Quando o vírus nos trancou em casa, as telas nos deixaram sem casa

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, me deixa fisicamente enjoada.

Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam num canto da tela, me deixa tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de Ano-Novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.

A maioria dos que tiveram a chance de ficar entre paredes durante a maior parte do ano para se proteger do vírus vive, como eu, uma experiência inédita na trajetória humana: a de estar 24 horas dentro de casa e, ao mesmo tempo, não ter nenhuma casa. A pandemia nos levou ao paradoxo de nos descobrirmos sem teto debaixo de um teto. Mais do que sem teto, nos descobrimos sem porta. Sem porta, não há chave para nenhum entendimento.

Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir da sua casa, são privilegiados num planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta pelos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.

Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil —e, em menor escala, da maioria dos países do planeta— impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, nos sentir sem casa é uma experiência bem concreta.

O que é uma casa?

O que é uma casa? Essa pergunta entrou na minha vida de jornalista junto com a imposição de Belo Monte ao rio Xingu e aos seus povos. Para os ribeirinhos expulsos de ilhas e da beira do rio para a construção da hidrelétrica, casa era uma ideia concretizada a partir de uma experiência de viver e de ser floresta. Para os funcionários da Norte Energia SA, a empresa concessionária da usina e outras terceirizadas a seu serviço, assim como para os advogados que consumavam a “negociação” em que nunca se negociou nada, porque tudo foi imposto, casa era algo referenciado na experiência de viver em cidades do centro-sul do Brasil.

Como quem detinha – e detém – o poder era a empresa, o valor da indenização e de outras compensações foi determinado à revelia da experiência cultural e também objetiva de quem vivia um conceito expandido do que é uma casa, um conceito arquitetônico diverso do que é uma casa, um outro tipo de material para criar uma casa. Enfim, para quem vivia uma experiência inteiramente diversa de fazer casa que foi esmagada pelos tecnocratas. Não apenas por ignorância, mas porque, ao ter o poder de determinar que o que era casa não era casa, ou que o que era casa não era uma boa casa, o valor monetário da indenização e também as compensações seriam muito mais baixos ou, em alguns casos, inexistente.

Testemunhar essa violência implantou a questão do que é casa definitivamente na minha cabeça, e eu a expandi para outros territórios objetivos e, principalmente, subjetivos. Em minha experiência como jornalista, já escrevi reportagens sobre um homem que fez uma casa dentro de uma grande árvore, em plena zona urbana de Porto Alegre. Já contei de uma família que fez casa embaixo de um viaduto, convertendo o cotidiano numa experiência onde cabia preparar o café da manhã, arrumar e levar os filhos para a escola todos os dias para garantir que tivessem educação formal. Já testemunhei o que se tornou uma das reportagens mais impactantes da minha vida, na qual um grupo de crianças de rua fez casa nos esgotos da cidade. Chamavam a si mesmos de Tartatugas Ninja, como no filme que então estreava nos cinemas.

Conheci também experiências diversas de casa com diferentes povos indígenas. Algumas coletivas, como a dos Yanomami, outras unidades familiares, sendo que também aí há diferentes entendimentos sobre qual é a teia de relações que constitui o que cada etnia chama de família. As humanidades são variadas e experimentam diferentes formas de tecer relação com a natureza. Ou, no caso da minoria branca e dominante —essa que chama sua experiência de civilização e equivocadamente a considera universal ou até mesmo superior—, romper com a natureza.

Andando pelos tantos Brasis em busca de histórias para contar, vi as pessoas inventarem todo o tipo de casa, até as invisíveis, quando é necessário fantasiar paredes nas esquinas movimentadas de cidades gigantes como São Paulo, para fazer limite simbólico entre a família e o mundo sempre ameaçador para os que pouco têm além do próprio corpo. E, claro, já entrei em mansões e também em palácios. Parte do encanto de ser jornalista é a possibilidade de ter acesso a lugares aos quais jamais teríamos em outras profissões.

Apesar da diversidade de experiências, há algo comum a essas tantas construções do que é uma casa, algo para além das diferenças de tamanho, de material, de arquitetura, de contexto e de geografia. É a ideia da casa como o lugar onde cada um faz seu espaço próprio, o lugar que cada um reserva para si ou para a família ou para o grupo. É a ideia da casa como refúgio. É a ideia da casa como proteção contra chuva e contra sol excessivo, contra animais que podem querer nos converter em jantar, contra aqueles que não conhecemos e por isso não sabemos se querem ou não nos fazer mal. É a ideia da casa como espaço de abrigo e de descanso, como um mundo dentro do mundo onde fazemos aquilo que é mais importante, como nos alimentar, nos reproduzir e amar.

Se há ‘office’, não há ‘home’

Quando a casa deixa de representar esse conjunto de significados, não importa a forma que ela tenha, há um distúrbio. Pode ser porque o abusador mora nela —seja ele o pai, um padrasto ou um tio que molesta, seja um marido ou companheiro violento. E então a casa já não garante mais segurança, proteção e abrigo. Seja porque a casa foi invadida e saqueada, seja porque algo violentamente disruptivo aconteceu desde dentro e a casa passa a guardar uma memória com a qual temos dificuldade de lidar. A casa então já não pode mais ser refúgio. A casa então se descasa, porque sozinhos ou acompanhados somos, de qualquer modo, casados, no sentido de que fizemos casa. E fazer casa é preciso.

Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.

Quando o trabalho invade a casa no modo 24(horas)X7(dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso dos moradores de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, dar limite. No modo pandêmico, ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas —todas as telas— desde dentro.

Essas muitas portas e fechaduras que se multiplicaram para supostamente nos manter seguros só são capazes de botar algum limite nos assaltantes clássicos. Hoje, porém, há outro tipo de assaltante, que pode nos roubar algo muito mais importante, até mesmo insubstituível e seguidamente irrecuperável do que bens materiais. A invasão contemporânea é aquela que nos rouba o tempo e sequestra o espaço da vivência dos afetos, da intimidade, dos prazeres e das subjetividades. Tempo no sentido definido pelo grande pensador Antônio Cândido (1918-2017), tempo como o tecido das nossas vidas, como tudo o que temos, como algo não monetizável. Esse assalto, a médio e longo prazo, pode provocar muito mais estragos no corpo-mente de cada um do que o que convencionamos chamar de assalto.

A tecnologia, e de forma totalmente transtornante e veloz, a Internet, já haviam nos tirado de casa quando em casa. Talvez o primeiro ataque tenha sido o telefone, mas lembro que não era educado telefonar para a casa das pessoas depois de certa hora da noite, em geral cedo, e antes de certa hora da manhã, tampouco na hora das refeições, que costumavam ser feitas na mesma hora em todas as casas. E jamais um chefe ligaria para a casa de um subordinado no fim de semana ou feriado se não fosse literalmente um caso de vida e morte. Mesmo no jornalismo, só éramos perturbados na nossa folga se literalmente caísse um avião ou houvesse um massacre em algum lugar que exigisse uma viagem imediata. E, ainda assim, com um pedido de desculpas por perturbar nossa privacidade e interromper nosso descanso logo na introdução.

A Internet mudou as convenções sociais muito rapidamente, antes que a maioria sequer pudesse compreender a Internet e antes que mesmo seus criadores fossem capazes de entender seu impacto. A Internet, como quase tudo, se fez e se faz na própria experiência. Assim como as pessoas acham que podem escrever nas redes sociais o que lhes vêm a cabeça, sem filtros ou freios, apenas porque o outro supostamente estaria à sua disposição ou, com frequência, seria seu saco de pancada, também se tornou corriqueiro mandar mensagens de WhatsApp a qualquer hora ou por qualquer motivo ou mesmo sem motivo algum. Ninguém enviaria 10 cartas para alguém no mesmo dia, mas quase todos acreditam ser perfeitamente “normal” enviar mensagens e memes e vídeos e links numa só manhã, confundindo poder com dever.

Essa é justamente uma época em que, dos cidadãos aos governantes, todos acreditam que, porque podem, devem. Ou, mais provável, o questionamento sobre dever ou não fazer ou dizer algo foi deletado e, assim, o único verbo a ser exercitado é o “poder”. O tempo da Internet, que é o tempo da velocidade, eliminou para muitos a etapa obrigatória da reflexão. Estamos todos pagando um preço altíssimo por essa mudança brusca e ainda subdimensionada que encolheu ou mesmo eliminou o tempo dedicado à ponderação antes da ação ou reação. Seu impacto é a corrosão de todas as relações, a começar pelos governantes, que passaram a se comunicar pelas redes sociais, conectados diretamente com seus eleitores, em alguns casos com seus fiéis, mas desconectados do ato de responsabilidade que é governar.

Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre vida privada e profissional, o devoramento do tempo, e com ele, a corrosão da vida, já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.

Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais. A vida foi transtornada com maior rapidez do que no acontecimento da Internet. Ainda que veloz, a internet foi ao menos progressivamente veloz. Já o home office se impôs literalmente da noite para o dia, determinado pelas necessidades de quarentena ou lockdown. E, para muitos, com o home office do companheiro ou companheira e também com as crianças sem escola.

As crianças, por sua vez, foram convocadas a compreender o incompreensível: que a casa deixou de ser casa para se tornar o lugar de trabalho onde os pais se tornam ainda menos acessíveis e, por todas as razões, com menos paciência e disponibilidade. Os pais estão totalmente presentes e, ao mesmo tempo, quase que totalmente ausentes. Quase que inteiramente em outro lugar, mesmo que inteiramente dentro de casa. Os impactos dessa experiência sobre as crianças de todas as idades estão sendo muito mal dimensionados. É muito difícil para as famílias cuidarem de algo que os pais nem sequer entendem e com o qual também sofrem muito. Também os pais sentem que lhes faltam ferramentas para lidar com a casa transtornada pela pandemia.

Sintomas de “descasamento”

Acompanhando minha própria experiência, assim como a de amigos e conhecidos, percebi que, no início, ficar em casa foi bem interessante. O álibi perfeito para quem já não suportava mais viajar e correr de um lado para o outro, de um mundo pro outro. Para quem vive em cidades grandes, o deslocamento para o trabalho costuma ser estressante, custoso e demorado. Assim, as pessoas acreditaram que, de imediato, ganhariam no mínimo uma hora a mais de tempo para si. Muitos se iludiram que leriam todos os livros empilhados na cabeceira e finalmente ficariam atualizados com os filmes e séries. Trabalhar de pijama ou moletom também soou confortável. A casa oferecia ainda o bônus de manter longe colegas de trabalho chatos e chefes abusivos.

Muita gente já dizia que não voltaria mais ao escritório ou ao consultório ou para o que fosse porque estava provado que era possível e melhor trabalhar de casa. Principalmente, várias empresas começaram a fazer as contas de quanto poderiam economizar quando cada funcionário virasse uma ilha em caráter definitivo. Muitas dessas empresas, inclusive, pouco dispostas a pagar os custos dessa ilha que é, afinal, a casa da pessoa. Defendem, portanto, que deveria ser problema de cada indivíduo pagar as contas de luz, internet etc., mesmo que os custos tenham aumentado pelas necessidades profissionais de uso.

E então começou o império do Big Brother, e a rotina passou a ser determinada pelo agoniante, às vezes enlouquecedor, ruído das mensagens entrando pelo Whatasapp ou dos e-mails se enfileirando na tela. Claro, se pode “emudecer” o som das mensagens, mas quem vai emudecer o chefe, o fornecedor, o fulano que ficou de dar notícias sobre prazos, o sicrano que vai enviar informações importantes, o beltrano que precisa de documentos? As horas foram invadidas além de qualquer precedente. Como emudecer ou mesmo desligar os celulares na hora de dormir se pessoas queridas estão sozinhas no meio de uma pandemia e podem precisar de ajuda a qualquer momento?

Se antes era impossível marcar um número muito grande de reuniões por dia, porque havia o tempo do deslocamento, agora as pessoas estão em casa. Tornou-se possível triplicar o número de encontros (ou desencontros), às vezes sem hora para acabar. As lives e os meetings, que permitiram que o mundo se conectasse para traçar estratégias para enfrentar a pandemia, fazer vaquinhas de solidariedade ou apenas conversar, se tornaram fáceis demais e por isso mesmo excessivos demais. Todos querem fazer meetings e lives por qualquer motivo. Tudo vira imediatamente performance. As horas que se acreditava liberar ao eliminar o tempo de deslocamento entre o trabalho e a casa foram engolidas… pelo trabalho. E outras que não estavam lá foram adicionadas. A desculpa social de “não vou estar em casa” ou “dei uma saidinha” desapareceu. Todos agora sabem onde cada um está. Em casa.

Essa foi a sequência alucinante de acontecimentos que pedalaram a porta da casa. Sem porta, logo a casa deixou de ter paredes e, sem paredes já não fazia mais sentido nenhuma estrutura. Nos tornamos sem porta e com janelas demais, mas um tipo de janelas pelo avesso, na qual somos observados desde dentro, em vez de contemplar o exterior. Reproduzimos a experiência excruciante dos animais confinados em zoológicos, criados em cativeiro.

A tecnologia que nos uniu, essencial para enfrentar essa pandemia, também nos escravizou. Não importa onde estivermos, as telas nos acompanham. No bolso, na bolsa, na mão, no pulso. Os mais sensíveis sentiram primeiro e sofreram mais. Uma amiga passou a não enxergar o que estava na tela. Ou melhor, enxergava, mas um borrão. Nenhuma doença foi constatada. Os relatos em geral apontavam sintomas que impossibilitavam seguir diante da tela. Há pessoas com enxaquecas que nunca antes haviam tido enxaquecas. Gente que se orgulhava de dormir como um cadáver que passou a ter insônia ou sono interrompido. Eu mesma passei a sentir enjoo diante da tela, mas enjoo seletivo. Reuniões de trabalho e meetings com muita gente me provocam náuseas, mesmo quando adoro todos que estão na tela.

Me sinto um corpo que não suporta mais tanta exposição. Minha capacidade subjetiva ainda não encontrou caminhos para criar paredes e portas na minha mente, fazer um refúgio onde não há nenhum, fazer de mim a casa que perdi. Tudo e todos entram casa adentro, na hora que bem entendem, pela tela do computador, pela tela do celular, pela tela do tablet. Informações que não pedi, vídeos que não me preparei para ver, comentários que preferia não ouvir. Gente desconhecida de repente está na minha sala ou mesmo na minha cama. E já não é mais tão fácil desligar todas essas telas porque o trabalho depende delas, as informações que eu realmente preciso dependem delas, a certeza do bem-estar de pessoas que amo e que fazem quarentena sozinhas dependem delas, a vida social depende delas. Nunca socializei tanto quanto nessa pandemia e não sou exatamente alguém que gosta de conversar o tempo todo. Sinto falta de estar realmente sozinha, de estar realmente em silêncio, de estar realmente no meu tempo e no meu ritmo.

Uma porta para importar o que importa

Esses sentimentos e sintomas, porém, são apenas a barbatana que desponta acima da superfície. Abaixo dela, há um tubarão inteiro. Obcecados por planejar a volta de algo que andam chamando de “normal”, esquecemos de olhar para a profundidade da transformação que nossa vida está sofrendo. Somos resultado, como espécie, de um longo processo de evolução e de adaptação, pelo menos dois milhões de anos desde o Homo erectus. Mas, como humanos contemporâneos, nossa existência sofreu uma brutal transformação com a internet e, em 2020, com a primeira pandemia na época das telas.

Nosso corpo não processa uma mudança tão monumental em tão pouco tempo. Desde que o novo coronavírus apareceu, a principal preocupação dos vários setores da sociedade é com os custos financeiros da pandemia. É urgente falar muito mais dos custos psicológicos, das crianças que só conhecem paredes e têm medo de outras crianças porque aprenderam que são ameaças, dos velhos confinados em solidão, dos adultos submetidos a uma pressão inédita e a um nível de convivência também inédito. Esse custo é alto e suas sequelas poderão durar uma vida.

Tratamos a pandemia como uma anomalia, mas a real anomalia é o mundo que criamos dentro do mundo. Ou melhor: o mundo que a minoria dominante dos humanos criou dentro do mundo, submetendo todos os outros, subjugando a maioria. O custo desse mundo ameaça nossa existência no planeta, isso que chamamos crise climática. A pandemia é consequência da corrosão da vida causada pelo capitalismo neoliberal, ao destruir o habitat de outras espécies, e pelo modo de produção em que as mercadorias circulam ampla e velozmente pelo globo, assim como muitos de nós a bordo de aviões altamente poluentes.

A segunda onda de covid-19 mostrou que anomalia produz anomalia. Nosso modo de vida é insustentável, o que fizemos com as outras espécies agora pode nos matar. É uma fantasia perigosa acreditar que é possível voltar à anomalia que chamamos de normal e seguir tocando a vida como se cada ato não tivesse consequências em cadeia.

Em 2020, perdemos definitivamente a casa. Que, além de perder a porta, se tornou também uma prisão, a pior espécie de prisão, aquela que foi criada pelos nossos atos. E o que é uma prisão senão um lugar em que estamos confinados mas não temos privacidade, em que somos acessados a qualquer hora, em que cada gesto é controlado e monitorado, onde as visitas são reguladas e não pode haver toque? O que é uma prisão senão um lugar em que não temos escolha sobre o que pode ou não entrar? Um lugar em que estamos a mercê de todas as outras forças?

Do lado de fora, nas ruas, há três tipos de experiências. A daqueles a quem foi arrancado o direito fundamental de se proteger, porque seu trabalho não pode ser feito em casa e os empregadores e o Estado não os bancam. A daqueles que fazem serviços essenciais, como os profissionais de saúde. E a da maioria de pessoas, que poderia fazer quarentena mas não faz, porque não se importa com a vida de todos os outros, e assim contribui de forma decisiva para a ampliação da contaminação e pelo maior número de vítimas. Esse grupo numeroso de boçais é cínico a ponto de empunhar a bandeira da liberdade, conceito que corrompem ao convertê-lo em liberdade de matar.

Para enfrentar a pandemia é preciso enfrentar a emergência climática e estancar a extinção das espécies. Para enfrentar a emergência climática e estancar a extinção das espécies teremos que criar muito rapidamente uma vida realmente sustentável. Para criar uma vida realmente sustentável temos que nos tornar outro tipo de gente.

Diante da magnitude do desafio, podemos começar organizando a casa. Para organizar a casa é preciso recuperar a casa, essa que é refúgio. E então parar de destruir a casa comum que é o planeta. Não é coincidência que no momento em que enfrentamos as consequências da destruição de nossa casa comum também enfrentamos a experiência subjetiva de perder a possibilidade de fazer casa da casa. É o mesmo nó. Para sair dele, precisamos recuperar a porta, e com ela a possibilidade de voltar a importar —colocar para dentro, deixar entrar— apenas o que realmente importa. A porta da casa é a única saída.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de ‘Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro’

“A degradação humana causada pela tecnologia excedeu alguns limites importantes”

A tecnologia está nos tornando seres humanos piores?

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De tanto discutir sobre quando a tecnologia iria exceder nossas capacidades, perdemos de vista o fato de que as máquinas estavam se concentrando em conhecer nossos pontos fracos.

É a base que sustenta um conceito que ressoa no Vale do Silício e é conhecido como desclassificação humana, “degradação humana” em espanhol.

Foi cunhado pelo cientista da computação Tristan Harris e seu parceiro Randima (Randy) Fernando, co-fundadores do Center for Humane Technology (CHT), uma organização sem fins lucrativos cuja missão é “reverter a degradação humana” e ” realinhar a tecnologia com a nossa humanidade. ”

No recente documentário da Netflix O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) Harris e Fernando expõem essa questão, intimamente ligada à chamada “economia da atenção”, ou como as empresas monetizam nossa atenção por meio das redes sociais e outras tecnologias digitais.

Fernando, diretor executivo do CHT, acredita que a tecnologia deve ser “mais humana”. Nesta entrevista à BBC Mundo ele explica o porquê. GettyImages

Como surgiu o seu interesse pela economia da atenção e por que isso é importante para você?

Meus pais me ensinaram mindfulness (meditação baseada em mindfulness) e tecnologia desde muito jovem, então segui esse caminho. Fiquei muito interessado em computação gráfica e trabalhei na Nvidia (multinacional do Vale do Silício) por sete anos. Então, ajudei a fundar uma organização chamada Mindful Schools para ensinar mindfulness nas escolas.

“O dilema das redes sociais”: 5 segredos dos donos das redes para nos manipular, segundo documentário da Netflix
Eu fiz isso por um tempo até encontrar Tristan [Harris].

Ambos estávamos muito interessados ​​em midfulness. Começamos a perceber que éramos contra a forma como a economia da atenção compete constantemente para treinar nossas mentes de maneira diferente.

A economia da atenção é adversária da atenção plena.

É muito fácil para as empresas criar perfis sobre nós com base nas informações que compartilhamos nas redes sociais, e elas compartilham essas informações com os anunciantes. Este modelo de negócio torna a nossa atenção vital e também não se baseia nos nossos interesses, mas nos dos anunciantes.

Marta Peirano e a economia da atenção: “Estamos menos felizes e menos produtivos do que nunca porque somos viciados”
Decidimos que era melhor criar uma organização para gerenciar o crescente interesse pelo tópico (especialmente porque Harris falou sobre isso em um programa de televisão nacional em 2017) e tentar resolver o problema.

Três anos depois, ainda estamos nisso.

Para resolver o problema, você propõe “reverter a degradação humana”. Que significa isso?

Muito do trabalho que fazemos tem a ver com a mente, com vícios e como combatê-los; com meditação e bem-estar emocional. Também com democracia e polarização, com a distorção da verdade. Todas essas questões estão inter-relacionadas e ligadas à “degradação humana”.

Nós o descrevemos como algo cíclico: à medida que melhoramos e atualizamos nossas máquinas, degradamos seres humanos. E deveria ter sido o contrário. Isso é algo que se repete constantemente.

Por muito tempo, ficamos muito empolgados com todas as melhorias tecnológicas, mas investimos tanto esforço e energia no avanço da tecnologia – que nos beneficiou tanto por décadas – que não prestamos atenção suficiente às mudanças que estavam ocorrendo em nosso cérebro.

“Os ‘nativos digitais’ são os primeiros filhos com um QI inferior ao dos pais”
A certa altura, ficamos vulneráveis ​​a ela porque a tecnologia pode ser usada para tirar proveito de nossas fraquezas.

O que mudou nos últimos anos para trazer essa questão para a mesa dentro e fora do Vale do Silício?

A “degradação humana” ultrapassou alguns limites importantes, então agora começa a nos preocupar.

Estamos cientes de como as notificações tentam “sequestrar” nossa atenção. Se os designers usarem isso a seu favor, eles podem nos fazer gastar mais tempo em seus produtos, atraindo nossa atenção para que percebamos certos elementos por meio de coisas como o brilho da tela e outros pequenos “truques”.

E não sabemos mais o que é real e o que não é. Deepfakes (vídeos com pessoas aparentemente reais modificadas com inteligência artificial) são um bom exemplo disso.

ROB LEVER / GETTY IMAGES
Deepfakes são um exemplo de como a tecnologia pode nos degradar: não podemos diferenciar entre o que é real e o que não é.

A mente humana é limitada. É maravilhoso em muitos aspectos, mas tem pontos fracos. Agora que sabemos que a tecnologia cruzou essa barreira, nosso entusiasmo diminuiu porque é algo que não podemos mais controlar.

No entanto, as forças de mercado continuaram a usar novas tecnologias em seu benefício para aumentar as vendas. Os analistas ficam fascinados por encontrar novas maneiras de usar a tecnologia a seu favor e transformar essas tendências em dinheiro. Mas quem pensa nos benefícios não está considerando as consequências.

Isso está acontecendo em todo o mundo e em todos os níveis. Analistas, designers de produtos e governos estão competindo uns com os outros. E no final acaba sendo uma arma muito perigosa. Mas há cada vez mais reações contra isso.

Você o desenha como um sistema perverso. Isso poderia ser previsto de alguma forma?

Sim, claro que foi previsto. E não só: foi procurado também por quem quer explorá-lo a seu favor. Uma parte importante do problema é que aqueles que tentam encontrar soluções geralmente não são os mesmos que criam o problema.

Há pessoas muito competentes falando abertamente sobre o uso da tecnologia há muito tempo, mas aqueles que trabalham com avanços tecnológicos têm outros incentivos e não estão interessados ​​em desacelerar porque muitas vezes significa um desserviço para eles, do qual sua concorrência pode tirar vantagem.

É por isso que resolver este problema é tão complexo. Somado a isso, a “degradação humana” é cíclica.

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A “degradação humana” é cíclica, segundo Fernando.

O que você quer dizer com cíclico?

Quando nossa atenção é interrompida repetidamente, ficamos mais distraídos. Tornamo-nos a pior versão de nós mesmos. A tecnologia nos muda. E isso acontece cada vez mais porque as redes sociais facilitam esse processo.

Quando competimos por atenção – gostos, comentários, compartilhamentos – começamos a “dizer” coisas diferentes, para usar outra linguagem. Postamos fotos que chamam mais a atenção, somos mais radicais ao debater questões políticas … tudo isso beneficia os algoritmos.

ARTUR DEBAT / GETTY IMAGES

Quanto mais eles distraem nossa atenção, mais lucrativos somos para as empresas (e mais vulneráveis ​​à “degradação”).

No final do ciclo, a tecnologia acaba nos mudando e, efetivamente, nos degradando. E quando nos degradamos, ficamos mais vulneráveis ​​no próximo ciclo, porque quando estamos mais distraídos, é mais fácil para um novo ciclo ocorrer.

Acaba sendo uma corrida [de empresas] para chegar ao fundo do nosso tronco cerebral que traz à tona o que há de pior em nós mesmos e que cada vez mais inclui menos pausa, menos reflexão e menos meditação, porque estamos ocupados reagindo o tempo todo.

É fácil sentir-se impotente nesta situação … o que podemos fazer?

Certamente é! É uma parte tão importante da economia … Movimenta trilhões de dólares! Mas podemos atuar em dois níveis: primeiro pessoal e, segundo, coletivo.

O primeiro passo realmente começa nos educando sobre isso. Em um nível pessoal, podemos fazer coisas vitais como limitar notificações, usar menos plataformas digitais, mudar o que mostramos nelas e nossas interações online. Basicamente, entender como estamos sendo manipulados e agir de acordo.

“O dilema das redes sociais” | 3 mudanças para recuperar o controle sobre sua vida nas redes sociais de acordo com Justin Rosenstein, criador do botão “Curtir” no Facebook
Além disso, existe o plano coletivo. Portanto, estamos criando um espaço para permitir que as pessoas expressem suas preocupações. Um por um não fazemos muito, mas todos temos força. Quando nos reunimos, podemos realizar uma mudança real. Isso é muito importante porque a “degradação humana” está nos mudando como sociedade.

A questão é: que mudança queremos promover? Uma das chaves é que o produto que usamos deve ser diferente, deve ter uma codificação diferente. E essa mudança deve ser feita por dentro, mas a pressão de consumidores, investidores, políticos, educadores e tecnólogos pode ajudar.

Temos que mudar as condições do jogo. A tecnologia que divide a sociedade não é tecnologia “humana” porque é prejudicial aos seres humanos.

Em que medida você diria que estamos liderando o caminho para uma tecnologia mais “humana”?

Para ser honesto, estou favoravelmente surpreso com o quão longe chegamos, porque a certa altura pensei que ficaríamos para sempre presos na definição do problema.

IMDB / O DILEMA SOCIAL

O sucesso do documentário “O Dilema das Mídias Sociais” é um exemplo de como a preocupação com o tema aumentou.

Mas agora, e em parte graças à repercussão do [documentário] O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) – que só no primeiro mês (setembro) viu mais de 38 milhões de pessoas – muito mais as pessoas entendem isso.

Felizmente, cada vez mais pessoas estão percebendo como as informações que compartilham nas redes ajudam a economizar atenção. Isto é muito importante.

Uma das coisas mais maravilhosas com que tantas pessoas se preocupam é que podemos realmente nos recompor para lidar com isso. Cada vez mais empresas e países estão agindo e vejo oportunidades de mudança no curto e médio prazo.

Agora temos que continuar divulgando a mensagem para que a tecnologia seja cada vez mais humana e nos permita nos conectarmos melhor, divulgar a verdade e obter a melhor versão de nós mesmos.

 

Os algoritmos que tomam decisões importantes em sua vida

Milhares de estudantes na Inglaterra estão irritados com o uso controverso de um algoritmo para determinar o GCSE e os resultados A-level deste ano.

Eles não puderam fazer os exames devido ao bloqueio, então o algoritmo usou dados sobre os resultados das escolas nos anos anteriores para determinar as notas.

Isso significa que cerca de 40% dos resultados do nível A deste ano ficaram abaixo do previsto, o que tem um grande impacto sobre o que os alunos são capazes de fazer a seguir. Os resultados do GCSE serão divulgados na quinta-feira.

Existem muitos exemplos de algoritmos que tomam grandes decisões sobre nossas vidas, sem que necessariamente saibamos como ou quando o fazem.

Aqui está uma olhada em alguns deles.

Mídia social

De muitas maneiras, as plataformas de mídia social são simplesmente algoritmos gigantes.

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No fundo, eles descobrem no que você está interessado e, em seguida, fornecem mais informações – usando o máximo de pontos de dados que conseguirem.

Cada “gosto”, relógio, clique é armazenado. A maioria dos aplicativos também coleta mais dados de seus hábitos de navegação na web ou dados geográficos. A ideia é prever o conteúdo que você deseja e mantê-lo rolando – e funciona.

E esses mesmos algoritmos que sabem que você gosta de um vídeo de gato fofo também são implantados para vender coisas a você.

Todos os dados que as empresas de mídia social coletam sobre você também podem personalizar anúncios para você de uma maneira incrivelmente precisa.

Mas esses algoritmos podem dar muito errado. Provou-se que eles levam as pessoas a conteúdos odiosos e extremistas. Conteúdo extremo simplesmente faz melhor do que nuances nas redes sociais. E os algoritmos sabem disso.

A própria auditoria de direitos civis do Facebook pediu que a empresa fizesse tudo ao seu alcance para evitar que seu algoritmo “levasse as pessoas a câmaras de eco do extremismo que se auto-reforçam”.

E no mês passado relatamos como algoritmos em sites de varejo online – projetados para descobrir o que você quer comprar – estavam promovendo produtos racistas e odiosos.

Seguro

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Quer se trate de casa, carro, saúde ou qualquer outra forma de seguro, sua seguradora tem que avaliar de alguma forma as chances de algo realmente dar errado.

De muitas maneiras, a indústria de seguros foi pioneira no uso de dados sobre o passado para determinar resultados futuros – essa é a base de todo o setor, de acordo com Timandra Harkness, autora de Big Data: Does Size Matter.

Fazer com que um computador fizesse isso sempre seria o próximo passo lógico.

“Os algoritmos podem afetar muito a sua vida, mas você, como indivíduo, não recebe necessariamente muitas informações”, diz ela.

“Todos nós sabemos que se você muda para um código postal diferente, seu seguro sobe ou desce.

“Não é por sua causa, é porque outras pessoas têm mais ou menos probabilidade de ter sido vítimas de crimes, ou de sofrerem acidentes, ou algo assim.”

Inovações como a “caixa preta”, que pode ser instalada em um carro para monitorar como um indivíduo dirige, ajudaram a reduzir o custo do seguro do carro para motoristas cuidadosos que se encontram em um grupo de alto risco.

Poderíamos ver cotações de seguro mais personalizadas à medida que os algoritmos aprendem mais sobre nossas próprias circunstâncias?

“Em última análise, o objetivo do seguro é dividir o risco – então todos colocam [dinheiro] e as pessoas que precisam o retiram”, diz Timandra.

“Vivemos em um mundo injusto, então qualquer modelo que você fizer será injusto de uma forma ou de outra.”

Cuidados de saúde

A Inteligência Artificial está dando grandes saltos em ser capaz de diagnosticar várias condições e até sugerir caminhos de tratamento.

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Um estudo publicado em janeiro de 2020 sugeriu que um algoritmo teve um desempenho melhor do que os médicos humanos quando se tratou de identificar o câncer de mama em mamografias.

Policiamento

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Big data e aprendizado de máquina têm o potencial de revolucionar o policiamento.

Em teoria, os algoritmos têm o poder de cumprir a promessa da ficção científica de “policiamento preditivo” – usando dados, como onde ocorreu o crime no passado, quando e por quem, para prever onde alocar recursos policiais.

Mas esse método pode criar preconceito algorítmico – e até racismo algorítmico.

“É a mesma situação que você tem com as notas dos exames”, disse Areeq Chowdhury, do think tank de tecnologia WebRoots Democracy.

“Por que você está julgando um indivíduo com base no que outras pessoas fizeram historicamente? As mesmas comunidades estão sempre sobre-representadas”.

No início deste ano, o think tank de defesa e segurança RUSI publicou um relatório sobre policiamento algorítmico.

Levantou preocupações sobre a falta de diretrizes nacionais ou avaliações de impacto. Também exigiu mais pesquisas sobre como esses algoritmos podem exacerbar o racismo.

O reconhecimento facial também – usado pelas forças policiais no Reino Unido, incluindo o Met – também foi criticado.

Por exemplo, tem havido preocupações sobre se os dados que vão para a tecnologia de reconhecimento facial podem tornar o algoritmo racista.

O problema é que as câmeras de reconhecimento facial são mais precisas na identificação de rostos brancos – porque possuem mais dados sobre os rostos brancos.

“A questão é: você está testando isso em um grupo demográfico suficientemente diversificado de pessoas?” Areeq diz.

“O que você não quer é uma situação em que alguns grupos sejam erroneamente identificados como criminosos por causa do algoritmo.”

Redes sociais: Como aprender a discordar sem cair nas garras da cultura do cancelamento

Discordância pública parece ainda mais vetada do que o habitual, mas há algumas fórmulas para fazê-lo sem sair escaldado

Atualmente, entoar uma voz dissonante ao discurso majoritário pode ter um preço muito alto. Um exemplo é James Benett, chefe de Opinião do renomado jornal The New York Times, que pagou com sua cabeça a publicação de um artigo de um senador republicano favorável à utilização de tropas para acabar com as revoltas do movimento Black Lives Matter. E há muitos mais. Tantos que 150 intelectuais, entre os quais estão o filósofo Noam Chomsky e a ativista feminista Gloria Steinem, publicaram uma carta reivindicando o direito a discordar no que chamam de sociedade do cancelamento. Mas como fazê-lo sem acabar submetido a um linchamento nestes tempos?

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”

“A livre troca de informação e ideias está se tornando cada vez mais restrita”, diz a carta publicada na revista Harper’s e continua explicando que a censura está se estendendo em nossa cultura. Cada vez há mais intolerância aos pontos de vista opostos, os que pensam diferente são envergonhados publicamente e o ostracismo aumenta. Algo que “só empobrece o debate público”, necessário – de acordo com os especialistas – para que a sociedade avance.

Sem discordância não há progresso

Para entender a importância de discordar no progresso só é preciso dar uma olhada na ciência, onde o avanço se nutriu graças à existência do debate. “A ciência questiona tudo. É exatamente o contrário ao que acontece em outros aspectos da vida – como a política – em que nos deixamos levar pelo raciocínio emocional”, diz Luis Miller, vice-diretor do Instituto de Políticas e Bens Públicos do CSIC. Definitivamente, tons muito diferentes das discussões do restante dos mortais, que costumam ter ásperas recriminações como diz a carta.

Talvez o foro em que se veja com mais claridade esse problema sejam as redes sociais, onde as consequências podem ir de insultos à perda da reputação e até do trabalho – como aconteceu a Benett –. Mas não é preciso ter um cargo importante em um dos jornais mais importantes do mundo para ser castigado pela justiça popular. “Minha companheira foi assediada por quatro pessoas nas redes sociais por compartilhar uma postagem de apoio às doações de Amancio Ortega à saúde pública”, conta José, um estudante de jornalismo que também se viu pessoalmente fustigado por expressar uma ideia diferente da maioria da classe: “Parece impossível que qualquer debate não ganhe um tom ideológico”.
Ilustração de Angel Boligan

A censura do ego

Como se pode ver, na vida cotidiana e privada de cada um também é possível lidar com frequência com situações em que expressar uma opinião pode desencadear um ácido conflito com um chefe, um companheiro, um amigo e um familiar. A pergunta é: o que incomoda tanto quando existe uma diferença no pensamento? O psicólogo Álvaro Tejedor de Psicologia e Comunicação aponta a um problema de ego: “Quando alguém não valida uma opinião a outra pessoa sente que está em jogo sua aceitação em relação ao grupo ao grupo e a si mesma”. Uma das chaves para evitar ferir a autoestima da outra pessoa e manter o debate vivo, diz o especialista, está na maneira em que se expressa a discrepância. Devemos ser flexíveis, ter empatia ao outro, usar sedução e deixar claro que as ideias expressadas também trazem benefício ao interlocutor.

Anote como fazê-lo: “Utilizar a primeira pessoa do plural quando há um conflito é positivo porque não significa que há um confronto, e sim dá a sensação de que existe uma equipe que tem uma finalidade comum. É um dos melhores recursos”, diz Tejedor, que também recomenda que se deixe muito claro o tempo todo que se entende a visão da outra pessoa e que apesar de discordar é igualmente válida. Além disso, o melhor é procurar sempre um local privado, afirma o especialista. Principalmente, diz, se é uma pessoa com quem existe uma diferença hierárquica (como um chefe). Do exemplo da ciência também é possível aprender estratégias saudáveis de discussão como julgar as ideias por si mesmas e não em função de quem as emite. Também a acostumar-se a receber ideias de diversas fontes, a colocá-las em dúvida e discuti-las, mas sem cancelá-las antes de ter toda a informação.

Em boca fechada não entram conflitos?

Mais uma vez, as redes sociais não ajudam nessa missão. “Os novos canais de comunicação fazem disso cada vez mais difícil porque damos credibilidade à informação tomando como base o número de vezes em que foi compartilhada. Além disso, vivemos dentro das denominadas ‘câmaras de eco’, que fazem com que só escutemos uma determinada versão da história”, afirma o especialista do CSIC, que argumenta que somente sabendo dessas esferas é possível empatizar com o outro, algo que reduz consideravelmente a tensão e o conflito. “Se conseguirmos discutir as ideias em si mesmas e não simplesmente questionar seu emissor, podemos assentar as bases para, pelo menos, poder dialogar entre pessoas que pensam de maneira diferente”, diz.

Dado que nem tudo está em nossas mãos e diante desse clima crescente de censura, é inevitável se perguntar se há momentos em que é melhor deixar de lado o confronto e optar pelo silêncio para evitar um gasto desnecessário de energia.

A resposta depende de cada situação, aponta o psicólogo: “Sempre devemos pensar se a recompensa que obteremos da discussão é suficientemente grande em relação ao tempo e a energia dedicados”, esclarece o psicólogo, que dá como exemplo a clássica discussão política de uma refeição familiar: “Brigar com um cunhado sobre se a política municipal dos parques caninos é adequada ou não, provavelmente não irá melhorar nossa qualidade de vida em nenhum sentido”, afirma o psicólogo, que nesses casos aconselha a evitar a discussão.

Twitter testa mensagens de áudio em tweets de até 140 segundos

O Twitter liberou uma novidade nesta quarta-feira (17) para alguns usuários do iPhone: os tweets de voz permitem gravar áudios e publicá-los diretamente na timeline. Cada mensagem tem limite de 140 segundos e aparece na linha do tempo com a foto de perfil e um reprodutor de mídia.

Twitter permite publicar tweets de voz através do iPhone; app permite publicar mensagens de áudio com até 140 segundos.

Twitter e mensagem de voz

Funciona assim: ao criar um novo tweet no app para iOS, há uma opção com o aviso “Grave o que está acontecendo”. Ao tocar nela, surge uma interface de gravador para criar a mensagem de áudio; basta tocar no botão vermelho de microfone. Por enquanto, não há um recurso nativo para enviar áudios pré-gravados.

A novidade será liberada “nas próximas semanas” para todos os usuários do Twitter no iOS; a rede social não menciona outras plataformas, como Android e web.

Twitter tem limite de 140 segundos para tweets de áudio
Como explica o Twitter, os áudios têm limite de 140 segundos (refletindo o antigo limite de 140 caracteres no Twitter). Você pode gravar mensagens mais longas que isso, mas elas serão cortadas em dois ou mais tweets publicados em sequência.

“Quando você atinge o limite de tempo para um tweet, um novo tweet de voz começa automaticamente a criar uma sequência de mensagens”, diz o Twitter em comunicado.

Twitter e mensagem de voz
O áudio é exibido na timeline com a foto de perfil e a duração. Ao tocar nele, o app para iPhone mostra uma barra na parte inferior para reproduzir e pausar; é possível ouvir tweets de voz com o app em segundo plano.

Na web, no Android e em tweets incorporados (exemplo abaixo), a mensagem aparece no formato tradicional de vídeo:

Vale lembrar que o Periscope, ferramenta de vídeos ao vivo do Twitter, permite incluir convidados para comentar transmissões através de mensagens de voz. Agora, também será possível postar áudios na linha do tempo; só ficou faltando ter esse recurso nas mensagens diretas (DMs), como no Instagram.

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Twitter bane mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China

Segundo a rede social, perfis disseminavam informações falsas para difamar movimento pró-democracia em Hong Kong e espalhar críticas aos EUA e Taiwan.

Contas também publicavam notícias falsas sobre pandemia de covid-19.

Twitter cancelou mais de 170 mil perfis associados a campanhas chinesas de desinformação

O Twitter informou nesta sexta-feira (12/06) que cancelou mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China que propagavam campanhas de desinformação que tinham como alvo o movimento pró-democracia em Hong Kong, além de disseminar propagandas antiamericanas.

Após uma análise realizada juntamente com grupos de pesquisadores, o Twitter disse que desmantelou redes associadas ao governo chinês administradas por um núcleo bastante ativo de 23.750 contas, além de outros 150 mil perfis que funcionavam como “amplificadores” desse conteúdo.

“Eles tuitavam predominantemente no idioma chinês e disseminavam narrativas geopolíticas favoráveis ao Partido Comunista da China, ao mesmo tempo em que empurravam narrativas sobre a dinâmica política em Hong Kong”, afirmou a rede social em sua análise.

O Twitter foi banido na China, assim como as plataformas Youtube, Google, Instagram e Facebook, com a imposição do chamado “Grande Firewall”, que restringe o acesso a sites de notícias e de informação de fora do país. Mesmo assim, diplomatas chineses e a imprensa estatal do país costumam recorrer a esses meios para difundir a narrativa de Pequim.

Além de disseminar a narrativa chinesa sobre os protestos em Hong Kong, os tuítes chineses também espalhavam informações falsas sobre a pandemia de covid-19 e críticas ao governo de Taiwan. Analistas e alguns governos ocidentais já vinham alertando sobre as suspeitas de que a China manipula perfis e contas controladas pelo Estado, disfarçados de usuários normais, para disseminar os pontos de vista do governo e espalhar desinformação.

Um analista do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (Aspi), que estudou os dados antes do anúncio feito pelo Twitter, disse que os perfis chineses lançavam críticas à reação do governo americano aos protestos antirracistas no país, no intuito de “criar uma percepção de equivalência moral com a supressão dos protestos em Hong Kong”.

“Nossa análise mostra que, ao mesmo tempo em que não permite que os cidadãos utilizem o Twitter, o Partido Comunista chinês gosta de utilizá-lo para disseminar propaganda e desinformação internacionalmente”, disse Fergus Hanson, diretor do Aspi.

O especialista observou também que as postagens da rede chinesa eram feitas, na maioria das vezes, durante o horário de expediente no país e nos dias úteis. Esse padrão, segundo Hanson, “demonstra claramente a não autenticidade e a coordenação” da divulgação de informações falsas.

O anúncio do Twitter veio no mesmo dia que o aplicativo Zoom, de conversas em grupo, acatou exigências impostas pelo governo chinês e fechou contas de ativistas pró-democracia dos Estados Unidos e de Hong Kong. A plataforma, que ganhou milhões de novos usuários durante a pandemia do novo coronavírus, foi utilizada para relembrar o massacre promovido pelo regime na Praça da Paz Celestial, em Pequim.

Política – o Baixo Clero e a irresistível ascensão do fascismo de coalizão

Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão.

Por: Luiz C. Checchia é mestre em Ciências Humanas pela USP

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954

A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai, mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.
Fernando Pessoa

A ascensão de Jair Bolsonaro inaugura um novo tempo no Brasil, a ascensão do fascismo. Nossa história é a de país que se desenvolve sob diversas formas de autoritarismo, como ditaduras militares, bonapartismos e Estados de exceção. Nada fora do lugar em uma sociedade moderna por fora e profundamente arcaica abaixo da sua superfície, cuja mentalidade colonial é a alma das relações escravocratas e patriarcais que formam nosso cotidiano.

Para manter a estabilidade dessa sociedade tão desigual e violenta, as classes dominantes têm na desmobilização popular o seu instrumento principal. Isso ocorre graças a um forte aparato ideológico que congrega a grande mídia, um sistema educacional historicamente deficitário, baixos investimentos em ensino e pesquisas acadêmicas e a valorização do entretenimento de massa em detrimento do desenvolvimento cultural popular e crítico. Quando esse aparato ideológico é insuficiente contam com o uso de forças repressivas desproporcionais capazes de lançar sem nenhum tipo de constrangimento spray de pimenta nos olhos de professores e professoras que reivindicam pacificamente aumento de salários ou indefesos estudantes secundaristas cujo crime é pedir educação de qualidade. Sejam quais forem os expedientes de controle de ocasião, a experiência autoritária brasileira fez sua história por meio da constante e quase sempre eficiente desmobilização das massas trabalhadoras.

Todavia, Bolsonaro pavimenta um percurso distinto de nossa experiência, buscando na mobilização popular a força de seu autoritarismo. E essa é uma das especificidades do fascismo: enquanto reprime preventivamente seus opositores, seja por ação de suas milícias ou dos aparatos de Estado, ele atua no sentido de mobilizar o máximo possível o apoio popular, inclusive entre amplos setores das classes trabalhadoras. Isso faz com que diferentemente de uma ditadura militar que se organiza por meio de uma burocracia estatal hierarquizada, o fascismo atue por fora das estruturas de Estado, pressionando-as com passeatas e carreatas, marchas, redes sociais e quaisquer outras formas que expressem sua força política. Por isso a agressividade é uma característica sempre presente nas manifestações de massa do fascismo, pois confere intensidade à essa força, amplifica-a deixando claro que é capaz de ir até os limites mais drásticos no embate de vida e morte contra seus inimigos, sem possibilidades de conciliação nem de capitulação. Temos visto isso desde quando Bolsonaro ainda era um possível pré-candidato, um deputado do “baixo-clero” da Câmara Federal que se tornava afamado pelo Brasil por conta de suas aparições polêmicas em programas televisivos.

Àquele tempo, quando percebeu seu potencial eleitoral e iniciou seu périplo de ponta-a-ponta do país fazendo-se cada vez mais notório, o atual presidente brasileiro começou a aglutinar ao seu redor os setores mais conservadores do país, formando um grupo heterogêneo que reúne desde líderes neopentecostais a frequentadores de clube de tiro passando por militares golpistas, monarquistas, teóricos da conspiração, “coronéis” do Brasil profundo e outros mais. Por onde passava, esse grupo se espalhava e se capilarizava, promovendo mobilizações cada vez mais amplas e mais agressivas contra seus alvos principais: a comunidade LGBT, militantes de esquerda, comunistas e socialistas, mulheres, negros, índios, beneficiários de programas sociais e globalistas (seja lá o que isso signifique). Agrediam e bradavam seus discursos que combinam esquizofrenicamente liberalismo, conservadorismo, cristianismo, anticomunismo e patriotismo.

Mobilização popular

Outra especificidade do fascismo é o fato da ampla mobilização popular que promove ter como motor o medo. Não o medo concreto e real de um perigo iminente, mas outro, fictício, voltado aos inimigos imaginários: no caso brasileiro, coisas como “kit gay” e mamadeira em forma de pênis são os mais bizarros, mas certamente não são os únicos fantasmas criados para assombrar e mobilizar as massas populares. É por isso que o meio propício para que o fascismo germine são as crises políticas e econômicas em contextos de fraqueza tanto da esquerda quanto da direita moderada, que não conseguem dar respostas críveis e suficientes ao momento.

Também não é à toa que a classe média, sobretudo seus extratos mais baixos, são o ponto de irradiação desse sentimento: sem a tradição da solidariedade da classe trabalhadora e sem as reservas econômicas da alta burguesia, a pequena classe média isolada em seu individualismo e valores personalistas sente-se como o segmento mais injustiçado em meio às crises, vendo nos grandes capitalistas e nas organizações de esquerda seus principais inimigos. Isso porque crê que as empresas de grande capital aproveitam-se de sua enorme força econômica para competir de forma agressiva e desigual no mercado sufocando o crescimento dos médios e pequenos empreendimentos; já os partidos e sindicatos aproveitam-se de sua força política para opor-lhes a classe trabalhadora exigindo direitos trabalhistas e melhores salários, diminuindo assim seus lucros.

No entanto, destaca-se ainda que os fascistas mantêm suas armas voltadas a outro alvo preferencial: os políticos. Sejam de esquerda ou de direita, os políticos tradicionais e profissionais seriam os aproveitadores da máquina estatal, inchando os impostos para depois estufar os próprios bolsos de dinheiro público seja legislando em causa própria, desviando verbas ou elaborando arranjos corruptos. Fazem toda sorte de acordo entre si, e todas as críticas que possam tecer uns aos outros são falsas, porque, ao final, sentam-se à mesma mesa para combinarem tramoias e engodos contra o povo. Por isso, embora constituam um dos movimentos políticos dos mais fortes e duradouros do século XX e agora entrando pelo XXI, os fascistas se afirmam “não-políticos”, alguns se dizem mesmo “anti-políticos”, concorrendo aos governos quase como um auto-sacrifício necessário e heroico para acabar com a bandidagem ceifando nas raízes a “velha-política”.

Os políticos não-políticos

A aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é o enlace de políticos da mesma natureza e substância, mas isso não atenua a concorrência entre ambos. (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Em tempos como o nosso, em que a desconfiança na política se torna a tônica, muitos políticos tentam vestir a máscara de “novo”, apresentando-se distantes da “velha-política” e dizendo-se representar a renovação. Partidos de esquerda ou de direita apresentam candidatos de rostos joviais enquanto destacam a força a juventude. Outros, por falta de candidatos jovens optam por novas denominações, e assim velhas agremiações passaram a ostentar novos nomes, de preferência, sem a palavra “partido”. Mas nenhum deles obteve mais sucesso em apresentar-se como “novo” do que Jair Bolsonaro.

A despeito de seus ininterruptos vinte e oitos anos como deputado federal, um dos mais inexpressivos do “baixo-claro”, conseguiu apresentar-se como um inimigo visceral da “velha política”, alguém que estava lá mas sem ser de lá, e justamente por isso conhecia toda a podridão da política nacional sendo o único capaz de vencê-la. O sucesso de Bolsonaro nessa empreitada está no fato de que, embora outros candidatos tentassem se distanciar da “velha política”, eles ainda estavam submersos até o cocuruto nela. Já Bolsonaro verdadeiramente se distanciou dela, afastou-se de seu partido, buscou uma agremiação menor – o Partido Social Liberal –, para ajustar-se à legislação eleitoral, mas manteve-se atuando em conexão crescente, intensa e direta com a população. O desprezo do presidente com arquitetura institucional do Estado brasileiro é de tal monta que se desligou do partido pelo qual se elegeu com o mesmo desapego que nele entrou.

Acontece que a “velha política” é a mais antiga das instituições brasileiras e a principal forma de agir do chamado “baixo-clero” – também chamado de “centrão” –, nome genérico do grupo de parlamentares que integram partidos sem um verdadeiro programa para o país e que se aproveitam de sua presença no parlamento para garantir que o Estado mantenha a manutenção de seus interesses e privilégios. São políticos sem expressividade nacional, verdadeiros coronéis que ainda mantém currais eleitorais em suas regiões, são como os Magalhães na Bahia, Sarneys no Maranhão, ou Calheiros em Alagoas.

O filósofo político Marcos Nobre decifra em seu livro O Imobilismo em Movimento como o “baixo-clero”, a partir do processo de redemocratização do país, passa a utilizar do conjunto de seus votos no parlamento para formar uma “super maioria” com quem qualquer governo precisa negociar para poder governar. A essa prática Nobre dá o nome de pemedemismo, uma cultura política que se perpetua no parlamento nacional – que se reproduz nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais –, a cada nova legislatura. Os atuais parlamentares, eleitos em 2018, constituem a segunda leva de políticos que se elegem com sólido discurso conservador, prometendo a renovação tanto na Câmara Federal quanto no Senado e combater caninamente a corrupção. Segundo publicação da EBC, em 2014 houve renovação superior a 40% na Câmara Federal, já em 2018, esse índice bate recorde que perdurava mais de duas décadas, com renovação de 52% entre os deputados federais. Muita gente acreditou que o país afastaria de vez a prática do pemedebismo e toda a “velha política” graças à combinação entre expurgos de “velhos políticos”, diminuição do número de parlamentares de esquerda e a defesa intransigente de pautas conservadoras nos costumes e liberais na economia. No entanto, a experiência mostrou que a cultura política viciada nos parlamentos brasileiros é bem mais arraigada do que se acreditou e não bastam discursos histriônicos e fantasias conservadoras para pôr fim aos acordos firmados nos cantos escuros dos corredores e nas mensagens trocadas de WhatsApp.Whatsapp,Tecnologia,Redes Sociais,Internet,Privacidade,BlogdoMesquita

Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão. Quando o PSDB surgiu no horizonte político brasileiro, se apresentava como um avanço das forças progressistas brasileiras, seria o partido que nos conduziria para uma experiência social-democrática ilustrada, com políticos experientes e cultos, sendo boa parte deles intelectuais renomados. No entanto, para chegar e se manter no governo tiveram que fechar acordos com o antigo Partido Liberal, hoje DEM, desfigurando de cima a baixo o seu ideário partidário. destino semelhante teve o programa-democrático popular do petismo: embora mirasse a formação de uma democracia com amplos espaços de participação popular via com conselhos, orçamentos participativos, fóruns e conferências nacionais, para alçar o governo e lá se manter o Partido dos Trabalhadores também se aliou ao “baixo-clero” até com mais volúpia e sofreguidão que o antecessor governo tucano, já que, enquanto para o “centrão” o PSDB seria um parente rico e esnobe, o PT se afigura como um penetra na festa que lhe traz presentes caros; mas concluída a entrega dos mimos, o centrão o expulsou do salão como a violência que se faz com qualquer intruso.

Bolsonaro e o baixo-clero

Perdida a força popular por conta da necessária prática do isolamento social, e em franca luta com setores da grande mídia, com o STF e o Congresso Nacional, Bolsonaro passou justamente a buscar o apoio mais improvável: o do “baixo-clero”. A primeira ação pública e de impacto dessa aproximação foi a transmissão ao vivo promovida pelo ex-deputado Roberto Jefferson, no dia 19 de abril passado, e retransmitida em tempo real pelo presidente. Raposa velha da política nacional, responsável pela divulgação e integrante do esquema de corrupção que tornou-se conhecido pelo nome de Mensalão, Jefferson mantém a presidência do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, que conta atualmente 10 Deputados, e 02 senadores e 31 deputados estaduais em 19 estados da União. Em sua transmissão, o ex-deputado fez veemente defesa do presidente, colocou-se à sua disposição, e garante que é momento de “azeitar os revólveres” na defesa do Brasil que emerge graças ao governo bolsonarista.

A situação é mais complexa do que se aparenta e marca um acirramento do bolsonarismo em sua luta pela hegemonia política nacional. Primeiramente, é preciso considerar que ainda que tenha se afastado do congresso quando iniciou sua campanha eleitoral, Bolsonaro é fruto dele, tem seu DNA. Lembremos que as amarras entre Congresso Nacional e presidência é algo que faz parte da engenharia do Estado brasileiro: qualquer presidente que queira governar precisará, em algum momento, ajustar e ajustar-se a essas amarras que só poderiam ser superadas em definitivo por força de um golpe autoritário ou uma revolução popular.

Bolsonaro elegeu-se afirmando que seu governo é de “transição”, seu objetivo primeiro é reconstruir o Estado nacional, e para isso atua em diversas direções de forma mais rápida e intensa que a própria ditadura empresário-militar de 1964-85: Educação, Cultura, Economia, Relações Internacionais e Direitos Humanos, não há um campo da gestão pública que não esteja sendo redefinido na raiz. É claro que ainda há alguma forma de resistência, muito mais de setores da direita que não se sente contemplado em seu governo ou que ainda guardam respeito a alguma forma de institucionalidade democrática. Por isso, talvez as mudanças em curso pelo atual governo não sejam da forma como queira nem no ritmo que deseje, mas esse projeto mantém firme seu curso. Assim sendo, o fascismo de coalizão inaugurado por Bolsonaro pode ser apenas mais uma etapa em seu processo de formação de um novo Estado brasileiro, conservador, militarizado, ultraliberal e com uma casta de altíssimos funcionários públicos privilegiados destacando-se oficiais militares e magistrados. Pode não ser, como apregoam alguns, o seu enfraquecimento e sim, uma maneira de se fortalecer mais. Lembremos que a construção de uma supermaioria no Congresso seja o instrumento necessário para mais profundas mudanças constitucionais, acentuando a desfiguração pela qual padece nossa Constituição, retirando dela alguns mecanismos de proteção e garantias sociais enquanto centraliza o poder na mão da presidência.

Todavia, se essa aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é, por um lado, o enlace de políticos da mesma natureza e substância, ela não necessariamente atenua a concorrência entre ambos. Sendo concorrentes, é evidente que haverá pressões mútuas e o risco de um ser engolido pelo outro: o congresso pode virar o apêndice do bolsonarismo, ou este tornar-se a rainha da Inglaterra de um parlamentarismo branco. Quem devorará e quem será devorado ainda é cedo para se saber. O fato é que o prato principal de ambos continua sendo o povo brasileiro.

Twitter esconde tuíte de Trump por ‘glorificar a violência’

O Twitter ocultou um tweet do presidente Donald Trump de seu perfil, dizendo que ele viola regras sobre a glorificação da violência.

O mesmo aconteceu mais tarde, quando a conta oficial da Casa Branca twittou uma cópia das palavras do presidente.

Ele diz que “o Twitter determinou que pode ser do interesse do público que o Tweet permaneça acessível”.

Esta é a última controvérsia consecutiva entre o Twitter e a Casa Branca.

O presidente dos EUA se encontra em companhia inesperada ao lado de outros líderes mundiais cujos tweets foram censurados. Em fevereiro de 2019, o Twitter removeu um tweet do líder supremo aiatolá Ali Khamenei após parecer ameaçar o autor Salman Rushdie. Também no ano passado, várias contas associadas ao presidente cubano Raul Castro e a membros de seu governo foram suspensas, citando violações de política.

Trump estava twittando sobre a cidade americana de Minneapolis, que passou noites consecutivas de protestos após a morte de um negro sob custódia policial.O presidente disse que “enviaria a Guarda Nacional” e seguiu com um aviso de que “quando a pilhagem começa, o tiroteio começa”.

Esse segundo tweet foi escondido pelo Twitter por “glorificar a violência”.

A política do Twitter de adicionar um aviso a, em vez de excluir, tweets que violam suas regras quando se trata de grandes figuras públicas foi anunciada em meados de 2019. Mas a rede social nunca a usou em Trump – nem apagou nenhum de seus tweets antes.

“Esta é a coisa mais corajosa e arriscada que eu já vi o Twitter – ou qualquer gigante das mídias sociais -“, ​​disse Carl Miller, do Centro de Análise de Mídias Sociais do think tank Demos, sediado no Reino Unido.

“Isso joga combustível de foguete sobre o debate de danos online versus liberdade de expressão. A política de conteúdo online não fica mais incendiária do que isso”.

A mesma publicação permanece inalterada no Facebook, sem nenhum aviso anexado.

Na sexta-feira, o presidente procurou esclarecer os tweets dizendo que era mal interpretado.

“Saques levam a tiros, e é por isso que um homem foi morto a tiros em Minneapolis na noite de quarta-feira – ou veja o que aconteceu em Louisville com 7 pessoas baleadas”, ele twittou.

Sete pessoas foram baleadas em Louisville, Kentucky, em um protesto pela morte de Breonna Taylor, que foi baleada por três policiais brancos em março.

“Não quero que isso aconteça, e é isso que a expressão divulgada na noite passada significa”, escreveu ele.

A medida significa que outros usuários não poderão gostar, responder ou simplesmente retweetar a publicação de Trump, disse o Twitter. No entanto, eles ainda poderão retuí-lo com um comentário anexado.

Em um tópico do Twitter, a rede social afirmou: “Este tweet viola nossas políticas sobre a glorificação da violência com base no contexto histórico da última linha, sua conexão com a violência e o risco de que possa inspirar ações semelhantes hoje”.

O “contexto histórico” é uma referência à frase “quando o saque começa, o tiroteio começa”, cunhado pelo chefe de polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, em referência às suas políticas agressivas de policiamento em bairros negros.

Um relatório posterior apresentado à Comissão Nacional de Causas e Prevenção da Violência descobriu que sua política de “endurecer”, envolvendo “a exibição frequente de espingardas e cães pela polícia de Miami em bairros negros”, contribuiu para um estado de agitação na comunidade negra. até a erupção do motim de Miami em 1968, oito meses depois.

O Twitter disse: “Agimos com o intuito de impedir que outros se inspirassem a cometer atos violentos, mas mantivemos o tweet no Twitter porque é importante que o público ainda possa ver o tweet, dada sua relevância para os assuntos em andamento. de importância pública “.

Horas depois que o aviso foi adicionado, o presidente Trump twittou: “O Twitter não está fazendo nada sobre todas as mentiras e propaganda divulgadas pela China ou pelo Partido Democrata da Esquerda Radical” e alegou que a rede social estava mirando republicanos.

Ele se referiu diretamente a ordem executiva que assinou na noite anterior, com o objetivo de remover algumas das proteções legais dadas às plataformas de mídia social.

No início desta semana, o Twitter usou sua função de verificação de fatos para anexar avisos aos tweets do presidente pela primeira vez. Isso levou o presidente a ameaçar “desligar” as redes sociais por supostamente sufocar a liberdade de expressão.

A ordem executiva assinada por Trump não tem efeito imediato nas redes sociais, no entanto – em vez disso, inicia um processo demorado que pode resultar em mudanças na linha.

Facebook cria órgão independente que decidirá o que seus usuários podem ver

Uma ganhadora do Nobel da Paz, uma ex-primeira-ministra dinamarquesa, um ex-diretor do ‘The Guardian’ e um professor da UERJ estão entre os membros do novo conselho moderadorFacebook,Zuckerberg,Tecnologia,Redes Sociais,Internet,Privacidade

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.

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Facebook amplia restrições de conteúdos políticos no Vietnã e nos EUA

O Facebook anunciou a composição de um novo organismo que moderará conteúdos, uma instância independente à qual os usuários e a própria companhia podem recorrer para tomar decisões sobre publicações que afetam a liberdade de expressão e os direitos humanos.

Mark Zuckerberg, fundador da rede social, anunciou sua intenção de criar uma entidade à margem da estrutura da empresa para moderar os conteúdos mais polêmicos. O resultado é um conselho formado, até o momento, por 20 personalidades de todo o mundo, que selecionará e ponderará sobre os limites globais da liberdade de expressão. Suas decisões serão transparentes e de cumprimento obrigatório para a rede, desde que não entrem em conflito com leis locais. Os conteúdos suscetíveis de serem moderados serão os do Facebook e Instagram. O conselho não terá, ao menos por enquanto, capacidade sobre o WhatsApp, outra plataforma pertencente à companhia.

Esta nova instância depende de uma organização alheia à empresa, embora tenha sido criada pela matriz com uma doação irrevogável de 130 milhões de dólares (800 milhões de reais). Os membros do conselho, composto por 10 mulheres e 10 homens, não são funcionários do Facebook nem podem ser demitidos por Zuckerberg. Nesta quarta-feira, foi anunciada a composição desse órgão, que incluirá personalidades como a ativista iemenita Tawakul Kerman, ganhadora do Nobel da Paz de 2011, a ex-primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt e o jornalista britânico Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal The Guardian durante duas décadas.

Ronaldo Lemos, advogado de propriedade tecnológica e intelectual e professor de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), é um dos dois únicos latino-americanos da lista, ao lado da jurista colombiana Catalina Botero-Marino, diretora da Faculdade de Direito da Universidade de Los Andes e, entre 2008 e 2014, relatora para a liberdade de expressão na Organização dos Estados Americanos.

O nome oficial é conselho assessor de conteúdo, ou oversight board, e seus membros têm, sobretudo, perfis vinculados ao mundo do direito, ao ativismo digital e aos meios de comunicação. Ao todo serão 40, o dobro dos atuais, embora o processo de seleção deva se prolongar até 2021. O órgão tem quatro copresidentes, que são os que se encarregaram, junto ao Facebook, de recrutar os outros 16 convidados. Além de Botero-Marino e Thorning-Schmidt, os outros dois copresidentes serão os norte-americanos Jamal Greene, catedrático da Universidade Columbia, e Michael McConnell, ex-juiz federal dos EUA e hoje professor em Stanford.

“Isso representa uma mudança fundamental quanto à forma como as decisões difíceis são tomadas no Facebook”, disse Brent Harris, diretor de Assuntos Globais da empresa, em uma entrevista coletiva para jornalistas de todo o mundo, à qual o EL PAÍS assistiu e que teve a participação dos quatro copresidentes e de Thomas Hughes, diretor-administrativo do conselho. Embora sua fundação já seja oficial, só começará a analisar casos dentro de alguns meses. Nas próximas semanas, e com as dificuldades acrescentadas pela pandemia, a instituição contratará pessoal e decidirá a melhor forma de se coordenar e trabalhar.

Outros encarregados

 

Com esse conselho, a intenção da empresa é terceirizar um dos aspectos que mais lhe causam problemas em seu trabalho: os limites à liberdade de expressão dos usuários, levando em conta seus contextos nacionais. O Facebook já transferiu a verificação rotineira de conteúdos para organizações externas, que são as que assumem a avaliação sobre a veracidade de determinada publicação. O Facebook então só acrescenta esse veredicto ao conteúdo questionado e faz que essas mensagens sejam menos visíveis nas contas dos outros usuários.

Com o novo tribunal supremo ocorrerá algo semelhante. As atribuições difíceis não ficarão nas mãos dos funcionários da companhia, que assim se isolarão de decisões que frequentemente dependem de sensibilidades ideológicas ou regionais. Os veredictos deliberados do tribunal, que inclui gente muito diversificada, evitarão a sensação de que um grupo de executivos em Palo Alto decide o que centenas de milhões de pessoas veem ou deixam de ver. Por outro lado, o Facebook se comprometeu publicamente a cumprir as decisões do conselho. “Se não fizerem isso, o custo para a reputação seria muito alto”, disse Botero-Marino.

“Não seremos a polícia da Internet”, quis esclarecer McConnell. “Não será algo rápido, será mais uma corte de recursos que delibera depois do fato. O objetivo é promover a justiça, a neutralidade”, acrescentou. Serão três os critérios para selecionar os casos entre os milhares que chegarão, segundo McConnell: que afetem muita gente, que tenham muita importância por suas consequências, ou que possam afetar as políticas do Facebook. “Não haverá respostas corretas. Ninguém estará sempre satisfeito com nossas decisões”, acrescentou. Como empresa privada, o Facebook pode decidir sobre seu conteúdo. “O direito público vai por outro caminho”, explicou McConnell.

Inicialmente, o tribunal verá casos denunciados por usuários que tiveram conteúdo apagado pelo Facebook, mas depois permitirá os recursos de usuários que queiram pedir que se apague um conteúdo determinado. O conselho poderá decidir não só sobre publicações, também sobre anúncios ou grupos. Poderá também recomendar políticas ao Facebook baseadas nos veredictos.

“Sempre estive comprometido com a liberdade de expressão e de pensamento, mas o crescimento do Facebook criou novas oportunidades e desafios”, diz o juiz húngaro András Sajo, ex-vice-presidente do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e um dos membros do conselho, numa mensagem de apresentação no site do organismo.

A rede social do mundo

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Este novo tribunal dará mais peso à imagem do Facebook como a grande rede social do mundo. A metáfora que fala do Facebook como um país próprio ganha agora um pouco mais de fundamento: já tem seu poder judiciário independente. É difícil pensar em redes concorrentes que tenham a capacidade de instituir organismos que incluam personalidades de tanto nível e com capacidade de decisão real sobre os limites da liberdade de expressão em lugares com tradições diferentes. O tribunal se centrará no conteúdo do Facebook e Instagram, mas está aberto a assumir outras redes sociais, como o Twitter, conforme disse Thomas Hughes, seu diretor-administrativo.

O conselho permitirá, segundo Botero-Marino, que os Estados pensem duas vezes sobre a conveniência de regular a rede: “A melhor maneira de manter a arquitetura atual da Internet e evitar a regulação de Estados é que as companhias se autorregulem”, disse. “Este é um bom exemplo porque inclui independência, transparência e diversidade.”

“As sociedades não podem funcionar se seus cidadãos não chegarem a um acordo sobre que significa prova, fato e verdade”, diz Rusbridger em uma mensagem na Internet. “Talvez tenhamos demorado demais para percebermos isso. O conselho assessor de conteúdo parece ser o primeiro passo ousado e imaginativo da parte de um dos principais atores para encontrar um modo de conciliar a necessidade de impor algum tipo de padrão ou julgamento do que é publicado, ao mesmo tempo em que mantêm as coisas que são maravilhosas nas redes sociais e necessárias para a liberdade de expressão”, acrescenta.

Faltando ainda a definição de metade de seus membros, o conselho também tem lacunas. O Facebook não está presente na China, então a única integrante de fala chinesa é a taiwanesa Katharine Chen, catedrática de Comunicação na Universidade Nacional Chengchi. E a única pessoa vinculada à Rússia é a camaronesa Julie Owono, diretora-executiva da organização Internet Sem Fronteiras, que cresceu nesse país.

Há também cinco membros norte-americanos contra apenas três europeus (Sajo, Rusbridger e Thorning-Schmidt). Esse número de norte-americanos se deve, segundo Harris, ao fato de que havia muitos candidatos de lá que os impressionaram, e que a maioria dos casos mais polêmicos para a rede começaram nesse país.Internet,Tecnologia,Vírus,Malware,WhatsApp,Blog do Mesquita

Ao menos por enquanto, os membros trabalharão em tempo parcial e receberão uma compensação compatível “com os conselhos do setor tecnológico”, segundo Hughes. O trabalho deste tribunal não tem em princípio por que interferir na atuação dos verificadores de informação, embora seja provável que eventualmente ocorram conflitos. Durante a pandemia do coronavírus, a Espanha viveu uma polêmica substancial sobre a suposta censura nas redes sociais, embora centrada sobretudo no aplicativo de mensagens WhatsApp.

Privacidade na WEB; Como apagar dados pessoais que não deveriam estar na rede

À medida que navega e compartilha informações na web, você deixa uma trilha que qualquer pessoa no mundo pode acessar sem se levantar do sofá.

É provável que se você digitar seu nome no Google encontre registros que nem sabia que existiam. De páginas da web com dados pessoais, como seu endereço ou telefone, a fotografias que na época você não se preocupou em postar na Internet. E até contas que criou em aplicativos que mal chegou a usar.

À medida que navega e compartilha informações na web, você deixa uma trilha que qualquer pessoa no mundo pode acessar sem se levantar do sofá. Apagar por completo a pegada digital é complicado. Mas existem opções para eliminar e controlar as informações pessoais que aparecem sobre você na Internet.

Tudo o que um usuário escreve em redes sociais, blogs, fóruns ou outros serviços pode aparecer na Internet. É possível editar ou excluir grande parte desta pegada de forma manual.

 “Para localizar esse conteúdo, o mais recomendável é ir ao Google e pesquisar por si mesmo, escrevendo seu nome e sobrenome entre aspas, e depois, com muita paciência, eliminar todas essas informações”, explica Fernando Suárez, presidente do Conselho de Faculdades de Engenharia da Computação (CCII, na sigla em espanhol), da Espanha.

Ex-funcionário avisa que Google pode acessar todos os documentos dos usuários de sua nuvem.Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

O usuário pode excluir uma a uma cada conta que criou nas redes sociais e outros serviços. Mas há ferramentas que facilitam o trabalho. Por exemplo, o Deseat.me oferece uma lista de todas as contas que uma pessoa criou com um email específico e permite solicitar a exclusão bastando pressionar um botão.

Já o AccountKiller compila links diretos para facilitar a qualquer usuário excluir sua conta em sites como Gmail, Instagram, Netflix e Microsoft. “Você quer se livrar da sua conta online? Não deveria ser um problema, certo? Infelizmente, em muitos sites, incluindo os populares, como o Facebook, apagar sua conta pode ser uma verdadeira dor de cabeça”, explica ele em seu próprio site.

É provável que se você digitar seu nome no Google encontre registros que nem sabia que existiam.
“Eliminar completamente a pegada digital é praticamente impossível: depois que publicamos informações na Internet, perdemos o controle sobre elas e não sabemos quem pode acessá-las e para qual finalidade”, alerta Suárez. Ele dá o seguinte exemplo: “Se postamos uma foto em uma rede social e posteriormente a excluímos, não podemos ter certeza de que as pessoas que tiveram acesso a essa fotografia não a publicaram em outras páginas e, portanto, sua exclusão seria muito mais complicada. “

Como apagar a informação que aparece na Internet

A lei europeia do direito ao esquecimento permite que você peça diretamente ao Google que desindexe determinadas informações. Ou seja, que quando alguém usar o mecanismo de pesquisa, um site específico não apareça entre os resultados. Existe um formulário para isso. O usuário deve assinalar um por um os links que deseja remover e indicar o motivo.

O Google pode retirar informações pessoais que representem um risco significativo de roubo de identidade, fraude financeira ou outros tipos de danos específicos. Suárez explica: “Por exemplo, números de identificação, como o do documento de identidade ou informações de cartões de saúde, números de contas bancárias ou de cartões de crédito, históricos médicos, imagens de assinaturas ou fotografias de conteúdo sexual explícito postado na Internet sem o nosso consentimento”.

Mas a opção de pedir ao Google que exclua determinadas informações tem limitações. Juana María Perea, reitora da Faculdade Oficial de Engenharia da Computação das Ilhas Baleares, observa que o preenchimento do formulário não garante que os dados sejam desindexados.

A empresa de Mountain View analisa os links um por um e escolhe se os desindexa ou não. “Quando você envia uma solicitação, no Google procuramos o equilíbrio entre os direitos à privacidade dos usuários afetados, o interesse público que essas informações podem ter e o direito de outros usuários de distribuí-las”, afirma a gigante da tecnologia em seu site.

A empresa pode se recusar, por exemplo, a retirar informações sobre fraudes financeiras, negligência profissional, condenações criminais ou conduta de funcionários públicos. Além disso, este formulário apenas garante a remoção de dados na União Europeia. Portanto, os dados continuarão a aparecer nas versões internacionais do mecanismo de busca.

Outros buscadores

O Google é o líder indiscutível dos mecanismos de busca. Em 2018, totalizou 96% das pesquisas de usuários, segundo a Statista. São seguidos pelo Bing, com 3%, e o Yahoo, com 1%. Mesmo assim, os especialistas também recomendam controlar o que aparece nesses alternativos. “O processo mencionado só se aplica ao Google. O Yahoo e o Bing têm seu próprio formulário para que exerçamos nosso direito de desaparecer da rede”, diz Perea. Nos dois mecanismos de busca, se aceitarem a solicitação, o conteúdo será removido apenas na Europa.

Tanto Perea como Suárez concordam com a importância de controlar em quais sites você se registra. O presidente do CCII aconselha, antes de tudo, “a prudência ao usar as ferramentas da Internet”: “Não apenas aquelas em que publicamos informações diretamente, como blogs ou redes sociais, mas também a própria trilha que deixamos, por exemplo, ao pesquisar ou navegar “. Nesse sentido, é recomendável excluir periodicamente os cookies, usar VPNs (rede virtual privada, na sigla em inglês) ou optar por mecanismos de busca alternativos ao Google, projetados para navegar sem deixar vestígios.