As ambiguidades da ajuda humanitária; A indústria da pobreza.

Essencial para a sobrevivência de milhões de pessoas no mundo – refugiados, deslocados, famintos, doentes etc. –, a ajuda humanitária mobiliza bilhões de dólares por ano.*

Para Estados, entidades civis e indivíduos, ela constitui com frequência um poder de fato, capaz de impor escolhas e normas. Os assistidos, porém, nem sempre saem em vantagem

Em dez anos, o montante gasto em ajuda humanitária em todo o mundo aumentou cinco vezes, atingindo US$ 28,9 bilhões em 2019.

Esse crescimento financeiro é acompanhado de uma proliferação de estruturas, desde a associação local criada por alguns voluntários até a ONG internacional, passando por agências e programas das Nações Unidas e pelo Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. No entanto, a diferença entre os fundos disponíveis e as necessidades continua a aumentar, em especial por causa do surgimento de crises: conflitos armados, desastres relacionados às mudanças climáticas e urbanização acelerada afetam mais pessoas, por mais tempo. O número de vítimas de desastres em 2018 foi estimado em 206 milhões.

A diferença se deve também às disfunções específicas da ajuda internacional, que a impedem de alcançar seus objetivos: falta de coordenação, desconhecimento em relação às áreas de intervenção, não proximidade com atores locais. Essas anomalias, embora conhecidas e identificadas há muito tempo, são repetidas sistematicamente, operação após operação. As justificativas habituais – a obrigação de agir com urgência, a rápida renovação da equipe, a ausência de memória institucional – mascaram causas estruturais, entre as quais a principal é a assimetria na relação entre os atores.

De fato, em 2017, dois terços do financiamento humanitário global foram alocados em apenas doze ONGs (entre elas Save the Children, Comitê Internacional de Resgate [IRC], Médicos Sem Fronteiras, Oxfam e Visão Mundial) e instituições da ONU,ou seja, 22 vezes mais que os recursos direcionados a operadores nacionais e locais.

Assim, certas organizações internacionais capturam o maná concentrado no hemisfério norte – sendo os Estados Unidos, a União Europeia e alguns Estados do Velho Continente, de longe, os principais doadores. Nos últimos anos, no entanto, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se tornaram também doadores significativos, juntando-se à lista dos vinte principais fornecedores de recursos. Isso se deve à estratégia de reposicionar esses países no cenário regional e internacional, em um contexto marcado pelas guerras da Síria e do Iêmen.

O mito da vítima desamparada
A ajuda humanitária é construída de cima para baixo, de seus financiadores e doadores, a quem é preciso prestar contas e que decidem, na prática, as prioridades e os locais de intervenção. O próprio curso da intervenção – dominado pela urgência, o uso do inglês, a convergência dos perfis sociológicos e códigos culturais de sua equipe “sem fronteiras” – reforça essa dinâmica, que floresce à custa de atores locais e, por meio deles, de assistidos.

Dos US$ 2,4 bilhões arrecadados pelas Nações Unidas após o terremoto de 2010, as ONGs haitianas e o governo local receberam diretamente apenas uma pequena fração: respectivamente 0,4% e 1%. Assim, eles se limitaram ao papel de meros subcontratados de uma reconstrução guiada remotamente em nível mundial. É um caso extremo, mas não isolado, de Estados do Norte financiando seus próprios projetos por meio de suas próprias ONGs. As capacidades locais, consideradas insuficientes em vista dos requisitos contábeis e burocráticos impostos pelas instituições de países ricos, são depreciadas, se não desprezadas. Elas recebem apenas 3% da ajuda direta.

Percebendo essa assimetria, os principais doadores e organizações, reunidos em Istambul para a Primeira Cúpula Humanitária Internacional, em 23 e 24 de maio de 2016, comprometeram-se a reservar um quarto do financiamento para estruturas locais e nacionais, às quais os subsídios seriam pagos “o mais diretamente possível” (princípio da “localização”), até 2020. Essa decisão se explica em parte pelos resultados da pesquisa citada anteriormente, realizada entre maio de 2014 e fevereiro de 2015 em cinco países do Oriente Médio e norte da África com 1.231 pessoas “beneficiárias” de ajuda humanitária internacional.

Eles foram convidados a classificar suas opiniões em uma escala de 1 a 10; a média das respostas foi inferior a 3. Essa avaliação parece confirmar outra pesquisa realizada em 2018 com cerca de 5 mil pessoas em sete países: mais de 80% dos inquiridos no Iraque e no Líbano não consideravam que o apoio obtido lhes permitia autonomia, e a maioria deles achou que sua opinião era pouco ou nada considerada.

Esses resultados revelam o lado impensado da ajuda humanitária: a figura da vítima. As vítimas são percebidas, contra todas as evidências, como impotentes e passivas, embora sejam elas mesmas que, nas primeiras 24 horas, salvam o máximo de vidas à sua volta, antes da chegada de organismos externos (e da mídia). Há tempos, em 2004, o então secretário-geral da Cruz Vermelha Internacional, Markku Niskala, clamava que a ajuda humanitária deveria “dissipar o mito da vítima desamparada e da ajuda internacional infalível e colocar as pessoas afetadas por catástrofes, bem como suas lideranças, no centro do nosso trabalho”. Se, quinze anos depois, o mito persiste, é porque esse é o cerne da representação dominante que o setor faz de si mesmo – e que lhe convém.

Imagens do caos, vítimas apáticas e estados do Sul incapazes, corruptos ou totalitários (ou tudo isso ao mesmo tempo) confirmariam a necessidade de ação no exterior. O desencanto político e a certeza de pertencer ao lado do bem confirmariam essa legitimidade – em detrimento de outros tipos de análise. Longe de ficarem calados, os assistidos são muitas vezes silenciados por seus próprios Estados, pela pretensão do setor de se autorregular e pela multiplicação de relatórios internacionais. A história oficial da ajuda humanitária pode ser resumida como uma inocência constantemente equivocada, mas sempre reabilitada em nome da pureza de suas intenções e, acima de tudo, da salvaguarda necessária de sua independência. Essa narrativa obscurece outras relações de poder em jogo em operações de socorro.

O primeiro exercício desse tipo foi a avaliação conjunta da ajuda de emergência levada a Ruanda durante o genocídio de tútsis em 1994: a ação sublinhou como os trabalhadores humanitários estrangeiros e os jornalistas recém-desembarcados, confundindo visibilidade e eficiência, construíram conjuntamente uma leitura “salva-vidas” para os acontecimentos, imediatamente compreensíveis pelos espectadores do Norte, mas obscurecendo as lógicas militar, diplomática e política em jogo por trás dos fluxos de refugiados, bem como a falta de antecipação e coordenação dos atores internacionais. A intervenção humanitária serviu de cobertura para a cegueira e paralisia ocidentais, enquanto o problema deveria ser abordado em outra linha e exigia uma solução política. No fim das contas, a grande maioria das vítimas não morreu por falta de ajuda, e sim porque foi massacrada.

Vinte e cinco anos depois, permanece o mesmo sistema narrativo, que recodifica situações de injustiça e desigualdade – fruto de escolhas políticas – como tendo causas naturais, quando não atribuídas a maldições. Em janeiro de 2006, um estudo sobre o processamento de informação por cerca de sessenta jornais e periódicos em nove países ocidentais concluiu que não havia ligação entre a escala de um desastre e sua cobertura da mídia, esta última vinculada a considerações econômicas e estratégicas dos Estados do Norte.

Assim, em 2004, o impacto do tsunami no Oceano Índico na indústria do turismo ocupou um lugar desproporcional na mídia. Inversamente, quanto mais cobertura da mídia sobre um desastre, mais organizações são atraídas e mais elas se lançam em uma corrida por visibilidade que coloca em risco qualquer esforço de coordenação entre elas. Ir para o campo é tornar-se visível (credibilidade), garantir financiamento (viabilidade) e reforçar a natureza imperativa de sua ação (legitimidade). A pertinência da ação tem pouca importância diante da oportunidade de mercado que se tornou.

O acesso privilegiado a subsídios, mídia e tomadores de decisão permite que os humanitários exerçam um poder cujas consequências são proporcionais ao não reconhecimento desse processo.12 O princípio da localização do auxílio, adotado pela cúpula de Istambul, não será eficaz se estiver “descolado das questões de injustiça, desigualdade e assimetria de poder”, diz Regina Salvador-Antequisa, diretora da Ecosystems Work for Essential Benefits Inc. (Ecoweb), uma ONG filipina.

O dinheiro e o tempo investidos na construção de infraestrutura, proteção civil, serviços públicos e preparação para desastres estão provando ser mais eficazes do que responder a eles em situações de urgência, por mais rápida que sejam essas respostas. Em 2015, a ONG norte-americana Mercy Corps enviou uma pequena equipe para avaliar as necessidades após o furacão Pam, que atingiu Vanuatu. E teve a valentia de desistir da intervenção quando descobriu que o governo e as agências locais eram suficientemente abastados e organizados.

Sem a mesma lucidez, durante o terremoto de 2015 no Nepal, os países europeus despacharam para Katmandu, sem nenhuma coordenação, quinze equipes de ajuda humanitária que desafiaram as realidades regionais: mais perto do cenário do desastre, China, Índia e Paquistão já estavam lá. O resultado: um fardo de logística e coordenação, e um aeroporto saturado, que atrasou a chegada de aviões franceses, belgas e neozelandeses em vários dias, tornando a ação inútil.

Esses descalabros podem explicar por que, após o terremoto em novembro de 2018, o governo indonésio canalizou e limitou a atuação de atores estrangeiros. A auto-organização dos “beneficiários” é inda mais estimulante: “Se quisermos resolver nossos problemas, devemos fazer isso sozinhos. As organizações internacionais são apenas coadjuvantes”, disse Mohib Ullah, anfitrião de uma greve de associações locais nos campos de refugiados rohingyas em Bangladesh, em novembro de 2018.

Como convocar tomadores de decisão quando, ao mesmo tempo, isso ajuda a despolitizar as relações sociais e promove uma eficiência que se vale da imagem de impotência pública do outro? Em paralelo, a ajuda humanitária tende a se tornar o nome oculto do que na verdade é a política: a política institucional não diz mais seu nome e segue esse caminho para compensar sua inação – a Palestina é um caso emblemático – ou, pelo contrário, para catalisar sua ação.

Parafraseando o geógrafo David Harvey, poderia se falar em privatização por meios humanitários. Nos países em questão, não estamos testemunhando uma “ONGização” de serviços sociais? A ajuda internacional, portanto, tende a substituir os sistemas públicos de saúde, que continuam sendo os meios mais eficazes de salvar vidas. O oposto da política não é o humanitário: é outra política.

*Frédéric Thomas é cientista político, pesquisador do Centro Tricontinental (Cetri) e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Liège, Bélgica.

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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“Estados-nação são rígidos demais para problemas de hoje”

Economia,Ciência Política,Literatura,EconomiaFronteira dos EUA com o México: para autor, precisa-se de novas instituições, em substituição ao Estado.

Mundo afora, fala-se em crise de representatividade nas democracias e problemas estruturais do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, como a concentração de renda e o entrave ambiental. Apesar da delicadeza dessas questões, as soluções fora do script não costumam ser bem-vindas nos fóruns mais respeitados. Mas foi justamente essa ousadia que tiveram os economistas Eric Glen Weyl, pesquisador da Microsoft, e o jurista Eric Posner, da Universidade de Chicago, autores do livro Mercados radicais: deslocar o capitalismo e a democracia para uma sociedade justa. O livro gerou debates acalorados nos EUA no ano passado.

Na argumentação dos autores, quase todos os alicerces do atual modelo político-econômico são colocados em xeque: do Estado-nação, que seria incapaz de dar conta de problemas transfronteiriços, à propriedade privada, responsável, segundo eles, pela concentração de poder e aniquilamento da concorrência.

Engana-se porém, assegura Weyl, quem pensa tratarem-se de ideólogos da esquerda. As propostas apresentadas visam à radicalização do capitalismo, diz o autor, que esteve no Brasil neste mês para apresentar o livro em importantes polos de pensamento do país. Entre eles, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, centro de formação do atual ministro da Economia, Paulo Guedes, cujas ideias defendidas são alvo de fortes críticas de Weyl, ex-professor da Universidade de Chicago, onde Guedes fez mestrado e doutorado

DW: Por que você acredita que o atual modelo econômico é incapaz de garantir a livre concorrência?

Eric Glen Weyl: A maior parte do valor no mundo moderno vem do que os economistas chamam de “efeitos de rede”. A ideia é que quando todos nós interagimos juntos em modelos como cidades ou plataformas digitais, podemos criar mais valor juntos do que o total que cada um poderia alcançar separadamente. Tais sistemas naturalmente levam ao monopólio e à desigualdade se forem tratados como propriedade privada. Eles criam o monopólio porque um indivíduo recebe o poder de ditar como o sistema deve funcionar a todos nós que criamos o valor. E geram desigualdade porque se apropriam desse valor coletivo e o canalizam para um pequeno grupo de capitalistas e empreendedores. Se queremos realmente restaurar a concorrência e os mercados, precisamos superar esse modo individualista de pensar sobre o valor social que criamos nas redes.

Se o “fundamentalismo de mercado” não assegura o crescimento econômico e leva à concentração, por que a defesa desse modelo ainda é tão poderosa no debate público?

O problema fundamental é que todos sabem que os mercados e a democracia alimentaram um crescimento sem precedentes e que as economias socialistas planificadas fracassaram em grande parte. Nesse contexto, é tentador dizer apenas que o capitalismo e as democracias baseadas no modelo Estado-nação, tal como existem hoje, resolverão todos os nossos problemas. A dificuldade é que as pessoas estão confusas sobre quais aspectos do sistema de mercado tiveram sucesso e quais, ao contrário, inibiram o crescimento. Em particular, enquanto a flexibilidade e o dinamismo dos mercados, associados à a capacidade de resposta das democracias, foram cruciais para o crescimento das economias modernas, a propriedade privada herdada do feudalismo e o foco historicamente arbitrário nos Estados-nação impediram a mudança necessária para um futuro mais dinâmico. A inovação social é tão importante quanto a inovação tecnológica para criar um futuro sustentável e progressivo, uma lição que muitos esqueceram.

Um pilar de sustentação do modelo econômico proposto em seu livro é a tributação proporcional à renda e ao valor do patrimônio. No Brasil, analistas liberais costumam classificar a proposta como intervencionista. Eles alegam, ainda, que tais medidas geram a fuga de investimentos.

O problema é que a maioria dos impostos tem sido historicamente administrada e aplicada por Estados-nações, mas não precisam ser. Utilizando um exemplo incomum, muitas pessoas religiosas taxam a si próprias e pagam esses dízimos para uma instituição religiosa. Há “impostos” embutidos em muitas plataformas de criptomoedas e blockchainque pagam o funcionamento de suas operações. Nós propomos sistemas para alocar a receita de impostos que não exigirão muita burocracia estatal – se é que haverá alguma.

O argumento da fuga de investimentos é confuso. O investimento é impulsionado por três fatores: a oportunidade disponível, a flexibilidade para buscar essa oportunidade e a fração do retorno que é possível manter. Enquanto este último terá uma ligeira redução sob este imposto, é de longe o menos importante. Os dois primeiros irão se expandir drasticamente à medida que os bens públicos que criam oportunidades de investimento, como pesquisa fundamental e infraestrutura social, expandirem-se em larga escala. O imposto, ao tornar a propriedade muito mais flexível, facilitará demais os investimentos. Compare a Escandinávia, que tem um ambiente de investimento extremamente flexível, com bens públicos robustos e uma tributação alta sobre os retornos do investimento, com países africanos que têm baixos impostos, mas muita burocracia e interesses entrincheirados. Creio que a maioria dos países preferiria ser como a Escandinávia.

No Brasil, a equipe econômica do atual governo e analistas do mercado financeiro repetem que a aprovação de reformas liberais, nos moldes daquelas implementadas no Chile, é essencial para a retomada do crescimento econômico. Eles têm razão?

A proposta original do economista Arnold Harberger para o Chile não foi o aconselhamento que os economistas de Chicago deram a Augusto Pinochet. Foi a proposta tributária que ele fez ao governo democrático no início dos anos 1960, o mesmo imposto que agora estamos propondo para ir além da opressão da propriedade privada. Esta é a reforma de Chicago que o Brasil mais precisa agora, e não ideias que foram colhidas da tradição de Chicago por um ditador que estava trabalhando de perto com as poucas famílias que controlam negócios no Chile. O futuro que queremos para o Brasil é de dinamismo e mercado, não o capitalismo de compadrio.

O livro critica a “zona de conforto” das instituições face o progresso tecnológico. Que tipo de mudanças são mais urgentes e qual é a sua alternativa proposta para substituir o modelo estabelecido de Estado-nação?

Os Estados-nação são rígidos demais para lidar com os problemas de hoje. Considere o rio Amazonas, que flui através de uma pequena parte de meia dúzia de países latino-americanos. Como afeta diretamente as vidas de uma pequena minoria de cada um desses países, as maiorias de cada um podem oprimir as minorias, permitindo que sejam exploradas. Ao mesmo tempo, cada país tem um incentivo para aproveitar o rio e deixar os custos para outros países. Deveríamos realmente ter um país da Amazônia, governado pelos mais afetados pelo rio e responsável por mantê-lo.

Problemas semelhantes surgem com a guerra às drogas, supostamente travada em benefício dos negros e pardos nos Estados Unidos e na América Central, quando é contra eles, na verdade. Mas as pessoas que votam nela são a maioria branca nos Estados Unidos. É por isso que você vê tantas pessoas negras e mestiças presas ou mortas na América Central. O que precisamos mais desesperadamente é de novas instituições democráticas que possam emergir em resposta a novos problemas de redes e bens públicos que não se alinham com as fronteiras arbitrárias muitas vezes traçadas por colonos, reis ou ditadores alguns séculos atrás.