Nosso século decisivo

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Cartuns Natureza Mohammad Khalaji,Blog do MesquitaA França parece querer o aval da sociedade civil para a Otan entrar em cena contra EI e al-Qaeda. O complexo industrial-militar precisa gastar sua gigantesca produção

Os recentes acontecimentos em Paris, mobilizadores de inusitado movimento de massas, bem poderiam ter servido para estender seus objetivos a outras questões cruciais da sobrevivência da humanidade e da própria biosfera neste nosso século decisivo. E não apenas das liberdades republicanas.

A história que estudamos, porém, é a história da espécie humana. Não fomos educados numa didática holista que desse um enfoque interativo entre a nossa e a história evolutiva das demais espécies. Menos ainda, entre a nossa e a história das transformações geológicas de nosso planeta.

Não existe, no currículo escolar ou universitário, nenhuma ampla disciplina que se ocupe da interação entre a Economia Política com a Biologia, a Antropologia, a Zoologia e a Geologia. Esse estrabismo imperdoável é próprio da visão didática onipotente dos humanos que só olham para o próprio umbigo.

A Ciência Econômica é apenas mais uma dessas disciplinas caolhas, órfãs da interdisciplina. Como a própria Ciência Política.

Todas as vezes, por exemplo, em que se fala em análise de crescimento da economia política formal de uma nação ou mesmo da economia global, só se cita o PIB como parâmetro. No máximo, em algumas análises, o IDH.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Ninguém fala no índice mais importante de todos eles: o EPI. A bem da verdade, é um índice quase secreto. Há economistas e cientistas políticos que jamais ouviram falar de sua existência. Alguns até confundem a sigla com o European Payment Index.

Trata-se, no entanto, do Environment Performance Index. Ou, em tradução livre: Índice de Desempenho Sustentável ou IDS. O EPI foi antecedido pelo Índice de Sustentabilidade Ambiental (em inglês, Environmental Sustainability Index, sigla ESI), publicado entre 1999 e 2005.

Ambos indicadores foram desenvolvidos pelo Centro de Política e Lei Ambiental da Universidade de Yale, em conjunto com a Rede de Informação do Centro Internacional de Ciências da Terra da Universidade de Colúmbia. Em seu Relatório bianual de 2010, o EPI avaliou 163 países e colocou o Brasil na desonrosa 62ª posição do ranking mundial, para quem está entre as sete maiores economias do planeta.

Na versão de 2014 piorou, indo para a 77ª posição. Na América Latina, sequer se encontra entre as dez melhores performances. Esse relatório de 2014 se acha disponível na internet em http://epi.yale.edu/epi. Logo nós, que detemos em nosso território boa parte do pulmão da Terra.

Outra questão crucial é a escalada armamentista global e sua estreita relação com a economia política. A França, hoje, parece querer trazer o aval da sociedade civil para a Otan entrar logo em cena contra o Estado Islâmico e a al-Qaeda em grande estilo.

O complexo industrial-militar precisa, afinal, gastar sua gigantesca produção crescente. O “Estadão” revelou no ano passado que o orçamento aprovado para a defesa nos EUA para 2014 era de US$ 552,1 bilhões. Além disso, US$ 80,7 bilhões seriam desembolsados para apoiar as tropas americanas no exterior.

Por outro lado, dados da própria Otan demonstram que seus gastos militares totais dobraram em apenas duas décadas, passando de US$ 504 bilhões (R$ 1,12 trilhões), em 1990, para US$ 1,08 trilhões (R$ 2,4 trilhões), em 2010.

De leitura indispensável complementar para o entendimento e a interpretação adequada desses dados cruzados com esses três índices, EPI, IDH e PIB, é o livro do astrofísico Martin Rees sobre o fim da nossa civilização ainda neste século, sob o arrepiante título: “Our final century”, ainda não disponível em português, questionando se a nossa espécie sobreviverá ao século 21. Sir Martin Rees é, talvez, a maior autoridade em astrofísica da atualidade.

Trata-se de um cosmólogo britânico respeitadíssimo, ex-presidente da Royal Society entre 2005 e 2010. Mestre do Trinity College, de Cambridge, com diversos livros escritos sobre o assunto.

Junto com outros dois céticos britânicos não menos importantes a versarem sobre esses temas, o biólogo James Lovelock, autor de “A vingança de Gaia” e o filósofo John Gray, autor de “Cachorros de palha”, forma uma espécie de “trilogia do apocalipse”, na Inglaterra, previsto já para os próximos 50 anos.

Quem sabe Paris não volta às ruas com a devida urgência por mais essa causa de importância vital para o planeta?
Nelson Paes Leme/O Globo

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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