Morre o pintor Arcangelo Ianelli

Morre Ianelli, mestre da cor

Artista paulistano, morto aos 86, foi um dos maiores nomes da pintura brasileira, conhecido pela coloração e a luminosidade marcante de suas obras

Arcangelo Ianelli,Artistas Plásticos,Pintores Brasileiros,Artes Plásticas,ArteArcangelo Ianelli em seu ateliê, na capital paulista – 2002

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Arcangelo Ianelli – Sem título – 1993 – Óleo sobre tela

Morreu ontem, aos 86, o artista plástico Arcangelo Ianelli, vítima de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado há três meses no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Seu corpo foi velado na Pinacoteca do Estado. O enterro foi hoje às 11h, no cemitério Gethsêmani, no Morumbi.

Artes Plásticas,Pintores Brasileiros,Arcangelo Ianelli,Natureza Morta,Vaso Branco com FloresArcangelo Ianelli – Vaso Branco com Flores – C.1940 – Óleo sobre tela

Um dos mais importantes nomes da pintura brasileira, o paulistano filho de italianos teve uma trajetória consistente. Foi da figuração no início de sua carreira, nos anos 50, à abstração geométrica dos anos 60.

Arcangelo Ianelli,Artes Plásticas,Pintores Brasileiros,MarinhaArcangelo Ianelli – Marinha1940

Arcangelo Ianelli,Artes Plásticas,Pintores BrasileirosArcangelo Ianelli – Barcos – 1950

Depois, manteve o cânone construtivo em telas de cor e luminosidade exacerbadas, na última fase de sua obra, que despontou na década de 1990.

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Arcangelo Ianelli – Natureza Morta

“Quando ele abstrai a forma, e a luz e a cor têm atuação fundamental, chega a um requinte extraordinário”, avalia Emanoel Araújo, 68, ex-diretor da Pinacoteca, para a qual adquiriu uma tela do artista, e que hoje está à frente do Museu Afro Brasil. “Ianelli é um temperamento sutil, silencioso, quase uma música de câmara.”

Arcangelo Ianelli,Artes Plásticas,Pintores BrasileirosArcangelo Ianelli – Sem título 1974 – Óleo sobre tela – 80 x 100 cm

“Ele possuía um espírito naturalmente clássico, que procurava a beleza contida na harmonia, no equilíbrio, no acerto e não na rebeldia”, afirma o crítico Olívio Tavares de Araújo, 56, que fez três documentários sobre o artista. “Ianelli vai ficar como o pintor brasileiro que melhor conseguiu estabelecer uma ponte entre o sensível e a racionalidade, um mestre consumado em matéria de cor.”

Depois de ter aulas com Lothar Charoux, Hermelindo Fiaminghi e Maria Leontina, nos anos 40, juntou-se a outros nomes de sua geração, como Manabu Mabe e Wega Nery, no grupo Guanabara, que retratou paisagens paulistanas dando grande destaque para a cor.

Em 1964, ganhou uma viagem a Paris do Salão de Arte Moderna do Rio e instalou um ateliê na capital francesa. Quase dez anos depois, venceu o prêmio do Panorama de Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna de SP. Ao todo, participou de seis edições da Bienal de São Paulo.

Arcangelo Ianelli,Artes Plásticas,Pintores Brasileiros,Sem Título 1994Arcangelo Ianelli – Sem título – 1994 – Óleo sobre tela

Para Tadeu Chiarelli, crítico e professor da USP, Ianelli foi o “grande herdeiro da pintura paulista”, que seguiu a tradição ao mesmo tempo em que dialogava com novos experimentos. “Ele superou os limites do ambiente paulistano”, resume Chiarelli, 52. “Sua obra transcendeu essas circunstâncias.”

Ianelli suscitou, aliás, reações favoráveis quase unânimes da crítica. Não que sua obra fosse irretocável, mas muitos julgam que ressalvas foram silenciadas ao longo do tempo pela consagração dele como um mestre do abstrato.

“Ele foi um grande colorista, um mestre da pintura e uma figura muito especial”, lembra Marcelo Araujo, 52, diretor da Pinacoteca, que fez em 2002 uma das últimas retrospectivas do artista. “É uma perda duplamente sentida, pela obra dele e pela pessoa que ele foi.”

Arcangelo Ianelli,Artes Plásticas,Pintores Brasileiros,Escultura Sem título em Mármore de CarraraArcangelo Ianelli – Escultura em São Paulo – Sem título – Mármore de Carrara

“É a perda de um artista que já vinha sofrendo, de um grande companheiro”, diz Emanoel Araújo. “Teve uma trajetória absolutamente coerente. É uma pena que Ianelli se vá.”

Folha de São Paulo – Silas MartíIanelli foi um típico artista moderno

Paulistano começou figurativo, mas a representação do real foi perdendo importância, dando lugar a formas abstratas.

É impossível observar a obra de Arcangelo Ianelli e não se lembrar das pinturas de Mark Rothko (1903-1970), russo que emigrou para os Estados Unidos em 1913 e foi um dos protagonistas do expressionismo abstrato, corrente que marcou a ascensão norte-americana no circuito das artes plásticas no Pós-Guerra.

Ambos têm uma questão fundamental na experiência da cor. “Pinto quadros grandes porque desejo criar um estado de intimidade. Um quadro grande é uma operação imediata: leva-nos para dentro dele”, dizia Rothko.

A questão da dimensão hiperbólica também era importante nas pinturas de Ianelli, especialmente a partir dos anos 60. “Eu não persigo a beleza; se ela ocorre, é involuntária. Busco fazer um trabalho profundo ao depurar a cor”, disse Ianelli à Folha em entrevista em 2002.

A história de Ianelli é a típica história de um artista moderno. Começou figurativo, nos anos 1940, pintando a partir de modelos nus, mas a representação do real foi cada vez mais perdendo importância, fazendo com que cores e formas abstratas passassem a dominar a cena, até expulsar da tela qualquer proximidade com objetos existentes no mundo.

No abstracionismo, Ianelli alternou-se entre o informal, nos anos 60 -com telas que mostravam densidade matérica e cores escuras-, e o geométrico, nos anos 70 -com retângulos e quadrados, que se apresentavam como planos superpostos e interpenetrados.

Um dos críticos que mais valorizou seu trabalho foi Mário Pedrosa (1900-1981) -considerado seu padrinho pelo artista e que via sua obra como um “estado contemplativo à beira de perturbar-se, em face das contradições da vida”, como escreveu no catálogo de uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio, em 1961.

Fusão com geométrico
Nos anos 90 e 2000, Ianelli realiza uma espécie de fusão do informal com o geométrico, com retângulos que já não possuem mais limites claros, fronteiras que se interpenetram. Apesar de a pintura ser o meio que o tornou mais conhecido, o artista também produziu esculturas e gravuras.

Em mais de 60 anos de carreira, seu trabalho ocorria basicamente no ateliê, ao contrário dos procedimentos contemporâneos, mas numa lógica que tem muito a ver com a produção atual. “O que move o artista é a insatisfação, o dia em que eu ficar plenamente satisfeito com minha obra, não tenho mais razão para pintar”, disse Ianelli em 2002, dias antes de inaugurar sua retrospectiva na Pinacoteca do Estado.

Na época, aliás, ele não pôde comparecer à abertura da mostra por ter sofrido um derrame cerebral, na antevéspera do evento.

Fabio Cypriano – Folha de São Paulo

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