Como os futuros livros de história lembrarão a guerra da Síria?

Recentemente, um parlamentar britânico comparou o bombardeio russo a um comboio da ONU na cidade de Aleppo, na Síria, aos ataques nazistas na Espanha durante os anos 1930.

Olhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbviaOlhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbvia
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Andrew Mitchell, do Partido Conservador, disse que a Rússia está matando civis na Síria da mesma maneira como a Alemanha nazista se comportou em Guernica durante a Guerra Civil espanhola, ataques que inspiraram o pintor Pablo Picasso a criar a obra Guernica.

A declaração foi recebida com controvérsia, mas, ao comparar dois momentos distintos da história, ensejou uma questão: como a guerra na Síria será descrita e contextualizada nas escolas no futuro?

Atualmente, aprendemos nas aulas de história que o assassinato do arquduque Franz Ferdinand foi um dos gatilhos para a Primeira Guerra Mundial. E que a ascensão de Hitler ao poder contou com vários fatores, incluindo a situação econômica na Alemanha, assim como suas habilidades como orador público.

Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?
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Com a ajuda de especialistas, fizemos algumas previsões sobre os tópicos que, que como os acima, serão cobrados dos estudantes nos próximos 50 anos.

O começo: a invasão ao Iraque em março de 2003

Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque
Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque

“Se eu estivesse dando uma aula, eu iria para março de 2003, quando Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países decidiram invadir o Iraque”, diz o professor Tim Jacoby, especialista em conflitos e professor da Universidade de Manchester.

“Mas você também poderia argumentar que para entender o que aconteceu na Síria você precisa entender a decisão de Saddam Hussein de invadir o Kuwait em 1991. Ou você pode ir um pouco além”, afirma.

Homem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celularHomem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celular – Image copyrightREUTERS

Michael Stephens, pesquisador de Oriente Médio do Instituto Real de Serviços Unificados (Royal United Services Institute), um think tank de segurança, concorda que 2003 é um bom começo para entender a guerra na Síria, mas há também outras datas cruciais.

“Até 2001, as pessoas na Síria tinham apenas duas estações de TV, ambas controladas pelo Estado. Quando as pessoas tiveram acesso à internet, elas puderam se comunicar com o mundo todo e as pessoas foram incentivadas a querer mais para elas mesmas. A crise econômica de 2007-2008 teve um impacto econômico gigante no mundo árabe, o que levou à Primavera Árabe”, explica.

Mais de mil diferentes grupos são contrários ao governo sírio

Bashar al-Assad, presidente da SíriaImage copyrightEUROPEAN PHOTOPRESS AGENCY
Image captionBashar al-Assad, presidente da Síria

Michael Stephens e Tim Jacoby concordam com a alta probabilidade de que este será considerado um dos mais complexos conflitos em décadas, se não o mais complexo.

Alguns dos principais grupos atuando no conflito são:

– Presidente Bashar al-Assad, líder do governo sírio, e seus apoiadores;

– Rebeldes que se opõem à liderança de Assad, lutando contra o Exército do governo;

– Partidos políticos que dizem que Assad é responsável por fraudar as eleições, garantindo sua permanência no poder;

– O grupo extremista que se intitula Estado Islâmico, que usou a violência contra grupos como cristãos e Yazidis.

Segundo estimativas, existem mais de mil grupos diferentes se opondo ao governo desde que o conflito começou, com 100 mil soldados.

EUA, Rússia e Irã são alguns dos grandes jogadores internacionais

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack ObamaO presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama – Image copyrightREUTERS

Esta é mais uma questão de “grande complexidade”, segundo Jacoby. Segundo o especialista:

– A Rússia sempre foi uma aliada da Síria e continua a ser, principalmente porque ela continua a ser sua principal aliada no Oriente Médio;

– O Irã teve uma grande influência na região como consequência da invasão ao Iraque em 2003. São aliados próximos;

– Para a política americana, um grande elemento do envolvimento dos Estados Unidos na Síria é garantir a segurança de Israel, seu aliado próximo.

O chamado Estado Islâmico quer dissolver as fronteiras entre Síria e Iraque

Soldados americanos fazem patrulha em BagdáSoldados americanos fazem patrulha em Bagdá – Image copyrightGETTY IMAGES

“A invasão ao Iraque é a primeira vez em um bom tempo em que a coalizão internacional invadiu um país soberano e o subjugou a um período prolongado de ocupação”, diz Jacoby.

“Desestabilizou muito os regimes tirânicos e despóticos que existiam na região há décadas. O conflito na Síria é um resultado direto dessa desestabilização, eu diria.”

Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico
Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico

E nem todo mundo pensa que Iraque e Síria são duas nações separadas.

“Aquela fronteira que desenhamos no mapa entre esses povos nunca foi aceita na mente dessas pessoas”, explica Jacoby.

“As pessoas que vivem no deserto e transpõem aquela fronteira são as mesmas. Então o que o Estado Islâmico quer de alguma maneira é dissolver aquela fronteira – e é exatamente isso o que eles fizeram.”

É difícil saber exatamente quantas pessoas morreram na Síria

Homem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em AlepoHomem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em Alepo – Image copyrightREUTERS

“A conta de mortes no Iraque é apenas uma estimativa”, diz Jacoby. “Comparado com o Vietnã, onde os corpos eram contados e as mortes publicadas, há pouquíssima informação.”

Jacoby afirma que essa era uma “política deliberada” por parte da coalizão de governos como Estados Unidos. Um resultado, diz ele, é que o movimento antiguerra não tinha esses dados pra ajudar na sua causa.

O que nós sabemos é que milhões de pessoas deixaram a Síria durante os últimos anos como refugiadas.

O número de refugiados varia muito

Mulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, GréciaMulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, Grécia
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As redes sociais e a internet tiveram um papel importante em não apenas permitir um experiência melhor de mundo às pessoas que estão dentro da Síria, mas também dar a elas uma plataforma para noticiar o que acontece em suas vidas.

“Da perspectiva do Oriente Médio, eu acho que a onda de debates nas redes sociais foi bastante polarizador”, diz Stephens.

“É um pouco como quando Alan Kurdi (o menino de três anos na fotografia considerada hoje icônica) apareceu na praia. É mesmo necessário que uma criança seja levada pelo mar até uma praia para as pessoas se importarem?”

O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado
O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado – Image copyrightAFP

“Talvez a crise síria de refugiados tenha nos levado a pensar um pouco mais criticamente sobre nosso papel no resto do mundo”, disse Jacoby.

Ele destaca que o número de refugiados sírios vivendo em diferentes países varia muito. “A Turquia por exemplo tem provavelmente três milhões de refugiados sírios”, diz ele, comparando com os poucos milhares que vieram à Inglaterra.

“E depois de passar por todo aquele sofrimento e privação, eles serem submetidos ao racismo endêmico na Grã-Bretanha é absolutamente imperdoável”, diz.

Menina síria em campo de refugiados na TurquiaMenina síria em campo de refugiados na Turquia – Image copyrightASSOCIATED PRESS

Michael Stephens acredita que esse será o conflito definitivo até a metade desse século, acrescentando: “pode ser tão importante quanto foi a Primeira Guerra”. Ambos os especialistas preveem que o futuro será castigado pela forma como o conflito sírio tem ocorrido.

“Eu acho que permitir que milhares de homens, mulheres e crianças se afoguem no mar Mediterrâneo será visto como um dos maiores crimes do começo do século 21. É completamente escandaloso, acho que a história será extremamente crítica sobre nosso papel nisso, nossa capacidade de ignorar isso”, diz Jacoby.

“Aprender a lições da história será dolorido para todos. Eu acho que todo mundo (do Irã aos Estados Unidos e Europa) terão que jogar as mãos para o alto e dizer que poderiam ter feito algo diferente. Do jeito que a região está, acho que a situação ficará pior antes de ficar melhor”, completa Stephens.
Com dados da BBC

A cidade onde um homem pode levar 30 chibatadas por guardar fotos de mulheres no celular

Raqqa era pouco conhecida até o grupo autodenominado Estado Islâmico declará-la sua capital, em 2014.

Reuters
Forças do Estado Islâmico fazem grande patrulha das ruas de Raqqa para observar cumprimento de leis – Image Reuters

Cidade semideserta de menos de 200 mil pessoas no nordeste da Síria, não teve muita importância nos últimos séculos. Isso mudou com o surgimento do grupo extremista e, agora, sua brutalidade e violência são conhecidos em todo o mundo.

Mulheres são proibidas de andarem sozinhas nas ruas, e enfrentam a vigilância constante da polícia feminina. Salões de beleza ou exibições de partidas de futebol foram banidos.

Até quem for flagrado com uma foto de uma mulher no celular pode ser condenado a chibatadas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Mas nem sempre foi assim.

 

A vida antes do EI

A principal transformação de Raqqa no último século se deu nos anos 1970, quando uma grande usina hidrelétrica foi construída perto dali, no rio Eufrates.

Grandes projetos de agricultura na área atraíram dezenas de milhares de novos moradores de outras partes da Síria em busca de oportunidades, o que alterou a demografia da região.

Estado Islâmico
Estado Islâmico declarou Raqqa a capital de seu autodenominado califado em 2014

Antes disso, ela era meramente uma estação remota para policiar as rotas de comércio entre as principais cidades sírias no oeste e as cidades mais ocidentais do Iraque, de Mosul a Bagdá.

Raqqa está numa área que dá acesso a todas as partes da Síria, e também ao Iraque, através de uma grande região semideserta ao leste da cidade. Talvez esteja aí a razão pela qual o Estado Islâmico a tenha escolhido como sua capital.

Havia uma universidade particular e algumas escolas técnicas do governo na cidade. Raqqa era cheia de cafés e seus moradores costumavam ficar até tarde nas ruas durante o verão, em parques e restaurantes, onde jovens homens e mulheres conversavam juntos.

Aliás, eles estavam juntos também em protestos contra o regime do presidente, Bashar Al-Assad. Isso, claro, antes do EI tomar a cidade.

Não havia indústrias na província de Raqqa, a terceira maior da Síria, e a maior parte das pessoas trabalhava em fazendas ou para o governo. Costumes tribais são fortes na cidade e em sua região.

A cidade é povoada por árabes sunitas, ligados a tribos sunitas do oeste do Iraque. Havia uma minoria curda na cidade, e também em outras cidades de etnias mistas na província, como Ain Issa. Mas os curdos foram expulsos pelo EI, que questionaram sua lealdade após combates entre o Estado Islâmico e forças curdas em outras partes da Síria.

A nova rotina: violência e brutalidade

Ao assumir a cidade e a província, expulsando outros grupos rebeldes, o EI estabeleceu um estilo de governo que se centra na boa relação com profissionais locais e ex-funcionários do governo.

Leis islâmicas rígidas, ou sharia, foram impostas e tribunais especiais, comandados por juízes do EI, foram criados.

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Punições e penas duras fazem com que seja impossível protestar ou resistir às práticas do grupo – Image Reuters

O comandante de Raqqa é chamado de “wali”. Ele é apoiado por diversos emires, cada um responsável por um departamento de serviço.

As punições e penas duras introduzidas pelo EI fizeram com que seja impossível protestar ou resistir às políticas e práticas do grupo. Decapitações públicas são comuns, assim como punições para a longa lista de atos considerados crimes sob suas regras.

O EI depende, basicamente, de força brutal e violência para governar, e essa política é, geralmente, reforçada por jihadistas estrangeiros.

Os residentes que, inicialmente, ficaram na cidade, adaptaram suas vidas ao regime do grupo. Àquela época, havia segurança, alguma lei, serviços e acesso à comida.

Mas com o aumento dos bombardeiros aéreos recentes de Rússia e França e a destruição de sistemas de eletricidade e água, a vida se tornou difícil para civis. Há, agora, falta de combustível, já que a maior parte das refinarias foram atacadas.

Mulheres e meninas não podem deixar suas casas se não estiverem acompanhadas por um parente homem adulto – geralmente o pai, irmão ou marido – e o (véu) niqab é uma obrigação para elas, cobrindo topo o corpo, da cabeça ao tornozelo.

Reuters
Raqqa tem sido atingida por ataques aéreos de coalizão liderada pelos EUA e a Rússia – Image Reuters

Há, também, uma força especial da polícia patrulhando as ruas para reforçar a aplicação da sharia, que incluem normas sobre como homens devem se vestir.

Fumar é proibido e quem for flagrado pela polícia “Al-Hisba” pode ser chicoteado. Todos os homens devem ir a mesquitas para orações durante o dia.

Entre as leis impostas pelo EI, há uma punição de 30 chibatadas para qualquer um pego com a foto de uma mulher gravada no celular.

Assistir jogos de futebol também é ilegal, e cafés podem ser fechados se flagrados exibindo partidas.

Uma força policial feminina, o batalhão “Al-Khansaa”, patrulha as ruas para prender mulheres que não estão vestidas de acordo com a lei do grupo. Integrantes dessa força são, na maioria, esposas de combatentes do EI. Elas são responsáveis por punir quem não está vestida adequadamente e torturar detentas.

Salões de beleza foram banidos e a maioria das mulheres evita as ruas para evitar a vigilância da polícia feminina ou ser escolhida para se casar um jihadista se forem solteiras ou viúvas.

As esposas de combatentes mortos são forçados a se casarem com outros combatentes. Há incentivo para que não se tenha filhos, já que os casamentos duram pouco: a maioria dos jovens maridos estão em combate e muitos são mortos.

Sírios em Raqqa acreditam que o domínio do EI irá acabar, mais cedo ou mais tarde. Até lá, a repressão e a violência devem continuar.

Brasil acolhe mais sírios que países na rota europeia de refugiados

Desde o início da crise na Síria, o Brasil vem concedendo asilo a mais refugiados sírios do que os principais portos de destino de refugiados na Europa.

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Segundo dados do Conare, 2.077 sírios receberam asilo do governo brasileiro de 2011 até agosto deste ano.

Segundo dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão ligado ao Ministério da Justiça, 2.077 sírios receberam asilo do governo brasileiro de 2011 até agosto deste ano. Trata-se da nacionalidade com mais refugiados reconhecidos no Brasil, à frente da angolana e da congolesa.

O número é superior ao dos Estados Unidos (1.243) e ao de países no sul da Europa que recebem grandes quantidades de imigrantes ilegais ─ não apenas sírios, mas também de todo o Oriente Médio e da África ─ que atravessaram o Mediterrâneo em busca de refúgio, como Grécia (1.275), Espanha (1.335), Itália (1.005) e Portugal (15). Os dados da Eurostat, a agência de estatísticas da União Europeia, referem-se ao total de sírios que receberam asilo, e não aos que solicitaram refúgio.

Nas últimas semanas, a crise humanitária na Síria voltou a ganhar projeção na imprensa internacional, com levas de refugiados abandonando o país em direção, principalmente, à Europa. A imagem de um menino sírio morto em uma praia da Turquia virou símbolo da tragédia.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Apesar da distância ─ 10 mil quilômetros separam Brasil e Síria, o governo brasileiro vem mantendo uma política diferente da de muitos países europeus em relação a refugiados sírios.
Solicitações de refúgio concedidas*

Brasil – 2.077
Argentina** – 233
Uruguai -117
Chile – 1.220
EUA – 1.243
Canadá – 2.374
Reino Unido – 4.035
Grécia*** – 1.275
Espanha*** – 1.335
Itália – 1.005
Portugal*** – 15
Noruega – 2.995
França – 4.975
Bélgica – 5.430
Suécia – 39.325
Alemanha – 65.075
*Estimativas até o 2º trimestre de 2015
**Estimativas até 2014
***Estimativas até o 1º trimestre de 2015

Há cerca de dois anos, o Conare publicou uma normativa facilitando a concessão de vistos a imigrantes daquele país.

Desde então, muitos sírios daquele país vem escolhendo o Brasil como destino para fugir de guerras, perseguições e pobreza.

Segundo fontes ouvidas pela BBC Brasil no Ministério das Relações Exteriores, o número de vistos concedidos por mês a cidadãos sírios é hoje quatro vezes maior do que antes do início da crise, em 2011.
Naquele ano, grupos rebeldes tentaram tomar o poder no país e entraram em confronto com forças de segurança do presidente da Síria, Bashar al-Assad.

Atualmente, a emissão do documento está concentrada principalmente nas embaixadas brasileiras em Beirute (Líbano), Amã (Jordânia) e Istambul (Turquia). A representação diplomática em Damasco (Síria) foi fechada em 2012 por motivos de segurança.

“Antigamente, emitíamos 20 vistos por mês. Hoje são 20 por semana. Mas já emitimos mais”, afirmou à BBC Brasil um diplomata que não quis se identificar.

“São pessoas com todos os perfis socioeconômicos. Há desde camponeses a engenheiros e advogados, muitos deles com pós-graduação. Em comum, todos estão fugindo de um país imerso em uma espiral de violência”, acrescentou.

Comparação

Refugiados,Síria,União Europeia,Brasil,Direitos Humanos,Genocídio 02Síria vive crise humanitária sem precedentes

O Brasil também é o país que mais concedeu asilo a refugiados sírios na América Latina. No continente americano, só perde para o Canadá ─ que recebeu 2.374 refugiados entre janeiro de 2014 e janeiro deste ano.

Especificamente na comparação com os vizinhos sul-americanos, contudo, o número de solicitações concedidas pelo governo brasileiro é consideravelmente superior.

Desde 2011, por exemplo, a Argentina concedeu refúgio a apenas 233 sírios. Já o Uruguai, a 117. O Chile, por sua vez, recebeu 1.220 imigrantes.

Na outra ponta, contudo, o Brasil recebeu menos do que Alemanha (65.075), Suécia (39.325), Noruega (2.995), Bélgica (5.430), França (4.975) e Reino Unido (4.035), segundo dados da Eurostat.
Nesta sexta-feira, em resposta à pressão doméstica e internacional, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmou que o Reino Unido vai oferecer asilo a “milhares de refugiados sírios” devido à piora da crise humanitária. Ele não divulgou estimativas, mas a Acnur (agência de refugiados da ONU) informou que o número poderia chegar a 4 mil.

Facilidade

Em entrevista à BBC Brasil, o representante da Acnur (Agência da ONU para Refugiados), Andrés Ramirez, elogiou a iniciativa do governo brasileiro, que classificou como uma “importante mensagem humanitária e de direitos humanos”.

“O Brasil tem mantido uma política de portas abertas para os refugiados sírios. O número ainda é baixo, em muito devido à localização geográfica. Mas sem dúvida se trata de um exemplo a ser seguido a nível mundial”, afirmou ele.

Ramirez lembrou que no Brasil, diferentemente de outros países, enquanto espera pela concessão do asilo, o refugiado pode trabalhar e ter acesso à saúde e à educação.

Ele criticou, entretanto, a demora no processamento de pedidos. Segundo ele, o Conare vem tendo dificuldades para atender à demanda crescente das solicitações de asilo.

“Temos realizado conversas com o governo no sentido de modernizar a estrutura do órgão, face à nova realidade. Houve um aumento substancial no número de pedidos de asilo no mundo.

Com o Brasil não foi diferente. É necessário agilizar a dinâmica do Conare, mas sem perder de vista a qualidade. Isso significa desde aumentar o número de funcionários a melhorar a organização interna”, explicou.

“Outro desafio é integrar esse refugiado à sociedade brasileira, tanto social quanto economica e culturalmente”, acrescentou.

Crise sem precedentes

Refugiados,Síria,União Europeia,Brasil,Direitos Humanos,Genocídio 03

Travessia no Mediterrâneo pode custar mais de R$ 10 por pessoa

O mundo enfrenta a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, segundo organizações como a Anistia Internacional e a Comissão Europeia.

Desde janeiro deste ano, mais de 350 mil imigrantes atravessaram o Mediterrâneo. Desse total, estima-se que 2.643 tenham morrido no mar enquanto tentavam chegar à Europa, de acordo com a OIM (Organização Internacional para as Migrações).

O número supera com folga o total de 2014, quando 219 mil migrantes tentaram realizar a travessia, normalmente feita em botes ou em embarcações superlotadas, sem os mínimos requisitos de segurança, por traficantes de pessoas.

A viagem pode custar mais de R$ 10 mil por pessoa, tornando o negócio altamente lucrativo ─ uma única embarcação pode render R$ 1 milhão.
Luís Guilherme Barrucho e Camilla Costa/BBC

O polêmico grupo que poderia ajudar a derrotar o ‘Estado Islâmico’ na Síria

Um grupo de entre 10 a 20 mil combatentes na Síria tem despontado como um “aliado” involuntário do Ocidente.

O Ahrar al Sham surgiu no noroeste da Síria em 2011 – Image copyright Reuters

Trata-se do Ahrar al Sham (Homens Livres da Síria), que luta contra o presidente Bashar al-Assad e o autoproclamado Estado Islâmico (EI) e que pode ter um papel-chave na sangrenta guerra que já dura quatro anos no país.

Segundo analistas, o grupo se tornou uma das organizações mais poderosas em combate na Síria.

“Desde que surgiram em 2011 no noroeste do país, conseguiram ter um enorme impacto no campo de batalha”, diz a revista The Economist. “E logo outros grupo queriam se unir a eles.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

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Influência

O Ahrar al Sham não apenas se estabeleceu como força militar importante, como também uma força política organizada com aliados-chave na região – Turquia e Catar.

Mas os Estados Unidos e seus aliados se recusam a dialogar com eles, argumentando que o grupo é baseado na militância islâmica e que seus líderes tiveram vínculos com a Al-Qaeda.

“O Ahrar al Sham faz parte de uma ampla coalizão síria de grupos da oposição, a Frente Islâmica. E dentro dela é a força mais poderosa e mais bem organizada”, explica o correspondente da BBC no Oriente Médio, Jim Muir.

“O grupo quer ver a lei islâmica estabelecida na Síria, mas deixou claro que seus objetivos são muitos diferentes dos do ‘EI’, a quem considera inimigo.”


O grupo tomou o controle da cidade de Idlib, no noroeste do país – Image copyright Reuters

Em abril, o porta-voz do Departamento de Estado John Kirby disse que os Estados Unidos “não trabalharam nem ofereceram nenhum ajuda ao Ahrar al Sham”.

“Os Estados Unidos apoiam grupos de oposição sírios moderados. Ainda que os EUA não tenham designado o Ahrar al Sham como uma organização terrorista estrangeira, seguimos tendo preocupações com as relações do grupo com organizações extremistas”, disse Kirby.

Apelos

Recentemente o Ahrar al Sham tem feito apelos, sem sucesso, a Washington e a Londres para considerarem uma aproximação na luta contra o ‘EI’ e encontrar uma solução para a Síria.

Em julho, tanto o Washington Post (EUA), como o Daily Telegraph (de Londres) publicaram longos artigos opinativos assinados por Labib al Nahhas, “diretor de Relações Exteriores” do grupo.

Em seus artigos, Al Nahhas fala do “grande fracasso” dos governos britânico e americano em tomar ações militares contra Assad e das consequências dessa indecisão.

“O resultado: um número de mortos que se calcula entre 200 mil e 300 mil pessoas, mais de 11 milhões de deslocados e inúmeras cidades em ruínas”, disse Nahhas em seu artigo, intitulado “As consequências letais de rotular erroneamente os revolucionários da Síria”, para o Washington Post.


O grupo tem entre 10 mil e 20 mil combatentes – Image copyright Reuters

“Não se determinou uma estratégia clara, as chamadas ‘linhas vermelhas’ do governo de Obama não foram cumpridas. As medidas de curto prazo baseadas nas experiências no Iraque e no Afeganistão, juntamente com o ruído gerado por veículos obcecados com o ‘EI’, ganharam prioridades sobre objetivos a serem alcançados a longo prazo.”

“Em nenhum momento, esse fracasso é mais claro do que na consequência de rotular de forma errada os revolucionários sírios como ‘moderados’ ou ‘extremistas'”, afirma.

Aproximação

Nem Londres nem Washington atenderam ao chamado de Nahhas.

Mas diante da realidade síria, com uma guerra civil cada vez mais complexa, com refugiados sírios chegando às fronteiras europeias e com avanços do ‘EI’, alguns analistas se perguntam se não chegou o momento de unir forças com o Ahrar al Sham.

Robert Ford, que foi embaixador dos EUA na Síria entre 2010 e 2014 e agora é membro do Middle East Institute (centro de estudos especializado no Oriente Médio baseado em Washington), acredita que “sim, chegou o momento de falar com o Ahram al Sham”.

“O Ahrar é uma força-chave no campo de batalha, mas eles tem tido pouco espaço nos meios (de comunicação) ocidentais, e são descritos como ‘linha dura’ ou ‘jihadista'”, escreveu Ford em um artigo para o instituto.

Em setembro de 2014, Hassan Abboud, líder do grupo, foi assassinado em um atentado que pode ter sido cometido pelo EI – Image copyright Reuters

O ex-diplomata deixou claro que não defende dar apoio material ou militar ao grupo, mas que “dada sua proeminência no campo de batalha no norte e no centro, terá um papel muito importante em qualquer negociação de paz”.

“Deveríamos encontrar um canal para começar a falar com eles. O atual enfoque do governo (americano) em relação à Síria está fragmentando o país.”

Tudo indica que a Síria não enfrenta apenas uma batalha entre Assad e o ‘EI’. Também está em jogo quem, entre as centenas de grupo da oposição, pode ganhar apoio do Ocidente.

Como disse um ativista sírio ao New York Times: “Nós costumávamos buscar os melhores aliados possíveis. Mas agora temos os extremistas islâmicos (EI) e o Ahrar al Sham. Assim, elegemos o Ahrar.”
BBC