Dilma deseja atropelar Cunha no quintal do rival

Arma-se na Câmara um novo embate entre Eduardo Cunha e Dilma Rousseff. Instigada pelos operadores políticos do Planalto, Dilma trabalha com a ideia de que é possível atropelar Cunha dentro do quintal dele, a bancada de deputados federais do PMDB.
Pedro Ladeira/Folha

Isso seria feito por meio da recondução de Leonardo Picciani ao posto de líder da legenda na Câmara, derrotando Hugo Motta, um soldado da infantaria de Cunha.

A última vez que Dilma executou um lance semelhante foi logo depois de sua reeleição para o Planalto. Naquela época, inebriada pela vitória magra que impusera ao tucano Aécio Neves, a presidente avaliara que conseguiria atravessar no caminho de Cunha a candidatura do petista Arlindo Chinaglia à presidência da Câmara. Seu governo foi à luta. E tomou uma surra que deu a Cunha uma dimensão que ele não precisava ter.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Agora, Dilma mede forças com um Cunha debilitado pela sangria da Lava Jato. Atropelando-o, passará o trator sobre uma cassação esperando para acontecer. Se levar uma nova coça, a presidente empurrará para dentro da comissão da Câmara incumbida de analisar o impeachment oito peemedebistas que querem colocar uma corda em volta do seu pescoço.

Vice-presidente da República e presidente do PMDB, Michel Temer observa o balé de elefantes à distância. Evita entrar na briga. A caminho da convenção nacional que definirá em março se ele continua ou não no comando do partido, Temer cuida para não ser atropelado como um transeunte inadvertido.

Nesta sexta-feira (22), Temer recebeu no seu escritório de São Paulo a visita de Hugo Motta (PB). O candidato de Eduardo Cunha já havia conversado com Temer na terça, em Brasília. Dissera que cogitava lançar-se na disputa pela liderança da bancada. Na nova visita, avisou que já está em campanha.

Também nesta sexta, Temer recebeu um telefonema do deputado mineiro Leonardo Quintão. Ele também se dizia candidato a líder. Mas decidiu abdicar de sua postulação para apoiar Picciani, o preferido de Dilma. O mineiro Quintão disse que exigira do carioca Picciani o apoio do diretório do PMDB do Rio à reeleição de Temer na convenção de março.

Temer acionou seu timbre de veludo para dizer a Quintão que ele deveria fazer o que lhe parecesse mais adequado. Sem, no entanto, vincular seu gesto à convenção de março. “Minha situação está consolidada. Resolvam a questão da bancada entre vocês, buscando o consenso. Não precisa vincular uma coisa à outra. Isso pode até atrapalhar. Não vamos misturar as coisas.”

O apoio de Quintão a Picciani foi selado num encontro na cidade mineira de Juiz de Fora. Quintão telefonou novamente para Temer. Repassou o celular a Picciani, que voltou a atrelar a novidade ao apoio do PMDB do Rio à permanência de Temer no comando partidário. Temer reiterou: “Não precisa fazer isso. A questão da convenção está consolidada. Já tenho a maioria dos diretórios estaduais comigo.” A despeito dos apelos, Quintão informou aos repórteres que migrou para Picciani em combinação com Temer. Que apressou-se em desmenti-lo.

O apoio de Quintão a Picciani surprendeu o partido. Um dizia cobras e lagartos do outro. Em dezembro, Quintão havia destituído Picciani da liderança por meio de um abaixo-assinado endossado pela maioria dos deputados do PMDB. Respondeu pela liderança por poucos dias. Uma nova lista de assinaturas devolveu a poltrona de líder a Picciani.

“Levando-se em conta o que o Quintão falava do Picciani nas conversas que tinha com a gente, tenho certeza de que, no voto secreto, ele vai acabar votando no Hugo Motta”, ironizou o deputado baiano Lúcio Vieira Lima.

Lúcio insinua que “milhões de razões” devem ter estimulado Quintão a se associar ao candidato de Dilma. “Ainda desconheço as razões dele. Mas não tenho dúvida de que foram milhões de razões.”

Autorizado por Dilma, o ministro petista Ricardo Berzoini, coordenador político do Planalto, sondara o deputado Mauro Lopes, um peemedebista de Minas, para ocupar o posto de ministro da Aviação Civil. O apoio da bancada de Minas à permanência de Picciani na liderança é pré-condição para a efetivação da transação fisiológica.

“Com ministério ou sem ministério, a bancada de Minas não vai inteira para Picciani”, desdenha Lúcio Vieira Lima. “O voto é secreto. Não creio que Quintão tenha mudado de posição por conta de oferta de ministério para Minas. Fico imaginando o que é que pode ter causado a mudança de opinião de uma pessoa que, no mês passado, recolheu assinaturas para destituir o desafeto, que agora virou aliado. Foram acertos pesados.”

Hugo Motta conversou durante a semana com dois ministros palacianos do PT: o coordenador político Berzoini e Edinho Silva (Comunicação Social da Presidência). Segundo contou aos colegas, o deputado aconselhou os ministros a manterem o Planalto fora da briga do PMDB. Recordou a surra de Cunha em Chinaglia. E avisou: se o governo acha que Picciani vai prevalecer, que aposte nele. Mas não venha depois cobrar lealdade do PMDB se perder a aposta.

O que há de mais dramático em toda essa encrenca é sua desconexão com os temas que inquietam o país. Às voltas com a recessão, a inflação e o desemprego, o brasileiro enxerga no elenco envolvido na disputa pela liderança do PMDB o inócuo com carro oficial, o beco-sem-saída com PhD em fisiologismo.
blog Josias de Souza

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