Autogolpe de Trump fracassou por não ter apoio militar, diz Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem

Um acontecimento que não se via nos Estados Unidos desde o século 19.

Um grupo de apoiadores do presidente americano, Donald Trump, invadiu e depredou a sede do Congresso dos EUA, em Washington, após ultrapassarem as barreiras montadas por agentes de segurança, em meio a confrontos isolados.

O ato violento no Capitólio na quarta-feira (6/1) ocorreu logo depois que Trump discursou para uma multidão em frente à Casa Branca, a quase 3 km dali, repetindo acusações sem prova e rejeitadas por diversos juízes do país de que houve fraude na eleição em que perdeu para Joe Biden.

O que se viu no Capitólio foram cenas de caos, com congressistas deitados no chão, sendo evacuados e colocando máscaras antigás.
Para o professor de governabilidade da Universidade Harvard, Steve Levitsky, a invasão do Congresso foi uma resposta a “quatro anos de descrédito e deslegitimação da democracia” por parte do Partido Republicano e de Trump.

A cidade de Washington impôs um toque de recolher nesta quarta-feira a partir das seis da tarde.

Levitsky é coautor do livro Como as Democracias Morrem, de 2018, no qual expõe “os sinais alarmantes que põem em risco a democracia liberal dos EUA”.

Estudioso também dos processos democráticos e presidenciais da América Latina, Levitsky descreveu a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump como uma “tentativa de autogolpe”, em entrevista à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol.

Para ele, “a grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares” e “um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem poucas chances de sucesso”.

Apoiadores de Trump invadiram o Capitol enquanto as sessões eram realizadas para certificar votos para Joe Biden.

Segundo sua análise, “a democracia sobreviverá a este dia”, mas o que se coloca para o futuro do país é um período de crise bastante incerto.

BBC – Que interpretação o senhor dá para a insurgência de apoiadores de Trump no Capitólio dos Estados Unidos?

Levistky – Pode-se presumir que isso iria acontecer. Donald Trump e muitos, muitos líderes republicanos têm incitado, têm mentido para sua base que os democratas estão arruinando o país e subvertendo a democracia. Eles vêm dizendo isso há cinco anos.

E então, depois de perder a eleição, não só Trump mas também líderes do Partido Republicano estavam lá no Congresso, repetindo a mentira e desacreditando a legitimidade da democracia e das instituições. Depois de anos mobilizando sua base com uma linguagem que incluía termos como socialismo ou traição, pode realmente surpreender que isso esteja acontecendo depois que você perdeu a eleição?

Na história da América Latina, quando os líderes incitam seus seguidores em um ambiente altamente polarizado, as pessoas agem. Palavras têm significado, elas têm poder.

O que me surpreende nisso é como a polícia estava mal preparada.

A Polícia do Capitólio, fortemente armada, deteve alguns manifestantes

BBC – Como o senhor interpreta as reações de alguns membros do Partido Republicano e do próprio presidente Trump, que em um tuíte nesta quarta-feira (6/1) pediu a seus apoiadores que não fossem violentos?

Levistky – O presidente já foi radicalmente violento antes e, se não queria que isso acontecesse, precisava agir mais rápido e se mobilizar para evitar. Ele provavelmente não deveria ter sugerido que marchassem até o Congresso. Trump os enviou para lá, ele os incitou a se mobilizarem para o Congresso. O fato de que os líderes republicanos agora estão rompendo com Trump é hipócrita, depois de o apoiarem por anos, mas é importante e positivo. Parece-me positivo ter visto discursos como o de Mitch McConnell (líder da maioria do Partido Republicano no Senado).

BBC – Estamos diante de uma revolução, de um golpe de Estado, de uma insurreição?

Levitsky – É uma variante do que na América Latina chamaríamos de autogolpe. É um presidente mobilizando seus apoiadores para permanecer no poder ilegalmente. Será um autogolpe fracassado, mas é uma insurreição do poder para tentar subverter os resultados da eleição e permanecer no poder ilegalmente. Eu diria que foi uma tentativa de autogolpe.

BBC – Na América Latina, esse tipo de situações que o senhor descreve são prejudiciais à democracia. O senhor diria que este é um momento perigoso na história americana? Diria que a democracia permanecerá forte, e o presidente eleito Joe Biden será empossado em 20 de janeiro?

Levistky -Tenho esperado com terror por este dia na democracia americana nos últimos quatro anos. Todos os dias durante quatro anos. Nossa democracia está em grave crise e este é o ponto culminante dela. Mas não é que tenha saído do nada. Nossa democracia está em crise há vários anos e acho que vai continuar assim.

Este autogolpe vai fracassar. Aqueles que protestarem em algum momento serão retirados do Capitólio e em algum momento a eleição de Biden também será certificada, e Trump será removido da Presidência. Agora, não está claro como isso vai acontecer. Mas Trump vai fracassar, e a democracia americana sobreviverá aos eventos de hoje.

Mas isso não significa que está tudo bem. São acontecimentos aterrorizantes e prejudiciais como na América Latina. A grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares. Um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem muito poucas chances de sucesso.

BBC – O senhor fala com segurança que a democracia sobreviverá e que esta será uma tentativa fracassada.

Levistky – Hoje. Acredito que, no médio prazo, estamos nos aproximando de um período de crise. Eu digo que esta tentativa de hoje irá falhar, porque a correlação de forças não existe para apoiar Trump. Não tem apoio militar. A democracia sobreviverá quando acordarmos amanhã, mas não posso garantir o que acontecerá daqui a cinco anos. A democracia americana é um desastre.

BBC – O presidente eleito Joe Biden mencionou que a democracia estava “sob um ataque sem precedentes” com os acontecimentos desta quarta-feira. Esta situação é extraordinária no contexto da história americana moderna?

Levistky – É extraordinário e sem precedentes no contexto da história americana moderna. No século 19, o país passou por uma era de violência, especificamente nos anos anteriores à Guerra Civil, e também vivenciou violência, especificamente em nível estadual, durante anos após a Guerra Civil. Portanto, em meados do século 19, os EUA experimentaram crises ainda mais graves do que as que vemos hoje. Mas não sofremos algo assim no século 20.

Isso não tem precedentes na história democrática moderna.

Trump discursou para seus apoiadores em Washington na quarta-feira antes de invadirem o Capitólio

BBC – E quais são os mecanismos dos poderes constituídos para lidar com essa crise? Na Constituição ou nas legislaturas?

Levistky – Formalmente, existem dois mecanismos, mas nenhum deles foi usado até agora. Um é o impeachment ou o impeachment que leva à remoção. Nos EUA, ocorreram julgamentos políticos de presidentes, mas não resultaram em sua destituição do poder. É um processo bastante longo, a menos que o façamos à maneira peruana, de retirar o presidente durante a noite. É improvável que isso aconteça.

E há outro mecanismo, a emenda nº 25 à Constituição, que é mais recente porque foi aprovada em meados do século 20, e também não foi usado até agora.

Nenhum desses mecanismos foi adotado.

A América Latina tem muito mais experiência em provocar a destituição de presidentes que abusam do poder do que os EUA. A grande maioria das democracias presidencialistas está na América, mas nunca usamos o mecanismo americano para remover um presidente nos termos constitucionais.

Acho que a melhor saída seria Trump renunciar, seria que aqueles de seu próprio partido pressionassem Trump a renunciar. Ele não vai, mas deveria.

BBC – Mas ele está dizendo que não vai. Então, se ele nunca o fizer, se ele nunca ceder, o que acontece?

Levitsky – Durante o mês de novembro, esperei que sua filha e seu genro o fizessem entender, e há reportagens que indicam que ele sabe que perdeu e que deve ir embora. Uma característica de Trump é que ele não antecipa as consequências do que diz e faz. Então, eu não acho que ele previu o que acabou acontecendo hoje no Capitólio, embora ele o tenha instigado.

Acho que Trump sabe que tem que sair e acho que o cenário mais provável, apesar deste terrível golpe fracassado, é que os americanos virem a página e deixem Trump passar suas últimas duas semanas no cargo. Tudo é possível neste momento, mas parece improvável que ele tente se recusar a sair em 20 de janeiro.

Não teremos mais uma transição pacífica de poder, mas será, mais ou menos, uma transferência de poder habitual.

BBC – O senhor disse que a invasão do Capitólio é o ponto culminante de cinco anos de um intenso jogo político entre o presidente Trump e o Partido Republicano. O que o senhor acha que acontecerá no contexto de uma nova Presidência democrata de Joe Biden?

Levitsky – Eu acho que é muito incerto. Decerto não há tantas pessoas nas ruas; obviamente estão fazendo muito barulho, mas em comparação com a marcha das mulheres depois que Trump foi eleito, esta é uma festa no jardim. Não é que as massas estejam tomando as ruas, isso não é uma revolução. Esta não é a Argentina em outubro de 1945.

Então, o que eu acho, dependendo do que Trump faz, é que em algum momento ele terá que desistir. E se ele desistir e voltar para a Flórida, acho que isso vai ficar mais fraco. Ainda haverá uma direita radicalizada e mobilizada, mas não acho que Biden esteja enfrentando uma crise de governança.

Na verdade, acho que talvez isso o fortaleça. Porque agora os republicanos estão à beira de uma divisão severa. Portanto, acho que há várias coisas que podem acontecer: Uma, que o Partido Republicano finalmente se reunirá e derrubará Trump, de modo que ele acabe isolado, junto com seus aliados como (Rudy) Giuliani e as pessoas a quem perdoou. E que Mitch McConnell, Marco Rubio e até Ted Cruz acabam abandonando Trump.

Ou a outra coisa que pode acontecer é que o Partido Republicano se divida, quebre, como parecia que ia acontecer nesta quarta-feira. Não estou falando de uma divisão formal, mas de uma composição na qual há uma ala do partido que ainda está fortemente alinhada com Trump e outra ala que está tentando ir além de Trump. E se os republicanos estão divididos, isso vai fortalecer Biden.

América Latina reage à alta da covid-19, mas Brasil segue inerte

Janeiro trouxe uma escalada de novos casos de covid-19 na América Latina.

Ainda não está claro se este é o início de uma segunda onda ou um agravamento da primeira após algumas semanas de trégua. Enquanto a região espera a chegada das primeiras doses da vacina —só Argentina, México, Chile e Costa Rica iniciaram campanhas de imunização—, a solução à disposição continua sendo a quarentena.

Os Governos, no entanto, terão que enfrentar a resistência social a novos confinamentos. Federico Rivas Molina e Sonia Corona contam como Buenos Aires estuda um “toque de recolher sanitário” e a Cidade do México fechou atividades não essenciais diante do aumento do número de leitos de UTI ocupados, mas nada fez o Brasil. Apesar dos números em alta e do atraso na vacinação, a maioria das autoridades brasileiras segue inerte.

Nos Estados Unidos, a jornada desta quarta-feira se adivinha wagneriana. Um grupo de senadores e congressistas republicanos planeja torpedear a certificação do democrata Joe Biden como vencedor das eleições presidenciais, prevista para ocorrer em uma sessão bicameral no Capitólio. A investida não tem perspectiva de se traduzir em nada mais do que uma manifestação da polarização.

Trump manteve o clima de tensão no ar, desta vez mirando seu número dois, o vice-presidente Mike Pence, que deve presidir a cerimônia. O nova-iorquino pediu que Pence use seu posto para impedir a confirmação de Biden, algo que não pode fazer.

Enquanto Trump se dedica a manobras sem efeito, o Estado da Geórgia define a margem de manobra que Biden terá sobre o Senado. O democrata já avançou com a vitória de Raphael Warnock em uma das duas vagas — o pastor evangélico fez história ao se tornar o primeiro senador negro a ser eleito neste Estado sulista. Se o outro candidato democrata vencer, o Senado ficará formado por 50 republicanos e 50 democratas (incluindo dois independentes), mas a próxima vice-presidenta, Kamala Harris, exercerá o voto decisivo nos casos de empate.

Em Brasília, o único tema é a sucessão no comando do Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados. Com o objetivo de conter Jair Bolsonaro, a esquerda se aliou ao candidato do atual presidente, Rodrigo Maia, o deputado Baleia Rossi, um dos articuladores do impeachment de Dilma em 2016, contra o candidato do Planalto, Arhur Lira, explica Afonso Benites. Baleia Rossi formaliza nesta quarta sua candidatura. Para o cientista político Cláudio Couto, o apoio representa a tentativa de manter os Poderes independentes. “É uma aliança visando estabelecer a independência do Legislativo, ainda mais diante dos arroubos autoritários do Bolsonaro. Se ele se comportou até aqui dessa forma tendo o Congresso independente, imagina se não o tivesse”, avalia.

E a Rússia deu adeus a George Blake ao som do hino nacional e com as salvas da guarda nacional de honra. O legendário espião britânico, que trabalhou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. De Moscou, María R. Sahuquillo escreve sobre a morte do mítico agente duplo marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo.

Enquanto Bolsonaro patina em se aproximar de Biden, oposição brasileira ganha terreno com democratas

Deputada Deb Haaland – Enviado climático e cotada para secretária do novo presidente se aproximaram de lideranças políticas indígenas do Brasil

Se o presidente brasileiro Jair Bolsonaro demorou 38 dias para reconhecer a vitória de Joe Biden à Presidência dos Estados Unidos e patina para estabelecer conexões com os democratas, a oposição ao seu governo no Brasil tem se mostrado mais efetiva em construir pontes com a nova administração, que começará oficialmente no dia 20 de janeiro.

E uma parte importante dessa conexão tem sido operada por meio de lideranças indígenas, com quem Bolsonaro tem acumulado embates.

A última prova disso é o lançamento de uma parceria entre a parlamentar americana democrata Deb Haaland e a deputada federal brasileira Joênia Wapichana (Rede-RR).

Na semana passada, as duas conversaram pelo telefone para coordenar esforços interamericanos para avançar em pautas de respeito aos direitos dos povos nativos e proteção ao meio ambiente nos dois países.

“Continuaremos colocando Bolsonaro na fogueira enquanto ele cometer violações dos direitos humanos, seguir no esforço para destruir a Floresta Amazônica e colocar nosso planeta em risco de um desastre climático ainda maior”, afirmou Haaland em nota enviada à BBC News Brasil.

Entusiasta da gestão do republicano Donald Trump, que tentou sem sucesso a reeleição, Bolsonaro já havia se posicionado publicamente em favor de um segundo mandato para Trump, de quem se disse fã.

Seu filho e deputado federal, Eduardo Bolsonaro, que em 2019 acalentou o desejo de ser embaixador em Washington, fez campanha por Trump em suas redes sociais.

Após a divulgação do resultado do pleito, o Itamaraty mergulhou em silêncio enquanto até duas semanas atrás Bolsonaro dizia ter informações sobre “fraude eleitoral”. Na terça-feira (15), o presidente enviou “saudações” a Biden”, “com meus melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo “a terra dos livres e o lar dos corajosos”.

E acrescentou: “Estarei pronto a trabalhar com o novo governo e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA”.

Haaland é a primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano – Reuters
Haaland: crítica a Bolsonaro e cotada para o gabinete de Biden

O caminho dessa cooperação, no entanto, pode ser acidentado. Isso porque existe uma sincronia de movimentos de atores políticos nos legislativos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos que dificultam a aproximação.

“A gente tem visto um Itamaraty disfuncional, declinante, com o filho do presidente (Eduardo) como uma eminência parda da política externa. Então outros atores políticos passaram a atuar, como o legislativo brasileiro, que geralmente não têm protagonismo no tema. Do lado do Brasil, vemos uma politização histórica da política externa”, afirma Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas.

“Ao mesmo tempo, pela primeira vez, o Congresso americano mostrou interesse em se aproximar do legislativo brasileiro e a vitória de Biden empoderou esse grupo de deputados democratas que está na Câmara.”

Primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano, Haaland é cotada para ser a secretária do Departamento de Interior do presidente-eleito Joe Biden, o que a colocaria no primeiro time da nova administração.

Haaland se tornou uma das principais críticas de Bolsonaro no partido — e na Câmara —, e tem trazido nomes proeminentes da agremiação consigo para as manifestações públicas contra o mandatário brasileiro, como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Ela passou a atuar tanto na pressão pública a Bolsonaro, por meio de cartas, quanto na proposição de medidas contra os interesses do governo brasileiro no Congresso americano.

A deputada americana tentou, por exemplo, barrar a aprovação do status do Brasil como aliado militar extra-OTAN, uma das conquistas mais comemoradas pelo Itamaraty sob Bolsonaro.

Nas últimas semanas, ela se empenhava em cortar do Orçamento de Defesa dos EUA a previsão de verba pública para o acordo de salvaguardas tecnológicas entre os países, que deve viabilizar lançamentos de satélites americanos da base de Alcântara, no Maranhão.

Em maio de 2019, pouco depois do anúncio do acordo para uso da base de Alcântara, Haaland conseguiu angariar assinaturas de 54 congressistas americanos para uma carta enviada ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo, na qual alertava para “violações dos direitos humanos de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil”.

Meses antes, além de Wapichana, a política americana recebeu no Congresso dos EUA as parlamentares oposicionistas Erika Kokay (PT-DF) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

GIOVANNI BELLO/BBC
Wapichana encontrou-se com Haaland no Congresso americano em fevereiro de 2020

Em junho desse ano, voltou à carga com uma carta enviada ao presidente da Câmara brasileira, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que pedia a derrubada de um projeto de lei que previa ampla regularização fundiária na Amazônia e que acabou batizado pelos críticos de “PL da Grilagem“.

“Entendemos que esse projeto é muito prejudicial para a floresta amazônica, uma vez que legalizará grandes áreas de terras públicas que já foram ocupadas e desmatadas ilegalmente”, escrevia Haaland, na carta assinada por 18 de seus colegas.

No mesmo período, seus colegas da Comissão de Orçamento e Tributos da Câmara enviaram comunicação às autoridades comerciais americanas dizendo que se opunham a qualquer avanço em tratados comerciais com o Brasil de Bolsonaro.

E em dezembro, Haaland assinou com outros 21 colegas um pedido de proteção à deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), em que qualificava as políticas de Bolsonaro como “antidemocráticas e xenófobas”.

“O que estamos fazendo é expor para o mundo as ações do governo Bolsonaro que precisam parar e teremos intercâmbio de relações legislativas intensas”, afirmou à BBC News Brasil a deputada Joênia Wapichana.

Segundo ela, o governo Bolsonaro deveria “ter atuado de forma mais diplomática e menos de acordo com preferência individual” com os democratas. Questionado repetidas vezes sobre o assunto, o embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster, afirma manter bom trânsito nos dois partidos.

John Kerry e os Munduruku

Mas não para por aí. Em outubro de 2020, enquanto a disputa para a Presidência da Casa Branca chegava à reta final, em Washington D.C., a líder indígena Alessandra Korap Munduruku recebia o prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos.

Korap ganhou proeminência ao pedir a expulsão de garimpeiros das terras de seu povo, motivo pelo qual passou a ser ameaçada de morte.

A líder tem denunciado que desde a chegada ao poder de Bolsonaro, a situação das populações nativas se deteriorou.

Bolsonaro já se posicionou publicamente a favor do garimpo em terras indígenas, contra a destruição de maquinário usado por madeireiros para derrubar ilegalmente a floresta na Amazônia e, durante a campanha, prometeu que não demarcaria mais nem “um centímetro quadrado” de área para essas populações.SUSANA VERA/REUTERS
Kerry foi Secretário de Estado dos Estados Unidos entre 2013 e 2017

No evento de homenagem a Korap, coube a John Kerry, recém-nomeado por Biden como enviado especial de mudanças climáticas para o Conselho Nacional de Segurança, fazer o principal discurso da noite. Ali, ele disse à Korap que se comprometia a lutar a seu lado.

“O povo Munduruku no Brasil é guerreiro de muitas formas diferentes. Tem resistido ativamente à pressão constante, violenta, ilegal e, às vezes, patrocinada pelo Estado, de madeireiros e mineradores para explorar suas terras. Alessandra, você falou e continua a falar a verdade ao poder. E é extraordinária a maneira como você luta pelos pulmões do planeta, a maneira como você luta para proteger nossa terra e por todos os bens comuns que precisamos nos esforçar para salvar”, disse Kerry, responsável pela formulação das propostas para meio ambiente da campanha de Biden.

Naquele mesmo mês, o democrata surpreendeu o governo brasileiro ao citar o desmatamento na Amazônia como um exemplo de como mudaria sua liderança global em relação à gestão Trump durante um debate televisivo entre os candidatos.

Ao anunciar que pretendia criar um fundo para a preservação do Bioma, Biden afirmou: “Aqui estão US$ 20 bilhões, pare de destruir a floresta. E se não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas”. A fala foi vista pelo governo Bolsonaro como uma ameaça à soberania do país.

O poder da oposição americana a Bolsonaro

Para Casarões, é difícil dimensionar o poder desse grupo de deputados democratas, no qual Haaland é uma liderança. Isso porque, diferente do Brasil, o presidente americano depende essencialmente do legislativo para aprovar medidas centrais e por enquanto a Câmara é a única das duas casas que os democratas controlam por enquanto — a maioria no Senado para o próximo ano ainda está indefinida.

Considerado um moderado e centrista entre os Democratas, Biden terá que fazer concessões à ala mais à esquerda do partido para poder governar.

E um tema no qual seria mais fácil chegar a um consenso é justamente a agenda ambiental, na qual Bolsonaro é visto como um antagonista claro para o partido. Biden já anunciou, por exemplo, que recolocará os EUA no Acordo de Paris, de onde Trump retirou o país, em um movimento que Bolsonaro admitiu ter vontade de copiar.

ADRIANO MACHADO/REUTERS
Bolsonaro tem relação conflituosa com povos indígenas

No final de novembro, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a Amazônia brasileira perdeu mais de 11 mil quilômetros quadrados de área de floresta no período entre agosto de 2019 e julho de 2020.

É o maior desmatamento registrado nos últimos 12 anos. Nesta quarta, dia 16, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países do qual o Brasil quer se tornar membro, divulgou relatório em que aponta que o Brasil tem falhado em coibir a devastação ambiental.

“As discussões políticas enviaram sinais contraditórios sobre o compromisso (do governo) com a estrutura de proteção ambiental existente”, afirma o relatório, que exorta o governo a aumentar o orçamento para a fiscalização.

Reservadamente, democratas afirmam não ver condições de interlocução nesses temas com o chanceler Ernesto Araújo, que, em setembro de 2019, deu uma palestra em um think tank conservador na capital americana no qual questionava premissas científicas do aquecimento global.

“O negacionismo climático que uniu Bolsonaro a Trump simplesmente não funcionará com Biden, que priorizará ações climáticas globais ambiciosas, incluindo a proteção da floresta Amazônica. O problema não é apenas dos ministros atuais e seus discursos públicos, mas as políticas destrutivas do governo Bolsonaro no assunto continuarão a isolar o Brasil de governos e investidores internacionais”, afirma Andrew Miller, um dos diretores da organização ambiental Amazon Watch.

BBC

Agenda ambiental de Biden deve aumentar importância geopolítica da América do Sul

Meta de zerar emissões nos EUA até 2050 deve impulsionar interesse nas reservas de Argentina, Bolívia e Chile de lítio, usado em baterias, e em energias renováveis do Brasil.

Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo

A meta ambiciosa de zerar as emissões líquidas de carbono nos EUA até 2050 é o ponto de maior destaque do “Plano para Mudança Climática e Justiça Ambiental” apresentado pelo democrata Joe Biden durante a campanha à eleição presidencial da qual se saiu vencedor, derrotando o republicano Donald Trump.

O incentivo dado aos combustíveis fósseis, bandeira do republicano nos últimos quatro anos, dá lugar aos investimentos em energias renováveis, enquanto a negação científica das mudanças climáticas cede espaço para uma adesão ao esforço multilateral pela preservação ambiental.

A partir de 20 de janeiro de 2021, Joe Biden tem o desafio de recolocar os EUA, segundo maior emissor global de carbono, no Acordo de Paris. A saída do acordo costurado em 2015, anunciada por Trump meses depois de sua chegada à presidência, se concretizou no último dia 4 de novembro.

Espera-se que Biden seja mais rigoroso com as obrigações climáticas e ambientais em atividades intensivas em CO2, como a indústria de petróleo e gás, simpática à tradição republicana e que teve momentos auspiciosos com Trump.

Caso o novo presidente dos EUA realmente coloque em prática o seu plano climático e ambiental, a América do Sul deverá alcançar outro patamar de importância no xadrez internacional da geopolítica.

Lítio: “petróleo branco”

Para reduzir as emissões, Biden terá que estimular as alternativas existentes aos combustíveis fósseis. No caso da indústria automotiva, por exemplo, deve-se esperar por incentivos à massificação dos carros elétricos.

O processo de “eletrificação” é inerente à transição para uma economia de baixa emissão de carbono, em todas as áreas. Nesse cenário, não haverá mineral mais importante que o lítio, principal matéria-prima utilizada na fabricação de baterias. Não à toa, o elemento é chamado de “petróleo branco”.

Mantida a comparação com o combustível que moveu o mundo no século 20, a América do Sul seria uma espécie de Oriente Médio. Bolívia, Argentina e Chile formam o “triângulo do lítio”, região que concentra 68% das reservas do mineral no mundo.

Recentemente empossado como presidente da Bolívia, Luis Arce afirmou que o lítio é o passaporte para o desenvolvimento econômico e social do país andino. Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo.

Mas há uma diferença conceitual entre “reserva” e “recurso”. Reserva é o depósito de teores minerais, o que a Bolívia detém. Recurso, por sua vez, é aquilo que é extraído da reserva, algo que a Argentina e o Chile já estão fazendo.

“O mercado de lítio ainda é caracterizado por inúmeras empresas, mas poucos projetos são viáveis”, explica Emily Hersh, vice-presidente executiva da U.S. Critical Minerals, empresa de exploração mineral estadunidense.

“A América Latina abriga uma grande variedade de depósitos de lítio em vários estágios de desenvolvimento. Os países que investem em infraestrutura e demonstram compreensão da cadeia de fornecimento de baterias irão emergir como líderes no novo futuro energético”, afirma a especialista.

Atualmente, a China é o maior produtor mundial de lítio. No contexto da guerra comercial entre os dois países, é crucial para a segurança energética dos EUA no século 21 reduzir a dependência do mineral em relação ao país asiático.

Oportunidades para o Brasil

O economista Edmar Almeida, pesquisador do Instituto de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a demanda dos EUA pode gerar oportunidades para produzir baterias no Brasil e outros países da região que detêm lítio.

“À medida que a indústria de bateria ganhe terreno, a questão da cadeia produtiva da bateria assumirá um caráter estratégico. O Brasil já tem uma indústria de bateria bem consolidada, podendo abrir novas oportunidades”, assinala.

Almeida acredita, todavia, que a maior oportunidade de cooperação para o Brasil reside no segmento de energias renováveis, vetor fundamental da transição energética almejada por Biden. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, com cerca de 46% da energia produzida proveniente de fontes renováveis.

“É uma área em que o Brasil possui acordos com o governo americano, e o país já tem uma indústria renovável muito desenvolvida, com grande potencial de crescimento”, afirma.

O economista destaca, ainda, o potencial apresentado pelo país em programas de hidrogênio verde, solução escolhida pela Alemanha e pela União Europeia como meio para alcançar neutralidade na emissão de carbono até 2050 e fazer a transição para uma economia limpa.

“O fato de termos uma indústria elétrica já bastante descarbonizada cria condições únicas para a produção de hidrogênio verde, que não existem em outros países. O Brasil pode alavancar investimentos em projetos de P&D, projetos-piloto e projetos comerciais em hidrogênio verde. Temos uma chance única”, diz.

Amazônia: ponto sensível

A preservação da Amazônia se apresenta como o tema potencialmente mais delicado da relação do governo de Jair Bolsonaro com o novo presidente dos EUA.

Recentemente, Bolsonaro insinuou um conflito militar com a maior potência armamentista do mundo em resposta à ameaça feita por Biden na campanha de impor sanções comerciais ao Brasil pelas queimadas na região: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”, disse o presidente brasileiro no dia 10 de novembro, durante um evento de fomento ao turismo nacional.

Os planos de Biden para a preservação da floresta não se limitam às possíveis retaliações econômicas. Durante a campanha, ele propôs a criação de um fundo de 20 bilhões de dólares (cerca de 100 bilhões de reais) com outros países para garantir a proteção da Amazônia.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro recusou ajuda financeira de países do G7, anunciada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para combater os incêndios florestais na Amazônia. A decisão foi atribuída à necessidade de manter a “soberania” sobre a região, termo citado por três vezes durante seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU deste ano.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o descaso do governo Bolsonaro com a agenda ambiental e a Amazônia tende a deixar o Brasil em uma posição vulnerável em um cenário de aumento das pressões internacionais sobre o país.

“Para garantir a soberania sobre a Amazônia, o Brasil precisa preservá-la. Somos um dos maiores emissores de CO2 do mundo, e as nossas emissões são, em sua maior parte, provenientes de queimadas. É um padrão de emissões diferente das grandes potências industrializadas”, destaca.

Trump admitie vitória de Biden, mas segue narrativa de fraudes eleitoral

“Ele [Biden] venceu porque a eleição foi fraudada”, disse Trump em sua conta no Twitter neste domingo (15).

“Ele venceu porque a eleição foi fraudada”, disse Trump, ao apontar arbitrariedades no processo eleitoral, sem apresentar provas.

O republicano Donald Trump pela primeira vez reconheceu a vitória de Joe Biden, mas segue a narrativa de fraudes que, segundo ele, beneficiou o democrata. Apesar da insistência de Trump, o reúblicano não apresenta provas concretas das ações ilícitas no pleito eleitoral.

Segundo Trump, “todas as ‘falhas’ mecânicas que aconteceram na noite da eleição foram na verdade ELES [democratas] sendo pegos tentando roubar votos”.

As decisões internacionais de Trump que Biden deve reverter

O presidente eleito Joe Biden prometeu restaurar o papel de liderança dos Estados Unidos no mundo, revertendo o unilateralismo do governo de Donald Trump e se reorientando para alianças internacionais de longa data.

Biden afirma ainda que seu governo irá promover a diplomacia e liderar pelo “poder do exemplo”, em vez de pelo “exemplo do poder”.

Da saída do acordo climático de Paris até o compromisso nuclear com o Irã, expectativa é de que presidente eleito desfaça muitas das medidas unilaterais adotadas por Donald Trump.

Biden herdou uma situação em que os aliados questionam a credibilidade dos EUA e com as relações entre Washington e outras capitais ao redor do mundo passando por um momento de tensão.

O presidente eleito prometeu reparar o máximo de danos possível em seus primeiros cem dias de mandato, revertendo uma série de ordens executivas assinadas pelo atual governo. Tais ordens derrubaram acordos e alianças internacionais que Trump alegou serem injustos para os EUA por diversas razões. Segundo os críticos, porém, essas medidas foram contraproducentes, com o isolacionismo americano simplesmente permitindo que a China expandisse sua influência na ausência dos EUA.

Estas são algumas das principais medidas da política externa que o presidente eleito prometeu reverter assim que tomar posse:

Acordo nuclear com o Irã

O presidente Trump criticou regularmente o acordo nuclear com o Irã como “um dos piores negócios da história”, retirando os EUA do pacto em 8 de maio de 2018. Trump também restabeleceu as sanções ao Irã e a qualquer um que fizer negócios com a nação persa.

Assinado em 2015 pelo governo de Barack Obama, ao lado de China, França, Rússia, Reino Unido e Alemanha, além do Irã, o acordo concordou em estabelecer o diálogo e o monitoramento do programa nuclear iraniano em troca de alívio econômico. O governo Trump chamou o acordo de fraco e, em vez disso, optou pela chamada “campanha de pressão máxima”.

Biden acusa a política de Trump de ser ineficaz e de ter servido apenas para o aumento das tensões. Ele prometeu retornar ao acordo, mas disse que só retirará as sanções após a confirmação da estrita adesão do Irã às regras do pacto.

De forma mais geral, Biden também pode buscar distanciar os EUA da Arábia Saudita, adversário regional do Irã e maior aliado árabe de Washington no Oriente Médio. Durante seu mandato, Trump manteve forte proximidade com a monarquia autoritária, cujo reino desempenhou um papel fundamental na aliança anti-iraniana do presidente. Tal distanciamento poderia começar com o fim do apoio dos EUA à guerra da Arábia Saudita no Iêmen.

Acordo Climático de Paris

Biden, eleito em parte com o compromisso de combater as mudanças climáticas, tem afirmado que retornará imediatamente ao Acordo de Paris sobre o Clima. Trump, um negacionista do aquecimento global, retirou os EUA do acordo em 1º de junho de 2017, alegando que o pacto favorecia injustamente a China.

Os EUA são o segundo maior poluidor do mundo, atrás apenas da China.  Enquanto Trump enquadrou a questão em termos econômicos de soma zero, priorizando os lucros dos combustíveis fósseis em detrimento da proteção ambiental, Biden prometeu investir numa economia de energia limpa para financiar programas ambiciosos de redução de emissões.

Organização Mundial da Saúde (OMS)

O governo Biden se comprometeu a retornar imediatamente à OMS e a liderar os esforços no combate ao coronavírus. Antes de Trump, os EUA tinham grande influência nessa importante autoridade de saúde pública, contribuindo com 15% de seu orçamento. Em 7 de julho de 2020, porém, o presidente americano anunciou que o país iria se retirar da organização – que, entre outras coisas, coordena os testes de vacinas globais – em 6 de julho de 2021.

No início de novembro, os EUA registram o maior número de infecções por coronavírus num único país (quase 10 milhões), bem como recorde de mortes (237 mil), com infecções e mortes globais em mais de 50 milhões e 1,2 milhão, respectivamente.

Nações Unidas

Trump ameaçou deixar as Nações Unidas, embora até agora os EUA só tenham deixado duas instituições integrantes da organização: o Conselho de Direitos Humanos (UNHRC) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em ambos os casos, a justificativa foi um suposto tratamento injusto dado ao aliado Israel.

Em 19 de junho de 2018, a embaixadora da ONU Nikki Haley chamou o UNHRC de “uma organização hipócrita e egoísta que zomba dos direitos humanos”, apontando para o que ela chamou de “preconceito crônico contra Israel” e se opondo à presença de China, Cuba e Venezuela no conselho. Os EUA exigiram reformas do órgão e várias vezes se desentenderam com ele por causa de Israel.

Como motivo para a retirada da Unesco, o governo Trump mencionou divergências na escolha de locais como Patrimônio Cultural da Humanidade. EUA e Israel disseram que vínculos históricos judaicos foram ignorados nas decisões, que ainda tocaram em questões mais profundas de soberania internacional coma declaração da velha cidade de Hebron e do  Túmulo dos Patriarcas como locais palestinos.

Os EUA já haviam deixado a Unesco em 1984, sob o governo de Ronald Reagan, e retornaram novamente em 2002, no governo de George W. Bush. Os pagamentos foram congelados por nove anos sob o governo de Barack Obama, mas os EUA mantiveram sua adesão.

Biden é um forte apoiador de Israel e recebeu bem os acordos recentes entre a nação judaica e os Emirados Árabes Unidos, mas seu governo provavelmente fará pressão para impedir a construção de assentamentos israelenses e anexações, além de ser um defensor mais explícito das necessidades dos palestinos na ONU.

OMC e Otan

Outras questões que Biden abordará incluem a situação das relações comerciais, bem como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Biden buscará superar divergências criadas e expandir a cooperação, mas os objetivos de política externa permanecerão os mesmos.

Resta saber se ele conseguirá recuperar a confiança e ser bem-sucedido na conquista dos objetivos por ele declarados: “Promover a segurança, a prosperidade e os valores dos Estados Unidos, tomando medidas imediatas para restaurar a nossa própria democracia e nossas alianças, proteger nosso futuro econômico e, mais uma vez, colocar os Estados Unidos na dianteira, liderando o mundo no enfrentamento dos desafios globais mais urgentes” – ou se o mundo mudou nos últimos quatro anos.

Eleição americana: Comportamento de Eduardo ratifica o seu despreparo para ser embaixador

Integrantes do Itamaraty avaliam que, se ainda restava dúvidas sobre o despreparo do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para ocupar o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, estas acabaram de vez, durante a eleição presidencial entre Donald Trump e Joe Biden.

A atuação do filho “02” do presidente Bolsonaro, que resolveu questionar a legitimidade da apuração nos EUA, sem provas, reproduzindo o discurso de Trump, foi descrita como uma grande “gafe” para quem já teve (ou tem) a ambição de ocupar um posto diplomático. A avaliação de diplomatas é que Eduardo fere um princípio básico da boa diplomacia, de não interferir na política de outro país.

INTERFERÊNCIA – “Uma das boas práticas diplomáticas, já que ele queria ser embaixador, é não interferir em processos eleitorais de outros países, para manter a capacidade de interlocução com quem quer que seja eleito no fim do processo”, disse um integrante do Itamaraty.

No ano passado, o presidente Jair Bolsonaro disse que pretendia indicar o filho para o posto de embaixador dos EUA. Eduardo se movimentou e fez um beija-mão no Senado para garantir a aprovação de seu nome. O governo, porém, nunca teve a garantia que teria votos suficientes para aprová-lo. Eduardo acabou anunciando sua desistência da indicação em outubro de 2019.
Bela Megale
O Globo

Biden promete restaurar a cooperação e liderança global dos EUA – mas será que ele conseguirá?

O presidente eleito tem jurado consistentemente se afastar do unilateralismo. Mas para restaurar de fato a liderança dos EUA, ele terá de reconquistar a confiança de aliados alienados e cobrar contas dos adversários.

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, prometeu restaurar o papel de liderança da América no mundo, revertendo o unilateralismo da administração Trump e reorientando-se em alianças internacionais de longa data. Ele diz que seu governo vai elevar a diplomacia e liderar pelo “poder do exemplo”, em vez do “exemplo de poder”.

Biden herdou uma situação em que os aliados questionam a credibilidade dos EUA, com as relações entre Washington e capitais ao redor do mundo tensas.

O presidente eleito prometeu reparar o máximo de danos possível em seus primeiros 100 dias no cargo, revertendo uma série de ordens executivas assinadas pelo presidente Donald Trump. As ordens derrubaram acordos e alianças internacionais que o presidente alegou serem injustos para os Estados Unidos por várias razões. Os críticos dizem que as medidas foram contraproducentes e que o isolacionismo dos EUA simplesmente permitiu que a China expandisse sua influência na ausência dos Estados Unidos.

Aqui estão algumas das maiores reversões da política externa que o presidente eleito prometeu fazer imediatamente:

Plano de ação abrangente conjunto (JCPOA)

Trump criticou regularmente o JCPOA, mais conhecido como Acordo Nuclear do Irã, como “um dos piores negócios da história” e retirou os EUA do acordo em 8 de maio de 2018. Ele também restabeleceu as sanções contra o Irã e qualquer pessoa que fizesse negócios com isso.

Assinado com China, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e Irã pelo governo Obama em 2015, os signatários concordaram em estabelecer diálogo e monitoramento do programa nuclear do Irã em troca de alívio econômico. O governo Trump chamou o acordo de fraco e, em vez disso, buscou o que chama de “campanha de pressão máxima”.

Biden diz que a política de Trump foi ineficaz e serviu apenas para aumentar as tensões. Ele prometeu voltar a aderir ao JCPOA, mas diz que só suspenderá as sanções após a confirmação da estrita adesão do Irã às regras do JCPOA.

De forma mais geral, Biden também poderia buscar distanciar os EUA do adversário regional do Irã e maior aliado árabe de Washington no Oriente Médio, a Arábia Saudita. Trump cortejou de perto a monarquia autoritária durante seu mandato, com o reino desempenhando um papel fundamental na aliança anti-iraniana do presidente.

Biden poderia iniciar esse distanciamento encerrando o apoio dos EUA à guerra impopular da Arábia Saudita no Iêmen.

Acordo Climático de Paris

Biden, eleito em parte com o compromisso de lutar contra a mudança climática, tem afirmado consistentemente que retornará imediatamente ao Acordo Climático de Paris. Trump, um negador da mudança climática, retirou os EUA do acordo em 1 de junho de 2017, alegando que favorecia injustamente a China.

Os EUA são o segundo maior poluidor do mundo atrás da China e enquanto Trump enquadrou a questão em termos econômicos de soma zero, escolhendo lucros de combustíveis fósseis em vez de proteção ambiental, Biden prometeu construir uma economia de energia limpa para financiar ambiciosos programas de redução de emissões.

Organização Mundial da Saúde (OMS)

O governo Biden se comprometeu a retornar imediatamente à OMS e procurar liderar os esforços do corpo para o coronavírus. Os EUA têm grande influência nesta importante autoridade de saúde pública, contribuindo com 15% de seu orçamento (a Alemanha contribui com 5,6%). Em 7 de julho de 2020, o presidente Trump anunciou que os EUA se retirariam da organização – que, entre outras coisas, coordena os testes de vacinas globais – a partir de 6 de julho de 2021.

Em 8 de novembro, os Estados Unidos registraram o maior número de infecções por coronavírus em um único país (9.957,50), bem como mortes (237.567), com infecções globais em 49.948.324 e mortes globais em 1.252.189.

Nações Unidas (ONU)

Trump ameaçou deixar as Nações Unidas, embora até agora os EUA tenham deixado apenas duas organizações dentro do corpo: o Conselho de Direitos Humanos (UNHRC) e a Organização Educacional, Científica e Cultural (UNESCO). Os EUA citaram o tratamento injusto do aliado Israel em ambos os casos.

Em 19 de junho de 2018, a então embaixadora dos EUA na ONU Nikki Haley chamou o UNHRC de “uma organização hipócrita e egoísta que zomba dos direitos humanos”, apontando para o que ela chamou de “preconceito crônico contra Israel” e objetando a membro do conselho para violadores dos direitos humanos China, Cuba e Venezuela. Os EUA pediram reformas ao órgão e freqüentemente entraram em confronto com os membros sobre sua defesa de Israel, que os críticos dizem que faz vista grossa aos abusos dos direitos humanos israelenses.

A administração Trump citou ostensivamente os conflitos na nomeação de locais do Patrimônio Cultural Mundial, que os EUA e Israel disseram ignorar ligações históricas judaicas, como motivo para a retirada da UNESCO. A nomeação dos locais também tocou em questões mais profundas de soberania internacional ao declarar a velha cidade de Hebron e a Tumba dos Patriarcas como locais palestinos.

Os EUA deixaram a UNESCO em 1984 no governo de Ronald Reagan e retornaram em 2002 no governo de George W. Bush. Os pagamentos foram congelados por nove anos sob o governo Obama-Biden, mas os EUA mantiveram sua adesão.

Biden é um forte apoiador de Israel e recebeu bem os acordos recentes entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, mas seu governo provavelmente pressionará para impedir a construção de assentamentos israelenses e anexações, além de ser um defensor mais vocal das necessidades dos palestinos na ONU.

A OMC, OTAN e o Senado

Outras questões que Biden abordará incluem a situação das relações comerciais, bem como dentro de órgãos como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está em algum lugar onde Biden buscará consertar barreiras e expandir a cooperação, mas os objetivos de política externa permanecerão em vigor.

A questão é se Biden pode reconquistar a confiança e alcançar com sucesso os seus objetivos declarados: “Promover a segurança, a prosperidade e os valores dos Estados Unidos tomando medidas imediatas para renovar nossa própria democracia e alianças, proteger nosso futuro econômico e, mais uma vez, coloque os Estados Unidos na cabeceira da mesa, levando o mundo a enfrentar os desafios globais mais urgentes “- ou se o mundo evoluiu nos últimos quatro anos.

Biden apresentou planos amplos e ambiciosos em muitas frentes, mas embora os decretos do executivo possam ser revogados, sem uma maioria no Senado, qualquer coisa que requeira a aprovação do Congresso pode ser quase impossível de ser aprovada.

Mas, primeiro, ele precisa enfrentar o coronavírus e as consequências econômicas que ele está causando.

 

Jill Biden: De professora a primeira-dama dos EUA

Jill Biden: Joe vai “manter a promessa da América”

Em uma sala de aula vazia onde ensinou inglês na década de 1990, Jill Biden fez um discurso na convenção do Partido Democrata depois que seu marido foi oficialmente nomeado candidato presidencial.

Depois de defender a eleição de Joe Biden, seu marido se juntou a ela, que elogiou suas qualidades como uma potencial primeira-dama.

“Para todos vocês lá fora, em todo o país, basta pensar em seu educador favorito que lhes deu a confiança para acreditar em si mesmos. Esse é o tipo de primeira-dama … Jill Biden será”, disse ele.

Mas o que sabemos sobre a mulher que em breve se juntará ao marido na Casa Branca?

Ela disse que Joe a pediu em casamento cinco vezes antes de ela aceitar.

“Eu não poderia permitir que eles [os filhos de Joe] perdessem outra mãe. Portanto, eu precisava ter 100% de certeza”, explicou ela.

O casal se casou na cidade de Nova York em 1977. A filha deles, Ashley, nasceu em 1981.

A Sra. Biden falou sobre sua família e as dificuldades que eles enfrentaram quando endossou o marido para presidente na convenção.

Beau Biden morreu de câncer no cérebro em maio de 2015, aos 46 anos.

“Eu sei que se confiarmos esta nação a Joe, ele fará por sua família o que fez pela nossa – nos unir e nos tornar inteiros, nos levar adiante em nossos tempos de necessidade, manter a promessa da América para todos nós ,” ela disse.

Carreira docente

A Sra. Biden, 69, passou décadas trabalhando como professora.

Além do bacharelado, ela tem dois mestrados e um doutorado em educação pela University of Delaware em 2007.

Antes de se mudar para Washington, DC, ela lecionou em uma faculdade comunitária, em uma escola pública de ensino médio e em um hospital psiquiátrico para adolescentes – ela deu seu discurso na convenção do Partido Democrata este ano em sua antiga sala de aula na Brandywine High School de Delaware, onde ela ensinou inglês de 1991 a 1993.

Enquanto o marido era vice-presidente, a Sra. Biden era professora de inglês no Northern Virginia Community College.

“Ensinar não é o que eu faço. É quem eu sou”, ela tuitou em agosto.

Política

A Jill Biden já ocupou o título de Segunda-Dama enquanto seu marido atuou como vice-presidente de 2009 a 2017.

Durante esse período, seu trabalho incluiu a promoção de faculdades comunitárias, a defesa de famílias de militares e a conscientização sobre a prevenção do câncer de mama.

Ela também lançou a iniciativa Juntando Forças com a primeira-dama Michelle Obama, que incluiu ajudar veteranos militares e suas famílias a acessar programas de educação e recursos de emprego.

Em 2012, ela publicou um livro infantil chamado Don’t Forget, God Bless Our Troops, baseado na experiência de sua neta em uma família de militares.

Ela tem sido uma apoiadora proeminente de seu marido durante a campanha de 2020, aparecendo ao lado dele e realizando eventos e arrecadação de fundos.

Eleições 2020 nos EUA: A mídia, a continuidade do golpe e o enterro da democracia

Foto: OAS (Missão de Observação Eleitoral nas Eleições dos Estados Unidos, Washington DC)

“…a guerra híbrida é o novo horizonte de estratégias dos EUA para a troca de regime. Ela preserva os EUA dos riscos políticos e militares associados à intervenção direta e é muito mais econômica”.
(Andrew Korybko)

A semana dominada pela cobertura das eleições norte-americanas – provocando engajamentos e emoções que, desta vez, ultrapassaram o provincianismo habitual do brasileiro, chegando a manifestações bizarras nas ruas e redes sociais – mostrou como a chamada “guerra híbrida”, não linear, orienta as atenções e as opiniões do público, prolongando a mentalidade conservadora, colonizada e a naturalização do golpe político.

Entre as histórias recentes de nossos vizinhos que passaram por dramas semelhantes a nossa, vimos a Bolívia reagindo a um governo golpista com resistência nas ruas e no voto; e o Chile refundando o país após um ano de greves e mobilizações incessantes, recusando o Estado ausente socialmente e servil ao mercado (que vem sendo implantado no Brasil). Mas esses casos receberam apenas uma fração mínima da atenção da mídia nacional. A justificativa não é dada, é naturalizada: parece claro a todos que a eleição no país dominante é mais importante para o nosso cotidiano do que a dos nossos pares. Mesmo que nossos companheiros de escravidão reajam ao verdugo, mostrando caminhos de fuga.

O marketing governamental atrelou o governo Bolsonaro a Trump, um laço que se aperta na defesa do livre mercado e no campo moral e religioso. Uma proximidade que não traz quaisquer vantagens econômicas para o lado brasileiro, mas que reforça a sensação de uma cruzada cristã, branca e retrógrada, que preserva as diferenças socioeconômicas mas rejeita a diversidade cultural. Dado este nó, a mídia convence quem está (ou sente-se) de fora do pacto, defendendo que toda postura que integre as pautas identitárias (mas preserve a primazia do mercado) é a única oposição possível aos governos conservadores. Assim sendo, duas candidaturas similares em sua essência surgem à plateia como inimigos figadais, em um cenário anunciado como a maior democracia do mundo.

O show

Garantido o ingresso, o brasileiro se portou como se espera em um programa de auditório. Muitos assistiram com constrangimento a cidadãos apoiadores de Trump saírem às ruas em algumas capitais. Por outro lado, poucos tiveram a dignidade de se sentirem embaraçados com o entusiasmo da esquerda em relação à candidatura Biden. E raros notaram os esforços heroicos dos jornalistas para explicar um sistema eleitoral mal ajambrado e obtuso, cuja única intenção é a de mitigar o poder do voto e da representatividade. Eles conseguiram dar um tom racional a um sistema que sequer possui uma Justiça Eleitoral ou um mecanismo oficial para contabilização dos votos.

Salas de conferência inundadas, apuração estancada porque os conferentes tinham sono ou porque faltou tinta na impressora, unidades da Federação com diferentes métodos de apuração e de indicação de delegados… Sem falar nos malabarismos comoventes para explicar que um candidato com milhões de votos a mais não é necessariamente eleito. Também foi difícil descrever manifestações violentas de republicanos que pediam o fim da contagem de votos em um Estado e a não interrupção da contagem em outro.

O que o mundo viu está a anos-luz de distância de nossas urnas eletrônicas, ou do pleito boliviano que garantiu o voto em vilarejos isolados nos Andes, ou das eleições venezuelanas, consideradas pela CEELA (Conselho de Especialistas Eleitorais Latino-Americanos), em 2018, como “um dos melhores processos da América Latina”, pelo “modo como todo o processo eleitoral é verificado – antes, durante e depois das eleições –, a rapidez com que são transmitidos os resultados e a aposta na tecnologia, tanto no processo de votação como no de escrutínio”. O mundo viu, em plena sede do Império, um caos sujeito à judicialização, bravatas, regras estabelecidas por algum critério válido em antiquários e um desprezo monumental pela escolha popular.

O silêncio também imperou sobre fatos que não poderiam ser explicados no roteiro do espetáculo apresentado. Por que, segundo pesquisa da Forbes, bilionários americanos preferem Biden? Por que Trump, embora tenha pedido nestes grupos, dobrou seus votos entre negros e latinos? Por que todas as pesquisas (que mostravam uma onda azul) não chegaram nem perto da realidade?

Vale lembrar que a cobertura jornalística é bancada por poucas empresas, aqui e no exterior. Quase todas as agências de notícias internacionais possuem sede nos EUA. E, como lembra Andrew Korybko em “Guerras Híbridas”, nos noticiários de televisão e das agências de notícias há o desprezo ou a criminalização dos movimentos sociais e de resistência política. As conquistas da sociedade civil são negadas, a prevalência do mercado jamais é posta em dúvida. Os conglomerados midiáticos são parceiros da estratégia de despolitização da opinião pública, recortando a realidade, jogando com desinformação, apoiando o lawfare, narrando com normalidade interferências eleitorais externas, criando explicações de governos e selecionando quem serão seus adversários.

Os movimentos populares que garantem o governo venezuelano, que asseguraram a volta do MAS na Bolívia e que estão derrubando o neoliberalismo de guia turístico no Chile permaneceram nas ruas e entenderam o papel das mídias locais. Enquanto isso, boa parte da “resistência” brasileira está comprando fogos para comemorar a vitória de Biden. E acreditando que movimentos como Ele Não ou Black Lives Matter são revolucionários. E erguendo as mãos aos céus pela “salvação da Amazônia”.

Nesta guerra sem conflitos armados, continuaremos sendo derrotados pela mídia.