Não chores, Argentina

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Resenha portenha
Nelson Mota

Mais gostoso do que ganhar a sede das Olimpíadas, só mesmo assistir pela televisão, num bar de Buenos Aires, cercado de amigos argentinos. E depois, em todos os lugares, receber cumprimentos, e retribuir com sinceros “bienvenidos”. Qualquer gozação seria covardia, a coisa está preta no Prata.

Com sua seleção com um pé no abismo, eles adorariam trocar Maradona por Dunga, assim como cambiam dois pesos por um real. E ainda dariam Messi de troco. Embora em corrupção e políticos safados estejamos empatados, eles trocariam de bom grado dez Cristinas por um Lula. O casal Kirchner está cada vez mais para Rosinha e Garotinho do que para Perón e Evita.

Alem da gastança populista, da corrupção e do autoritarismo, a intimidade com Chávez e suas malas de dinheiro foi fator decisivo para a fragorosa derrota do casal K nas recentes eleições parlamentares. Abriram guerra contra os meios de comunicação, estatizaram os direitos das transmissões de futebol na televisão, brigaram com os produtores rurais, a maior fonte de riqueza do país, chafurdaram na crise econômica, estão com o FMI bufando no seu cangote, a inflação, a pobreza e a criminalidade crescem, as estatísticas não são confiáveis, a Argentina parece o Brasil, ontem. Um efeito Orloff revertido?

É a paixão nacional pelo confronto, que já fez a Argentina chorar tanto, a opção kirchnerista pela “democracia plebiscitária” do quem-não-está-conosco-está-contra-nós, uma medonha cruza de Bush com Chávez. Não por acaso, mas por paixão, eles são os criadores do tango. E foram à guerra contra a Inglaterra. Ou será porque são os maiores consumidores de carne vermelha — la mejor del mundo, por supuesto — do planeta? Neste caso, a Índia vegetariana deveria ser de uma harmonia e um pacifismo entediantes. O Paquistão que o diga.

Por essas e outras, a Argentina tem o maior número de psicanalistas per capita do mundo, e não lhes faltam clientes. Afinal, uma das melhores definições de “ego” que conheço é: um argentino pequenininho que vive dentro de cada um de nós. Mas apesar de tudo, assim como o Rio de Janeiro, Buenos Aires continua linda.

O Globo

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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