Eleições 2010: Analistas, pesquisas e mentiras

Vinho de outras pipas
Dora Kramer

Obrigados pela lei a fabricar omissões onde a honestidade com o público requereria nitidez, os analistas da cena política são forçados a mentir no rádio e na televisão em suas análises sobre o desempenho dos candidatos presidenciais nesta temporada de debates e entrevistas.

De onde se produz, por exemplo, a obra de ficção segundo a qual Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva tiveram atuações “equivalentes” e que são mais ou menos iguais.

Só na cabeça de ervilha dos parlamentares inspiradores dessa legislação passa a idéia de que a opinião de comentaristas possa criar desigualdade a ponto de distorcer a vontade do eleitor. Por muito mais – o uso desbragado da máquina pública – o presidente da República investe diariamente no desequilíbrio do jogo.

Até pelo tempo de estrada, se José Serra se apresentasse no mesmo patamar das adversárias seria uma demonstração de incompetência com certidão passada em cartório do céu.

Serra já disputou várias eleições majoritárias (presidente, prefeito, governador e senador) e passou algumas dezenas de anos fazendo as coisas de modo a um dia concretizar o projeto de ser presidente.

Suas oponentes entraram nessa vida de exposição, cobranças e assédio praticamente anteontem, sendo que Dilma nunca pediu um voto e Marina se elegeu senadora por um Estado diminuto, o Acre.

Por essas e algumas outras a exigência do eleitor/telespectador em relação ao tucano é muito mais rigorosa.

A superioridade de Serra no assunto em pauta, o exercício da Presidência da República, é obvia e irrefutável. Tanto isso é verdade que os correligionários de Dilma comemoraram o fato de ela não ter tido uma atuação desastrosa. A candidata do PT leva vantagem neste aspecto: se não é péssima, fica convencionado que foi ótima.

Marina fica em certa desvantagem, pois a expectativa de que faça algo exótico e altamente estimulante do ponto de vista eleitoral é muito alta. No primeiro debate de televisão, por exemplo, a candidata do PV teve uma participação, digamos, normal.

Foi o suficiente para ser considerada a grande perdedora. Plínio de Arruda Sampaio, de quem não se esperava coisa alguma, conseguiu “vencer” e, de acordo com a tolice da estação, “bombar no Twitter“, mesmo dizendo ligeirezas radicais. Alguém já pensou o que seria feito de Serra ou de Dilma se à meia-noite um dos dois olhasse fixo para a câmera e falasse olho no olho para “você camponês que está me ouvindo”?

Pois é, a avaliação do desempenho dos candidatos no debate da Band, nas entrevistas do Jornal Nacional/Jornal das Dez (Globonews), depende da perspectiva e da expectativa do público.

O PT já está fazendo um carnaval por aí, alegando que a dupla de entrevistadores do JN favoreceu José Serra. Não se vê, entretanto, provas disso. Qual o assunto que poderia ser abordado e não foi? Qual a pergunta que poderia ter sido feita e não foi?

A temática economia e Banco Central – um tanto elaborada para o público em questão – foi abordada mais tarde no noticiário da TV paga e Serra tirou de letra, ao contrário de ocasiões outras em que saiu de si e caiu na besteira de se irritar quando cobrado sobre o assunto.

A questão é que a prática tornou Serra afiado no treino e o plano de vida o fez acumular passivo menos polêmico. Não há – ao menos à vista – constrangimentos sérios com os quais possa ser confrontado.

Dilma, além de precisar responder pelos crimes dos outros ainda tem de ouvir se está preparada para ser presidente. A mesma pergunta para o tucano não faz o menor sentido, a não ser como forma de levantar uma bola para favorecê-lo.

Já foi dito aqui, mas convém repetir: qualidade de conteúdo e vitória eleitoral não são fatores que andam necessariamente juntos. Nem separados. Já tivemos excelentes governantes bem votados, preparadíssimos candidatos perdedores e fraudes evidentes celebradas pelo eleitor, que nem sempre tem compromisso com a lógica.

Alguns leitores me perguntam por que ainda não escrevi sobre o jovem Leandro dos Santos de Paula, chamado de “otário” e “sacana” pelo governador  do Rio, Sérgio Cabral  (PMDB), porque ousou ser “o povo que fala”, em que vez de “o povo que baba e agradece”. Se vocês notarem, tenho certa paixão por temas que vão sendo deixados pelo caminho. E se escreveu bastante sobre o episódio, com um registro que me pareceu, no mais das vezes, o correto. Darei destaque, no entanto, a um aspecto do conjunto, que remete a uma preocupação antiga deste escriba.

Mais até do que o “sacana e otário” de Cabral — e tenho a certeza de que ele diria tratar-se de uma forma carinhosa e viril de se relacionar com o povo… —, o que me incomodou foi a resposta do Babalorixá de Banânina quando o rapaz cobrou uma quadra de tênis. Disse o preclaro: “Isso é esporte da burguesia”. Isso, sim, é manifestação de má consciência, ainda que pareça apenas uma resposta convencional, até engraçada.

Antes de entrar no mérito da resposta e a que tipo de mentalidade ela apela, faço aqui uma pequena memória. Quanto o governo decidiu comprar lençóis e roupões de algodão egípcio, houve uma grita aqui e ali. Era como se Lula fosse o Leandro pedindo uma quadra de tênis: o ex-operário estaria se “aburguesando”. A crítica era bocó. Fiquei fora dessa conversa. Acho que, na única referência que fiz a respeito, recomendei que se comprassem também meias italianas para Lula, de cano mais longo, para que ele não ficasse com as canelas gordotas de fora quando sentado, o que me parece impróprio, no meu conservadorismo atroz, a um chefe de estado.

O presidente brasileiro é, sim, a expressão máxima da odiosa “burguesia do capital alheio”, mas essa é outra conversa. Aí se trata de um processo de ocupação do Estado pela “nova classe social”, oriunda da burocracia sindical. Nada tem a ver com lençol de 600 fios — a que até um presidente intelectual teria direito, se é que entendem a ironia. A grita era puro preconceito. Ali Kamel apontou isso à época, chamando aquele tipo de crítica de “classismo”.

Pois é… Na resposta a Leandro, Lula foi “classista”. Ao cochichar com Cabral, já surgiu o estrategista: “Se a imprensa descobre que a molecada não pode usar a piscina do centro esportivo…” O “classismo” do presidente — justamente ele… — tem sido um método na relação do estado brasileiro e das ONGs com os pobres. Não lhes cabe sonhar com o tênis, bastam o futebol e, de vez em quando, a natação. Já é uma oferta suficiente. Neste momento, um petista apressado já pensaria em interromper: “E o ProUni para os pobres”. Pois é… São os cursos universitários que estão mais para um futebolzinho numa quadra meio mixuruca do que para o… tênis! O leitor esperto percebeu que uso esses elementos como metáforas, claro!

A má consciência que toma conta do “discurso do social” vê na pobreza uma espécie de variante antropológica, de cultura particular, cujos sonhos e horizontes têm um limite, que não comporta uma quadra de tênis, tanto quanto seria demasiada ambição um ex-operário querer dormir em lençóis egípcios de 600 fios. Embora Lula acuse permanentemente o preconceito que haveria contra ele — e, pois, contra o “povo” —, a resposta dada a Leandro revela que ele se tornou um agente propagador daquela visão torta de mundo. No sentido daquela antiga crítica tacanha, ele não se “aburguesou” porque dormiu em lençóis egípcios, ele se “aburguesou” porque sustenta que Leandro não tem direito ao seu próprio lençol de fino trato — no caso, à sua quadra de tênis.

Seres humanos de qualquer classe, origem ou lugar sonham. Até Sinhá Vitória, em Vidas Secas, do grande Graciliano Ramos, sonhava com uma cama de couro quando chovia. E se deve oferecer ao “povo”, creio, caso se queira realmente mudar a sua vida e a escrita, mais oportunidades do que as consideradas “normais e próprias” a seu meio.

Voltando ao começo
Indaguei, certa feita, por que tantas ONGs sobem o morro, no Rio, ou vão à periferia, em São Paulo, para ensinar ao povo o que o povo já sabe: rap ou funk, batuque, malabarismo, artes circenses. Por que não lhes oferecer também Mozart, Manuel Bandeira ou Machado de Assis? Aquela “gente” que está lá não tem anseios distintos dos nossos, não, desde que tenha a oportunidade de alargar seu repertório. Sua origem não a condena a dormir eternamente na cama de ripa, sem direito a sonhar com a cama de couro bem esticado. É preciso abrir seus horizontes, sim,  para que ambicione a quadra de tênis e os lençóis egípcios de 600 fios.

E como se consegue isso? Por meio de uma educação que tenha um caráter universalista — aquela mesma a que, como diria Lula, os “burgueses” têm direito. O “povo” não pode mais ser visto como uma variante antropológica, como um ser de uma outra espécie, a quem voltamos, caridosos, os olhos, certos de que ele emitirá uma mensagem para nos comover, na sua poética rusticidade.

As políticas de “promoção dos pobres” hoje em curso têm um apelo identitário: algumas oportunidades lhes são oferecidas — não “quadra de tênis”, que é aí já é demais — não para que deixem de ser pobres, mas para que transformem a pobreza num saber e num discurso de auto-afirmação. Pode haver preconceito mais odiento do que esse? Pode haver discriminação de classe mais evidente.

José Mesquita

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e designer gráfico e digital.

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e “designer”.

Bacharel em administração e bacharelando em Direito.

Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.

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