Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 05

Nietzsche – Reflexões na noite

No título “O novo Ídolo”, em “Assim falava Zaratustra”, Nietzsche aborda o papel crítico do Estado, esse ente criado pelas organizações políticas ao longo do tempo e que representam um povo e uma soberania.Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 09

Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de outubro de 1844 — Weimar, 25 de agosto de 1900) foi um filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX. Ele escreveu vários textos críticos sobre a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo.

Estado, chamo eu, o lugar onde todos, bons ou malvados, são bebedores de veneno; Estado, o lugar onde todos, bons ou malvados, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar onde o lento suicídio de todos chama-se – “vida”!

Olhai esses supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; “culturas” chamam a seus furtos – e tudo se torna, neles, em doença e adversidade!

Olhai esses supérfluos! Estão sempre enfermos, vomitam fel e lhe chamam “jornal”. Devoram-se uns aos outros e não podem, sequer digerir-se.

Olhai esses supérfluos! Adquirem riquezas e, com elas, tornam-se mais pobres. Querem o poder e, para começar, a alavanca do poder, muito dinheiro – esses indigentes!

Olhai como sobem trepando, esses ágeis macacos! Sobem trepando uns por cima dos outros e atirando-se mutuamente, assim no lodo e no abismo.

Ao trono, querem todos, subir: é essa a sua loucura. Como se no trono estivesse sentada a felicidade! Muitas vezes, é o lodo que está no trono e, muitas vezes, também o trono no lodo.

Dementes, são todos eles, para mim, e macacos sobre excitados. Mau cheiro exala o seu ídolo, o monstro frio; mau cheiro exalam todos eles, esses servidores de ídolos!

Porventura, meus irmãos, quereis sufocar nas exalações de seus focinhos e de suas cobiças? Quebrai, de preferência, os vidros das janelas e pulai para o ar livre!

Fugi do mau cheiro! Fugi da idolatria dos supérfluos!
Fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos!

Também agora, ainda a terra está livre para as grandes almas. Vazios estão ainda para a solidão a um ou a dois, muitos sítios, em torno dos quais bafeja o cheiro de mares calmos.

Ainda está livre, para as grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído. Louvado seja a pequena pobreza!

Onde cessa o Estado, somente ali começa o homem que não é supérfluo – ali começa o canto do necessário, essa melodia única e insubstituível.

Onde o Estado cessa – olhai para ali, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do super-homem?

Suas ideias-chave incluíam a crítica à dicotomia apolíneo/dionisíaca, o perspectivismo, a vontade de poder, a “morte de Deus”, o Übermensch (Além-Homem, ver: Novo Homem) e eterno retorno. Sua filosofia central é a ideia de “afirmação da vida”, que envolve questionamento de qualquer doutrina que drene uma expansiva de energias, não importando o quão socialmente predominantes essas ideias poderiam ser.

Seu questionamento radical do valor e da objetividade da verdade tem sido o foco de extenso comentário e sua influência continua a ser substancial, especialmente na tradição filosófica continental compreendendo existencialismo, pós-modernismo e pós-estruturalismo. Suas ideias de superação individual e transcendência além da estrutura e contexto tiveram um impacto profundo sobre pensadores do final do século XIX e início do século XX, que usaram estes conceitos como pontos de partida para o desenvolvimento de suas filosofias. Mais recentemente, as reflexões de Nietzsche foram recebidas em várias abordagens filosóficas que se movem além do humanismo, por exemplo, o transumanismo.

Nietzsche começou sua carreira como filólogo clássico — um estudioso da crítica textual grega e romana — antes de se voltar para a filosofia. Em 1869, aos vinte e quatro anos, foi nomeado para a cadeira de Filologia Clássica na Universidade de Basileia, a pessoa mais jovem a ter alcançado esta posição.[5] Em 1889, com quarenta e quatro anos de idade, sofreu um colapso e uma perda completa de suas faculdades mentais. A composição foi posteriormente atribuída a paresia geral atípica devido a sífilis terciária, mas este diagnóstico vem entrado em questão. Nietzsche viveu seus últimos anos sob os cuidados de sua mãe até a morte dela em 1897, depois ele caiu sob os cuidados de sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche até a sua morte em 1900.

Como sua cuidadora, sua irmã assumiu o papel de curadora e editora de seus manuscritos. Förster-Nietzsche era casada com um proeminente nacionalista e antissemita alemão, Bernhard Förster, e retrabalhou escritos inéditos de Nietzsche para se adequar a ideologia de seu marido, muitas vezes de maneiras contrárias às suas opiniões expressas, que estavam fortemente e explicitamente opostas ao antissemitismo e nacionalismo. Através de edições de Förster-Nietzsche, o nome de Friedrich tornou-se associado com o militarismo alemão e o nazismo, mas estudiosos posteriores do século XX vêm tentando neutralizar esse equívoco de suas ideias.

Machado de Assis e a Teoria do Medalhão

Há duas opções; ler #Machado de #Assis – de prima face o conto “#Teoria do #Medalhão” – e ficar #encantado com o que o #Brasil de mais excepcional produziu na #literatura, ou continuar acreditando que #Paulo #Coelho escreve literatura.

Nesse conto excepcional o “Bruxo do Cosme Velho”, já naquele tempos idos, desmonta, do alicerce à cumiera, com aurgumentos com a sutileza de uma marreta, o edifício da hipocrisia social. Quer ter sucesso na profissão e na sociedade? Não emita opiniões! E se as emitir certifique-se que, justamente pela necessidade de se pensar a longo prazo, deve-se iniciar moderando o “ardor, a exuberância e os improvisos da idade”. Importante, ainda, “todo o cuidado nas idéias que deve nutrir para uso alheio e próprio”. Aconselhável, mesmo, é “aparelhar fortemente o espírito para não ser afligido por ideias próprias”, cultivando absoluta inópia mental.

 

No conto o objetivo do pai que aconselha o filho é que este se faça “grande e ilustre, ou pelo menos notável”, que se levante “acima da obscuridade comum”. Para tanto, deve desde logo traçar um caminho voltado a esse objetivo, não obstante, segundo o pai, é comum tornar-se medalhão apenas por volta dos quarenta e cinco anos.

Ps. A esse conto também caberia o sub-título de “Elogio da Vaidade”. Eu acho! Só acho, “bien sûr”
Deleite-se!

José Mesquita


Teoria do Medalhão
Machado de Assis

Diálogo

– Estás com sono?

– Não, senhor.

– Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?

– Onze.

– Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…

– Papai…

– Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.

– Sim, senhor.

– Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

– Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

– Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos…

– É verdade, por que quarenta e cinco anos?

– Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.

– Entendo.

– Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.

– Mas quem lhe diz que eu…

– Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

– Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.

– Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.

– Como assim, se também é um exercício corporal?

– Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

– Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?

– Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos, – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…

– Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando…

– Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil.

Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! – E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.

– Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.

– Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: – ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas; no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira esperta e afreguesada, – que, segundo um poeta clássico,

Quanto mais pano tem, mais poupa o corte, menos monte alardeia de retalhos; e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.

– Upa! que a profissão é difícil!

– E ainda não chegamos ao cabo.

– Vamos a ele.

– Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático.

O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?

– Percebi.

– Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “alavanca do progresso” e o “suor do trabalho” vencem as “fauces hiantes” da miséria.

No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.

– Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.

– Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.

– E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?

– Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.

– Nem política?

– Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.

– Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?

– Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; – é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.

– Farei o que puder. Nenhuma imaginação?

– Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.

– Nenhuma filosofia?

– Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

– Também ao riso?

– Como ao riso?

– Ficar sério, muito sério…

– Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, – e este ponto é melindroso…

– Diga…

– Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?

– Meia-noite.

– Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.

Jorge Luis Borges e a metafísica do tempo na dimensão mais paradoxal da existência

“O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me leva, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. ”

“Se nosso coração fosse grande o suficiente para amar a vida em todos os seus detalhes, veríamos que cada instante é ao mesmo tempo um doador e um saqueador”, escreveu o filósofo francês Gaston Bachelard ao contemplar nossa experiência paradoxal do tempo no início dos anos 1930. “É a inserção do homem com sua vida limitada que transforma o fluxo contínuo de pura mudança … no tempo como o conhecemos”, escreveu Hannah Arendt meio século depois em sua brilhante investigação sobre o tempo, o espaço e nosso ego pensante . Em outras palavras, o tempo – particularmente nossa experiência dele como uma continuidade de momentos sucessivos – é mais uma ilusão cognitiva do que uma característica inerente do universo, uma construção da consciência humana e talvez a própria marca registrada da consciência humana.

Cravado entre Bachelard e Arendt estava Jorge Luis Borges (24 de agosto de 1899 a 14 de junho de 1986), aquele lutador musculoso do paradoxo e grande poeta-laureado do tempo, que abordou essa perplexidade em seu ensaio de 1946 “Uma nova refutação do tempo” que continua a ser a meditação mais elegante, erudita e prazerosa sobre o assunto. Mais tarde, foi incluído em Labirintos (biblioteca pública) – a coleção de 1962 de histórias, ensaios, parábolas e outros escritos de Borges, que nos deram sua parábola incrível e atemporal do eu dividido.

Em outras palavras, o tempo – particularmente nossa experiência dele como uma continuidade de momentos sucessivos – é mais uma ilusão cognitiva do que uma característica inerente do universo, uma construção da consciência humana e talvez a própria marca registrada da consciência humana.

Borges começa observando o paradoxo deliberado de seu título, um contraste com sua tese central de que a continuidade do tempo é uma ilusão, que o tempo existe sem sucessão e cada momento contém toda a eternidade, o que nega a própria noção de “novo”. A “ligeira zombaria” do título, observa ele, é sua maneira de ilustrar que “nossa linguagem é tão saturada e animada pelo tempo”. Com seu calor modesto característico, Borges adverte que seu ensaio pode ser “a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o débil artifício de um argentino perdido no labirinto da metafísica” – e então ele passa a entregar uma obra-prima de retórica e razão, carregada nas asas de uma beleza poética incomum.

Escrevendo em meados da década de 1940 – um quarto de século depois de Einstein derrotar Bergson em seu debate histórico, no qual a ciência (“a clareza da metafísica”, por Borges) finalmente ganhou o território contestado do tempo da ditadura da metafísica, e apenas alguns anos após o próprio Bergson ter feito sua saída para a eternidade – Borges reflete sobre sua luta de toda a vida com o tempo, que ele considera a base de todos os seus livros:

No decorrer de uma vida dedicada às letras e (às vezes) à perplexidade metafísica, vislumbrei ou previ uma refutação do tempo, na qual eu mesmo não acredito, mas que me visita regularmente à noite e no crepúsculo fatigado com o força ilusória de um axioma.

O tempo, observa Borges, é a base de nossa experiência de identidade pessoal – algo que os filósofos assumiram mais notavelmente no século 17, os poetas aprenderam no 19, os cientistas estabeleceram no 20 e os psicólogos retomaram no 21.

Borges compara as ideias do filósofo empirista anglo-irlandês do século 18 George Berkeley, principal defensor da metafísica idealista, e seu colega escocês e contemporâneo, David Hume. Os dois divergiram sobre a existência de identidade pessoal – Berkeley endossou-o como o “princípio ativo pensante que percebe” no centro de cada self, enquanto Hume o negou, argumentando que cada pessoa é “um feixe ou coleção de diferentes percepções, que se sucedem um ao outro com uma rapidez inconcebível ”- mas ambos afirmaram a existência do tempo.

Percorrendo o labirinto da filosofia, Borges mapeia o que chama de “este mundo instável da mente” em relação ao tempo:

Um mundo de impressões evanescentes; um mundo sem matéria ou espírito, nem objetivo nem subjetivo, um mundo sem a arquitetura ideal do espaço; um mundo feito de tempo, do tempo absoluto e uniforme dos Principia [de Newton]; um labirinto incansável, um caos, um sonho.

Ilustração de Lisbeth Zwerger para uma edição especial de Alice no País das Maravilhas

Voltando à noção de Hume do eu ilusório – uma ideia avançada pela filosofia oriental milênios antes – Borges considera como isso desmantela a própria noção de tempo como o conhecemos:

Atrás de nossos rostos, não existe um eu secreto que governe nossos atos e receba nossas impressões; somos, unicamente, a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes.

Mas mesmo a noção de uma “série” de atos e impressões, sugere Borges, é enganosa porque o tempo é inseparável da matéria, do espírito e do espaço:

Uma vez que a matéria e o espírito – que são continuidades – são negados, uma vez que o espaço também é negado, não sei com que direito retemos essa continuidade que é o tempo. Fora de cada percepção (real ou conjectural) não existe matéria; fora de cada estado mental, o espírito não existe; nem o tempo existe fora do momento presente.

Ele ilustra esse paradoxo do momento presente – um paradoxo encontrado em cada momento presente – nos guiando ao longo de um momento particular conhecido da literatura:

Durante uma de suas noites no Mississippi, Huckleberry Finn acorda; a jangada, perdida na escuridão parcial, continua rio abaixo; talvez esteja um pouco frio. Huckleberry Finn reconhece o som suave e infatigável da água; ele abre os olhos negligentemente; ele vê um número vago de estrelas, uma linha indistinta de árvores; então, ele afunda de volta em seu sono imemorável como nas águas escuras.

A metafísica idealista declara que adicionar uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) a essas percepções é arriscado e inútil; Afirmo que não é menos ilógico pensar que tais percepções são termos de uma série cujo início é tão inconcebível quanto o seu fim.

Adicionar ao rio e à margem, Huck percebe a noção de outro rio substantivo e outra margem, adicionar outra percepção a essa rede imediata de percepções, é, para o idealismo, injustificável; para mim, não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato, por exemplo, de o fato anterior ter ocorrido na noite de sete de junho de 1849, entre as quatro e dez e onze.

Em outras palavras: denny, com os argumentos do idealismo, a vasta série temporal que o idealismo admite. Hume negou a existência de um espaço absoluto, no qual todas as coisas têm seu lugar; Nego a existência de um único tempo, no qual todas as coisas estejam ligadas como em uma cadeia. A negação da coexistência não é menos árdua do que a negação da sucessão.Uma das raras ilustrações de Norman Rockwell para The Adventures of Huckleberry Finn

Essa simultaneidade de todos os eventos tem imensas implicações como uma espécie de manifesto humanitário para a comunhão da experiência humana, que Borges capta lindamente:

As catástrofes vociferantes de ordem geral – incêndios, guerras, epidemias – são uma única dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos.

Borges termina voltando ao início, à matéria-prima de seu argumento e, indiscutivelmente, de toda a sua obra, de si mesmo: paradoxo. Ele escreve:

E ainda, e ainda … Negar a sucessão temporal, negar a si mesmo, negar o universo astronômico, são aparentes desesperos e consolos secretos. Nosso destino … não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e revestido de ferro. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me leva, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; Eu, infelizmente, sou Borges.

O ensaio, como tudo em Labirintos, é uma leitura excepcional em sua totalidade contínua; extrair, fragmentar e anotá-lo aqui não dignifica a integridade ágil da retórica de Borges e a alegria absoluta de sua prosa envolvente. Complemente-a com Bertrand Russell sobre a natureza do tempo, Virginia Woolf sobre sua surpreendente elasticidade e Sarah Manguso sobre sua continuidade confusa e reconfortante.

Como a taxação de livros pode afetar os mais pobres

Projeto de reforma tributária do governo Bolsonaro prevê o fim da isenção para livros e taxação de 12%. Além de agravar crise do mercado editorial, mudança pode aprofundar desigualdades no país.

Proposta de taxar livros tem gerado forte repercussão no mercado editorial, que encolheu mais de 20% em uma década

Quando recebeu seu primeiro salário, aos 15 anos, Amaury de Sousa se dirigiu a uma loja da livraria Saraiva e comprou O Abusado, obra do jornalista Caco Barcellos. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, lembra. Ele finalmente poderia ler à vontade, sem o prazo que sua mãe estipulava para devolver os livros que tomava emprestado em uma das casas onde trabalhava como cuidadora de idosos. Tão recheadas eram as estantes, que um vão entre os títulos passava despercebido.

“Eu achava interessante aquelas prateleiras gigantescas e sempre gostei de livros, mas naquele tempo a gente não tinha condição de comprar. Ela me dava uma semana para ler, antes de devolver sem que ninguém notasse”, conta o jovem de 24 anos que foi criado e reside até hoje com a mãe na favela Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Cumprir o prazo era difícil, já que a mãe trazia para o menino de 12 anos clássicos como Microfísica do Poder, de Michel Foucault. “Eram livros muito técnicos. Às vezes eu não entendia nada, ficava voltando na mesma página várias vezes. Mas tinha uma curiosidade incontrolável para entender o mundo, os outros e eu mesmo”, recorda. Rapidamente, a leitura tornou-se a janela para o mundo que não existe no quarto onde dorme, sem luz natural.

Os livros representam para Amaury uma plataforma de transformação social. A bagagem cultural o colocou em vantagem no processo seletivo para atendente na Livraria da Travessa, onde trabalhou por dois anos e intensificou o mergulho literário. Hoje, ele cursa Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha em projetos audiovisuais.

Os saberes absorvidos e interpretados pelas lentes de sua realidade fizeram com que, desde cedo, despertasse a atenção de produtores internacionais. Ele acaba de roteirizar e filmar um documentário sobre a pandemia nas favelas do Rio para a emissora de televisão japonesa NHK.

Hoje, devido à situação financeira mais confortável, falta espaço na casa apertada para empilhar novos títulos. Toda vez que se depara com um curso que gostaria de fazer e não pode pagar, ele busca um livro que integre as referências bibliográficas. É assim que está aprendendo francês sozinho no momento.

“Valor dos livros cria distanciamento entre o jovem periférico e a literatura”, diz Amaury de Sousa, morador de Santa Marta

O fechamento de lojas físicas durante a pandemia, devido às medidas de restrições sanitárias, afetou ainda mais o setor. Em abril, o mercado livreiro registrou uma perda de 47% no faturamento em comparação ao mesmo mês em 2019, segundo o levantamento Painel Varejo de Livros no Brasil, feito pela Nielsen Bookscan.

“É preciso considerar que esse imposto tem um efeito cascata sobre a cadeia econômica do livro. Estimamos que a mudança possa aumentar o preço final em até 20%”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias e proprietário da editora Letraviva.

Gurbanov destaca que o encarecimento dos livros não terá impactos meramente econômicos. “Não é somente o ato de compra, mas o que o livro significa como veículo de transmissão de informações, conhecimento e produção cultural. Não só do Brasil, mas de todos os países. Os efeitos colaterais serão muito graves, e o Brasil vai pagar muito caro se esse projeto for aprovado”, avalia.

O argumento de Guedes

Para defender a mudança, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem defendido a ideia de que livros são consumidos por camadas de maior renda da população. Nesse sentido, a isenção não se justificaria. Para compensar o impacto sobre os mais pobres, Guedes defende a realização de doações pelo governo — sem explicar como isso seria feito — e a ampliação do Bolsa Família para essa finalidade.

“Vamos dar o livro de graça para o mais frágil, para o mais pobre. Eu também, quando compro meu livro, preciso pagar meu imposto. Então, uma coisa é você focalizar a ajuda. A outra coisa é você, a título de ajudar os mais pobres, na verdade, isentar gente que pode pagar”, disse o ministro durante audiência na Comissão Mista da Reforma Tributária.

Ao defender a ampliação dos programas de transferência de renda, Guedes argumentou que as camadas de menor renda estão mais preocupadas em comprar comida do que livros. “Num primeiro momento, quando fizeram o auxílio emergencial, estavam mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós frequentamos”, declarou Guedes.

Em artigo publicado recentemente na Folha de São Paulo, Luiz Schwarz, editor da Companhia das Letras, contestou a tese do ministro. Ele destacou que na última edição da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, realizada no ano passado, parte expressiva dos 600 mil participantes era de jovens da classe C.

“Na Flup [Festa Literária das Periferias], os dados são ainda mais eloquentes: do público total do evento, 97% se declaram leitores frequentes de livros, 51% têm entre 10 e 29 anos, 72% são não brancos, e 68% pertencem às classes C,D e E”, ressaltou.

Visão de curto prazo

A economista Juliana Damasceno, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), afirma que a reforma tributária deve priorizar uma redistribuição de tributos que vise a correção de distorções que penalizam a economia brasileira atualmente.

“A carga é o ponto final da reforma. A justiça social e estratégia econômica do sistema deveria ser o ponto de partida. Dentro dessa questão estratégica, fomentar educação deveria ser prioridade”, avalia.

Damasceno lembra que os retornos da educação para a economia no longo prazo são amplamente documentados. E defende que é preciso reconhecer a importância do setor de livros, ainda que represente uma parcela mais restrita da educação após os avanços da digitalização.

“Incentivar esse setor vai na direção contrária de aumentar sua carga, o que pode resultar em aumento do preço pro consumidor final. Governos tendem a ter visões mais ‘curto-prazistas’ quando a situação fiscal se aperta. Antes de um plano de recuperação desse forte desequilíbrio fiscal, é difícil pensar no longo prazo, e isso acaba penalizando áreas estratégicas como a educação”, analisa a especialista.

“Não abrir o Twitter” e outros truques de Margaret Atwood para não procrastinar no trabalho em casa

A autora de ‘O conto da aia’ se define como uma especialista em adiar tarefas. Entretanto, tantos anos de teletrabalho lhe serviram para se impor algumas estratégias para conseguir cumprir os prazos.

A famosa escritora canadense Margaret Atwood sempre se apresentou em público como uma procrastinadora nata. Como ela mesma contou em várias ocasiões, costumava passar o dia vendo vídeos, lendo as notícias ou se preocupando com o que tinha que fazer. Entretanto, só conseguia começar a trabalhar, já de noite, quando não havia outro remédio senão correr para cumprir os prazos assumidos com os editores.

O que acontece com a autora de O conto da aia é algo muito habitual e pode virar um problema para quem não está muito habituado a se organizar, agora que o hábito do home office se generalizou em tempos de pandemia do coronavírus. Segundo os especialistas, ao contrário do que se acredita, não adiamos as tarefas para vagabundear, e sim para evitar situações que nos produzem um mal-estar emocional. É por isso que tendemos a adiar as tarefas que nos geram confusão, ansiedade ou tédio.

Como evitar isso? Margaret Atwood compartilhou alguns de seus truques em uma conversa com o psicólogo Adam M. Grant. Como se pode ouvir no podcast Ted WorkLife, o fundamental é tratar de mitigar essas emoções negativas que nos levam a adiar nossas obrigações. Atwood, que garante nunca ter perdido um prazo de entrega, se guia pelas seguintes pautas:

Seja amável com você

Em vez de nos castigarmos e repetirmos o tempo todo que somos um fracasso, é preciso pensar que esta realidade faz parte da condição humana e é mais comum do que imaginamos. Segundo Grant, em torno de 15% a 20% das pessoas adultas são procrastinadoras crônicas, e as demais também adiarão em suas obrigações de vez em quando. Para romper a tendência e mudar o hábito, temos que tratar de ser indulgentes com nosso eu procrastinador do passado em vez de nos tornarmos muito rigorosos desde o começo. A culpa, neste caso, não ajuda. Em vez de ser um sentimento motivador, a única coisa que os procrastinadores conseguem é acentuar mais a postergação.

Não julgar nosso trabalho antes de começá-lo

Algo que tampouco ajuda é fixar expectativas muito altas sobre a tarefa a atacar, porque podemos entrar no loop do perfeccionismo neurótico e não avançar. Para isso, devemos tentar analisar ou criticar nosso trabalho só depois de pronto. Atwood, por exemplo, explica que ela mesma procrastinou durante três anos antes de começar O conto da aia porque acreditava que o argumento era muito louco, e tratou de escrever um romance mais normal no seu lugar. Seu conselho: “Avance, diga algo. É possível que não seja o certo, mas depois pode você pode jogar fora e ninguém vai ficar sabendo daquela estupidez que você escreveu”. É desta forma, conta Grant no podcast, que os perfeccionistas produtivos trabalham: em vez de se preocuparem com o que os outros vão achar do seu trabalho, estabelecem objetivos elevados em função de seus próprios padrões de qualidade.

Deixar que o ‘eu do dever’ mande sobre o ‘eu do querer’

Uma ferramenta que Atwood achou útil foi promover uma espécie de desdobramento de personalidade. Para isso se valeu, por um lado, de seu nome real e, por outro, do diminutivo com o qual cresceu. “Margaret se encarrega de escrever, e a outra (Peggy) faz todo o resto”, diz a escritora. Quando uma tende a se dispersar, a outra lhe recorda o que precisa fazer.

De fato, conforme apontam os psicólogos como Grant, todos nós temos um eu dominado pelas emoções (eu do querer) e outro eu que se encarrega de fazer o certo (eu do dever), assim, quando temos que cumprir tarefas que nos dão preguiça, convém que o segundo prepondere sobre o primeiro. Para treinar o eu do dever, basta planejar e organizar nosso tempo com antecipação. Também ajuda tomar medidas para evitar distrações, ou acionar despertadores para recordar ao nosso cérebro que é hora de funcionar. Como aponta Grant, estabelecer sessões de 15 minutos diários para realizar uma tarefa deveria ser suficiente para começar a vencer a procrastinação.

Fazer uma lista de coisas a evitar enquanto se trabalha.

As redes sociais, fora
O habitual é criar listas de coisas pendentes, mas os especialistas recomendam também fazer o mesmo com aquilo com que não devemos nos distrair quando queremos levar um trabalho adiante: não fazer scroll infinito numa rede social depois de publicar, não ligar a televisão se não for para ver algo concreto etc. No caso de Atwood, essa lista de proibições inclui não olhar o Twitter nem tuitar enquanto está escrevendo. O truque que usa para conseguir é se despedir publicamente por um momento.

“As pessoas precisam estar prontas para Machado”, diz tradutora


Após adaptar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês, tradutora define autor brasileiro como incomparável. Para ela, Machado “brincou de maneira genial e absolutamente perversa com a sociedade em que vivia”.

O selo Penguin Classics lançou nos Estados Unidos, no dia 2 de junho, a nova tradução para o inglês do clássico de Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Intitulado The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, o livro, na versão em papel, se esgotou no mesmo dia. A editora não divulga a tiragem. De toda forma, parece um feito surpreendente para um mercado no qual apenas 3% das publicações são traduzidas de outros idiomas.

Foi uma surpresa também para a tradutora americana Flora Thomson-DeVeaux, que dedicou nada menos que cinco anos de trabalho à empreitada. Em entrevista ela afirma que ainda não sabe dizer se este é mais um “momento Machado”, que toda geração vive quando redescobre a obra do autor no mundo anglófono, como já disse a crítica americana Susan Sontag, admiradora confessa do “bruxo do Cosme Velho”.

Publicado pela primeira vez em livro em 1881, Memórias Póstumas é narrado em primeira pessoa por um morto, que reconta sua história de vida, e perpassa temas ainda caros à sociedade brasileira, como raça e classe social. Machado, aliás, negro e neto de escravos alforriados, passou por um processo de branqueamento ao longo da história. Essa parte de sua identidade, segundo Thomson-DeVeaux, aparece de forma velada na obra que ela traduziu.

“Quando eu leio o capítulo em que Brás mata sem pensar uma borboleta preta, porque ele fica chateado com a borboleta preta, e depois pergunta ‘Por que ela não nasceu azul?’, não consigo não ler em uma chave que tem a ver com uma experiência vivida num país onde o valor de uma vida preta estava claramente colocado e era muito baixo”, diz Thomson-DeVeaux,

Do Rio de Janeiro, onde vive desde 2017, a tradutora e escritora falou sobre seu processo de trabalho no livro e como a obra machadiana permanece atual e incomparável e que não se pode “tentar botá-lo numa caixinha certa, com a fitinha certa, para as pessoas finalmente o abraçarem”. “Não, elas é que têm que estar prontas para ele”, diz.
Flora Thomson-DeVeaux, tradutora
Flora Thomson-DeVeaux dedicou cinco anos de trabalho à tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Como começou a sua relação com o Brasil e com a língua portuguesa?

Flora Thomson-DeVeaux: Começou no primeiro ano na Universidade de Princeton, eu não tenho relação familiar no Brasil, sou norte-americana. Eu entrei na faculdade falando espanhol, que aprendi no ensino médio. Em um evento de apresentação do departamento aos alunos, eles nos aconselharam a estudar português, além do espanhol. Então foi assim, começou como curiosidade puramente linguística. Eu apanhei muito no primeiro semestre estudando a língua, era muito mais difícil do que eu imaginava. Mas no segundo semestre eu comecei a criar uma relação com o Brasil além da língua.

Sobre a tradução de Memórias Póstumas, quanto tempo levou o processo de tradução e como você definiu seu método?

Antes de sentar e falar “estou traduzindo”, teve quase dois anos de pesquisa para o doutorado. Vim morar no Rio de Janeiro no começo de 2017, e foi nessa fase que comecei o processo de tradução, quando eu alternava com a pesquisa sobre as traduções anteriores. Cheguei a entrar em contato com o genro do primeiro tradutor [de Memórias Póstumas para o inglês], William Grossman, fui até a Califórnia para resgatar materiais do processo dele de tradução. Também consultei o acervo do tradutor machadiano Gregory Rabassa, na Universidade de Boston. Então eu fui meio que conjugando essa pesquisa continuada com a tradução. Defendi a tese no final de 2018, e nessa época o processo com a editora já estava em curso. No total foram cinco anos de trabalho, o que é um luxo, porque todo tradutor literário sonha com tanto tempo de pesquisa.

Muitos tradutores comentam que é um desafio transpor uma cultura de uma língua para outra. Na teoria da tradução há textos de Goethe citando que é preciso manter ao máximo “o ritmo e até o ar entre as palavras”. Existe um segredo para traduzir a “pena da galhofa” de Machado para o inglês?

A parte cultural é a parte grande e histórica. É peculiar achar que, se um leitor brasileiro precisa de anotações sobre a questão temporal e histórica, um leitor de língua inglesa não vá precisar. Há uma ideia de que as notas são a derrota do tradutor, porque você não conseguiu encaixar algo. Mas não tem como você enfiar todo o contexto, vai virar outra coisa. O Machado estava escrevendo em um determinado momento histórico, em um lugar, para um determinado público. Acho que a gente só tem a ganhar com essa contextualização.

A minha concessão para manter a integridade do texto era colocar notas no fim do livro, e não de rodapé. Tendo sido aprendiz de tipógrafo, o Machado era muito consciente do livro como objeto físico, ele falava das margens, das edições e da encadernação. Memórias Póstumas não é um livro que se pensa com nota de rodapé, isso foi muito importante para mim.

Sobre manter o ar entre as palavras, que o Goethe escreveu, acho que entra aí uma questão temporal também. O Machado tem umas frases bem longas nas quais o ponto e vírgula é essa respiração. Você não tem a ênfase abrupta de um ponto final, é como se as frases flutuassem. Aí o segredo é manter. O bacana de olhar outras traduções é porque só ao estranhar a ausência de alguma coisa é que entendemos a importância dela. É muito difícil você captar tudo isso só a partir do texto na língua original ou apenas lendo uma tradução.

Qual o limite entre manter a estrutura e ser fiel ao autor ou ser mais claro na nova língua, para facilitar a compreensão do leitor estrangeiro?

Eu nunca tive a pretensão de fazer o Machado soar como autor do século 21. Enquanto eu traduzia, li autores de língua inglesa do século 19. Uma das coisas geniais de Memórias Póstumas é que há uma modernidade surpreendente, mas dentro da linguagem do século 19. Se você tira esse estilo, essa sintaxe, ele deixa de parecer tão surpreendente, tão moderno. O comprimento das frases na literatura foi caindo com o tempo, então manter essas frases longas é uma marca d’água de origem.

O escritor chileno Jorge Edwards relatou certa vez que o poeta Allen Ginsberg tinha Machado de Assis como um “Kafka dos beatniks”. Com qual autor da literatura mundial o brasileiro poderia ser comparado, na sua opinião?

Eu acho engraçado que as pessoas acabam mobilizando referências muito diferentes para comparar o Machado, e é porque nenhuma se encaixa. Não há comparações, o Machado da literatura universal é o Machado. Na primeira tradução, nos anos 1950, falou-se muito em Laurence Sterne, que era uma referência para o Machado. O romance A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy, que é do século anterior ao Memórias Póstumas, é uma obra-prima, é muito inventivo, mas se você conhece o contexto histórico e cultural, você percebe que o Machado pega emprestado algumas coisas dessa inventividade formal do Sterne e de outras referência anteriores para brincar de uma maneira genial e absolutamente perversa com a sociedade em que ele vivia.

Em um texto publicado em 2018 na revista Piauí, você conta a descoberta, por meio de Memórias Póstumas, do “calabouço”, um local onde o Estado castigava os escravos mediante pagamento dos proprietários. O que mais descobriu sobre o Brasil lendo Machado?

Essa foi a descoberta que mais me perturbou, tanto que acabei me sentindo até impelida a escrever aquele ensaio. As minhas notas no final do livro são as minhas descobertas, e acho que são mais de 150. O que achei particularmente importante, além da busca linguística dos dicionários do século 19, foi recorrer a eles e não encontrar a palavra que eu estava procurando, porque não existia em dicionário, mas havia ali um anacronismo muito sutil. Eu pensei muito sobre como traduzir referências aos negros no romance. Acabei seguindo esse mesmo caminho e usando negros com “n” minúscula porque a exigência por “n” maiúscula foi posterior, do começo do século 20. Algo parecido acontece hoje, com Black escrito com “b” maiúscula, pois ajuda a desnaturalizar essa designação, ajuda a não normalizar como categoria. Mas o Machado, enquanto autor não branco, está escrevendo dentro de um contexto, criando personagens de pessoas negras que concebem no mesmo nível que a prataria da casa. Seguindo esse caminho é que a gente sente o impacto do que ele estava fazendo.

Para quem fez o ensino secundário no Brasil, era comum ter a imagem de um Machado de Assis branco, por causa dos retratos que apareciam nos livros. Houve nitidamente um “branqueamento” do escritor. Para você, essa relação do Machado com a sua cor influenciou a obra dele?

Eu realmente não consigo entrar na questão da experiência vivida de raça do Machado, porque acho que é algo irrecuperável. O que dá pra ver são algumas coisas. Tem um estudo do [historiador] Sidney Chalhoub, “Machado de Assis, historiador”, que mostra como o Machado no Ministério da Agricultura estava responsável pelo cumprimento da Lei do Ventre Livre e como ele lutou sistematicamente para que escravos que estivessem contestando isso tivessem uma decisão favorável à liberdade. Há um registro historiográfico forte sobre esse tema. Tem uma coletânea bastante contundente do Eduardo de Assis Duarte, que se chama “Machado de Assis: Afrodescendente”, que é de textos do Machado que abordam essa questão. Mas, quando eu leio o capítulo em que o Brás mata sem pensar uma borboleta preta, porque ele fica chateado com a borboleta preta, e depois pergunta “Por que ela não nasceu azul?”, obviamente é uma cena que pode ser lida em várias chaves, mas eu não consigo não ler em uma chave que tem a ver com uma experiência vivida num país onde o valor de uma vida preta estava claramente colocado e era muito baixo.

A edição em brochura de Memórias Póstumas que você traduziu se esgotou bem rápido. Você esperava essa vendagem?

Eu estou muito feliz que pessoas além da minha banca estão lendo uma parte da minha tese. Claro que esperança a gente sempre tem, mas eu sou botafoguense, e as minhas esperanças são moderadas. Foi uma bela surpresa.

Na introdução da edição que você traduziu consta que Machado ainda precisa encontrar seu lugar no mundo anglófono, embora toda geração tenha seu “momento Machado”. Susan Sontag escreveu um artigo em 1990 falando que, ainda mais notável que a ausência de Machado na literatura mundial, é o fato de ele ser muito pouco conhecido e lido na América Latina fora do Brasil. Por quê?

Eu acho que o atraso nunca ajuda, e aí tem o fato de que a editora do Machado em vida não facilitou que a obra dele fosse traduzida. Teve até um caso que dá uma dor no coração, de uma mulher que queria traduzir um livro dele para o alemão, ela escreveu para o Machado, o Machado escreve para a editora, e a editora falou: “Se ela quer traduzir, ela que nos pague.” E aí houve uma falta de visão da Garnier, para dizer o mínimo. Teve poucas traduções em vida do Machado, então, quando ele chega [a outro país, em outro idioma], chega deslocado no tempo. Isso certamente não ajuda, pois ele chega mais como curiosidade do que como contemporâneo. E aí a gente só pode especular como poderia ter sido.

Agora a gente sempre olha para a obra e pergunta: “O que o Machado tem que não encaixa na literatura universal? Será que é brasileiro demais? Brasileiro de menos?” Mas tem uma parte importante que é o público receptor, que tem que estar pronto para receber aquela obra, e isso tem tudo a ver com o contexto daquela sociedade. O mercado norte-americano é notoriamente fechado para qualquer coisa que não seja escrita na língua inglesa, tem essa cifra terrível, que apenas 3% do total de publicações do mercado norte-americano são de obras traduzidas. Então, a gente só pode esperar que este seja um momento em que as pessoas estejam mais prontas para o Machado de Assis, em vez de tentar botá-lo numa caixinha certa, com a fitinha certa, para as pessoas finalmente o abraçarem. Não, elas é que têm que estar prontas para ele.