda da biodiversidade ou podemos enfrentar nossa própria extinção, adverte a ONU

O mundo tem dois anos para garantir um acordo para que a natureza detenha um ‘assassino silencioso’ tão perigoso quanto a mudança climática, diz o chefe de biodiversidade.Aquecimento Global,Meio Ambiente,Biodiversidade,Desmatamento,Poluição

Desflorestamento em indonésio para abrir caminho para uma concessão de óleo de palma. Foto: Ulet Ifansasti / Greenpeace

O mundo deve lançar um novo acordo para a natureza nos próximos dois anos, ou a humanidade pode ser a primeira espécie a documentar nossa própria extinção, adverte o chefe de biodiversidade das Nações Unidas.

Aquecimento Global,Meio Ambiente,Biodiversidade,Desmatamento,Poluição 2Antes de uma importante conferência internacional para discutir o colapso dos ecossistemas, Cristiana Pașca Palmer disse que as pessoas em todos os países precisam pressionar seus governos a traçar metas globais ambiciosas até 2020 para proteger insetos, pássaros, plantas e mamíferos. produção global de alimentos, água potável e seqüestro de carbono.

Cristiana Pașca Palmer é secretária executiva da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica – o órgão mundial responsável pela manutenção dos sistemas naturais de suporte à vida dos quais a humanidade depende.

Seus membros – 195 estados e a UE – se reunirão em Sharm el Sheikh, no Egito, este mês, para iniciar discussões sobre uma nova estrutura para administrar os ecossistemas e a vida selvagem do mundo. Isso dará início a dois anos de negociações frenéticas, que Pașca Palmer espera que culminem em um novo acordo global ambicioso na próxima conferência em Pequim, em 2020

“A perda da biodiversidade é um assassino silencioso”, disse ela ao The Guardian. “É diferente da mudança climática, onde as pessoas sentem o impacto na vida cotidiana. Com a biodiversidade, não é tão claro, mas quando você sentir o que está acontecendo, pode ser tarde demais ”.

Conservacionistas estão desesperados por um acordo de biodiversidade que terá o mesmo peso que o acordo climático de Paris. Mas até agora, esse assunto recebeu pouquíssima atenção , embora muitos cientistas digam que isso representa pelo menos uma ameaça igual à humanidade.

Os dois últimos grandes acordos de biodiversidade – em 2002 e 2010 – não conseguiram conter as piores perdas de vida na Terra desde o fim dos dinossauros .

Oito anos atrás, sob as Metas de Biodiversidade de Aichi , as nações prometeram pelo menos reduzir pela metade a perda de habitats naturais, garantir a pesca sustentável em todas as águas e expandir as reservas naturais de 10% a 17% das terras do mundo até 2020. Mas muitas nações ficaram para trás, e aqueles que criaram áreas mais protegidas fizeram pouco para policiá-los. “Reservas de papel” agora podem ser encontradas do Brasil para a China.

A questão também é baixa na agenda política. Em comparação com as cúpulas do clima, poucos chefes de Estado participam de conversas sobre biodiversidade. Mesmo antes de Donald Trump, os EUA se recusaram a ratificar o tratado e só envia um observador. Junto com o Vaticano, é o único estado da ONU a não participar .

Cristiana Paşca Palmer, chefe de biodiversidade da ONU
Paca Palmer diz que há vislumbres de esperança. Várias espécies na África e na Ásia se recuperaram (embora a maioria esteja em declínio) e a cobertura florestal na Ásia aumentou em 2,5% (embora tenha diminuído em outro lugar em um ritmo mais rápido). Áreas marinhas protegidas também se ampliaram.

Mas no geral, diz ela, a imagem é preocupante. As já altas taxas de perda de biodiversidade causadas pela destruição de habitats, poluição química e espécies invasoras irão acelerar nos próximos 30 anos como resultado das mudanças climáticas e do crescimento das populações humanas. Até 2050, espera-se que a África perca 50% de suas aves e mamíferos, e a pesca asiática caia completamente. A perda de plantas e a vida marinha reduzirão a capacidade da Terra de absorver carbono, criando um ciclo vicioso.

A humanidade eliminou 60% das populações de animais desde 1970, segundo o relatório. “Os números são impressionantes”, diz o ex-ministro do Meio Ambiente da Romênia. “Espero que não seja a primeira espécie a documentar nossa própria extinção.”

Apesar da fraca resposta do governo a tal ameaça existencial, ela disse que seu otimismo sobre o que ela chamou de “a infra-estrutura da vida” não foi prejudicado.

Um motivo de esperança foi uma convergência de preocupações científicas e crescente interesse da comunidade empresarial. No mês passado, as principais instituições de clima e biodiversidade da ONU e cientistas realizaram sua primeira reunião conjunta. Eles descobriram que as soluções baseadas na natureza – como proteção florestal, plantio de árvores, restauração de terras e manejo do solo – poderiam fornecer até um terço da absorção de carbono necessária para manter o aquecimento global dentro dos parâmetros do acordo de Paris. No futuro, os dois braços do clima e da biodiversidade da ONU devem emitir avaliações conjuntas. Ela também observou que, embora a política em alguns países estivesse indo na direção errada, houve também desenvolvimentos positivos como o presidente francês, Emmanuel Macron, sendo recentemente o primeiro líder mundial a notar que a questão climática não pode ser resolvida sem a perda da biodiversidade. .

“As coisas estão se movendo. Há muita boa vontade ”, disse ela. “Devemos estar conscientes dos perigos, mas não paralisados ​​pela inação. Ainda está em nossas mãos, mas a janela para ação está se estreitando. Precisamos de níveis mais altos de vontade política e cidadã para apoiar a natureza ”.
TheGuardian/Jonathan Watts

Um mundo de vegetarianos? Como seria?

Há uma série de motivos pelos quais as pessoas se tornam vegetarianas.

VegetarianismoProdução de alimentos responde por até 30% das emissões de carbono no mundo

Há uma série de motivos pelos quais as pessoas se tornam vegetarianas. Algumas se dizem contrárias ao sofrimento dos animais, enquanto outras tentam manter um estilo de vida mais saudável, por exemplo.

Por mais que seus amigos “carnívoros” neguem, vegetarianos têm razão: reduzir a ingestão de carne traz muitos benefícios à saúde e ao planeta. E quanto mais novos adeptos, mais essas vantagens são reproduzidas em escala global.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Mas se todos nós resolvêssemos nos tornar vegetarianos inveterados, as consequências poderiam ser dramáticas para milhões – ou até bilhões – de pessoas.

“Trata-se de um conto de dois mundos”, define Andrew Jarvis, do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), com sede na Colômbia. “Em países desenvolvidos, o vegetarianismo traria vários tipos de vantagens para a saúde pública e para o meio ambiente. Mas nas nações em desenvolvimento, poderia haver ainda mais pobreza.”

Bife x carros

Legumes e verduras à vendaSe o vegetarianismo fosse adotado globalmente até 2050, teríamos 7 milhões a menos de mortes por ano

Jarvis e seus colegas analisaram a hipótese de todos os habitantes da Terra mudarem suas dietas da noite para o dia.

Primeiro, eles observaram o impacto nas mudanças climáticas. A produção de alimentos responde por algo entre 25% e 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa geradas pelo homem em todo o mundo. E o grosso disso vem da pecuária.

Apesar disso, o impacto de nossa alimentação sobre o clima é frequentemente subestimado. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma família de quatro pessoas emite mais gases de efeito estufa por comer carne do que por dirigir dois carros. Mas, em geral, são os veículos motorizados – e não bifes – que aparecem como vilões nas discussões sobre o aquecimento global.

“Muitas pessoas não pensam nas consequências que a produção de alimentos tem sobre o clima”, diz Tim Benton, especialista em segurança alimentar da Universidade de Leeds, no Reino Unido. “Mas se consumirmos um pouco menos de carne hoje em dia, deixaremos um mundo um pouco melhor para nossos filhos e netos.”

Marco Springmann, pesquisador no programa Future of Food, da Universidade de Oxford, tentou quantificar esse argumento, construindo modelos computadorizados que simularam o que aconteceria se todos os seres humanos se tornassem vegetarianos até 2050.

Os resultados indicam que, graças à eliminação da carne vermelha da dieta, as emissões ligadas à produção de alimentos cairiam 60%. E se o mundo todo passasse a ser vegano – sem consumir nenhum produto de origem animal – a queda seria de 70%.

“Esse cenário não é muito realista”, admite Springmann. “Mas destaca a importância que as emissões relacionadas à produção de alimentos terão no futuro.”

Mais florestas e biodiversidade

Loja de embutidos na EspanhaEliminação completa da carne traria um enorme impacto na identidade de alguns povos, como os espanhóis

A indústria alimentícia, especialmente a pecuária, também toma muito espaço, o que provoca emissões com a transformação do uso da terra e com a perda da biodiversidade. Dos quase 5 bilhões hectares de terra usados atualmente no mundo para a produção de alimentos, 68% são usados para a pecuária.

Se todos nós virássemos vegetarianos, em um mundo ideal, nós dedicaríamos 80% desses pastos ao reflorestamento, o que aumentaria a absorção de carbono e aliviaria as mudanças climáticas.

Transformar antigas pastagens em habitats nativos também seria uma bênção para a biodiversidade, inclusive para grandes herbívoros como os búfalos, que perderam seu espaço para o gado bovino, e para predadores como os lobos, frequentemente mortos por atacarem ovinos, suínos e aves.

Os 10% a 20% de pastos restantes poderiam ser usados para o cultivo de mais alimentos com a finalidade compensar as falhas no abastecimento de comida. Apesar de um aumento relativamente pequeno na área cultivada, isso compensaria a perda da carne, já que um terço das terras hoje é usada para produzir alimentos para o gado – não para humanos.

No entanto, o reflorestamento ou a conversão das terras para o plantio precisariam de planejamento e investimento, já que as pastagens tendem a ser altamente degradadas. “Você não pode simplesmente tirar o gado de uma fazenda e esperar que o lugar se torne uma floresta primária sozinho”, diz Jarvis.

Impacto econômico

ChurrascoFamília americana de quatro pessoas emite mais gases de efeito estufa ao consumir carne do que ao dirigir dois carros

As pessoas envolvidas na indústria da carne também precisariam de ajuda para mudar de carreira, arrumando novas posições na agricultura, no reflorestamento ou produzindo bioenergia a partir de derivados dos produtos atualmente usados como ração de gado.

Alguns fazendeiros também poderiam receber pagamento para continuar cultivando parte de seu gado com o objetivo de manter a biodiversidade.

Se não conseguíssemos criar alternativas profissionais e subsídios para essas pessoas, seria possível imaginar uma alta taxa de desemprego e uma grande inquietação social, especialmente nas comunidades rurais ligadas ao setor pecuário.

“Há mais de 3,5 bilhões de ruminantes domésticos em todo o planeta, além de dezenas de bilhões de aves produzidas e mortas a cada ano para servirem de alimento”, explica Ben Phalan, que pesquisa o equilíbrio entre demanda alimentar e biodiversidade na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha. “Estamos falando de um enorme transtorno para a economia.”

Tradições carnívoras

Mas até mesmo os planos mais bem executados provavelmente não seriam capazes de oferecer um modo de vida alternativo para todas as pessoas que atualmente trabalham na pecuária. Cerca de um terço das terras do mundo são áridas ou semiáridas e só comportam a criação de animais.

“Sem gado, a vida em algumas regiões seria impossível”, diz Phalan. Isso inclui particularmente povos nômades que, sem seus animais, seriam obrigados a se assentarem em algum povoado ou cidade, perdendo sua identidade cultural.

Até mesmo pessoas cujas vidas não dependem apenas da pecuária poderiam sofrer, já que pratos à base de carne fazem parte da história, da tradição e da cultura de vários povos. “O impacto cultural de abrir mão da carne seria enorme, e é um dos motivos pelo qual os esforços para reduzir o consumo acabam fracassando”, explica o cientista.

Menos mortes e doenças crônicas

Agricultora trabalhando em canavialEstudos apontam que populações rurais em países em desenvolvimento poderiam enfrentar mais pobreza com “vegetarianismo universal”

Os efeitos na saúde também seriam variados. O modelo de Springmann mostra que se todos nós adotássemos uma dieta vegetariana até 2050, veríamos uma redução na mortalidade global de 6% a 10%, graças a uma menor incidência de doenças cardíacas, diabetes, derrames e alguns tipos de câncer.

Isso não seria apenas o resultado de eliminar a carne vermelha, mas também por causa da redução de calorias e do aumento da ingestão de frutas e legumes.

E com menos pessoas sofrendo de doenças crônicas relacionadas à dieta, isso também traria um corte nos gastos da saúde pública, economizando de 2% a 3% do PIB global.

Mas para que isso aconteça seria necessário encontrar substitutos apropriados do ponto de vista nutricional, especialmente para os mais de 2 bilhões de subnutridos que existem em todo o mundo. Alimentos de origem animal possuem mais nutrientes por caloria do que certos grãos. “O vegetarianismo em escala global poderia criar uma crise de saúde no mundo em desenvolvimento porque de onde traríamos esses micronutrientes?”, pergunta Benton.

Com moderação

Felizmente, o mundo inteiro não precisa adotar o vegetarianismo ou veganismo para que possamos ter os benefícios sem os prejuízos.

Em vez disso, é fundamental uma moderação na frequência com que se come carne e no tamanho das porções.

Um estudo comprovou que se a Grã-Bretanha adotasse as recomendações alimentares da Organização Mundial de Saúde (OMS), suas emissões de gases de efeito estufa cairiam 17% – algo que poderia cair ainda outros 40% se os habitantes evitassem produtos de origem animal e alimentos processados.

“São pequenas mudanças que os consumidores nem perceberiam. Não seria algo como ser vegetariano versus ser carnívoro”, explica Jarvis.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Future.