Cresce aversão ao Brasil no mercado mundial

Empresas que querem exportar ou captar financiamento no exterior vivem momentos difíceis. Visto como pária por sua política ambiental, país é cada vez mais criticado. Opção pelo isolamento vai custar caro à economia.

É fascinante como nas últimas semanas o empresariado brasileiro vem discutindo aspectos ambientais de maneira séria e intensa. A cúpula sobre o clima promovida pelos EUA na semana passada acelerou isso. Nela, o presidente Bolsonaro quis se apresentar como um ambientalista convertido. Disse que o Brasil será climaticamente neutro já em 2050, que o desmatamento ilegal na Amazônia será zerado até 2030 e que imediatamente dobrará o orçamento para as autoridades ambientais. Mas a tal virada fracassou.

Era evidente que quem falava era o capitão da reserva e não um ambientalista. “Falta credibilidade à coisa toda”, diz Fábio Alperowitch, chefe da Fama Investimentos, uma das pioneiras entre os fundos para investimentos sustentáveis ​​no Brasil. Ele diz que Bolsonaro aponta metas distantes, mas sem um plano de ação.

Solidão

Após cerca de dois anos e meio no cargo, Bolsonaro fica cada vez mais solitário no mundo. Depois que Donald Trump deixou o poder nos EUA, ele é o único chefe de governo de um grande país que não dá a mínima para as mudanças climáticas. Mas agora sobretudo o empresariado está incomodado com o papel de pária ambiental do Brasil.

Porque, além da falta de reformas e da fraca gestão da crise, que empurra a esperada recuperação econômica cada vez mais para 2022, existe agora a ameaça de pressão adicional do exterior por causa da desastrosa política ambiental. Isso é algo que já vem sendo sentido por fundos e investidores que dependem de empréstimos externos.

Com isso, o banqueiro Armínio Fraga teve que suspender a captação de um multibilionário fundo de private equity antes do esperado, devido à falta de investidores, principalmente do exterior. “O pessoal está meio em greve”, lamenta o ex-presidente do Banco Central.

Aversão ao Brasil

Guilherme Leal, empresário e ex-candidato a vice-presidente do Partido Verde, também sente resistência do exterior. Os investidores não querem mais ir ao Brasil por causa da política ambiental. A controladora da rede de cosméticos Natura teme que a aversão dos consumidores ao redor do mundo aos produtos do Brasil saia do controle. “Parceiros comerciais estão com uma série de ruídos. E existe um risco disso chegar aos consumidores, e aí não tem quem controle”, afirma.

Essa crítica cada vez maior ao Brasil acaba ofuscando outros aspectos. Por suas usinas hidrelétricas, biocombustíveis e fontes alternativas de energia como solar, biogás e eólica, o Brasil possui uma das produções de energia mais sustentáveis ​​entre os principais países do mundo.

O Brasil é criticado mundialmente exclusivamente por causa da destruição florestal e do governo que nada está fazendo para evitá-la. “O Brasil tem a matriz energética mais sustentável entre as principais economias do mundo. Poderíamos ser uma referência neste mundo da descarbonização”, diz Markos Jank, um dos maiores especialistas em agroindústria do Brasil.

Papel do setor privado

Mas a falta de credibilidade é um obstáculo. Isso também se aplica a parte do próprio empresariado brasileiro. Jank defende, por exemplo, que o setor privado se torne mais ativo na proteção do meio ambiente, que sobretudo os agricultores façam mais para combater o desmatamento ilegal.

Para o investidor financeiro Alperowitch, o discurso nada convincente de Bolsonaro na cúpula do clima e as reações negativas a ele são um alerta para as empresas brasileiras listadas em bolsa de valores. “Greenwashing não ajuda nada, só prejudica!”

Cúpula do Clima: Brasil precisa diminuir desmatamento da Amazônia ainda neste ano para não receber sanções

O cientista Carlos Nobre defende que o grande potencial econômico da floresta é mantê-la em pé, mas que é preciso um forte combate ao crime organizado para zerar a degradação o quanto antes.

O cientista Carlos Nobre na Reserva Ecológica de Cuieiras, a 100 quilômetros de Manaus, na área de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).TORE MARKLUND / DIVULGAÇÃO

O climatologista Carlos Nobre é uma das principais vozes da ciência que alertam para os riscos de savanização da Amazônia caso o desmatamento não seja freado e zerado até, no máximo, 2030. Em entrevista o cientista afirmou que ou o Governo Jair Bolsonaro muda sua conduta ou corre o risco de sofrer sanções econômicas. “Se o Brasil quiser deixar de ser o pária ambiental do planeta, não dá para ficar em cima do muro nem deixar para mudar de postura depois, para a COP-26”, explica o cientista, referindo-se à conferência do clima da ONU que será realizada em novembro deste ano, em Glascow (Escócia). “Eu acho que vai ter muita sanção econômica. Podem enterrar de vez o acordo entre Mercosul e União Europeia, por exemplo. Por isso, é muito importante que o desmatamento caia ainda neste ano. Já se sabe que não vai cair muito, mas não pode crescer”, alerta ele.

Atualmente, pouco mais de 80% da cobertura original da Amazônia está preservada. O número parece alto, mas estudos científicos indicam que a floresta está “na beira do precipício da savanização”: a estação seca está três ou quatro semanas mais longa no sul da região e a floresta absorve menos carbono e recicla menos água, explica Nobre. “Há colegas meus que dizem que savanização ja começou. Eu ainda acho que dá para evitar o pior se a gente zerar rapidamente o desmatamento e restaurar grandes áreas, gerando chuvas e diminuindo temperaturas. Mas isso tem que acontecer a jato”. Para salvar a Amazônia, o mundo também precisa ter sucesso na aplicação do Acordo de Paris e não deixar que a temperatura do planeta suba mais que 1,5 grau celsius. Caso contrário, todo esforço de preservação será em vão, explica Nobre. Os desafios são enormes.

Durante seu discurso de três minutos na Cúpula do Clima nesta quinta-feira, Bolsonaro garantiu que o Brasil tem a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030. De acordo com Nobre, mais de 90% de todo o desflorestamento da Amazônia é ilegal e não tem a ver com produção agrícola, mas sim com o mercado de terra. Para mudar esse quadro, é preciso combater o crime organizado, o que praticamente zeraria toda a degradação da floresta, explica. Em sua fala, Bolsonaro reconheceu que medidas de comando e controle são parte da reposta. “Apesar das limitações orçamentárias do Governo, determinei o fortalecimento dos órgãos ambientais, duplicando os recursos destinados a ações de fiscalização”, assegurou o presidente. As metas apresentadas pelos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, foram elogiadas pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em seu discurso de encerramento nesta sexta.

Porém, um dia depois do pronunciamento de Bolsonaro, aconteceu exatamente o inverso do que ele prometeu diante de 40 líderes internacionais: entre os vetos no Orçamento de 2021, o Governo federal cortou nesta sexta-feira 19,4 milhões de reais do Ibama, sendo que 11,6 milhões seriam destinados para atividades de controle e fiscalização ambiental e seis milhões para a prevenção e controle de incêndios florestais. Bolsonaro também retirou sete milhões do ICMBio, outro braço da fiscalização ambiental, que seriam destinados à criação, gestão e implementação de unidades de conservação. Também cortou 4,5 milhões do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. No total, os cortes do Ministério do Meio Ambiente somam 240 milhões de reais para o ano de 2021.

“Tem que haver um esforço de guerra para acabar ou diminuir o crime na Amazônia. Não pode ser só um discurso de tolerância zero, porque na prática o crime continua acontecendo”, enfatiza Nobre. Os anos de 2019 e 2020 registraram um importante aumento no desmatamento. Em 2021, o mês de março foi o pior dos últimos 10 anos. “O general Mourão [vice-presidente e responsável pelo Conselho da Amazônia] afirmou que o Exército iria sair da Amazônia no dia 30 de abril e que o Ibama iria contratar 700 fiscais temporários. Até agora não contratou nenhum. Muitos fiscais foram aposentados por idade ou estão fora de campo com a pandemia”, alerta o cientista, que teme novo aumento do desmatamento a partir de maio, quando começa o período mais seco na região amazônica.

Nobre explica que o desmatamento das florestas tropicais representa 15% das emissões de gás carbônico no planeta, enquanto que a maior parte, 70%, vem dos combustíveis fósseis. Porém, o objetivo global de zerar as emissões até 2050 passa, necessariamente, por zerar o desmatamento ao mesmo tempo que se investe “em um mega projeto de restauração florestal em todos os trópicos para retirar gás carbônico da atmosfera”. Além disso, proteger as florestas significa, também, proteger a biodiversidade. “Existe um simbolismo imenso na proteção da Amazônia”, explica o cientista. Para ele, Biden percebeu essa preocupação dos consumidores de todo o mundo com a proteção da Amazônia. “E o Brasil tem a maior parte da floresta, o maior desmatamento, a maior incidência do crime organizado, de grilagem de terra, de roubo de madeira… Em função dos dois últimos anos de discurso do Governo federal contrário à proteção das florestas tropicais, o país se tornou o centro das atenções.”

Novo modelo econômico para a Amazônia

Nobre defende que a restauração da Amazônia não deve acontecer para compensar novas áreas desmatadas. Zerar o desmatamento e promover a restauração de áreas devem andar juntos. “Há áreas degradadas e baixa produtividade sem valor econômico. Há estudos indicando que poderíamos aumentar 35% da produção agropecuária reduzindo em 25% as áreas de pastagens. Só nessa brincadeira poderíamos liberar 150.000 quilômetros quadrados de áreas ruins que poderiam ser restauradas”, explica. Ele defende que parte dessa restauração seja feita para construir sistemas agroflorestais, “que são florestas com uma densidade maior de espécies com valor econômico”. Como exemplo cita a cooperativa de Tomé-Açu, no Pará, que gera “140 produtos diferentes a partir de 70 espécies, sendo a mais conhecida o açaí”.

Assim, ele reforça que “o grande potencial econômico da Amazônia” é mantê-la em pé. Também rebate a ideia, muito propagada pelo Governo, de que os mais 20 milhões de habitantes da região recorrem ao desmatamento para poderem sobreviver. “Os empregados do garimpo e da extração de madeira estão em semiescravidão e não ganham nem um salário mínimo por mês. São paupérrimos, estão na classe E. Não podemos dizer que isso é um modelo econômico”, argumenta. Além disso, argumenta que o minério e a madeira extraídos ilegalmente são contrabandeados. Não pagam impostos e nem geram riqueza ao país. “E veja o açaí, movimenta um bilhão de dólares [cerca de 5,5 bilhões de reais] na região e muitos produtores estão na classe C”.

O custo maior da mudança de modelo econômico seria na restauração florestal, garante Nobre. Com pouco investimento, afirma, é possível dobrar ou triplicar a produtividade da pecuária. Ele acredita que no setor privado o momento é positivo, com as grandes companhias de carne investindo em rastreabilidade para não comprar de áreas desmatadas. Sabem que o risco é perder mercados internacionais e investimentos. “O que precisamos, agora, é de uma grande mudança de postura nas políticas públicas, de efetividade no combate ao crime e na valorização da bioeconomia”, destaca.

‘Elite poluidora’: ricos do mundo precisam reduzir consumo para conter mudanças climáticas, diz grupo científico

PA MEDIA
Estilo de vida dos mais ricos inclui muitos voos de avião e carros grandes – resultando em uma emissão de carbono muito maior do que a população mais pobre

O 1% mais rico da humanidade produz o dobro das emissões de carbono dos 50% mais pobres do mundo juntos e, por isso, precisa mudar radicalmente seu estilo de vida para ajudar no combate às mudanças climáticas, aponta um relatório britânico publicado na última semana.

Um grupo um pouco maior, o dos 5% mais ricos do mundo – a chamada “elite poluidora” -, contribuiu com mais de um terço (37%) do crescimento das emissões de carbono entre 1990 e 2015.

Por conta disso, os autores do relatório defendem reduções drásticas no “excesso de consumismo”, desde evitar o uso de veículos utilitários esportivos (SUV) poluidores até redução nas múltiplas viagens aéreas em voos comerciais ou jatos particulares.

O relatório é da Comissão de Cambridge para Mudanças Comportamentais de Escala, um painel de 31 pesquisadores que estudam comportamento humano relacionado ao meio ambiente e que se dedicam a encontrar formas eficientes de escalonar iniciativas que combatam a emissão de carbono.

Críticos dessas conclusões afirmam que a melhor forma de conter as emissões de carbono é por melhorias tecnológicas, em vez de por medidas impopulares.

Mas o principal autor do estudo, Peter Newell, professor da Universidade de Sussex (Reino Unido), afirmou à BBC News que, embora seja “totalmente a favor de melhorias tecnológicas e produtos mais eficientes, está claro que será necessária uma ação mais drástica, porque as emissões (de carbono) continuam subindo”.

“Temos de conter o excesso de consumo, e o melhor lugar para começar é com o excesso de consumo entre as elites poluidoras, que contribuem com muito mais de o que lhes caberia nas emissões de carbono”, agregou.GETTY IMAGES
Carros utilitários não só consomem muito mais combustível, como exigem muito mais emissões para serem fabricados

“Essas são as pessoas que mais viajam de avião, dirigem os carros maiores, vivem nas maiores casas, para as quais podem facilmente pagar o aquecimento, então não tendem a se preocupar muito quanto a se essas casas são bem isoladas (termicamente) ou não. E também são as pessoas que poderiam adquirir um bom isolamento térmico e painéis solares, se quisessem.”

Newell afirmou que, para enfrentar o aquecimento global, todas as pessoas precisam se sentir parte de um esforço coletivo – o que significa que os ricos precisam consumir menos e dar o exemplo aos mais pobres.

“Ricos que viajam muito de avião podem achar que compensam suas emissões com projetos de plantio de árvores, para capturar o carbono do ar. Mas esses projetos são altamente contenciosos e não têm comprovação a longo prazo. (Os mais ricos) precisam simplesmente viajar menos de avião e dirigir menos. Mesmo que eles tenham um carro utilitário elétrico, ele ainda é um dreno ao sistema de de energia, e há todas as emissões emitidas na construção do veículo”, prossegue o pesquisador.

Em resposta, Sam Hall, da Rede Ambiental Conservadora, afirmou que “é importante enfatizar a importância da igualdade (nos cortes de emissões) – e políticas podem facilitar que pessoas e negócios se tornem mais ambientalmente corretos por meio de incentivos e regulação direcionada. Mas encorajar tecnologias limpas é provavelmente mais eficiente e tem mais chance de conquistar consenso entre o público do que penalidades ou restrições ao estilo de vida”.

No entanto, Newell argumenta que as estruturas políticas atuais permitem aos mais ricos fazer lobby contra mudanças necessárias na sociedade que possam interferir em seu estilo de vida.

Um exemplo recente é o da Assembleia do Clima do Reino Unido, iniciativa que propôs uma série de medidas para conter comportamentos de alta emissão de carbono – como desincentivos ao alto consumo de carne vermelha e derivados de leite, veto a utilitários poluidores e taxas a viajantes aéreos frequentes.

Um empecilho citado pela Secretaria do Tesouro britânica é que, para taxar viajantes frequentes, seria necessário que o governo coletasse e armazenasse dados pessoais dos passageiros, abrindo debates em torno da privacidade.

Mas, para a comissão de Cambridge, só será possível alcançar as metas do Acordo Climático de Paris com “mudanças radicais em estilos de vida e em comportamentos, especialmente entre os membros mais ricos da sociedade”.

“Para haver mudanças na velocidade e na escala exigidas para o cumprimento das metas, precisamos encolher e dividir: reduzir o carbono e distribuir (a riqueza) mais igualmente”.

O relatório é o mais recente dentro de um amplo debate em torno de o que significa ser “justo” no âmbito do combate às mudanças climáticas.

Países mais pobres, como a Índia, costumam argumentar que deveriam poder aumentar sua poluição, uma vez que sua emissão de carbono per capita é menor do que a de países ricos.

Essas questões são parte da intrincada negociação que fará parte da conferência climática marcada para a semana que vem e organizada pelo presidente americano, Joe Biden. E também da conferência COP, que será em novembro no Reino Unido.

Meio Ambiente:Quarenta deputados alemães pedem que Congresso brasileiro não flexibilize regras ambientais

Parlamentares alemães enviaram carta para Arthur Lira e Rodrigo Pacheco afirmando que eventual aprovação de três projetos de lei pode afetar a relação comercial entre Alemanha e Brasil.

Signatários, que incluem 40 membros do Parlamento alemão, afirmam que aprovação de projetos de lei teria potencial para elevar o desmatamento no Brasil.

Quarenta membros do Parlamento alemão (Bundestag) assinaram na sexta-feira (26/03) uma carta aberta endereçada aos presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), pedindo que eles não pautem para votação três projetos de lei que flexibilizam regras de proteção do meio ambiente e de comunidades tradicionais e indígenas.

O texto menciona o projeto que autoriza a mineração em terras indígenas, o que flexibiliza as normas para regularização de terras e o que estabelece um novo marco legal do licenciamento ambiental.

Entre os assinantes, está a vice-presidente do Bundestag Claudia Roth e Anton Hofreiter, líder dos Verdes no Parlamento alemão, além de mais cinco integrantes da Câmara dos Deputados da Itália e um membro do Parlamento Europeu, totalizando 46 políticos europeus com mandato.

Os signatários afirmam que a aprovação dos projetos tem potencial para elevar o desmatamento e a violência contra comunidades indígenas e tradicionais e significaria um retrocesso na legislação ambiental do Brasil.

A carta diz também que os projetos mencionados, se virarem lei, afetariam as relações atuais e futuras com o Brasil. Os parlamentares citam que ações que provoquem mais desmatamento, afetem os direitos humanos e prejudiquem o combate às mudanças climáticas devem ser levadas em conta em qualquer acordo comercial.

“Estamos muito preocupados que esse pacote de propostas legislativas possa ameaçar nossos esforços conjuntos e colocar em risco nossas relações econômicas e comerciais futuras”, diz o texto. “Gostaríamos de considerar o Brasil nosso parceiro num esforço conjunto por um mundo melhor. Um mundo que protege os direitos humanos, respeita a biodiversidade e o clima e dá suporte a sociedades prósperas.”

A carta é o mais recente capítulo da crescente pressão europeia para a preservação do meio ambiente no Brasil, agravada por políticas do governo Jair Bolsonaro que reduziram a proteção florestal e prejudicaram o combate ao desmatamento e a incêndios, deixando mais longe uma possível ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

Os números chocantes que o desperdício de alimentos deixa no mundo

A maior parte do desperdício de alimentos – equivalente a 61% – vem das famílias.

Qual é a primeira coisa que você faz quando abre a geladeira e vê que há um alimento que já expirou ou que parece ruim? Possivelmente, sua resposta rápida é: jogue fora.

Mas você já parou para analisar quais são as consequências de desperdiçar comida?

Se sua resposta for não, não se preocupe, pois a verdade é que a verdadeira escala de desperdício de alimentos no mundo e seu impacto não foram totalmente medidos até hoje.

Esta é uma das conclusões do mais recente e abrangente relatório sobre o assunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da organização britânica WRAP de resíduos.

12 inovações para acabar com o desperdício de alimentos
O chamado “Índice de Desperdício de Alimentos 2021” expõe um número quase assustador: em 2019, eram 931 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados. Isso sugere que 17% da produção total de alimentos do mundo foi para o lixo.

Para avaliar ainda mais esses números, pode ser útil entender sua equivalência de peso: 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados com alimentos, que alinhados dariam a volta na Terra sete vezes.

De onde vem o alimento descartado?
De acordo com os resultados do estudo liderado pela ONU, a maior parte do desperdício de alimentos – o equivalente a 61% – vem das famílias. Ou seja, das casas de cada um de nós. Daquela maçã que talvez você comprou mais e decidiu se desfazer dela. Ou aquela banana que, depois de passar dias na sua cozinha, ficou preta.

Então, 26% pertence ao setor de food service, por exemplo, restaurantes, hotéis ou estabelecimentos de ensino. E, por fim, 13% vem do comércio, como supermercados ou pequenas lojas.

Usando dados sobre desperdício de alimentos de 54 países, os pesquisadores chegaram a uma das conclusões mais impressionantes de seu estudo: os níveis de resíduos no nível familiar são semelhantes em países de alta renda, média alta e média baixa.

Por exemplo, a Nigéria é um dos países do mundo onde mais alimentos são jogados fora, com 189 quilos per capita por ano. Algo semelhante ocorre em Ruanda, onde a cifra chega a 164 quilos per capita.

A Holanda e a Bélgica, por outro lado, perdem 50 quilos per capita por ano, enquanto nos Estados Unidos são 59.

A conclusão, então, é clara: isso não é mais um problema apenas para os países ricos, onde os consumidores simplesmente compram mais do que podem comer. Agora, é também daqueles países que estão em desenvolvimento.

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Estima-se que 17% dos alimentos disponíveis no mundo acabam sendo jogados fora.

“O que sabemos agora é que para os países de renda média o desperdício de alimentos domésticos é substancial. E isso muda completamente o que antes pensávamos ser apenas um problema em países de alta renda”, explica Tom à BBC Mundo Quested, analista da WRAP e outra dos autores do relatório.

O que está acontecendo na América Latina?

A maioria dos países latino-americanos não possui informações robustas sobre o desperdício de alimentos. Isso é um problema porque, sem dados, é impossível dimensionar o assunto.

O que é dieta flexitarista e por que ela é a chave para salvar o planeta
Os pesquisadores conseguiram reunir informações em sete pontos geográficos diferentes, pertencentes a apenas 4 países da América do Sul: Belize, Brasil, México e Colômbia.

De acordo com os resultados, Belize desperdiça 53 quilos por pessoa por ano, enquanto no Brasil eram 60, no México 94 e na Colômbia 70.

“Os resultados na América Latina sugerem que há uma quantidade substancial de desperdício de alimentos, principalmente das famílias. O continente ainda tem um longo caminho a percorrer para enfrentar o problema porque precisa entender o que está acontecendo em suas fronteiras para agir “, explica Tom Quested.

No entanto, relatórios anteriores sobre desperdício de alimentos na América Latina e no Caribe não são muito encorajadores.

De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em outubro de 2019, o continente é responsável por 20% do volume global de alimentos que se perdem desde a colheita até chegar ao varejo.

Isso significaria que a região perderia cerca de 12% de seus alimentos.

Quais são os efeitos do desperdício de alimentos no mundo?
Se 17% dos alimentos disponíveis no mundo forem jogados fora, espera-se que haja um forte impacto econômico, social e ambiental.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Quanta comida é desperdiçada na América Latina?
“O impacto ambiental é enorme. Para se ter uma ideia da escala disso, se o desperdício de alimentos fosse um país, seria o terceiro maior emissor do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos”, diz Richard Swannell. , diretor da WRAP.

“Portanto, o desperdício de alimentos impulsiona a mudança climática”, acrescenta ele à BBC Mundo.

A responsabilidade pelo desperdício de alimentos nas mudanças climáticas é medida adicionando-se todo o processo a um determinado produto.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Por exemplo, se for um vegetal, devemos pensar na cadeia por trás dele para que chegue a uma casa: da terra onde é cultivada (terras que muitas vezes são fundamentais para o habitat natural de uma determinada região) aos fertilizantes, os processo de embalagem, armazenamento (que geralmente requer baixas temperaturas que dependem do combustível), transporte, etc.

O mesmo é verdade para a carne, para a qual uma enorme cadeia de produção e processamento é necessária antes de chegar à boca do consumidor.

Por outro lado, em termos econômicos, o desperdício de alimentos não afeta apenas o bolso do consumidor (pois ele está pagando por um produto que não está comendo), mas também o mercado em geral.

“O aumento da demanda pelos produtos impulsiona os preços para todos”, explica Tom Quested.

Richard Swannell, entretanto, acrescenta que “uma família média do Reino Unido desperdiça cerca de 700 libras (US $ 970) em comida a cada ano. Isso é cerca de US $ 80 por mês em alimentos que não são consumidos.”

Assim, reduzir as perdas poderia diminuir os custos de produção, pois o sistema de produção se tornaria mais eficiente.

O impacto social também é brutal se considerarmos o grande número de pessoas que não têm acesso a alimentos de qualidade no mundo.

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690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, de acordo com a FAO. Na foto, uma mulher e uma criança procuram comida no meio do lixo.

De acordo com a FAO, 690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, um número que deve aumentar drasticamente após a pandemia do coronavírus. Além disso, 3 bilhões de pessoas não podem pagar por uma dieta saudável.

Assim, a contradição entre desperdício de alimentos e falta de alimentos é clara.

“Precisamos encorajar mais doações de alimentos de boa qualidade para aqueles que precisam. E isso é algo muito importante, que deve ser uma prioridade crescente após a pandemia”, disse Swannell.

Meio Ambiente: Estamos perto de um ponto sem volta

Devemos fazer de 2021 o ano em que a ação climática atingiu a maturidade, ou enfrentaremos o desastre, escreve Inger Andersen, o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Incêndios extremos ligados às mudanças climáticas foram uma ocorrência frequente em 2020

Com a implementação dos programas de vacinação COVID-19, 2021 começa com a esperança de que o fim da pandemia esteja próximo. Precisávamos de liderança ousada, decisões difíceis e financiamento dedicado para nos levar até este ponto. Devemos agora aplicar o mesmo vigor para combater a mudança climática ou arriscar muitos mais anos tão mal quanto o anterior.

O ano de 2020 – provavelmente o mais quente já registrado – trouxe tempestades, incêndios florestais, secas, inundações e derretimento de geleiras. A desaceleração econômica associada à pandemia causou uma queda temporária nas emissões de dióxido de carbono, mas isso fará uma diferença insignificante nas temperaturas de longo prazo; nossas emissões anteriores ainda estão na atmosfera e estamos adicionando a elas.

Mesmo se os países implementassem as últimas promessas voluntárias – conhecidas como contribuições determinadas nacionalmente (NDCs) – sob o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, ainda estaríamos caminhando para um aumento projetado na temperatura média global de 3,2 graus Celsius (4,4 F) acima dos níveis pré-industriais até o final do século XXI. Esse aquecimento traria dor, miséria e perturbação que eclipsaria tudo o que COVID-19 jogou em nós.

Estamos perto de um ponto sem volta.

A seca e a escassez de água estão entre os muitos impactos do aumento das temperaturas

Os líderes podem recuar investindo em soluções sustentáveis ​​como parte dos esforços de recuperação da pandemia. O Relatório de Lacunas de Emissões 2020, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), nos disse que fazer isso poderia reduzir as emissões projetadas para 2030 em 25% – trazendo o mundo aproximadamente onde ele precisa estar para ter uma chance de atingir a meta do Acordo de Paris de limitando o aquecimento global a 2 graus Celsius. O comprometimento líquido zero pode até mesmo nos aproximar da meta de 1,5 grau Celsius.

Preparando-se para uma maratona

Medidas de recuperação verde e sustentável podem proporcionar esses cortes ao mesmo tempo em que apóiam outras metas ambientais, sociais e econômicas. Precisamos de suporte direto para tecnologias e infraestrutura de emissão zero. Fim dos subsídios ao carvão e aos combustíveis fósseis. Políticas que permitem o consumo de baixo carbono. Soluções baseadas na natureza – incluindo restauração de paisagem em grande escala e reflorestamento realizado durante a Década das Nações Unidas para Restauração de Ecossistemas, que começa este ano.

Inger Andersen, Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)

Até agora, poucas nações investiram em pacotes de estímulo verdes. Isso tem que mudar.

2021 é também o ano em que se realiza a COP26, reunião central dos países signatários do Acordo de Paris. De acordo com o Emissions Gap Report, 126 países adotaram, anunciaram ou estão considerando planos de emissão líquida zero. Se o novo governo dos EUA entrar na corrida conforme prometido, os países responsáveis ​​por mais de 63% das emissões globais de dióxido de carbono terão se comprometido com a neutralidade de carbono.

Mas, como quem se compromete no primeiro dia de janeiro a correr uma maratona até o final do ano, precisamos dar passos específicos, a partir de agora, para estarmos prontos para a corrida. Esses compromissos devem ser traduzidos urgentemente em políticas e ações fortes e de curto prazo que se integrem a uma recuperação pandêmica de baixo carbono e sejam incluídas em novos e mais fortes NDCs antes da cúpula de novembro. Caso contrário, são promessas vazias.

A energia limpa é fundamental para atingir metas líquidas de zero

O financiamento da adaptação precisa de um impulso

Outra prioridade é ajudar os países e comunidades vulneráveis ​​a lidar com os impactos cada vez maiores das mudanças climáticas. O Adaptation Gap Report do PNUMA, que será publicado nas próximas semanas, mostrará que ainda não estamos levando a adaptação a sério. O financiamento permanece muito abaixo dos níveis exigidos e a maioria das iniciativas ainda deve reduzir os riscos climáticos. Como disse o Secretário-Geral da ONU, precisamos de um compromisso global para destinar metade de todo o financiamento climático global à adaptação antes da COP26.

Este ano, temos uma chance real de evitar uma catástrofe climática. Usando recursos de estímulo com sabedoria para dar início a uma mudança sistêmica real, planejada e monitorada por meio de NDCs mais fortes e compromissos líquidos de zero, poderíamos não apenas atingir a meta de 2 ° C do Acordo de Paris, mas ter uma chance de lutar Meta de 1,5 ° C.

Devemos aproveitar esta oportunidade para proteger nosso clima e natureza e, por sua vez, a saúde humana, a paz e a prosperidade, nas próximas décadas. Pode ser um dos últimos que receberemos.

Onde estamos cinco anos após o Acordo de Paris

Cinco anos após a negociação do Acordo de Paris de 2015, o cientista climático Saleemul Huq diz que vivemos em um mundo com mudanças climáticas.

Desde 2015, o Acordo de Paris tornou-se um símbolo de esperança

Em 12 de dezembro de 2015, o então Ministro das Relações Exteriores da França e Presidente da 21ª Conferência das Partes (COP21) Laurent Fabius martelou o histórico Acordo de Paris sob aplausos estrondosos na sala de conferências.

Tive a sorte de estar naquela câmara naquela noite histórica. Eu fiz parte desse aplauso. Fui testemunha de um momento de última hora que ficou em suspenso durante as duas semanas de negociações intensas.

As emoções estavam em alta na sala de conferências cheia de promessas
Cinco anos depois, o Reino Unido – como presidente entrante da COP26 a ser realizada em novembro de 2021 – convocou uma Cúpula da Ambição do Clima. A ser realizado no quinto aniversário daquela noite memorável, é uma oportunidade para chefes de governo de todo o mundo compartilharem seus planos revisados ​​para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

E esta é uma oportunidade que eles devem levar a sério.

Em dezembro de 2015, os países em desenvolvimento vulneráveis, que ajudo a representar, defenderam fortemente uma meta de temperatura de longo prazo de 1,5 grau Celsius. Nosso apelo encontrou resistência inicial de muitas nações desenvolvidas, o que tornou a inclusão final da meta no Acordo de Paris uma grande conquista para nós.

‘Perda de momentum’

Mas não aconteceu o suficiente nos anos que se seguiram para nos colocar no caminho para atingir a meta. Vimos os Estados Unidos se retirarem do acordo e, embora nenhum outro país tenha seguido o exemplo, ainda assim foi um grande revés para o esforço global de combate às mudanças climáticas.Cientista do clima, Saleemul Huq

A perda geral de ímpeto na última meia década permitiu que as temperaturas subissem mais de 1 grau Celsius acima das médias pré-industriais. Os impactos adversos desse aquecimento planetário estão agora se tornando visíveis em todo o mundo, com incêndios florestais, inundações, secas e furacões afetando vidas e meios de subsistência.

Já vivemos em um mundo com mudanças climáticas.

Um dos principais resultados do Acordo de Paris foi liberar as oportunidades para que atores não governamentais, incluindo prefeitos de cidades, chefes de empresas, grupos da sociedade civil, bem como jovens e até crianças, tomem as ações necessárias, independentemente de seus próprios governos estarem fazendo isso. .

Isso levou a grandes movimentos globais que viram crianças em idade escolar – lideradas por Greta Thunberg – pressionarem seus pais e idosos a tomarem as medidas necessárias.

Furacões e ciclones, mas também secas e inundações estão se tornando cada vez mais frequentes e, em muitos casos, mais graves

O futuro do planeta, entretanto, não pode ser deixado apenas para esses movimentos.

Joe Biden prometeu voltar a aderir ao Acordo de Paris assim que tomar posse como presidente dos Estados Unidos em janeiro de 2021. Mas se quisermos chegar perto da meta de 1,5 grau pela qual lutamos tanto, todos os países precisarão consideravelmente aumentar suas ambições.

E quando a COP26 finalmente acontecer no ano que vem, também deve ser um fórum para abordar a questão do apoio às vítimas de perdas e danos como resultado do aquecimento global. Não fazer isso pode levar ao fracasso do COP.

Saleemul Huq é o diretor do Centro Internacional para Mudanças Climáticas e Desenvolvimento (ICCCAD) em Bangladesh. Ele também assessora o grupo de Países Menos Desenvolvidos (LDC) na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Governo tenta intencionalmente destruir povos indígenas

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Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo. José Ortega y Gasset

Em entrevista, ex-presidente da Funai diz que já na não se pode falar em falha na proteção de reservas, mas numa política deliberada para destruí-las: “Não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”.

Queimada perto de Apui, no estado do Amazonas: destruição da floresta avança sob Bolsonaro

Se nos governos anteriores havia desaprovação a ações pontuais ligadas aos povos tradicionais, no governo de Jair Bolsonaro as críticas são direcionadas a tantas áreas que a questão indígena acaba diluída em meio a uma desaprovação maior e mais geral.

É essa a avaliação do jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito Agrário e Socioambiental na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000.

Para o jurista, a política ambiental da atual gestão, simplesmente, não existe. “Até o ministro [do Meio Ambiente] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”, afirma.

Em entrevista à DW Brasil, Marés também comenta o enfraquecimento e desmonte gradual da Funai nos últimos anos, fala sobre o papel do governo federal em conter o avanço do coronavírus e dos recentes incêndios em terras indígenas e explica como a demarcação de terras ganhou cada vez mais ares de processo político em vez de técnico.

DW Brasil: Você foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000. Em essência, o que mudou de lá para cá em relação à questão indígena no Brasil?

Na virada de 1999 para 2000, os povos indígenas estavam muito expostos na mídia por causa dos 500 anos [do descobrimento]. Havia, então, essa exposição muito grande e, consequentemente, uma articulação muito grande. Justamente em 2000, houve uma repressão policial ao movimento indígena na festa dos 500 anos em Porto Seguro (BA), razão pela qual pedi demissão do cargo. Não podia compactuar com uma ação daquelas.

Quanto à Funai, nesses últimos 20 anos, ela foi sendo deteriorada do ponto de vista da ação possível. Até 2016, mais ou menos, embora estivesse fraca, ela ainda tinha dinheiro, funcionários e, portanto, ação. Mas de quatro anos para cá ela foi perdendo tudo isso. Foram muitas aposentadorias sem reposição de quadro funcional e uma deterioração da política significativa. Um exemplo é a proteção dos povos indígenas chamados “isolados”, que demandam somente uma aproximação muito distante. Essa é uma política correta e que não custa muito. Mas nos últimos anos, e principalmente nos primeiros dois anos de gestão [Jair] Bolsonaro, essa política foi rompida. Trata-se de uma política desastrosa, mortal. O correto é proteger as áreas de povos isolados e não deixar ninguém entrar.

A diferença, então, é que houve uma piora funcional e política. A Funai deixou de ser uma intermediária entre governo e povos indígenas para ela mesma ser contrária a essa população. O governo atual incentiva o ingresso em terras indígenas, a ocupação ilegal de terras, e a Funai não faz nada. E não adianta os indígenas correrem para a Funai porque a Funai “corre com eles”.

No fim de agosto, o presidente Bolsonaro afirmou em uma live que há “índios evoluídos” no Brasil, que poderiam ter “mais liberdade sobre sua terra”…

Não posso atribuir isso à ignorância porque o nome disso é racismo. Essa fala é racista e genocida. É uma postura inimiga dos indígenas, porque ele acha que os povos indígenas atrapalham. Quando ele diz que os indígenas devem ter mais liberdade, eu concordo plenamente, mas qual é a liberdade que os indígenas querem? Que ninguém entre em suas terras, que a natureza não seja destruída, que não tenha garimpeiro, madeireiro por lá. Os povos indígenas têm pouca força para usufruir dessa liberdade e quem tem que garanti-la é exatamente o Estado brasileiro. O Estado precisa ouvir os indígenas. Os ianomâmis [grupo que vive na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil], por exemplo, eu sei o que vão responder: tirem os garimpeiros das nossas terras.

Os indígenas querem liberdade, mas não para trazer gente branca para a terra deles, e sim para impedir que haja exploração. E o que o presidente quer dizer é que as terras indígenas devem ser mais livres para quem quiser invadir.

Um relatório divulgado recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apontou que no primeiro ano de governo Bolsonaro (2019) as invasões em terras indígenas cresceram 135%. É exagero dizer que o atual governo está falhando na proteção aos povos indígenas?

“Falha” é uma palavra gentil. O governo não está falhando, está intencionalmente tentando destruir os povos indígenas. E isso é genocídio.

Até o momento foram registrados 36 mil casos de contaminação pela Covid-19 entre indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O senhor acredita que o estabelecimento de barreiras sanitárias em terras indígenas por parte do Governo Federal, previsto emMedida Provisória publicada no último dia 1°, ajudará, de forma efetiva, a conter esse cenário? Além disso, o governo não demorou muito para tomar ações a respeito? A pandemia começou em março.

Essa demora foi intencional. Essas barreiras sanitárias eram muito fáceis de terem sido feitas há seis meses. Alguns povos, inclusive, fizeram barreiras por conta própria, mas mesmo assim teve missionário que quis entrar [nas terras], pessoas do governo, gente para entregar remédio. Há uma tensão muito grande em relação ao coronavírus e os povos indígenas.

Somente em setembro, mais de uma centena de focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas na região do Pantanal. Em agosto, foram 200 focos. Ainda que queimadas sejam esperadas para a região nesta época do ano, os números não são altos demais? Qual é o papel do Poder Público para proteger as terras indígenas?

O grande drama que vive o Pantanal, assim como o Cerrado e a Amazônia, é o desmatamento irregular. Sempre que acontece um episódio como esses incêndios temos que nos perguntar: alguém leva vantagem nisso? O incêndio é bom para alguém?

Nesses três biomas, há quem leve vantagem com os incêndios, que é quem quer ocupar terra, que são pessoas que não são de lá. Não são os indígenas, não são os povos tradicionais, os quilombolas. Agora, para quem quer expandir suas terras, o incêndio é bom. Lembro também do Cerrado porque é uma região da qual se fala menos, mas que está sendo duramente castigada pela abertura e derrubada da vegetação nativa para dar lugar a grandes monoculturas.

Podemos então dizer que hoje a demarcação das terras indígenas se transformou em um processo político e não técnico?

A resposta é sim, apesar de que o caráter político sempre esteve presente. Os indígenas têm garantido na Constituição Federal direito à terra que ocupam. Eles têm esse direito com ou sem demarcação. A demarcação é uma providência que a Constituição determinou ao Estado brasileiro para que haja melhor proteção da terra. A ideia, portanto, não é definir qual deve ser essa terra, mas dar proteção à terra que já é do povo. Só que as forças contrárias aos povos indígenas sabem que, uma vez demarcada, é mais difícil invadir a terra, matar índio, tocar fogo. Assim, politicamente, serão contra a demarcação. Essa ação contrária aos povos indígenas é uma ação política, e acaba transformando a demarcação em um ato político.

Já no governo [Michel] Temer, mas com mais força a partir do governo Bolsonaro, veio uma vontade política muito forte de não demarcar. Mais ainda: tentar reverter as demarcações já feiras. E aqui esse adendo vale tanto para as terras indígenas como para os quilombolas. Antes de ser eleito, inclusive, o presidente Bolsonaro declarou que não iria demarcar nenhum centímetro a mais de terra indígena.

Para o senhor, quais são as principais diferenças entre o modo como o governo Bolsonaro trata a questão indígena em relação a governos anteriores? Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, receberam muitas críticas no sentido de que deveriam ter demarcado mais terras.

O governo Bolsonaro recebe críticas em tantas áreas – desenvolvimento, direitos humanos, etc – que a questão indígena é “só” mais uma coisa. No governo do PT houve fortes críticas à política ambiental, mas eram sempre críticas localizadas. A questão de [usina hidrelétrica de] Belo Monte, por exemplo, do rio Xingu, da Usina Hidrelétrica de Jirau. Eram ações específicas. Agora, no governo Bolsonaro, a política ambiental não existe, é de destruição. Até o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que diga que é a favor do meio ambiente. Nos outros governos ao menos tinha alguém para defender. Nesse sentido, as críticas ambientais acabam diluídas em meio a uma crítica maior e mais geral.

Costuma-se contrapor o direito dos povos indígenas ao desenvolvimento nacional. Essa contraposição já não seria, por si só, contraditória?

Dizer que a proteção aos povos indígenas é contrária ao desenvolvimento nacional é uma mentira. Não podemos admitir um desenvolvimento nacional com destruição da natureza, e as terras indígenas preservam a natureza. Quem é contrário a isso está ultrapassado. Uma das maiores preocupações mundiais é a alimentação. Mas a falta de comida significa que temos que invadir terras indígenas? Elas não são o lugar para produzir comida. É preciso pensar em desenvolvimento atrelado à preservação da natureza. Destruir as terras indígenas vai piorar a condição da água, gerando reflexos em todo o país. Dependemos da Amazônia, da Mata Atlântica. Tudo o que for destruidor da natureza prejudica o nosso desenvolvimento. Não se trata, portanto, de mera contradição, mas de uma mentira.

É hoje! Ministério do Meio Ambiente busca derrubar proteções ambientais de manguezais e restingas

Salles usará poder do governo federal sobre o Conama para garantir flexibilização.

O Ministério do Meio Ambiente está prestes a derrubar um conjunto de resoluções que hoje delimitam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e ocupação de áreas de mangues para produção de camarão.

Os temas estão na pauta da reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles . Esse conselho, que tem papel fundamental na definição de normas e critérios da área ambiental, teve a sua estrutura modificada por Salles em junho do ano passado e, com isso, o poder de decisão do colegiado ficou nas mãos do governo federal.

Na reunião do Conama desta segunda-feira, o governo pretende revogar duas resoluções (302 e 303, de 2002) que, hoje, são os instrumentos de proteção dos mangues e das restingas, as faixas com vegetação comumente encontradas sobre áreas de dunas, em praias do Nordeste. O argumento do governo é que essas resoluções foram abarcadas por leis que vieram depois, como o Código Florestal. Especialistas em meio ambiente afirmam, porém, que até hoje essas resoluções são aplicadas, porque são os únicos instrumentos legais que protegem, efetivamente, essas áreas.

“Não há nenhuma outra norma brasileira que confirma proteção às restingas como essas resoluções do Conama, que continuam a definir limites. A realidade é que há um grande lobby de resorts e criadores de camarão do Nordeste, que querem entrar nessas áreas”, diz Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).

Em agosto, por exemplo, em São Paulo, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) perdeu uma ação na Justiça e foi obrigada, por meio de sentença, a respeitar as delimitações previstas na resolução de 2002, “para evitar a ocorrência de dano irreparável à coletividade e ao meio ambiente”.

Outra resolução que está na pauta do Conama (284/2001) acaba com os critérios de regras federais para licenciamento ambiental de empreendimentos de irrigação. No entendimento dos ambientalistas, a revogação tem o objetivo de acabar com exigências legais a pedido de parte do agronegócio.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defende o fim da resolução, sob o argumento de “não haver embasamento técnico/legal da promulgação desta resolução, pois a irrigação não é um estabelecimento ou atividade, mas apenas uma tecnologia utilizada pela agricultura para o fornecimento de água para as plantas em quantidade suficiente e no momento certo”.

A pauta do Conama desta segunda-feira inclui ainda a proposta de uma nova resolução que trata de critérios de incineração de resíduos em fornos de produção de cimento, para liberar a queima de resíduos de agrotóxicos. Hoje esse material passa por um processo detalhado de tratamento e destinação. A nova resolução, porém, passa a permitir que tudo seja incinerado. Há preocupação, porém, com o material lançado na atmosfera após essa queima.

“Tudo foi pautado em regime de urgência. Qual é a urgência de tomar decisões tão importantes em tão pouco tempo e sem que esses temas sejam submetidos a estudos, por meio de câmaras técnicas? Todas essas resoluções mereceriam uma discussão aprofundada”, afirma Carlos Bocuhy, presidente do Proam. O ministro Ricardo Salles foi procurado pelo Estadão e, questionado sobre o assunto, afirmou que “as pautas do Conama serão debatidas e todos os conselheiros terão a oportunidade de expor suas posições”.

Para a ex-presidente do Ibama Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, trata-se de decisões graves, que poderão fragilizar profundamente a proteção ambiental. “O desmonte promovido pelo governo Bolsonaro na política ambiental atingiu duramente o Conama, que infelizmente parece estar reduzido a uma esfera de flexibilização de normas, de passar a boiada. A pauta dessa reunião é evidência forte nesse sentido: revogação de resoluções que dispõem áreas de preservação permanente e sobre licenciamento da irrigação, sem o debate público prévio que marcava os processos do Conselho”, diz Suely.

A especialista chama atenção ainda para a proposta de aprovar uma resolução que dá abertura para flexibilizar a concentração de poluentes orgânicos por meio de incineração. “Isso é totalmente inaceitável, chega a ser assustador.”

Órgão passou por mudanças e perdeu representantes de Estados e entidades civis em julho

O Conama – que é um órgão consultivo com poder de definir normas e critérios na área ambiental – foi desidratado em julho do ano passado em relação à sua estrutura anterior, concentrando nas mãos do governo federal e de representantes do setor produtivo a maioria dos votos. Estados e entidades civis perderam representação. Por decisão de Salles, o Conama teve seus membros reduzidos de 96 para 23 representantes.

A composição anterior do órgão tinha o objetivo de dar maior representatividade a vários segmentos da sociedade. Uma parte dos integrantes da sociedade era escolhida por indicação e outra, por eleição. Desde o ano passado, porém, essa escolha passou a ser feita por sorteio.

Instituições que representam a sociedade civil, incluindo associações de trabalhadores rurais e povos indígenas, viram suas posições caírem de 23 para 4. Os Estados também perderam representação. Se antes havia uma cadeira para cada um dos 26 Estados e o Distrito Federal, agora são 5 cadeiras representadas por um Estado de cada região geográfica do País. Os municípios, que tinham 8 representantes, agora têm 2.

*As informações são da Agência Estado”.