Arquivo

Jorge Luis Borges – Poesia – 21/04/24

Boa noite. Aqui. Hoje Jorge Luis Borges ¹ Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as elegias. Não sou o insensato que se aferra ao mágico sonido de teu nome: penso com esperança naquele homem que não saberá que fui sobre a Terra. Embaixo do indiferente azul do céu esta meditação é um consolo. (Tradução: Charles Kiefer) ¹ Jorge Luis Borges * Buenos Aires, Argentina – 24 de Agosto de 1899 d.C + Genebra, Suíça – 14 de Junho de 1986 d.C

Leia mais »

Omar Khayyam – Poesia – 18/03/24

Boa noite Rubaiyat (extrato) Omar Khayyam¹ Noite, silêncio, folhas imóveis; imóvel o meu pensamento. Onde estás, tu que me ofereceste a taça? Hoje caiu a primeira pétala. Eu sei, uma rosa não murcha perto de quem tu agora sacias a sede; mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar, e que te fez desfalecer. Acorda… e olha como o sol em seu regresso vai apagando as estrelas do campo da noite; do mesmo modo ele vai desvanecer as grandes luzes da soberba torre do Sultão. ¹Ghiyath Al Din Abul Fateh Omar Ibn Ibrahim Al Khayyam * Nishapur, Pérsia – 18 de maio de 1048 d.C + 4 de dezembro de 1131 d.C

Leia mais »

Demócrito Rocha – Poesia – 26/12/23

Boa noite O Rio Jaguaribe Demócrito Rocha¹ O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta por onde escorre e se perde o sangue do Ceará. O mar não se tinge de vermelho porque o sangue do Ceará é azul … Todo plasma toda essa hemoglobina na sístole dos invernos vai perder-se no mar. Há milênios… desde que se rompeu a túnica das rochas na explosão dos cataclismos ou na erosão secular do calcário do gnaisse do quartzo da sílica natural … E a ruptura dos aneurismas dos açudes… Quanto tempo perdido! E o pobre doente – o Ceará – anemiado, esquelético, pedinte e desnutrido – a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira – é o gigante com a artéria aberta resistindo e morrendo morrendo e resistindo… (Foi a espada de um Deus que te feriu a carótida a ti – Fênix do Brasil.) E o teu cérebro ainda pensa e o teu coração ainda pulsa e o teu pulmão ainda respira e o teu braço ainda constrói e o teu pé ainda emigra e ainda povoa. As células mirradas do Ceará quando o céu lhe dá a injeção de soro dos aguaceiros – as células mirradas do Ceará intumescem o protoplasma (como os seus capulhos de algodão) e nucleiam-se de verde – é a cromatina dos roçados no sertão… (Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!) E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe… o sangue a correr mal que é chegado aos ventrículos das nascentes … o sangue a correr e ninguém o estanca… Homens da pátria – ouvi: – Salvai o Ceará! Quem é o presidente da República? Depressa uma pinça hemostática em Orós! Homens – o Ceará está morrendo, está esvaindo-se em sangue … Ninguém o escuta, ninguém o escuta e o gigante dobra a cabeça sobre o peito enorme, e o gigante curva os joelhos no pó da terra calcinada, e – nos últimos arrancos – vai morrendo e resistindo ¹Demócrito Rocha * Caravelas, BA – 14 de Abril de 1888 d.C + Fortaleza, CE – 29 de Novembro de 1943 d.C

Leia mais »

Yeats – Poesia – 10/12/23

Boa noite A canção do delirante Aengus Yeats¹ Eu fui para uma floresta de nogueiras, Porque minha mente estava inquieta, Eu colhi e limpei algumas nozes, E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo; E, quando as claras mariposas estavam voando, Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas, Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho E capturei uma pequena truta prateada. Quando eu a coloquei no chão E fui soprar para reativar as chamas, Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir, E, alguém me chamou pelo meu nome: Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente Com flores de maçãs nos cabelos Ela me chamou pelo meu nome e correu E desapareceu no ar, como um brilho mais forte. Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos Por tantas terras cheias de cavernas e colinas, Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi, E beijar seus lábios e segurar suas mãos; Caminharemos entre coloridas folhagens, E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo As prateadas maçãs da lua, As douradas maçãs do sol. ¹William Butler Yeats * Dublin Irlanda – 13 de Junho de 1865 d.C + Boston, Usa – 28 de Janeiro de 1939 d.C Prêmio Nobel de Literatura em 1932

Leia mais »

Arentino – Poesia – 20/10/23

Boa noite Soneto Pietro Arentino¹ Amemo-nos sem termo nem medida, pois que só para o amor temos nascido… Vive por nosso amor! – é o meu pedido, pois sem tal bem, que valeria a vida? E se depois da vida já perdida ainda se amasse. . . Eu, tendo já morrido pediria outro amor – o bem querido – para poder seguir gozando a vida. Gozemos pois, tal como certamente o primeiro casal no éden, ao ser aconselhado assim pela serpente. Que nos perdemos por amar se diz… Tolice! Outra é a verdade, podes crer: Só quem não ama sente-se infeliz! Trad. de J. G. de Araújo Jorge ¹Pietro Aretino * 1492 – + 1557 d.C Compôs sonetos, embora mais festejado como autor das Cartas” (6 vols.) e dos “Diálogos”. De Veneza, dominou príncipes, fidalgos, imperadores, cardeais e papas, que precisavam comprar, com ouro, o seu silêncio. Além de livros de prosa satírica, escreveu “Sonnetti lussuriosi” (“Sonetos voluptuosos”), com 16 produções licenciosas (1525), compostos para os desenhos pornográficos de Giulio Romano. Seu, cinismo e seu talento fizeram com que fosse chamado, ora o infame, ora o “Flagelo dos Príncipes”, ora “o divino Aretino”.

Leia mais »

Garcia Lorca – Poesia – 21/08/23

Boa noite. Se as minhas mãos pudessem desfolhar Garcia Lorca¹ Eu pronuncio teu nome nas noites escuras, quando vêm os astros beber na lua e dormem nas ramagens das frondes ocultas. E eu me sinto oco de paixão e de música. Louco relógio que canta mortas horas antigas. Eu pronuncio teu nome, nesta noite escura, e teu nome me soa mais distante que nunca. Mais distante que todas as estrelas e mais dolente que a mansa chuva. Amar-te-ei como então alguma vez? Que culpa tem meu coração? Se a névoa se esfuma, que outra paixão me espera? Será tranqüila e pura? Se meus dedos pudessem desfolhar a lua!! ¹Federico García Lorca * Fuente Vaqueros, Espanha – 05 de Junho de 1898 d.C + Granada, Espanha – 19 de Agosto de 1936 d.C Poeta e dramaturgo espanhol. Fuzilado e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola >> biografia de Garcia Lorca

Leia mais »

John Keats – Versos na tarde – 11/04/2017

Ode sobre uma urna grega John Keats¹ Tradução: Augusto de Campos I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes? Que louca fuga? Que perseguição sem termo? Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem? II A música seduz. Mas ainda é mais cara Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom; Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara, O supremo saber da música sem som: Jovem cantor, não há como parar a dança, A flor não murcha, a árvore não se desnuda; Amante afoito, se o teu beijo não alcança A amada meta, não sou eu quem te lamente: Se não chegas ao fim, ela também não muda, É sempre jovem e a amarás eternamente. III Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor Das folhas e não teme a fuga da estação; Ah! feliz melodista, pródigo cantor Capaz de renovar para sempre a canção; Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante! Para sempre a querer fruir, em pleno hausto, Para sempre a estuar de vida palpitante, Acima da paixão humana e sua lida Que deixa o coração desconsolado e exausto, A fronte incendiada e língua ressequida. IV Quem são esses chegando para o sacrifício? Para que verde altar o sacerdote impele A rês a caminhar para o solene ofício, De grinalda vestida a cetinosa pele? Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente Ou no alto da colina foi despovoar Nesta manhã de sol a piedosa gente? Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe Em tuas ruas, e ninguém virá contar Por que razão estás abandonada e triste. V Ática forma! Altivo porte! em tua trama Homens de mármore e mulheres emolduras Como galhos de floresta e palmilhada grama: Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas Tal como a eternidade: Fria Pastoral! Quando a idade apagar toda a atual grandeza, Tu ficarás, em meio às dores dos demais, Amiga, a redizer o dístico imortal: “A beleza é a verdade, a verdade a beleza” – É tudo o que há para saber, e nada mais. ¹John Keats * Londres, Inglaterra – 31 de Outubro de 1795 + Londres, Inglaterra – 23 de Fevereiro de 1821 > Biografia de John Keats [ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Leia mais »

Bertold Bretch – Versos na tarde – 18/08/2016

Poema Bretch¹ Assim se faz o homem: dizendo sim e dizendo não, batendo e apanhando, unindo-se a uns aqui, a outros acolá. Assim se faz o homem: transformando-se: assim e forma em nós a sua imagem, igual à nossa, no entanto diversa. ¹Bertold BRECHT * Augsburg, Alemanha – 10 de Fevereiro de 1898 d.C + Berlim, Alemanha – 14 de Agosto de 1956 d.C >> biografia de Bretch [ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Leia mais »

Paul Eluard – Versos na tarde – 21/06/2016

A Noite Paul Eluard¹ Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou. Não é a noite que te falta, mas o seu poder. ¹Eugène Émile Paul Grindel * Saint-Denis, França – 1895 d.C + Paris, França – 1952 d.C >> Biografia de Paul Eluard [ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Leia mais »