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O vídeo amador como arma política

O uso de vídeos para documentar incidentes entre cidadãos e policiais ganhou um impulso decisivo depois da viralização das imagens da morte de dois norte-americanos negros em confusos incidentes com agentes da lei. Trata-se de um novo padrão de conduta capaz de ter enormes repercussões não apenas no que se refere ao papel dos responsáveis por redes sociais ou sites noticiosos mas, principalmente, no  comportamento das pessoas. Os casos dos dois norte-americanos executados por policiais mostrou dois tipos antagônicas de conduta pessoal. Enquanto a maioria dos brancos buscava motivos para evitar a propagação dos vídeos em redes sociais e lamentava a viralização de cenas de violência, uma boa parte dos negros adotou a tese de que os equipamentos de filmagem e fotografia se tornaram uma eficiente arma de defesa contra arbitrariedades policiais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”] A divulgação maciça de imagens mostrando como o racismo ainda impregna sociedades como a norte-americana e a brasileira envergonha os segmentos sociais com maior poder aquisitivo e onde os brancos são geralmente maioria. Em compensação, a visibilidade ampla geral e irrestrita passou a ser uma reivindicação dos setores mais pobres e discriminados. Começa a se tornar clara uma inversão de discursos em função de uma nova realidade criada pelas novas tecnologias de comunicação e informação. Outro comportamento novo surgido em função das facilidades de documentação  geradas por equipamentos portáteis como celulares e tablets com câmeras é uma especie de guerrilha visual promovida por grupos de pessoas, como mostrou o jornal The Washington Post, no dia 7 de julho. Não são vídeos feitos ao acaso por transeuntes ou motoristas, mas ações planejadas com base em informações obtidas no sistema de rádio da polícia, como ocorreu na cidade de Baton Rouge, Louisiana, quando um grupo chamado Stop the Killing (Parem a matança) filmou a morte de Alton Sterling, por um tiro disparado por um policial quando já estava imobilizado no chão. Curiosamente, Stop de Killing, criado em 2001,  não pretende denunciar a violência policial mas sim as execuções entre gangs rivais. Mas o fundador do grupo,  Arthur Reed, 43 anos, acha que a violência, especialmente no sul dos Estados Unidos, deixou de ser um problema policial para se transformar num dilema social e politico. Segundo Reed, os negros não confiam mais no sistema legal e descobriram que a comunicação e a informação são mais eficientes para forçar novas atitudes nos governos municipais, estaduais e federal, nos Estados Unidos. As principais redes sociais, como Facebook, passaram a enfrentar um problema complicado que é o de determinar como e quando um vídeo com imagens impactantes deve ou não ser veiculado. Trata-se de uma linha divisória extremamente tênue e fluida porque uma cena pode ser justificável para um grupo de pessoas e injustificável para outro. Pode ser vista como jornalisticamente válida em determinadas circunstâncias e justo o contrário noutro contexto. A decisão de jornalistas e curadores de notícias torna-se extremamente complexa porque seus responsáveis terão que enfrentar inevitáveis repercussões que circularão em tempo real dentro das redes gerando reações sociais que podem facilmente tornar-se incontroláveis.  Este não é um problema apenas dos norte-americanos porque nós aqui no Brasil também estamos expostos às mesmas circunstâncias e seus desdobramentos. A rede Facebook criou uma equipe especial encarregada de vigiar a circulação de mensagens de texto, audio e video durante 24 horas, sete dias da semana. Mas a própria rede admite que é impossível uma vigilância 100% efetiva porque ela vai depender da informação, experiência e agilidade de quem for tomar a decisão de liberar ou retirar o vídeo, áudio ou texto. É mais um sintoma de como aumentou extraordinariamente a diversidade de problemas sociais na era digital e como o papel dos jornalistas, bem como dos policiais e governantes torna-se cada dia mais complexo. Por Carlos Castilho/Tribuna da Imprensa

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