Literatura,Ilustração,Fotografia,Blog do Mesquita

Baudelaire – Poesia

Prelúdio da Vaidade
Baudelaire

Maldade que encaminha a vaidade…
Vaidade, que me toma como vencido…
Vencido quero ver-me arrependido…

Arrependido a tanta tolice…
Arrependido estou de coração…

Do seu coração busco sua luz…
Para entender do que há tanta tolice…

Baudelaire – Versos na tarde – 25/06/2016

Tolo
Baudelaire¹

Eu nunca iria deixá-la
Será que o caminho do meu coração é me machucando?
Eu tenho que ficar com o meu orgulho
Eu sei como me esconder
Só há tristeza e dor.

Estou chorando na chuva
Se eu esperar uma nuvem no céu
Você saberia, da chuva de lágrimas em meus olhos.

Mas eu nunca iria contar isto,
Eu amo você.
Então através da mágoa estarei chorando na chuva
Gotas de chuvas reprovando o céu.

Você nunca desejaria que me ausentasse da tristeza,
Mas desde então, nós não estamos mais juntos
Eu esperaria pela tempestade, para esconder as minhas lágrimas.

Gostaria que você nunca me conhecesse
Em poucos dias quando o choro acabar
Eu vou usar um belo sorriso e caminhar para o sol
Eu posso ser um tolo
Mas posso cultivar esse sonho, de tê-la em meus braços.

¹Charles Pierre Baudelaire
* Paris, França – 09 Abril 1821 d.C
+ Paris, França – 31 Agosto 1867 d.C

Baudelaire recomendava aos seus leitores que se embriagassem, de vinho, poesia ou virtude, para não sentir “o fardo horrível do Tempo”.
Famoso por suas poesias do Livro Flores do Mal, influenciou toda a poesia simbolista mundial e lançou as bases da poesia moderna.


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Continue lendo

Dândi – Crônica – Literatura

ArtePinturas,Narciso,Caravaggio,Blog do MesquitaDândi

Por Raquel Naveira

O dândi aspira a ser sublime. Vive e morre em frente ao espelho. Tudo é vaidade.

Charles Baudelaire foi um poeta boêmio, um dândi. Posso imaginá-lo numa casaca azul com botões dourados, a calça estreita de pele de gamo, as botas lustradas, a camisa de babados finalizada por um laço, todo apertado num colete. Tinha o garbo de um cardeal das letras, o mistério de quem conhece a dor do mundo e as paixões, mas permanece impávido, como um albatroz voando nas alturas, entre o eterno e o efêmero.

<=Caravaggio – Narciso – Detalhe

Ser dândi era sua essência, sua realidade. Aspiração de causar espanto pela maneira de se vestir, de se portar, de se cuidar. Pasmar as pessoas pela inteligência, pela sensibilidade, pela imaginação. Misto de vampiro e aristocrata.

Ser dândi não era futilidade, era fuga sutil daquele pássaro que pousava no navio com suas asas de envergadura gigante, deixando a turba de marinheiros estupefata.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O princípio de sua vida elegante era um pensamento de ordem e harmonia que dava um tom poético a todas as coisas. Uma espécie de dramatização da vida, afinal, a roupa é o mais enérgico dos símbolos.

“O dandismo” constitui uma das seções do ensaio de Baudelaire “O pintor da vida moderna”, que focaliza a obra do pintor francês Contantin Guys. Foi publicado pela primeira vez, em três partes, em novembro-dezembro de 1863, no jornal Le Figaro.

Baudelaire explica que o dândi cultiva o belo em sua pessoa, satisfaz suas inclinações. O gosto pela elegância material é um símbolo da superioridade de seu espírito. É uma espécie de culto de si mesmo. O último rasgo de heroísmo na decadência.

É um sol poente, que declina, soberbo, sem calor, cheio de melancolia. O dândi aspira a ser sublime. Vive e morre em frente ao espelho. Tudo nele reflete sua ambicionada glória. Ele despende suas rendas e bens com produtos de arte: livros, quadros, espetáculos musicais e teatrais. Espalha por onde anda toques de nobreza.

Ama os brasões, os capelos, os sapatos de solas vermelhas, os perfumes, os sais, os vinhos, as coroas, os barretes, as esporas de prata. Esse sentimento de busca de distinções é uma necessidade da alma humana, uma espécie de sede, pois até o selvagem tem suas plumas, tatuagens, arcos e briga por  miçangas.

Baudelaire tinha a instrução, a linguagem fluente, a graça do porte, o esmero, o trato refinado. Gastou toda a herança do pai em roupas, drogas e álcool. Morou na companhia da mulata Jeanne Duval, a Vênus Negra, no luxuoso Hotel Pimodin, onde conheceu pintores, escritores emarchands.

Sua mãe entrou na justiça, acusando-o de pródigo. Sua fortuna teve que ser controlada por um tutor. Morreu sem conhecer a fama, de sífilis e alterações cerebrais. Sempre dividido entre duas postulações simultâneas: uma em direção a Deus e à espiritualidade e outra a Satanás, no desejo da animalidade e da queda.

Lembrei-me de Castro Alves, o nosso poeta romântico. Lindo, jovem, a densa cabeleira. Vestia sempre paletó preto de casimira inglesa, chapéu gelô, gravata de colorido espalhafatoso. Olhava-se de alto abaixo no espelho e dizia:

– Tremei, pais de família! Don Juan vai sair.

Andava pelas ruas de Recife, sentindo prazer em ser reconhecido, cumprimentado. Uma tarde, esquecendo-se das conquistas amorosas, subiu num banco da praça e gritou:

– A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor!

Em breve ele próprio seria o condor ferido, o pé amputado depois de um incidente numa caçada, o peito minado pela tuberculose. Febres, hemorragias, delírios. Aos vinte e quatro anos, as esperanças de celebridade e de futuro se acabaram para o dândi.

O poeta Mário de Sá-Carneiro, amigo de Fernando Pessoa, foi um dândi perdido no labirinto de si mesmo: “Se me olho a um espelho, erro/ – Não me acho no que projeto”.

Nos seus poemas fala sempre dos sonhos que não sonhou e de uma saudade que o faz beijar suas mãos brancas. Declara ter sido Lord na Escócia em outra vida, arrastando sua tristeza sem brilho e o desejo astral de ter desfrutado um luxo desmedido.

Aos vinte e seis anos, em meio a uma crise financeira e moral, suicidou-se. Sua vaidade de narciso aliada a uma tendência ao autodesprezo, a uma visão estética feminóide conduziram-no ao abismo. Sua intuição à Baudelaire trouxe, porém, novos horizontes para a poesia portuguesa.

Baudelaire, Castro Alves, Mário de Sá-Carneiro: pobres poetas dândis, almas que se perderam na vaidade. Pois tudo é vaidade.

Conheço alguém de uma elegância suprema, de uma graça essencial. É um homem divino que se ocupa de todos com delicadeza. Está sempre pronto para ajudar. Sempre semelhante a si mesmo. É simples e calmo, por isso tem poder.

Seduz e atrai sem esforço. Magnético. Aceita as pessoas. Perdoa seus defeitos. É capaz de dizer: “Eles não sabem o que fazem”. Eu me escondo sob sua capa vermelha. E lhe presto culto.

Baudelaire – Versos na tarde – 06/06/2013

Só deixarei de gostar de você
Baudelaire ¹

Só deixarei de gostar de você…
Quando não mais sentir alegria no teu sorriso.
Quando não mais sentir emoção ao conversar com você.
Quando não mais sentir tristeza ao te ver infeliz.
Quando não mais sentir esse vazio ao ficar com saudade.
Quando não mais sentir ciúmes ao te ver com alguém.
Agora se quer saber quando terei certeza;
É simples…
Nesse dia, esse coração que bate no meu peito, terá dado o seu último suspiro.

¹ Charles Pierre Baudelaire
*Paris, França – 09/04/1821 d.C
+Paris, França – 31/08/1867 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]