Privatização da Eletrobras pode aumentar em 25% as emissões de todo o setor elétrico, mostra estudo do IEMA

A Medida Provisória (MP) 1.031/2021, sobre a privatização da Eletrobras que tramita no Senado Federal, além da venda da estatal, inclui a contratação de termelétricas que operarão em tempo integral. Caso aprovada, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) anuais representarão um acréscimo de 13,1 MtCO2e, um aumento de 24,6% em relação às emissões do setor elétrico, e um aumento de 45% em relação às emissões do parque de termelétricas a gás natural verificadas em 2019. Os dados foram publicados no estudo “Questionamentos à inserção de termelétricas a gás natural na Medida Provisória 1.031/2021”, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). O estudo pode ser acessado aqui.

Entre 2026 e 2028, a MP prevê a inserção de 6 GW em termelétricas a gás no Sistema Interligado Nacional (SIN), sistema de produção e transmissão de energia elétrica entre as regiões do Brasil, em regime de operação inflexível, ou seja, funcionando durante o ano todo. Atualmente, as termelétricas são acionadas quando as hidrelétricas estão com baixo volume de água no reservatório ou para assegurar a geração firme de energia. Como esse tipo de geração de eletricidade custa mais caro, o valor da conta de luz aumenta e a bandeira vermelha tarifária é acionada.

Segundo o texto atual da MP, as termelétricas deverão operar com capacidade mínima de 70% por pelo menos quinze anos. A instalação das térmicas será dividida nas regiões Norte, Centro-oeste e Nordeste. “Ao propor uma reserva de mercado para usinas termelétricas, a Medida Provisória, se aprovada, poderá levar a um impacto indesejável na competitividade dos leilões de energia elétrica, elevando os custos do sistema elétrico. Além disso, aponta no sentido contrário ao da descarbonização da matriz elétrica”, explica André Luís Ferreira, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

O texto proposto da MP privilegia a matriz térmica em detrimento das fontes mais limpas justamente em locais adequados para suas instalações, como o Nordeste, que apresenta altos índices de irradiação solar e regime de ventos ideal para a geração eólica. O uso de termelétricas faz sentido em complementação à geração renovável. A proposta da MP coloca as térmicas à frente da geração renovável, provocando um potencial desperdício dessas fontes.

Mais termelétrica a gás, mais emissões

O cálculo apresentado no estudo realizado pelo IEMA estima as emissões anuais resultantes da inserção de 6 GW em usinas termelétricas a gás natural previstas pela MP escalonadas em 1 GW em 2026, 2 GW em 2027 e 3 GW em 2028. Os fatores de capacidade considerados são de 70%, de acordo com o mínimo previsto na proposta, e de 80%, segundo simulação realizada no Plano Decenal de Expansão 2030 (PDE 2030). O rendimento médio utilizado das usinas foi de 57%, considerando um valor médio das usinas de ciclo combinado em operação atualmente no Sistema Interligado Nacional (SIN).

De acordo com dados de dezembro de 2020 do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o Brasil emitiu 2,2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) em 2019. A geração de eletricidade foi responsável por 53,4 milhões de toneladas por conta do acionamento de usinas termelétricas.

“O risco de racionamento é consequência de um novo período hidrológico desfavorável, que impacta o nível dos reservatórios, aliado ao atraso no planejamento da expansão do sistema de transmissão de eletricidade”, diz Ricardo Baitelo, coordenador de projetos do IEMA. A receita para compensar esses períodos, que tendem a ser mais frequentes devido às mudanças climáticas, passa necessariamente pela diversificação da matriz elétrica, com o aumento da participação de energias renováveis flexíveis.

A MP tem prazo para discussão e aprovação no senado até o dia 22 de junho. Caso não haja consenso, a discussão volta para a Câmara dos Deputados.

Demanda por energia limpa ameaça uma das regiões mais ricas e férteis na Amazônia


O boom de investidores chineses em 2019 e 2020 desencadeou o caos na extração de Pau-de-balsa no Equador

Poucos meses se passaram desde que de repente, como se nada tivesse acontecido, a chamada febre do Pau-de-balsa arrefeceu no Equador. Mas as consequências de dois anos de extração frenética dessa madeira são visíveis e preocupantes.

A demanda disparou porque investidores chineses, incentivados por um subsídio estatal, chegaram com muito dinheiro em busca de toneladas dessa madeira, usada na fabricação de pás para geradores eólicos.

Investigação revela terras protegidas da Amazônia à venda no Facebook
Desmatamento na Amazônia cresce 9,5% e chega a valor mais alto desde 2008
A urgência em conseguir a matéria-prima e a falta de controle do governo equatoriano diante das restrições devido à pandemia contribuíram para desencadear o caos, dentre outros territórios, na província de Pastaza, uma das áreas de maior riqueza natural da Amazônia e onde se concentram dezenas de milhares de hectares desta espécie.

O boom do Pau-de-balsa encheu o bolso de muitos, mas também deixou problemas para trás.
A extração frenética dos últimos meses ameaçou o habitat de animais protegidos, aumentou a extração ilegal, precarizou o trabalho e dividiu as comunidades indígenas, afirmam diferentes fontes consultadas pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

“Foi um desastre”, descreve Pablo Balarezo, coordenador de economia florestal da Fundação Pachamama, no Equador.

As comunidades indígenas da região, proprietárias ancestrais de muitos dos hectares onde se extrai o Pau-de-balsa, ativistas e empresários pedem ao Estado que intervenha, regularize mais o setor e o proteja dos anos que alguns temem ser irreversíveis.

O Ministério do Meio Ambiente e Águas do Equador realizou operações para interceptar o deslocamento e a exploração ilegal de Pau-de-balsa, mas várias associações acreditam que o esforço não tem sido suficiente. A BBC News Mundo entrou em contato com o ministério, mas não havia recebido resposta até o momento da publicação desta reportagem.
A falta de controle do Estado durante a pandemia e o aumento da demanda causaram a febre do Pau-de-balsa ao longo do Rio Pastaza, na Amazônia equatoriana

O que é o Pau-de-balsa e para que é usado
O Pau-de-Balsa é uma árvore que cresce nas florestas tropicais, em uma altitude entre 300 e 1.000 metros.

“Na América do Sul, você o encontra na Cordilheira dos Andes, na Amazônia, no Peru, na Colômbia, na Venezuela e no Panamá. Ao norte, você encontra o Pau-de-Balsa na Costa Rica e também no sul do México”, diz Ricardo Ortiz, que se dedica à exportação de Pau-de-Balsa há mais de 25 anos.

Do Pau-de-Balsa se obtém uma madeira leve, e cada árvore oferece um rendimento considerável, uma vez que pode chegar a ter entre 25 e 30 metros de altura. Em geral, ela morre aos 6 ou 7 anos, mas “para tirar o máximo proveito, é derrubada aos 3 ou 4 anos, quando sua madeira atinge a melhor qualidade”, explica Balarezo à BBC News Mundo.

A madeira do Pau-de-Balsa é usada principalmente para fabricar pás de geradores de energia eólica.
O Pau-de-balsa fornece uma matéria-prima leve e forte para a construção de pás de geradores de energia eólica

Ortiz conta que à medida que os países mais ricos buscam fontes renováveis ​​de energia, a demanda por Pau-de-Balsa aumentou no Equador.

“Na última década, ela vem crescendo, mas nada se compara ao que aconteceu nos últimos dois anos, desde que a China entrou com força no mercado. O ano de 2020 foi um frenesi. Ficou fora de controle”, afirma ele à BBC News Mundo.

Febre do Pau-de-balsa
Como diz Ortiz, nos últimos anos a China liberou bilhões em subsídios para incentivar a instalação de painéis solares e geradores de energia eólica em todo o país.

Há muitos geradores eólicos a serem fabricados — e, para isso, é necessário muito Pau-de-Balsa.

O Equador é o maior vendedor de Pau-de-Balsa do mundo. Ortiz estima que o país exporte 75% do total dessa madeira para todo o planeta. China, Estados Unidos e Europa são os principais compradores.

“Em 2019 e 2020, eu vi algo sem precedentes nos 25 anos que estou neste negócio. Os chineses vieram com muito dinheiro para comprar todo o Pau-de-Balsa que pudessem. O preço da matéria-prima triplicou. Muita gente pobre que vive nas áreas de maior concentração da espécie ganhou muito dinheiro”, relata Ortiz.
O preço do Pau-de-balsa triplicou durante a febre de extração de 2019 e 2020

O “frenesi” aumentou ainda mais no segundo trimestre de 2020, quando os lockdowns impostos pela pandemia de covid-19 foram relaxados, a China anunciou a redução dos subsídios e os investidores correram mais do que nunca para se apossar da madeira.

O empresário explica que compradores dos Estados Unidos e da Europa adquirem madeira certificada e cumprem com mais rigor os contratos. Os chineses, diz ele, trabalham mais em ondas e operam de forma um pouco “mais desorganizada”, o que também contribuiu para a enxurrada de demanda.

A necessidade de Pau-de-Balsa e seus lucros inegáveis ​​atraíram muito mais participantes para o negócio do que as empresas tradicionais que já atuavam nele.

As comunidades indígenas também tiram uma renda, e “as máfias fora do Equador atuam como intermediárias e lavam dinheiro para explorar o Pau-de-Balsa”, denuncia Balarezo, da Fundação Pachamama.

Por um pedaço de cerca de um metro e meio dessa madeira, se chegou a pagar entre 10 e 12 dólares.

“Juntou tudo. A demanda, os lucros e a falta de controle do governo devido às restrições da pandemia. Ficou uma bagunça”, acrescenta Balarezo.

Um problema ambiental… e social
A extração do Pau-de-Balsa por si só não é um problema grave de desmatamento. Trata-se de uma espécie primária e cresce tão rápido que, onde há uma árvore derrubada, volta a crescer outra que em cerca de quatro anos chega a 20 metros.

A “preocupação”, concordam empresários, representantes indígenas e ambientalistas, é quando sai do controle sem fiscalização estatal suficiente.

“Com o boom, o Pau-de-Balsa foi explorado sem a técnica necessária. Se desperdiçou madeira, e por acidente e desconhecimento, foram derrubadas outras árvores que, sim, são críticas”, explica Balarezo.

Muitas das áreas de Pau-de-Balsa são habitats de animais protegidos, como onças, tartarugas, várias espécies de pássaros e outros mamíferos.

“O desmatamento sem controle ameaça habitats muito delicados. O ecossistema de Pastaza é um dos mais ricos e conservados do Equador. Estamos brincando com fogo”, alerta Balarezo.
Balarezo afirma que a extração indiscriminada de Pau-de-balsa compromete um dos mais ricos e diversos ecossistemas do Equador

O especialista adverte ainda que as máfias camuflam madeiras nobres de outras árvores em caminhões carregados de Pau-de-Balsa.

“Foi algo que documentei e queria denunciar em fevereiro de 2020, mas eles me viram e me ameaçaram com uma arma no peito. Tive que apagar as fotos. Essa gente é muito perigosa.”

‘Divisão e decomposição dentro das comunidades indígenas’
A febre do Pau-de-Balsa tem gerado conflitos e divisões entre as comunidades indígenas que povoam a bacia do Rio Pastaza.

O negócio rendeu dinheiro, “e muitas comunidades indígenas muito pobres, donas do território, estão aproveitando isso”, diz Ortiz.

Mas o dinheiro “corrompe”, e alguns o estão usando “mal”, gerando problemas de dependência química, alcoolismo e “decomposição” social.
À medida que o mundo migra para fontes de energia mais limpas, as áreas que fornecem matéria-prima sofrem com problemas ambientais e sociais

“Muitos jovens indígenas, com o dinheiro do Pau-de-Balsa, vão às cidades gastar em festa. Não é que o capital do extrativismo esteja sendo utilizado com um bom fundo social”, afirma Andrés Tapia, da equipe de comunicação da Confederação das Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae).

No entanto, não é isso que mais preocupa ele.

“Nossa principal ameaça é a divisão social. Gerou muita polarização entre aqueles que queriam trabalhar por necessidade e os que se opunham ao extrativismo. Muitos se manifestaram contra e proibiram a extração, mas outros, por conta própria, ignoraram esses pronunciamentos”, conta Tapia.

Fonte de renda, mas também de precarização
Balarezo e Tapia reconhecem que o boom de Pau-de-Balsa foi uma importante fonte de renda para muitas famílias, mas também admitem que levou à precarização do trabalho.

“Em muitas ocasiões, as negociações são feitas diretamente com as comunidades indígenas, e estas, por não terem alternativas, aceitam condições injustas”, relata Balarezo.

“É verdade que pagam a eles pela madeira, mas se você levar em conta todo o esforço de mão de obra, o que eles recebem não é justo. Os intermediários que levam o Pau-de-Balsa para cidades como Guayaquil e Quevedo ficam com a maior parte”, acrescenta.
Setores da comunidade indígena extraem a madeira do Pau-de-balsa, que é transportada por intermediários até as grandes cidades para ser exportada

“Meus trabalhadores são formalizados, mas a extração em massa no oriente pelos indígenas não está regularizada de forma alguma”, denuncia Ortiz.

A falta de controle e a penetração de intermediários de cidades grandes em um ano de pandemia também fizeram com que o novo coronavírus se propagasse fatalmente entre as cidades amazônicas, acrescenta Tapia.

Oportunidade econômica, mas se o Estado intervir
Em meio ao que muitos consideram uma crise ambiental e social, as fontes consultadas pela BBC News Mundo concordam que, sendo controlada e administrada pelas autoridades, a exploração de Pau-de-Balsa pode ser uma importante oportunidade econômica.

É verdade que o boom de 2020 já passou, mas por isso mesmo acredita-se que seja o momento ideal para planejar essa atividade.

As principais potências estão buscando obter fontes de energia renováveis ​​e reduzir progressivamente a sua pegada de carbono.
Com investimento e controle, as fontes consultadas pela BBC News Mundo acreditam que a exportação de Pau-de-balsa é uma grande oportunidade econômica para o país

“Diante de tanta demanda, uma árvore como o Pau-de-Balsa, que se regenera rápido, pode oferecer muita rentabilidade sem comprometer gravemente o meio ambiente”, sinaliza Ortiz.

“Se o Estado controlar e a extração de madeira for feita de forma sustentável e amigável, é uma grande oportunidade. Por isso, estamos tentando promover o Pau-de-Balsa amazônico em áreas degradadas e assim diminuir a pressão em territórios que sofreram muito”, diz Balarezo.

Ortiz também pede mais investimentos em infraestrutura.

“A Europa e os Estados Unidos vêm comprando há muito tempo, mas não é que se tenha investido muito no país. É verdade que são necessários dezenas de milhões para plantar e construir, mas a rentabilidade poderia ser espetacular”, afirma o empresário.

“Desastre de Fukushima e pandemia derivam do capitalismo”

Dez anos após acidente nuclear no Japão, analista político e autor japonês Sabu Kohso fala sobre lições que podem ser tiradas da tragédia tripla e o futuro pós-pandemia.

Controle de radioatividade em Fukushima

11 de março de 2011: um terremoto de magnitude de 9,1, um tsunami com ondas de mais de 10 metros de altura e o maior acidente nuclear do século 21. Dez anos atrás, a tragédia tripla assolou a província japonesa de Fukushima.

11 de março de 2020: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara a pandemia de covid-19, que se tornou o maior desafio global de saúde pública ainda em curso.

Para o analista político e ativista anticapitalismo Sabu Kohso, não estamos vivendo uma mera sucessão de crises, mas uma sinergia de desastres que derivam do modelo de desenvolvimento capitalista, que, a despeito dos impactos ecológicos, segue pautado pela exploração do planeta.

“Tanto a radiação quanto a pandemia nos afetam fatalmente”, diz Kohso, japonês radicado em Nova York e autor do livro Radiation and Revolution, que trata da relação entre energia nuclear, ordem global e resistência da sociedade civil. É, nas suas palavras, “um livro que busca esperança na escuridão”.

Em entrevista à DW Brasil, Kosho fala sobre os impactos internacionais da tragédia tripla de Fukushima e o futuro pós-pandemia.

DW Brasil: Diante da pandemia de covid-19 e dos desafios ambientais atuais, que lições tiramos de Fukushima?

Sabu Kohso: A lição é difícil. Tanto o desastre nuclear quanto a pandemia são derivados da incontrolabilidade do modo de desenvolvimento capitalista. O que realmente estamos enfrentando não é a sucessão de um desastre após o outro, mas uma sinergia de desastres acumulados no horizonte planetário. Radiação e pandemia nos afetam fatalmente, mas de maneiras ontologicamente opostas: enquanto a contaminação por radiação modifica nossos genes aos poucos, a pandemia devora nossas células no tempo mais imediato, a partir de nossos contatos corporais. A radiação perturba nosso relacionamento com o planeta; a pandemia nos força a interromper interações sociais. Isto é, perdemos a confiança nas duas relações fundamentais que constituem nosso ser.

Em resposta a ambas, articularam-se forças para manter os negócios como sempre: no caso da radiação, um neonacionalismo japonês que incitou pessoas a comerem alimentos provavelmente contaminados como gesto heroico de patriotismo; no caso da pandemia, um neofascismo norte-americano que se recusa a usar máscaras como parte do movimento Make America Great Again, liderado pelo próprio ex-presidente [Donald Trump] e ancorado na mais vulgar ideia de “liberdade”.

Em última instância, a lição é que hoje a ideia de mudar o mundo não pode mais pressupor uma revolução dentro de um mundo pautado pela ideia de progresso infinito. O que seria então uma revolução? Uma transformação de todos os territórios existenciais: corpo e mente individuais, relações sociais e meio ambiente, muito além da política tradicional.

O livro Radiation and Revolution destaca respostas de movimentos sociais e da sociedade civil ao desastre de Fukushima em 2011. Uma década depois, quão articuladas estão essas mobilizações?

Nos primeiros anos, tivemos um aumento dramático de movimentos de protesto contra a energia nuclear e movimentos para proteger o trabalho reprodutivo dos impactos da radiação. Os últimos foram especialmente importantes para mostrar à sociedade o papel indispensável de trabalhadores reprodutivos [termo que se refere a todo tipo de trabalho envolvido na reprodução humana, da gravidez a cuidados domésticos, historicamente executados principalmente mulheres], invisibilizados pela sociedade patriarcal. Mas os movimentos não foram capazes de se unir o bastante para resistir frente ao governo.

Analisando agora, o problema estava nas dificuldades de conectar (A) a política de oposição e (B) a prática cotidiana. Pelo que observo de movimentos populares mundo afora, os mais fortes, como Sanrizuka, no Japão, Zapatistas, no México, La Zad, na França, etc. são os que conectam as frentes (A) e (B) junto a outro elemento, (C) a criação de uma zona autônoma. No Japão, houve pequenos enclaves de zonas autônomas nas periferias da sociedade, como universidade ocupada, comunidades de bairro, campos de sem-teto e o movimento contra a base militar dos EUA em Okinawa, mas nenhum deles cresceu forte o suficiente para influenciar toda a sociedade, por exemplo, como o MST no Brasil. A dificuldade para criar territórios autônomos pode ter a ver com a sociedade japonesa altamente consumista e controlada, construída no território insular e fortemente interligada.

Em agosto passado, no 75º aniversário do ataque a Hiroshima, o então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, não respondeu a questões sobre o tratado de desarmamento nuclear, de 2017, até agora não assinado pelo Japão. Em outubro, após assumir, Yoshihide Suga declarou que o país pretende alcançar neutralidade de carbono até 2050, mas tampouco citou a questão nuclear. Até hoje o Japão não reviu sua matriz energética (pós-Fukushima, a Alemanha, por exemplo, decidiu fechar suas usinas até 2022). Por quê?

Há quem afirme que a questão sobre a Alemanha continua, considerando sua dependência da importação de eletricidade da França, que é fortemente baseada na energia nuclear. No caso do Japão, o país ficou sem energia nuclear por vários anos após o acidente, mas cinco reatores voltaram à ativa em 2018. Isso nos mostra que é possível seguir sem a energia nuclear, mas que há forças que investem pesadamente e insistem no seu uso. Uma é a chamada Nuclear Village, que inclui políticos, fornecedores de tecnologia, empresas de eletricidade, cientistas e jornalistas, que há muito tempo a promovem.

Agora, quando discutimos alternativas “realistas”, estamos nos referindo à posição de quem? Dos formuladores de políticas que insistem no consumo de energia (no nível atual e até mais) para um desenvolvimento nacional “sem fim”? Ou daqueles que estão dispostos a criar novas formas de vida para uma melhor convivência com o meio ambiente, com menor consumo de energia? Há grupos nos EUA, Japão, Coreia e França que estão tentando criar comunidades autônomas que consigam sobreviver fora dessa rede, tanto quanto possível. Essas experiências terão cada vez mais impactos no futuro.

O que é singular sobre Fukushima? E o que é global?

No Japão, as pessoas precisam descobrir diferentes horizontes, fora da hegemonia americana. Não devem esquecer as calamidades nucleares, como bombardeio genocida e explosões de usinas insanamente instaladas no arquipélago sujeito a terremotos. Devem parar o projeto do governo japonês de despejar a água contaminada no Oceano Pacífico, o maior bem comum para a população planetária – desativando reatores existentes e descobrindo uma maneira de lidar com os resíduos radioativos já acumulados em colaboração com o mundo todo.

Globalmente, os movimentos antinucleares, antiguerra e anticapitalistas devem se coordenar para seus objetivos, pois as lutas locais contra diferentes poderes governantes e modelos de desenvolvimentos estão, afinal, lutando contra o mesmo inimigo – o complexo industrial militar ou o regime nuclear global, que é a última fortaleza para o impulso infinito do modo de desenvolvimento do estado capitalista.

O fim do livro traz a mensagem “forget Japan” (“esqueça o Japão”). O que quer dizer?  

No mundo todo, o declínio da civilização capitalista tem se manifestado de inúmeras maneiras: aquecimento global, covid-19, poluição atmosférica e oceânica, desmatamento da Amazônia e outros desastres, além de crises políticas, sociais e econômicas. No Japão, isso foi incorporado no desastre de Fukushima, com esvaziamento populacional, aumento do suicídio e assim por diante. Mas precisamos aprender a viver esse declínio de forma afirmativa.

Mudar o mundo implica deslocar a questão “o que deve ser feito?” para outra pergunta: “como isso deve ser vivido?” Precisamos aprender a viver a Terra, não mais nos limites de territórios nacionalizados. Habitantes do arquipélago deveriam “esquecer o Japão” nesse contexto, deixar para trás ideais do regime pós-guerra e o mito da raça pura. Esquecer é necessário para redescobrir formas de sermos humanos, viver com a Terra, amar as singularidades das culturas e compartilhar bens comuns, positivos e negativos.

Sabu Kohso é um crítico político e social, tradutor e ativista de longa data na luta global e anticapitalista. Nativo de Okayama, Japão, Sabu vive em Nova York desde 1980. Ele publicou uma série de livros em japonês sobre espaço urbano e lutas populares em Nova York, bem como um livro sobre filosofia do anarquismo planetário. Seu primeiro livro em inglês é Radiation and Revolution (Duke University Press, setembro de 2020).

10 anos – “Desastre de Fukushima e pandemia derivam do capitalismo”

Dez anos após acidente nuclear no Japão, analista político e autor japonês Sabu Kohso fala sobre lições que podem ser tiradas da tragédia tripla e o futuro pós-pandemia.

11 de março de 2011: um terremoto de magnitude de 9,1, um tsunami com ondas de mais de 10 metros de altura e o maior acidente nuclear do século 21. Dez anos atrás, a tragédia tripla assolou a província japonesa de Fukushima.

11 de março de 2020: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara a pandemia de covid-19, que se tornou o maior desafio global de saúde pública ainda em curso.

Para o analista político e ativista anticapitalismo Sabu Kohso, não estamos vivendo uma mera sucessão de crises, mas uma sinergia de desastres que derivam do modelo de desenvolvimento capitalista, que, a despeito dos impactos ecológicos, segue pautado pela exploração do planeta.

“Tanto a radiação quanto a pandemia nos afetam fatalmente”, diz Kohso, japonês radicado em Nova York e autor do livro Radiation and Revolution, que trata da relação entre energia nuclear, ordem global e resistência da sociedade civil. É, nas suas palavras, “um livro que busca esperança na escuridão”.

Em entrevista à DW Brasil, Kosho fala sobre os impactos internacionais da tragédia tripla de Fukushima e o futuro pós-pandemia.

DW Brasil: Diante da pandemia de covid-19 e dos desafios ambientais atuais, que lições tiramos de Fukushima?

Sabu Kohso: A lição é difícil. Tanto o desastre nuclear quanto a pandemia são derivados da incontrolabilidade do modo de desenvolvimento capitalista. O que realmente estamos enfrentando não é a sucessão de um desastre após o outro, mas uma sinergia de desastres acumulados no horizonte planetário. Radiação e pandemia nos afetam fatalmente, mas de maneiras ontologicamente opostas: enquanto a contaminação por radiação modifica nossos genes aos poucos, a pandemia devora nossas células no tempo mais imediato, a partir de nossos contatos corporais. A radiação perturba nosso relacionamento com o planeta; a pandemia nos força a interromper interações sociais. Isto é, perdemos a confiança nas duas relações fundamentais que constituem nosso ser.

Em resposta a ambas, articularam-se forças para manter os negócios como sempre: no caso da radiação, um neonacionalismo japonês que incitou pessoas a comerem alimentos provavelmente contaminados como gesto heroico de patriotismo; no caso da pandemia, um neofascismo norte-americano que se recusa a usar máscaras como parte do movimento Make America Great Again, liderado pelo próprio ex-presidente [Donald Trump] e ancorado na mais vulgar ideia de “liberdade”.

Em última instância, a lição é que hoje a ideia de mudar o mundo não pode mais pressupor uma revolução dentro de um mundo pautado pela ideia de progresso infinito. O que seria então uma revolução? Uma transformação de todos os territórios existenciais: corpo e mente individuais, relações sociais e meio ambiente, muito além da política tradicional.

O livro Radiation and Revolution destaca respostas de movimentos sociais e da sociedade civil ao desastre de Fukushima em 2011. Uma década depois, quão articuladas estão essas mobilizações?

Nos primeiros anos, tivemos um aumento dramático de movimentos de protesto contra a energia nuclear e movimentos para proteger o trabalho reprodutivo dos impactos da radiação. Os últimos foram especialmente importantes para mostrar à sociedade o papel indispensável de trabalhadores reprodutivos [termo que se refere a todo tipo de trabalho envolvido na reprodução humana, da gravidez a cuidados domésticos, historicamente executados principalmente mulheres], invisibilizados pela sociedade patriarcal. Mas os movimentos não foram capazes de se unir o bastante para resistir frente ao governo.

Analisando agora, o problema estava nas dificuldades de conectar (A) a política de oposição e (B) a prática cotidiana. Pelo que observo de movimentos populares mundo afora, os mais fortes, como Sanrizuka, no Japão, Zapatistas, no México, La Zad, na França, etc. são os que conectam as frentes (A) e (B) junto a outro elemento, (C) a criação de uma zona autônoma. No Japão, houve pequenos enclaves de zonas autônomas nas periferias da sociedade, como universidade ocupada, comunidades de bairro, campos de sem-teto e o movimento contra a base militar dos EUA em Okinawa, mas nenhum deles cresceu forte o suficiente para influenciar toda a sociedade, por exemplo, como o MST no Brasil. A dificuldade para criar territórios autônomos pode ter a ver com a sociedade japonesa altamente consumista e controlada, construída no território insular e fortemente interligada.

Em agosto passado, no 75º aniversário do ataque a Hiroshima, o então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, não respondeu a questões sobre o tratado de desarmamento nuclear, de 2017, até agora não assinado pelo Japão. Em outubro, após assumir, Yoshihide Suga declarou que o país pretende alcançar neutralidade de carbono até 2050, mas tampouco citou a questão nuclear. Até hoje o Japão não reviu sua matriz energética (pós-Fukushima, a Alemanha, por exemplo, decidiu fechar suas usinas até 2022). Por quê?

Há quem afirme que a questão sobre a Alemanha continua, considerando sua dependência da importação de eletricidade da França, que é fortemente baseada na energia nuclear. No caso do Japão, o país ficou sem energia nuclear por vários anos após o acidente, mas cinco reatores voltaram à ativa em 2018. Isso nos mostra que é possível seguir sem a energia nuclear, mas que há forças que investem pesadamente e insistem no seu uso. Uma é a chamada Nuclear Village, que inclui políticos, fornecedores de tecnologia, empresas de eletricidade, cientistas e jornalistas, que há muito tempo a promovem.

Agora, quando discutimos alternativas “realistas”, estamos nos referindo à posição de quem? Dos formuladores de políticas que insistem no consumo de energia (no nível atual e até mais) para um desenvolvimento nacional “sem fim”? Ou daqueles que estão dispostos a criar novas formas de vida para uma melhor convivência com o meio ambiente, com menor consumo de energia? Há grupos nos EUA, Japão, Coreia e França que estão tentando criar comunidades autônomas que consigam sobreviver fora dessa rede, tanto quanto possível. Essas experiências terão cada vez mais impactos no futuro.

O que é singular sobre Fukushima? E o que é global?

No Japão, as pessoas precisam descobrir diferentes horizontes, fora da hegemonia americana. Não devem esquecer as calamidades nucleares, como bombardeio genocida e explosões de usinas insanamente instaladas no arquipélago sujeito a terremotos. Devem parar o projeto do governo japonês de despejar a água contaminada no Oceano Pacífico, o maior bem comum para a população planetária – desativando reatores existentes e descobrindo uma maneira de lidar com os resíduos radioativos já acumulados em colaboração com o mundo todo.

Globalmente, os movimentos antinucleares, antiguerra e anticapitalistas devem se coordenar para seus objetivos, pois as lutas locais contra diferentes poderes governantes e modelos de desenvolvimentos estão, afinal, lutando contra o mesmo inimigo – o complexo industrial militar ou o regime nuclear global, que é a última fortaleza para o impulso infinito do modo de desenvolvimento do estado capitalista.

O fim do livro traz a mensagem “forget Japan” (“esqueça o Japão”). O que quer dizer?

No mundo todo, o declínio da civilização capitalista tem se manifestado de inúmeras maneiras: aquecimento global, covid-19, poluição atmosférica e oceânica, desmatamento da Amazônia e outros desastres, além de crises políticas, sociais e econômicas. No Japão, isso foi incorporado no desastre de Fukushima, com esvaziamento populacional, aumento do suicídio e assim por diante. Mas precisamos aprender a viver esse declínio de forma afirmativa.

Mudar o mundo implica deslocar a questão “o que deve ser feito?” para outra pergunta: “como isso deve ser vivido?” Precisamos aprender a viver a Terra, não mais nos limites de territórios nacionalizados. Habitantes do arquipélago deveriam “esquecer o Japão” nesse contexto, deixar para trás ideais do regime pós-guerra e o mito da raça pura. Esquecer é necessário para redescobrir formas de sermos humanos, viver com a Terra, amar as singularidades das culturas e compartilhar bens comuns, positivos e negativos.

Sabu Kohso é um crítico político e social, tradutor e ativista de longa data na luta global e anticapitalista. Nativo de Okayama, Japão, Sabu vive em Nova York desde 1980. Ele publicou uma série de livros em japonês sobre espaço urbano e lutas populares em Nova York, bem como um livro sobre filosofia do anarquismo planetário. Seu primeiro livro em inglês é Radiation and Revolution (Duke University Press, setembro de 2020).

Quando tudo for privatizado, o povo será privado de tudo e o Amapá é prova disso

Esse título parece apenas um impactante slogan visto em cartazes nas mais diversas manifestações pela América Latina.

Antes fosse! A população do Amapá está vivendo, na prática, as consequências de quando o Estado transforma sua responsabilidade em mercadoria e entrega serviços essenciais à Iniciativa privada.

A prática do empresariado brasileiro é rotineira: ao invés de fazer investimentos em tecnologia/modernização e a partir disso consolidar seus negócios, esperam que o Estado construa empresas do zero, desenvolva as técnicas necessárias para execução daquela atividade, forme profissionais e estabeleça um patrimônio, apenas então, se desperta no empresariado o interesse por aquela atividade que durante décadas foi ignorada. Quando se esforçam muito, seus negócios nascem de grandes empréstimos oriundos de bancos estatais. A janela de oportunidade estava lá, não investiram porque é mais fácil esperar que o Estado faça e depois abocanhar o bem público.

Os exemplos são diversos no tempo e no espaço, certamente, o mais famoso é o caso da Petrobrás, que sempre está na mira dos privatistas. Essa empresa pública nasceu em 1953, precisamente pelo interesse do Estado Brasileiro em garantir autonomia na produção de energia para o país. A primeira concessão a particulares para prospecção de petróleo e folhelhos betuminosos no Brasil aconteceu em 1858, quase um século se passou e nenhum avanço significativo para essa atividade nasceu por ações da iniciativa privada. No entanto, desde a criação da Petrobrás e o profundo investimento na área, a empresa despertou a ganância do empresariado parasita brasileiro.

Muito se fala do grande (porém, questionável) avanço da telefonia e atribuem isso à privatização do setor. O que se esconde nesse exemplo, é que o Estado fez um brutal investimento pouco antes da privatização da telefonia, garantindo um ambiente seguro para que empresários extorquissem o povo com tarifas altíssimas e péssimos serviços. No primeiro mês após a privatização, a tarifa de telefone aumentou 17% e hoje, a ampla maioria dos processos em defesa dos direitos do consumidor são contra empresas do setor. Nossa cobertura de internet e sinal de celular é péssima, cara e restrita. Uma das piores do mundo.

A Vale do Rio Doce, além de ser entregue praticamente de graça (com 700 milhões de reais em caixa, diga-se), ainda se tornou uma empresa assassina. O rompimento de duas barragens matou centenas de pessoas e comprometeu a qualidade de vida de outras milhares. Todos esses eventos, obviamente, após a sua privatização em 1998. Além da irrestrita fuga de capitais, a empresa não tem nenhum compromisso com o meio ambiente, com a qualidade de vida das populações diretamente impactadas por suas atividades e não responde judicialmente à altura pelos crimes que cometeu, crimes causados por manipulações de relatórios de inspeções em barragens.

Por fim, temos o apagão elétrico no estado do Amapá. A empresa Isolux, contratada para executar serviços que garantissem o fornecimento de energia elétrica daquela unidade da federação, simplesmente não tinha conhecimento, preparo, nem vontade de cumprir o compromisso firmado. Para piorar, a empresa sequer possuía transformador reserva! A tese de que um raio foi responsável pelo incêndio que destruiu o transformador foi descartada, a polícia civil do Amapá afirma que o fogo começou em uma bucha do transformador.

Não é exagero dizer que seremos privados de tudo! No Amapá, mais de 700 mil pessoas foram privadas de fornecimento de energia elétrica por quase um mês. As famílias vítimas dos crimes da Vale do Rio Doce foram privadas de suas moradias, atividades laborais, e no caso de 291 delas, foram privadas do direito máximo de qualquer ser humano: o direito à vida! O setor privado não tem outro interesse que não o lucro, e para alcançar seus objetivos sacrifica sonhos, esperanças, economias locais, meio ambiente, culturas, futuros e vidas.

Toda corrupção que existe nas estatais está intimamente ligada às pressões econômicas que a iniciativa privada exerce sobre funcionários públicos, que na maior parte das vezes, não são de carreira, mas sim que foram indicados por políticos que tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas. A resposta para evitar tais práticas não é a entrega do bem público para aqueles que já concentram riqueza e deixam o Brasil com a marca de uma das maiores desigualdades sociais do planeta. Ao contrário, é dando maior transparência e garantindo mais participação da sociedade que as pressões do mercado financeiro não serão capazes de corroer a execução dos serviços pela administração pública.

É bom também lembrar, que não queremos apenas a garantia de que empresas públicas permaneçam públicas, não defendemos o capitalismo de Estado. A nossa luta é para garantir que a classe trabalhadora administre coletivamente as atividades produtivas. O controle social das empresas já existe, e é exercido por uma elite econômica que atende exclusivamente seus próprios interesses, por isso é importante que o controle social das empresas públicas seja exercido pelos trabalhadores e trabalhadoras.

Mesmo com o desastroso histórico da política de privatizações, ou melhor, projeto de entrega das riquezas nacionais para a iniciativa privada, o governo pretende estender as privatizações a empresas essenciais como Correios e Eletrobrás. O resultado será um desastre e a experiência nos permite fazer essa afirmação.

Se a máquina privatista continuar esmagando os direitos do povo brasileiro, o que hoje vive o Amapá será experimentado por todo o Brasil, que na verdade não é bem uma novidade, já que no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso os apagões elétricos eram constantes por todo o território brasileiro. E quem vai pagar essa conta? O povo brasileiro! Podemos fazer uso das célebres palavras de Celso Furtado para definir o modelo de privatizações no Brasil, é um impiedoso sistema de “Privatização dos lucros e socialização dos prejuízos”.

Sem luz, Macapá tem eleição adiada

Atingida por apagão, cidade ainda não teve fornecimento de energia totalmente restabelecido. Justiça decide adiar votação, por dificuldades em garantir a segurança do pleito.

Incêndio na principal subestação de energia do estado atingiu transformadores, e não havia peças de reposição.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, atendeu na madrugada desta quinta-feira (12/11) um pedido do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) e decidiu pelo adiamento das eleições para prefeito e vereador na capital Macapá. Nos outros municípios do estado, a votação ocorrerá normalmente no próximo domingo. A decisão para Macapá vale para o primeiro e segundo turnos.

No início do mês, o estado passou a enfrentar graves problemas no abastecimento de energia após um incêndio numa subestação de Macapá. O apagão atingiu 13 das 16 cidades do estado, afetando mais de 700 mil pessoas. Inicialmente, a região ficou mais de três dias sem energia. Aos poucos, o fornecimento foi sendo restabelecido, mas ainda vigora um rodízio.

Pela decisão de Barroso, o adiamento do pleito em Macapá vai vigorar até que sejam restabelecidas “as condições materiais e técnicas para a realização do pleito, com segurança da população”. A nova data para realização do pleito em Macapá deverá ser fixada em interlocução entre o TRE e o TSE.

Em sua decisão, o presidente do TSE destacou que o relato do presidente do TRE-AP “retrata situação que permite concluir que, na capital, Macapá, não há segurança adequada para a realização das eleições”.

Segundo o ministro, informações de outros órgãos, como Polícia Federal, mostraram “consenso acerca dos riscos da realização das eleições neste domingo”.

“Fatos extraordinários e imprevisíveis tornaram inviável a realização de eleições em Macapá, já que ainda não foi restabelecido o regular fornecimento de eletricidade no município e o efetivo da Polícia Militar não se mostra suficiente para garantir a segurança dos eleitores. Nesse contexto, não é legítimo exigir que a população de Macapá seja submetida ao sacrifício extremo de ser obrigada a comparecer às urnas em situação de calamidade pública, reconhecida por decreto municipal, e, ainda, de risco à segurança”, aponta a decisão.

No pedido apresentado ao TSE no início da noite desta quarta, o presidente do TRE-AP, Rommel Araújo, afirmou que se reuniu com representantes da área de inteligência da Abin, Exército Brasileiro e da Polícia Rodoviária Federal, que relataram, em razão do retorno gradual da energia, “ações de vandalismo, algumas delas dirigidas e coordenadas por membros de facções criminosas”.

Além disso, segundo Barroso, “parte da população, que sofre com o desabastecimento de água e falta de energia elétrica, está sendo incitada à realização de queima de pneus em via pública, bem como a depredarem o patrimônio público”. Ele destacou ainda a previsão de “várias manifestações (…) sendo convocadas para demonstração de desagrado em frente aos locais de votação, o que colocaria em risco os eleitores da Capital”.

O presidente do TRE-AP ainda havia destacado que o efetivo da Policia Militar estava reduzido por conta de policiais que testaram positivo para a Covid-19.

Nas demais cidades do Amapá, apontou Barroso, “a situação de segurança do eleitor poderá ser mantida sob controle, com o aparato de segurança atualmente disponível”.

Na quarta-feira, a Polícia Civil do Amapá descartou que um raio tenha causado o incêndio na subestação de Macapá. Um laudo prelimitar apontou que as chamas começaram após uma peça de um transformadores superaquecer.

JPS/tse/ots

Rio de Janeiro: Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto

Na periferia norte do Rio de Janeiro, longe das vastas faixas de areia branca da icônica praia de Copacabana, mangas machucadas e douradas, pimentões murchados e um cacho de mandioca se misturam com lascas de madeira.

A transformação da gestão do lixo poderia desempenhar um papel no cumprimento da meta de carbono líquido zero do Rio de Janeiro? A cidade está explorando uma nova forma de processar resíduos de alimentos, com um projeto que é o primeiro do tipo na América Latina.

Estátua no Rio de Janeiro, megacidade no Brasil (picture-alliance / GES / M. Gilliar)

Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto.

Esses podem não parecer ingredientes especiais, mas um projeto experimental na megacidade brasileira está explorando se queimar esse lixo poderia ser parte de uma receita para atingir sua meta de carbono zero até 2050.

“Caso contrário, todos esses alimentos estariam sendo jogados fora”, diz Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju, que abriga a primeira unidade de “biometanização” da América Latina.

Um forte cheiro ácido preenche o ar do armazém no calor do meio-dia, quando Ferreira acena com uma empilhadeira. “É muito potencial perdido. Precisamos fazer isso em todo o país”, acrescenta.

Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de desperdício de alimentos do mundo, descartando cerca de 30% de todas as frutas e vegetais colhidos. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 40 mil toneladas de alimentos são jogados fora todos os dias no país, onde se decompõem em aterros sanitários, liberando quantidades significativas de metano.

No entanto, o Rio de Janeiro, uma cidade de cerca de 6,7 milhões, também é uma das mais de 70 cidades em todo o mundo que se comprometeram a se tornar “neutras em carbono” até 2050. As cidades são responsáveis ​​por cerca de 75% das emissões de CO2, de acordo com as Nações Unidas, e mais de dois terços da energia que consumimos.

Gerando energia a partir de resíduos orgânicos

O projeto piloto do Ecoparque, lançado em dezembro de 2018 pela Comlurb, departamento de resíduos municipais do Rio de Janeiro, transforma matéria orgânica – quase totalmente resíduo de alimentos – em biogás por meio de um processo que gera eletricidade, biocombustíveis e composto para serem usados ​​como fertilizante na agricultura e silvicultura, e produz emissões mínimas.

Processando entre 35 e 50 toneladas de resíduos por dia, a fábrica gera energia suficiente para se alimentar, a maior instalação de resíduos no local e a frota da empresa de 19 veículos elétricos. Isso equivale a mais de 1.000 residências com base no consumo médio no Brasil, Ferreira diz.

A fábrica recebe resíduos orgânicos de supermercados e barracas de rua de frutas e verduras do centro da cidade, mas também tratou do lixo doméstico e até descartou hambúrgueres e batatas fritas do festival Rock in Rio de outubro.

Um gasoduto transportando gás para ser transformado em eletricidade

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo

Sete reatores do Ecoparque, todos do tamanho aproximado de contêineres, são usados ​​para processar os resíduos. Em um processo escalonado, cada um recebe lixo orgânico e é lacrado por duas a três semanas, com a introdução de bactérias para decompor a matéria e produzir metano. O gás é então armazenado em um grande recipiente acima da instalação e posteriormente convertido em eletricidade.

“A ideia do Ecoparque é ter um local de experimentação de novas tecnologias que possam, no futuro – e se tiverem demonstrado sua viabilidade econômica, financeira e ambiental – ser adotadas pela Comlurb, fazendo com que cada vez menos resíduos sejam descartados em aterros sanitários ”, afirma José Henrique Monteiro Penido, responsável pela área de sustentabilidade ambiental da Comlurb. “O modelo pode ser replicado nas cidades e ter um impacto positivo para todo o país”.

Segundo a Comlurb, esse é o “primeiro passo” para lidar com as 5 mil toneladas de lixo orgânico que o Rio de Janeiro produz a cada dia. Com um empréstimo não reembolsável do Fundo Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico, e desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais, o plano é expandir esse modelo para outras cidades do Brasil e da América Latina.

Equipamento que mede a qualidade do gás sendo produzido

“No geral, é um sinal muito positivo e não tenho dúvidas de que é escalável”, disse Richard Lowes, pesquisador de política energética da Universidade de Exeter. “Parece ser um processo eficiente com controles muito medidos sobre a produção. Quando os resíduos alimentares vão para aterros, podem produzir metano, um poderoso gás de efeito estufa – mas com esse processo você obtém a energia e não as emissões. ”

Alcançando as metas climáticas

O processo de biometanização por si só, no entanto, não será suficiente para reduzir significativamente a pegada ambiental do Brasil, Lowes diz: “Seria melhor se esses resíduos simplesmente não fossem produzidos em primeiro lugar. Se não houvesse resíduos, não haveria a necessidade de processar qualquer coisa. Temos a tendência de ser uma sociedade muito desperdiçadora e devemos nos concentrar em reduzi-la. ”

Ainda assim, o município acredita que pode ajudar a atingir sua meta de reduzir as emissões das mudanças climáticas em 20% entre 2005 e 2020, como parte da iniciativa C40 Cities, uma rede de cidades que impulsiona a ação climática. No âmbito do Programa de Desenvolvimento da Cidade de Baixo Carbono do Rio de Janeiro, a cidade lançou nos últimos anos um projeto de reflorestamento urbano para plantar 12 milhões de árvores e um esquema municipal de compartilhamento de bicicletas, o Bike Rio, enquanto expande a rede de caminhos da cidade.

O projeto marca um raro lampejo de positividade para o país em meio ao desmatamento de uma década na Amazônia e às críticas à falta de compromisso do Brasil com os principais objetivos climáticos na COP25, a recente conferência em Madrid.

No Ecoparque, a equipe busca constantemente a melhoria dos níveis de eficiência, utilizando eletrônicos, sensores e medidores que auxiliam no controle e na otimização da produção de biogás em sua busca pela produção de energia sustentável. A esperança é que uma instalação como esta seja construída para cada 50.000 pessoas no país.

“Há dois caminhos a seguir”, diz o pesquisador Ferreira. “Podemos seguir em frente com o sistema atual de grandes instalações de resíduos que requerem uma quantidade significativa de transporte, ou podemos descentralizar o processo e construir um em cada cidade do Brasil.”

Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Limpar o planeta com dinheiro sujo tem seus limites

Usina termelétrica na Inglaterra. Foto: Carlos Eduardo Young.

A pandemia de Covid-19 traz consequências complexas em áreas muitas vezes inesperadas. Um exemplo são os mercados de créditos transacionáveis de emissões de carbono (cap and trade). Matéria recente do Inside Climate News mostra que produtores de agricultura de baixo carbono (“climate smart”) na Califórnia estão com problemas de financiamento porque recebem recursos de programas de cap and trade que são pagos principalmente por emissões geradas pela queima de combustíveis fósseis. A retração da atividade econômica e no volume de trânsito, consequência do isolamento social, reduziu drasticamente a emissão de carbono no estado. Por isso, as receitas que eram pagas pelos emissores diminuíram porque fizeram o que se deseja na agenda das mudanças climáticas: a queima de combustíveis fósseis despencou nos últimos meses.

Esse tipo de dilema é previsto há muito tempo na literatura de economia do Meio Ambiente. Mercados de direitos transacionáveis de obrigações ambientais, como os de emissões de carbono, logística reversa de resíduos sólidos e cotas de reserva ambiental (CRA), têm como premissa o interesse em flexibilizar o cumprimento das normas ambientais. A ideia é que aqueles que não estão cumprindo os requisitos ambientais financiem terceiros que, além de cumprir seus próprios compromissos, “vão além” e têm “superávit” na sua performance ambiental. Ou seja, ao invés de reduz as suas emissões, os emissores (“poluidores”) preferem pagar para que outros o façam (“protetores”) – isso se explica porque os custos de abatimento de emissões não são homogêneos.

Para que os mercados de direitos transacionáveis de obrigações ambientais funcionem é preciso que:

(1) O regulador ambiental atue efetivamente, monitorando o desempenho ambiental de cada agente e penalize, de fato, aqueles que desobedecem a norma. É necessário mais que uma autuação, deve-se fazer que o infrator pague efetivamente (“enforcement”).

(2) Deve haver um número suficiente de agentes econômicos que estão em desacordo com as normas ambientais e com custos de atendimento à norma (“compliance“) altos. Por outro lado, é necessário existir aqueles cujo valor necessário para executar ações ambientais positivas seja baixo, para viabilizar financeiramente a compensação do déficit ambiental não atendido pelo infrator.

(3) Os direitos de propriedade devem ser bem estabelecidos, sem insegurança jurídica para que o agente em déficit ambiental (“poluidor”) pague ao que está em superávit (“protetor”), e essa ação seja oficialmente reconhecida pelo regulador como forma de cumprimento da legislação ambiental.

Ou seja, não se trata de um mercado “normal” onde o consumidor demanda um bem porque deriva utilidade de seu consumo. É uma situação especial, que não pode ocorrer em situação de “livre mercado”. Trata-se de uma flexibilização no atendimento de normas legais, cuja demanda só é estabelecida se houver pressão normativa para o cumprimento da lei por parte dos eventuais infratores.

Como essas condições variam no tempo, a demanda de “poluidores” por direitos de emissão também oscila. Portanto, em todos os mercados de direitos transacionáveis, o preço desses direitos é endógeno, ou seja, o valor das cotas de emissões também flutua.

O caso da Califórnia apresentado na matéria se explica por alteração abrupta da condição (2). A demanda de direitos de emissão caiu vertiginosamente em função da retração de fontes de lançamento de gases de efeito estufa. Por isso, reduziu-se o interesse em compensar emissões excedentes porque se aproximaram dos limites inicialmente permitidos. Diga-se de passagem, a razão pela qual esse mercado se estabeleceu na Califórnia foi uma série de avanços institucionais que permitiram o atendimento da legislação ambiental (Condição 1) e definição dos direitos e deveres para agentes privados (Condição 3). Antes da pandemia, havia um número significativo de agentes em desacordo com os limites de emissão recebidos originalmente (Condição 2), mas esse número se reduziu bastante com a retração econômica.

Um fenômeno bastante semelhante ocorreu no mercado europeu de emissões (ETS) após a crise financeira de 2008, que resultou em um colapso nos mercados de emissão em todo mundo. A queda na demanda por combustíveis, junto com o sucesso de programas de baixo carbono, fez com que o volume de emissões europeias ficasse abaixo do esperado. Como o número de emissores em déficit ambiental se reduziu, o preço dos direitos de emissão despencou junto. Somente ao final de 2019 o preço das emissões se aproximou do teto histórico pré-2008 mas, como no caso da California, houve também queda acentuada de valor após a pandemia, mas com recuperação após o seu relativo controle.

Preço dos direitos de emissão de carbono na União Europeia (EUA), 2008-2020

Fonte: EMBER.

Aliás, por causa desse colapso nos mercados de créditos de carbono, não faz sentido a crítica de que projetos de conservação florestal como REDD ou REDD+ teriam “enriquecido os investidores” enquanto “desapropriavam os povos da floresta”. Essa crítica não tem fundamento porque (i) não há “mercado milionário” de REDD, REDD+ e projetos de carbono florestal porque simplesmente não há demanda por isso (onde há alguma negociação, o volume é baixíssimo e os preços são muito inferiores aos praticados no ETS), e (ii) existem condições sociais bastante claras estabelecidas para a titulação de créditos de carbono, e um projeto que resulte em problemas sociais não seria elegível, e existem diversas auditorias e canais de reclamação para vigiar isso.

A análise das condições necessárias para o sucesso de mercados de direitos transacionáveis também explica o porquê da falta de vigor dos mercados de CRA no Brasil. Não há interesse por parte dos governos em penalizar proprietários rurais em déficit de Reserva Legal, conforme estabelecido pela legislação florestal. Por isso, não há porque se preocupar em buscar flexibilizar uma regra de legislação que nunca é exigida, rompendo com a Condição (2). A bagunça fundiária brasileira complica ainda mais a viabilidade do mercado de CRA porque ninguém vai buscar atender regras ambientais de Reserva Legal se os direitos de propriedade não estão bem estabelecidos (Condição 3).

Outro erro comum contra o uso de instrumentos de direitos transacionáveis é supor que direitos valem somente para a propriedade particular, resultando em crítica por uma suposta “privatização da natureza”. Isso também não é correto pois os direitos de propriedades podem ser também públicos ou comunais. O que importa é que o direito de propriedade seja bem estabelecido, não importando a natureza do proprietário. A falha está na tradição histórica de privatização das terras públicas através da concessão de direitos fundiários que, a pretexto de reforma agrária, acabam apenas estimulando a grilagem e agravando a concentração fundiária. Dessa forma, perdemos a possibilidade de conseguir recursos financeiros para a conservação dessas áreas, já que as administrações públicas não conseguem assegurar o controle do desmatamento.

O caso mais grave dessa perda de oportunidade é o das terras indígenas. Comunidades indígenas possuem alta capacidade de controle de desmatamento, maior até do que alguns órgãos ambientais. Por isso, poderiam estar recebendo recursos de REDD+, como mostra a experiência pioneira do Projeto Carbono Florestal Suruí. Mas projetos como esse acabam não tendo viabilidade por falta de segurança jurídica (por exemplo, terras ainda não demarcadas ou consolidadas) e falta de apoio institucional.

Voltando ao caso dos projetos climate smart da Califórnia, o problema está em imaginar ser possível financiar um projeto sustentável de longo prazo a partir de pagamentos gerados por infração ambiental. É algo semelhante ao uso da Compensação Ambiental estabelecida pelo Artigo 36 do SNUC, que financiam unidades de conservação a partir de fatos geradores que causam dano ambiental. No curto prazo, é correto que isso sirva de base de financiamento de projetos de desenvolvimento sustentável. No longo prazo, contudo, o ideal é que essas infrações diminuam e, portanto, o valor arrecadado por elas. Por isso, esses projetos devem buscar a viabilidade financeira de longo prazo sem a necessidade de recursos oriundos de ações predatórias (emissões de carbono, problemas no licenciamento), que devem ser encarados como recursos que irão se esgotar com o tempo.

Bicicletas elétricas são muito mais legais do que você pensa

Se as bicicletas elétricas ainda não chamaram sua atenção, aqui está uma que pode. A Okapi, uma startup sediada em Boston, está produzindo uma e-bike exclusiva que preenche a lacuna entre motos e motocicletas.

Okapi

A suspensão dupla, o farol e a buzina das bicicletas gritam sujeira, mas os pedais e os pneus magros farão você andar pela ciclovia sem problemas.

Essas bikes não são comuns. Se a aparência futurista não revelar, eis as especificações: as bikes da Okapi têm um alcance totalmente elétrico de até 64 km e uma velocidade máxima de cerca de 50 km / h. Esses números não são grandes, mas são mais do que adequados para uma bicicleta.

A empresa está vendendo suas motos por pouco menos de US $ 3.000. Isso está alinhado com os preços de outras bicicletas eletrônicas, mas a Okapi parece mais sofisticada e refinada do que as outras, que tentam (com graus variados de sucesso) parecer bicicletas normais.

A suspensão total, o armazenamento oculto e o motor de 1.000 watts das bicicletas somam o que parece ser um passeio divertido. Esqueça o deslocamento, as bicicletas elétricas sãodivertidas e são um tumulto total nas trilhas. O design da Okapi parece ser mais robusto e capaz de lidar com os solavancos mais do que muitas outras motos elétricas, algumas das quais parecem ser modeladas com base nos modelos antigos. A principal desvantagem do design da Okapi é a capacidade de peso máximo de 280 libras, o que pode limitar a capacidade de alguns ciclistas de apreciar a bicicleta.

A abordagem de Okapi à e-bike é um pouco menos sutil que outras. Onde tantas empresas tentam esconder seu trem de força elétrico por baixo do corpo magro, Okapi coloca tudo para o mundo ver com uma bateria grande e quadrada. Há quase uma aparência futurista de moto suja para eles, o que é menos estranho do que parece.

As bicicletas elétricas estão ficando mais baratas, quase todos os dias, mas o produto da Okapi tem o preço mais alto do espectro: a bicicleta Starter Edition custa US $ 2.989,98. A boa notícia é que a moto da Okapi parece mais sofisticada e robusta do que muitas ofertas no mercado hoje.

Embora eles não sejam o produto mais popular do mercado, as bicicletas eletrônicas valem a moeda a quase qualquer preço. Se você está pensando em comprar uma bicicleta elétrica, faça-o.

O último filme de Michael Moore teve como alvo ‘renováveis’ e acusou grupos ‘verdes’ de estarem nos bolsos da Big Energy

O Climate Industrial Complex está pedindo a cabeça do cineasta Michael Moore depois que seu último filme distorceu a hipocrisia da indústria de “energia renovável”, expondo o relacionamento acolhedor de seus líderes com os bicho-papões dos combustíveis fósseis.


A polêmica de Moore, ‘Planet of the Humans‘, dirigida por Jeff Gibbs, foi vista mais de quatro milhões de vezes no YouTube em pouco mais de uma semana.

Mas apenas dois dias após o lançamento do filme, marcado para o Dia da Terra, o cineasta Josh Fox liderou a acusação de Moore – que já foi um “herói” dele – deformado por suposta desinformação. Em uma carta sincera, Fox exigiu não apenas uma “retratação e um pedido de desculpas” de Moore, mas também que o filme fosse arrancado inteiramente da distribuição.

Quem é quem, dos figurões ambientalistas, concordou, acusando Moore de ter supostamente imitado “pontos de conversa flagrantemente falsos da indústria de combustíveis fósseis enganosamente enganando sua audiência sobre energia renovável” e atacando “líderes climáticos importantes”, bem como “campanhas climáticas e de combustíveis anti-fósseis. ”

De fato, os críticos pararam de chamar o ambientalista de longa data de “negador da mudança climática”, fazendo o possível para pintá-lo como um agente dos mesmos plutocratas do Big Business, cuja presença silenciosa sob a superfície da indústria de “energia renovável” ele expôs no filme.

O distribuidor de documentários Films for Action na verdade removeu brevemente o filme de sua biblioteca on-line, explicando que não havia visto o “produto final”, mas o havia recolhido com base na reputação de Moore – apenas para reverter o curso mais tarde, apontando que censurar o filme dê “mais poder e mística do que merece”.

Isso chega ao ponto de Moore ter sido escoriado pelas próprias forças que outrora eram seus aliados na esquerda.

O “Planeta dos Humanos” visa diretamente o sonho de que “biocombustíveis”, energia solar e eólica salvarão o mundo da voraz indústria de combustíveis fósseis e, por extensão, a própria mudança climática. Embora grande parte do documentário tenha sido aparentemente filmado anos atrás, suas conclusões permanecem oportunas, especialmente porque os defensores das energias renováveis exigem que a queda induzida pela pandemia se torne um “Ano Zero” no qual construir um novo baseado em energias renováveis.Moore nem por um momento se desvia de sua devoção à ortodoxia das mudanças climáticas. No entanto, ele não evita acusar nomes famosos como Bill McKibben, da 350.org, e o Sierra Club de se desculpar por um setor que, à sua maneira, é tão destrutivo quanto petróleo, carvão e gás natural, em muitos casos. exigindo o uso contínuo desses combustíveis “sujos”, muito difamados, a fim de manter a narrativa de que energia “limpa” pode sustentar a civilização.

O conceito de “biomassa” é especialmente revelado como uma piada cruel, o termo eufemístico que encobre o fato de que as florestas desmatadas são enquadradas como uma fonte de energia “sustentável”, porque as árvores que são alimentadas nos picadores de madeira “voltarão a crescer”.

O filme alega expor a realidade destrutiva das fontes de energia “renováveis”, apontando o fato de que os painéis solares exigem carvão e minerais de terras raras insustentáveis ​​para criar – e que os financiadores desses projetos são frequentemente as mesmas pessoas que fizeram fortuna com petróleo e gás.

Moore observa que os temidos Koch Brothers não apenas constroem usinas solares, mas fabricam um tipo especial de vidro usado para os painéis. Eles estão presentes em todas as etapas do processo de geração de energia solar anunciado como salvador da humanidade por um movimento que difunde seus inimigos como agentes dos mesmos Kochs.

Ao mesmo tempo, gigantes de grandes empresas como Michael Bloomberg (que absorve o gás natural com energia solar e eólica como fonte de energia renovável) e o magnata da madeira Jeremy Grantham são vistos como patrocinadores de projetos aparentemente amigos do ambiente que, em um exame mais aprofundado, meramente envolvem estuprar o planeta de um ângulo ligeiramente diferente.

Os críticos ambientalistas de Moore fazem alguns pontos válidos, principalmente porque grande parte de “Planeta dos Humanos” foi filmada anos atrás. Não está atualizado no limite sangrento da tecnologia renovável, e alguns dos cruzados ambientais cuja hipocrisia brilha tanto no filme desde então alteraram suas opiniões. Bill McKibben escreveu uma refutação detalhada, reclamando que não apóia mais os biocombustíveis, mesmo estando em filme se recusando a condená-los.

Mas os principais problemas com energia eólica e solar não foram resolvidos, e a insistência do cineasta Fox de que as alegações de Moore são invalidadas pela incorporação de compromissos de políticas renováveis ​​- ele na verdade cita o Green New Deal como “o mais importante avanço político em energia verde de todos os tempos ”- é risível.Tecnologia,Energia Eólica,Ciêcia,Energia,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Os compromissos “renováveis” de Nova York, como as faculdades e outras instituições apresentadas no filme, consideram os biocombustíveis sustentáveis, e o New New Deal em si não só não foi aprovado, como também oferece o roteiro mais vago em direção à sustentabilidade para alguns EUA futuros dispostos a passar isto.

Talvez o mais revelador seja a exigência dos críticos de que o filme seja retirado da circulação por ser “perigoso”. Mesmo que Moore fosse um “shill Koch Brothers que nega as mudanças climáticas” – o que ele claramente não é -, ele estaria longe de ficar sozinho no mundo do cinema on-line, já que muitos filmes correspondentes a essa descrição estão circulando diariamente sem encontrar tais oposição estridente de rebatedores ambientais.

Mas Moore tem credibilidade nos círculos “verde” e ativista, e sua exposição tem a capacidade de tirar o vento das velas dos movimentos populares que atualmente exercem pressão sobre instituições e governos para se livrarem dos combustíveis fósseis e investirem em “renováveis”. Quem sairia às ruas para exigir o desinvestimento de petróleo e gás, sabendo que o dinheiro investido em “renováveis” só voltará aos bolsos dos mesmos aproveitadores de combustíveis fósseis?

Há outras queixas no filme de Moore, é claro. Muitos apontaram seu foco aparente no que é eufemisticamente chamado de “controle populacional” como a única solução possível para o problema das mudanças climáticas. De fato, existem outras maneiras – como os maiores consumidores de recursos do mundo, o complexo industrial militar, encerrando suas atividades – de controlar o consumo humano.

Mas a maioria dos críticos “verdes” de Moore não discorda da noção malthusiana – e compreensivelmente questionável – de que os problemas da humanidade podem ser resolvidos “apenas” livrando o planeta de todas aquelas pessoas “excessivas”, e nem os oligarcas como Bloomberg e Grantham, cuja hipocrisia é exposta no filme.

De fato, os críticos do documentário e seu criador diferem apenas em sua disposição de perpetuar a ilusão reconfortante de que as mesmas pessoas que criaram a “crise” da mudança climática poderiam confiar para resolvê-la. Portanto, embora esses críticos possam ridicularizar Moore como um eco-fascista, são os assuntos de seu filme que realmente merecem esse apelido.

Quanto a quem é mais perigoso – as empresas que sugerem biomassa, seres vivos como plantas e animais, são um combustível sustentável para alimentar o futuro; ou um cineasta apontando sua hipocrisia – é melhor deixar para o espectador decidir.