Mensalão, STF e a fogueira das vaidades

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Narciso, detalhe – Michelangelo Caravaggio

A ética e a compostura se escondem, envergonhadas, sob o tapete luxuoso da corte suprema.

A vaidade, paixão mais da alma que do corpo, fazendo esse escravo daquela, e de onde emerge o ceticismo dos que observam o embate que tem derrotado, ao longo da história, seus mais fanáticos cultores.

O que muitas vezes alega superioridade geralmente finda habitante ao rés do chão da mediocridade.

José Mesquita – Editor
“É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.” Friedrich Nietzsche


Suprema vaidade
por Leonardo Attuch

Dias atrás, o deputado André Vargas (PT-PR) ousou proclamar uma daquelas verdades inconvenientes.

Disse que a transmissão ao vivo de um julgamento como o do mensalão traz um “risco para a democracia” e o mundo desabou.

Vargas foi taxado de totalitário e liberticida, mas o fato concreto é que tinha 100% de razão. Diante de uma câmera de televisão, o ser humano se transforma.

E os ministros do Supremo Tribunal Federal – compostos de carne, osso e vaidade – não são diferentes do comum dos mortais.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O teorema de André Vargas foi demonstrado no último bate-boca entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, quando o relator insinuou que o revisor competia com ele pelo tempo de exposição na “novela” – como se, nessa trama, só houvesse espaço para um protagonista.

Barbosa foi ainda mais explícito ao sugerir que Lewandowski deveria distribuir seu voto para “prestar contas à sociedade”.

Por essa lógica, a competência de um ministro do STF não deveria mais ser medida pelo saber jurídico ou pelo rigor de seus votos, mas, sim, pela quantidade de aplausos do público no Bar Bracarense.

Como se sabe, juiz de verdade é aquele que não se curva à opinião pública nem à opinião publicada. Um bom magistrado presta contas à sociedade quando toma decisões ancoradas apenas na lei e na sua consciência – e não nos índices de ibope ou nas supostas expectativas da sociedade.

Fosse diferente, bastaria substituir o STF por um serviço de 0800. Algo como um “você decide” sobre quem vai ou não para a cadeia. E é inegável que a transmissão ao vivo de um julgamento influi no seu resultado.

Em meio ao festival de vaidades, Barbosa deu também demonstrações de total descontrole emocional. Num dos piores momentos da história do STF, disse um “faça-o corretamente”, quando Lewandowski afirmou que concluiria seu voto.

Agiu como se fosse juiz não apenas dos réus, mas também dos próprios colegas, no que foi imediatamente repreendido por Marco Aurélio Mello.

Barbosa, no entanto, não é o único a se deixar levar pela vaidade. Outros ministros têm antecipado seus votos a órgãos de imprensa e também testado a acolhida popular a alguns balões de ensaio, como o eventual perdão judicial ao ex-deputado Roberto Jefferson.

Comportam-se como diretores de novela que testam diferentes finais para os vilões e mocinhos da trama. E, no fim, darão ao público o que o público supostamente espera.

Nesse enredo, a preocupação dos ministros já não parece ser a de fazer justiça ou não aos réus. Quando um julgamento se transforma em espetáculo midiático, a motivação dos juízes passa a ser uma só: a própria imagem.

Resumindo, qual será a quantidade de aplausos que cada um deles receberá no Bracarense.

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e “designer”.

Bacharel em administração e bacharelando em Direito.

Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.

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