Claudia Camara – Poesia – Não quero postar-me diante da sua inércia


Espelho
Claudia CamaraEspelho,Blog do Mesquita

Eu vou falar porque transbordo. Só porque não tem jeito, vou dizer adagas afiadíssimas, impiedosas, sobre sua carne. Não me olhe ou esmorecerei e minha voz vai se calar, exausta de compaixão. Não me olhe, porque as palavras sairão como cuspes lançados contra seu rosto. Escarros antigos, empedrados de dores caladas. Não, por favor, não desista. Não cometerei escatologias de espécie alguma, prometo. Mas não me olhe. Ou engolirei os cacos da verdade que agora, encara o seu rosto sem, no entanto, olhar para você. E sangrarei inutilmente sobre palavras que não me cabem.

Escuta. É quase certo que eu não te ame mais. Carrego sentimentos morredouros que rangem cada vez que respiro. Adivinho os estertores da esperança. Imagino apenas e, juro, espero estar errada.

No começo não era assim. No começo eu vivia sob as bênçãos da ignorância. Eu era o rio caudaloso em sua primeira água rumo ao oceano. Nunca mais essa liberdade que só os intrépidos, que só os inocentes, já que, você bem o sabe, liberdade é privilégio dos ignaros. Mas isso eu já disse e não quero esgotar sua boa vontade, enovelando palavras, tecendo sensações que, você sabe, são minha razão e conforto.

Eu, cega de eternidade, rolando solta por entre as frinchas da terra, abrindo caminhos com a voracidade dos recentes. Sei que metaforismos são irritantes, quando se trata de acontecimentos com datas e suores. Como agora, quando confesso o meu desamor por você. É um processo que, embora abissal, não surpreenderá seus passos com um vazio súbito, sem alardes. Estou convivendo com o desfolhamento desse legado que me foi deixado como testamento de vida. Não o pedi. Entende isso? Me foi ordenado como também veio a sentença: deve crescer, multiplicar-se e buscar a felicidade resoluta e, antes de tudo, amar aos outros como a si mesmo.


Você pode se interessar também sobre: Alexandre O’Neill – Versos na tarde – 14/04/2018


Percebe porque nunca experimentei o amor? Inventei, modelei meticulosamente histórias formidáveis mas que, você sabe, serviria em diversos protagonistas. Qualquer um. Os que foram. Os que são. Serão?

Não se preocupe, não choro enquanto confesso tantos silêncios. É que agora, como muitas vezes, me acontece o frio nos olhos e as águas salobras vêm protegê-los de alguma agudez indesejada deste sentido. Por exemplo, não verei o cansaço das suas carnes. Sua testa desolada e cabelos desconsolados sobre ombros.

Não verei seus olhos abaixados, perscrutando sua alma enquanto escovo ancestralidades, trazendo-as à luz impiedosa da realidade.

Olha. Vê que não há amor possível diante de tal constatação: você não cumpriu com a promessa e não é quem deveria ser. Ou poderia.

Seus sonhos meninados persistem enquanto o tempo arrancou cada uma das pontes suspirosas entre a possibilidade e o nunca. Não é possível que não tenha percebido isto! E, desculpe, mas eles não lhe caem nada bem agora que já não conta com a benevolência do futuro.

Não quero postar-me diante da sua inércia. Não suporto mais a docilidade com que mimetiza minha dor.

Apago a luz

Postado na categoria: Literatura, Poesia - Palavras chave: ,

Leia também:

Ladislau Dowbor - Frase do dia - 31/07/2013

"Corrupção, a partir de certo nível, exige que todos sejam corruptos. Quem se recusa é alvo de pressões insustentáveis. É um processo de seleção negativo." Ladislau Dowbor

July 31, 2013, 10:02 am
Soren Kierkegaard - Frase do dia - 01/02/2014

"A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente." Soren Kierkegaard

February 1, 2015, 10:02 am
paixão - Frase do dia - 06/09/2016

Está no brilho dos seus olhos tudo que preciso para começar bem o meu dia.

September 6, 2016, 10:00 am
Erasmo de Roterdam - Frase do dia - 17/03/2013

"O lobo talvez mude a pele, mas nunca a alma." Erasmo de Rotterdam

March 17, 2013, 10:00 am
Miguel de Unamuno - Frase do dia - 03/03/2015

“Chamo ruminantes aos homens que passam a vida a ruminar a miséria humana, preocupados em não cair neste ou naquele abismo.” Miguel de Unamuno

March 3, 2015, 10:55 am
Gabriela Mistral - Versos na tarde

Besos Gabriela Mistral ¹ Hay besos que pronuncian por sí solos la sentencia de amor condenatoria, hay besos que se dan con la mirada hay besos que se dan con...

May 20, 2012, 9:00 pm