“A degradação humana causada pela tecnologia excedeu alguns limites importantes”

A tecnologia está nos tornando seres humanos piores?

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De tanto discutir sobre quando a tecnologia iria exceder nossas capacidades, perdemos de vista o fato de que as máquinas estavam se concentrando em conhecer nossos pontos fracos.

É a base que sustenta um conceito que ressoa no Vale do Silício e é conhecido como desclassificação humana, “degradação humana” em espanhol.

Foi cunhado pelo cientista da computação Tristan Harris e seu parceiro Randima (Randy) Fernando, co-fundadores do Center for Humane Technology (CHT), uma organização sem fins lucrativos cuja missão é “reverter a degradação humana” e ” realinhar a tecnologia com a nossa humanidade. ”

No recente documentário da Netflix O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) Harris e Fernando expõem essa questão, intimamente ligada à chamada “economia da atenção”, ou como as empresas monetizam nossa atenção por meio das redes sociais e outras tecnologias digitais.

Fernando, diretor executivo do CHT, acredita que a tecnologia deve ser “mais humana”. Nesta entrevista à BBC Mundo ele explica o porquê. GettyImages

Como surgiu o seu interesse pela economia da atenção e por que isso é importante para você?

Meus pais me ensinaram mindfulness (meditação baseada em mindfulness) e tecnologia desde muito jovem, então segui esse caminho. Fiquei muito interessado em computação gráfica e trabalhei na Nvidia (multinacional do Vale do Silício) por sete anos. Então, ajudei a fundar uma organização chamada Mindful Schools para ensinar mindfulness nas escolas.

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Eu fiz isso por um tempo até encontrar Tristan [Harris].

Ambos estávamos muito interessados ​​em midfulness. Começamos a perceber que éramos contra a forma como a economia da atenção compete constantemente para treinar nossas mentes de maneira diferente.

A economia da atenção é adversária da atenção plena.

É muito fácil para as empresas criar perfis sobre nós com base nas informações que compartilhamos nas redes sociais, e elas compartilham essas informações com os anunciantes. Este modelo de negócio torna a nossa atenção vital e também não se baseia nos nossos interesses, mas nos dos anunciantes.

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Decidimos que era melhor criar uma organização para gerenciar o crescente interesse pelo tópico (especialmente porque Harris falou sobre isso em um programa de televisão nacional em 2017) e tentar resolver o problema.

Três anos depois, ainda estamos nisso.

Para resolver o problema, você propõe “reverter a degradação humana”. Que significa isso?

Muito do trabalho que fazemos tem a ver com a mente, com vícios e como combatê-los; com meditação e bem-estar emocional. Também com democracia e polarização, com a distorção da verdade. Todas essas questões estão inter-relacionadas e ligadas à “degradação humana”.

Nós o descrevemos como algo cíclico: à medida que melhoramos e atualizamos nossas máquinas, degradamos seres humanos. E deveria ter sido o contrário. Isso é algo que se repete constantemente.

Por muito tempo, ficamos muito empolgados com todas as melhorias tecnológicas, mas investimos tanto esforço e energia no avanço da tecnologia – que nos beneficiou tanto por décadas – que não prestamos atenção suficiente às mudanças que estavam ocorrendo em nosso cérebro.

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A certa altura, ficamos vulneráveis ​​a ela porque a tecnologia pode ser usada para tirar proveito de nossas fraquezas.

O que mudou nos últimos anos para trazer essa questão para a mesa dentro e fora do Vale do Silício?

A “degradação humana” ultrapassou alguns limites importantes, então agora começa a nos preocupar.

Estamos cientes de como as notificações tentam “sequestrar” nossa atenção. Se os designers usarem isso a seu favor, eles podem nos fazer gastar mais tempo em seus produtos, atraindo nossa atenção para que percebamos certos elementos por meio de coisas como o brilho da tela e outros pequenos “truques”.

E não sabemos mais o que é real e o que não é. Deepfakes (vídeos com pessoas aparentemente reais modificadas com inteligência artificial) são um bom exemplo disso.

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Deepfakes são um exemplo de como a tecnologia pode nos degradar: não podemos diferenciar entre o que é real e o que não é.

A mente humana é limitada. É maravilhoso em muitos aspectos, mas tem pontos fracos. Agora que sabemos que a tecnologia cruzou essa barreira, nosso entusiasmo diminuiu porque é algo que não podemos mais controlar.

No entanto, as forças de mercado continuaram a usar novas tecnologias em seu benefício para aumentar as vendas. Os analistas ficam fascinados por encontrar novas maneiras de usar a tecnologia a seu favor e transformar essas tendências em dinheiro. Mas quem pensa nos benefícios não está considerando as consequências.

Isso está acontecendo em todo o mundo e em todos os níveis. Analistas, designers de produtos e governos estão competindo uns com os outros. E no final acaba sendo uma arma muito perigosa. Mas há cada vez mais reações contra isso.

Você o desenha como um sistema perverso. Isso poderia ser previsto de alguma forma?

Sim, claro que foi previsto. E não só: foi procurado também por quem quer explorá-lo a seu favor. Uma parte importante do problema é que aqueles que tentam encontrar soluções geralmente não são os mesmos que criam o problema.

Há pessoas muito competentes falando abertamente sobre o uso da tecnologia há muito tempo, mas aqueles que trabalham com avanços tecnológicos têm outros incentivos e não estão interessados ​​em desacelerar porque muitas vezes significa um desserviço para eles, do qual sua concorrência pode tirar vantagem.

É por isso que resolver este problema é tão complexo. Somado a isso, a “degradação humana” é cíclica.

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A “degradação humana” é cíclica, segundo Fernando.

O que você quer dizer com cíclico?

Quando nossa atenção é interrompida repetidamente, ficamos mais distraídos. Tornamo-nos a pior versão de nós mesmos. A tecnologia nos muda. E isso acontece cada vez mais porque as redes sociais facilitam esse processo.

Quando competimos por atenção – gostos, comentários, compartilhamentos – começamos a “dizer” coisas diferentes, para usar outra linguagem. Postamos fotos que chamam mais a atenção, somos mais radicais ao debater questões políticas … tudo isso beneficia os algoritmos.

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Quanto mais eles distraem nossa atenção, mais lucrativos somos para as empresas (e mais vulneráveis ​​à “degradação”).

No final do ciclo, a tecnologia acaba nos mudando e, efetivamente, nos degradando. E quando nos degradamos, ficamos mais vulneráveis ​​no próximo ciclo, porque quando estamos mais distraídos, é mais fácil para um novo ciclo ocorrer.

Acaba sendo uma corrida [de empresas] para chegar ao fundo do nosso tronco cerebral que traz à tona o que há de pior em nós mesmos e que cada vez mais inclui menos pausa, menos reflexão e menos meditação, porque estamos ocupados reagindo o tempo todo.

É fácil sentir-se impotente nesta situação … o que podemos fazer?

Certamente é! É uma parte tão importante da economia … Movimenta trilhões de dólares! Mas podemos atuar em dois níveis: primeiro pessoal e, segundo, coletivo.

O primeiro passo realmente começa nos educando sobre isso. Em um nível pessoal, podemos fazer coisas vitais como limitar notificações, usar menos plataformas digitais, mudar o que mostramos nelas e nossas interações online. Basicamente, entender como estamos sendo manipulados e agir de acordo.

“O dilema das redes sociais” | 3 mudanças para recuperar o controle sobre sua vida nas redes sociais de acordo com Justin Rosenstein, criador do botão “Curtir” no Facebook
Além disso, existe o plano coletivo. Portanto, estamos criando um espaço para permitir que as pessoas expressem suas preocupações. Um por um não fazemos muito, mas todos temos força. Quando nos reunimos, podemos realizar uma mudança real. Isso é muito importante porque a “degradação humana” está nos mudando como sociedade.

A questão é: que mudança queremos promover? Uma das chaves é que o produto que usamos deve ser diferente, deve ter uma codificação diferente. E essa mudança deve ser feita por dentro, mas a pressão de consumidores, investidores, políticos, educadores e tecnólogos pode ajudar.

Temos que mudar as condições do jogo. A tecnologia que divide a sociedade não é tecnologia “humana” porque é prejudicial aos seres humanos.

Em que medida você diria que estamos liderando o caminho para uma tecnologia mais “humana”?

Para ser honesto, estou favoravelmente surpreso com o quão longe chegamos, porque a certa altura pensei que ficaríamos para sempre presos na definição do problema.

IMDB / O DILEMA SOCIAL

O sucesso do documentário “O Dilema das Mídias Sociais” é um exemplo de como a preocupação com o tema aumentou.

Mas agora, e em parte graças à repercussão do [documentário] O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) – que só no primeiro mês (setembro) viu mais de 38 milhões de pessoas – muito mais as pessoas entendem isso.

Felizmente, cada vez mais pessoas estão percebendo como as informações que compartilham nas redes ajudam a economizar atenção. Isto é muito importante.

Uma das coisas mais maravilhosas com que tantas pessoas se preocupam é que podemos realmente nos recompor para lidar com isso. Cada vez mais empresas e países estão agindo e vejo oportunidades de mudança no curto e médio prazo.

Agora temos que continuar divulgando a mensagem para que a tecnologia seja cada vez mais humana e nos permita nos conectarmos melhor, divulgar a verdade e obter a melhor versão de nós mesmos.

 

Os EUA estão falidos – é uma enorme bolha de economia totalmente sustentada por dívidas, diz Peter Schiff

Um dos médicos que aconselhou Joe Biden sobre o coronavírus disse que os EUA precisam impor um bloqueio completo por quatro a seis semanas, já que o governo pode simplesmente pagar a todos. Peter Schiff diz que tal proposta é ridícula.

“Desligar a economia por quatro a seis semanas, de acordo com esse cara, realmente nos permitiria impulsionar a economia porque realmente erradicaríamos a doença – embora não haja realmente nenhuma prova de que um bloqueio realmente vá fazer alguma coisa”, Schiff disse em seu podcast. “Mas o que esse gênio está propondo é que, bem, isso não vai realmente afetar a economia, porque de acordo com esse cara – acho que ele não é apenas um conselheiro da Covid, acho que ele também é um conselheiro econômico – mas o que ele está dizendo é: ‘Teremos apenas um governo federal pagando a todos.’ ”

De acordo com Schiff, “Esse é o tipo de absurdo que realmente é discutido agora. Porque todo mundo pensa, bom, não importa, porque o governo federal vai pagar por isso. Agora, é claro, o governo federal não tem dinheiro. O governo federal está falido. ”

O economista destacou que o governo dos EUA acabou de registrar um déficit de US $ 284 bilhões em outubro, o maior déficit orçamentário de outubro na história americana.

Ao mesmo tempo, mais de 700.000 pessoas entraram com pedido de seguro desemprego, de acordo com o último relatório semanal divulgado em 12 de novembro. “Se a economia está se recuperando, por que tantas pessoas ainda perdem seus empregos?” Schiff perguntou.

Ele explicou que toda a impressão de dinheiro pelo Federal Reserve causaria muito mais danos à economia do que qualquer dano causado pela Covid-19. “Mesmo se o bloqueio acabasse dobrando a curva e salvando algumas vidas, realmente valeria a pena o custo? Na verdade, quem sabe quantas pessoas mais podem morrer como resultado não apenas do bloqueio, mas do dano econômico causado por todo o dinheiro que o Fed precisa imprimir para apoiar o bloqueio. ”

Falando sobre o crescente fardo da dívida dos aposentados americanos, o veterano corretor da bolsa disse que é apenas um sinal de uma enorme bolha econômica totalmente sustentada por dívidas.

“Isso mostra como a economia está fraca. Porque se realmente tivéssemos uma economia forte, você acha que as pessoas de 70 e 80 anos teriam que se endividar? Não! Por que tantos americanos mais velhos estão sendo forçados a assumir dívidas? Porque eles estão falidos. Porque eles não podem sobreviver sem dívidas. “

Maior jornal do mundo desmascara Trump e Bolsonaro

Foto: AFP

Uma reportagem do jornal The New York Times publicada hoje traça as semelhanças entre o presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump na condução da crise causada pelo novo coronavírus, destacando que ambos têm um “desprezo compartilhado pelo vírus” e construíram “uma campanha ideológica que minou a capacidade da América Latina de responder à covid-19”.

A América Latina tem um terço das mortes no mundo e sofreu mais com a covid-19 do que qualquer outra região no planeta. Os EUA são o país mais afetado em número de mortes, com 225.739, seguidos pelo Brasil, com 157.397, até agora.

O “NYT” destaca que sistemas de saúde pouco estruturados e cidades superlotadas tornaram a América Latina mais vulnerável à pandemia, mas “ao expulsar médicos, bloquear a assistência e promover falsas curas, Trump e Bolsonaro pioraram a situação, desmantelando as defesas”.

A reportagem afirma que os dois líderes são nacionalistas que desafiam a ciência e colocaram o crescimento econômico e as políticas de curto prazo à frente das advertências de saúde pública. Também lembra que ambos fizeram com que 10 mil médicos e enfermeiras cubanos de áreas pobres de nações como Brasil, Equador, Bolívia e El Salvador fossem mandados de volta para Cuba. Muitos partiram sem serem substituídos meses antes da chegada da pandemia, o que fragilizou a já deficiente estrutura de saúde.

“Em seguida, os dois líderes atacaram a agência internacional mais capaz de combater o vírus – a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) – citando seu envolvimento com o programa médico cubano. Com a ajuda de Bolsonaro, Trump quase levou a agência à falência ao reter o financiamento prometido no auge do surto”, afirma trecho da matéria.

O texto ainda lembra que Trump e Bolsonaro tentaram fazer da hidroxicloroquina a peça central da resposta à pandemia, apesar do consenso médico de que o remédio é ineficaz e pode até ser perigoso. A agência americana Food and Drug Administration desencorajou, em abril, o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19. “Um mês depois, Trump anunciou que os EUA enviariam ao Brasil dois milhões de doses”.

“Em seu zelo para se livrar dos médicos cubanos, o governo Trump puniu todos os países do hemisfério e, sem dúvida, isso significou mais casos de covid e mais mortes”, disse Mark L. Schneider, ex-chefe de estratégia planejamento para a Organização Pan-Americana da Saúde, que foi funcionário do Departamento de Estado no governo Clinton.

“Ninguém da Organização Pan-Americana da Saúde estava aqui e sentimos sua ausência”, lamentou Washington Alemán, especialista sênior em doenças infecciosas e ex-vice-ministro da saúde do Equador, que diagnosticou o primeiro caso confirmado de covid no país. “O suporte não foi como nos anos anteriores”.

Alemanha teme propagação descontrolada da covid-19

Autoridades Alemãs em alerta pela possibilidade de um recrudescimento da epidemia da Covid-19. Temem uma segunda onda da pandemia.

País registra mais de 4 mil infecções em 24 horas, número mais alto desde abril. Governo alerta que rastreamento de cadeias de contágio pode ser impossibilitado com explosão de casos.

Em Colônia, passageiros saem de trem com e sem máscara
Apesar de obrigatoriedade, nem todos respeitam regra do uso de máscara no transporte público na Alemanha – Foto Reprodução DW

O aumento rasante de casos de covid-19 e a dificuldade de rastrear a propagação do vírus preocupam o governo da Alemanha. Nesta quinta-feira (08/10), foram registradas 4.058 novas infecções, segundo dados do Instituto Robert Koch (RKI), agência governamental de controle e prevenção de doenças infecciosas. Esse foi o maior número diário contabilizado desde o início de abril.

Em relação aos registros de quarta-feira, foram 1.230 casos a mais nesta quinta. Segundo o RKI, desde o início da pandemia o país soma 310.144 infecções e 9.578 mortes em decorrência da covid-19.

Diante do novo aumento de casos, o ministro alemão da Saúde, Jens Spahn, pediu à população que seja cuidadosa e reiterou que o avanço do número de infectados é preocupante. Cada vez mais jovens estão contraindo o coronavírus e muitos deles se acham invulneráveis, mas “não o são”, disse o ministro, durante a apresentação do balanço diário nesta quinta-feira.

Spahn elogiou ainda as novas medidas adotadas por Berlim para tentar conter a expansão da epidemia na cidade e afirmou que houve na capital alemã “um comportamento despreocupado e ignorante” por parte de alguns. Berlim registrou bares lotados e festas clandestinas em parques nos últimos meses, e agora enfrenta uma explosão de casos em diversos bairros.

O presidente do RKI, Lothar Wieler, alertou contra a expansão descontrolada do coronavírus na Alemanha. “É possível que tenhamos mais de 10 mil novos casos por dia e que o vírus se espalhe sem controle. A atual situação me preocupa muito, e não está claro como ela evoluirá nas próximas semanas”, destacou.

O governo alemão admitiu também estar preocupado com uma perda na rastreabilidade das infecções. “Temos visto números crescentes, especialmente em algumas grandes cidades, incluindo a capital”, afirmou o porta-voz do governo, Steffen Seibert. Ele disse que os casos não podem mais ser atribuídos a surtos únicos, o que levanta o temor de que “o vírus possa continuar a se espalhar difusamente”.

Seibert ressaltou que as autoridades sanitárias precisam ter condições de rastrear as cadeias de contágio para interromper rapidamente a circulação do vírus. “Com o aumento de casos, é fácil temer que as autoridades sanitárias cheguem à beira do abismo ou além de suas capacidades.” O porta-voz destacou que a única maneira de conter a pandemia é “identificar e quebrar as cadeias de infecção”.

Novas restrições de viagem

Como reação ao aumento dos casos no país, a maioria dos estados alemães decidiu que turistas vindos de regiões de risco de dentro da própria Alemanha só podem ser aceitos em hotéis e outros tipos de alojamento se apresentarem um resultado negativo de covid-19 realizado em no máximo 48 horas antes. Essa medida se aplica a viajantes de áreas que registraram mais de 50 novas infecções por 100 mil habitantes num período de sete dias.

Cinco estados contestaram inicialmente a decisão. A Turíngia afirmou que não pretende impor essa restrição. Já Berlim aguardará um pouco mais para decidir se adotará a medida. Baixa Saxônia e Bremen ainda estão avaliando, e Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental quer regras mais rígidas de quarentena.

CN/dw

Quão bem posicionado está o Brasil na corrida por uma vacina?

Especialistas falam sobre as perspectivas para uma imunização contra a covid-19 e os possíveis gargalos a serem enfrentados pelo país.

 “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil”, diz especialista

Quando foi declarada a pandemia de covid-19, começou uma corrida global sem precedentes em busca de uma vacina que pudesse resolver a crise de saúde que praticamente parou o mundo. Em pouco tempo, estimativas otimistas e promessas de autoridades passaram a ser publicadas, criando expectativas na população.

Enquanto há políticos que chegaram a anunciar o início da vacinação ainda em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou acreditar que grande parte da população terá de aguardar até 2022 para ser vacinada.

A DW Brasil ouviu especialistas para entender a real situação do Brasil nessa corrida pelo imunizante.

“Quem marca uma data certa para iniciar vacinação, em um período como o que estamos agora, ou não entende do processo ou está de má-fé”, diz Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas. “No Brasil, as promessas parecem tão otimistas porque estão sendo feitas por políticos, e não por cientistas.”

“É um assunto geralmente abordado de forma cautelosa por agências de saúde e de forma populista pelos governos”, comenta Jean Pierre Shatzmann Peron, pesquisador da Plataforma Científica Pasteur e professor de imunologia da Universidade de São Paulo.

Atualmente há dez vacinas no mundo, segundo a OMS, na chamada fase 3 – a mais avançada. Destas, duas firmaram parcerias técnicas com o Brasil: a chinesa Sinovac, com o Instituto Butantan, e a inglesa AstraZeneca, com a Fundação Oswaldo Cruz.

As duas estão adiantadas, mas, como enfatiza Garrett, nada garante que “cruzarão a linha de chegada na frente ou que conseguirão cruzar a linha de chegada”. “Isso pode acontecer. O processo de uma vacina é assim, é um investimento de risco. É caro por várias razões, e uma é esta”, ressalta.

Além da vacina chinesa da Sinovac e da de Oxford, receberam autorização e inciaram testes com voluntários no Brasil imunizantes contra a covid-19 desenvolvidos pela Janssen, unidade farmacêutica da Johnson & Johnson, e pela empresa BioNTech, da Alemanha, em parceria com a Pfizer, dos Estados Unidos.

Além disso, o Brasil tornou-se signatário de uma inciativa internacional capitaneada pela OMS para acelerar o desenvolvimento de uma vacina. Para o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, em termos de articulação, portanto, o país está se posicionando relativamente bem. O gargalo estaria na quantidade.

“Não teremos vacina para toda a população num primeiro momento”, afirma Kfouri. “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil [contra covid-19]. Talvez em 2022”, concorda Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia.

A importância dos testes

Os especialistas ouvidos pela DW Brasil explicam que em casos de urgência como uma pandemia é possível aprovar uma vacina sem a conclusão da fase 3 – com acompanhamentos pré-determinados ao longo do estágio, desde que os resultados sejam altamente positivos. Mas há receio tanto de efeitos colaterais que possam surgir após alguns meses como quanto à possibilidade de a eficácia de imunização diminuir com o tempo.

“Pessoalmente, acredito que um teste clínico da fase 3 não pode ser feito em apenas quatro meses. Tem de ser com no mínimo 10, 12 meses. Porque uma eficácia pode ser de 50% a 60% em quatro meses e cair para bem abaixo disso. Mas tem pressão de alguns políticos”, aponta Gazzinelli.

“Exige-se um tempo mínimo de observação, e atualmente este tempo mínimo está sendo discutido internacionalmente”, completa Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

Essa pressão deve fazer até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove um imunizante com eficácia inferior aos 70% que são praxe. O que também, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, pode ser um tiro no pé: em um contexto já dominado por negacionistas, a baixa eficácia pode alimentar discursos antivacina.

Há ainda o fator do efeito na população como um todo. Quando uma parcela considerável está vacinada, o vírus não consegue se disseminar. Mas quanto mais baixa a eficácia de uma vacina, maior tem de ser essa parcela. De acordo com cálculos da epidemiologista Garrett, uma vacina com 75% de eficácia precisaria ser inoculada em 66% da população para que tal resultado fosse atingido. “Isso é muito”, diz.

Produção e distribuição

Mas quando uma – ou, nos melhores cenários, mais de uma – vacina finalmente for considerada segura e eficaz, o problema passa a ser a produção, a distribuição e a aplicação em massa.

Kalil não acredita que o Brasil, em um primeiro momento, irá produzir as vacinas porque “a transferência tecnológica para a produção da mesma iria levar muito tempo”. Segundo ele, o que deve ocorrer é a compra a granel e o trabalho de instituições como o Butantan para colocar em frascos.

“Por que o Brasil não está à frente com um candidato próprio de vacina? Na verdade essa pergunta é muito importante para a gente, porque o país tem capacidade científica muito grande. O problema é que a produção [científica] ainda é pequena para o tamanho do país, e isso é assim por causa dos baixos investimentos em pesquisa”, diz Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim, deve haver um gargalo na compra desses imunizantes, quando aprovados. Com uma população de 210 milhões de habitantes e considerando que as fórmulas mais avançadas preveem duas doses de vacinação, fica matematicamente difícil garantir que uma proporção considerável dos brasileiros seja imunizada de forma imediata.

Há ainda a perda natural do processo – segundo os especialistas, de 20% a 30% do total acabam perdidos nos frascos. Kalil diz que a escolha vai ter de ser “entre os que têm mais probabilidade de morrer e os que estão mais expostos à doença”, ou seja, os idosos e aqueles com comorbidades ou os médicos da linha de frente e aqueles de serviços essenciais que normalmente têm contatos com muitas pessoas – como motoristas de transporte público e agentes de segurança.

Por outro lado, o Brasil tem uma ótima experiência em campanhas de vacinação e uma rede eficiente de distribuição e aplicação em postos de saúde – estruturas essas que poderiam ser adaptadas para os trabalhos de imunização contra a covid-19. O país conta com 35 mil salas de vacinação e tem um calendário vacinal abrangente em relação a outras partes do mundo.

Fake news

Enquanto a vacina não vem, Zárate-Bladés acredita que um bom preparativo seria combater um problema adicional: a “chuva de desinformação absolutamente irresponsável e sem nenhuma base científica em relação a vacinas”.

“Em relação a duas que estão em testes no Brasil, de uma eles dizem que se trata de um intento comunista para dominar o mundo, e a outra que é uma tentativa de Bill Gates de tornar todo mundo chips andantes”, comenta. “São aberrações ditas até por autoridades. Acho que esse é o gargalo fundamental que a gente vai enfrentar e já estamos enfrentando.”

O Brasil vive a banalização da morte?

Invisível para muitos, a maior tragédia sanitária da história brasileira virou uma macabra estatística. A ilusão da volta ao normal, dizem antropólogos, sociólogos e psicólogos, esconde uma espécie de negação coletiva.

Protesto da ONG Rio da Paz nas areias da praia de Copacabana

Há mais de três meses, em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas em decorrência da covid-19. Desde então, a situação epidemiológica do país, que já soma oficialmente mais de 113 mil óbitos pela pandemia, estabilizou-se em um trágico platô.

Se a situação sanitária parece longe de estar sob controle, por outro lado os discursos são de retomada de economia: há dois meses as atividades vem sendo gradualmente reiniciadas em todo o território nacional, o isolamento social se afrouxa, e está sendo discutida a reabertura das escolas.

Para o antropólogo, cientista social e historiador Claudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do livro História da Saúde Pública no Brasil, o país vive um cenário de “banalização da morte”.

Ele entende que isso é decorrente de uma dimensão política — a maneira como o governo federal conduziu e conduz a situação —, de uma aceitação social — o discurso de que “demos azar” ou de que quem tem comorbidades iria “acabar morrendo mesmo” —, e por fim, de aspectos culturais.

“O presidente Jair Bolsonaro é fruto da sociedade brasileira que, historicamente, banalizou a morte, desde aquele papo que ‘bandido bom é bandido morto’”, diz Bertolli Filho. “Há ainda uma tendência de nossa cultura, para sobrevivermos psicologicamente, a enfrentar o momento pandêmico negando as mortes, mostrando-nos imunes a ela.”

“É quando rejeito pensar que aquele que morreu é parecido comigo e eventualmente poderia ser eu próprio. Quem morreu é ‘o outro’, o ‘da periferia’, o que ‘tinha comorbidades’, o que ‘não seguiu as normas sanitárias’”, exemplifica o acadêmico.

Já para o historiador e sociólogo Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Política, Estado e Ideologia, a sequência diária de mortes, transformadas em estatística, acaba naturalizando-as à população.

“Quando nos vemos diante de um número elevado de mortes, como em um acidente, por exemplo, isso nos choca pela quebra desta aparente casualidade. No caso da pandemia, o ritmo diário das mortes, sua matematização pelas estatísticas, tende a devolver o fenômeno para o campo da casualidade, naturalizando-o”, argumenta ele.

Iasi exemplifica citando as mortes provocadas anualmente pela ação da Polícia Militar no Brasil — 5.804 em 2019. “A rotinização do fato faz com que se banalize o fenômeno, como parte da vida e, portanto, abrindo espaço para sua negação.”

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso compara a sensação transmitida pelas mortes do coronavírus àquela em relação as vítimas de homicídio no país.

“Os grupos que morrem são vistos como aqueles que, de alguma forma, tinham justificativa para morrer. No caso dos homicídios, são as pessoas ‘que procuraram seu próprio destino’. [Para a opinião pública] a vítima é culpada da morte: são negros, pobres, moradores de periferia, suspeitos de serem traficantes”, comenta. “Existe uma certa ilusão de que as mortes se restringem a determinados grupos vistos pelas pessoas como aqueles que ‘podem morrer’. Isso gera não a banalização, mas uma tolerância a esse tipo de ocorrência.”

Ele acredita em uma lógica um tanto parecida nos óbitos decorrentes do coronavírus. Na racionalização, aponta o pesquisador, a opinião geral é de que a doença não atingiria os próximos, mas sim aqueles vistos como “o outro”: o idoso, aquele com comorbidades, os de alguma forma mais vulneráveis. Este raciocínio é balizado pelo que ocorre nas principais cidades — em geral, os distritos com maior número de mortos estão localizados nas periferias.

Desamparo

“O medo da morte iminente que vem junto com a pandemia mobiliza tanto conteúdos de medo e de desamparo, quanto uma espécie de negação coletiva, já que não existe nenhuma figura real de autoridade, nem na ciência, nem na política, que dê conta de ‘funcionar’ como figuras paternas ou maternas que possam cuidar ou proteger contra a morte”, analisa a psicóloga Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Até porque, em todo o mundo, por enquanto, ninguém sabe ainda como vencer essa ameaça comum a todos os seres humanos, com exceção da esperada chegada de vacinas.”

Ela lembra que o fato dessas mortes serem divulgadas diariamente por meio de estatísticas numéricas também dificulta a “identificação” por parte da população. Isso só não ocorre, pontua a professora, quando as mortes chegam a círculos próximos ou vitimizam alguma celebridade.

Para o psicólogo Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno não pode ser chamado de “banalização”, mas sim de “minimização”. Ao recordar da comoção que houve no Brasil quando a Itália registrava cerca de mil mortes em um dia, por exemplo, ele ressalta que era um momento em que os brasileiros estavam “mais atentos e conectados à questão”, já que o mês de março foi quando diversas medidas de quarentena e isolamento social foram implementadas de fato.

“Com o passar do tempo e a maneira ineficiente com que o Brasil enfrentou a pandemia, houve uma mudança de comportamento”, observa. “Não houve enfrentamento coordenado [da questão] e isso confirmou a expectativa de desamparo que o brasileiro tem quando depende do Estado para a resolução de problemas.”

No livro Death Without Weeping: The Violence of Everyday Life in Brazil, a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes relata como mães brasileiras de favelas com altos índices de mortalidade infantil acabam lidando com os óbitos de seus filhos. Para a pesquisadora, a impotência faz com que essas mulheres acabem se conformando com a partida daqueles “mais fracos”, exercendo uma espécie de triagem para favorecer os bebês mais saudáveis, com mais “talento para viver”.

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o antropólogo e sociólogo Marko Monteiro concorda que essa sensação é decorrente da desigualdade social brasileira. “Convivemos com a morte historicamente, desde a formação do país, a maneira violenta como foi construída a nação. Nossas ações cotidianas são permeadas por violência”, resume. “A banalização é consequência disso: os números mostram que quem está morrendo mais são as pessoas de áreas periféricas, negras, sem acesso… São os fatores modificáveis.”

“Então temos mecanismos sociais e psicológicos para conviver com essas mortes, que muitos consideram inevitáveis. É a clássica atitude do ‘eu não sou coveiro’, do ‘e daí?’… Por que isso ressoa em muita gente? Porque há a ideia de as mortes eram inevitáveis, que essas pessoas morreriam de qualquer jeito”, afirma.

Coronavírus: cantar ‘não é mais arriscado do que falar’

Cantar não produz partículas respiratórias substancialmente mais do que falar em um volume semelhante, sugere um estudo.

Cientistas realizaram medições em laboratório

Mas tudo depende de quão barulhento uma pessoa é, de acordo com as descobertas iniciais que ainda serão revisadas por pares.

O projeto, chamado Perform, analisou a quantidade de aerossóis e gotas geradas pelos performers.

As descobertas podem ter implicações para apresentações ao vivo em ambientes fechados, que foram retomadas na Inglaterra esta semana.

Atualmente, eles só podem ocorrer sob estritas diretrizes de distanciamento social.

Aerossóis são partículas minúsculas que são exaladas do corpo e flutuam no ar.

Existem evidências emergentes de que o coronavírus pode se espalhar por meio dessas partículas, bem como por meio de gotículas que caem nas superfícies e são tocadas.

Vinte e cinco performers profissionais de diferentes gêneros, etnias, idades e origens – teatro musical, ópera, gospel, jazz e pop – participaram do estudo que foi conduzido por cientistas da Universidade de Bristol.

Eles completaram individualmente uma série de exercícios, que incluíram cantar e falar Feliz Aniversário em diferentes tons e volumes, em uma sala de operação onde não havia outros aerossóis presentes.

Isso permitiu aos pesquisadores analisar os aerossóis produzidos por sons específicos.

Eles descobriram que o volume da voz teve o maior impacto na quantidade de aerossol produzida.

Por exemplo, havia alguma diferença – embora não muito substancial – entre falar e cantar em um nível semelhante. Considerando que cantar ou gritar no nível mais alto pode gerar 30 vezes mais aerossol.

O impacto de tocar instrumentos também foi testado

A ventilação também pode afetar a forma como o aerossol se acumula. Quanto maior o local e mais ventilação houver, isso pode afetar a concentração dos volumes.

Jonathan Reid, professor de físico-química da University of Bristol, é um dos autores do artigo, que foi financiado pela Public Health England.

Ele disse: “Nossa pesquisa forneceu uma base científica rigorosa para as recomendações da Covid-19 para locais de artes operarem com segurança, tanto para os artistas quanto para o público, garantindo que os espaços sejam adequadamente ventilados para reduzir o risco de transmissão aérea.”

O secretário de Cultura Oliver Dowden disse: “Sei que cantar é uma paixão e um passatempo importante para muitas pessoas, que tenho certeza que se juntarão a mim para saudar as descobertas deste importante estudo.

“Trabalhamos em estreita colaboração com especialistas médicos durante toda esta crise para desenvolver nossa compreensão da Covid-19 e agora atualizamos nossa orientação à luz dessas descobertas para que as pessoas possam voltar a trabalhar juntas com segurança.”

O Dr. Rupert Beale, do Francis Crick Institute, disse: “Esta importante pesquisa sugere que não há risco excessivo específico de transmissão devido ao canto. A fala alta e o canto apresentam risco excessivo. Esta pesquisa apóia a possibilidade de desempenho seguro, desde que haja distanciamento social e ventilação adequados. ”

O Dr. Julian Tang, professor associado honorário em ciências respiratórias da Universidade de Leicester, disse: “O risco é ampliado quando um grupo de cantores está cantando juntos, por exemplo, cantando para uma platéia, seja em igrejas, salas de concerto ou teatros. bom estudo, mas não exatamente representativo de toda a dinâmica do coro real, que realmente precisa de um estudo mais aprofundado para realmente avaliar o risco de tais vocalizações / exalações cantadas sincronizadas de grande volume.

“Os riscos não devem ser subestimados ou minimizados por causa disso – não queremos que os membros do coral sejam infectados e potencialmente morram por causa do Covid-19 enquanto fazem o que amam.”

100 mil: a culpa não é do morcego

Pandemia: a antítese entre sociedade e mercado. Retomo o tema à luz do que ocorreu nesses últimos três meses. Em artigo anterior, citei Rousseau que, a propósito de uma catástrofe natural, o terremoto de Lisboa em 1755, disse que a maior parte dos nossos males são sociais e não naturais.  Elas se distribuem desigualmente e é a estrutura social que determina quem sofre, quem morre, quem tem sua vida destruída.

Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida causados pela Covid-19 (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

No artigo, também cito o terremoto de São Francisco de 1989, de intensidade 7,1 graus na escala Richter, que causou a morte de 63 pessoas e deixou cerca de 3.700 mil feridos. Em comparação, o terremoto de Porto Príncipe de 2010, magnitude 7 na escala Richter, deixou 300 mil mortos e mais de 300 mil feridos. Dez meses depois, uma epidemia de cólera matou nove mil pessoas. A natureza não pode ser responsabilizada pelas mortes a mais em Porto Príncipe ou pelo 1,5 milhão de pessoas que lá ficaram desabrigadas. Isso é obra humana.

A hipótese mais aceita para a origem do coronavírus é o comércio de animais selvagens na China. Teria saltado dos morcegos para os humanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros casos na China apareceram em dezembro de 2019, dois meses antes de a doença se espalhar pelo planeta. O país teve cerca de 84 mil infecções e apenas 4.600 mortes. Os Estados Unidos têm até agora 4,3 milhões de infectados e 150 mil mortos. No Brasil, há aproximadamente três milhões de infecções e 100 mil mortos. Essa diferença não vai para a conta do morcego. Deve-se à desigualdade, a um modo de vida em que o mercado é a racionalidade hegemônica e – produto arrasador de 40 anos de neoliberalismo – ao entorpecimento da consciência da massa pela ideia de que não há sociedade, mas indivíduos que lutam por seus interesses, como acreditava Margaret Thatcher. Ou, como disse Marx certa vez, a uma estrutura em que indivíduos são “mônadas dobradas sobre si mesmos”.

Vejamos como um fato da natureza transforma-se em catástrofe social tomando o município de São Paulo como exemplo para evitar que disparidades regionais contaminem as conclusões. Aqui, o prefeito e o governador (antes do seu plano arco-íris) apareceram inicialmente como heróis do combate à pandemia. O que, em contraponto com o genocida Jair Bolsonaro, não era exatamente um grande feito.

Em 23 de março, a capital tinha 477 casos confirmados e 30 óbitos. A quarentena foi decretada em 24 de março. Funcionavam apenas os serviços essenciais de alimentação, abastecimento, saúde, bancos, limpeza e segurança. No final de maio, João Doria apresentou seu plano de fases coloridas que não era um “relaxamento” da quarentena, mas o fim gradativo dela. Com sua linguagem pomposa e pernóstica, apresentou a proposta como um “monitoramento e ajuste fino regional”, tudo “seguindo a orientação da ciência, da medicina e da saúde”. Punha-se de maneira dissimulada na mesma esfera de Jair Bolsonaro, permitindo que a capital reabrisse shoppings, atividades imobiliárias, comércio e concessionárias. Enquanto Bolsonaro defendia às claras o fim do isolamento social – fascistas normalizam a loucura moral –, o outro aparecia como representante de uma burguesia ilustrada que sabe ser oblíqua. Ambos a serviço do mercado.

Nessa trajetória paulistana de fechamento à abertura, de março a agosto, passamos de 477 casos e 30 óbitos no dia 23 de março para cerca de 246 mil infecções e mais de 10 mil óbitos no dia 8 de agosto, segundo boletins da prefeitura de São Paulo. Vejamos mês a mês, tomando aleatoriamente o dia 15 para efeito de comparação. Infecções e mortes, respectivamente, em 15 de abril: 8.024 e 563. Em 15 de maio: 37.106 e 2.695. Em 15 de junho: 100.627 e 5.703. Em 15 de julho: 179.850 e 8.510. Em 8 de agosto: 246.650 e 10.172. Considerando as subnotificações, podemos multiplicar isso tudo por algum número que não se pode saber ao certo.

No período de 15 de maio a 15 de julho, desde o fim do isolamento, passamos de cerca de 37 mil casos para cerca de 179 mil, com a reabertura de shoppings, imobiliárias, comércio e concessionárias de carros. Agora, já são 246 mil casos. João Doria e Bruno Covas jogaram centenas de milhares de trabalhadores nas ruas, nos transportes coletivos e em contato com a população em geral, em situação de vulnerabilidade, provocando o agravamento da pandemia.

Quem precisa de shoppings abertos? Quem precisa comprar carros? Quem precisa comprar imóveis agora? Quem não pode esperar alguns meses para ter carros novos, perfumes, roupas de grife e sapatos de 800 reais? A elite empresarial – com seus interesses econômicos e sua ânsia desenfreada por lucros – e os consumidores da classe média para cima. Qual a lógica de fechar a cidade com 477 casos e prosseguir na reabertura quando se atingem 246 mil?

A Unifesp fez uma pesquisa sobre desigualdade e vulnerabilidade na pandemia e concluiu que regiões com mais presença de autônomos e pessoas que usam transporte público têm mais mortes do que regiões em que pessoas usam mais carros, são empregadores ou profissionais liberais. O responsável pelo estudo, Kazuo Nakano, foi taxativo em entrevista à Folha: “de uma maneira bem contundente estão acontecendo mais mortes onde você tem mais viagens de transporte coletivo, de ônibus, trem e metrô”.

O que todos os especialistas com um mínimo de comprometimento com a ciência e a razão afirmam é que, não havendo vacina ou qualquer antiviral eficaz, a única maneira de enfrentar a pandemia é o isolamento. Mas a própria estrutura do capitalismo inviabiliza isso porque somente uma porcentagem ínfima no topo da pirâmide é capaz de se proteger desse modo. Além do mais, temos uma das burguesias mais estúpidas do planeta (de que Bolsonaro e Doria são legítimos representantes), incapaz de ver seus interesses estruturais de classe. Se conseguisse raciocinar além do balanço mensal, os danos teriam sido atenuados. Além disso, 40 anos de hegemonia neoliberal deixaram marcas na ideia de consciência social e de solidariedade, transformando cada vez mais os indivíduos em mônadas dobradas sobre si mesmas. De qualquer forma, o capitalismo será sempre incompatível com a totalidade e com a ideia de uma humanidade em que todos possam ser igualmente protegidos por direitos.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita

A culpa não é do morcego. É do capitalismo. Comecei com Rousseau e termino com Rousseau, citado por Marx em Sobre a questão judaica (1844): “quem se propõe a tarefa de instituir um povo deve transformar a natureza humana (quer dizer, o homem em seu estado natural) de um todo perfeito e solitário a parte de um todo maior, de substituir a existência física e independente por uma existência parcial e moral. Deve ser despojado de suas próprias forças para que receba outras, que lhe são estranhas e das quais só possa fazer uso com a ajuda de outros homens”.

Substituir a “existência física” por uma “existência moral” expressa em outras palavras que o mercado não é sociedade. Quando a “existência física” deriva para a loucura moral, passamos para o fascismo, a forma mais perversa de capitalismo. É o capitalismo, com eventuais derivações fascistas, que está nos matando. Não o morcego.

MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

Desigualdade: Monitoramento de aplicativo escancara política de morte pelo coronavírus em localidades pobres do Rio de Janeiro

A roleta da morte. Morrer de fome ou de Coronavirus?
Pandemia agrava fome nas favelas e o Brasil tem 51% de domicílios em áreas adensadas. Em 48% dos domicílios vivem entre 4 a 7 pessoas, enquanto a Pandemia agrava fome nas favelas.

O aplicativo Covid por CEP, criado pelo urbanista Thales Mesentier, foi colocado no ar este mês. A ideia é ajudar no combate à pandemia a partir de dados georreferenciados, oferecendo visualização espacial dos casos da doença na cidade do Rio de Janeiro, de acordo com o código de endereçamento postal. É possível realizar a busca por CEP específico ou navegar pela cidade clicando nos círculos do mapa, que tem cores correspondentes ao número de casos, indicando ainda se houve óbito na localidade.

De acordo com o aplicativo, os dados mostram uma maior concentração dos casos de Covid-19 nas regiões mais ricas da cidade. Porém, em contrapartida, nas regiões mais pobres, sobretudo na Zona Oeste, a taxa de letalidade pelo vírus é muito maior que a média do estado, uma das maiores do país.

Ainda segundo o aplicativo, em toda a capital, os endereços com maior número de mortes em decorrência da infecção por coronavírus são a Rua do Amparo, em Rio das Pedras; Rua São Miguel, na Tijuca; a Estrada dos Caboclos, em Campo Grande; e a Rua Nilópolis, em Realengo. Não podemos nos esquecer que toda a população do Morro do Borel utiliza como código postal o endereço situado na Rua São Miguel, número 500 e que, portanto, os dados devem refletir a realidade da comunidade moradora da favela. A ferramenta mostra que o CEP 20530-420, que corresponde à região, já teve 83 casos, sendo 75 recuperados, 8 óbitos e nenhum caso ativo até o momento.

Os dados do CoronaZap, um sistema de monitoramento colocado em prática por moradores do Borel por meio do WhatsApp, revelam que foram registrados 16 casos na comunidade, sendo 2 confirmados e 14 suspeitos, no período de março a abril deste ano.

É evidente que o número tende a ser muito maior, devido à falta de testes. Ainda assim, os números divulgados não foram contabilizados pelo poder público de maneira particular para o território, isto é, havendo um agrupamento dos casos para o bairro da Tijuca. A falta de uma política de notificação específica e transparente de casos em favelas, aliada à ausência do Estado com políticas públicas plenas para minimizar os impactos da doença nesses territórios, interferem diretamente no comportamento dos moradores em relação às medidas de proteção e segurança contra a Covid-19.

É impossível não se estarrecer com esses dados. É evidente que a pandemia realçou as profundas desigualdades do país, mas poucas coisas denunciam a prática da política de morte quanto o cruzamento dos dados do Covid por CEP, com os dados apresentados pela Rede de Observatórios da Segurança.

Muito se tem falado sobre necropolítica e em como Achille Mbembe avança, nos componentes racial e colonial, a análise da biopolítica de Foucault, para quem o biopoder funciona a partir da divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer. Para o filósofo camaronês, em nosso mundo contemporâneo, as armas são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar formas únicas e novas de existência social nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de mortos vivos.

Favelas e o coronavírus (Free-Photos/Pixabay)

A política sanitária adotada pelo poder público nos territórios de favelas e periferias – onde saneamento básico, água potável, atendimento de saúde, entre outros serviços, são precários – evidencia o “deixar morrer” necropolítico, resultando em altos índices de letalidade da infecção por coronavírus em favelas e bairros da Zona Norte e Zona Oeste, longe dos hospitais de campanha montados no Centro e na Zona Sul da cidade, bem como da ampla cobertura da rede privada de saúde e do acesso a testes para diagnóstico da Covid-19.

Da mesma maneira, o aumento do uso da força letal por parte das polícias do Rio de Janeiro em relação ao ano anterior, especialmente em abril e maio, em meio à pandemia e algumas vezes, inclusive, durante ações humanitárias, concretiza a face do “fazer morrer” fruto da política de controle dos corpos por meio da morte.

Vale lembrar que a escalada de mortes decorrentes de intervenção de agente do Estado, durante operações policiais, somente decresceram em junho por imposição judicial em virtude da decisão liminar no bojo da ADPF 635 – Favelas pela Vida, que proibiu ações injustificadas enquanto durar a pandemia.

A maior parte das vítimas fatais da Covid-19 é negra, pobre, de origem periférica ou favelada – estudo liderado pela PUC-Rio mostra que pretos e pardos com baixo índice de escolaridade morrem quatro vezes mais.

Já uma análise da Agência Pública aponta que de cada três negros internados por Covid-19 um morre, a proporção entre brancos é 4,4 internados. Isso diz muito a respeito da situação da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, e do enorme desafio em transformar cotidianamente luto em luta para mudar essa realidade de extrema desigualdade social.


Mônica Francisco é presidente da Comissão de Trabalho Legislação Social e Seguridade Social e vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Alerj.

No Brasil, mais de 34 milhões de casas não têm acesso à rede de esgoto

O número representa 49,2% das casas brasileiras. Além da falta de acesso à rede esgoto, dados do IBGE mostram que 9,6 milhões de domicílios não têm acesso ao abastecimento de água.


Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 34,1 milhões de domicílios no país, o equivalente a 49,2% do total, não têm acesso ao esgotamento sanitário por rede, e mais de 2,2 mil municípios (39,7%) não contavam com esse serviço em 2017. Os dados foram divulgados na última quarta-feira (22/07).

Apesar da defasagem de três anos, o balanço da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico reflete a realidade atual do saneamento básico no Brasil, uma vez que o setor não recebeu os investimentos necessários para mudar o cenário neste período.

O levantamento revela também que 9,6 milhões de domicílios não tinham acesso ao abastecimento de água por rede, mesmo com o percentual de municípios beneficiados pelo serviço chegando a 99,6% – representando 5.548 cidades do total em 2017.

A pesquisa divulgada pelo IBGE mostra que apenas 3,1% das entidades que faziam o tratamento de esgoto no Brasil eram privadas. O número era ainda menor em 2008, último ano da pesquisa, com 2,1%.

No entanto, o novo marco regulatório do saneamento básico, sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) neste mês, pretende estimular a participação da iniciativa provada no setor.

O marco tem como previsão chegar a 90% dos domicílios com esgotamento e 99% com abastecimento de água até 2033, três anos após os prazos da Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU, que também tratam da questão do saneamento básico.

Para efeito de comparação, em 2008, 57,1% dos municípios tinham a prefeitura como única ou uma das entidades executadoras. Esse índice caiu para 46,2% em 2017. Nesse período, a participação das companhias estaduais passou de 32,4% para 41,6%.

Em relação ao tratamento de água, o levantamento indica que 3,6% das entidades responsáveis pelo serviço eram do setor privado, uma proporção menor comparada a 2008, com 4,5%. Já as companhias estaduais ficavam com 69,5% dos trabalhos, e as municipais com 10,3%.

Quando se trata da cobrança de tarifa pelos serviços de saneamento básico, 91,9% dos municípios com rede de abastecimento de água cobravam tarifa pelo serviço, enquanto 61,1% tinham tarifa de esgotamento sanitário.

Os subsídios, usados como instrumentos econômicos de política social para garantir a universalização do acesso ao saneamento básico, estavam presentes em 72,6% das cidades com abastecimento de água e 67,8% das que registravam o esgotamento sanitário.

Na região Norte do país, em relação a ambos os serviços, apenas 40% das localidades apresentavam esse instrumento de política social. Já na região Nordeste, 79,2% dos municípios tinham subsídio para serviços de abastecimento de água, enquanto no Sul a proporção era de 79,3% das cidades com rede de esgoto.

Por: Mariana Lima
Fontes: Folha de S. Paulo e Agência IBGE Notícias