Como George Soros se tornou um inimigo da extrema direita

Existem poucos países em que uma teoria da conspiração é razão de Estado. A Hungria é um deles.

George Soros impulsionou a ascensão de Orbán na Hungria.
Corresponsável pela ascensão de Viktor Orbán, o filantropo bilionário passou a ser o “vilão perfeito” a ser construído. Cruzada de difamação contra Soros ultrapassou fronteiras da Hungria e inspira violência terrorista.

 Há cerca de cinco anos o primeiro-ministro Viktor Orbán elegeu o bilionário americano George Soros como inimigo de Estado número um: o filantropo de origem húngara, de 89 anos, seria o mentor de uma conspiração em grande escala, com o suposto fim de derrubar o premiê húngaro, dissolver os Estados nacionais da Europa e substituir suas populações por migrantes.

Entre os supostos “mercenários” e “agentes” de Soros, segundo o governo húngaro, estariam organizações não governamentais, jornalistas e cientistas, mas também a União Europeia (UE) e a Organização das Nações Unidas (ONU).

No momento a crise do coronavírus alimenta essa campanha de perseguição. Afirma-se que Soros estaria por trás da crítica internacional às medidas autoritárias de Budapeste no contexto da pandemia. Ele seria o “grão-mestre” dos “burocratas de Bruxelas”, declarou Orbán em pessoa, numa edição recente de suas entrevistas semanais à estatal Kossuth Rádió.

Chega a ser irônico Orbán ter declarado guerra justamente ao homem que impulsionou decisivamente sua ascensão. Filho de judeus e sobrevivente do Holocausto na Hungria, George Soros primeiro se exilou em Londres após a tomada de poder pelos comunistas. Em 1956, emigrou para os Estados Unidos, onde fez fortuna com especulações financeiras.

Marcado tanto pelo horror nacionalista e comunista como pela filosofia de Karl Popper da “sociedade aberta”, Soros fundou em 1984 a fundação Open Society. Desde então, ela tem apoiado por todo o mundo a democracia e os direitos de liberdade e humanos, até hoje com mais de 15 bilhões de dólares, segundo seus próprios dados.

Também o jovem Viktor Orbán e seu partido Fidesz (Liga dos Jovens Democratas) se beneficiaram do engajamento filantrópico do bilionário, que patrocinou com somas generosas a legenda originalmente radical-liberal. Soros lhes possibilitou publicar o próprio jornal, financiou cursos de idiomas e escritórios do partido. Mais tarde, numerosos membros do Fidesz receberam dele bolsas para estudar no Ocidente; Orbán foi para Oxford.

Quando, após o fim do regime comunista na Hungria, em 1989, os nacionalistas passaram a difamar Soros por seu apoio às forças liberais, o Fidesz defendeu o engajamento do filantropo contra tais “ataques infames”.

Orbán e companhia saudaram entusiásticos a fundação da Universidade Centro-Europeia, cofinanciada por Soros, a qual em breve se tornou a mais prestigiosa instituição de ensino superior do país. Cerca de 30 anos mais tarde, o partido de Orbán, agora nacional-conservador e populista de direita, expulsaria justamente essa universidade da Hungria.

De benfeitor a vilão

Depois de uma fragorosa derrota nas eleições de 2002, Orbán foi para a oposição. Somente oito anos mais tarde foi eleito primeiro-ministro pela segunda vez, com sucesso esmagador e um programa totalmente diverso. Contando com uma maioria de dois terços no parlamento, o ex-liberal passou a transformar a Hungria num “Estado não liberal”.

Ele mudou a Constituição, cerceou a liberdade de imprensa e ocupou o Tribunal Constitucional com juízes leais a si. Para assegurar seu poder no longo prazo, porém, Orbán precisava de um inimigo simbólico. No país, ninguém mais era páreo sério para ele: a oposição estava fragmentada, e a maior parte da mídia, alinhada com o Fidesz. Então onde encontrar um bode expiatório?

A inspiração decisiva veio do exterior: em 2008, Orbán conheceu o influente consultor político americano Arthur Finkelstein, que desde a década de 1970 assessorara com sucesso os presidentes republicanos, de Richard Nixon a George W. Bush. Em meados dos anos 1990, ele fizera Benjamin Netanyahu premiê israelense.

Não deixemos Soros rir por último, diz slogan em outdoors na Hungria
“Não deixemos Soros rir por último”, diz slogan da maior campanha de outdoors da história húngara,

Inúmeras campanhas eleitorais haviam ensinado a Finkelstein como era importante dar um rosto ao inimigo. Há muito, o empenho de Soros pelo liberalismo e democracia era uma pedra no sapato da direita internacional.

Os nacionalistas dos Bálcãs também o detestavam por apoiar a oposição democrática; o presidente russo, Vladimir Putin, o abominava pelo engajamento em prol da Ucrânia e Geórgia. E também para os republicanos dos EUA, Soros se tornara uma figura odiada por suas doações ao Partido Democrata, seu empenho pela proteção climática e sua crítica ferrenha à guerra do Iraque.

Soros era o inimigo perfeito para Orbán, pensaram Finkelstein e seu parceiro George Birnbaum: era de origem húngara, mas já vivia há décadas nos EUA, era rico e politicamente engajado em âmbito global. Em meados de 2013, começou a campanha contra o filantropo, que alcançaria o auge dois anos mais tarde, no contexto da crise migratória.

De “ideia genial” a motivação terrorista

Seguiu-se a possivelmente maior e mais custosa campanha de outdoors da história húngara: “Não deixemos Soros rir por último”, incitava o governo seus cidadãos. Pouco mais tarde, era aprovada a “lei Stop Soros”, voltada contra ONGs engajadas pelos direitos de refugiados e migrantes. Por fim, foi expulsa de Budapeste a Universidade Centro-Europeia, cofundada por Soros.

Progressivamente, Orbán adicionou tons antissemitas a sua cruzada contra Soros. “Estamos lutando contra um inimigo que é diferente de nós: não aberto, mas escondido; não direto, mas ardiloso; não honrado, mas ignóbil; não nacional, mas internacional; que não acredita em trabalho, mas sim especula com dinheiro; que não tem sua própria pátria, mas age como se fosse dono de todo o mundo”, disse num discurso em 2018.

De lá para cá, a imagem hostil de George Soros ganhou vida própria: seja o presidente americano, Donald Trump, seu colega turco Recep Tayyip Erdogan, Netanyahu ou Putin, todos adotaram de Orbán o rótulo do “marionetista todo-poderoso”. Nas redes sociais, o filantropo bilionário é apresentado como a vilania em pessoa, partidos populistas de direita da Europa à Austrália incitam contra ele.

Com intensidade crescente, tais campanhas de agitação redundam em violência. Funcionários das fundações Open Society são repetidamente agredidos. Em 2018, um apoiador fanático de Trump enviou uma bomba caseira ao endereço particular de Soros. Da mesma forma, terroristas de extrema direita cada vez mais justificam seus atos como tentativas de impedir uma “troca da população” supostamente planejada pelas elites globais.

Essa teoria de conspiração, em que Soros igualmente desempenha um papel central, fazia parte de “manifesto” racista do terrorista de Christchurch, Nova Zelândia, que custou as vidas de dezenas de muçulmanos. O assassino de Pittsburgh matou judeus por pretextos semelhantes. Também o autor do atentado em Halle, Alemanha, acreditava numa suposta conspiração judaica e afirmou que Soros queria transformar o país num Estado multicultural.

Será que Arthur Finkelstein e George Birnbaum – ambos também judeus – contavam com a dimensão letal de sua invenção supostamente “genial”? Não se pode mais perguntar a Finkelstein, pois ele morreu em 2017. E Birnbaum se recusa a falar a respeito, tendo recusado o pedido de entrevista da

Tensão entre Washington e Pequim aumenta com novas restrições dos EUA à Huawei

Nesta foto de arquivo, tirada em 22 de abril, pessoas passam diante de uma loja da Huawei em Pequim.NICOLAS ASFOURI / AFP

Os dois países, também em confronto sobre o status de Taiwan e a origem do coronavírus, terão uma reunião na segunda-feira em uma complicada Assembleia da Organização Mundial da Saúde.

A escalada da tensão entre os Estados Unidos e a China sobe um novo degrau, embora em uma frente já conhecida: o embate tecnológico entre as duas potências. O Governo Donald Trump anunciou nesta sexta-feira novas restrições à chinesa Huawei, desta vez, limitações à capacidade da empresa de empregar tecnologia e software norte-americanos na fabricação e design de seus semicondutores no exterior.

Na prática, isso significa impedir que a segunda maior fabricante de celulares do mundo receba remessas de fabricantes de mundiais de chips. Mesmo assim, renovou por mais 90 dias, até 13 de agosto, as licenças de empresas que já negociam com a Huawei.

O Departamento de Comércio justificou as restrições aos semicondutores pela necessidade de “proteger a segurança nacional” e pelas tentativas da empresa asiática de “minar os controles de exportação” nos Estados Unidos, apesar da trégua no restante, um jogo explicado por razões econômicas e de equilíbrio político em meio à maior crise econômica desde a Grande Depressão, como consequência do coronavírus.

O anúncio ocorre em um momento turbulento nas relações entre Washington e Pequim em decorrência da brutal pandemia pela qual os Estados Unidos responsabilizam em boa parte a gestão do regime chinês. Na noite de quinta-feira, em uma entrevista à rede de televisão Fox, Trump sugeriu a possibilidade de “romper todas as relações” com o gigante asiático. “Há muitas coisas que poderíamos fazer”, disse, e acrescentou: “Poderíamos romper todas as relações.”

Os Estados Unidos acusam a Huawei de espionar para a ditadura chinesa por meio de seus dispositivos e, por isso, submeteram a empresa a diferentes medidas de veto que afetaram suas finanças. O fabricante alcançou um lucro líquido de 62,7 bilhões de iuanes (cerca de 50 bilhões de reais) em 2019, o que é uma boa fatia e um aumento de 5,6%, mas está longe dos 25% de expansão obtidos em 2018.Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

De acordo com o jornal Global Times, de propriedade do Partido Comunista da China, que cita uma fonte anônima próxima ao Governo, as autoridades chinesas estão dispostas a responder com uma série de medidas, como a colocação de empresas norte-americanas em sua própria lista negra de entidades que prejudicam os interesses chineses, uma iniciativa que já havia ameaçado adotar no ano passado, quando o Departamento de Comércio anunciou as primeiras restrições contra a Huawei, sua joia da coroa tecnológica.

As represálias também incluiriam a abertura de investigações e a imposição de restrições contra gigantes da tecnologia como Apple, Cisco e Qualcomm, bem como a suspensão da compra de aviões fabricadas pela aeronáutica Boeing, acrescenta o jornal.

“A China tomará medidas contundentes para proteger seus interesses legítimos” se os Estados Unidos seguirem com os planos anunciados, disse a fonte, segundo o jornal oficial chinês.

O novo atrito ocorre quando os dois países já estão imersos em uma amarga disputa sobre as origens da pandemia da covid-19, que cristalizou toda a tensão e desconfiança que ambos acumulam há anos.

Os Estados Unidos exigem uma investigação sobre o início da crise e Trump acredita que o vírus saiu de um laboratório na cidade chinesa de Wuhan, enquanto a China rejeita essa acusação e afirma que não há nada claro. A disputa ameaça se estender para a Assembleia mundial de ministros da Saúde da OMS na próxima segunda e terça-feira, com Taiwan e pesquisas sobre as origens da epidemia como catalisadores.

Trump afirma que Brasil tem ‘surto’ de coronavírus e repete que poderá banir voos do país

Trump volta a ameaçar banir voos dos Estados Unidos para o Brasil

O líder mundial mais admirado por Jair Bolsonaro, o presidente americano Donald Trump, disse nessa terça-feira, dia 28, que o “Brasil tem praticamente um surto” de coronavírus e comentou que segue atentamente as informações que chegam do país.

O comentário de Trump foi feito durante uma coletiva de imprensa, no Salão Oval da Casa Branca, em conjunto com o governador da Flórida Ron De Santis, que expressava preocupação com a potencial chegada de brasileiros contaminados a Miami.

“O Brasil tem praticamente um surto, como vocês sabem (…) se você olhar os gráficos você vai ver o que aconteceu infelizmente com o Brasil. Estamos olhando para isso bem de perto”, disse Trump.

O posicionamento do aliado prioritário de Bolsonaro contraria as declarações que o próprio presidente brasileiro tem feito em relação à situação da epidemia no Brasil.

Bolsonaro já chegou a minimizar a doença e não concorda com as medidas de distanciamento social, adotadas no mundo todo, inclusive nos Estados Unidos, para reduzir o contágio pelo vírus.

Sua postura levou à demissão do então ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, que advogava pela quarentena, há duas semanas. O país tem mais de 71 mil casos da doenças e já passa das 5 mil mortes.

Embora não tenha poder para interferir nas políticas locais de combate à epidemia, o presidente tem pressionado os governadores pelo fim das quarentenas e uma reabertura da economia nos Estados.

Banimento de voos do Brasil

Trump questionou De Santis se ele não cogitava banir voos do Brasil para a Flórida. O governo federal americano tem estudado uma medida como essa há mais ou menos um mês e o próprio presidente já havia mencionado essa possibilidade no começo de abril.

Trump afirma que sua gestão terá uma definição sobre essa possibilidade em breve. O Departamento de Estado afirma que nenhuma medida será anunciada por enquanto.

“É uma coisa muito impactante de ser feita. Fizemos isso com a China, fizemos com a Europa. Mas é algo impactante, especialmente para a Flórida que tem tantos negócios com a América do Sul”, reconheceu o americano.Direito de imagemREUTERS

Taxa de mortalidade de covid-19 no Amazonas está acima da média nacional

O Brasil é o principal parceiro comercial do Estado americano. Na Flórida também vivem quase 400 mil brasileiros, um terço da comunidade de migrantes do Brasil no país. No início de março, Bolsonaro esteve em Miami para uma visita de estímulo a parcerias comerciais.

Na ocasião, chegou a receber a chave da cidade das mãos do prefeito Francis Suarez, que testou positivo para covid-19 poucos dias após o retorno da comitiva ao Brasil.

Mais de 10 integrantes da equipe da viagem presidencial, incluindo o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, também contraíram a doença.

Teste rápido para brasileiros antes do embarque

O governador da Flórida descartou o banimento de voos do Brasil por enquanto, mas afirmou cogitar tornar obrigatória a testagem rápida dos passageiros para covid-19 pelas companhias aéreas, antes do embarque.

“Eu estou preocupado com isso [voos do Brasil] o tempo todo. Eu acho que o Brasil é um dos lugares com mais interação com Miami e você vai provavelmente ver a epidemia crescer lá conforme a estação do ano mudar [para o inverno]”, afirmou.

Segundo De Santis, o risco é que brasileiros voltem a trazer a doença para a Flórida em um momento em que o Estado luta para debelar a epidemia.

Ele, no entanto, reconheceu que o surto na Flórida está mais relacionado à chegada de pessoas contaminadas de Nova York ao Estado do que a voos internacionais.

Na prática, a maior parte dos voos entre Brasil e Estados Unidos foi cancelada e o fluxo aéreo entre os dois países caiu em mais de 80% desde março.

Correspondente da Guerra da Rússia lança luz sobre a guerra de drones da Turquia em Idlib

A situação na província rebelde de Idlib, na Síria, se transformou em uma guerra de tiros ativa entre tropas sírias e turcas na semana passada, depois que um ataque do exército sírio contra terroristas de Nusra * matou quase três dezenas de militares turcos misturados entre os jihadistas. A greve levou Ancara a iniciar uma grande operação na região.

Os drones turcos no noroeste da Síria estão mirando em tudo o que se move, se houver suspeita de estar relacionada com o exército sírio, informou Evgeny Poddubny, correspondente do Rossiya 1 baseado em Idlib.

“Assim que os zangões de ataque turcos apareceram no céu de Idlib, a natureza dos combates mudou dramaticamente”, disse o correspondente em uma transmissão ao vivo no domingo.
Segundo Poddubny, todas as perdas sofridas pelo exército sírio nos últimos dias estavam nas mãos dos drones turcos.

A agência de notícias turca Anadolu divulgou um vídeo mostrando os ataques de Ancara às posições do governo sírio em Idlib.

A Turquia não poupou despesas com os ataques, que não são baratos, atingindo colunas de suprimentos, atingindo alvos únicos – carros, picapes, veículos blindados e até motociclistas. Foi o que disseram as tropas sírias na linha de frente ”, disse Poddubny. Enquanto isso, as forças sírias estão fazendo o possível para manter-se firmes, apesar da diferença de 30 anos em tecnologia, que derrubou até seis drones turcos no domingo.
O jornalista enfatizou que, se o espaço aéreo sobre Idlib não for liberado dos drones turcos em breve, o Exército Sírio terá dificuldade em manter os recentes ganhos que obteve contra os terroristas que operam na província.

Os drones turcos usados na Síria incluem a família de drones TAI Anka, que tem uma carga útil de armas de até 200 kg, bem como o Bayraktar TB2, um UAV de longa duração armado com mísseis anti-tanque.

Base da Força Aérea da Síria em Homs
Direito de imagek © SPUTNIK / ILYA PITALEV

A Turquia lançou uma ofensiva chamada “Operação Spring Shield” na quinta-feira, logo após a morte de pelo menos 33 tropas turcas em um ataque do Exército Sírio a posições terroristas. Os militares russos indicaram que essas forças estavam operando entre os terroristas de Nusra na região, contra os quais as forças sírias estão fazendo uma ofensiva.

A Síria iniciou uma operação militar em Idlib no final do ano passado, após repetidos ataques de Nusra e outros terroristas a seus militares. No início de fevereiro, um ataque de artilharia síria matou mais de meia dúzia de tropas turcas. A Rússia tentou mediar a crise, com a expectativa de que os presidentes Putin e Erdogan se encontrem em Moscou em 5 de março para discutir a situação na província.

* Um grupo terrorista baniu a Rússia e muitos outros países.

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Entrevista – Bernie Sanders, Senador e candidato à Presidência dos Estados Unidos

A mídia “alternativa” tem medo, resiste a apoiar Sanders.

A despeito disso, e contra tudo e contra todas as probalidades, a campanha é um sucesso.

Democratas são uma espécie de “republicanos esclarecidos”, mas são também corporativos, são elite capitalista dos Estados Unidos.
Excelente momento para Sanders; porém, mesmo que ganhe, ainda terá a enfrentar o establishment político, além do econômico; sem contar a mídia corporativista! Será que os americanos acordam?

1. Uso da força


Os presidentes de ambas as partes adotaram uma visão abrangente de seus poderes como comandante em chefe, destacando tropas e ordenando ataques aéreos sem aprovação explícita do congresso e, às vezes, sem uma ameaça iminente. Os candidatos democratas frequentemente criticam tais ações, mas foram menos claros nas circunstâncias em que considerariam justificável a força militar.

Além de responder a um ataque aos Estados Unidos ou a um aliado do tratado, quais são as condições sob as quais você consideraria o uso da força militar americana?
A primeira prioridade de Bernie é proteger o povo americano. A força militar às vezes é necessária, mas sempre – sempre – como último recurso. E ameaças ofensivas da força muitas vezes podem indicar fraquezas e forças, diminuindo a dissuasão, a credibilidade e a segurança dos EUA no processo. Quando Bernie for presidente, garantiremos que os Estados Unidos busquem a diplomacia sobre o militarismo para obter resoluções pacíficas e negociadas para conflitos em todo o mundo. Se for necessária força militar, Bernie garantirá que ele atue com a devida autorização do congresso e somente quando determinar que os benefícios da ação militar superam os riscos e custos.

Você consideraria a força militar para uma intervenção humanitária?
Sim.

Você consideraria a força militar a antecipação de um teste nuclear ou míssil iraniano ou norte-coreano?
Sim.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Existe alguma situação em que você possa se ver usando tropas americanas ou ações secretas em um esforço de mudança de regime? Se sim, em que circunstâncias você estaria disposto a fazer isso?
Não.

É apropriado que os Estados Unidos ofereçam apoio não militar aos esforços de mudança de regime, como fez o governo Trump na Venezuela?
Não.

2. Irã

Em 2015, o governo Obama assinou um acordo com o Irã que suspendeu as sanções em troca de limites significativos ao programa nuclear iraniano. Muitos republicanos se opuseram ferozmente ao acordo, dizendo que não era suficientemente difícil e, em 2018, o presidente Trump o abandonou e restabeleceu as sanções. Mas o Irã manteve o fim do acordo até o mês passado, quando Trump ordenou a morte de um general iraniano, Qassim Suleimani. O assassinato do general Suleimani levou os Estados Unidos à beira da guerra com o Irã, que retaliou atacando duas bases militares que as forças americanas estavam usando no Iraque.

O que você faria com o acordo nuclear iraniano agora abandonado, como negociado em 2015?
Eu entraria novamente no acordo sem novas condições, desde que o Irã também cumprisse seus compromissos. Eu prosseguiria em negociações mais amplas para resolver questões de mísseis balísticos, apoio a grupos terroristas e direitos humanos.

Você acredita que o presidente Trump agiu dentro de sua autoridade legal ao dar a ordem para matar Qassim Suleimani? O assassinato era justificável? Foi sábio?
Não. Os EUA não estão em guerra com o Irã e o Congresso não autorizou nenhuma ação militar contra o Irã. Claramente, há evidências de que Suleimani esteve envolvido em atos de terror. Ele também apoiou ataques às tropas americanas no Iraque. Mas a pergunta certa não é “esse cara era mau”, mas sim “assassiná-lo torna os americanos mais seguros?” A resposta é claramente não. Nossas forças estão em alerta mais alto por causa disso. Enviamos ainda mais tropas para a região para lidar com a ameaça aumentada. E o Parlamento iraquiano votou em expulsar nossas tropas, depois que gastamos trilhões de dólares e perdemos 4.500 soldados corajosos lá.

Em relação a uma possível ação militar futura contra o Irã, existe algum tipo de resposta que está fora de questão para você?
Eu trabalharia com nossos aliados europeus para diminuir as tensões com o Irã e me envolveria em uma diplomacia agressiva que salvaguardaria a segurança dos EUA e de nossos parceiros, evitando uma guerra desastrosa com o Irã.

3. Coreia do Norte

O desmantelamento do programa nuclear da Coréia do Norte tem sido uma prioridade americana, e o Presidente Trump tentou fazê-lo por meios incomuns: diplomacia direta com o líder do Norte, Kim Jong-un. Tudo começou em Cingapura em 2018, mas começou a desmoronar em fevereiro passado, quando Trump e Kim saíram de uma reunião de cúpula no Vietnã de mãos vazias. Enquanto isso, as sanções permanecem, o arsenal de armas e mísseis do Norte tem se expandido constantemente, e Kim ameaçou recentemente retomar os testes com mísseis.

Você continuaria a diplomacia pessoal que o presidente Trump começou com Kim Jong-un?
Sim.

Você reforçaria as sanções até a Coréia do Norte desistir de todos os seus programas nucleares e de mísseis?
Não.

Você gradualmente levantaria as sanções em troca de um congelamento no desenvolvimento de material físsil, como o presidente Clinton tentou?
Sim.

Você insistiria em desarmamento substancial antes de liberar qualquer sanção?
Não.

Você concordaria em começar a retirar tropas americanas da península coreana?
Não, não imediatamente. Trabalharíamos em estreita colaboração com nossos parceiros sul-coreanos para avançar em direção à paz na península coreana, que é a única maneira de finalmente lidarmos com a questão nuclear norte-coreana.

Descreva sua estratégia para a Coréia do Norte.
Cada passo que tomamos para reduzir a força nuclear da Coréia do Norte, abri-la para inspeções, terminar a Guerra da Coréia de 70 anos e incentivar relações pacíficas entre as Coréias e os Estados Unidos aumenta as chances de desnuclearização completa da península. A paz e o desarmamento nuclear devem prosseguir em paralelo, em estreita consulta com nosso aliado sul-coreano. Trabalharei para negociar um processo passo a passo para reverter o programa nuclear da Coréia do Norte, construir um novo regime de paz e segurança na península e trabalhar para a eventual eliminação de todas as armas nucleares norte-coreanas.

4. Afeganistão

A guerra no Afeganistão, iniciada após os ataques de 11 de setembro, é a guerra mais longa da história dos Estados Unidos, e os documentos divulgados em dezembro revelaram que três administrações presidenciais sucessivas enganaram o povo americano sobre o progresso – ou a falta dele – em andamento. . Que os Estados Unidos devam se retirar tornou-se um raro ponto de acordo entre o presidente Trump e os democratas. Mas ainda existem divergências significativas sobre quando e em que condições essa retirada deve ocorrer.

As tropas americanas estariam no Afeganistão no final do seu primeiro mandato? Nesse caso, você limitaria a missão dessas tropas ao combate ao terrorismo e à coleta de informações?
Não.

A presença americana no Afeganistão dependeria de outras nações contribuindo com tropas no terreno?
Não.

Quanto tempo você vê tropas americanas sendo exigidas, em qualquer número, no Afeganistão?
Como presidente, eu retiraria as forças militares dos EUA do Afeganistão o mais rápido possível. Eu também pretendo tirar as forças americanas do Afeganistão até o final de meu primeiro mandato. Nossos militares estão no Afeganistão há quase 18 anos. Em breve, teremos tropas no Afeganistão que nem nasceram em 11 de setembro de 2001. É hora de encerrar nossa intervenção e trazer nossas tropas para casa, de maneira planejada e coordenada, combinada com uma séria estratégia diplomática e política que ajudará a entregar ajuda humanitária necessária. A retirada de tropas não significa retirar todo o envolvimento, e meu governo permaneceria politicamente engajado nesses países e faria o possível para ajudá-los a desenvolver sua economia e fortalecer um governo que é responsável pelo seu povo.

5. Israel

Em Israel, uma solução de dois estados – há muito vista como o único fim viável do conflito entre israelenses e palestinos – parece mais distante do que nunca depois que o presidente Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu adotaram um plano que parecia inclinar o resultado a favor de Israel. A decisão de Trump em 2018 de transferir a Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém foi profundamente polarizadora. Assim é o B.D.S. Movimento (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que se tornou cada vez mais proeminente e que a Câmara condenou em uma resolução bipartidária no ano passado.

Os Estados Unidos devem manter seu atual nível de ajuda militar a Israel? Caso contrário, como deve mudar o nível da ajuda?
Sim, mas essa ajuda pode estar condicionada a Israel tomar medidas para acabar com a ocupação e avançar para um acordo de paz. Bernie acredita que a ajuda dos EUA deve estar condicionada a uma série de preocupações com direitos humanos. Os contribuintes americanos não devem apoiar políticas que comprometam nossos valores e interesses, em Israel ou em qualquer outro lugar.

Você apoia o B.D.S. movimento? Caso contrário, o presidente e / ou o Congresso devem agir para impedir isso?
Não. Embora eu não seja um defensor da B.D.S. movimento, eu acredito que os americanos têm o direito constitucional de participar de protestos não-violentos.

A Embaixada dos Estados Unidos em Israel deve ser transferida de Jerusalém para Tel Aviv?
Não como um primeiro passo. Mas estaria em discussão se Israel continuar a tomar medidas, como expansão de assentamentos, expulsões e demolições de casas, que minam as chances de um acordo de paz.

Todos os refugiados palestinos e seus descendentes devem ter o direito de retornar a Israel?
O direito dos refugiados de voltarem para suas casas após a cessação das hostilidades é um direito internacionalmente reconhecido, mas essa questão será negociada entre israelenses e palestinos como parte de um acordo de paz.

Você apóia o estabelecimento de um estado palestino que inclua terras na Cisjordânia demarcadas pelas fronteiras anteriores a 1967, exceto em assentamentos israelenses de longa data?
Sim, se a questão do acordo for negociada entre israelenses e palestinos.

Se você respondeu sim à última pergunta, o que você fará para conseguir isso onde as administrações anteriores falharam? Se você respondeu não, que solução você vê para o conflito israelense-palestino?
Quando se trata do processo de paz entre israelenses e palestinos, é necessária uma liderança credível dos Estados Unidos. Sou um forte defensor do direito de Israel de existir na independência, paz e segurança. Mas também acredito que os Estados Unidos precisam adotar uma abordagem imparcial em relação a esse conflito de longa data, que resulta no fim da ocupação israelense e permite que o povo palestino tenha independência e autodeterminação em um estado soberano, independente e economicamente viável. por conta própria. Em minha opinião, esse resultado final seria do melhor interesse de Israel, do povo palestino, dos Estados Unidos e de toda a região.

6. RussiaInternet,Virus,GuerraCibernética,Armas,Espionagem,Tecnologia,Hackers,Blog do Mesquita 01

A Rússia tem sido uma força profundamente desestabilizadora no cenário mundial há vários anos, inclusive através da anexação da Crimeia da Ucrânia em 2014 e sua intromissão nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016. Depois de anexar a Crimeia, foi suspenso do bloco dos oito países industrializados do Grupo dos Oito (agora, na ausência da Rússia, o Grupo dos Sete). Mas o presidente Trump se esforçou para readmitir a Rússia no G-7 e realizou várias reuniões com o presidente Vladimir Putin, cujo conteúdo não foi divulgado.

Se a Rússia continuar em seu curso atual na Ucrânia e em outros ex-estados soviéticos, os Estados Unidos devem considerá-lo um adversário ou mesmo um inimigo?
Sim.

A Rússia deve ser obrigada a devolver a Criméia à Ucrânia antes que ela seja permitida de volta ao G-7?
Sim.

7. ChinaGuerras,Tecnologia,Primeira Guerra,Mundial,Armas 3

O governo chinês tem perseguido sistematicamente as minorias muçulmanas: separando famílias, submetendo uigures e cazaques a trabalhos forçados e operando campos de internação. Também está envolvido em uma crise política em Hong Kong, uma região administrativa especial da China. Ao mesmo tempo, o presidente Trump adotou uma linha dura no comércio com a China, impondo tarifas economicamente prejudiciais. No mês passado, Estados Unidos e China assinaram um acordo comercial inicial.

O respeito pela independência política de Hong Kong, nos termos do acordo de entrega com a Grã-Bretanha, deve ser um pré-requisito para as relações normais e o comércio com a China?
Sim.

As relações e o comércio normais deveriam depender do fechamento da China de seus campos de internação para uigures e outros grupos minoritários muçulmanos?
Sim.

8. OTAN

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar entre 29 países da América do Norte e da Europa, tem sido a peça central da política externa dos Estados Unidos há décadas. Mas o presidente Trump muitas vezes criticou a aliança, argumentando que os Estados Unidos dão demais e recebem muito pouco dela. Durante sua campanha de 2016, ele se recusou a se comprometer com o compromisso central da OTAN – defender outros membros se eles forem atacados – se os membros em questão não tivessem cumprido seus compromissos de gastos, e assessores dizem que, em 2018, ele sugeriu repetidamente a retirada. No ano passado, a OTAN concordou em reduzir a contribuição dos Estados Unidos e aumentar a da Alemanha.

Os países da OTAN deveriam pagar mais pela defesa do que seu compromisso atual de pelo menos 2% do PIB.
Não.

Os países que não cumprirem seu compromisso de financiamento da OTAN ainda receberão uma garantia da ajuda dos Estados Unidos se forem atacados?
Sim.

9. Política de Segurança Cibernética

O armamento cibernético surgiu como a principal maneira pela qual as nações competem entre si e se enfraquecem em conflitos de curta guerra. No entanto, existem poucas regras internacionais que governam as batalhas diárias – ou impedem a escalada. À medida que uma guerra sombria surge no ciberespaço, o presidente Trump deu muito mais poderes ao Comando Cibernético dos Estados Unidos e à Agência de Segurança Nacional.

Uma ordem presidencial deve ser obrigar um ataque cibernético contra outro país, assim como é necessário para lançar um ataque nuclear?
Sim.

A nova estratégia do Comando Cibernético dos Estados Unidos é “envolvimento persistente”, o que significa que os EUA se aprofundam em redes de computadores estrangeiras para se envolver constantemente com adversários e dissuadir greves nos Estados Unidos. Você continuaria com esta política?
Eu realizaria uma revisão abrangente da estratégia cibernética dos EUA e trabalharia para reunir países em torno de convenções internacionais para controlar o uso dessas armas perigosas.

Você respondeu à última pergunta, você insistiria que outras nações que buscam “engajamento persistente” não poderiam estar dentro das redes de energia americanas e outras infraestruturas críticas?
Não seria aplicável nesses casos.

10. Estratégia de Segurança NacionalBlog do Mesquita,guerra,Economia,Emprego,Adam Smith

Na era pós-Guerra Fria – e especialmente após os ataques de 11 de setembro – o ponto focal da política externa americana mudou-se para o contraterrorismo, o Oriente Médio e o Afeganistão. O presidente Trump, pelo menos no papel, defendeu a mudança da política externa americana de volta para enfrentar as “potências revisionistas” da Rússia e da China.

A estratégia de segurança nacional do presidente Trump exige que o foco da política externa americana se afaste do Oriente Médio e do Afeganistão e volte ao que se refere às superpotências “revisionistas”, Rússia e China. Você concorda? Por que ou por que não?
Apesar de sua estratégia declarada, o governo Trump nunca seguiu uma estratégia coerente de segurança nacional. De fato, Trump aumentou as tensões no Oriente Médio e nos colocou à beira da guerra com o Irã, recusou-se a responsabilizar a Rússia por sua interferência em nossas eleições e violações de direitos humanos, não fez nada para resolver nosso acordo comercial injusto com a China que só beneficia empresas ricas e ignorou o internamento em massa de uigures na China e sua repressão brutal a manifestantes em Hong Kong. Claramente, Trump não é um presidente do qual devemos tomar notas.

Como a nação mais rica e poderosa do mundo, precisamos ajudar a liderar a luta para defender e expandir uma ordem internacional baseada em regras na qual a lei, e não a força, faz o que é certo. Quando for presidente, alavancaremos nossa posição como potência mundial para combater a ascensão do eixo autoritário internacional e trabalharemos para construir uma coalizão que se mobilize por trás de uma visão de prosperidade, segurança e dignidade compartilhadas para todas as pessoas.

11. Prioridade Diplomática

O próximo presidente será confrontado com uma série de desafios de política externa, desde o programa nuclear da Coréia do Norte até os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas. Não será possível abordar todos eles de uma vez. Isso torna essencial entender não apenas as políticas dos candidatos, mas também suas prioridades.

Qual seria a sua principal prioridade para o seu secretário de Estado?
Acredito há muito tempo que os EUA devem liderar o mundo na melhoria da cooperação internacional para enfrentar desafios compartilhados. É por isso que, juntamente com meu secretário de Estado, implementarei uma política externa focada na democracia, direitos humanos, justiça ambiental e justiça econômica. Liderar um esforço internacional contra a ameaça urgente das mudanças climáticas será uma prioridade.

Quando for presidente, reverteremos o ataque de Trump à diplomacia. Por exemplo, enquanto a China expande sua presença diplomática em todo o mundo, os EUA estão encolhendo. Mais de 25% das posições-chave do Departamento de Estado permanecem vagas. Tornaremos o recrutamento para o Departamento de Estado e a reconstrução de nosso corpo diplomático profissional uma prioridade. Investir mais em diplomacia, desenvolvimento e prevenção de conflitos a montante pode impedir a necessidade de intervenção militar a jusante. Agora, a falta de diplomacia e a ajuda externa resultarão em maiores necessidades de defesa militar.
Com dados do New York Times

Pode uma mulher vencer Trump? Um barril de pólvora na campanha democrata

Os candidatos progressistas confrontam versões opostas no sétimo debate do Partido Democrata sobre a polêmica a respeito de se uma mulher pode derrotar Donald Trump

A senadora democrata Elizabeth Warren e o senador Bernie Sanders saúdam-se no debate.
A senadora democrata Elizabeth Warren e o senador Bernie Sanders saúdam-se no debate.

Um dos momentos mais comentados do último debate presidencial democrata, antes do início do processo de primárias de Iowa, foi protagonizado pela agressiva polêmica entre Elizabeth Warren e Bernie Sanders sobre se uma mulher pode derrotar Donald Trump nas eleições de novembro. A senadora por Massachusetts confirmou publicamente na noite de terça-feira que seu concorrente mais próximo nas pesquisas lhe disse em uma reunião privada em 2018 que não acreditava que uma mulher pudesse vencer as eleições presidenciais de novembro. “Eu lhe respondi que não estava de acordo”, disse Warren. Por sua parte, o senador por Vermont reiterou que nunca havia dito isso, deixando claro que um dos dois pré-candidatos da ala mais radical do Partido Democrata está faltando com a verdade sobre o assunto.

“Uma mulher pode vencer Donald Trump? Olhe para os homens neste palco. Coletivamente, perderam 10 eleições. As únicas pessoas neste palco que venceram todas as eleições de que participaram são mulheres. Amy [Klobuchar] e eu”, disse a senadora por Massachusetts em meio a aplausos do público no debate organizado pelo jornal The Des Moines Register e pela CNN em Des Moines, Iowa. Sanders esclareceu que se uma das mulheres presentes no palco ganhar a candidatura democrata “fará todo o possível” para que seja eleita presidenta dos Estados Unidos.

A CNN publicou na segunda-feira de manhã as declarações de Sanders em uma reunião privada realizada pelos dois senadores em 2018 antes de lançarem formalmente suas respectivas candidaturas. Warren confirmou a publicação durante a noite através de um comunicado. “Entre as questões que surgiram estava o que aconteceria se os democratas indicassem uma candidata mulher. Eu pensei que uma mulher poderia ganhar; ele não concordou”, escreveu a pré-candidata presidencial que luta pelo segundo lugar com Sanders na maioria das pesquisas democratas.

Antes de Warren lançar a bomba na véspera do debate em Iowa, um Estado fundamental na corrida pela candidatura democrata, Sanders negou categoricamente a informação: “É triste que semanas antes do caucus [sistema de eleger delegados em dois estados (Iowa e Nevada), na fase das eleições primárias] de Iowa e um ano depois dessa conversa privada, pessoas que nem estavam na sala estejam mentindo sobre o que aconteceu”. Os assessores do senador por Vermont disseram que a polêmica foi uma “jogada desesperada” de Warren, que mostrou um retrocesso nas últimas pesquisas contra um fortalecimento de Sanders, particularmente em Iowa.

O sétimo debate democrata teve apenas seis participantes, todos brancos: Elizabeth Warren, Bernie Sanders, o ex-vice-presidente e favorito das pesquisas Joe Biden, o prefeito de South Bend Pete Buttigieg, senadora por Minnesota Amy Klobuchar e o filantropo Tom Steyer. Dos vinte pré-candidatos que chegaram a estar na corrida, só restam 14. Com as recentes saídas do senador afro-americano Cory Booker e do ex-secretário de Habitação, o latino Julián Castro, a lista de pré-candidatos democratas tem cada vez menos diversidade, uma das características com as quais havia começado quase um ano atrás.

O encontro em Iowa aconteceu às vésperas da votação no Senado sobre o processo de impeachment do presidente Donald Trump. Três dos pré-candidatos presentes ao debate deverão fazer um parêntese em suas campanhas para comparecer ao Congresso e votar. “É minha responsabilidade estar no julgamento político”, disse Warren. A política externa do republicano foi protagonista do início do debate, depois de os primeiros dias de janeiro terem assistido à maior escalada entre os Estados Unidos e o Irã em décadas depois do assassinato do general Qasem Soleimani, comandante da força de elite Al Quds dos Pasdaran iranianos.

Os pré-candidatos criticaram que Trump tenha ordenado o ataque ao Irã sem autorização, mas não aprofundaram suas posições sobre o assunto. A discussão derivou para o restabelecimento do acordo nuclear com o Irã, defendido principalmente por Biden, que fez parte das negociações durante a era Obama, e sobre deixar ou não deixar as tropas militares norte-americanas no Oriente Médio. Nesse ponto, Warren e Sanders novamente aproximaram suas posições, propondo que ordenariam que todos os soldados voltassem para casa, enquanto os moderados Biden, Klobuchar e Buttigieg deixariam apenas alguns.

China é a maior beneficiada das tensões entre Trump e Irã

Conflito com o Irã pode colocar a perder o único acerto diplomático do presidente americano, facilitando a estratégia chinesa de se projetar como alternativa benigna aos EUA

Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos.
Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos .JONATHAN ERNST / REUTERS (REUTERS)

Barack Obama até entendeu essa realidade, mas não foi capaz de encerrar o envolvimento militar americano em conflitos secundários, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a passar todos os oito anos de mandato em guerra — um triste recorde que os nostálgicos pelo líder democrata tendem a esquecer. Trump foi mais perspicaz nesse sentido, mas agora periga ceder ao mesmo erro, pondo a perder seu único acerto diplomático.

Se nas duas décadas passadas os líderes chineses ficaram contentes em ver seu maior rival ocupado em conflitos de baixa relevância — dos quais Pequim sabiamente manteve distância —, eles agora devem torcer pelo mesmo erro de cálculo em relação ao Irã. Afinal, a China seria a maior beneficiária de um confronto militar entre os Estados Unidos e o país persa. Dada a sofisticação das Forças Armadas iranianas, esse confronto provavelmente seria mais caro, longo e complexo do que aqueles travados contra o Iraque ou Afeganistão. Mesmo diante da possibilidade de um rápido colapso do governo de Teerã, os Estados Unidos teriam uma responsabilidade na reconstrução do país, e ficariam amarrados por anos à região. No campo diplomático, os prováveis abusos de direitos humanos, mortes de civis e possíveis crimes de guerra cometidos por soldados americanos aumentariam a rejeição e o isolamento dos Estados Unidos. A grande maioria da comunidade internacional se recusaria a apoiar os EUA em um conflito que muitos enxergariam como ilegal e desnecessário.

Uma guerra assim produziria uma inevitável onda de sentimento global anti-americano, permitindo um fortalecimento da narrativa de Pequim, que busca colocar a China como uma alternativa benigna, confiável e pacífica aos Estados Unidos: potência em declínio, instável, agressiva e ressentida por sua perda de hegemonia. Com a atenção pública global focada no conflito com o Irã, a China sentiria ainda menos pressão diplomática em relação aos abusos de direitos humanos em Xinjiang e à repressão em Hong Kong.

Um ataque americano ao Irã tampouco estancaria o avanço dos interesses chineses no Oriente Médio. Nos casos do Iraque e do Afeganistão, o que vimos é que a China conseguiu fortalecer sua presença econômica e diplomática mesmo com governos instalados por Washington após as invasões. Embora a imprensa americana insista em enfatizar a influência iraniana no Iraque, a notícia mais importante do ano passado foi a decisão do governo iraquiano de integrar a Nova Rota da Seda (conhecida como BRI), plano de desenvolvimento global do governo Xi Jinping do qual o Afeganistão também já faz parte. Os EUA gastaram cerca de dois trilhões de dólares em dezoito anos de ocupação no Afeganistão mas é a China que terá a maior influência econômica no país, já sendo sua principal investidora.

A decisão recente de Trump de impor novas sanções ao regime iraniano aumenta consideravelmente a influência econômica da China, principal parceira comercial do Irã. Durante uma visita do ministro das Relações Exteriores iraniano Javad Zarif a Pequim em setembro de 2019, o governo chinês anunciou um pacote de investimentos de 400 bilhões de dólares: o maior na história dessa relação bilateral. Assim como aconteceu no caso venezuelano, as sanções de Trump têm facilitado o projeto chinês de aumentar sua influência econômica, uma vez que retiram a concorrência imposta por empresas americanas.

Após o assassinato do general Soleimani pelos EUA no começo de 2020 e da retaliação iraniana subsequente, o cenário mais provável não é de um confronto militar clássico, como ocorreu no Iraque em 2003, mas de um conflito assimétrico de baixa intensidade. Isso deve envolver ataques a instalações militares e postos diplomáticos americanos no Oriente Médio, ciberataques a instituições financeiras dos EUA e apoio a grupos que lutam contra aliados de Washington, como os rebeldes houthis no Iêmen, dificultando a atuação dos Estados Unidos na região. A crise, porém, aumentou as chances de que algum erro de cálculo acabe levando a uma invasão dos EUA no Irã.

Sendo assim, a decisão de matar Soleimani — segundo homem mais poderoso do Irã e uma figura que muitos viam como um possível candidato à presidência em eleições futuras — ameaça a única ideia positiva que Trump articulou para a política externa americana: a de se retirar de guerras desnecessárias e finalmente focar-se inteiramente na necessidade de articular uma estratégia mais coerente para lidar com a ascensão chinesa.

Guerras,Blog do Mesquita 01

EUA X Irã: o que originou a rivalidade de décadas entre os dois países

O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES

Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali Khomeini
O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES
Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali KhomeiniDireito de imagem GETTY IMAGES
O aiatolá Khomeini se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edificio

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosDireito de imagem GETTY IMAGES
Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.

 se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edifício

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosEm 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.
ViaBBC

Dinheiro,Economia,Ouro,BitCoin,Dolar,Euro,Real,Blog do Mesquita

O cálculo gelado de Donald Trump

  

Presidente dos EUA, Donald TrumpTrump confirmou rumores sobre os planos para adquirir a ilha, afirmando que a ideia é “estrategicamente interessante”

O presidente dos Estados Unidos é um famoso cético quando se trata de alterações climáticas provocadas pelo homem. No entanto, o atual derretimento do gelo na Groenlândia pode estar aquecendo seu coração. Isso porque a maior parte da Groenlândia está no Ártico, uma das poucas regiões subdesenvolvidas do mundo com grande potencial econômico.

Ao manifestar interesse em comprar a Groenlândia, o presidente dos EUA tenta, mais uma vez, perturbar a ordem ocidental do pós-guerra. O principal interesse é o domínio americano no Ártico, opina Oliver Sallet. Quando ele se oferece para comprar a Groenlândia, parece óbvio que o que interessa ao presidente são os recursos naturais do lugar. A mudança climática e o derretimento das massas de gelo levam a crer que estes serão em breve mais fáceis de serem alcançados. Até mesmo Trump, o negador da mudança climática, sabe disso – e não faz questão alguma de esconder que os EUA querem estar na vanguarda da corrida pelo Ártico no futuro.

Os países árticos incluem não apenas os EUA, o Canadá, a Noruega e a Dinamarca, mas também o rival geopolítico de Trump, a Rússia. Até mesmo a China, que na verdade não possui territórios árticos, está inequivocamente tentando justificar sua reivindicação na região polar, descrevendo-se como um país “em grande proximidade” do Ártico.

Está claro que o que está em jogo aqui é mais do que apenas um negócio imobiliário. A corrida por recursos naturais e rotas marítimas reflete a mudança na hierarquia geopolítica das antigas e emergentes hegemonias. Trump está interessado em nada menos que o domínio americano no Ártico – e por isso ele tem que competir com a Rússia e a China.

De fato, a ideia de tornar a Groenlândia um território dos EUA não é nova. O presidente Harry S. Truman tentou isso em 1946. De Louisiana ao Alasca, os EUA fizeram antes grandes e históricas aquisições de terras. Por que “Make America Great Again” não poderia funcionar também com a Groenlândia?

Sete décadas se passaram desde 1946 – e não apenas isso. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, a ordem mundial do pós-guerra, especialmente sob a liderança dos EUA, ainda estava tomando forma. Hoje, o Ocidente, incluindo a Dinamarca, está fortemente ligado aos EUA através da participação comum na Otan. A aliança militar era garantia de liberdade e multilateralismo.

Agora, porém, a China está contestando a posição americana como potência global – e Trump é parcialmente responsável por isso. Desde que assumiu o cargo, ele tem buscado enfraquecer as bases da estrutura ocidental: pressionando pela dissolução da União Europeia, questionando o sentido da Otan, aproximando-se de déspotas e se afastando dos antigos parceiros dos Estados Unidos no Ocidente. Oferecer-se para comprar o território dinamarquês pode ser uma violação de um tabu – mas corresponde à visão de mundo desse presidente dos EUA.
DW

Boeing,Embraer,Brasil,Blog do Mesquita

União Europeia abre investigação sobre acordo Embraer-Boeing

Comissão Europeia analisa se fusão pode ameaçar competição no setor e tem 90 dias para apresentar um parecer. Acordo prevê criação de uma nova empresa de aviação comercial, com 80% de participação da gigante americana.    

Avião da EmbraerBoeing vai comprar área de aviação civil da brasileira

A Comissão Europeia anunciou nesta sexta-feira (04/10) que abriu uma investigação aprofundada sobre o acordo da parceria entre a Embraer e a gigante americana Boeing devido a uma possível ameaça à competição nos preços e desenvolvimentos de produtos no setor da aviação.

O acordo em andamento entre as duas companhias prevê a criação de uma nova empresa – uma joint venture, no termo do mercado –, na qual a Boeing deterá 80% de participação, e a Embraer, 20%. Por isso, a americana pagará 4,2 bilhões de dólares à brasileira.

A nova empresa é avaliada em 5,26 bilhões de dólares. Caberá à Boeing o controle da atividade comercial, não absorvendo as atividades relacionadas a aeronaves para segurança nacional e jatos executivos, que devem continuar somente com a Embraer.

Segundo a Comissão Europeia, o acordo pode reduzir potencialmente o número de concorrentes num mercado global já concentrado e poderia dificultar a entrada de novos participantes no mercado, como os da China, Japão e Rússia.

“Os mercados de aeronaves comerciais precisam funcionar bem para fornecer produtos inovadores e eficientes a um preço justo”, destacou Margrethe Vestager, comissária de Concorrência da União Europeia (UE).

O órgão executivo do bloco destaca ainda que atualmente a Embraer e a Boeing são concorrentes em alguns setores da aviação comercial. A comissão tem agora 90 dias para analisar a fusão das empresas, que podem fazer concessões se houver um impasse sobre o caso.

A Comissão Europeia pode abrir investigações sobre empresas com um volume de negócios que ultrapassa um determinado limite, se considerar que a fusão delas representa uma ameaça ao Espaço Econômico Europeu. A maioria das fusões é aprovada sem problemas. Aquelas que podem trazer risco, porém, passam por uma investigação aprofundada.

O acordo entre as empresas foi acertado no final do ano passado. Na quinta-feira, a Embraer e a Boeing divulgaram um comunicado afirmando que aguardavam a aprovação dos órgãos reguladores da Comissão Europeia. “As empresas esperam que a transação seja concluída no início de 2020”, destacaram.

Os acionistas da Embraer aprovaram em fevereiro a venda do controle da sua divisão comercial à Boeing para a criação de uma nova empresa. O acordo já foi aprovado também pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos e aguarda a palavra final dos europeus.

A  joint venture criada para a fabricação de aviões comerciais, que deve absorver toda a operação atual da Embraer voltada para esse segmento, deve gerar uma sinergia anual de custos de cerca de 150 milhões de dólares – sem considerar os impostos – até o terceiro ano de operação.

As empresas também chegaram a um acordo sobre os termos de uma segunda joint venture para promover o desenvolvimento de novos mercados para o avião militar multimissão KC-390. De acordo com a parceria proposta, a Embraer terá 51% da participação, e a Boeing ficará com os restantes 49%.

A Embraer foi privatizada em 1994, mas o governo brasileiro detém uma ação especial chamada golden share que permite vetar quaisquer negócios firmados pela empresa. A empresa é a fabricante líder mundial de aeronaves comerciais com até 150 assentos e tem mais de 100 clientes em todo o mundo.