A pior direita: Bolsonaro quer ser Piñera, mas é um Hugo Chávez de sinal trocado

Cópia à direita de Chávez, presidente flerta com a repressão no único polo de extrema direita da região e faz o Brasil perder a liderança no continente.

GOVERNOS LIBERAIS DE DIREITA estão na moda na América Latina. Mesmo com a onda conservadora, Jair Bolsonaro ocupa uma posição singular. O fator de espanto é o radicalismo do governo Bolsonaro, único polo de extrema direita da região desde o final do ciclo de ditaduras militares, na década de 1980.

Após os anos de domínio da esquerda durante a “onda rosa” da virada do milênio, que chegou como alternativa ao neoliberalismo dos anos 1990, a região virou o volante radicalmente. Hoje, do cone sul à América do Norte, com exceção do recém-chegado López Obrador no México, a maioria dos governos se encaixa no espaço que ocupa o novo PSDB – bem mais para João Doria do que para Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o partido do atual presidente, o PSL, não tem nada dessa centro-direita, que até virou exemplo de moderação no Brasil diante dos meses de barbárie em 2019.

O nível baixo de política praticado por Bolsonaro fez até o autoritário e desprestigiado presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, trazer uma análise pertinente. Em uma rara entrevista a um veículo brasileiro, o líder chavista, acostumado a refutar fatos e críticas, disse à Folha de S.Paulo, que seu desafeto brasileiro é um “extremista ideológico”.

Maduro não compareceu à posse de Bolsonaro em janeiro, a pedido da própria cúpula de governo. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chegou a dizer que o chavista não havia sido convidado para a cerimônia “em respeito ao povo venezuelano”, mas acabou desmentido pelo próprio Itamaraty e pela chancelaria em Caracas. O Ministério confirmou que, na realidade, os convites existiram, mas foram retirados a pedido da nova equipe.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político que é justamente guiado por uma pauta ideológica agressiva, ainda que com sinal trocado. Maduro disse ainda que seu equivalente brasileiro não é um político “com ‘p’ maiúsculo”. Em uma gestão com discurso falocêntrico, a declaração pode até acabar sendo entendida pelo governo de outra forma.

Bolsonaro não está sozinho em contar com o rechaço de Maduro e, à primeira vista, talvez pudesse parecer que ele seguiria o script da vizinhança: um longevo governo de esquerda perde credibilidade e se vê envolvido em acusações de corrupção; a economia desaba; a população se entorpece de indignação; e um projeto desconhecido de oposição começa a se anunciar como antídoto. Bolsonaro e suas pitorescas figuras-satélite surfaram nessa mesma onda, com uma diferença crucial: cruzaram a linha do absurdo antes mesmo de tomar posse.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político como Maduro, também guiado por uma pauta ideológica agressiva.

Neoliberal de pai e mãe, o presidente argentino Mauricio Macri foi o primeiro a fazer contato com o capitão recém-eleito. Logo em 16 de janeiro, três semanas depois da posse, o empresário milionário desembarcou em Brasília para falar do Mercosul (apesar de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter dito que o tema não seria prioridade), da Venezuela e das parcerias a serem feitas com os também liberais Chile, Colômbia, Equador, Peru e Paraguai.

Para o argentino, a ida ao Brasil também foi um pedido de ajuda. Vendo seu país com quase 50% de inflação acumulada, desemprego em alta e aumento da pobreza, Macri já começava a juntar os cacos para as eleições presidenciais de outubro. Mas a estratégia não resistiu à toxicidade de Bolsonaro. Mesmo com o triunfo da Argentina nas negociações que culminaram na primeira etapa de acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o presidente foi massacrado nas eleições primárias. Na Argentina, as primárias ocorrem meses antes do primeiro turno – que será em 27 de outubro – para eliminar chapas com menos de 1,5% nas intenções de votos. Em 2019, a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner somou 47% dos votos, frente a 33% da chapa de Macri.

Bolsonaro se sentiu intimidado pelo possível retorno da esquerda no país vizinho, estudando rever o acordo com o Mercosul. Na reta final de agosto, suas falas sepultaram o esforço do bloco. Desprezando a crise ambiental mais grave dos últimos anos, entrou em desavença com Emmanuel Macron. O mandatário francês, que já torcia o nariz para o acordo entre europeus e sul-americanos, afirmou que na “situação atual”, o pacto não sai.

Chavismo à brasileira

O embrião do bolsonarismo começou na esquerda. Durante a campanha – cheia de memes toscos, montagens chamativas e informações falsas –, era comum ver imagens dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff ao lado dos finados Hugo Chávez e Fidel Castro. As mensagens viralizaram nas redes sociais acompanhadas de textos conspiratórios com presságios de uma aliança globalista liderada pelo PT e o Foro de São Paulo.

As mentiras criavam uma falsa ideia de “unidade opositora”, facilitando o trabalho de desprestigiar, numa tacada só, tudo o que não fosse próximo do delírio bolsonarista. A partir desse ponto, tudo estava “à esquerda”. Os críticos, os dados, a ONU, a revista The Economist, o Papa, o jornalista Reinaldo Azevedo e até mesmo os preceitos liberais dos novos presidentes que Jair Bolsonaro viria a bajular.

Mas, ainda que jamais vá admitir, Bolsonaro é uma cópia desajeitada, liberalesca e à direita de uma figura de esquerda: Hugo Chávez. São militares, ex-paraquedistas, anti-imprensa, anticiência, autoritários, homofóbicos, misóginos, populistas, nacionalistas. Apresentaram-se como alternativas antissistema, são contra o multilateralismo, devotos de causas religiosas, pautados por conspirações, apelam a um “perigo estrangeiro”, invocam pautas ideológicas e referem-se aos EUA o tempo todo.

Hoje um dos alvos mais frequentes de críticas de Bolsonaro e de seus seguidores, o líder venezuelano já chegou a ser aplaudido pelo capitão reformado em uma entrevista em 1999 à Folha de S.Paulo. Ele afirmou que o bolivariano era “uma esperança para a América Latina”, comparando-o aos militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985. Sem poupar elogios, o então deputado disse que, assim como o “admirável” Chávez, não era anticomunista. “Gostaria que essa filosofia [militarista] chegasse ao Brasil. Acho ele [Chávez] ímpar”.

Maduro, hoje o substituto sem carisma de Chávez, disse na reportagem divulgada na segunda-feira, 16 de setembro, que Bolsonaro “não conhece a história da América Latina nem da Venezuela”. Ao que parece, o capitão reformado parece dar razão aos líderes controversos através do tempo.

Na época de sua campanha à presidência, Bolsonaro já havia subvertido o discurso – não sem antes dizer que a antiga reportagem era mentirosa. Nem mesmo o que separava o bolsonarismo do discurso chavista, o “temor imperialista” durou. Com o que o governo chamou de “ataques” de lideranças europeias, o apelo à soberania brasileira foi muito usado, principalmente em redes sociais.

Com o argumento de que a Amazônia está sob ameaça e de que deve ser um assunto exclusivo do Brasil, houve até quem questionasse os dados da Nasa. Tudo em nome de blindar o governo e suas mentiras.

É fácil ver a hipocrisia. Os mesmos trolls – robóticos ou não – que desmerecem a ajuda da Europa pedindo em, caixa alta, que a Venezuela seja invadida. Arma no quintal dos outros é refresco.

Bolsonaro repete Chávez

Em 2009, a juíza venezuelana María Lourdes Afiuni foi detida minutos após conceder liberdade ao empresário Eligio Cedeño, em prisão preventiva há três anos por uma acusação de corrupção. A medida desagradou Chávez. No dia seguinte, ele falou ao público que deveriam prender Afiuni “por 30 anos” e que, segundo a filosofia de Simón Bolívar, “os que tomam um só centavo do tesouro público deveriam ser fuzilados e os juízes que não condenam esses casos, também”. A juíza ficou presa em regime fechado, sem qualquer julgamento, por quatro anos, e segue sendo alvos de processos.

Comentários favoráveis à detenção de quem julga como oposição também saíram da boca de Bolsonaro. Ao sugerir que o jornalista Glenn Greenwald poderia pegar “uma cana” no Brasil por conta das reportagens sobre a Lava Jato, o presidente brasileiro age como Chávez. É o que pensa o relator especial para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Edson Lanza.

Em entrevista à BBC News, o jurista afirmou que Bolsonaro abandona “rapidamente” a defesa da liberdade de imprensa quando incomodado. E tem sido assim desde os primeiros meses: se o governo não gosta, a culpa é do jornalista, cuja reputação nenhum membro do governo tem vergonha de tentar arruinar.

No caso de Chávez, toda a culpa recaía sobre os EUA. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

A luta contra a razão tampouco é pioneira. Chávez também atacou a educação, cercando universidades autônomas com o aparelhamento do acesso ao ensino e seu conteúdo. Já sob Maduro, quando a repressão se intensificou, a situação de luta pela liberdade de ensino e formação independente foi reunida em um relatório denso, publicado pela Coalizão de Cátedras e Centros de Direitos Humanos. Como consequência da crise que afeta o ensino e a ciência, a migração venezuelana, que já supera os 3 milhões, acarreta em uma fuga de cérebros.

Diferentemente de Chávez, que governou de 1999 a 2013, quando morreu vítima de um câncer, Bolsonaro e seu desastre têm menos de um ano de vida – tempo suficiente para que um ministro da Educação já tenha caído, o Enem tenha sido posto em xeque, o MEC esteja sob o comando de um tenente brigadeiro e tenhamos uma intensa fuga de cérebros para chamar de nossa. À la Chávez, Bolsonaro também interferiu em uma decisão democrática em âmbito acadêmico. Ignorando os resultados das consultas e votações internas, indicou reitores e interventores de sua preferência em pelo menos oito universidades e colégios federais.

O ativista da oposição venezuelana, Edgar Baptista, conta que os governos só são diferentes no plano econômico e nas bases eleitorais. Hoje vivendo em Santiago por conta da repressão em Caracas, Baptista diz que sobram semelhanças. “Nos dois governos, as alas ideológica e militar convivem, ainda que não se gostem. Os dois discursos atacam a corrupção, vendendo uma ideia de antipolítica. E os dois, por meio da política, buscam seus próprios privilégios.”

O líder social também cita o início parecido na política externa dos dois. “Bolsonaro anunciou a saída da Unasul e logo em seguida se juntou aos liberais de região para criar o Prosul. Lembra muito o que Chávez fez em 2006, quando saiu da Comunidade Andina de Nações, atacando o livre-comércio. Os dois têm dificuldade de trabalhar com o que já existe e de manter a institucionalidade”.

No caso de Hugo Chávez, toda a culpa recai sobre os Estados Unidos. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

A utopia urgente de voltar para o campo

No mundo urbano, ir ao campo sempre foi um ideal de fuga rumo à qualidade de vida, e nunca a cidade havia nos aprisionado tanto como durante a pandemia do coronavírus. Alguns já escolheram escapar. Estamos em um momento de mudança ou diante do eterno retorno da quimera rural?

Carola é uma menina de três anos que acaba de descobrir seu amor pelos tratores. Mora desde julho de 2020 em Arboleya, uma aldeia asturiana, na Espanha, de 30 habitantes. Antes morava em Tetuán, um bairro de Madri de 161.000 moradores. Seu irmão, Tomé, tem seis anos e gosta da aldeia porque aqui pode brincar. Hoje comeu ensopado. Faz frio e Tomé sopra com um canudo bolhas de sabão ao ar limpo de inverno.

— Em Madri você também podia brincar.

— Sim, mas aqui posso sair sozinho para brincar.

Em Ollauri (302 habitantes; na região de La Rioja) a escola reabriu com a chegada de várias crianças. Héctor, um garoto de longos cílios e olhos de alma profunda, é um deles. Tem nove anos e morava no décimo andar de um prédio em Alcorcón, na região metropolitana de Madri. Durante a pandemia seus pais precisaram levá-lo ao psicólogo porque acreditava que iria morrer. Em setembro se mudaram ao povoado. Em uma manhã de dezembro, estava em sua carteira com seus novos colegas de escola fazendo uma árvore composta de cartolinas em que escreviam seus pedidos de Natal.

— O que você pediu?

— Que ninguém de minha família morra. E em segundo, o Cortex Challenge, um jogo de memória.

Era uma noite de outubro quando Samara chegou com seu pai desempregado da cidade de Valência a Villerías de Campos, uma localidade de 60 moradores. Daquela noite lembra que, à medida que se aproximavam de carro, tudo estava escuríssimo e estava hipnotizada pela estranha piscada vermelha dos moinhos de vento. Tem 12 anos. No começo temia que a integração no colégio demorasse, mas foi tudo bem. Estuda no Jorge Manrique de Palencia, a meia hora de carro.

— Quem foi Jorge Manrique?

— Não sei. É que acabei de chegar…

— Você pode procurar no Google, por favor?

— Sim, deixa eu chegar perto da janela para pegar sinal – diz em seu quarto, celular nas mãos.

Tecla e lê que “Jorge Manrique foi um poeta castelhano do Pré-renascimento e um homem de armas”.

El Frago (50 habitantes, Zaragoza) foi fundado no século XII por Alfonso I, o Batalhador. Os uruguaios Verónica Giacoboni e Santiago Campiglia chegaram em setembro vindos da costa levantina. Têm duas cachorrinhas idênticas da raça Jack Russel que somente eles conseguem diferenciar: Mila e sua filha Arya, chamada assim pela corajosa heroína de Game Of Thrones que matou o Rei da Noite.

Em 21 de junho acabou o primeiro estado de alarme na Espanha, a fase mais dura da quarentena, que praticamente proibiu a saída de crianças e adolescentes às ruas e limitou às atividades essenciais a saída de casa dos adultos. Cinco dias depois, Alona e Alberto subiram em seu trailer e deixaram sua casa geminada alugada na serra de Madri para começar uma nova vida em uma antiga casa de campo em Muras (Lugo), uma localidade de 642 moradores que desde meados do século XX perdeu 80% da população. Passaram a primeira noite em uma barraca no quintal. De madrugada ouviram lobos. Para afugentá-los colocaram música eletrônica.

Ana Moreno e Julio Albarrán, os pais de Tomé e Carola, já tinham pensado em mudar para o campo antes de que “tudo isso” acontecesse. “Tudo isso” foi o que precipitou a operação ou, nas palavras de Ana, “o necessário e definitivo chute na bunda” para levá-la por fim a se mudar da capital espanhola a um local tranquilo como Arboleya.

Quanta gente terá feito o mesmo desde março? De onde, para onde, quais os motivos?

Não temos a menor ideia. O que existe são indícios que não sabemos se podem ou não significar o marco de um processo que deveria ocorrer na Espanha: o equilíbrio estrutural —e espiritual— entre o urbano e o rural em um país que concentra 41 de seus 48 milhões de habitantes em 30% do território.

O fenômeno não está restrito à Espanha. Com a recomendação da adesão ao homeoffice para todos os setores que podem evitar a volta aos escritórios, no Brasil, também cresceu o número de pessoas que fugiram para a zona rural, como mostrou uma reportagem do correspondente em Brasília Afonso Benites, publicada em julho de 2020. Sem escolas para os filhos e confinados em apartamentos, os brasileiros que moram em grandes cidades —com condições financeiras para fazê-lo— optaram por fugir para o meio do mato, nem que fosse temporariamente.

Há indícios subjetivos que embasam esse fenômeno do êxodo urbano na Espanha e em grande parte do mundo moderno —como a felicidade descrita por aqueles que puderam viver esta transformação. E há os objetivos, mas pontuais: na Espanha, várias prefeituras de pequenos municípios aproveitam a oportunidade para tentar a atrair população jovem com boa Internet; há também dados que apontam, no país europeu, o aumento da procura de casas em municípios espanhóis com menos de 5.000 habitantes, como mostra o site Idealista (14,8% do total em novembro contra 10,1% em janeiro de 2020); e o total de pedidos registrados pelo Projeto Arraigo para se mudar a um povoado: 2.000 em 10 meses, o mesmo que nos quatro anos anteriores, quando foi criada a iniciativa de ajuda à repovoação. O Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha disse ao EL PAÍS que pretende estudar nos próximos meses os movimentos de população da cidade ao campo ocorridos durante a pandemia. Análises como essa parecem indispensáveis para fundamentar as estratégias da Secretaria Geral para o Desafio Demográfico, criada em 2020; o órgão ad hoc de maior importância na história do Governo espanhol.

Um morador da aldeia de Arboleya passa pela rua.

— O senhor acha que o campo ganhará nova vida?
Julio Albarrán e Ana Moreno com seus filhos Tomé e Carola em Arboleya. THE KIDS ARE RIGHT
— Não há outro caminho — responde.

Há vários farores que justificam a fuga para o campo. Mais contato com a natureza, menos contato com os problemas das grandes cidades (mais caras, mais desiguais, mais saturadas), deixar o vício dos celulares e toda essa convulsão existencial que vem sendo o século XXI e que deixa o ser humano sem poder respirar. Sem poder respirar de ansiedade e sem poder respirar pelo vírus, que parece a materialização patógena de nosso tempo.

Os irmãos Carola e Tomé têm uma amiga que se chama Selma que mora no povoado vizinho. Selma morou na Cidade do México, e ainda que lá adorasse ir ao cinema —como esquecer a tarde em que viu Zootopia, protagonizado pela coelha policial Judy Hopps—, acha que aqui há uma coisa da qual ela gosta ainda mais: “O ar puro”.

Ana e Julio, artista têxtil de 40 anos e fotógrafo de 37, se sentem seguros da decisão que tomaram. “Viemos com dúvidas, mas isso é incrível. Às vezes fico boba olhando pela janela e me pergunto se algum dia me cansarei”, diz ela em sua confortável casa, pela qual pagam 400 euros (2.600 reais) por mês de aluguel com vista aos Picos da Europa, uma região paradisíaca no norte da Espanha. “Mas sabe do que sinto falta?”, acrescenta. “De vez em quando, um lanchinho do Burger King.”

As terras da área rural do município de Haro, em La Rioja, são ocres, marrons, avermelhadas. Têm a gravidade metafísica de uma tela de Mark Rothko ou do Perro semihundido de Goya, e dão vinhos ótimos. “Aqui você compra por 80 centavos (5 reais) um copo de vinho que em Madri custaria três euros (20 reais)”, diz Javier Ruiz na praça de Ollauri, o povoado do qual sua mãe escapou para migrar para a cidade nos anos sessenta e ao qual ele retornou com sua família fugindo justamente da cidade grande. “Jamais pensei que poderia vir morar aqui…”, diz diante da fachada de uma casa majestosa cujos escudos seu avô pedreiro Carmelo talhou em arenito.

Foram muitas semanas com os quatro enfiados no apartamento com as notícias da pandemia. Héctor começou a dizer que não queria comer, que tinha uma espinha na garganta que não iria sair. O médico lhes explicou que era pura angústia. Passaram o verão em Ollauri na casa da falecida avó de Javier e o garoto melhorou. Em setembro voltaram a Alcorcón para o começo do ano letivo, mas entraram em pânico ao voltar a ficar confinados lá. Mudaram a matrícula de Héctor ao colégio de Ollauri e a de sua filha Paula, de 13 anos, ao colégio de Haro. Para aproveitar o espaço do carro, em vez de usar malas, Leticia Garcia propôs a seu marido apertar a roupa em sacos de 30 litros.

— O que sentiu ao ver tudo assim em sua casa?Héctor Ruiz García em sua casa de Ollauri com sua cachorrinha, ‘Trufa’. THE KIDS ARE RIGHT
— Alegria —responde Héctor.

De Madri sente falta do metrô e dos trens. Aos domingos seus pais o levavam de metrô à estação de Atocha e lá, de uma passarela, via as chegadas e saídas do AVE (trem de alta velocidade espanhol). Mantém o bom inglês aprendido em seu colégio bilíngue com duas horas semanais de conversa remota com crianças de outros países dirigidas por um professor das Filipinas.

A estudante Paula não tinha muito o que falar sobre a mudança ao povoado, ainda que a única coisa que realmente a incomodasse era se distanciar de sua amiga Andrea. Mas a vida em Alcorcón, para ela, não tinha grandes atrativos: “Lá não tinha nada para fazer além de ficar em casa lendo e tocando piano”, diz. Aqui fez amizades e usa menos o celular, o que não a impede de seguir todos os dias no TikTok @payton, um influencer de 17 anos de quem gosta especialmente “do seu cabelo”.

Na cidade de Alcorcón sua mãe era cabeleireira em um asilo. Com a pandemia entrou em processo de regulação temporária de emprego (ERTE, na sigla em espanhol). Entre Ollauri e seus arredores não demorou a encontrar trabalho tomando conta de idosos em domicílio. Por enquanto, Leticia prefere sua nova vida. Acha que na cidade “as pessoas só cuidam de si.” Quando já estavam há algumas semanas no povoado, sua mãe morreu e ela se sentiu acolhida pelo carinho dos moradores.

A fibra ótica chegou aqui no ano passado. Graças a isso, Javier trabalhe para sua empresa de Madri da sala de jantar de sua avó Constantina. Escreve códigos sobre a mesma toalha de borracha que existia quando o levavam quando criança ao povoado e comiam feijão-branco. Equipado com um notebook e um monitor, junto com o mouse sem fio que acaba de receber pelo correio e dois periquitos em uma gaiola, se sente “super bem” nesse recinto, ainda que precise se lembrar de tirar de cima de um móvel um apavorante esquilo empalhado do qual avó gostava muito.

— Mamãe, me traz leite com cereais?

— Os cereais acabaram, quer um achocolatado?

— Tudo bem, mas coloca bastante açúcar.

Da esquerda à direita: Tatiana filha, Samara, Carmen, Tatiana mãe e David. THE KIDS ARE RIGHT

David é o mais velho. Tem 15 anos e é o que menos queria mudar de Valência a esse povoado ventoso chamado Villerías de Campos. Gostava de andar por aí com seus colegas, com seu look de calças justas e casaco prateado brilhante. “Nos primeiros dias aqui fiquei muito abatido”, diz. “Ficava sozinho o dia inteiro e não saía de casa. Mas estou me acostumando.” David é um jovem de agudo senso estético, e uma coisa que lhe frustrou ao chegar foi que no vilarejo de Palência não cortaram seu cabelo como pediu. “Cortaram inteiro, e eu queria um degradado com franja curta na frente”.

Samara, a segunda, gosta do fato de que em Villerías não existem tantos carros e tanto barulho como em Valência “e isso é legal”, e de Valência gostava do verão e das Fallas —uma festa típica valenciana, que ocorre em março—, “porque está tudo cheio de gente”. A terceira, Tatiana, de 10 anos, acha que sua cidade era “muito bacana porque havia muitas meninas”, ainda que em sua classe em Ampudia – ao lado de Villerías – tem uma colega de quem gosta muito porque se parece com Lucía, sua melhor amiga de Valência, “e temos os mesmos pensamentos”. No povoado seus locais favoritos são “o tanque das rãs” e a quadra de futebol de cimento, onde joga partidas com seus pais e seus irmãos, entre eles a mais nova, Carmen, de cinco anos, que insiste em ser entrevistada como os outros e diz de um fôlego só “Eu gosto de brincar quando tem vento, mas não posso gostar porque podemos ficar gripados”.

Tatiana Arenas tem 33 anos e seu marido, David García, 35. Ela era cozinheira de um restaurante e entrou em ERTE em março. Ele não conseguia um emprego fixo desde que há dois anos perdeu seu trabalho em uma filial da empresa de frutas secas Churruca. “Enviava à Turquia contêineres de sacos de kikos (grãos de milho tostados)”, diz. “Os turcos adoram kikos”. Conta que passou os primeiros meses da pandemia ajudando em pequenas reformas e em uma oficina mecânica para somar com o que recebia sua mulher e alimentar seus filhos. Deixaram de pagar o aluguel. Um dia, Tatiana teve a ideia de procurar informação sobre povoados que precisavam de famílias e encontrou o Projeto Arraigo. A empresa de vocação social dirigida por Enrique Martínez e seu filho Juan, ambos engenheiros, os colocou em contato com Mariano Paramio, prefeito de Villerías, produtor de um delicioso queijo de ovelha e homem com um único objetivo: “Que nosso povoado seja um povoado vivo”. Paramio vivenciou em sua infância o êxodo rural e afirma que mais de meio século depois está surgindo “uma mudança de percepção” daquele traumático repúdio ao campo rumo a sua valorização. Os filhos dos que se foram, raciocina, estão vindo mais de férias e até reformando as casas porque veem como as crianças gostam – ou seja: os netos e bisnetos dos que migraram às cidades pelo bem de seus filhos –. “É como uma espiral que, muito lentamente, começa a girar ao contrário”, observa.

O povoado de Villerías havia acabado de reformar a antiga casa do padre e David e Tatiana tinham quatro filhos: uma bênção em um país em cujas zonas rurais os menores de 15 anos são 12,4% da população, os maiores de 65, 23,8% e a taxa de envelhecimento aumentou 30% nos últimos anos, segundo dados oficiais. Alugaram a casa à família por um preço baixo e lhes deram trabalho, ele de funcionário da Prefeitura e ela responsável pelo bar do povoado. Tatiana chegou com as duas meninas mais novas em um carro alugado cheio de malas e com o leite, os legumes, a linguiça e o frango oferecidos antes de sair por seu pastor evangélico de Valência. Exímia cozinheira, em Villerías de Campos aprendeu a cozinhar sopa de alho, recupera o tempo que antes não pôde dedicar aos seus filho . “Eu sofri muito nessa vida, e como acredito em carma sempre pensei que algo muito bom deveria acontecer comigo. Imaginava que seria a loteria ou algo assim: mas outro dia disse a David: ‘E se era isso que deveria acontecer conosco?.”

Enquanto Javier Ruiz, em Ollauri, tem a sorte de contar com “fibra óptica de 100 megas”, José Ramón Reyes carrega a cruz de uma cobertura precária para seu povoado, El Frago, um precioso enclave medieval erigido sobre um penhasco de rocha aragonesa. Filiado ao Partido Comunista desde os 14 anos, o prefeito reflete em uma manhã de domingo: “Se Marx viu o potencial da eletricidade para mudar o mundo, imagine o que teria dito da Internet”. São dez da manhã, e no bar soam os sibilos da cafeteira manejada por Santiago Campiglia.

Ele e sua esposa, Verónica Giacoboni são uruguaios. Saíram de Montevidéu em 2018. Na periferia as coisas estavam ficando feias, e não aguentaram mais quando assaltaram a mãe dela. “Foi agredida com um ferro na cabeça e perdeu três dentes”, diz Verónica. Emigraram à Espanha e trabalharam no turismo em Xàbia até a pandemia. Ficaram sem renda e com um aluguel dispendioso. “A única ajuda que entrava em casa eram 30 euros (200 reais) por mês da Prefeitura para comprar no supermercado Masymas”, diz Santiago. Através do Projeto Arraigo tiveram a possibilidade de ir para El Frago com um aluguel acessível e trabalhando no bar da mãe do prefeito. “E os moradores nos receberam muito bem”, diz ele. Os clientes são sempre os mesmos e em apenas dois meses o Bar 4 Reyes funciona como se os uruguaios sempre estivessem no comando. Sabem, por exemplo, que Domingo só bebe cerveja sem álcool e que Eladio, o pastor de cabras, gosta de Fanta laranja em copo alto “e com uma dose de vinho”.

Santiago e Verónica em seu bar. A seus pés, Mila e Arya. THE KIDS ARE RIGHT

Verónica e Santiago estão “felizes”, ainda que passem o dia inteiro no bar. Quando pode, ela gosta de tricotar e tirar uma soneca. Ele avalia que sua economia doméstica agora é mais sustentável. E também que o ar é “excelente” e sente que se oxigena muito bem quando vai correr. Antes de entrar nos bosques, isso sim, perguntou se havia ursos. Eladio se transformou em seu professor das coisas do lugar e uma tarde o levou para ensinar-lhe quais são os cogumelos comestíveis: “O níscaro, os cogumelos-do-cardo, os cavaleiro-cinza…”, diz o pastor.

Além dos uruguaios, em El Frago chegaram em outubro Nando González e Noemí Abad, um casal de Santander —entregador de encomendas e professora particular de inglês— cansado da cidade e assustado com o vírus porque ela tem asma. “Eu não aguentava mais”, confessa Nando, que, bem agasalhado e com seu copo de bebida nas mãos na praça Mayor, emana plenitude.

Outra moradora desde meados de 2020 é Marina Joven, uma terapeuta ocupacional cujos avós compraram há tempos uma casa em El Frago. Ela gostaria de ficar, mas como trabalha com seus pacientes acha que precisará voltar a Zaragoza. Marina anda de cadeira de rodas por uma algodistrofia, doença neurológica que causa fortes dores. Um dos benefícios do povoado, diz, é que depois de cada surto se recupera antes. Fala do poder de cura do silêncio, de dormir melhor, de como um vizinho bate em sua porta para ver como está, de que a cabeça está “a 2.000 por hora, como sempre”, mas tendo a natureza ao lado para sair um pouco para meditar, e do som da geada “degelando de manhã”.

— É uma utopia se mudar ao campo?

— Hoje, sim —responde no bar—, mas minha geração se interessa cada vez mais e a administração leva isso em consideração. Eu sou das que acham que a sociedade avança, e penso que estamos nesse rumo.

Marina deu palestras na pequena El Frago sobre igualdade de gênero e teve seus desentendimentos com a mãe do prefeito, Celia, conservadora ainda que inimiga do machismo. Santiago, que no Uruguai fazia kickboxing, deu um curso de defesa pessoal e Celia diz que aprendeu a golpear um possível agressor “para deixá-lo atordoado”. Lembra quando a população daqui era 10 vezes maior do que agora e na escola estudavam em classes separadas, com trabalhos domésticos para as meninas e na horta para os meninos. Nos anos sessenta, conta, “surgiram os tratores e as máquinas e já não era preciso tanta mão de obra, e muita gente foi para a França e Zaragoza. Muitos homens ficaram porque tinham um pedaço de terra e estavam muito arraigados, mas as mulheres saíram para trabalhar, e com tanto solteiro veio esse despovoamento tão grande que temos”, conta. Ela acha muito difícil que El Frago volte a ser um local tão vivo como quando era menina, ainda que seu filho esteja “fazendo o impossível”. Os moradores recuperaram a abadia e José Ramón prevê que em breve um casal de Soria com sete filhos se instale nela. Além disso, espera que venha um casal de Sevilha com outros quatro filhos. O prefeito logo poderá reabrir a escola, seu desafio número um. “Sem crianças não há povoado”, afirma com sua camiseta do Che Guevara.

Verónica Giacoboni tem uma nova clientela para tentar levar sua proposta além dos hambúrgueres e pizzas artesanais. “É difícil com os mais velhos. Estranham se sirvo macarrão com almôndegas. Dizem: ‘Primeiro o macarrão, depois as almôndegas’. O zucchini (abobrinha) também, se o coloco no suflê, porque o tomam na sopa. Comecei a fazer pão de ló e não o comiam, porque segundo eles só é feito para aniversários; mas então o usei para fazer bolinhos e agora sim o comem mais com o café”. Verónica faz um esforço intercultural para combinar a cultura uruguaia com a local.

Alona Litovinskaya mostra no celular as fotos de quando era uma executiva com saltos agulha.

— I was like a bullet —sorri. Como uma bala.

Um bom tempo depois disso ela conheceu Alberto Pérez Gordillo em um festival de música trance em Las Hurdes. Ele a viu, lhe perguntou se tinha fogo e ela disse que sim; de modo que assim nasceu em 2018 esse casal improvável: ele de Mérida e ela de Cazã, na Rússia.

Procurando campo, foram juntos a Miraflores de la Sierra, mas a vida em uma casa geminada a uma hora de Madri não os satisfez e, em 2019, saíram com seu trailer para procurar “algo selvagem” pelo norte da Espanha. Andando pela Galícia, viram em um site o anúncio de uma casa rural desabitada há anos, a visitaram e para eles tinha tudo: acesso por uma estrada pavimentada, água de uma nascente que sai ali mesmo de algumas rochas, documentação em dia e nenhum outro humano em um raio de um quilômetro. Não se importaram por aquilo estar “quase arruinado”, como Alberto define. Compraram e voltaram a Miraflores com a ideia de ir reformando a casa com calma, mas seu plano gradual foi pelos ares com o confinamento e quando puderam foram para Muras. Estão há meio ano nessa casa rural do século XIX, situada no topo de uma ladeira verde que dá em um pequeno riacho e que só tem uma casa perto, abandonada há décadas e na qual Alona sente a “presença de energias”.

— Isso era um caos quando chegamos — diz —. Agora também é um caos, mas um caos habitável.

Alona e Alberto no pátio de sua casa, em um local remoto da Galícia. THE KIDS ARE RIGHT

Hoje já conseguiram arrumar melhor, com alguma goteira, a parte onde estava o palheiro. O colchão fica direto no chão envolto em edredons: dois na parte de cima, um embaixo. Eles se esquentam com um fogão à lenha. Têm uma boa linguiça e bons queijos da região. O que não têm é boa Internet. Alberto, técnico de som, pendurou no varal da varanda uma sacola do supermercado com um celular velho que serve de antena e capta o sinal do 4G, e por bluetooth conseguem cobertura dentro. Alona diz que se em locais como esse existisse uma conexão de qualidade seus amigos techies de San Francisco, onde morou depois de Cazã e Moscou, ficariam felizes. Ela tem a esperança de montar em volta da casa “projetos de música imersiva”. Ele, que ficou sete anos trabalhando em Barcelona e seis em Madri, deseja poder sustentar sua vida aqui quando “tudo isso” passar, “talvez saindo por temporadas para trabalhar na cidade.”

Adoram estar no meio do nada e ter a alguns minutos a sede do município. Vão frequentemente fazer compras e comer no café restaurante O Santi, que tem um soberbo menu de 10 euros (65 reais) e também recebe as encomendas do correio. Hoje Alberto comeu lentilhas de entrada e bacalhau com cebola, e Alona salada e, de prato principal, filé de merluza com batata cozida. Além disso, ela voltará para casa com um colete que comprou pela Internet e ele com uma motosserra de gasolina que encomendou pela Amazon. Para Jeff Bezos, não há lugar ermo e distante o suficiente.

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Como a tecnologia impactará sua vida em 2021, de acordo a Amazon

Dr. Werner Vogels, Vice-Presidente e Diretor de Tecnologia da Amazon.com (MARK RALSTON/AFP/Getty Images)

2020 foi um ano diferente de qualquer outro. Tanto empresas grandes e pequenas, quanto governos novos e antigos, tiveram de mudar completamente o que fazem e como funcionam. E a tecnologia nos ajudou a gerenciar essa transformação drástica. Seja com o Zoom virando nossa sala de reuniões de negócios (e nosso barzinho) ou o Netflix assumindo o papel de cinema, nós usamos a tecnologia para ajudar a alimentar nossa família, ensinar nossos filhos, trabalhar com nossos colegas e até conseguir um pouco de diversão após passarmos mais um dia em casa. Em vez de causar uma desaceleração, 2020 impulsionou nossa transição para um mundo digital, e imagino que não voltaremos tão cedo a como éramos antes. Na minha opinião, 2021 será o ponto de partida para todos os tipos de mudança graças a essa aceleração, e aqui estão algumas áreas que serão pioneiras nisso.

A nuvem será onipresente
A época em que todos os recursos da nuvem ficavam centralizados em data center está começando a sumir. Hoje já é possível encontrar aplicações de cloud que ajudam a potencializar o desempenho de navios, aeronaves, carros e casas. O acesso à computação e ao armazenamento da nuvem está passando de data centers robustos e chegando em comunidades rurais, áreas remotas e até órbitas próximas à Terra. Na prática, a nuvem está chegando em todos os lugares.

Hoje em dia, os avanços possibilitam colocar as tecnologias de nuvem mais próximas do que nunca dos clientes do mundo inteiro. Conforme vemos a expansão das redes 5G, as operadoras começam a implementar zonas de comprimento de onda para que o tráfego das aplicações dos dispositivos 5G possa aproveitar ao máximo a latência baixa e a largura de banda alta dessas redes modernas. Quando as conexões rápidas com a nuvem são expandidas para os pontos mais distantes da rede, muitas coisas boas podem acontecer.

Ao remover a latência e executar mais processamento no dispositivo localizado na extremidade da rede (ou edge), estamos começando a superar a única limitação que ainda afeta todas as tecnologias na Terra: a velocidade da luz. Operações que exigem uma latência muito baixa, incluindo carros autônomos, processamento de linguagem natural e o gerenciamento ativo de infraestruturas vitais, já não precisam depender de um deslocamento das informações dos confins do planeta para um servidor central. Agora, é possível executar as tarefas onde os resultados são mais necessários. E sabe qual é o efeito disso? Carros autônomos viram realidade; fábricas, casas e escritórios ficam cada vez mais eficientes e resilientes; e quem gosta de jogar videogame poderá contar com uma representação fiel da obra, onde quer que esteja.

Conforme a nuvem expande de locais centralizados para os ambientes em que moramos e trabalhamos, veremos cada vez mais o software executado na nuvem rodando perto de você, o que levará a melhorias em todos os aspectos da vida, incluindo nas áreas de saúde, transporte, entretenimento, fabricação e muito mais. Em 2021, essa transição para o edge do sistema será acelerada.

A internet do machine learning
Estamos passando por uma explosão de dados. Hoje em dia, geramos mais dados em uma hora do que durante todo o ano de 2000, e mais dados serão criados nos próximos três anos do que nos últimos 30 anos. Em 2020, vimos os sinais dessa curva crescente conforme pesquisadores, farmacêuticas, governos e instituições de saúde direcionaram recursos para o desenvolvimento de vacinas, novos tratamentos e outras formas de ajudar o mundo a permanecer saudável durante a pandemia. Esses esforços demandaram a geração e o processamento de grandes quantidades de dados. Seja na área da saúde ou em outras aplicações, a única maneira realista de lidar com todas as informações que estamos gerando é usar ferramentas de processamento e agregação junto com modelos de machine learning (ML) que nos ajudem a compreendê-las. Não é à toa que o machine learning se popularizou em 2020.

Historicamente, o ML sempre foi uma carga de trabalho pesada em termos computacionais, e não era possível executá-la em qualquer lugar, exceto nos hardwares mais potentes. Conforme conseguirmos avanços nos softwares e no silício, isso começará a mudar. E, por estarmos chegando mais perto das bordas, o que veremos no próximo ano é uma aceleração da adoção dos modelos de ML em todos os setores e governos. Na manufatura, será incorporado às linhas de produção, conseguindo detectar anomalias em tempo real, e na agricultura, modelos ajudarão a gerenciar de forma mais inteligente recursos valiosos, como o solo e a água.

Também veremos uma explosão das conexões entre máquinas (M2M). Em 2018, segundo o relatório anual de internet da Cisco, apenas 33% das conexões existentes na internet eram do tipo M2M. Se você tiver um assistente de voz, contar com qualquer dispositivo doméstico inteligente ou estiver acompanhando a evolução rápida dos carros e caminhões, já imagina o que vem por aí: uma proliferação de sensores e dispositivos conectados à nuvem e também uns aos outros. Em 2021, as conexões M2M devem atingir 50% de todas as conexões.
Fonte:Exame

Lou Andreas-Salomé, a femme fatale que Nietzsche fingia, Rilke amava e Freud admirava

Para o filósofo Frederick Nietzsche, ele foi “a pessoa mais inteligente que já conheci”, o herdeiro perfeito de sua filosofia, “a melhor e mais fértil fazenda” de suas idéias.

GettyImages

Para o poeta Rainer Maria Rilke, ela foi uma “mulher extraordinária” sem cuja influência “todo o meu desenvolvimento não teria sido capaz de percorrer os caminhos que me levaram a tantas coisas”.

E para o pai da psicanálise Sigmund Freud, ele era “um ser compreensivo por excelência”.

Dado o calibre das personalidades que a admiravam, é quase irresistível apresentar-lhe as descrições que fizeram, embora seja incongruente: poucas mulheres se esforçaram tanto para evitar serem definidas pelos homens da sua vida como Lou Andreas-Salomé.

Lou Andreas-Salomé teve uma vida intelectualmente agitada, cheia de contrastes marcantes.

Ela foi uma famosa femme fatale desde tenra idade, embora tenha sido virgem até depois dos 30 anos.

Ela foi casada por 43 anos, mas nunca fez sexo com o marido.

Ela era uma mulher intensamente independente, cujos escritos desafiavam os leitores a repensar os papéis de gênero, mas foi rejeitada pelas feministas.

Mas, acima de tudo, em uma época em que os filósofos questionavam nosso lugar no cosmos, os escritores questionavam as normas sociais como nunca antes e os cientistas descobriam espaços desconhecidos na mente humana, Lou Andreas-Salomé era uma ponte entre o mundos da filosofia, literatura e psicologia.

Lou

Lou começou a perder a fé quando criança na Rússia, até porque Deus não respondeu a suas perguntas sobre por que um par de bonecos de neve desapareceu repentinamente ao sol, como ela relata em seu “Olhando para Trás”.

Ele também perdeu seu pai amoroso, na adolescência, e sua crise de fé se aprofundou.

Mas ele não perdeu a razão; ele sempre entendeu a importância da religião.

Perguntas deixadas sem resposta quando uma criança corroeu sua fé.

Só outros, em particular o filósofo holandês Baruch Spinoza e o alemão Immanuel Kant, começaram a dar-lhe as respostas que tanto procurava.

Ela nasceu em 1861 em São Petersburgo em uma família de expatriados protestantes alemães e era a mais nova e única mulher de seis filhos.

Decepcionada com os ensinamentos do pastor protestante ortodoxo de sua família, ela preferiu estudar com seu oponente, Hendrik Gillot, também protestante, mas não ortodoxo, liberal e inteligente.

Com ele aprofundou seus conhecimentos de história, religião e filosofia, e encontrou a vida espiritual que almejava, bem como a perspectiva de um mundo livre de correntes e convenções.

Mas, apesar de ser 25 anos mais velho que ela, casado e pai de dois filhos da mesma idade da aluna, foi o primeiro de seus mentores que se apaixonou por ela a ponto de a pedir em casamento.

Decepcionado, o jovem Lou respondeu com um firme “não”.

Hino à vida

No final de 1880, ela deixou a Rússia acompanhada de sua mãe para estudar teologia, filosofia e história da arte na Universidade de Zurique, uma das poucas na Europa que recebia mulheres.

Mas, no verão do ano seguinte, ele teve que parar de assistir a palestras porque começou a tossir sangue.

Embora soubesse o quão perigosa era sua doença, aos 20 anos Lou queria devorar a vida, sentimento que ele capturou em seu poema “Hino à vida”.Getty Images

Anos mais tarde, ele o daria a Nietzsche e ele o musicaria.

O filósofo alemão foi uma das pessoas que ele conheceu, na Itália, onde procurou aconselhamento médico.

Salomé

Salomé chegou a Roma com uma carta de recomendação de um de seus professores em Zurique para a escritora alemã Malwida von Meysenbug, personalidade intimamente ligada ao meio intelectual e artístico europeu.

Uma profunda amizade se desenvolveu entre eles e uma das fases mais decisivas de sua vida começou em casa.

Lá ele conheceu o filósofo positivista Paul Rée que, apaixonado por Salomé, escreveu a seu amigo Nietzsche sobre ela.Getty Images

A atriz francesa Dominique Sanda como Lou Andreas Salomé, o ator britânico Robert Powell como Paul Rée e o ator sueco Erland Josephson como Friedrich Nietzsche no filme de 1977 “Além do Bem e do Mal”.

“Diga olá para aquela russa por mim, se ela tiver algum propósito: eu quero esse tipo de alma. (…) com o que tenho em mente para os próximos dez anos, vou precisar dela. O casamento seria um capítulo completamente diferente; no máximo , Poderia aceitar um casamento de dois anos … ”, respondeu Nietzsche, que desejava mesmo empreender aquele“ capítulo ”da sua vida com ela.

Ele a propôs várias vezes depois que finalmente a encontrou na Basílica de São Pedro em março de 1882, quando a cumprimentou dizendo:

“Em virtude de quais estrelas nós dois fomos nos encontrar aqui?” (Aparentemente, mesmo nas grandes mentes há espaço para o kitsch.)

Escândalo

Salomé rejeitou as propostas de Nietzsche e de Rée, mas fez uma contra-oferta: que os três vivessem juntos em uma espécie de comuna intelectual celibatária, na qual passariam o tempo discutindo filosofia, literatura e arte.

A ideia, que os dois filósofos acharam encantadora, parecia escandalosa para outros, particularmente no prestigioso círculo do compositor Richard Wagner e especialmente para um de seus membros: a irmã de Nietzsche, Elisabeth.

Não só Rée era de origem judaica, mas seu pensamento foi fortemente influenciado por Charles Darwin, a ciência materialista e os ensaístas franceses como La Rochefoucauld. Tudo que eles repudiaram.

Além disso, uma coexistência nesses termos violava as regras morais.

Elisabeth Nietzsche declarou uma guerra total contra Lou Salomé que durou para o resto de suas vidas e, felizmente para ela, até a ascensão dos nazistas ao poder, a quem ela se voltou contra ela.

Acima, para Elisabeth, Salomé ameaçava chamar a atenção do irmão.

Sua proximidade produziu um ódio tão profundo que a sujeitou a décadas de difamação pública, tão vil que 50 anos depois, em face do silêncio de Salomé, Freud perdeu a paciência.

“Muitas vezes me incomodou ver sua relação com Nietzsche mencionada de uma forma obviamente hostil contra você e que é impossível corresponder aos fatos. Você foi muito decente. Espero que agora você finalmente se defenda” (Freud para Salomé, 8 de maio de 1932).

Ele nunca fez isso.

O fato é que na década de 1880 ele começou a adquirir aquela fama mais parecida com a de seu homônimo bíblico, o Salomé que dançava para conseguir a cabeça de João Batista.

A Trindade

Para Nietzsche, o relacionamento com Salomé era crucial e tortuoso.

Inicialmente entusiasmado com a ideia do que chamou de “uma santíssima trindade”, aceitou as razões apresentadas para a primeira rejeição: a aversão fundamental de Lou ao casamento em geral – que entre outras coisas tinha apenas 21 anos, 17 anos mais jovem do que ele. e o fato de que ela perderia a pensão do pai, da qual vivia.

Mas depois de viajar pela Itália, Suíça e Alemanha com os dois amigos e a mãe de Salomé, ele a pediu em casamento novamente.

Desta vez, Salomé não deixou dúvidas de que, embora estivesse interessada na Trindade, não se casaria com ele agora ou no futuro.

Como Nietzsche não queria perdê-la completamente, concordou e, para celebrar o pacto, sugeriu que tirassem uma foto que ficou famosa.

A famosa foto da Trindade: da esquerda para a direita, Lou Salomé -no carrinho-, Paul Rée e Federico Nietzsche.

Mas no final, o idílio intelectual com que Salomé havia sonhado nunca se tornou realidade.

No final de 1882, passa um tempo com Nietzsche quando o visita na Turíngia e tem a oportunidade de conhecê-lo melhor e conhecê-lo melhor.

Eles passaram horas falando sobre “Deus e o mundo”. Como muitos antes e depois dele, Nietzsche ficou impressionado com sua capacidade de penetrar na essência dos mais variados assuntos.

Mas isso mexeu com seus sentimentos: ele a adorava e a rejeitava com a mesma intensidade.

Para ela, Nietzsche era um homem reservado e solene, de aparência anódina, exceto pelos olhos que pareciam “guardiães de tesouros e segredos não falados que nenhum intruso deveria ver”. Um homem que transformou “sua situação pessoal, a profundidade de sua miséria” em “uma fornalha incandescente na qual foi forjada sua vontade de saber”.

Em 1894, Salomé publicou “Friedrich Nietzsche, o homem em suas obras”, um estudo de sua personalidade e filosofia que foi muito difamado, mas, como grande parte de sua obra, está sendo reavaliado.

Andreas

Nos anos seguintes, Salomé conviveu com o outro membro da frustrada Trinity, Rée, em uma relação platônica e socializando com um círculo de amigos formado principalmente por cientistas que a chamavam de “a dama de honra” por ser a única mulher.

Feliz em meio às discussões filosóficas e científicas, publicou seu primeiro livro, o romance filosófico-psicológico “Na luta por Deus”, sob o pseudônimo de “Henri Lou”.

Seu sucesso abriu as portas para círculos mais amplos da sociedade e da cultura, e a tornou conhecida.

Em seu rastro, ele estava deixando mais homens apaixonados e rejeitando mais propostas de casamento.

Ela encantou diversos gênios não só porque era uma mulher muito inteligente, mas porque tinha uma capacidade extraordinária de ouvir e captar novas idéias com clareza e ver conexões ainda invisíveis para os outros.

Portanto, foi um alívio para a solidão de pessoas brilhantes, cujo destino é muitas vezes incompreendido e até temido, embora por trás da máscara da reverência.Getty Images

Salomé amava os homens que conhecia.

Em 1887, a coabitação com Rée chegou ao fim devido a um homem chamado Friedrich Carl Andreas.

Dizem que ele a convenceu a se casar com ele ameaçando cravar uma adaga em seu coração se ela não o fizesse.

É difícil verificar, mas a mulher que havia dito “não” a várias das principais cabeças da época, disse “sim” a um professor de estudos orientais.

Com uma condição: que nunca tenham relações íntimas … um com o outro.

Assim foi. Ele se tornou Lou Andreas-Salomé e viveu com ele até sua morte em 1930.

E já casada, conheceu aquele que se diz ser o amor da sua vida.

Amantes

Quando se conheceram, seu nome era René. Foi ela quem lhe deu o nome pelo qual o conhecemos: Rainer Maria Rilke

Ele não foi o primeiro de seus amantes.

A história da vida amorosa extraconjugal de Salomé havia começado em 1891 com Georg Ledebour, editor do diário social-democrata de Berlim, e mais tarde com um médico de Viena, Friedrich Pineles, cuja família a considerou sua esposa por 12 anos, apesar do fato de que ela nunca concordou oficialmente em se casar com ele, pois envolvia o divórcio de Andreas.

Foi nesta altura que causou uma torrente de indignação nos meios feministas com a publicação de “Erotica”, pois Salomé defendia a diferença entre mulheres e homens em vez da ideia de uma igualdade concedida pelo mundo dos homens.

A mulher não se libertava competindo com os homens e tornando-se igual a eles – ela acreditava – mas feminilizando o mundo e fazendo com que os homens encontrassem e aproveitassem seu lado feminino, tão profundo quanto sua masculinidade.Getty Images

Lou Andreas-Salomé (centro) e Rainer Maria Rilke (à esquerda) visitando o poeta russo Spiridon Drozhzhin.

Rilke
A primeira vez que se encontraram foi em Munique, em 1897, mas Rilke já estava interessado nela, pois havia lido um artigo sobre filosofia da religião intitulado “Jesus, o judeu”, publicado há um ano.

Para ele, o ensaio foi uma revelação, pois ela havia “expressado de forma magistral e clara” o que ele queria expressar em seu ciclo de poemas “Visões de Cristo”.

Então, quando a viu, ele já havia escrito cartas anônimas com poemas anexados.

A sua admiração transformou-se em amor, apesar de ela ter 36 anos e ele 21, e desde então até ao fim do seu namoro em 1900, dedicou-lhe todos os seus poemas de amor.

Ela demorou mais para se apaixonar.

Diante da avalanche de cartas românticas com que quem se tornaria um dos mais importantes poetas do século XX a inundou, Salomé passou a desejar que “fosse embora por completo”.

Mas o amor de Rilke acabou superando e nasceu uma relação sempre apaixonada, primeiro de amantes e depois de amigos, confidentes e conselheiros, que durou até a morte do poeta em 1926.

Intelectualmente, ela começou a orientá-lo, ensinando-lhe russo para que ele pudesse ler Tolstói e depois levando-o à Rússia para conhecê-lo.

Com o tempo, foi amadurecendo como escritor e como pessoa, e a balança se equilibrou: foi uma das trocas artísticas mais fecundas do século XX.

Freud
Salomé era mais famoso do que Freud quando se conheceram em 1911.

Ele, 55, foi dedicado a uma nova ciência; ela, 50, foi uma renomada ensaísta, crítica e romancista.

Embora não tenha estudado psicanálise, em vários de seus trabalhos – como “Heroínas de Ibsen”, “Erotica” e as biografias de Nietzsche e Rilke – ele explorou o psiquismo.

Como Karl Abraham, a quem Freud chamou de “seu melhor aluno”, escreveu ao professor: “Nunca conheci uma pessoa com uma compreensão tão profunda e sutil da psicanálise”.

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Sigmund Freud (1856-1939) em um retrato feito por Ferdinand Schmutzer em 1926.

Freud reconheceu imediatamente seu talento e Salomé se tornou a única mulher aceita no Círculo Psicanalítico de Viena.

Para o resto de suas vidas, eles manteriam um relacionamento próximo baseado em profundo respeito e carinho.

Salomé se dedicou a dar terapia psicanalítica na cidade alemã de Göttingen até que, aos 74 anos, sua saúde o impediu.

Ela morreu dois anos depois, em 1937, perseguida pelos nazistas, graças ao seu eterno inimigo: a irmã de Nietzsche.

Dias depois, a Gestapo confiscou sua biblioteca por ter sido colega de Freud, praticar uma “ciência judaica” e possuir muitos livros de autores judeus.

Mas suas obras permaneceram – mais de uma dúzia de romances e numerosos estudos – assim como sua copiosa correspondência com os homens brilhantes de sua vida.

E seu exemplo de mulher que sempre lutou por sua liberdade intelectual.

Hilda Hirst – Poesia

Poemas aos Homens do nosso Tempo – I
Hilda Hilst

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Fatos & Fotos – 31/12/2020

A cerâmica lúdica de Jurga Martin


Paul Klee
The Barbed Noose with the Mice,1923


Grafiti – Banksy


A arquitetura da desgraça, em que a pobreza pode existir, só não pode aparecer.


Por que Antígona, de Sófocles ainda é a peça de teatro mais representada do mundo 2,5 mil anos após sua estreia. Por que é tão popular? Porque apesar da passagem do tempo, essa história de desobediência civil e de uma batalha devastadora continua tocando as pessoas até hoje. Obedecer ou desafiar.

Por que Antígona ainda é a peça de teatro mais representada do mundo 2,5 mil anos após sua estreia



Marc Chagall
Les Amoureux au bouquet de fleurs,1938


Jair Bolsonaro foi eleito como “Ciminoso do Ano” na promoção do crime organização e da corrupção pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project (Projeto de Reportagem de Crime Organizado e Corrupção, na sigla em inglês), por ter se “cercado de figuras corruptas, usado propaganda para promover sua agenda populista, minado o sistema de Justiça e travado uma guerra destrutiva contra a região da #Amazônia, o que enriqueceu alguns dos piores proprietários de terras do país”. O Globo

O Organized Crime and Corruption Reporting Project é um dos maiores consórcios de jornalistas investigativos do mundo, criado na Europa e que publica dezenas de reportagens investigativas por ano.

Em outros anos, foram escolhidos o russo Vladimir Putin, o venezuelano Nicolás Maduro e o filipino Rodrigo Duterte.


Foto do dia – André Kertész,Budapete,1914


Da série “Caminhando pelas Cidades”
Olhem Os Muros – Escrituras  – Poesia

Por que Antígona ainda é a peça de teatro mais representada do mundo 2,5 mil anos após sua estreia

Antígona: ‘Eu vou enterrar o nosso irmão. E me parece bela a possibilidade de morrer por isso’GettyImages

Ismênia, minha querida irmã, companheira de meu destino, de todos os males que Édipo deixou, suspensos, sobre a sua descendência, haverá algum com que Júpiter ainda não tenha afligido nossa vida infeliz?”

Com essas palavras, há quase 2,5 mil anos, o poeta Sófocles começa a contar a história de Antígona aos gregos presentes na Acrópole de Atenas, durante a festa em homenagem a Dionísio, o deus do teatro.

O seu público sabia dos infortúnios a que se referia a protagonista, porque a conheceram em sua obra anterior Édipo Rei — ela era uma das duas filhas do mais infeliz dos reis de Tebas que, sem saber, matou seu pai e se casou com sua mãe, Jocasta.

Quando o diálogo entre Antígona e Ismênia começa, Jocasta já havia se suicidado, e Édipo tinha furado os próprios olhos, se exilado e morrido.

Mas aos infortúnios da família se soma uma guerra em que lutaram os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinice. Como destaca Ismênia, ela e a irmã perderam “num só dia, dois irmãos, um derramando o sangue do outro, se dando mutuamente o golpe de extermínio”.

O enredo que se desenrola a partir deste ponto é tão emocionante que “a peça de teatro mais representada no mundo não é uma das adaptações de Harry Potter, de Hamlet ou qualquer outra obra de Shakespeare: é Antígona“, diz o escritor irlandês Colm Tóibín.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS
Ismênia e Antígona perderam o pai e a mãe, que foram vítimas de um destino funesto. No início desta peça, elas acabaram de perder os dois irmãos

“Porque é uma peça fantástica”, responde o diretor teatral Olivier Py. Sem dúvida, é uma grande obra, mas isso, felizmente, pode ser dito sobre muitas outras.

Mas, apesar da passagem do tempo, essa história de desobediência civil e de uma batalha devastadora continua tocando as pessoas até hoje. Vamos relembrar seu enredo:

Após a morte de Édipo, Etéocles e Polinice herdam o reino de Tebas com a condição de que governem alternadamente. Quando chega a hora de Etéocles ceder o poder ao irmão, ele se recusa, levando Polinice a formar um exército.

Depois que os irmãos se matam, seu tio Creonte assume o poder, e sua primeira decisão é honrar a memória de Etéocles e não sepultar Polinice, para que as aves de rapina e hienas o devorem.

Antígona não aceita isso. Embora a sociedade o julgue negativamente, seu irmão merece descansar com dignidade, e ela fará de tudo para honrá-lo com um simples gesto: jogar terra sobre seu corpo.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Antígona: ‘Eu vou colocar terra sobre o corpo humilhado do meu pobre irmão’

Py montou Antígona no ano passado com detentos da prisão de Avignon-Le Pontet, na França, e os atores “entenderam profundamente esta ideia de que um homem ainda é um homem, independentemente do que ele tenha feito”.

“O maravilhoso de Antígona é que ela luta pelo direito de expressão e de contar a história sob seu ponto de vista. Por isso, para mim, seu ato de desafiar o Estado ou o poder é importante, porque normalmente só ouvimos a história sob a perspectiva dos fortes, dos vitoriosos ou das autoridades”, diz Py.

Enquanto estava preso, Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul conhecido por sua luta contra o apartheid, também atuou em uma versão de Antígona produzida na Ilha Robben, onde ficou encarcerado.

Para refugiadas sírias no campo de Shatila, no Líbano, que encenaram uma versão da peça criada por Mohammad al Attar, foi um reflexo de suas lutas diárias.

Esta versão da obra, criada pelo dramaturgo Mohammad Al Attar, mesclou as experiências das refugiadas. Sem querer, Al Attar descobriu que várias compartilhavam a mesma angústia de Antígona por não poder enterrar seus entes queridos.

“Essa ideia de honrar nossos mortos é tão fundamental”, diz Tóibín, “que nenhum decreto, nenhuma lei, pode mudá-la”. Ainda assim, suscita dilemas difíceis.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Honrar um sobrinho, desonrar o outro: o decreto de Creonte desencadeia uma verdadeira tragédia

Obedecer ou desafiar

A partir do primeiro diálogo entre as duas irmãs, Sófocles apresenta o dilema, ou melhor, um dos complicados dilemas com os quais a peça nos confronta.

Antígona havia levado Ismênia para fora do palácio para contar a ela o que Creonte decidiu fazer com o corpo de Polinice e sobre o decreto proibindo todos os cidadãos de sepultá-lo ou sequer chorar por ele.

“Sua decisão é fria, e ameaça quem a desrespeitar com a lapidação, morte a pedradas”, informa Antígona à irmã, enquanto a confronta com a realidade, sob seu ponto de vista.

“Agora sabes tudo. Logo poderás demonstrar se tu mesma és nobre ou se és apenas filha degenerada de uma raça nobre.”

Ismênia, consternada, responde: “Minha pobre irmã, se o caso é esse, que importa o que eu faça ou o que eu não faça?”REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Antígona: ‘Ninguém poderá enterrá-lo, nem sequer lamentá-lo, para que, sem luto ou sepultura, seja banquete fácil dos abutres’

Para Antígona, a única opção é enterrá-lo: “Enterro meu irmão, que é também o teu. Farei a minha e a tua parte se tu te recusares. Poderão me matar, mas não dizer que eu o traí.”

Ismênia, porém, é mais racional e pede a ela que reflita: “Temos que lembrar, primeiro, que nascemos mulheres, não podemos competir com os homens; segundo, que somos todos dominados pelos que detêm a força e temos que obedecer a eles, não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes.”

A ideia de “desafiar” é para ela um gesto excessivo e sem sentido: “Peço perdão aos mortos que só a terra oprime: não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida a obedecer, obedeço”.

Lealdade à família x lealdade à sociedade

“Sófocles sempre usa esse tipo de dualidade: dois personagens expondo o dilema”, destaca Lydia Koniordou, atriz, diretora e ex-ministra da Cultura da Grécia.

Cada irmã assume uma posição: Ismênia defende a sobrevivência; Antígona, a morte honrosa. Nenhuma delas é necessariamente boa ou má. Tudo depende do ponto de vista do público.

Essa é uma das razões pelas quais a obra de Sófocles pôde ser apresentada a qualquer momento, em qualquer lugar, até mesmo na França de 1944.

Por meio do uso inteligente da linguagem, o dramaturgo Jean Anouilh conseguiu fazer com que sua versão da obra fosse aceita pelos censores nazistas durante a ocupação alemã no país, embora permanecesse claramente uma reflexão sobre a submissão e resistência ao poder e ao controle.

E tem sido assim ao longo dos anos com esta peça, criada numa época em que o teatro tinha um papel muito especial.

Teatro para a democracia

GETTY IMAGEM
Como teria sido o Teatro de Dionísio, na encosta da Acrópole, em Atenas

Atenas, a cidade-estado, foi uma das primeiras democracias do mundo — e, em sua Acrópole, estava um dos primeiros teatros da história… e não foi por acaso.

“O teatro era parte integrante da democracia”, explica Koniordou. “Era uma das instituições da democracia: o Parlamento era uma, o Judiciário era a segunda, e a terceira era o Teatro.”

“Todos os cidadãos íam a Atenas para participar do diálogo e da discussão sobre assuntos públicos e privados da cidade. Para aqueles que não tinham dinheiro suficiente, a cidade dava ingressos grátis”, completa Koniordou.

E Sófocles era um gênio fomentando essas discussões, não apenas convidando à reflexão ao criar situações complexas, mas também personagens multifacetados.

Um poder antigo

Creonte, o rei, tio de Antígona e pai de seu noivo, que poderia facilmente ser classificado como “o vilão”, é o homem com a responsabilidade de unir a sociedade após uma guerra civil. “Ismênia é uma personagem poderosa e interessante, e não fraca como às vezes é retratada”, diz Koniordou.

Antígona, por sua vez, é uma heroína que nem sempre é simpática — manipula e despreza a irmã, não é totalmente correta e se aproveita ao máximo da sua situação de vítima. “Antígona é tão exagerada quanto Creonte e igualmente rígida em suas decisões”, afirma a Koniordou.

Mas ela questiona o poder em um aspecto fundamental: seus limites. Creonte “não tem nenhum direito de me privar dos meus”, declara Antígona.

REBECCA HENDIN/BBC IDEAS
Uma verdade mais antiga que põe limite ao poder

Tóibín nos convida a lembrar “de qualquer momento em que as mulheres tenham enfrentado governos e o poder, por exemplo, no caso do movimento #MeToo (que denunciou casos de assédio e abuso sexual) ou das Mães da Praça de Maio (que tiveram filhos mortos ou desaparecidos durante a ditadura) na Argentina”.

“Elas disseram: ‘Representamos algo mais antigo e verdadeiro que um decreto ou uma legislação, ou o poder do Parlamento ou a ditadura’.”

“Esta obra permite que a mulher fale e acuse, e permite que ela diga: ‘Eu sei algo que você não sabe sobre o poder, e vou desafiá-lo, porque a forma como você o está usando é uma forma de abuso. Você pode ser o rei, mas está errado”, acrescenta o escritor irlandês.

Creonte se dá conta disso. Diferentemente dos políticos modernos “que nunca admitem que cometeram um erro”, diz Koniordou, Creonte tenta reparar os danos. Mas chega dolorosamente tarde demais.

Tanto ele quanto Antígona pagam o preço mais alto pelas decisões que tomaram e arrastam seus entes queridos para as profundezas do luto, não sem antes de nos levar a questionar tudo… seja no século 5 a.C., neste século ou, provavelmente, nos que virão.

Como diz Tóibín: “Esse mundo de 2,5 mil anos atrás ainda é, em certa medida, o nosso”.