Fernando de Noronha manda animais embora


Por Juliana Boechat

O dia de ontem começou mal para os pecuaristas da ilha Fernando de Noronha, a 525km do Recife. A partir das 9h, uma equipe do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e do Instituto Chico Mendes (ICMBio) passou em 15 casas da Zona Agropecuária da ilha com uma notificação que dizia:

– Senhor proprietário de caprinos, bovinos e suínos. No prazo de cinco dias, retire todos os animais das áreas do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. O não atendimento acarretará multa ao proprietário e apreensão dos animais.

Com base na nota, todos os pecuaristas devem entregar os mais de 500 animais, entre cavalos, ovelhas, carneiros e bois ao ICMBio até o próximo dia 20. O instituto, em parceria com o governo, venderá os bichos no Recife. E os antigos donos serão indenizados por um preço ainda não definido. Para o Ibama, a presença de animais domésticos em área protegida infringe a lei ambiental.

Os pecuaristas estão revoltados.


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O aposentado Francisco Paulo de Oliveira, 69 anos, mais conhecido como Chiquito, adoeceu quando recebeu a notícia. Ele chegou na ilha há 50 anos como soldado do Exército e não saiu mais. Hoje, se vale de 25 cabeças de carneiro para incrementar o salário de aposentado e ajudar sete filhos e 18 netos. “Mas e depois? Vamos viver de que, meu Deus do céu?”, pergunta.

O noronhense Walter da Silva, 49 anos, promete resistir. “A mudança é muito brusca. Por isso, ninguém vai tirar os animais de mim, vou lutar até o final”, promete, indignado. A única renda da sua casa vem do aluguel dos cavalos para o passeio ecológico que ele promove com os turistas da ilha. Walter não sabe como ganhar dinheiro sem os animais.

Mesmo com as várias audiências realizadas entre moradores e governo desde o início do ano, João Paulo Rodrigues, um dos advogados da Associação dos Criadores, achou a decisão drástica. “Antes, a venda era opcional. Agora, todo mundo tem que se desfazer dos animais. O governo só se importa com a beleza natural e esquece da questão social”, reclama.

Mas Fabiana Bicudo, responsável pelo Ibama em Fernando de Noronha, garante que todos sabiam da decisão. “O diálogo era constante. Até porque, cerca de 90% dos pecuaristas concordaram com a venda. Vamos dar todo o suporte para eles realizarem a operação”, explicou.

A situação dos pecuaristas mudou na ilha em 1988, quando duas leis de preservação ambiental foram implantadas em Fernando de Noronha e o arquipélago virou ponto turístico. Com isso, os caprinos, ovinos e bovinos, presentes na ilha desde a época em que era presídio, passaram a ser considerados ilegais no local. “Eles destroem trilhas ecológicas e pisoteiam ninhos de aves nativas”, alega Bicudo.

Entretanto, a decisão do Ibama ainda contraria o Plano de Manejo criado pela administração local, que determina o uso e ocupação do solo da ilha e prevê a criação de animais. Entre as páginas 210 e 220 do documento, está escrito que a atividade pecuária seria estimulada, as áreas de ocupação reorganizadas e os produtores, capacitados para melhorar a produção.

A operação de retirada dos animais custará alguns milhões de reais – ninguém do ICMBio se arriscou a dizer o valor exato – e contará com a participação da administração de Fernando de Noronha e do Ministério do Meio Ambiente. Ficará a cargo do governo vacinar e marcar os animais, e ainda transportá-los até o Recife em um barco da Marinha, apelidado pelos pecuaristas de Arca de Noé.

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