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Aquecimento global: 7 gráficos que mostram em que ponto estamos

As geleiras do mar Ártico diminuíram nos últimos anos

As mudanças climáticas devem causar grandes transformações em todo o mundo: o nível do mar vai subir, a produção de alimentos pode cair e algumas espécies talvez sejam extintas.A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o mundo precisa limitar o aumento da temperatura média global a menos de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais.Mas, de acordo com os cientistas, cumprir a meta de 1,5 °C exige “mudanças rápidas, de longo alcance e sem precedentes” em todos os aspectos da sociedade.

Afinal, o quão quente o mundo está e o que pode ser feito?

1. O mundo está mais quente

O planeta está agora quase um grau mais quente do que estava antes do processo de industrialização, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Como a temperatura dos anos se compara com a média do séc. 20

Os 20 anos mais quentes foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking, diz a OMM.

Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir entre 3ºC e 5ºC até 2100.

Um grau pode não parecer muito, mas, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), se os países não tomarem uma atitude, o mundo enfrentará mudanças catastróficas — o nível do mar vai subir, a temperatura e a acidez dos oceanos vão aumentar e a nossa capacidade de cultivar alimentos como arroz, milho e trigo estaria ameaçada.

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2. 2019 bateu todos os recordes

Quase 400 temperaturas recordes foram registradas no Hemisfério Norte durante o verão de 2019.

Os recordes foram alcançados em 29 países entre 1º de maio e 30 de agosto. Um terço das temperaturas mais altas de todos os tempos foi registrada na Alemanha, seguida por França e Holanda.

Esses recordes europeus foram registrados em meio a ondas de calor em todo o continente que provocaram um aumento nas temperaturas médias em junho e julho.

Durante o período indicado no mapa abaixo (de maio a agosto de 2019), os pontos amarelos mostram onde e quando um recorde de calor foi quebrado, o rosa indica os lugares mais quentes naquele mês, e o vermelho escuro representa os locais mais quentes desde o início dos registros.

As temperaturas mais altas destas regiões

Datas

Fonte: Robert A. Rohde/Berkeley Earth. Mapa criado em Carto

Mais de 30 recordes foram registrados nos EUA, de acordo com os dados do Berkeley Earth. No Japão, onde 11 pessoas morreram em decorrência da onda de calor no verão, foram quebrados 10 recordes de temperatura.

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3. Não estamos no caminho de atingir as metas de mudança climática

Se somarmos todas as promessas para reduzir emissões de gases que provocam efeito estufa pelos países que assinaram o Acordo de Paris, o mundo ainda esquentaria em mais de 3°C até o fim deste século.

Gráfico média de aquecimento global
Nos últimos três anos, climatologistas mudaram a definição do que acreditam ser o limite “seguro” da mudança climática.

Por décadas, pesquisadores argumentaram que o aumento da temperatura global devia ser mantido abaixo de 2°C até o fim deste século para evitar consequências mais graves.

Os países que assinaram o acordo de Paris se comprometeram a manter as temperaturas “bem abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.

Mas a comunidade científica concorda agora que, na verdade, precisamos manter os aumentos de temperatura abaixo de 1,5°C.

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4. Os maiores emissores são a China e os EUA

Os países que emitem mais gases de efeito estufa são, de longe, a China e os EUA. Juntos, eles são responsáveis por mais de 40% do total global de emissões, de acordo com dados de 2017 do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia e da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL).

Gráfico emissores de CO2

A conduta ambiental dos EUA mudou sob o governo de Donald Trump, que adotou uma política pró-combustíveis fósseis.

Depois de tomar posse, o presidente americano anunciou a retirada do país do Acordo de Paris.

Na ocasião, Trump disse que queria negociar um novo acordo “justo” que não prejudicasse empresas e trabalhadores americanos.

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5. As áreas urbanas são particularmente ameaçadas

Quase todas as cidades — 95% delas — que enfrentam riscos climáticos graves estão na África ou na Ásia, segundo um relatório da Verisk Maplecroft, consultoria de estratégia e risco.

E o risco é maior para cidades com crescimento mais rápido, incluindo megacidades como Lagos, na Nigéria, e Kinshasa, na República Democrática do Congo.

Cerca de 84 das 100 cidades que mais crescem no mundo enfrentam riscos “extremos” de aumento das temperaturas e de fenômenos climáticos extremos.

Cidades em rápida expansão enfrentam piores riscos climáticos
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6. Gelo do Ártico também está ameaçado

A extensão do gelo do mar do Ártico diminuiu nos últimos anos. Em 2012, chegou ao nível mais baixo já registrado.

Gráfico gelo no Ártico

As geleiras vêm diminuindo há décadas, com a aceleração do derretimento desde o início dos anos 2000, de acordo com o Comitê de Auditoria Ambiental do Parlamento do Reino Unido.

O Oceano Ártico pode ficar sem gelo no verão antes de 2050, a menos que as emissões sejam reduzidas, acrescenta o comitê.

A extensão do gelo do mar Ártico em 2019 foi a segunda menor já registrada por satélite, empatando com a de 2007 e 2016.

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7. Todo mundo pode fazer algo para ajudar

Enquanto os governos precisam fomentar grandes mudanças, indivíduos também podem fazer sua parte.

Os cientistas dizem que todos nós temos de adotar “mudanças rápidas, abrangentes e sem precedentes” no nosso estilo de vida, a fim de evitar danos mais severos ao clima.

O IPCC recomenda uma redução no consumo de carne, leite, queijo e manteiga; comer mais alimentos sazonais de origem local — e desperdiçar menos; dirigir carros elétricos, mas caminhar ou pedalar distâncias curtas; pegar trens e ônibus em vez de aviões; substituir viagens de negócios por videoconferências; usar varal em vez de máquina de secar roupa; aprimorar o isolamento térmico das casas; exigir bens de consumo com baixo teor de carbono.

Mas a maneira mais eficaz de se reduzir o próprio impacto ambiental no planeta é mudar a dieta, com menos menos carne — de acordo com estudos recentes.

Gráfico mostra impacto dos alimentos

Cientistas dizem que devemos consumir menos carne por causa das emissões de carbono que essa indústria produz, entre outros impactos ambientais negativos.

Um estudo recente publicado na revista científica Science destacou uma enorme variação no impacto ambiental na produção de um mesmo alimento.

O gado de corte criado em terras desmatadas, por exemplo, produz 12 vezes mais emissões de gases de efeito estufa que o criado em pastagens naturais.

Em resumo, o estudo mostra que mesmo a carne com o menor impacto ambiental ainda gera mais emissões de gases de efeito estufa do que o cultivo de hortaliças e cereais de maneira sustentável.

Mas, além de alterar nossas dietas, a pesquisa indica ser preciso mudar radicalmente as práticas agrícolas para beneficiar o meio ambiente.

Por Nassos Stylianou, Clara Guibourg, Daniel Dunford, Lucy Rodgers, David Brown e Paul Rincon.

Plástico,Meio Ambiente,Poluição,Blog do Mesquita

Como o plástico está tornando comunidades da América Central inabitáveis

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Josua Dubón García, funcionário do Conselho Nacional de Áreas Protegidas da Guatemala, caminha em uma praia na foz do rio Motagua, na costa do Caribe, em 1º de outubro de 2018. Foto: Celia Talbot Tobin

OS PESCADORES ESTÃO com as pernas até a altura das coxas imersas na água barrenta quando nosso barco se aproxima da costa, a grama roçando o casco. É uma manhã quieta e fresca, e a névoa esconde o rio quando o sol começa a subir acima das árvores. Na praia, uma garça branca se ergue no raso e alça voo em uma explosão de som quando os pescadores levantam a rede para revelar sua captura brilhante. Ao lado deles, semissubmersa, uma garrafa de refrigerante de plástico aponta na direção do mar.

Quando piso na praia, noto mais pedaços de plástico entre os juncos, meio enterrados na lama, além de retalhos de tecido manchados, pedaços de espuma de embalagem, uma única sandália de plástico rachada. Logo depois, o rio Motagua, na Guatemala, desagua no Caribe, levando consigo um carregamento diário de detritos lavado de lixões superlotados e aterros clandestinos a centenas de quilômetros rio acima.

Hendrik, um jovem funcionário do departamento de áreas protegidas do país, fez uma excursão comigo e alguns colegas no final de 2018. No último ano, trabalhadores empregados pelo ministério do meio ambiente estavam limpando esse trecho de praia, carregando carrinhos de mão com muito lixo, mas mesmo assim a areia está coberta por um mosaico de pedaços coloridos de plástico. “É um esforço constante”, diz Hendrik. Por mais lixo que tirem, o rio sempre traz mais para substituí-lo.

1EL QUETZALITO

Os moradores de El Quetzalito são encarregados de manter as “biocercas” recentemente instaladas pelo governo, que atuam como barreiras superficiais para impedir que o lixo flutuante chegue à foz do rio ao desaguar no Caribe.

Os moradores de El Quetzalito são encarregados de manter as “biocercas” recentemente instaladas pelo governo, que atuam como barreiras superficiais para impedir que o lixo flutuante chegue à foz do rio ao desaguar no Caribe. Foto: Celia Talbot Tobin

A CIDADE fica no final de uma estrada de terra que passa por intermináveis fileiras de bananeiras e palmeiras, a poucos quilômetros da fronteira da Guatemala com Honduras. Um pouco além das casas situadas na margem do Motagua, o rio vira à direita para um beco que vai até o Caribe em uma nuvem lamacenta de sedimentos e detritos.

Embora a pequena comunidade, habitada por apenas cerca de 305 pessoas, esteja a quase 300 quilômetros da movimentada capital, cheia de gases, o lixo da cidade passa flutuando e chega às praias todos os dias. Em 2016, imagens de um grande deslizamento de lixo no lixão da Cidade da Guatemala que teria provocado a morte de três catadores e brevemente chamado a atenção internacional para as condições insustentáveis no local. Mas com infraestrutura sobrecarregada ou inexistente em toda a Guatemala, a estação das chuvas leva regularmente grandes quantidades de materiais descartados de muitos lixões para os rios todos os anos.

Com poucos aterros adequadamente contidos na Guatemala, a estação das chuvas leva grandes quantidades de materiais dos lixões para os rios.

“É algo que vem acontecendo há um tempo”, diz Marco Dubón, conhecido como Marquito. Durante a infância e adolescência, ele não se lembra de uma época em que o rio não estivesse cheio de lixo. Nos últimos anos, no entanto, ficou muito pior.

Em 2017, ameaçado por um processo de Honduras pelas praias poluídas, o ministro do Meio Ambiente da Guatemala apresentou um dispositivo que ele chamou de “biocerca”. Feito de garrafas plásticas vazias amarradas com uma rede de plástico, a barragem flutuante projeta-se da costa para a corrente principal do rio em ângulo, canalizando o lixo para o lado antes que ele chegue ao mar.

A cerca biológica foi instalada perto de El Quetzalito, e um pequeno grupo de moradores, supervisionado por Marquito, foi contratado para remover o lixo capturado pela barreira. Eles também trabalhariam para limpar a praia pouco depois da cidade e, com sorte, causar algum impacto na poluição geral.

Esquerda/acima: Cadáver de vaca inchado chega à praia na foz do Motagua, onde o rio deságua no Caribe. Direita/abaixo: Montes de plástico e isopor se acumulam nas praias da Guatemala, cheias de tudo: da esperada garrafa de refrigerante até pentes, escovas de dentes, Crocs, bonecos de ação, seringas e bolsas intravenosas.Fotos: Celia Talbot Tobin

Numa segunda-feira de setembro de 2018, quando a visitamos, havia uma série de garrafas de plástico e paus flutuantes presos na curva da biocerca. A superfície parece sólida, mas ondula-se contra o casco do barco amarrado ao lado da margem. No momento, não há muita coisa descendo o rio, explicou Marquito, mas o lixo voltará com as chuvas. “Quando está cheio, praticamente dá para caminhar sobre ele”, diz.

No momento, os trabalhadores se concentram na praia, um rápido passeio de barco rio abaixo. É cedo, mas o sol já está forte. Uma fogueira de madeira encharcada e detritos não identificáveis envia ondas de vapor e fumaça pela praia, mas a maior parte do que os trabalhadores juntam vai para sacos grandes para serem transportados de volta à cidade, ao centro de reciclagem. Lá, vidro e plástico limpos serão separados, e todo o resto, compactado em combustível para os fornos de incineração de uma empresa de cimento.

Os trabalhadores recebem cerca de 2,8 mil quetzales por mês, um pouco menos de US$ 400. O trabalho não é agradável, mas é mais estável do que a pesca. Carlos René Ortega diz que prefere trabalhar na praia a limpar a biocerca ou separar o lixo no calor do abafado centro de reciclagem com telhado de zinco. Na praia, há uma brisa perto do meio-dia. E, quando trabalham na biocerca, os trabalhadores precisam entrar na água para remover o lixo. “Nós nos revezamos”, explicou ele, “mas depois de três ou quatro horas, saímos com coceira”.

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Uma pequena equipe de cerca de 16 moradores de El Quetzalito foi contratada pelo governo guatemalteco para limpar manualmente as praias com ancinhos e carrinhos de mão, a última barreira entre o lixo do resto do país e o oceano. Do canto superior esquerdo estão Carolina Ortega, Carlos René Ortega, Izak Dubón e Miguel López.Fotos: Celia Talbot Tobin

“Dez anos atrás, era incrível pescar aqui”, diz Izak Dubón, fazendo uma pausa para plantar sua pá na areia. “Dava para pegar peixes grandes e realmente ganhar dinheiro.” Izak, 20 anos, é alto e magro, com uma voz surpreendentemente profunda por trás do lenço azul que amarrou sobre a boca e o nariz. Ele costumava pescar com o pai, mas agora sente que não tem outra escolha senão trabalhar para ministério do meio ambiente. “Este é um ótimo país”, diz. “Se não tivéssemos toda essa contaminação, teríamos turismo.”

À tarde, pegamos o barco pela foz do rio até a praia em frente. Ali, ninguém removeu nada do lixo que agora está empilhado em dunas tão grandes que impossibilitam que se veja a areia. Há uma TV está meio enterrada no lixo. No outro extremo da praia, a carcaça de uma vaca com as patas esticadas rola na borda da superfície, inchada e brilhante, com um abutre curvado sobre ela.

Marquito, parado entre as pilhas de plástico e madeira, tem uma expressão indecifrável. Baixinho, como que falando sozinho, diz: “Tem trabalho aqui para anos”.

2RIO ACIMA

O único aterro oficial da Guatemala, localizado na capital movimentada do país, com 3 milhões de habitantes, é o maior da América Central.

O único aterro oficial da Guatemala, localizado na capital do país, com 3 milhões de habitantes, é o maior da América Central.

Foto: Celia Talbot Tobin

DESDE QUE O PRIMEIRO plástico sintético apareceu em 1907, produzimos 8,3 bilhões de toneladas, 5 bilhões das quais ainda estão espalhadas pelo mundo, não mais em uso, mas sem perspectiva de desaparecerem tão cedo. Em todo o mundo, países com economias em desenvolvimento, como a Guatemala, são a principal fonte de plástico oceânico. Embora países de alta renda, como os EUA, consumam a uma taxa mais alta – e, portanto, joguem fora muito mais plástico per capita –, os países menos desenvolvidos geralmente não têm infraestrutura para reciclagem ou eliminação adequada de resíduos, o que significa que muito mais do seu lixo acaba no oceano.

Em 2017, os pesquisadores descobriram que 90% do plástico marinho foi levado aos oceanos por apenas 10 rios, incluindo o Yangtze, o Nilo e o Ganges. Eles são as vias navegáveis de algumas das áreas mais populosas do mundo e, como resultado, carregam enormes quantidades de lixo plástico. Como o Motagua, podem ter infraestrutura mínima para tratamento de água ou disposição de resíduos. No total, entre 5 e 12 milhões de toneladas de plástico fluem da terra para o mar todos os anos.

Com o rio contaminado demais para ser usado para fornecimento de água potável ou irrigação, as comunidades ao longo do rio ficam presas a um cenário cada vez mais fechado de escassez e poluição.

O custo desses rios altamente poluídos também é alto em terra.

“Olhando para o mapa, a Guatemala deveria ter água em abundância”, explicou Gerardo Paiz em seu escritório na organização sem fins lucrativos Madre Selva – ou Mãe Floresta –, onde trabalha como ativista e porta-voz. Ele aponta para um mapa topográfico de aparência exuberante do país enquanto explica o que toda aquela paisagem de selva e montanha esconde. O Motagua percorre cerca de 480 quilômetros, cruzando a maior parte do istmo da América Central, mas, segundo Paiz, quase toda a contaminação ocorre em cerca de um terço de seu comprimento, onde ele se junta a afluentes que transportam esgoto, escoamento industrial e lixo da cidade da Guatemala.

O lixo se acumula em uma entrada nos arredores de Puerto Barrios, na Guatemala.

O lixo se acumula em uma entrada nos arredores de Puerto Barrios, na Guatemala.

Foto: Celia Talbot Tobin

Paiz diz que não há estações de tratamento de água públicas no país. As poucas estações de tratamento de águas residuais existentes são caras e difíceis de manter, e muitas não estão mais funcionando. Nos últimos anos, vários projetos financiados internacionalmente para construir novas infraestruturas de águas residuais foram suspensos, possivelmente como resultado do governo da Guatemala, atingido por escândalos. Enquanto isso, esgoto e detritos não tratados fluem desimpedidos para o rio.

Para os estados de El Progreso e Zacapa, situados rio abaixo, a água está se tornando um problema maior. Esses estados ficam ao longo do “corredor seco” da Guatemala, uma região agrícola que foi duramente atingida pelas mudanças climáticas e pela seca na última década. Com o rio contaminado demais para ser usado para fornecimento de água potável ou irrigação, as comunidades ao longo do rio ficam presas a um cenário cada vez mais fechado de escassez e poluição. Esses problemas ambientais, agravados pela violência, a corrupção e a pobreza, estão entre os fatores que motivaram mais de 116.808 guatemaltecos a tentarem atravessar a fronteira dos EUA em 2018.

Quanto ao plástico, não é difícil acompanhar o problema de volta à sua origem.

“A indústria do plástico está se movendo agressivamente para aumentar a produção”, explica Judith Enck, ex-administradora regional da Agência de Proteção Ambiental dos EUA e professora de políticas públicas no Bennington College. Um relatório de 2016 previu que a produção de plástico dobraria nos próximos 20 anos. Enck aponta que, apesar da má repercussão recente em relação a plásticos nos EUA, as empresas petroquímicas ainda estão planejando novas fábricas para transformar subprodutos da fraturamento em plástico. “Eles estão apenas avançando com literalmente dezenas de novas fábricas nos Estados Unidos.”

“Grandes empresas estão lançando muitos produtos que sabem que não têm chance de serem reciclados. E eles estão sendo vendidos em locais com pouco acesso a aterros sanitários.”

Isso dá às empresas um forte incentivo para vender mais plástico nos países em desenvolvimento, onde as economias em crescimento proporcionaram novos mercados para produtos plásticos baratos e descartáveis. Em um mercado em Puerto Barrios, pequena cidade a cerca de 40 minutos de El Quetzalito, bancas exibem camisas de futebol e camisetas baratas embrulhadas em plástico, bonés de beisebol de malha de espuma e plástico, brinquedos em cores neon, sandálias e calçados baratos e muito mais.

Uma fonte grande e crescente de resíduos de plástico é a embalagem, especialmente os pacotes de folhas laminadas frequentemente usados para alimentos e outros produtos de uso único, como sabonete ou xampu. Eles são populares em economias emergentes como a América Central e a Ásia, observa Enck, porque pode ser acessível às pessoas comprar pequenas quantidades de um produto em vez de uma garrafa inteira. Mas esses materiais, feitos de plásticos especializados e folhas laminadas juntas, raramente são recicláveis.

“Grandes empresas estão lançando muitos produtos que sabem que não têm chance de serem reciclados”, diz Enck. “E eles estão sendo vendidos em locais com pouco acesso a aterros sanitários.”

Em outras palavras, com as atividades normais atuais, empresas projetam e produzem materiais não biodegradáveis e não recicláveis que serão usados uma vez e depois descartados para fluir diretamente para o oceano.

3BARRANDO O FLUXO

Em 26 de setembro de 2018, trabalhadores separam tipos de papel em uma instalação de recolhimento na Cidade da Guatemala, onde os materiais são separados e organizados antes de serem enviados para reciclagem.

Em 26 de setembro de 2018, trabalhadores separam tipos de papel em uma instalação de recolhimento na Cidade da Guatemala, onde os materiais são separados e organizados antes de serem enviados para reciclagem.

Foto: Celia Talbot Tobin

“COMO RESOLVER a poluição plástica na sala de reuniões em vez das praias?”, foi a pergunta feita por Luisa Santiago, líder da América Latina para a iniciativa New Plastics Economy, nova economia de plásticos, da Ellen MacArthur Foundation. Reciclar não é a resposta, diz ela. Apenas 9% dos plásticos produzidos atualmente são reciclados, e a maior parte desse material só pode ser reciclada uma vez antes de também ser enviada para a aterro ou lixão.

“Entendemos que lidar com o lixo é parte do problema, mas a poluição do plástico realmente precisa ser resolvida rio acima”, afirma Santiago. Isso significa trabalhar com governos e a indústria para encontrar melhores soluções para os problemas que os plásticos de uso único devem solucionar. A organização de Santiago publicou uma análise em 2016 que constatou que de US$ 80 bilhões a US$ 120 bilhões desaparecem da economia todos os anos na forma de embalagens plásticas de uso único que nunca são recicladas.

Ao fazer um argumento econômico contra o plástico e em direção a uma economia mais circular, a organização de Santiago espera obrigar a indústria a mudar de maneira sistemática, em vez de confiar nos consumidores para tentar fazer escolhas individuais dentro de um sistema defeituoso. “Precisamos redesenhar o sistema, e o consumidor será automaticamente transferido para esse sistema – assim como o consumidor foi transferido para um sistema de uso único algumas décadas atrás”, observa ela.

A pedra angular do plano da New Plastics Economy é uma promessa de eliminar “plásticos desnecessários” até 2025. Para isso, Santiago acredita que é necessário trabalhar com empresas como Coca-Cola e Nestlé, mesmo que essa abordagem dificulte uma postura contra os motivos de puro lucro do setor. “Nós não acreditamos na proibição do plástico”, Santiago me disse.

Instalações privadas de coleta de lixo para o país existem apenas na capital. Ali, materiais recicláveis, como garrafas de refrigerante de plástico, papel e sacolas plásticas finas, são separados por tipo, cor e peso, e depois compactados.

Instalações privadas de coleta de lixo para o país existem apenas na capital. Ali, materiais recicláveis, como garrafas de refrigerante de plástico, papel e sacolas plásticas finas, são separados por tipo, cor e peso, e depois compactados.

Fotos: Celia Talbot Tobin

Judith Enck discorda. “A proibição de sacolas reduz a poluição do plástico”, afirma. Desde que a Enck deixou a EPA em 2017, iniciou um projeto chamado Beyond Plastics, com o objetivo de levar as comunidades a eliminar a poluição de plásticos na base. Segundo ela, onde as proibições de sacos são implementadas, além de restringir o isopor e disponibilizar canudos de plástico apenas mediante solicitação, elas podem ser bastante eficazes –uma abordagem que ela chama de “trifecta dos plásticos”. “São frutas baixas”, observa Enck. “E existem alternativas fáceis.”

O problema é que esses tipos de políticas ainda não são comuns. Segundo ela, menos de 10% dos municípios dos EUA aprovaram qualquer tipo de legislação antiplástico. No mundo em desenvolvimento, no entanto, as políticas sem-plástico estão se espalhando. Em 2002, Bangladesh se tornou um dos primeiros países a proibir completamente as sacolas descartáveis e, até este ano, de acordo com a National Geographic, 34 países africanos tinham proibições em suas leis.

O governo guatemalteco anunciou a proibição do plástico descartável e do isopor a partir de 2021.

Também na Guatemala, o plástico é cada vez mais visto como um problema. No final de 2016, a cidade de San Pedro La Laguna ganhou as manchetes ao proibir sacolas e embalagens de plástico. Os moradores as estão substituindo por alternativas reutilizáveis. Em setembro deste ano, o governo guatemalteco anunciou uma proibição de plástico descartável e isopor a partir de 2021. Os dois anos seguintes devem dar aos fornecedores tempo para encontrar alternativas compostáveis ou reutilizáveis.

E se a política demorou a acompanhar o problema, a conversa sobre o plástico está mudando rapidamente. As pessoas em El Quetzalito nos disseram que estavam mais conscientes da poluição do que costumavam ser. Muitos deles disseram que tentaram reduzir o próprio desperdício. Miguel López, um homem de meia idade com rosto bronzeado e sombrio sob um boné de beisebol azul-petróleo, nos disse que se sentia parte de algo bom.

“É importante fazer isso”, disse, endireitando-se do ancinho para empurrar o chapéu de volta à cabeça. O trabalho, embora difícil e às vezes desagradável, tem um propósito. Apertando os olhos na direção da água, ele nos disse, simplesmente: “Para amanhã, precisamos de praias limpas”.

Esta reportagem recebeu o apoio da International Women’s Media Foundation, como parte da Adelante Latin America Reporting Initiative.

Tradução: Cássia Zanon

Meio Ambiente,Brasil,Poluição,Mercùrio,Mineração,Crimes Ambientais

Mineração de pequena escala, impacto ambiental de grande escala

Garimpos ilegais nos parques nacionais do Jamanxim e do Rio Novo, no Pará. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Os crimes contra o meio ambiente têm recebido cada vez mais atenção devido aos impactos que sobrevém não apenas àqueles que vivem ao redor da área impactada, mas no restante da população. Não há mais dúvidas que esses crimes devem ser prioritariamente combatidos, restando agora buscar as melhores estratégias para que esse combate seja efetivo.

No Brasil, alguns dos maiores problemas ambientais atuais são os relacionados com os impactos da mineração. Os rompimentos das barragens de rejeitos da Vale, em Brumadinho ou em Mariana, foram as que ocuparam o noticiário pelo ineditismo e vidas humanas perdidas nos acidentes.

Porém, outro problema menos noticiado, mas não menos grave, é a atividade de mineração realizada de maneira informal e pulverizada na Amazônia, em especial de minerais garimpáveis, como o ouro, a cassiterita, além do diamante e outras pedras preciosas. Tais atividades, realizadas em sua maioria sem licenciamento ambiental ou algum tipo de planejamento prévio que vise mitigar os danos ambientais, acabam por produzir um impacto muitas vezes maior que as atividades realizadas por grandes empresas de mineração.

Um exemplo disso é o resultado do Laudo 091/2018-UTEC/DPF/SNM/PA, que aponta apenas para parte da bacia do rio Tapajós o despejo de um volume estimado de sete milhões de toneladas de sedimentos por ano, oriundos da atividade de mineração de ouro, em sua maioria ilegal. Apenas para efeito de comparação, isso equivale a dizer que, em 11 anos, foram despejados o volume equivalente ao rompido sobre o rio Doce, no desastre da Samarco. A diferença é que, enquanto a Samarco construiu barragens para contenção de rejeitos, e ela se rompeu após anos de acúmulos, os garimpos artesanais da Amazônia despejam diretamente no rio os rejeitos produzidos pela atividade garimpeira.

Falando especificamente da garimpagem de ouro, que representa a maioria da atividade garimpeira na Amazônia, existem basicamente existem três tipos de garimpos, a saber:

      • Garimpos de “baixão” – exploração aluvionar, geralmente realizado junto ao leito dos rios e igarapés, geralmente explorando a camada subsuperficial do solo;
      • Garimpos de “poço” – geralmente com escavação manual, buscando seguir o “veio” de maior concentração de ouro;
      • Garimpo por dragas escariantes, instaladas em balsas móveis, revolvendo o leito dos rios.

Desses três tipos de garimpos, sem dúvida o que causa mais danos, seja danos ambientais ou sociais, ou também conflitos fundiários, é o garimpo “de baixão”, ainda que as dragas também tenham um impacto nada desprezível, afetando a qualidade da água (turbidez e contaminação química) e também a navegação, por muitas vezes causar assoreamentos e bancos de areia.

Os garimpos às margens dos rios, nos chamados “baixões”, trabalham inicialmente removendo a cobertura vegetal e a camada superficial do solo, até alcançar a camada com potencial aurífero. Após descoberta essa camada, ela é desmontada com jatos de água e bombeamento da polpa resultante para mesas gravimétricas, onde as partículas de ouro se depositam, sendo o restante da água com lama descartado no local.

Em seguida, os carpetes que retém as partículas de ouro são lavados, e o ouro é separado das demais impurezas com auxílio de mercúrio, que produz um amálgama facilmente destacado das demais partículas. Por fim, esse amálgama é queimado com um maçarico, evaporando o mercúrio e restando somente o ouro, em estado bruto.

Tal atividade, tradicionalmente realizada de forma manual na maioria dos procedimentos, sempre foi considerada (ainda que isso seja bastante controverso) de baixo impacto ambiental, o que levou, inclusive, a uma categoria específica de outorga mineral, a PLG – Permissão de Lavra Garimpeira, com menor número de exigências, e limitada a 50 hectares por PLG. Porém, com a facilidade para aquisição de maquinário pesado, em especial as escavadeiras hidráulicas (popularmente conhecidas como “PCs” pelos garimpeiros), a velocidade de abertura de cavas aumentou exponencialmente, e com ela os danos ambientais decorrentes da atividade.

‘Diversos estudos provam, de maneira indiscutível, que as populações ribeirinhas que habitam as regiões com maior atividade garimpeira vêm apresentando níveis de mercúrio no organismo muito acima do tolerável”.

A esses danos, relacionados à abertura de novas áreas, em especial junto ou sobre os leitos de rios e igarapés, somam-se outros problemas, típicos de atividades que se realizam sem a preocupação de um licenciamento ambiental, como a ausência de um sistema para coleta dos sedimentos, ou da garantia de utilização de um sistema seguro para recuperação do mercúrio, que evite a contaminação do ambiente e das pessoas com esse metal pesado.

Com efeito, um dos problemas mais lembrados quando se fala em garimpos ilegais é a contaminação por mercúrio. Diversos estudos provam, de maneira indiscutível, que as populações ribeirinhas que habitam as regiões com maior atividade garimpeira vêm apresentando níveis de mercúrio no organismo muito acima do tolerável, inclusive com suspeitas de casos de doenças neurológicas decorrentes da contaminação por mercúrio, como o Mal de Minamata.

Quando se fala na população diretamente afetada, não podemos deixar de mencionar os conflitos gerados pela atividade, novamente lembrando dos agravantes que a ausência de licenciamento (e consequente consulta e informações dos impactos às populações afetadas) gera. Além da contaminação por mercúrio, que só é percebida quando dos sintomas já são irreversíveis, a destruição dos rios e florestas gera significativa redução do volume de peixes disponível para pesca, destruição de açaizais nativos e mesmo eliminação das fontes de água potável das comunidades ribeirinhas, muitas vezes inviabilizando seu modo de vida tradicional.

O acesso aos recursos minerais do subsolo é garantido pela legislação brasileira, sendo disciplinado pela Agência Nacional de Mineração, através das outorgas. Os recursos minerais do subsolo brasileiro são classificados como bens da União, e não do proprietário do solo, sendo a retirada desses minerais sem a respectiva outorga classificado como usurpação de bens da União (Lei 8.176/1991).

Ouro. Foto: ICMBio/Una de Itaituba.

O processo de outorga prevê ainda um processo de licenciamento ambiental, a ser realizado pelo órgão ambiental competente, e um acordo com o proprietário do solo onde deve ocorrer a atividade de mineração. Porém, algumas áreas possuem status especial, como unidades de conservação, terras indígenas, áreas militares, fronteira, etc., sendo em alguns casos vedada a exploração mineral e, em outros, sujeita a um regime especial de licenciamento, guardadas as ressalvas que cada área possui.

Na região do Tapajós, por exemplo, boa parte dos garimpos se situa em Unidades de Conservação. Algumas, como a Floresta Nacional do Crepori, prevêem em seu plano de manejo a atividade garimpeira, devendo essa atividade obedecer os parâmetros previstos pelo ICMBio quanto à conservação ambiental. Outras, como as Reservas Biológicas, não admitem em hipótese alguma atividade de mineração em seu interior.

Tampouco as terras indígenas possuem, atualmente, regulamentação que permita autorizar a atividade garimpeira em seu interior, com a expectativa de uma proposta de lei que regulamente a atividade de mineração no interior das TIs. Tal questão é bastante delicada, pois envolve a necessidade de compatibilização da entrada de não índios na área, e inevitavelmente sua relação com os indígenas, além dos problemas ambientais e compatibilidade da mineração com os demais usos do território, estando ainda em debate as formas de tentar viabilizar tal atividade.

Mineração em Terras Indígenas

Quando falamos de garimpos ilegais em comunidades indígenas, o problema é ainda mais grave. Além de destruir as condições de sobrevivência materiais das comunidades, a relação dos garimpeiros com etnias de contato recente tendem, via de regra, a causar conflitos profundos no tecido social dessas comunidades, dado que elas ainda não estão preparadas para esse contato, e via de regra não são capazes de negociar de maneira justa o acesso dos garimpeiros à área. Com isso, temos riscos maiores de conflito, e mesmo de destruição cultural daquela etnia.

”Chama a atenção, quando se investiga a compra e venda de ouro ilegal, que o produto oriundo de áreas não autorizadas é vendido pelo mesmo preço que aqueles produzidos em áreas autorizadas, supostamente de acordo com a legislação brasileira.”

A logística de acesso às áreas de garimpos em meio à terras indígenas é outro fator que dificulta a ação, dado que algumas regiões só se chega de helicóptero, e outras, nas áreas mais montanhosas, ainda é necessário caminhar quilômetros após o último ponto possível de pouso de helicóptero, como foi o caso da Operação Dakji, de retirada de garimpeiros da divisa da terra dos índios isolados Zo’é, no Pará.

Além disso, dado o maior risco de conflitos, em especial com indígenas que se sentem beneficiados pelo garimpo, as ações repressivas nessas áreas são bastante dificultadas, exigindo uma equipe maior e mais qualificada, lembrando ainda o conflito ocorrido durante a deflagração da Operação Eldorado, ocorrida em 2012, na divisa do Pará com o Mato Grosso, onde houve conflitos com indígenas contrários à ação policial de destruição dos equipamentos de garimpo, e resultou na morte de um índio munduruku, além de índios e policiais feridos.

Dessa forma, surge a necessidade de diversificar as formas de combate aos ilícitos ligados à garimpagem ilegal, atacando não apenas o garimpo em si, mas também os demais elos da cadeia produtiva da mineração ilegal, em especial aqueles ligados à comercialização do ouro ilegal.

Chama a atenção, quando se investiga a compra e venda de ouro ilegal, que o produto oriundo de áreas não autorizadas é vendido pelo mesmo preço que aqueles produzidos em áreas autorizadas, supostamente de acordo com a legislação brasileira.

Isso porque, conforme verificado em diversas investigações, a compra de ouro dos garimpos ocorria livremente nos Postos de Compra de Ouro (PCOs) autorizados pelo Banco Central, independentemente de o vendedor possuir ou não documentação que comprovasse a procedência do mineral.

Ainda que a legislação indique que o comprador deve aceitar de boa-fé a declaração do vendedor de que o produto tem como origem o local por ele declarado, conforme documentação a ser apresentada, verificou-se que, na maioria dos casos, o vendedor sequer era demandado a apresentar uma origem lícita para o produto, sendo a compra feita sem qualquer questionamento quanto a isso. A ausência de um sistema informatizado de registro dessas transações dificulta ainda mais a fiscalização, dado que atualmente sequer é exigida Nota Fiscal Eletrônica para a compra de ouro bruta.

Homem exibe uma bolota de mercúrio. Companheiro e veneno do dia a dia do garimpo. Foto: Victor Moriyama.

Verifica-se, portanto, uma lacuna na legislação brasileira, para garantir a procedência do ouro e barrar a comercialização do produto de origem ilegal, dado que sem isso não há estímulo para a regularização da atividade. Também estão em tramitação propostas nesse sentido, de estruturar sistemas que garantam um melhor controle para a produção e comercialização do ouro, dificultando o comércio do produto de origem ilícita.

Quanto à situação atual, de ausência de sobrepreço para ouro legal, em relação àquele sem origem lícita, fica claro que não há nenhum incentivo para que o garimpeiro assuma os custos da legalização, em especial no que se refere aos custos ambientais de minimização dos impactos e recuperação da área, custos esses bastante significativos. O único desestímulo, quando existe, é o prejuízo econômico da destruição das máquinas e, raras vezes, apreensão de minério, quando das ações de fiscalização. Ainda assim, só pode ser considerado um desestímulo econômico se tais prejuízos forem maiores do que os custos de legalização, o que exige maior frequência nas operações de fiscalização.

O fluxo da comercialização do ouro ilegal é outro desafio. A cadeia produtiva do ouro, diferentemente de outros produtos, ainda possui boa parte dos pagamentos realizada em ouro bruto, sendo tal prática inclusive prevista em lei, desde que restrita à mesma região onde o ouro foi extraído. O garimpeiro paga em ouro bruto os prestadores de serviços e fornecedores de equipamentos, víveres, combustível, etc., de maneira que qualquer pessoa em posse de ouro bruto, mesmo não sendo garimpeiro ou comprador autorizado, pode justificar o fato como pagamento por um serviço prestado ou produto vendido.

Ainda que se argumente que nessas localidades remotas não existam outros meios de pagamento viáveis, nas vistorias realizadas pela Polícia Federal nessas regiões garimpeiras, mesmo nas localidades mais remotas, havia antenas de internet por satélite nos barracos de apoio, ou oferta de serviços de internet por wi-fi nos bares.

”(…) a questão do ouro ilegal ultrapassa o problema ambiental, levando também a problemas de saúde, sociais, econômicos, e servindo de apoio para outras atividades ilícitas”.

Esse fluxo de ouro, sem controle do Estado, gera ainda outros problemas, como a facilidade de evasão do bem mineral sem o pagamento dos devidos impostos, e o uso do metal para pagamentos referentes a outras transações ilegais, independente de transações bancárias, e com maior facilidade de trânsito do que dinheiro vivo. A livre comercialização do ouro ilegal, e posterior facilidade de venda como se lícito fosse permite também seu uso para lavagem de dinheiro, bastando comprar ouro nos garimpos ilegais e revender como se fosse oriundo de uma mina legalizada.

Com isso se demonstra que a questão do ouro ilegal ultrapassa o problema ambiental, levando também a problemas de saúde, sociais, econômicos, e servindo de apoio para outras atividades ilícitas, sendo extremamente relevante seu combate, exigindo ainda um leque variado de abordagens, o que vem sendo feito pela Polícia Federal, bem como pelos órgãos de fiscalização ambiental, como o IBAMA e ICMBio. Apenas no que se refere à fiscalização pela Agência Nacional de Mineração, responsável pelo controle do bem mineral em si, ainda não existe estrutura suficiente para fiscalização ou outras atividades repressivas à extração ilegal de minérios.

No âmbito da Polícia Federal, bem como dos órgãos ambientais, frequentemente são realizadas operações de combate a garimpos ilegais, como já citadas neste texto, geralmente com destruição de máquinas e equipamentos e retirada dos garimpeiros, em especial quando se trata de Unidades de Conservação Federais ou Terras Indígenas. Outras medidas, como uma operação permanente visando sufocar o garimpo pelo bloqueio das vias de abastecimento, foram tentadas com relativo sucesso, como é o caso da Operação Roosevelt, em Rondônia, no entorno da terra indígena homônima, dos índios Cinta-Larga, rica em diamantes. Tais operações apresentaram resultados relativamente bons, porém com alto custo financeiro e de mão de obra. O Exército Brasileiro também vem dando apoio nessa estratégia, em especial na área dos índios Yanomami, em Roraima.

Impacto ambiental da mineração ilegal está longe de ser pequeno. Acima, garimpo dentro dos parques nacionais de Jamanxim e Rio Novo, no Pará. Foto: Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Já há alguns anos, os esforços investigativos vêm se diversificando, também para atacar os ilícitos relacionados à comercialização do ouro. As operações Dilema de Midas e Levigação, na região do Tapajós, bem como a operação Minamata, no Amapá, demonstraram que as principais compradoras de ouro autorizadas pelo Banco Central para atuar na região, lançavam corriqueiramente dados falsos para compra de ouro ilegal oriundo de garimpos clandestinos. Já a operação Elemento 79, da Polícia Federal no Amazonas, descobriu uma estrutura mais complexa para esquentamento de ouro extraído de garimpos clandestinos, envolvendo benefícios fiscais fraudulentos na Zona Franca de Manaus, e um sistema de fachada para simular compra de joias usadas, como forma de justificar a posse do bem mineral ilegalmente extraído.

O combate aos garimpos ilegais na Amazônia, como foi visto, é bastante desafiador, seja pelas distâncias e precariedade de acesso, pela complexidade das transações envolvidas, ou pela ausência de sistemas de controle ou precariedade das estruturas de fiscalização. Cabe aos órgãos de segurança pública se qualificar para compreender esse desafio e propor soluções.

*Texto publicado originalmente na revista da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais. Gustavo Geiser

Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

A corrida contra o relógio para conter o aquecimento global

ONU alerta que países precisam multiplicar por cinco seus esforços se quiserem cumprir a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris

O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019.
O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019. DENIS BALIBOUSE (REUTERS)

Mas o principal desafio não é que as reduções dos países signatários do Acordo de Paris sejam multiplicadas por três ou cinco. O problema fundamental, como indica o relatório, é que os cortes devem começar a acontecer já em todo o planeta, ao contrário do que indicam as projeções das emissões de gases do efeito estufa. “Se não o fizermos, a meta do 1,5 estará fora de nosso alcance antes de 2030”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA, em comunicado.

De acordo com o relatório da ONU apresentado nesta terça-feira, a partir de 2020 serão necessárias reduções anuais de 7,6% para atingir a meta do 1,5 grau. A análise contém uma censura e uma advertência: atrasar (outra vez) os cortes tornará cada vez mais difícil cumprir a meta e vai implicar que os esforços anuais necessários sejam ainda maiores. “Não começar a reduzir as emissões em 2010” significou que agora são necessárias baixas mais acentuadas, explica a ONU.

Isso porque, durante esta década, as emissões, em vez de cair, cresceram a uma taxa de 1,5% ao ano. E em 2018 o aumento prosseguiu, segundo o relatório.

“Não podemos dilatar mais a ação climática em todos os níveis, tanto por parte dos Governos como das entidades supranacionais e outros atores econômicos e sociais”, disse a ministra espanhola para a Transição Ecológica, Teresa Ribera, ao comentar o informe. “O relatório do PNUMA nos diz que as emissões precisam atingir o teto em 2020 e começar a cair de modo acelerado a partir dessa data”, acrescentou ela em nota.

A ministra enfatizou que a cúpula do clima a ser realizada a partir de segunda-feira em Madri, conhecida como COP25, deve servir para que elevem a “ambição” de seus planos de corte de emissões em 2020.

Revisões em alta

Que os esforços não eram suficientes já se sabia quando foi assinado o Acordo de Paris, na capital francesa, em 2015. Por esse motivo foi estabelecido um mecanismo de revisão para cima dos planos de corte que cada país precisa apresentar ao aderir ao pacto climático.

A primeira revisão deve ser feita em 2020 para se aproximar das metas de 1,5 e 2 graus. Mas, por enquanto, apenas 70 países se comprometeram a fazer isso. A expectativa é que mais Estados o façam durante a COP25.

A ONU lembra em seu relatório que as países do G20 acumulam 78% de todas as emissões de gases do efeito estufa. “Mas apenas cinco membros do G20 se comprometeram a estabelecer uma meta de longo prazo de zero emissões”, relata o PNUMA. Os mais ambiciosos são os europeus: França, Alemanha e Itália (e também a Espanha) se comprometeram com esse objetivo de zero emissões até 2050.

“No curto prazo, os países desenvolvidos terão que reduzir suas emissões mais rapidamente do que os países em desenvolvimento, por razões de equidade”, explicou a ONU nesta terça-feira. Mas, no longo prazo, todos os países deverão contribuir de forma mais decisiva. Atualmente, a China é o principal emissor de gases do efeito estufa e não faz parte da categoria de países desenvolvidos nas negociações climáticas. E, por ora, apenas se compromete a reduzir a expansão de suas emissões a partir de 2030.
ElPais

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

No desmatamento atual, Amazônia chega a ‘ponto de não retorno’ em até 30 anos

Uma árvore em meio a área desmatada perto de Porto Velho

Área desmatada perto de Porto Velho; taxa de desmatamento anunciada nesta segunda-feira é a maior desde 2008

O desmatamento pode estar levando a Floresta Amazônica para uma situação na qual a floresta não consegue mais se regenerar diante das agressões provocadas pelo homem. Se o ritmo atual de devastação for mantido (ou aumentar), este “ponto de não retorno” pode chegar já em algum momento entre 15 a 30 anos. O alerta é de um dos principais estudiosos do tema no país, o climatologista Carlos Nobre.

Nobre conversou com a BBC News Brasil na tarde desta segunda-feira (18), horas depois do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelar um aumento de 29,5% no ritmo do desmatamento da Amazônia entre agosto de 2018 e julho de 2019.

Segundo o sistema Prodes, do Inpe, o país perdeu 9.762 km² de floresta neste período — ante 7.536 km² desmatados na medição anterior. A taxa divulgada nesta segunda é a maior desde 2008, quando quase 13 mil km² de floresta foram destruídos.

Os dados do Prodes levam em conta o período de agosto a julho por conta do ciclo de chuvas da região.

Segundo Carlos Nobre, há evidências de que o “ponto de não retorno” está prestes a ser atingido em alguns locais da Floresta Amazônica, especialmente nas regiões sul e leste da floresta — a estação seca do ano está ficando mais longa nesses locais, e a temperatura está subindo.

“Nossos cálculos indicam que se o desmatamento continuar nesta taxa — em toda a Amazônia, não estou falando apenas da (floresta) brasileira — ou se subir, temos de 15 a 30 anos no máximo antes disso, antes de ultrapassarmos irreversivelmente este ponto”, disse ele na entrevista à BBC News Brasil.

Os dados sobre o desmatamento na Amazônia tornaram-se fonte de desgaste para o governo em julho e agosto deste ano, quando medições preliminares de outro sistema do Inpe, o Deter, apontaram para um crescimento do desmatamento.

Em 19 de julho, num café da manhã com jornalistas, o presidente da República, Jair Bolsonaro, disse que os dados preliminares do Inpe não eram corretos — e que o então presidente do Instituto, o físico Ricardo Galvão, estaria “a serviço de alguma ONG (organização não-governamental)”. A crise resultou na demissão de Ricardo Galvão do comando do Inpe, no começo de agosto.

Carlos Nobre fala ao microfone no Senado, em foto de 2019Direito de imagem MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO
Regiões sul e leste da Amazônia já estão dando sinais de que poderão não se recuperar, diz Carlos Nobre

Agora, diz Carlos Nobre, as informações do Prodes (que tem nível de confiança superior a 95%) confirmam as suspeitas levantadas pelo Deter sobre o aumento no desmatamento.

“Era muito correto afirmar que haveria um aumento muito significativo do desmatamento, e o Prodes confirmou. Não há dúvida disso”, disse.

Os dados divulgados na segunda-feira não dizem respeito somente à gestão de Jair Bolsonaro, iniciada em janeiro de 2019. Mesmo assim, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, admitiu em entrevista a jornalistas na segunda-feira que será preciso “adotar uma estratégia diferente”, articulada com os governos estaduais, para combater o aumento no desmatamento.

Jair Bolsonaro tem criado polêmicas com ambientalistas desde a campanha eleitoral de 2018. Durante a campanha, disse repetidas vezes que não faria a demarcação de novas terras para indígenas e quilombolas, além de criticar o trabalho da fiscalização ambiental.

Depois de eleito, enviou ao Congresso medida para fundir a pasta do Meio Ambiente com a Agricultura — mas a proposta foi rejeitada. Mesmo assim, alterações na estrutura do órgão fizeram com que o Meio Ambiente perdesse quase 20% de seus analistas. Já no Ibama, os sinais emitidos por Brasília e a falta de dirigentes nas unidades do órgão fizeram com que o número de multas caísse apesar do aumento do desmatamento.

Carlos Nobre é doutor em meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), e já presidiu o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, além de ter integrado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Quão graves são os dados do Prodes publicados pelo Inpe nesta segunda-feira? Deveríamos estar preocupados?

Carlos Nobre – Devemos sim ficar bem preocupados. Os dados mostram um aumento considerável do desmatamento, na verdade uma continuidade no aumento que é observado desde 2015. (O desmatamento) deu um salto. Chegando perto de 10 mil quilômetros quadrados (desmatados), e um crescimento de quase 30% em relação a 2018. Logicamente que isso é bastante preocupante, e eu acho que não dá mais para continuar na inação. É preciso uma ação muito rigorosa agora para reduzir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, que em grande parte são ilegais.

BBC News Brasil – Ao longo deste ano, falou-se muito sobre um estudo do senhor a respeito de um “ponto de não retorno” da Amazônia, isto é, um certo limite do desmatamento a partir do qual a floresta se tornaria uma savana, parecida com o Cerrado. O quão perto estamos disso?

Carlos Nobre – Olha, nós temos uma série de sinais (de problemas) vindos da região amazônica, (especialmente) do sul e do leste da Amazônia. A estação seca (nestes locais) está ficando mais longa. Se ela passar de quatro meses, atingimos esse ponto de não retorno. Está ficando mais quente também. Então são vários sinais de que o sul e o leste da Amazônia estão chegando perto desse ponto de não retorno.

Nossos cálculos indicam que se o desmatamento continuar nesta taxa — em toda a Amazônia, não estou falando apenas da (floresta) brasileira — ou se subir, temos de 15 a 30 anos no máximo antes disso, antes de ultrapassarmos irreversivelmente este ponto.

BBC News Brasil – E nesse caso, as consequências não seriam sentidas apenas naquela região.

Carlos Nobre – Impacta o clima da Amazônia, (mas também) impacta o clima de outros lugares da América Latina. Por exemplo, a floresta esfria o ambiente, mantém as temperaturas mais baixas. Se você desmata, as temperaturas aumentam aí qualquer coisa entre 2 e 3 graus (Celsius). Esse ar mais frio que passa pela Amazônia ele chega ao Cerrado, então você já teria um aumento de temperatura no Cerrado, que já é quente. Então prejudicaria a produtividade agrícola e a vegetação do Cerrado.

Há muitos estudos que indicam também que o vapor d’água que passa pela Amazônia alimenta as chuvas no sul da bacia do (Rio da) Prata (na Argentina).

E pode ter influência também nas chuvas em outras partes do Brasil, ainda que os estudos científicos ainda não tenham descrito todos os mecanismos em detalhe, mas pode ter impacto em outras regiões também.

Um boi e uma ave em frente a fumaça decorrente de floresta queimadaDireito de imagem REUTERS/RICARDO MORAES
Carlos Nobre diz que maioria do desmatamento é decorrente da grilagem, por um lado; e do desmatamento sem autorização em propriedade privada, do outro

BBC News Brasil – É possível estimar quantos desses 9.762 km² quadrados de desmatamento apurados pelo Prodes são fruto da derrubada ilegal?

Carlos Nobre – Olha, não dá para dizer em área. Mas o que é possível dizer, de forma qualitativa, é que aproximadamente 90% do desmatamento detectado pelo sistema Deter (do Inpe) são ilegais.

São de dois tipos. 40% disso é roubo de terra, grilagem. E o restante é desmatamento em propriedade privada, mas sem autorização legal para este desmatamento. Para você desmatar em propriedade privada, é preciso permissão (do órgão ambiental). Na maioria dos casos são desmatamentos que excedem o limite da reserva legal, ou invade uma área de proteção permanente, como uma nascente ou a margem de um rio.

BBC News Brasil – Algumas pessoas insistem em uma oposição entre preservação da Amazônia e a realização de atividades produtivas naquela região. Como é a dinâmica do desmatamento naquele bioma?

Carlos Nobre – Algo acima de 80%, ou perto de 90% do desmatamento na região é ilegal, como já dissemos. Então (o desmatamento) é muito controlado pelo crime organizado, pela grilagem, pelo roubo de terra. Então não tem uma verificação muito robusta, científica, que dê sustentação à ideia de que o desmatamento está reduzindo a pobreza (da população da Amazônia). De que está havendo um grande aumento da produção agropecuária, de que as famílias estão se beneficiando. Isso não existe.

Não existe relação entre o aumento do desmatamento e a redução da pobreza, a redução da desigualdade (na região). E eu não estou falando sobre o ano de 2019. Eu estou falando dos últimos 50 anos nos quais existe essa prática. Na Amazônia, o desmatamento está muito associado com o crime.

Alguns criminosos ganham (com o desmatamento). Alguns criminosos ganham muito. Mas grande parte da população não tem qualquer benefício. Você pega, por exemplo, uma grande fazenda de pecuária: ela contrata pouquíssimos empregados, que quando ganham um salário mínimo estão ganhando bem. Então não é um modelo que reduz a pobreza ou que traz bem-estar à população amazônica.

BBC News Brasil – O número de 2019, mesmo sendo muito alto, está abaixo das taxas que ocorriam até 2008. O que é que foi feito para baixar o desmatamento de lá para cá?

Carlos Nobre – O que aconteceu foi um plano chamado PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal). Foi muito efetivo entre 2005 e 2014. Reduziu o desmatamento em 75%. Foi uma soma de três ações principais, mas a mais efetiva foi (o aumento da) fiscalização, com uma articulação importante entre Polícia Federal, Ibama, órgãos estaduais de meio ambiente, polícias militares, Ministério Público.

Essas ações de fiscalização de campo foram devidamente financiadas e começou a aumentar muito o risco do criminoso ambiental, reduzindo o desmatamento.

Não podemos esquecer que de 2005 a 2014 a produção agropecuária da Amazônia dobrou. Dobrou. Então produção não tem nada a ver com o desmatamento.

A outra política foi de incentivo aos municípios que reduziram o desmatamento, e punição aos que aumentaram. Isso teve um efeito muito bom. Prefeituras, câmaras de vereadores, todos passaram a se empenhar, porque tinha muitos benefícios vindo do governo federal.

E por fim, uma política de demarcação de áreas protegidas e de terras indígenas muito efetiva, que barrou o avanço dessa fronteira do desmatamento ilegal.

Essas eram as três “pernas” principais desta política. Se você perguntar o que o governo deve fazer se estiver falando sério a respeito de frear o desmatamento? Deve voltar a aplicar as coisas que deram certo. Principalmente a fiscalização. Tem que arrumar (dinheiro), tem que mandar o ministro da Economia (Paulo Guedes) abrir um pouco o cofre para financiar todas as ações necessárias à redução da ilegalidade.

Ricardo Salles olha para baixo com ar pensativo e mão perto da bocaDireito de imagem REUTERS/ADRIANO MACHADO
Salles admitiu nesta segunda-feira que será preciso ‘adotar uma estratégia diferente’ para combater o aumento no desmatamento

BBC News Brasil – Em meados do ano, os veículos de imprensa estavam citando dados de um outro sistema do Inpe, o Deter, que já indicava um aumento no desmatamento. À época, o governo dizia que aqueles dados não eram suficientes para atestar um aumento no desmatamento.

Carlos Nobre – A informação estava correta. A gente sabe que o Deter captura entre 60 e 70% do que o Prodes, que foi lançado hoje, mostra. Portanto o Deter, pegando seis meses do Deter antes do lançamento do Prodes, ele mostrava 40, 50% de aumento. Era muito correto afirmar que haveria um aumento muito significativo do desmatamento, e o Prodes confirmou. Não há dúvida disso. O que foi feito lá atrás, que foi divulgado uma tendência de aumento em junho, julho, agosto, está absolutamente correto.

O Deter capturou a tendência de aumento.

BBC News Brasil – O dado que foi divulgado nesta segunda-feira (18) é um dado ainda preliminar. Os dados consolidados do Prodes só sairão no 1º semestre de 2020. Por que isto ocorre?

Carlos Nobre – A Amazônia, por ser coberta por vários satélites, possui centenas e centenas de imagens diferentes, a depender da resolução do satélite. E aí, para poder lançar isso logo agora em outubro, novembro, o Inpe pré-seleciona as áreas onde está sendo observado o mais intenso desmatamento. Aí ele mede toda aquela área e faz um cálculo estatístico e diz ‘olha, quando eu olhar todas as imagens, provavelmente vai ter este valor’.

E aí, às vezes, quando o Inpe processa todas as imagens, lá por abril ou maio, que ele lança o dado anual, esse dado às vezes é um pouquinho maior ou um pouquinho menor. O número de hoje é uma estimativa do que será o número final, quando analisadas todas as imagens. (A variação em anos anteriores foi de 2% a 7% para mais ou para menos, acrescenta o pesquisador).

Reciclagem,Eletrônicos,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

Aparelhos eletrônicos modernos possuem baixa reciclabilidade

O lixo eletrônico é um problema global, enquanto a mineração de materiais necessários para fabricação de dispositivos tecnológicos causa devastação. Quanto mais avançado o aparelho, mais difícil de ser reciclado.    

Componentes de um smartphone espalhados numa mesaUm smartphone médio contém 30 elementos químicos e um aparelho de ponta pode chegar a ter 75 elementos diferentes

Dentro de smartphones, tabletes, computadores e até televisores estão escondidos uma gama de materiais valiosos. E, no mais tardar quando o dispositivo eletrônico deixa de funcionar, esses tesouros permanecem trancafiados, esquecidos e estragando numa gaveta ou na vastidão de um aterro sanitário. O Electrical Waste Recycling Group (Grupo de Reciclagem de Lixo Eletrônico) do Reino Unido busca recuperar o máximo possível dos aparelhos antigos coletados de comerciantes, lixões e empresas que efetuaram uma atualização de seus dispositivos.

Caminhões carregados com eletrônicos redundantes estacionam do lado de fora da instalação do grupo localizada numa antiga fábrica têxtil perto da cidade de Huddersfield, no norte da Inglaterra. Uma vez dentro do complexo, os aparelhos eletrônicos são classificados e lançados em máquinas enormes e barulhentas que retiram as fiações e trituram os metais.

Materiais como o cobre são reduzidos a partículas e fundidos – em seguida, vendidos a comerciantes de metais e, eventualmente, acabam sendo utilizados na fabricação de novos produtos. As baterias são separadas e isoladas para não causarem curtos-circuitos e pegarem fogo.

Equipes de funcionários sistematicamente desmontam aparelhos antigos de televisão de tubo. A gerente de conformidade do Electrical Waste Recycling, Jane Richardson, estima que cada membro da equipe desmantele cerca de 80 televisores por dia.

“Quando fazemos excursões escolares, muitas crianças dizem que nunca viram uma dessas televisões antigas antes”, disse Richardson.

As crianças em idade escolar estão familiarizadas o suficiente com as novas telas planas – categorizadas também em cestos ao lado de outros dispositivos e peças. Mas sua mistificação com modelos mais antigos é uma prova da rapidez com que atualizamos a tecnologia em nossos lares.

Obsessão pela atualização

Embora todos os materiais preciosos neles contidos, os eletrônicos de consumo são essencialmente descartáveis. “No momento, a maioria dos eletrônicos tem vida linear, e não circular”, disse Elizabeth Jardim, do Greenpeace, em entrevista à DW. “Os dispositivos são usados e, em alguns anos, a maioria se torna lixo.”

A instalação em Huddersfield recebe anualmente cerca de oito mil toneladas métricas de lixo eletrônico. Mas isso representa apenas uma gota num oceano, em comparação com as mais de 44 milhões de toneladas métricas que são criadas anualmente em todo o mundo, segundo estimativas da ONU.

Centenas de televisores velhos jogados num lixão na Indonésia Países mais ricos exportam grande parte de seu lixo eletrônico para países mais pobres, eximindo-se da função de reciclagem

E os aparelhos que provavelmente atualizamos com maior frequência – os telefones celulares – são notadamente os menos presentes na instalação de reciclagem em Huddersfield.

“Os smartphones são realmente difíceis de reciclar e, no final das contas, os fabricantes não se envolvem com a comunidade de reciclagem”, disse Shaun Donaghy, diretos de operações do Electrical Waste Recycling, em entrevista à DW. “O final da vida útil dos produtos não lhes interessa.”

De acordo com um relatório emitido pelo Greenpeace em 2017, a energia consumida anualmente na produção de smartphones aumentou de 75 terawatt-hora (TWh), em 2012, para cerca de 250 TWh em 2016. Os smartphones também contêm metais de terras raras, cuja extração carrega um preço alto em várias maneiras.

Resíduos, veneno e abuso

Um novo relatório da Sociedade Real Britânica de Química (RSC) descobriu que um smartphone médio contém 30 elementos diferentes. Outras estimativas apontam que este número pode chegar a até 75 elementos em alguns modelos de ponta. Tântalo, ítrio, índio e arsênico são ingredientes essenciais que podem acabar dentro de 100 anos. Índio, por exemplo, é crucial para telas sensíveis ao toque e painéis solares.

“É transparente, adere ao vidro e realmente não encontramos nada que possa fazer o que ele faz”, explicou Elisabeth Ratcliffe, da RSC. “Trata-se de um dos elementos mais raros da Terra – um subproduto da mineração de zinco. Para obter alguns miligramas de índio, é necessário extrair um quilograma de zinco.”

A extração dessas reservas indescritíveis é cara, consome muita energia e deixa um rastro de resíduos tóxicos. A grande maioria dos metais de terras raras é extraída na China, onde as fontes de água em Jiangxi, Mongólia Interior e Shandong ficaram poluídas.

Metais de terras raras são uma categoria específica de 17 elementos químicos diferentes. Assim como outros materiais-chave da tecnologia (cobalto, estanho, tungstênio, tântalo e ouro), estes também têm sido associados a operações exploradoras que usam trabalho infantil, financiam conflitos na África e causam doenças respiratórias entre os mineradores.

Manifestantes do Greenpeace exigem que a Samsung recicle smartphones com defeitoManifestantes do Greenpeace exigem que a Samsung recicle milhões de aparelhos Galaxy Note 7 com defeito

O Electrical Waste Recycling consegue recuperar dos smartphones materiais como cobre, alumínio, chumbo, vidro e plástico – mas mesmo a reciclagem destes materiais tem se mostrado desafiador: o uso de adesivos de colagem forte em vez de parafusos dificulta o desmembramento.

Separar elementos reutilizáveis de metais de terras raras é um processo muito mais complicado, pois envolve processos químicos complexos e caros – e está além das capacidades da instalação em Huddersfield.

Cientistas trabalham em melhores maneiras de recuperar esses materiais preciosos. No momento, estima-se que apenas 1% dos metais de terras raras seja reciclado. E, à medida que avançamos em direção a um futuro sem combustível fóssil, precisaremos cada vez mais destes materiais para manter um sistema cada vez mais dependente de energia elétrica.

“À medida que as economias se eletrificam, a demanda por baterias aumenta”, disse Josh Lepawsky, especialista da Universidade de Newfoundland, no Canadá, responsável pelo mapeamento de lixo eletrônico. “Há enormes questões em aberto sobre como a descarbonização por intermédio da eletrificação será equilibrada em relação aos danos ambientais causados na extração de recursos.”

Mudança nas mãos dos fabricantes

Do lado do consumidor, existem alternativas para as grandes marcas de smartphones. A Fairphone, por exemplo, tenta obter materiais de forma mais sustentável e projetar produtos com uma vida útil mais longa e mais fáceis de serem consertados.

Mas com as pessoas acostumadas a designs inovadores, telas sensíveis ao toque e as principais empresas envolvidas na produção de intrincados dispositivos repletos de elementos químicos, as marcas como Apple e Samsung precisam fazer mais, segundo Lepawsky.

“Podemos entrar num loja e escolher entre uma variedade de modelos, mas a química subjacente a esses modelos é muito semelhante”, disse Lepawsky. “São os fabricantes que estão em posição de mudar essa química. Portanto, a ideia de mudança impulsionada pelo consumidor é quase um conceito sem sentido.”

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Brasileiros nascidos hoje terão dificuldade para respirar no futuro, diz estudo climático

Uma criança nascida hoje no Brasil provavelmente terá dificuldade para respirar durante seu crescimento e sua vida. Também enfrentará mosquitos transmissores de doenças, como a dengue, e eventos extremos, como queimadas, secas e inundações, em maiores quantidades.

Esses são alguns dos problemas de saúde associados às mudanças climáticas apresentados na nova versão do relatório Lancet Countdown: Tracking Progress on Health and Climate Change (em tradução livre, “Acompanhando os Progressos em Saúde e Mudanças Climáticas”), lançado na noite desta quarta-feira (13).

Segundo o documento, a vida de todas as crianças nascidas a partir de agora será profundamente afetada pelas mudanças climáticas.

No Brasil, a poluição do ar é um dos pontos que trará problemas para as crianças de hoje e de amanhã. Tal poluição conta com a presença do chamado material particulado, que é proveniente de queimadas (que apresentaram aumento significativo neste ano no país), queima de carvão para produção de energia e veículos de transporte.

Esse tipo de poluição está associado a peso baixo em recém-nascidos, menor função respiratória em crianças e maiores taxas de hospitalizações.

Só em 2016, estima-se que a poluição do ar levou a 24 mil mortes prematuras no Brasil.

Para se ter ideia do tamanho do problema, em uma hora de exposição ao trânsito de São Paulo, por exemplo, a população “fuma” cerca de cinco cigarros, como apontam as pesquisas feitas pela equipe de Paulo Saldiva, diretor do IEA (Instituto de Estudos Avançados), na USP, e um dos coautores do relatório Lancet.

Para piorar, o monitoramento da poluição é deficitário no país. Levantamento deste ano da ONG Instituto Saúde e Sustentabilidade mostrou que só seis estados e o Distrito Federal fazem o monitoramento de poluição e divulgação dos resultados para a população. Mais de 90% das estações de monitoramento se concentram no Sudeste.

Outra preocupação quanto ao Brasil é o crescimento do uso de carvão. O documento mostra que o uso desse tipo de fonte de energia no país triplicou nos últimos 40 anos. Em contrapartida, é pequena a participação desse tipo de termelétrica na matriz energética nacional, com participação predominante de fontes renováveis, como hidrelétricas.

O futuro também será marcado por um aumento nas doenças transmitidas por mosquitos, segundo o relatório.

A dengue, por exemplo, sofre forte influência de chuvas, temperatura –elementos relacionados às mudanças climáticas– e urbanização. Desde 1950, a capacidade de transmissão de dengue aumentou em 5% para o Aedes aegypti e em 11% para o Aedes albopictus.

Mundialmente, 9 dos 10 anos mais propícios para a transmissão da dengue ocorreram do ano 2000 para cá, e atualmente metade da população mundial está em risco.

Isso quer dizer que é mais fácil pegar dengue hoje, doença transmitida pelo mosquito que se espalha mais rapidamente pelo mundo. Em 2016, o Brasil teve 1,5 milhão de casos de dengue, três vezes mais do que em 2014. Segundo o documento, o custo da infecção para o SUS entre 2012 e 2013 foi de cerca de US$ 164 milhões (R$ 770 milhões). Ao mesmo tempo, o peso socioeconômico da dengue chegou a US$ 468 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão).

Não é somente a dengue que preocupa os autores do estudo. Desde os anos 1980, dobrou o número de dias mais propícios para a contaminação por vibrio, um dos microrganismos responsáveis por casos casos de diarreia, que pode ter impactos sérios em crianças.

Também não faltarão eventos climáticos extremos. No Brasil, os incêndios florestais afetaram 1,6 milhão de pessoas desde 2001/2004. Até agosto, o Brasil teve seu maior número de queimadas desde 2010.

Uma das recomendações do relatório do Lancet, inclusive, diz respeito às florestas brasileiras. O documento orienta que deve se reafirmar o compromisso com o desmatamento ilegal zero até 2030, aliado a reflorestamento e redução de queimadas.

As cidades brasileiras, com suas variabilidades climáticas extremas, servem como um grande e trágico laboratório para entender o papel das mudanças climáticas na saúde da população, diz o médico e pesquisador Paulo Saldiva.

Ele cita o exemplo de São Paulo. Em determinada fatia dos dias mais quentes e mais frios, a mortalidade aumenta em 50%, com mortes relacionadas principalmente a AVCs (acidente vascular cerebral), pneumonias e infartos.

“A cidade tem uma zona de temperatura onde nada acontece, que varia de mais ou menos 17°C até 25°C, 26°C, mas os desvios aumentam a mortalidade”, afirma Saldiva.

Há ainda as diferenças regionais, que também impactam nas formas de mortalidade. “Morre-se de calor na zona leste e de frio na zona sul”, diz o especialista do IEA.

Mayara Floss, uma das autoras do relatório Lancet e médica residente de medicina de família e comunidade Grupo Hospitalar Conceição, diz que o cenário negativo apontado pelos dados deve servir de alerta para a tomada de ação, como a manutenção e aceleração dos compromissos climáticos tratados no Acordo de Paris. “Nós estamos na janela [temporal] em que é possível agir”, diz Floss.

O relatório também indica que o Brasil deveria reforçar a vigilância da qualidade do ar, inclusive com sistemas de envio de mensagens para quem estiver em regiões nas quais a exposição à poluição pode apresentar risco, aconselhando, por exemplo, em quais períodos a pessoa pode sair de casa e em quais se exercitar, diz Floss.

Segundo a pesquisadora, para tentar mudar a situação, o cidadão pode atuar com pressão política.

Saldiva diz que colocar a saúde como um ponto central na discussão climática pode ajudar a combater a “ignorância organizada, fruto da própria ignorância e de interesses econômicos de grupos afetados por práticas sustentáveis”.

O especialista compara a situação com a indústria do cigarro. “Ela sabia perfeitamente que o produto dela fazia mal, mas nunca passou na cabeça dela parar. A autorregulação é impossível. O documento aperta uma tecla SAP para colocar ciência no assunto.”
Phillippe Watanabe/FolhaPress SNG

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Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes

Ilustração mostra peixe no mar envolto por sacola de plástico
Direito de imagem GETTY IMAGES

Enquanto o impacto do plástico em animais marinhos adultos é cada vez mais conhecido, autores de novo estudo encontraram a contaminação em larvas de peixes.

Para peixes “bebês”, a superfície do mar perto do costa é uma camada rica em nutrientes, fazendo dela uma espécie de “berçário” para larvas desses animais, chamados de alevinos. Mas o que cientistas desconfiavam foi confirmado agora em um estudo inédito: esses locais, ricos em plânctons, estão repletos também de fragmentos de plásticos flutuantes, o que ameaça a vida dos peixes em uma fase bastante vulnerável para a sobrevivência.

Em uma dimensão maior, isso implica em potenciais danos para ecossistemas marinhos e até para o consumo humano de produtos vindos dos oceanos, dizem os autores do artigo, publicado esta semana no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.

O achado alarmante, vindo da dissecação de animais, constatou que peixes em sua fase larval já consomem pedaços de plástico presentes na água — coisa para a qual só havia confirmação até agora para peixes adultos.

“Peixes na fase larval são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas e representam as futuras populações de peixes adultos”, explicou em um comunicado à imprensa Jamison Gove, um dos autores do estudo e oceanógrafo da NOAA, órgão de pesquisa do governo americano.

“O fato destas larvas estarem rodeadas de detritos plásticos diminutos e ingerirem plásticos carregados de toxinas, em seu estágio mais vulnerável de vida, é motivo de alarme”, disse Gove.

Concentração de plástico oito vezes maior que no Grande Depósito de Lixo do Pacífico

Os pesquisadores, vinculados ao NOAA e também à Universidade do Estado do Arizona, analisaram dados e materiais de uma área de cerca de 1.000 km² na costa oeste do Havaí.

Eles focaram em corredores na superfície da água em que materiais orgânicos e inorgânicos se juntam.

“Estes corredores concentram plânctons e, portanto, fornecem um oásis de comida que é fundamental para o desenvolvimento e a sobrevivência das larvas de peixes”, disse Jonathan Whitney, ecologista marinho do NOAA e um dos autores do estudo.

Com técnicas de sensoriamento remoto, os pesquisadores detectaram, nestes corredores em comparação com águas superficiais “normais”, uma maior densidade de fitoplânctons (1,7 vezes maior); zooplânctons (3,7 vezes); e larvas de peixes (8,1 vezes). Os corredores continham também peixes com melhores habilidades para nadar, tanto em termos de velocidade quanto de duração.

Mas esses corredores também mostraram uma densidade mediana 126 vezes maior de plásticos do que outras partes das águas superficiais — e oito vezes maior do que a densidade encontrada no Grande Depósito de Lixo do Pacífico, uma massiva área de acúmulo de resíduos, boa parte plásticos, entre a Califórnia e o Havaí. Em 658 larvas de peixes dissecadas, foram encontrados partículas de plástico em 42 deles, uma ocorrência 2,3 vezes maior do que em outros tipos de águas superficiais.

Dois peixes espadarte expostos à vendaDireito de imagem GETTY IMAGES
Espécies amplamente comercializadas, como o espadarte, tiveram fragmentos de plásticos encontrados

“Encontramos pequenos pedaços de plástico no estômago de espécies amplamente comercializadas, como o espadarte e o dourado-do-mar, e espécies de recifes de corais como o peixe-porco”, contou Whitney.

A maior parte dos plásticos encontrados foram considerados fragmentos pequenos (menores que 5mm) — que costumam originar da decomposição de plásticos maiores, expostos por meses a anos a fatores como Sol e o sal do mar. Em relação ao tipo, a maioria foi de polímeros de polietileno e polipropileno.

“Esses polímeros são usados em itens de consumo de uso único (por exemplo, sacolas plásticas, caixas de alimentos e garrafas d’água) e em materiais comumente usados em indústrias marítimas, como transporte, aquicultura e pesca (por exemplo, engradados, baldes, cordas e redes). Sabe-se que o polímero mais dominante encontrado nos corredores, o polietileno (76,6%), absorve poluentes mais rapidamente do que outros polímeros e pode servir como um vetor de poluentes para a fauna marinha“, diz o estudo.

Fragmentos plásticos azuis confundidos com alimento

Pedaços de microplásticos no marDireito de imagem GETTY IMAGES
Fragmentos de plástico se originam de porções maiores em decomposição

Como boa parte dos fragmentos plásticos ingeridos tinham cor azul ou translúcida, e muitos zooplânctons têm pigmentos assim, os pesquisadores acreditam que os animais confundam os itens com alimentos na hora de comer.

Ainda não se sabe ao certo o impacto desta ingestão para os organismos de larvas de peixes, mas tudo indica que seja igual ou pior do que para animais adultos.

“Estudos de laboratório têm algumas limitações, mas já revelaram que a ingestão de plástico pode ter efeitos adversos nos peixes, incluindo o acúmulo de substâncias tóxicas; bloqueio e perfuração intestinal; desnutrição; e diminuição da capacidade de fuga de predadores. Órgãos não plenamente desenvolvidos podem prejudicar a capacidade das larvas de peixes de se desintoxicar e eliminar poluentes químicos. Portanto, os impactos da ingestão de plástico nas larvas são provavelmente mais graves do que nos peixes adultos”, diz o artigo, que apesar do alarme ser sucedido também por possíveis soluções.

“É importante ressaltar que reduzir diretamente a exposição de larvas de peixes a plásticos é factível. Estima-se que o volume anual de plástico que chega aos oceanos poderia ser reduzido em cerca de 80% com investimentos globais no gerenciamento de resíduos e comportamento dos consumidores”, conclui.