“Barões evangélicos são parceiros de projeto ultraconservador de Bolsonaro”, diz pastor

Ronilso Pacheco, da Comunidade Batista de São Gonçalo, afirma que política e religião sempre se misturam, mas que é “melhor fazer opção que contribua para os direitos humanos”.

Bolsonaro e Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e aliado do presidente

As igrejas evangélicas poderosas, que dispõem de presença na mídia e influência política , são hoje parceiras de um projeto “ultraconservador” do governo Jair Bolsonaro, que nega direitos e explora a fé dos mais pobres. Os “barões da fé”, porém, não representam a totalidade do público evangélico, e parte desses fiéis adota no seu cotidiano práticas de acolhimento e respeito das diferenças, na opinião do teólogo Ronilso Pacheco.

Nascido em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista na sua cidade e ativista de direitos humanos. Autor do livro Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão, é hoje  pesquisador da Fundação Ford e está terminando o mestrado em teologia na Universidade Columbia, em Nova York.

Em entrevista à DW Brasil, Pacheco afirma que o vínculo entre igrejas evangélicas e a atuação política conservadora no país data da sua fundação, no século 19, por americanos brancos e racistas que perderam a Guerra da Secessão, migraram ao Brasil em missão evangelizadora e se aproximaram das elites locais. O vínculo com o poder fortaleceu-se na ditadura, consolidou-se na democracia e atingiu maior radicalismo sob Bolsonaro.

“Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres”, afirma Pacheco. Segundo ele, a atuação desses setores da igreja só é possível “traindo” a história de Jesus Cristo registrada na Bíblia, como alguém resistente à hierarquia do poder e movido pela missão de “destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres”.

Pacheco identifica uma novidade na relação entre o que chama de igreja evangélica hegemônica e o poder sob a gestão Bolsonaro. Além dos tradicionais parlamentares da bancada evangélica, que buscam prestígio e espaço para as suas igrejas, houve a chegada de líderes religiosos interessados em fazer uma “guerra cultural” para influenciar a construção da identidade da sociedade brasileira.

São representantes desse movimento no governo o ministro da Educação, Milton Ribeiro, pastor presbiteriano calvinista, o ministro da Justiça, André Mendonça, pastor presbiteriano, e a ministra Damares Alves, “uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos”, diz Pacheco. “Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora”.

Ele afirma, porém, que há na comunidade evangélica muitos exemplos de igrejas e pessoas que, por mais que não se identifiquem com a agenda de partidos de esquerda, adotam práticas progressistas no seu dia a dia. Para Pacheco, um “esforço metodológico e pedagógico” e uma abordagem “afetiva” poderia aproximar mais os evangélicos de agendas como direitos LGBT, liberalização de drogas e legalização do aborto.

“Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade”, diz.

DW Brasil: Qual é o papel da religião na esfera pública?

Ronilso Pacheco: No contexto da América Latina e do Brasil, tem um papel fundamental para a formação da identidade da sociedade e da tradição popular. A religião serve como uma espécie de pano de fundo e orientadora de decisões, e pode ser determinante para legitimar ou deslegitimar uma determinada política.

Isso não se choca com a laicidade do Estado?

Não, pois laicidade do Estado não é a neutralização da presença da religião, mas a harmonia e o diálogo entre diferentes expressões religiosas. O que fere a laicidade do Estado é a perspectiva de superioridade de uma determinada religião em detrimento da outra, o que tem sido um pouco a nossa tradição.

Religião e política devem se misturar?

A ideia da separação entre religião e política tem muita influência da perspectiva iluminista, da idade da razão, europeia, onde essas distinções são bem marcadas. Mas não faz sentido, por exemplo, se levarmos em consideração a sociedade indígena, que tem uma forma de viver a política indissociável da perspectiva transcendental. Também é impossível separar o que é a vida política da perspectiva religiosa em algumas sociedades do continente africano.

Mesmo em contextos em que se prega um distanciamento entre a religião e a política, a perspectiva religiosa já se impregnou de maneira decisiva na política. A religião é um pano de fundo da perspectiva constitucional e da organização da sociedade. E também da perspectiva de luta e resistência, de pensar em alternativas. Nos assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) ou do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) há uma religiosidade forte, com ênfase na mística.

O movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos é indissociável de grandes lideranças das igrejas, principalmente das igrejas negras. Na América Latina não é diferente, se você pensar nos conflitos no Peru ou na Colômbia, e o papel que as igrejas têm de acolher e organizar a comunidade.

Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade, do que tentar fazer com que isso seja dissociável.

Ronilso Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista de São Gonçalo, pesquisador e ativista de direitos humanos

Você mencionou o MST e o MTST, que são movimentos de esquerda. Ao mesmo tempo, há movimentos e partidos de direita e extrema-direita vinculados a igrejas. A Bíblia abrange essas duas perspectivas ou é questão de interpretação?

Não é uma questão de interpretação, é uma questão de escolha das histórias que você quer dar ênfase. A Bíblia contém diversas narrativas sobre como Deus interage com as pessoas, ou como os povos interagem com Deus. Ambas [as perspectivas políticas] se expressam na Bíblia, ali há o contexto do mundo real, marcado por pessoas solidárias mas também por déspotas, marcado por traidores e gente muito violenta, mas também por gente disposta a lutar por justiça.

Se você escolhe dar ênfase às histórias do Novo Testamento, às histórias de Jesus, não há crises de interpretação. Ao contrário, você é confrontado em como as opções de algumas lideranças [religiosas] são traidoras da memória de Jesus que está nos Evangelhos.

Não é passível de interpretação que Jesus foi acolhedor, alimentando a multidão e estimulando a partilha. Não é a questão de interpretação como Jesus foi resistente à ideia de superioridade, de uma hierarquia de poder. No Evangelho de Lucas, Jesus fala que veio para libertar os cativos, para acolher os pobres. Não é passível de interpretação a fala de Maria, quando está grávida de Jesus e diz como que ele seria, de maneira bem expressa: ele virá para destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres. A única maneira de burlar isso não é interpretação, é você trair essa memória.

Agora, você pode voltar ao Antigo Testamento e escolher, por exemplo, quando o povo de Israel invadiu um determinado território e assassinou seus habitantes para tomar conta dele. Você pode escolher usar isso para legitimar uma pretensão de poder. Mas as histórias em que Jesus está envolvido não são passíveis de interpretação, e são diferentes de qualquer perspectiva de superioridade e dominação.

Por que a igreja evangélica é hoje predominantemente identificada com a direita?

Eu diria que é a igreja hegemônica [evangélica]. Eles têm tanto poder comunicacional, um império de mídia, que tomam conta da noção sobre o que é a identidade e a estratégia evangélica. Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres.

Esse grupo acabou se tornando um rosto do que seria a igreja evangélica no Brasil, mas a igreja evangélica é muito maior e mais complexa que isso. Ela está presente de maneira cotidiana nas periferias das cidades. E, sem se olhar no espelho e dizer “sou progressista”, sua prática diária está mais direcionada a agendas progressistas, no sentido do acolhimento, da solidariedade social, do respeito à diversidade, porque está numa periferia com uma complexidade de pertencimentos.

Não que não existam igrejas e lideranças ultraconservadoras a fundamentalista nas periferias. Mas não diria que isso é a igreja evangélica no Brasil, pois seria desonesto com muitos esforços no território nacional, desde nas comunidades evangélicas do sertão a igrejas importantes nos grandes centros urbanos, que fazem um caminho completamente diferente, inclusive pagando um alto preço por isso.

Como se deu a aliança entre a igreja evangélica hegemônica e a direita? Há paralelos com o que ocorreu nos Estados Unidos?

Os paralelos são muitos. A presença evangélica no Brasil tem uma herança do universo evangélico conservador dos Estados Unidos. A formação da nossa igreja evangélica se dá com uma imigração significativa de evangélicos cristãos do sul dos Estados Unidos, que perdem a Guerra de Secessão [1861-1865] e vão fazer missões no Brasil. Eles têm um projeto de evangelismo, conquistar territórios, povos, converter almas, abrir novas igrejas. E é um um projeto profundamente conservador, inclinado à escravidão como parte da economia. É uma igreja que cresce associada à perspectiva elitista e de poder. Claro que há fissuras, mas há essa influência.

No início do século 20, sobretudo com a ampliação do campo pentecostal, mais ligado à Assembleia de Deus, eles constroem uma relação com governadores, presidentes, e isso se intensifica durante a ditadura militar. Há um apoio forte à ditadura de algumas igrejas, como as convenções da Assembleia de Deus. Essa parceria atravessa a ditadura e entra na redemocratização. O [deputado] Mateus Iansen, da Assembleia de Deus, foi o autor da emenda que permitia a prorrogação do mandato de José Sarney de quatro para cinco anos. Em seguida, foi beneficiado com uma concessão de rádio. Tudo isso para dizer que estamos falando de uma longa jornada, não é algo do governo Bolsonaro.

O que há de novo na aproximação de parte da igreja evangélica com a extrema direita de Trump e Bolsonaro?

Nos Estados Unidos, há uma convicção do nacionalismo cristão de que ele deve pautar a identidade nacional. Há um mito, sobretudo entre os evangélicos brancos do sul dos Estados Unidos, que eles foram um vencedor moral da Guerra de Secessão, pois têm os valores mais nobres, respeitam os valores cristãos, têm amor à Bíblia e à família. A extrema direita nos Estados Unidos foi construída a partir desse nicho.

No Brasil, se for apontar algo novo, é a maneira como o grupo neocalvinista e calvinista conservador conseguiu fazer parte desse governo [Bolsonaro] de uma maneira significativa, dando outro tom para a atuação da extrema direita. Se já tínhamos a forma mais tradicional dessa influência com a bancada evangélica, com políticos que vêm de longas décadas e têm o objetivo de manter seu poder e influência, o grupo neocalvinista e calvinista conservador traz outro elemento, conectado com o que acontece nos Estados Unidos: assumir uma guerra cultural. Mais do que ter poder e recursos para sua igreja, é como influenciar na construção da identidade da sociedade brasileira. Então a disputa está na educação, na cultura.

Por isso, mais do que tomar conta do Legislativo, o importante é fazer as disputas certas nesses lugares e estar na área da educação, na área da cultura, na Suprema Corte, para construir uma identidade cultural que marque a supremacia cristã conservadora. O governo Bolsonaro deu espaço a essa investida, surgiu a oportunidade de não ter vergonha de assumir que a disputa é por uma supremacia cristã. Há a volta do discurso da cristofobia e um presidente que verbaliza isso, inclusive na ONU.

Há postos-chave do governo ocupados por nomes que se orientam por essa lógica. Você tem um pastor presbiteriano calvinista no Ministério da Educação [Milton Ribeiro], um pastor presbiteriano no Ministério da Justiça [André Mendonça], um católico ultraconservador no Ministério das Relações Exteriores [Ernesto Araújo] e uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos [Damares Alves], fazendo a disputa do que é direitos humanos e do que não é direitos humanos. Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora, indiferente ao debate da tolerância e do diálogo interreligioso.

Qual é a representatividade da visão progressista hoje na igreja evangélica?

É um número muito significativo, mas conceituo o evangélico progressista de maneira mais aberta. Se você perguntar se ele é progressista, ele provavelmente vai dizer que não, ou que não sabe o que é isso. Me oriento mais pela prática e pela ética de movimentos e grupos de pessoas do que propriamente um compromisso com uma agenda.

Há muitas comunidades importantes em várias localidades, sobretudo nas periferias. Como por exemplo a Igreja Batista do Pinheiro, que fica em Maceió e foi expulsa da Convenção Batista Brasileira porque passou a aceitar casais homoafetivos na sua congregação e dar a eles o direito de participar da liturgia do culto. Há evangélicos fazendo isso sem alarde, que são acolhedores com o povo LGBTQI+. Há comunidades que têm relação de amizade com lideranças religiosas de outras tradições, como de matriz africana, à revelia dos ataques diários sofridos por muitos terreiros. Essa rede de solidariedade está além dos debates, por exemplo, sobre o aborto. Quando a realidade do aborto chegar, a comunidade vai pensar no que fazer. Ela não está dentro de um debate de legalizar ou não legalizar o aborto.

E como avalia a relação atual entre os partidos políticos de esquerda e centro-esquerda com o público evangélico?

Esse grupo ainda está meio perdido. As derrotas têm sido sucessivas, e há impossibilidade de comunicar e construir alternativas desde o fim da era Lula. No primeiro mandato Lula, houve uma participação mais expressiva de evangélicos progressistas.

Também tem um pouco de uma mentalidade iluminista da esquerda, no sentido de ser dona da razão, de saber propor e apontar os caminhos, de decidir o que é melhor na disputa pelos direitos humanos. Ou de empurrar determinadas agendas que são difíceis de entender, se você não gastar tempo em como tornar aquilo acessível e mostrar que é importante para a sociedade.

O campo progressista de esquerda está com muito receio desse diálogo, há muito pisar em ovos, mas está aberto a aprender que caminhos podem ser construídos.

O campo progressista tem chance de ampliar seu apoio entre os evangélicos se continuar defendendo pautas como direitos da comunidade LGBT e liberalização das drogas e do aborto, ou teria que reduzir o apoio a esses temas?

Não tem como como reduzir o apoio, porque essa é a identidade progressista, são agendas das quais não se pode abrir mão. É muito mais como pensar em como fazer isso ser compreendido e importante no dia a dia.

Alguns lidam com isso na realidade do dia a dia, como em relação à liberação das drogas. Há pessoas que perderam o filho, vizinhos, parentes, amigos. Mas não é imaginar que você vai fazer uma cartilha sobre a liberação das drogas com uma linguagem voltada para o público evangélico e isso vai resolver o problema de comunicação. Precisa estar vinculada à construção de uma relação afetiva.

O campo fundamentalista conservador tem uma aproximação em uma linguagem mais afetiva, e o campo progressista tem uma linguagem mais estética. E, às vezes, a estética não comunica. Precisa de um esforço metodológico e pedagógico de se aproximar e aderir às diversas camadas da comunidade e de fazer com que uma agenda seja compreendida. A mesma coisa com relação à questão do aborto e à questão LGBT.

A pior direita: Bolsonaro quer ser Piñera, mas é um Hugo Chávez de sinal trocado

Cópia à direita de Chávez, presidente flerta com a repressão no único polo de extrema direita da região e faz o Brasil perder a liderança no continente.

GOVERNOS LIBERAIS DE DIREITA estão na moda na América Latina. Mesmo com a onda conservadora, Jair Bolsonaro ocupa uma posição singular. O fator de espanto é o radicalismo do governo Bolsonaro, único polo de extrema direita da região desde o final do ciclo de ditaduras militares, na década de 1980.

Após os anos de domínio da esquerda durante a “onda rosa” da virada do milênio, que chegou como alternativa ao neoliberalismo dos anos 1990, a região virou o volante radicalmente. Hoje, do cone sul à América do Norte, com exceção do recém-chegado López Obrador no México, a maioria dos governos se encaixa no espaço que ocupa o novo PSDB – bem mais para João Doria do que para Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o partido do atual presidente, o PSL, não tem nada dessa centro-direita, que até virou exemplo de moderação no Brasil diante dos meses de barbárie em 2019.

O nível baixo de política praticado por Bolsonaro fez até o autoritário e desprestigiado presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, trazer uma análise pertinente. Em uma rara entrevista a um veículo brasileiro, o líder chavista, acostumado a refutar fatos e críticas, disse à Folha de S.Paulo, que seu desafeto brasileiro é um “extremista ideológico”.

Maduro não compareceu à posse de Bolsonaro em janeiro, a pedido da própria cúpula de governo. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chegou a dizer que o chavista não havia sido convidado para a cerimônia “em respeito ao povo venezuelano”, mas acabou desmentido pelo próprio Itamaraty e pela chancelaria em Caracas. O Ministério confirmou que, na realidade, os convites existiram, mas foram retirados a pedido da nova equipe.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político que é justamente guiado por uma pauta ideológica agressiva, ainda que com sinal trocado. Maduro disse ainda que seu equivalente brasileiro não é um político “com ‘p’ maiúsculo”. Em uma gestão com discurso falocêntrico, a declaração pode até acabar sendo entendida pelo governo de outra forma.

Bolsonaro não está sozinho em contar com o rechaço de Maduro e, à primeira vista, talvez pudesse parecer que ele seguiria o script da vizinhança: um longevo governo de esquerda perde credibilidade e se vê envolvido em acusações de corrupção; a economia desaba; a população se entorpece de indignação; e um projeto desconhecido de oposição começa a se anunciar como antídoto. Bolsonaro e suas pitorescas figuras-satélite surfaram nessa mesma onda, com uma diferença crucial: cruzaram a linha do absurdo antes mesmo de tomar posse.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político como Maduro, também guiado por uma pauta ideológica agressiva.

Neoliberal de pai e mãe, o presidente argentino Mauricio Macri foi o primeiro a fazer contato com o capitão recém-eleito. Logo em 16 de janeiro, três semanas depois da posse, o empresário milionário desembarcou em Brasília para falar do Mercosul (apesar de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter dito que o tema não seria prioridade), da Venezuela e das parcerias a serem feitas com os também liberais Chile, Colômbia, Equador, Peru e Paraguai.

Para o argentino, a ida ao Brasil também foi um pedido de ajuda. Vendo seu país com quase 50% de inflação acumulada, desemprego em alta e aumento da pobreza, Macri já começava a juntar os cacos para as eleições presidenciais de outubro. Mas a estratégia não resistiu à toxicidade de Bolsonaro. Mesmo com o triunfo da Argentina nas negociações que culminaram na primeira etapa de acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o presidente foi massacrado nas eleições primárias. Na Argentina, as primárias ocorrem meses antes do primeiro turno – que será em 27 de outubro – para eliminar chapas com menos de 1,5% nas intenções de votos. Em 2019, a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner somou 47% dos votos, frente a 33% da chapa de Macri.

Bolsonaro se sentiu intimidado pelo possível retorno da esquerda no país vizinho, estudando rever o acordo com o Mercosul. Na reta final de agosto, suas falas sepultaram o esforço do bloco. Desprezando a crise ambiental mais grave dos últimos anos, entrou em desavença com Emmanuel Macron. O mandatário francês, que já torcia o nariz para o acordo entre europeus e sul-americanos, afirmou que na “situação atual”, o pacto não sai.

Chavismo à brasileira

O embrião do bolsonarismo começou na esquerda. Durante a campanha – cheia de memes toscos, montagens chamativas e informações falsas –, era comum ver imagens dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff ao lado dos finados Hugo Chávez e Fidel Castro. As mensagens viralizaram nas redes sociais acompanhadas de textos conspiratórios com presságios de uma aliança globalista liderada pelo PT e o Foro de São Paulo.

As mentiras criavam uma falsa ideia de “unidade opositora”, facilitando o trabalho de desprestigiar, numa tacada só, tudo o que não fosse próximo do delírio bolsonarista. A partir desse ponto, tudo estava “à esquerda”. Os críticos, os dados, a ONU, a revista The Economist, o Papa, o jornalista Reinaldo Azevedo e até mesmo os preceitos liberais dos novos presidentes que Jair Bolsonaro viria a bajular.

Mas, ainda que jamais vá admitir, Bolsonaro é uma cópia desajeitada, liberalesca e à direita de uma figura de esquerda: Hugo Chávez. São militares, ex-paraquedistas, anti-imprensa, anticiência, autoritários, homofóbicos, misóginos, populistas, nacionalistas. Apresentaram-se como alternativas antissistema, são contra o multilateralismo, devotos de causas religiosas, pautados por conspirações, apelam a um “perigo estrangeiro”, invocam pautas ideológicas e referem-se aos EUA o tempo todo.

Hoje um dos alvos mais frequentes de críticas de Bolsonaro e de seus seguidores, o líder venezuelano já chegou a ser aplaudido pelo capitão reformado em uma entrevista em 1999 à Folha de S.Paulo. Ele afirmou que o bolivariano era “uma esperança para a América Latina”, comparando-o aos militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985. Sem poupar elogios, o então deputado disse que, assim como o “admirável” Chávez, não era anticomunista. “Gostaria que essa filosofia [militarista] chegasse ao Brasil. Acho ele [Chávez] ímpar”.

Maduro, hoje o substituto sem carisma de Chávez, disse na reportagem divulgada na segunda-feira, 16 de setembro, que Bolsonaro “não conhece a história da América Latina nem da Venezuela”. Ao que parece, o capitão reformado parece dar razão aos líderes controversos através do tempo.

Na época de sua campanha à presidência, Bolsonaro já havia subvertido o discurso – não sem antes dizer que a antiga reportagem era mentirosa. Nem mesmo o que separava o bolsonarismo do discurso chavista, o “temor imperialista” durou. Com o que o governo chamou de “ataques” de lideranças europeias, o apelo à soberania brasileira foi muito usado, principalmente em redes sociais.

Com o argumento de que a Amazônia está sob ameaça e de que deve ser um assunto exclusivo do Brasil, houve até quem questionasse os dados da Nasa. Tudo em nome de blindar o governo e suas mentiras.

É fácil ver a hipocrisia. Os mesmos trolls – robóticos ou não – que desmerecem a ajuda da Europa pedindo em, caixa alta, que a Venezuela seja invadida. Arma no quintal dos outros é refresco.

Bolsonaro repete Chávez

Em 2009, a juíza venezuelana María Lourdes Afiuni foi detida minutos após conceder liberdade ao empresário Eligio Cedeño, em prisão preventiva há três anos por uma acusação de corrupção. A medida desagradou Chávez. No dia seguinte, ele falou ao público que deveriam prender Afiuni “por 30 anos” e que, segundo a filosofia de Simón Bolívar, “os que tomam um só centavo do tesouro público deveriam ser fuzilados e os juízes que não condenam esses casos, também”. A juíza ficou presa em regime fechado, sem qualquer julgamento, por quatro anos, e segue sendo alvos de processos.

Comentários favoráveis à detenção de quem julga como oposição também saíram da boca de Bolsonaro. Ao sugerir que o jornalista Glenn Greenwald poderia pegar “uma cana” no Brasil por conta das reportagens sobre a Lava Jato, o presidente brasileiro age como Chávez. É o que pensa o relator especial para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Edson Lanza.

Em entrevista à BBC News, o jurista afirmou que Bolsonaro abandona “rapidamente” a defesa da liberdade de imprensa quando incomodado. E tem sido assim desde os primeiros meses: se o governo não gosta, a culpa é do jornalista, cuja reputação nenhum membro do governo tem vergonha de tentar arruinar.

No caso de Chávez, toda a culpa recaía sobre os EUA. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

A luta contra a razão tampouco é pioneira. Chávez também atacou a educação, cercando universidades autônomas com o aparelhamento do acesso ao ensino e seu conteúdo. Já sob Maduro, quando a repressão se intensificou, a situação de luta pela liberdade de ensino e formação independente foi reunida em um relatório denso, publicado pela Coalizão de Cátedras e Centros de Direitos Humanos. Como consequência da crise que afeta o ensino e a ciência, a migração venezuelana, que já supera os 3 milhões, acarreta em uma fuga de cérebros.

Diferentemente de Chávez, que governou de 1999 a 2013, quando morreu vítima de um câncer, Bolsonaro e seu desastre têm menos de um ano de vida – tempo suficiente para que um ministro da Educação já tenha caído, o Enem tenha sido posto em xeque, o MEC esteja sob o comando de um tenente brigadeiro e tenhamos uma intensa fuga de cérebros para chamar de nossa. À la Chávez, Bolsonaro também interferiu em uma decisão democrática em âmbito acadêmico. Ignorando os resultados das consultas e votações internas, indicou reitores e interventores de sua preferência em pelo menos oito universidades e colégios federais.

O ativista da oposição venezuelana, Edgar Baptista, conta que os governos só são diferentes no plano econômico e nas bases eleitorais. Hoje vivendo em Santiago por conta da repressão em Caracas, Baptista diz que sobram semelhanças. “Nos dois governos, as alas ideológica e militar convivem, ainda que não se gostem. Os dois discursos atacam a corrupção, vendendo uma ideia de antipolítica. E os dois, por meio da política, buscam seus próprios privilégios.”

O líder social também cita o início parecido na política externa dos dois. “Bolsonaro anunciou a saída da Unasul e logo em seguida se juntou aos liberais de região para criar o Prosul. Lembra muito o que Chávez fez em 2006, quando saiu da Comunidade Andina de Nações, atacando o livre-comércio. Os dois têm dificuldade de trabalhar com o que já existe e de manter a institucionalidade”.

No caso de Hugo Chávez, toda a culpa recai sobre os Estados Unidos. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

Biden recebe dossiê recomendando suspensão de acordos entre EUA e governo Bolsonaro

POOL/GETTY IMAGES

O documento surge em momento de intensa expectativa sobre os próximos passos da relação entre Brasil e Estados Unidos sob o governo de Biden e da vice-presidente Kamala Harris

Quatro meses depois de fazer críticas públicas contra o desmatamento no Brasil, o presidente Joe Biden e membros do alto escalão do novo governo dos EUA receberam nesta semana um longo dossiê que pede o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil enquanto Jair Bolsonaro estiver na Presidência.

O documento de 31 páginas, ao qual a BBC News Brasil teve acesso, condena a aproximação entre os dois países nos últimos dois anos e aponta que a aliança entre Donald Trump e seu par brasileiro teria colocado em xeque o papel de “Washington como um parceiro confiável na luta pela proteção e expansão da democracia”.

“A relação especialmente próxima entre os dois presidentes foi um fator central na legitimação de Bolsonaro e suas tendências autoritárias”, diz o texto, que recomenda que Biden restrinja importações de madeira, soja e carne do Brasil, “a menos que se possa confirmar que as importações não estão vinculadas ao desmatamento ou abusos dos direitos humanos”, por meio de ordem executiva ou via Congresso.

A mudança de ares na Casa Branca é o combustível para o dossiê, escrito por professores de dez universidades (9 delas nos EUA), além de diretores de ONGs internacionais como Greenpeace EUA e Amazon Watch.

Consultado pela BBC News Brasil, o Palácio do Planalto informou, via Secretaria de Comunicação, que não comentará o dossiê.

O Brasil não lhe dará o direito ao esquecimento, Bolsonaro

Por: Mariana Tegon

É curioso nos darmos conta de que antes da internet não pensávamos muito em ter o direito de esquecer algo, pois, no passado, se não queríamos lembrar-nos de algo, bastava restringir o que contávamos aos outros.
Presidente exibe caixa de cloroquina, o ‘tratamento precoce’ para Covid-19, para a ema no Palácio da Alvorada.

Com a internet, perdemos algum tipo de controle de como as pessoas podem influenciar nossas vidas privadas. Qualquer pessoa pode puxar um conteúdo seu, em qualquer época, sem o seu conhecimento, você nem imagina em quantos níveis uma publicação pode afetar outra pessoa e o quão isso já é o bastante para que peguem algo, fora de contexto, e usem em uma situação desfavorável a você.

Desde os primórdios ocorriam fofocas e vazamentos com gente famosa, políticos e celebridades que eram perseguidas (por paparazzi ou imprensa). Porém são pessoas que geralmente estão preparadas para lidar com o julgamento público, são psicologicamente estruturadas e têm uma vida pública por opção. Hoje, com as redes sociais, é quase impossível distinguir o público do privado.

Quando postamos uma foto, texto, vídeo ou frase, estamos, automaticamente, à mercê de julgamentos que com certeza sairão do controle, seja porque o conteúdo bombou negativamente ou porque alguém vazou alguma intimidade do seu perfil privado. Junto a isso vem um reconhecimento às avessas.

Casos vão de B.Os que vazam, antes de mesmo de um profissional qualificado (escrivão ou juiz) ouvir qualquer fato ou versão, até conversas banais de WhatsApp.

Processos por calúnia e difamação são, cada vez mais, abertos por pessoas que sequer conheciam algum advogado até precisar agir para proteger sua integridade física, moral e intelectual. E, quando a história corre e tudo vira uma avalanche, somos obrigados a lidar com tudo — não em silêncio, mas criando mais e mais conteúdos na tentativa de soterrar a bomba que explodiu anteriormente.

Mas os sites de buscas armazenam tudo, os sites arquivam tudo e todos podem ficar voltando anos da sua vida apenas pelo prazer de torturar uma pessoa que só quer encontrar paz, silêncio e amizades sinceras após uma turbulência.

Em casos de fatos históricos e vida política/pública, o direito ao esquecimento ganha outro contexto, pois o que seria de nós, e das futuras gerações, se “o direito ao esquecimento do Holocausto” fosse dado, por exemplo? Sim, um exemplo extremo, mas temos vivido tempos estranhos.

O que acontecerá com Bolsonaro se o direito ao esquecimento for aprovado pelo STF? Quais serão os impactos in memoriam das vítimas, e de seus parentes, do genocida-negacionista, que a pandemia do coronavírus criou?
Que impacto histórico está embutido nesta decisão que poderá mudar o futuro do Brasil? Estamos numa Era onde tudo pode ser editado após a publicação. Fatos são distorcidos, negados ou até mesmo desmentidos.
Para exemplificar basta lembrar de entrevistas onde o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, falava uma coisa e semanas depois desmentia que havia dito. Mas estava gravado.

Aqui no Brasil, Bolsonaro deu os mesmos passos do ídolo político e, mesmo com material gravado em vídeo e áudio voltava atrás em declarações alegando que “nunca havia dito” algo sobre determinado assunto (geralmente sobre a pandemia), como é o caso do “tratamento precoce com cloroquina”, que agora a esfera federal desmente que tenha ajudado a difundir na área da saúde e para a população.

Esquecer é muito grave.
Fere a história do país.
Fere a história de pessoas que lutam pela vida enquanto estão entubadas em leitos de UTI.
Fere a história de famílias que precisam enterrar seus entes com velório para 10 pessoas e caixão lacrado.
Fere a história de cientistas que estão debruçados dia e noite à procura de uma vacina eficaz que freie, em massa, o pandemônio em que vivemos.
Fere a história dos profissionais da saúde que, exaustos, deixam de cuidar de sua própria vida e família para cuidar dos outros, para exercer um ofício de internar e conseguir providenciar oxigênio para quem está acamado e até mesmo em coma.

Bolsonaro precisa entrar para a história como o pior presidente que o Brasil já teve. Mesmo porque ele costumava dizer, publicamente no parlamento, que “a ditadura no Brasil matou pouco”, para compensar, ele deixou que mais de 260 mil brasileiros tivessem uma morte completamente indigna. Não satisfeito, exigiu sigilo de 100 anos para sua carteira de vacinação. Uma vergonha.
Até onde o “direito ao esquecimento” dará anistia a quem comete crimes, recorre e pede para que a nação esqueça?

A falta do que fazer que assola o governo

O Governo da República só tem uma ocupação: servir à estupidez, à vaidade e aos planos de perpetuação de Jair Bolsonaro no poder.

Sua principal atividade, hoje, é ir à praia aglomerar, confraternizar com seus eleitores no “cercadinho” do Alvorada, comer um cachorro quente no “Dogão da Ponte” JK, catar qualquer convite de festas de formatura de oficiais, suboficiais, sargentos, cabos e soldados, dar tchauzinho a motoristas em postos da Polícia Rodoviária Federal.

Ah, sim: há também a tarefa de fazer propaganda antivacina, a missão de arranjar encrenca com Joe Biden, elogiando Trump e o baderneiros do Capitólio, cuidar de liberar mais armas, de criar um arcabouço legal para tirar autoridade dos governadores sobre a PM e esperar a instalação do caos sanitário e social antes de tratar de algum suporte aos milhões que estão em dificuldades e ficarão em desespero.

É preciso não esquecer de alguns telefonemas: ao almirante da Anvisa para garantir que a provação da Coronavac se arraste e ao Ministro da Justiça para gastar tempo com uma “investigação” sobre os dois jornalistas que sugeriram que o presidente se suicidasse, logo ele que sugeriu que se matassem “uns 30 mil”…

E assim, sob a ínclita nulidade presidencial, sob a modorra do STF e no desengonçado balançar da “neo-oposição” legislativa, vamos tocando o país ao precipício, completamente inerte diante de uma tragédia, de uma fatalidade que, afinal, não é culpa senão da imprensa e do vírus.

Bolsonaro, depois de Temer, vai comprovando aquela frase triste, a de que nada está tão ruim que não se possa piorar.

Fernando Brito

Estudo conclui que Jair Bolsonaro do Brasil executou uma ‘estratégia institucional para espalhar o coronavírus’

Investigação da ONG Conectas Derechos Humanos e da Universidade de São Paulo buscou conhecer os motivos da mortalidade Covid-19 de mais de 212.000 vítimas no país, além de documentar as declarações do presidente sobre a pandemia, vacinas e polêmicas ‘curas’.

Sepultamento de vítima de coronavírus em Manaus, estado do Amazonas, Brasil.EDMAR BARROS / AP

A linha do tempo mais sombria da história da saúde pública no Brasil emerge de uma investigação das diretrizes emitidas pelo governo do presidente Jair Messias Bolsonaro em relação à pandemia Covid-19. Em um esforço comum realizado desde março de 2020, o Centro de Pesquisas e Estudos em Direito em Saúde Pública (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e a Conectas Direitos Humanos, uma das mais conceituadas justiça organizações da América Latina, coletaram e examinaram as regulamentações federais e estaduais relacionadas ao novo coronavírus, produzindo um documento intitulado Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Regras Legais em Resposta à Covid-19 no Brasil. No dia 21 de janeiro, eles lançaram uma edição especial com uma forte afirmação: “Nossa pesquisa revelou a existência de uma estratégia institucional de disseminação do vírus, promovida pelo governo brasileiro sob a liderança do Presidente da República”.

Obtido com exclusividade pelo EL PAÍS, a análise da produção de portarias, medidas provisórias, resoluções, instruções normativas, leis, decisões e decretos do governo federal, bem como um levantamento dos discursos públicos da presidente, traça o mapa que virou o Brasil em um dos países mais afetados pela Covid-19 e que, ao contrário de outras nações, ainda carece de um programa de vacinação com um calendário confiável. Não há como dizer quantas das mais de 212 mil mortes de Covid no Brasil poderiam ter sido evitadas se o governo liderado por Bolsonaro não tivesse executado um projeto com vistas à disseminação do vírus. Mas é razoável dizer que muitas pessoas ainda teriam suas mães, pais, irmãos ou filhos vivos hoje, não fosse a existência de um projeto institucional do governo brasileiro para disseminar o Covid-19.

Há uma intenção, um plano e um curso de ação sistemático contidos nas normas de governo e nos discursos de Bolsonaro, como mostra o estudo. “Os resultados dissipam a interpretação persistente de que houve incompetência e negligência do governo federal na gestão da pandemia. Ao contrário, a sistematização dos dados, embora incompleta pela falta de espaço para divulgação de tantos eventos, revela o compromisso e a eficiência do governo em favor da ampla disseminação do vírus em todo o território brasileiro, claramente afirmado como tendo o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo ”, diz o boletim da publicação. “Esperamos que este cronograma forneça uma visão geral de um processo pelo qual estamos passando de uma forma fragmentada e frequentemente confusa.”

A pesquisa foi coordenada por Deisy Ventura, uma das mais conceituadas juristas do Brasil, pesquisadora sobre as relações entre pandemias e direito internacional e coordenadora do programa de doutorado em saúde pública e sustentabilidade da USP; Fernando Aith, presidente do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP e diretor do CEPEDISA / USP, centro de pesquisa pioneiro em direito da saúde no Brasil; Camila Lissa Asano, Coordenadora de Programas da Conectas Direitos Humanos, e Rossana Rocha Reis, professora do Departamento de Ciências Políticas e do Instituto de Relações Internacionais da USP.

A linha do tempo é composta por três eixos apresentados em ordem cronológica, de março de 2020 aos primeiros 16 dias de janeiro de 2021. O primeiro são atos normativos da União, incluindo normas adotadas por autoridades e órgãos federais e por vetos presidenciais; o segundo, atos de obstrução às respostas dos governos estaduais e municipais à pandemia; e a terceira, propaganda contra a saúde pública, descrevendo-a como “um discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais, além de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o objetivo de desacreditar as autoridades de saúde pública, fragilizando a adesão da população aos conselhos de saúde com base em evidências científicas e promovendo ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter a propagação da Covid-19.”

Os autores do estudo observam que a publicação não inclui todos os regulamentos e afirmações coletadas e armazenadas no banco de dados da pesquisa, mas sim uma seleção deles, a fim de evitar o excesso e apresentar os mais relevantes para análise. Os dados foram selecionados a partir do banco de dados do projeto Direitos na Pandemia, a partir de jurisprudências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU), além de documentos e discursos oficiais. O eixo definido como “propaganda” também incluiu a busca no Google por vídeos, posts e notícias.

A análise mostra que “a maioria das mortes teria sido evitável com uma estratégia de contenção da doença, e que isso constitui uma violação sem precedentes dos direitos dos brasileiros à vida e à saúde”. E que isso ocorreu “sem que nenhum dos administradores envolvidos fosse responsabilizado, embora instituições como o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União tenham inúmeras vezes apontado condutas e omissões conscientes e deliberadas dos administradores federais que vão de encontro ao ordenamento jurídico brasileiro. ordem.” Também destaca “a urgência de uma discussão aprofundada da configuração dos crimes contra a saúde pública, crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade cometidos durante a pandemia Covid-19 no Brasil”.

Os atos e palavras de Bolsonaro são bem conhecidos, mas acabam se diluindo na realidade do dia a dia alimentada pela produção de factóides e notícias falsas, em que a guerra do ódio também é uma estratégia para encobrir um projeto consistente e persistente que forja à frente, visto que a temperatura das trocas é mantida em alto nível nas redes sociais. A publicação do relatório causa choque e mal-estar porque sistematiza a produção explícita de males postos em ação por Bolsonaro e seu governo ao longo de quase um ano de pandemia. Um dos maiores méritos da investigação é justamente ter articulado as muitas medidas oficiais e discursos públicos do presidente na linha do tempo. Desta análise meticulosa, surge o plano com todas as suas fases devidamente documentadas.

A análise também mostra claramente quais populações são os principais alvos dos ataques. Além dos povos indígenas, aos quais Bolsonaro até negou água potável, uma série de medidas foram tomadas para negar aos trabalhadores a chance de se proteger da Covid-19 e se isolar. O governo ampliou o conceito de atividades essenciais para incluir até os salões de beleza e tem procurado privar diversas categorias de trabalhadores do direito ao auxílio emergencial de R$ 600 concedido pelo Congresso. Ao mesmo tempo, tentou estabelecer um duplo padrão no tratamento dos trabalhadores da saúde: Bolsonaro vetou inteiramente um projeto que oferecia compensação financeira aos trabalhadores incapacitados como consequência de seu trabalho na contenção da pandemia, enquanto tentava aliviar o setor público trabalhadores de qualquer responsabilidade por atos e omissões relacionados à Covid-19. Resumindo: o trabalho árduo e de alto risco de prevenção e luta contra a pandemia é desencorajado, enquanto a omissão é estimulada.

Ao reter recursos destinados ao combate à Covid, o governo tem dificultado o atendimento aos pacientes nos sistemas públicos estaduais e municipais de saúde. Uma guerra constante é travada contra governadores e prefeitos que tentam implementar medidas de prevenção e combate ao vírus. O Bolsonaro usa o veto para anular até as medidas mais básicas, como o uso obrigatório de máscaras nos estabelecimentos autorizados a funcionar. Muitas de suas medidas e vetos foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ou pelo Congresso.

Este é outro ponto importante: a análise dos dados também destaca o quão mais trágica seria a situação do Brasil se o STF e outros órgãos não tivessem impedido várias das medidas de disseminação do vírus decretadas pelo governo. Apesar da fragilidade demonstrada pelas instituições e pela sociedade, é visível um esforço por parte dos principais atores para tentar neutralizar ou anular as ações do Bolsonaro. É possível projetar o quanto esses esforços, somados e associados a um governo que se dispunha a prevenir a doença e combater o vírus, poderiam ter feito para prevenir mortes em um país que possui o Sistema Único de Saúde (Sistema Único de Saúde). SUS). Em vez disso, Bolsonaro desencadeou uma guerra em que grande parte da energia das instituições e da sociedade organizada foi desperdiçada para reduzir os danos causados ​​por suas ações, em vez de se concentrar no combate à maior crise de saúde pública em um século.

Quase um ano depois do primeiro caso de Covid-19, ainda não se sabe se as instituições e a sociedade não coniventes com o Bolsonaro serão fortes o suficiente, diante do mapa das ações institucionais de disseminação do vírus, para finalmente colocar uma parada para os agentes que disseminam o vírus. O uso da máquina estatal para promover a destruição foi decisivo para trazer à tona a realidade atual de mais de mil sepulturas cavadas todos os dias para pessoas que ainda poderiam estar vivas. Mais de 60 pedidos de impeachment do presidente foram apresentados ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). Pelo menos três pedidos foram enviados ao Tribunal Penal Internacional ligando o genocídio e outros crimes contra a humanidade às ações de Bolsonaro e membros de seu governo em relação à pandemia. As próximas semanas serão decisivas para os brasileiros afirmarem quem são e como responderão às gerações futuras quando questionados sobre o que estavam fazendo enquanto tantas pessoas morriam de Covid-19.

Bolsonaro parece ter raiva dos mortos pela covid-19, afirma Mandetta


Mandetta considera gestão do governo desastrosa no combate à pandemia – Marcello Casal Jr./ABrMarcello Casal Jr./ABr

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta deu nota 3, de 0 a 10, para o governo Bolsonaro ao avaliar a condução do Executivo no enfrentamento da pandemia de covid-19. Em entrevista ao jornal O Globo, Mandetta disse que o presidente tem atuação desastrosa na crise, que demonstra mais apreço pela economia do que pela vida das pessoas e parece ter raiva dos brasileiros que perderam a vida para o vírus.

“O número de mortes fala por si. Ele (Bolsonaro) teve uma condução desastrosa. A desautorização do ministro em público, ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’; o ‘e daí?’; ‘não sou coveiro’; ‘gripezinha’; ‘está no final’. Está no final nada.

Se teve alguma coisa digna de nota eu não saberia te citar. Nós conseguimos ativar a indústria brasileira de respiradores, foi uma coisa que conseguimos fazer quando eu estava lá, conseguimos abrir 15 mil leitos de UTI, que é uma coisa positiva.

Agora, eles deixaram 7 milhões de kits no almoxarifado. O governo federal deixou as pessoas à própria sorte. Não vi nem sequer se solidarizar com quem perdeu um membro da família. É quase como se tivessem raiva das pessoas que morreram. Quem morreu é culpado.”

Para Mandetta, Bolsonaro militarizou o Ministério da Saúde e abriu uma crise tripla: “de prevenção, atendimento e vacina”. O ex-ministro considera que o titular da pasta, o general Eduardo Pazuello, não conhece nada da área.

“Ele falou várias vezes que entre a saúde e a economia, ele ia ficar com a economia. E a população começou a construir as suas linhas de defesa sem contar com a liderança da figura maior do governo. Vimos o Ministério da Saúde falando uma coisa e ele falando outra.

Ele começou a criticar todo e qualquer prefeito e governador que fizesse qualquer coisa para diminuir a velocidade de transmissão para não carregar o sistema de saúde, que era o principal problema da doença. Depois ele me troca, coloca um médico. É impossível para um médico com base científica fazer política de governo, firmar uma recomendação, uma prescrição médica.

Aí ele põe um militar para oferecer ordem. Faz uma intervenção militar na Saúde, mas um militar não tem a menor noção do que é Saúde. A gente passa a ter um governo federal que sai completamente do enfrentamento da Saúde e com o argumento de que o problema era de logística. Nunca foi, o problema era de Saúde pública, muito mais complexo do que carregar caixa para lá e para cá. E agora tem uma crise tripla, de prevenção, atendimento e vacina.

Mandetta, que foi demitido após confrontar o presidente ainda no início da pandemia, admite que esperava que o vírus não se propagaria de forma tão acelerada.

“Gostaria muito de ter tido melhor percepção, porque quando a China apresentou a doença, eles apresentaram como um vírus pesado, que se você identificasse a pessoa e bloqueasse os contatos dela, ele parava (de disseminar). A gente se preparou com essas informações para um vírus lento. Somente quando ele entrou na Itália, que fez aquele estrago no sistema italiano, e foi fazendo estrago na Inglaterra, na Espanha e se mostrou extremamente capaz de transmitir, é que vimos que estávamos diante de um vírus extremamente competente. Se eu soubesse que era um vírus tão competente em termos de transmissão, teria feito um sobredimensionament

Ramagem, chefe da Abin, enviou relatórios clandestinos a Flávio Bolsonaro

Dono de temperamento mercurial, o presidente Jair Bolsonaro estava irascível nas primeiras semanas de agosto, na esteira da revelação de Crusoé a respeito dos cheques no valor de 89 mil reais depositados por Fabrício Queiroz e pela mulher dele na conta da primeira-dama Michelle. Àquela altura, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro cumpria prisão domiciliar e o advogado Frederick Wassef, que defendia o filho 01 do presidente, havia deixado a causa após a polícia descobrir que ele escondia Queiroz em sua casa em Atibaia, no interior de São Paulo. O caso tinha voltado com toda força ao noticiário e Bolsonaro estava ensandecido com a ampla exposição negativa de Michelle.

Dois dias após ameaçar encher “a boca” de um jornalista “na porrada”, por tê-lo questionado a respeito dos pagamentos efetuados à primeira-dama, o presidente topou receber no Palácio do Planalto as duas advogadas que haviam assumido a defesa de Flávio — o senador não compareceu porque havia contraído Covid-19. A ideia era discutir um novo plano de ação que pudesse anular as provas obtidas pelo Ministério Público do Rio no esquema de rachid, que teria desviado 6 milhões de reais dos cofres da Assembleia Legislativa fluminense.

Para o encontro, que ocorreu no dia 25 de agosto sem nenhum registro na agenda oficial, Bolsonaro convocou o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, e Alexandre Ramagem, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, aparato estatal criado há 21 anos para municiar o presidente da República de informações estratégicas a fim de proteger o estado.

Uma reunião extraoficial envolvendo o chefe da Abin e um ministro para tratar de assuntos particulares do filho do presidente por si só já configuraria o completo achincalhe de Bolsonaro aos princípios basilares da administração pública, como o da impessoalidade, mas o desenrolar dessa trama transformou o episódio em um escândalo que rompe o limite da legalidade. Já se sabia que depois desse encontro, conforme mostrou a Revista Época na sexta-feira, 11, dois relatórios clandestinos que teriam sido produzidos dentro da agência de inteligência do governo contendo orientações sobre as ofensivas necessárias para anular as provas do Caso Queiroz haviam sido encaminhados a Flávio Bolsonaro via WhatsApp, um no dia 20 de setembro e outro em 8 de outubro. Na sequência, os documentos informais foram repassados para as advogadas do senador.

Nos últimos dias, Crusoé teve acesso às duas mensagens e confirmou com uma fonte primária do caso o que até agora não havia sido revelado: o material clandestino foi enviado diretamente pelo próprio diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, ao filho 01 de Bolsonaro. A informação é de extrema importância e gravidade no momento em que o governo, sob os olhares do STF, mobiliza-se para tentar esvaziar a tese de que os relatórios foram confeccionados por um órgão de estado que, sem o menor pudor e de maneira clandestina, extrapolou os seus limites legais para atender a um pedido pessoal do presidente da República em benefício de seu filho enrolado na Justiça.

O próprio procurador-geral da República, Augusto Aras, reconheceu a gravidade do episódio, a despeito da ressalva de que “precisaria ser provado”. Cabe a ele investigar. Se o fizer, conhecerá o que a Crusoé contará em detalhes a seguir: como funciona a estrutura paralela, o tal “sistema particular de informações” montado por Bolsonaro na Abin. E também saberá por que a ação forjada no interior da agência de inteligência para ajudar a defesa de Flávio Bolsonaro no caso do rachid aparentemente não deixou rastros.

PS: No início da semana, o DCM adiantou que a defesa de Flávio Bolsonaro recebeu mensagens por WhatsApp com o resultado do trabalho produzido por um agente da PF que fez a segurança de Bolsonaro no dia da facada em Juiz de Fora, hoje ocupa cargo de confiança na Abin, e é próximo de Carlos Bolsonaro. Foi um trabalho daquilo que Gustavo Bebianno chamou de Abin paralela.

O plano de Bolsonaro para a vacinação nunca existiu

Governo primeiro mentiu e depois admitiu que não tem plano contra efeitos econômicos e sanitários do coronavírus.

HÉLIO RODAK é um leitor do Intercept. Em maio deste ano, ele procurou o sistema de acesso à informação do governo federal com um pedido simples: uma cópia do plano nacional para tratar os efeitos sanitários e econômicos da pandemia de covid-19. Começava naquele dia uma saga que se estendeu pelos quatro meses seguintes, até culminar com o governo pego na mentira.

Agora, Rodak resolveu dividir o que descobriu com a gente. Seu pedido foi feito, primeiro, à Presidência da República; de lá, foi direcionado à Casa Civil. A primeira resposta do governo Bolsonaro veio no dia 8 de junho: algumas das informações que Rodak pediu seriam “documentos preparatórios”. Assim, não poderiam ser fornecidos – naquele momento, a pandemia já havia matado quase 40 mil brasileiros.

A Casa Civil argumentou que seria preciso aguardar a “edição do ato decisório” para que as informações pudessem ser entregues “devido ao risco de frustrar a própria finalidade em caso de divulgação antecipada”. A resposta ainda incluiu alguns links com ações isoladas e uma notícia sobre a apresentação do programa Pró-Brasil, uma iniciativa “proativa” do governo para reduzir os impactos com foco no período pós-pandemia.

Se você não sabe o que é essa iniciativa “proativa” (adoro gente que se autointitula proativa, como se não fosse mais do que a obrigação do governo pensar em soluções para a população diante da tragédia humanitária que estamos enfrentando), te convido a dar uma olhada no PDF tosco que apresentou a iniciativa. Nenhum detalhe, nenhum planejamento, nada, né? Pois é.

Rodak também não se satisfez e recorreu da primeira negativa no dia 15 de junho. A resposta veio uma semana depois: negado. Mais uma vez, o governo Bolsonaro empilhou links de iniciativas isoladas do comitê de crise e mencionou o proativo Pró-Brasil. Nada do plano nacional. Rodak insistiu. “Aquilo que me foi apresentado não se trata de um plano, mas de uma página de divulgação das ações já realizadas pelo governo”, ele justificou ao entrar com o recurso na segunda instância.

Uma semana depois veio a nova negativa: “a documentação a que se pretende acesso possui restrição especial, de caráter temporário”, justificou a Casa Civil. “Nesse momento é muito importante zelar pela segurança jurídica e pela confiança dos administrados. Assim, a restrição temporária se dá em harmonia com os interesses públicos do Estado em prol de toda a sociedade, como a segurança pública, a celeridade e a economicidade da administração pública”, disse o governo. Enquanto isso, o Brasil acumulava quase 60 mil mortes. A resposta ainda aproveitou para empilhar mais links e mencionar, pela terceira vez, o Pró-Brasil, o PDF proativo do governo.

Esse é um dos quatro slides de apresentação do Pró-Brasil. Plano? Não tem. Só isso aí mesmo.

Rodak, então, recorreu de novo – e, como determina a Lei de Acesso à Informação, a partir desta linha quem arbitra é a Ouvidoria-Geral da União, ligada à Controladoria-Geral da União. Nosso leitor argumentou o que parece óbvio: àquela altura, o Brasil já era o segundo país do mundo com mais mortes pelo novo coronavírus. Qual era a justificativa para que o tal plano continuasse sigiloso?

A resposta veio desta vez, no dia 3 de setembro: o recurso não poderia ser atendido porque… a informação não existe. “Em que pese as justificativas outrora formuladas, cumpre elucidar que não há especificamente um ‘plano nacional utilizado para tratamento dos efeitos econômicos e sanitários causados pela pandemia’ para que dele seja fornecida cópia”, respondeu o governo. Foi só na última instância que o leitor soube, e agora todos sabemos, que simplesmente não há um plano nacional para tratar os efeitos sanitários e econômicos da pandemia de covid-19.

Trocando em miúdos: apesar de ter negado e tentado enrolar, admitiu, por fim, que a informação que o nosso leitor queria – e todos nós – simplesmente não existe.

Trecho do parecer da CGU em que o governo enfim admite sua incompetência.

O governo afirmou que a crise é tratada por “estruturas temporárias e dinâmicas” criadas especificamente para esse fim. Também explicou que cada ministério tem suas próprias ações e programas para lidar com a pandemia – e que, se quisesse, Rodak teria de pedir a cada uma das áreas do governo os planos específicos. Articulação central? Planejamento? Nada.

A própria ouvidoria entendeu que o governo modificou seu argumento ao longo das respostas: primeiro disse que o plano estava em “documentos preparatórios” e depois falou em “restrição especial” até que, enquadrado, assumiu que eles não existem.

Não por acaso, o governo Bolsonaro já é recordista de negativas de acesso à informação: só pouco mais da metade dos pedidos é atendida. É o pior índice desde 2012, quando a lei entrou em vigor. Mas o nosso leitor, que não é jornalista, insistiu e pegou o governo menos transparente da história recente do país no pulo – e achamos que vocês fossem gostar de saber disso.

O Brasil já tem 157 mil mortes por covid-19 e está no quarto lugar no ranking de óbitos proporcionais à população, atrás apenas de Bolívia, Bélgica e Peru. A economia também deve retroceder 5,8% em 2020 – e o Brasil ainda bateu o recorde de desemprego, 13,8%, maior número desde o início da série histórica em 2012. Bolsonaro não salvou vidas e nem empregos. Agora vocês já sabem: o plano para isso nunca existiu.

Empresa que fez lista dos “detratores” só tem o governo Bolsonaro como cliente

BR+ Comunicação, contratada para elaborar uma lista de jornalistas e formadores de opinião chamando-os de “detratores”, tem apenas um único cliente: o governo Jair Bolsonaro.Bolsonaro,Brasil,COAF,Corrupção

A empresa destaca ter como clientes os ministérios do Desenvolvimento Regional (MDR), da Saúde, Cidades, Ciência e Tecnologia, e Turismo no site oficial. Eles também listam a Integração Nacional, mas a pasta foi incorporada pelo MDR.

A BR+ Comunicação, do publicitário Edson Campos, se ocupa da comunicação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) desde 2018 e está disputando uma outra licitação do MDR, no valor de R$ 8,7 milhões. Essa utilização da empresa para elaborar uma lista de “detratores’ do ministro da Economia, Paulo Guedes, e consequentemente do governo Jair Bolsonaro, tem como base um contrato assinado em 2018 com o MCT, comandado por Márcio Pontes.

No início de novembro, o MCT assinou um terceiro termo aditivo, de R$ 2,69 milhões, elevando para R$ 10,7 milhões o valor pago à BR+ Comunicação. A empresa também celebrou contratos temporários com o governo por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional, que tem Rogério Marinho à frente da pasta, através de um Termo de Execução Descentralizada (TED). O mecanismo foi regulamentado pelo Ministério da Economia em setembro deste ano e o expediente foi utilizado pela equipe econômica para contratar a assessoria que elaborou o “Mapa de Influenciadores” que devem ser monitorados.

As informações são de uma reportagem do site de extrema direita O Antagonista.