Como a taxação de livros pode afetar os mais pobres

Projeto de reforma tributária do governo Bolsonaro prevê o fim da isenção para livros e taxação de 12%. Além de agravar crise do mercado editorial, mudança pode aprofundar desigualdades no país.

Proposta de taxar livros tem gerado forte repercussão no mercado editorial, que encolheu mais de 20% em uma década

Quando recebeu seu primeiro salário, aos 15 anos, Amaury de Sousa se dirigiu a uma loja da livraria Saraiva e comprou O Abusado, obra do jornalista Caco Barcellos. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, lembra. Ele finalmente poderia ler à vontade, sem o prazo que sua mãe estipulava para devolver os livros que tomava emprestado em uma das casas onde trabalhava como cuidadora de idosos. Tão recheadas eram as estantes, que um vão entre os títulos passava despercebido.

“Eu achava interessante aquelas prateleiras gigantescas e sempre gostei de livros, mas naquele tempo a gente não tinha condição de comprar. Ela me dava uma semana para ler, antes de devolver sem que ninguém notasse”, conta o jovem de 24 anos que foi criado e reside até hoje com a mãe na favela Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Cumprir o prazo era difícil, já que a mãe trazia para o menino de 12 anos clássicos como Microfísica do Poder, de Michel Foucault. “Eram livros muito técnicos. Às vezes eu não entendia nada, ficava voltando na mesma página várias vezes. Mas tinha uma curiosidade incontrolável para entender o mundo, os outros e eu mesmo”, recorda. Rapidamente, a leitura tornou-se a janela para o mundo que não existe no quarto onde dorme, sem luz natural.

Os livros representam para Amaury uma plataforma de transformação social. A bagagem cultural o colocou em vantagem no processo seletivo para atendente na Livraria da Travessa, onde trabalhou por dois anos e intensificou o mergulho literário. Hoje, ele cursa Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha em projetos audiovisuais.

Os saberes absorvidos e interpretados pelas lentes de sua realidade fizeram com que, desde cedo, despertasse a atenção de produtores internacionais. Ele acaba de roteirizar e filmar um documentário sobre a pandemia nas favelas do Rio para a emissora de televisão japonesa NHK.

Hoje, devido à situação financeira mais confortável, falta espaço na casa apertada para empilhar novos títulos. Toda vez que se depara com um curso que gostaria de fazer e não pode pagar, ele busca um livro que integre as referências bibliográficas. É assim que está aprendendo francês sozinho no momento.

“Valor dos livros cria distanciamento entre o jovem periférico e a literatura”, diz Amaury de Sousa, morador de Santa Marta

O fechamento de lojas físicas durante a pandemia, devido às medidas de restrições sanitárias, afetou ainda mais o setor. Em abril, o mercado livreiro registrou uma perda de 47% no faturamento em comparação ao mesmo mês em 2019, segundo o levantamento Painel Varejo de Livros no Brasil, feito pela Nielsen Bookscan.

“É preciso considerar que esse imposto tem um efeito cascata sobre a cadeia econômica do livro. Estimamos que a mudança possa aumentar o preço final em até 20%”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias e proprietário da editora Letraviva.

Gurbanov destaca que o encarecimento dos livros não terá impactos meramente econômicos. “Não é somente o ato de compra, mas o que o livro significa como veículo de transmissão de informações, conhecimento e produção cultural. Não só do Brasil, mas de todos os países. Os efeitos colaterais serão muito graves, e o Brasil vai pagar muito caro se esse projeto for aprovado”, avalia.

O argumento de Guedes

Para defender a mudança, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem defendido a ideia de que livros são consumidos por camadas de maior renda da população. Nesse sentido, a isenção não se justificaria. Para compensar o impacto sobre os mais pobres, Guedes defende a realização de doações pelo governo — sem explicar como isso seria feito — e a ampliação do Bolsa Família para essa finalidade.

“Vamos dar o livro de graça para o mais frágil, para o mais pobre. Eu também, quando compro meu livro, preciso pagar meu imposto. Então, uma coisa é você focalizar a ajuda. A outra coisa é você, a título de ajudar os mais pobres, na verdade, isentar gente que pode pagar”, disse o ministro durante audiência na Comissão Mista da Reforma Tributária.

Ao defender a ampliação dos programas de transferência de renda, Guedes argumentou que as camadas de menor renda estão mais preocupadas em comprar comida do que livros. “Num primeiro momento, quando fizeram o auxílio emergencial, estavam mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós frequentamos”, declarou Guedes.

Em artigo publicado recentemente na Folha de São Paulo, Luiz Schwarz, editor da Companhia das Letras, contestou a tese do ministro. Ele destacou que na última edição da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, realizada no ano passado, parte expressiva dos 600 mil participantes era de jovens da classe C.

“Na Flup [Festa Literária das Periferias], os dados são ainda mais eloquentes: do público total do evento, 97% se declaram leitores frequentes de livros, 51% têm entre 10 e 29 anos, 72% são não brancos, e 68% pertencem às classes C,D e E”, ressaltou.

Visão de curto prazo

A economista Juliana Damasceno, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), afirma que a reforma tributária deve priorizar uma redistribuição de tributos que vise a correção de distorções que penalizam a economia brasileira atualmente.

“A carga é o ponto final da reforma. A justiça social e estratégia econômica do sistema deveria ser o ponto de partida. Dentro dessa questão estratégica, fomentar educação deveria ser prioridade”, avalia.

Damasceno lembra que os retornos da educação para a economia no longo prazo são amplamente documentados. E defende que é preciso reconhecer a importância do setor de livros, ainda que represente uma parcela mais restrita da educação após os avanços da digitalização.

“Incentivar esse setor vai na direção contrária de aumentar sua carga, o que pode resultar em aumento do preço pro consumidor final. Governos tendem a ter visões mais ‘curto-prazistas’ quando a situação fiscal se aperta. Antes de um plano de recuperação desse forte desequilíbrio fiscal, é difícil pensar no longo prazo, e isso acaba penalizando áreas estratégicas como a educação”, analisa a especialista.

Frederico Fellini,Cinema,Blog do Mesquita

O Fellini que eu conheci

Ver Fellini filmando no auge da carreira é uma das coisas que nunca se apagaram da minha memória. Era uma festa.

Federico Fellini, nos anos 1970, nos estudios da Cinecittà.
Federico Fellini, nos anos 1970, nos estudios da Cinecittà. LOUIS GOLDMAN (GAMMA- RAPHO / GETTY IMAGES)

No último dia 20, o cineasta Federico Fellini completaria 100 anos.

O mundo inteiro começa a ressuscitar e celebrar esse gênio do celuloide, que atravessou as fronteiras de seu país para se transformar num personagem mundial, com seu neorrealismo e suas obras imortais.

O jornal me pediu que contasse algumas histórias de meus numerosos encontros com o diretor durante meus 18 anos como correspondente na Itália. A verdade é que cada encontro com ele acabava sendo uma epopeia. Porque Fellini se empenhava em dizer que ele não existia, que os jornalistas o tinham inventado. Era tímido como um adolescente e cheio de rituais. Por exemplo, era quase impossível que se dispusesse a conceder uma entrevista sem antes lançar mão de dois apetrechos dos quais não se separava nem no verão: um chapéu de feltro e um cachecol de lã. Sem eles, dizia, sentia-se nu. Sua timidez o levava às vezes a desconcertar os jornalistas jovens com seus rompantes. Lembro que ele alfinetou um desses repórteres, que o entrevistava para a RAI TV, logo após a primeira pergunta: “E ainda lhe pagam para fazer essas perguntas estúpidas?”

Essa cena se repetiu comigo, já jornalista veterano, quando ele marcou um encontro, após mil dificuldades, numa sala imensa de Roma. O jornal havia me pedido a entrevista para uma reportagem do suplemento de domingo, sobre os desenhos que um amigo de Fellini tinha preparado para um filme que se passaria no México e que nunca viu a luz.

O EL PAÍS mandou um fotógrafo de Madri. Sua tarefa, que se revelou hercúlea, era conseguir uma foto das caras juntas de Fellini e do desenhista. Algo quase impossível. O diretor combinou de se encontrar conosco num estúdio do centro de Roma, abarrotado de gente sua. Começou, como sempre, colocando dificuldades. Primeiro mandou que trouxessem o chapéu e o cachecol. Depois queria que na foto figurasse toda aquela gente sua. “Assim, todos juntos”, dizia. Suamos para convencê-lo de que tinha que ser uma foto só com as duas caras juntas. “Isso nem pensar, vamos parecer dois maricas”, falou prontamente. Quando por fim cedeu após muitas tentativas, e o fotógrafo conseguiu colocá-los juntos, Fellini se apaixonou pelos sapatos do meu colega. Perguntou-lhe onde os havia comprado. “Nos Estados Unidos”, respondeu. E Fellini: “Então já não gosto deles.” O fotógrafo, desesperado, aproveitou a distração e conseguiu a tão trabalhada foto.

Havia chegado a hora nada fácil da entrevista. Fellini queria fazê-la com todas aquelas pessoas e aquela confusão do camarim. Eu lhe disse que assim não seria possível, e ele então marcou comigo no dia seguinte, em outro lugar, às nove da manhã. Eu tinha medo de que ele não aparecesse. Esperei uma meia hora, e por fim apareceu com o chapéu e o cachecol. Sentamos ao redor de uma mesa enorme. Fellini tinha em sua mão um lápis e algumas folhas em branco. Parecia que era ele o entrevistador. Me disse que não poderia gravar. Fiz apenas anotações. E, já na primeira pregunta, mandou: “Puxa, que pergunta idiota!” Eu estava interessado em saber como nasciam os títulos tão originais de suas obras, e disse que o importante era que a resposta fosse inteligente. Sem me olhar, ele começou a rabiscar numa folha em branco. Depois levantou a cabeça e me explicou com calma, magistralmente, como nasciam os títulos das suas obras. Me explicou que nunca os tinha de antemão. Que começava a rodar e que o nome ia sendo engendrado nele como a criança no ventre da mãe, até nascer com sua personalidade.

Naquele entrevista, Fellini me contou um segredo: sua primeira vocação não havia sido o cinema, mas os desenhos animados. Quando criança, ele gastava todo o dinheiro que lhe davam em casa numa banca próxima para comprar gibis.

No meio da entrevista, o cineasta disse que não tinha mais nada a dizer e chamou seu secretário, um gordinho rechonchudo chamado Vicenzino, para que a prosseguisse com ele. Precisei usar toda minha experiência de jornalista veterano para convencê-lo de que outro dia entrevistaria Vicenzino, mas que agora queria conversar somente com ele.

Um dia, Fellini me deu um presente. Me deixou assistir, no Cinecitá de Roma, à rodagem de algumas cenas de seu terno filme Ginger e Fred. Ele havia convocado uma série de anões que atuariam no filme. Foram tantos que aquilo mais parecia uma reunião da categoria. O diretor tinha que escolher, e os anões se agarravam a ele suplicando. Fellini sempre foi enormemente humano, e talvez por isso parecesse um adolescente. Pude ver o carinho que dedicava àqueles anões. E ele me contou que costumava usar mulheres gordíssimas em seus filmes porque sua primeira experiência sexual, quando adolescente, foi com uma mulher muito gorda —e desde então tinha muito respeito por elas.

Ver Fellini filmando no auge da carreira é uma das coisas que nunca se apagaram da minha memória. Era uma festa.

Ele era tão tímido, e os jornalistas lhe davam tanto medo, que foi muito difícil levá-lo para a Stampa Estera, onde eu e outros 40 correspondentes trabalhávamos juntos, como as outras personalidades que costumávamos convidar para discussões. Por fim, numa tarde Fellini cedeu e anunciou que iria. Todos nós o esperamos numa sala. Ele demorava a chegar, e imaginamos o pior: que ele tivesse se arrependido. Saí por um instante, fui até o bar ao lado do edifício e ali o encontrei já de chapéu e cachecol, com algumas moedas na mão para dar um telefonema. Me apresentei e disse que os correspondentes o esperavam. “E eu estou telefonando para dizer que não vou porque, realmente, não tenho nada de novo para dizer a vocês.” Finalmente o levei à Stampa Estera.

Como sempre, ele começou explicando que já tinha dito tudo em seus filmes. Bastava vê-los e saberíamos tudo sobre ele. Meu colega Domenech, então correspondente da revista espanhola Interviu, quebrou o silêncio e lhe disse algumas coisas que havia visto em seu último longa E La Nave Va. Quando Domenech terminou, Fellini respondeu irônico: “Que maravilha. E eu sem saber que havia querido dizer todas essas coisas!”.

Numa manhã, quando foi publicado um livro que reunia várias entrevistas com ele, nós lhe perguntamos o que tinha achado. Respondeu: “Maravilhosas todas, porque Fellini não existe. Muita fantasia têm os jornalistas. Cada um criou um Fellini à sua medida”. Assim era ele, genial, tímido, humano, desapegado até de sua obra e um dos maiores do cinema mundial.

Dizem que cada cineasta tem um filme que o tornou famoso. Com Fellini é difícil fazer esse exercício, já que cada uma de suas obras poderia ser a melhor. Quem poderia dizer que Amarcord é melhor que A Doce Vida? Ou que Roma de Fellini? Ou Oito e Meio? Ou Noites de Cabíria? Ou A Estrada da Vida? Ou Casanova de Fellini? Ou o terno Ginger e Fred? Ou A Voz da Lua? Ou E La Nave Va?

Dizem que Fellini era o mais italiano do imenso conjunto de cineastas de seu tempo. Sem dúvida era o mais original. E isso que com ele, naqueles anos, pululavam cineastas também imortais como Pasolini, Visconte, Rosellini, Zeffirelli, Antonioni e Bertolucci. Foi a época de ouro do cinema italiano, que conseguiu conquistar o mundo. Ter podido conhecê-los e entrevistá-los é um dos maiores presentes do meu trabalho como correspondente em Roma.

E se Fellini era para mim o mais original, Pasolini era um gênio da inteligência, multifacetado porque era também poeta, semiótico, escritor, político crítico e profeta até de sua própria morte violenta. Homossexual como era, durante um jantar em Assis estava rodeado de mulheres extasiadas por escutá-lo. Num momento me confiou: “E pensar que morrerei sem conhecer a alma feminina”. Era um libertário que conseguia ser adorado por todos. E curioso como um gato.
JUAN ARIAS

Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita 02

Fatos & Fotos – O dia todo sendo atualizado – 20/01/2020

Embalando o meio dia desta segunda-feira com Gal Costa “Força Estranha”, de Caetano Veloso


Embalando esta manhã de segunda-feira com Céu & Herbie Hancock “Tempo De Amor”


“Davos verde debate reforma do capitalismo” Hahahahahaha.
Reforma? Hahahahahahahaha.
Reforma do Capitalismo? Hahahahahahahahah.
Hilários esses filhotes de Hayek.
Só muito marafo para ostentar uma alucinação desta.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita


Direto da caixa de produzir idiotas

Ana Maria Braga acaba de proferir uma “pérola” na Globo: “O estreito de Gibraltar liga o Oceano Atlântico ao Pacífico!’Certamente ela dirá que o Canal do Panamá liga o Atlântico ao Mar Mediterrâneo’.”
“K-ralho!” “Imprecionante”. Diria o Sinistro da Deseducação
Nem a Roseana Collor com as Pirâmides do Egito em Paris, consegue competir com essa Ana Ameba Praga.

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 10

Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

Literatura,Poesia,Cultura (2)

Raynaldo Valinho Alvarez – Poesia

A Essência não se Perde
Raynaldo Valinho AlvarezArte,Escultura,Blog do Mesquita,Pé

Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar a partida, sem temer
deixar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai conosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
é lançada dos músculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, moram neles,
não como o minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

Começa assim; A praça da ignorância

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

De praça, quase não tem nada: não há banco para descanso, árvore ou gramado. Parece mais um calçadão, que liga a avenida Unter den Linden à rua Behrenstrasse. No meio da Bebelplatz, no entanto, algo chama a atenção dos mais atentos: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão. Dentro dele, prateleiras brancas vazias.

O monumento lembra um dos episódios mais emblemáticos do período nazista. Em 10 de maio de 1933, livros de intelectuais considerados críticos ou que não se encaixavam no padrão pregado pelo regime de extrema direita comandado por Adolf Hitler foram queimados em praças públicas em várias cidades da Alemanha.

Em Berlim, o palco deste ato de intolerância foi a Bebelplatz, que na época era chamada de Praça da Ópera. Em frente à praça estava o prédio da Universidade Humboldt de Berlim. Muitos universitários participaram deste ato de barbárie. Os livros queimados pertenciam principalmente às bibliotecas públicas e universitárias.

Para não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vaziasPara não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vazias

Entre os autores dos livros queimados estavam Karl Marx, Friedrich Engels, Sigmund Freud, Stefan Zweig, Thomas Mann, Bertold Brecht, Erich Kästner, e Ricarda Huch. A maior parte da “lista negra” dos extremistas de direita era composta por obras de Ciências Humanas. Deveriam ser banidos, sobretudo, livros de filosofia, sociologia, história e ciências políticas que colocassem em xeque a ideologia do regime ou abrissem espaço para um debate.

A queima dos livros marcou o auge da perseguição aos intelectuais, que havia começado lentamente e vinha sendo praticamente ignorada pela opinião pública por muito tempo. A propaganda era alma do negócio para atrair seguidores.

Primeiro foi publicado um manifesto defendendo a cultura alemã e pregando acabar com supostas mentiras. Logo em seguida veio a perseguição a professores. Estudantes deveriam denunciar professores judeus, comunistas e aqueles que fizessem críticas ao regime ou a Hitler.

Depois veio a decisão de banir livros de intelectuais que “alienavam a cultura alemã”. Obras foram saqueadas de bibliotecas e, em 10 de maio de 1933, jogadas em fogueira pública. Em Berlim, o ato símbolo da intolerância contou com a presença de Joseph Goebbels – o ministro da Propaganda do regime nazista.

Hoje na Bebelplatz, próximo ao monumento que lembra deste episódio histórico, há uma placa com a frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” A frase, escrita décadas antes, soa como uma premonição dos horrores que estavam por vir nos anos seguintes…

A Bebelplatz ganhou esse nome após a Segunda Guerra Mundial, mas poderia muito bem ser chamada de praça da ignorância. Afinal, marca o episódio que visava combater o conhecimento, a capacidade de reflexão proporcionada pela leitura e silenciar qualquer debate crítico. Ao acusar intelectuais, o regime nazista buscava a hegemonia de seu viés ideológico de extrema direita e promovia a ignorância como meio de manipulação da população.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã.

Literatura,O Homem Universal,Filosofia,Blog do Mesquita

O homem universal

Literatura,O Homem Universal,Filosofia,Blog do MesquitaPintura de Fritz Wagner – O que é o homem universal?

Os mosteiros, com suas grandes bibliotecas, eram o centro do saber na Europa antes do surgimento das universidades. Na verdade, foi a partir deles que algumas das primeiras universidades surgiriam. O que torna o monge medieval um homem universal? Por influência da Antiguidade Clássica, na Idade Média ensinava-se as Sete Artes Liberais, aprimoradas nesse período, que eram a base do saber: o Trivium (lógica, gramática e retórica) e o Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). O clero era educado nelas, principalmente os padres. Era um requisito indispensável para os padres aprender o latim e algumas vezes também o hebraico e o grego, para um estudo aprofundado da Bíblia.

Além de padres e muitos monges terem essa base nas Sete Artes Liberais e conhecimento de idiomas, eles estudavam filosofia e teologia. Nos mosteiros, os monges repetiam, e repetem até hoje, os salmos na Liturgia das Horas tantas vezes por dia que alguns sabem os 150 salmos de cor. É comum que citem de cor muitas passagens dos Evangelhos ou mesmo algumas do Velho Testamento. Houve vários monges que também foram cientistas. Um dos exemplos mais óbvios é Gregor Mendel, o pai da genética: biólogo botânico e monge agostiniano. E um padre e físico belga, Georges Lemaître, criou a teoria do Big Bang.

Mas voltemos aos monges. Além de muitos terem inúmeros conhecimentos intelectuais em diversas áreas do saber, todos eles possuem uma categoria muito especial de conhecimento: o manual. Assim como os pintores renascentistas, vários monges, frades e padres se destacaram na habilidade com a pintura, a exemplo de Fra Angelico, frade dominicano. Nos mosteiros sempre foi muito comum que os monges aprendessem as artes da pintura e da caligrafia e preparassem as belas iluminuras dos pergaminhos medievais. Mas os conhecimentos do monge medieval não acabam aí. Eles aprendiam a cozinhar, preparavam as próprias comidas e até vendiam artigos como pães, biscoitos, geleias e cervejas artesanais, tudo feito por eles mesmos. E fazem isso até hoje.

Isso é tudo? Não, alguns monges fazem esculturas, costuram, dentre outras habilidades manuais, dependendo dos artigos que vendem nas lojas dos mosteiros. E além disso, eles também fazem sua própria limpeza: varrem e lavam o chão, lavam os pratos. Lavam a própria roupa.

Os filósofos da Antiguidade Clássica colocavam os trabalhos intelectuais acima dos manuais porque tinham escravos.

Aristóteles e outros filósofos da Antiguidade Clássica colocavam os trabalhos intelectuais acima dos manuais porque tinham escravos para fazer para eles trabalhos como cozinhar, lavar e limpar. Na Idade Média e com o cristianismo houve uma valorização de trabalhos do campo como a agricultura. E aqui encontramos mais uma habilidade de muitos monges medievais: plantar, já que muitos plantavam e colhiam a própria comida. E cortavam a própria lenha para se aquecer no inverno. Além disso, sempre foram excelentes anfitriões, recebendo e hospedando viajantes que chegassem.

Portanto, o monge medieval, além dos conhecimentos intelectuais em várias áreas, também sabia pintar, esculpir, fazer caligrafia (os monges copistas), costurar, cozinhar, limpar, plantar e tudo mais que fosse necessário à sobrevivência, pois eles não tinham nenhum empregado para fazer isso para eles. Num mosteiro todos devem fazer um pouco de trabalho intelectual, manual e braçal.

Será mesmo que o homem urbano renascentista, que conhece a fundo filosofia, ciência e engenharia, sabe pintar e esculpir, mas talvez não saiba plantar, cozinhar, costurar e limpar, é mais universal que o homem medieval, principalmente se falamos de um monge medieval?

E será que não é particularmente interessante que todos saibam um pouco dos trabalhos braçais e auxiliem com eles, como ocorre em mosteiros, ao invés de considerá-los em segundo plano, como inferiores, enquanto o homem universal renascentista se coloca num pedestal com seus trabalhos intelectuais e artísticos superiores?

Buraco Negro,Blog do Mesquita

Sobre buracos negros e a banalidade da vida terráquea

Buraco Negro,Blog do Mesquita
“Quem sabe lá, onde o tempo como o conhecemos acaba e a realidade nos suga para dimensões desconhecidas, seja possível superar a sina triste das sociedades incapazes de enxergar a si mesmas”

“E no entanto… no entanto… negar a sucessão do tempo,
negar o eu, negar o universo astronômico
são desesperos aparentes e consolos secretos…
O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio;
é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre;
é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.
O mundo, desgraçadamente, é real;
e eu, desgraçadamente, sou Borges.”

Jorge Luis Borges, “Uma refundação do tempo”, em Outras Inquisições

Num dia como o de hoje, como de ontem na verdade, a primeira imagem de um buraco negro foi divulgada. O feito é resultado do trabalho de uma série de cientistas que, para dizer de forma resumida e um tanto vulgar, triangularam imagens e informações capturadas por dezenas de satélites – foram feitos 420 cenários físicos diferentes – que integram o projeto Event Horizon Telescope – EHT. Para desespero cético dos terraplanistas, a publicação do estudo foi feita no The Astrophysical Journal Letter, um dos mais importantes periódicos da área.

Na imagem divulgada, um círculo de luz em tom avermelhado ocupa a parte central de uma imagem escura com o miolo igualmente negro. Albert Einstein, em sua Teoria Geral da Relatividade, publicada 100 anos atrás, denominou os buracos negros dessa forma porque sua imensa massa de matéria concentrada gera uma gravidade tal que qualquer fóton ou estrela que passe perto dele é engolido. Sem contrariar a tese de Einstein, o que a imagem mostra em vermelho, laranja e amarelo é o disco de acreção, que se forma pelo movimento orbital e aquecimento das matérias que são atraídas para o centro do buraco negro.

Distante 50 milhões de anos luz de nós, este buraco negro é do tamanho de três milhões de planetas terras. Sim, três milhões de vezes maior que esse ínfimo lugar no infinito do cosmos, onde 7 bilhões de seres humanos convivem em menos harmonia do que deveriam, embora de maneiras um tanto quanto pacíficas quando se leva em conta o grau de violências a que a maior parte das populações são submetidas. O abismo cósmico que nos separa do buraco negro recém descoberto bem que poderia nos parecer incompreensível, sobretudo por sua escala, mas quando se trata de produzir abismos, principalmente sociais, somos bastante mais competentes que os seres regidos pelas leis do universo.

Poucos anos atrás o banco de investimentos Credit Suisse divulgou dados sobre a desigualdade no mundo. O estudo dava conta que 1% da população mundial possui cerca de 45% de toda a riqueza produzida no globo. Nesse mesmo planeta, que orbita em um universo que tende à entropia, a vida biológica opera em sentido contrário. As mais variadas espécies crescem e se multiplicam, dentre elas a humana, melhor dizendo, a despeito da espécie humana. Num paradoxo quase irreconciliável, 70 milhões de pessoas que nasceram no mesmíssimo planeta têm o direito à vida negado. Para todos eles inventaram eufemismos estranhos, como “refugiados”, “migrantes”, “pobres”, quando na verdade são, simplesmente, pessoas humanas. Diante de um cenário em que, em nome da economia, o sacrifício das gentes não somente é tolerado, mas celebrado debaixo de nossas barbas, a economia alega obedecer, da maneira mais vulgar possível – não raro evocando-se como justificativa irrefutável –, o que ela chama de “leis da natureza”. Os papas da economia, com seu assustador determinismo, definem os rumos da vida no planeta terra com uma certeza capaz de ruborizar, inclusive, a face desconhecida da mão invisível.

Para Ilya Prigogine, autor de O fim das certezas. Tempo, caos e leis da natureza (2011), a plasticidade do tempo opera no vão entre o determinismo absoluto e o puro acaso. A economia neoliberal é, talvez, o mais sofisticado e eficaz buraco negro produzido nesse diminuto planeta da Via Láctea. Trata-se uma força de atração que suga vidas para seu centro em nome da própria existência, sem dar-se conta de que, de forma radical, opera entropicamente. Em uma entrevista ao jornalista catalão Jordi Évole, o Papa Francisco salientou que nos esquecemos de chorar, ao fazer memória das vítimas da política anti-imigracionista da Europa, todas elas mortas no paradisíaco Mediterrâneo ou nos conflitos deflagrados na África e Oriente Médio. De certa forma, na Venezuela a situação guarda suas semelhanças.

Nossos modos de vida se tornaram de tal forma pusilânimes com a dor do outro, que nosso choro foi engolido pelo vórtice de uma economia sacrificial que nos levou ao buraco negro da humanidade. É o tempo como desgraça existencial, tal qual na versão de Borges, do qual somos indiscerníveis. Há, no entanto, a memória e a sucessão do tempo. Talvez coubesse lembrar, nos dias pascais que se sucedem, que a figura mais conhecida do Ocidente, Jesus Cristo, deu sua vida como último sacrifício. Depois disso, todo o sacrifício, quer em sentido histórico, teológico ou social, é uma forma estúpida de satisfação hedonista. Em meio à relatividade múltipla do tempo, cientistas fotografam a existência de um buraco negro. Provam-no, enfim. Quem sabe lá, no buraco negro, onde o tempo como conhecemos acaba, onde a realidade nos suga para dimensões ainda desconhecidas, nós encontremos as lágrimas que esquecemos de chorar por nossos irmãos mortos.

Ricardo Machado é jornalista e doutorando em Cultura e Significação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Rui Zink,Literatura,Blog do Mesquita

Rui Zink – Litertura

Rui Zink,Literatura,Blog do MesquitaO Amor Nunca Salva, mas alguém Tem uma Ideia Melhor?

Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são histórias de amor. Só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas que eu próprio não tinha reparado. Às vezes, amo entre duas pessoas, outras de amor entre uma pessoa e uma ideia. Idalina enamora-se por «uma dança sem música». Sam Espinosa apaixona-se por uma mulher uns anitos mais velha (duzentos, coisa pouca), Greg quase é salvo da perdição por uma sósia de Angelina Jolie. O amor está no ar e também, como diria um poeta, o amor está no mar. O amor não salva, nunca salva, mas alguém tem uma ideia melhor?

Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte: e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão, claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, essas coisas. Pode-se lá chegar à natureza, nos dias que correm, senão pela televisão! Três rolos modelos logo me saltaram à vista: o Amor do Louva-a-deus; o Amor do Cisne; o Amor do Urso Polar.

Após alguma esmiuçação, concluí que qualquer um me parece bem, e tem as suas vantagens e desvantagens.
No romance do louva-a-deus, a fêmea devora o macho depois da cópula. É natural, toda a gente sabe que a gravidez estimula o apetite. E seria bem pior se ela o devorasse antes da consumação.

O cisne acasala para a vida. É bonito. Lembra certos parzinhos que encontramos sobretudo na noite boêmia, muito perfeitos, muito encapsulados, o mundo é deles, o mundo são eles. Gosto, mas como nunca experimentei sinto-me sempre um bocadinho do outro lado da vitrina, a definhar de inveja.
Pronto, confesso. O que, esse sim, me toca profundamente é o amor do urso polar. É esquivo, dura pouco – pelo menos a parte do encontro. Urso polar e ursa polar namoram e acasalam brevemente, e logo se apartam, cada um para seu lado, para todo o sempre, a fêmea talvez com uma cria, o macho continuando a sua caminhada, glaciares fora, de nenhures em direção a nenhures.
Vai solitário e triste, o nosso urso? Talvez. Eu gosto de pensar que vai de coração cheio, e que a brevidade do encontro é compensada pela intensidade da memória. Tanto quanto sei, não há ursos com Alzheimer.

Rui Zink, in “O Amante é Sempre o Último a Saber”

BG,Boca,Blog do Mesquita,Fotografias,Flickr

Helena Verdugo Afonso – Poesia – Literatura

Insatisfeita
Maria Helena VerdugoBG,Boca,Blog do Mesquita,Fotografias,Flickr

Enfim, posso morrer! Já te beijei
a linda boca perfumada e quente,
num beijo longo, divinal, fremente,
um beijo aonde toda me entreguei..

Não me conheço agora. Já nem sei
se fiz bem, se fiz mal. Minha alma ardente
sofria por um bem que tinha ausente,
e morro na ventura em que fiquei…

É assim, o meu amor: eu, que vivera,
na crença de esperança já perdida,
tenho de ti o bem que apetecera!

Por esse beijo, vivo tão dorida,
que, para ser feliz, antes valera
ficar a desejá-lo toda a vida!..