“Galaxy-gate” arranha imagem da Samsung


Escândalo dos aparelhos que pegam fogo abre espaço para mudanças no mercado de celulares, mas é improvável que cause impacto significativo nas contas da companhia, responsável por um quinto do PIB da Coreia do Sul.

Perfill feminino diante de anúncio do Samsung Galaxy Note 7

Ninguém quer enfiar no bolso ou carregar na tomada um smartphone que pega fogo de repente. E não é lisonjeiro para a reputação de nenhuma marca quando o usuário literalmente queima os dedos ao manusear seus produtos. Notícias como essa são uma verdadeira catástrofe para uma empresa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Por isso, a sul-coreana Samsung jogou a toalha: constatado o problema com a bateria de seu Galaxy Note 7, ela primeiro ofereceu aos compradores um novo aparelho, grátis. Depois que esse provou ser igualmente defeituoso, ela suspendeu a produção e a venda do smartphone em todo o mundo.

Tal procedimento é típico do antigo “tigre asiático” Coreia do Sul, explica Alexander Hirschle, que trabalha na capital Seul para a GTAI, a agência de comércio externo do governo alemão. “Os coreanos são conhecidos por agir rápido e providenciar uma solução, assim que reconhecem um problema.”

O Galaxy Note 7 era a resposta asiática à líder de mercado Apple, cujos aparelhos são considerados símbolo de status num setor altamente competitivo. Agora a firma californiana recupera a vantagem na “classe A” dos smartphones: suas ações alcançaram a cotação mais alta desde dezembro de 2015, enquanto as da Samsung estão despencando.

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No outro extremo da escala, dos celulares econômicos, as concorrentes chinesas esfregam as mãos: Lenovo, Xiaomi e Huawei acalentam agora a justificada esperança de abocanhar para si uma parcela do mercado da Samsung. Além disso, essas marcas agora já oferecem aparelhos mais sofisticados, aptos a transformar numa competição mais ampla a briga Apple versus Samsung.

Faturamento: 20% do PIB nacional

Em apenas algumas décadas, a Samsung evoluiu de pequena loja de alimentos a maior multinacional de eletrônica do mundo. Até 2008, quando um escândalo o forçou a renunciar, o filho do fundador do negócio familiar Lee Kun-Hee era o presidente. Desde então, o conglomerado Samsung é dirigido pelos chefes das diferentes empresas que o compõem.

Hoje, ele fabrica e vende navios e arranha-céus, televisores e celulares, moda e produtos farmacêuticos, e muito mais. Mais de 80 firmas operam sob seu nome, com um total de quase meio milhão de funcionários e um faturamento anual superior a 300 bilhões de dólares.

“O faturamento do conglomerado equivale a mais ou menos 20% do Produto Interno Bruto do país”, afirma Alexander Hirschle, da GTAI. “Ela é, com segurança, um dos pilares da economia sul-coreana.”

Perda suportável

A ascensão da Samsung e da Coreia do Sul transcorreram paralelas, desde o princípio da industrialização do país, na década de 1970. Com apoio estatal, a companhia se desenvolveu de forma excelente, assim como a Hyundai, LG e outras.

“Desse modo, o progresso da Samsung pode ser visto como um sismógrafo da economia coreana como um todo”, compara Hirschle. Por outro lado, afirma, também cabe “não subestimar o significado psicológico da Samsung para a sociedade coreana”.

Samsung Galaxy Note 7Só a Samsung Electronic fatura 160 bilhões dólares ao ano

Pelo menos no médio prazo, os danos econômicos do Galaxy Note 7 para a multinacional deverão ser suportáveis.

No começo da ação de recall, analistas do mercado calcularam os custos em 1 bilhão de dólares.

Ao mesmo tempo, porém, a Samsung se desfez de suas participações em algumas empresas de tecnologia, angariando cerca de 880 milhões de dólares.

A suspensão das vendas deverá custar mais alguns bilhões. O que não deverá ser um prejuízo dramático, considerando-se os mais de 160 bilhões de dólares que só a Samsung Electronic fatura por ano. Ainda é impossível prever, porém, as perdas em termos de fatias do mercado global.

A importância de ser pioneira

Inevitavelmente, o caso “Galaxy gate” é tema de debate na Coreia do Sul. No entanto, as baterias defeituosas não constituem um problema fundamental para a Samsung nem para o país: outras crises ocupam a economia coreana muito mais, afirma Hirschle.

“A indústria construção naval, por exemplo, assinala quedas de 90% nas encomendas. Números como esses são bem mais preocupantes”, lembra.

O escândalo é, obviamente, um problema, porém o especialista alemão em comércio externo vê os desafios para a companhia num contexto mais amplo:

“Para a Samsung, assim como a economia como um todo, será decisivo conseguir dar um salto qualitativo: de fast follower  [seguidor veloz], o que fez a Coreia do Sul crescer, a um first mover[pioneiro]. Quer dizer: no futuro, lançar, ela própria uma tendência, criar um branding, ganhando, assim, a dianteira em relação aos seguidores mais baratos.”
DW

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