Meio Ambiente,Oceanos,Vida Selvagem,Fauna,Flora,Crimes Ambientais,Petróleo,Óleo,Blog do Mesquita 01

O que se descobriu até agora sobre o óleo no Nordeste

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Mancha de óleo na praia de Peroba, Alagoas

Enquanto o petróleo avança pelo litoral brasileiro e já pode chegar ao Sudeste, investigação se concentra em navio grego como provável origem do desastre. Entenda o que foi divulgado até agora e a extensão dos danos.

Desde o final de agosto, praias do Nordeste brasileiro vêm sendo atingidas por manchas de petróleo. Segundo uma ampla investigação da Polícia Federal, em parceria com a Marinha e outras instituições, o responsável é um navio de bandeira grega, que fugiu sem alertar sobre o vazamento, e o óleo é venezuelano.

O principal suspeito

O navio de bandeira grega Bouboulina é o principal suspeito de ser o responsável pelo vazamento do óleo nas praias do Nordeste, segundo afirmaram procuradores da República em representação encaminhada à Justiça Federal.

O Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, ficou ali por três dias, e continuou viagem rumo a Cingapura, pelo Atlântico, vindo a aportar apenas na África do Sul. Foi no trajeto que ocorreu o vazamento

Segundo os investigadores, há fortes indícios de que a empresa Delta Tankers, o comandante do navio e tripulação deixaram de comunicar às autoridades competentes sobre o vazamento no Atlântico.

A Grécia é líder global em transporte de petróleo, com 24% do mercado mundial, segundo relatório da agência das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento.

O Ministério Público Federal (MPF) afirmou, em comunicado, que a embarcação investigada pela PF ficou quatro dias retida nos Estados Unidos devido a “incorreções de procedimentos operacionais no sistema de separação de água e óleo para descarga do mar”.

O marco zero

Os investigadores da PF dizem terem conseguido achar a localização da mancha inicial de petróleo em águas internacionais, a aproximadamente 700 quilômetros da costa brasileira.

A partir da localização da mancha inicial – o derramamento teria ocorrido entre os dias 28 e 29 de julho – foi possível identificar o único navio petroleiro que navegou pela área suspeita.

Por meio do uso de técnicas de geointeligência e cálculos oceanográficos regressivos, chegou-se então ao navio de bandeira grega.

Selo venezuelano

A Marinha disse ainda que o óleo coletado nas praias do litoral nordestino foi submetido a análises em laboratórios que comprovaram ser originário de campos petrolíferos da Venezuela.

Estudos feitos pela Petrobras e pela Universidade Federal da Bahia já haviam apontado que o óleo que chegou à costa do Nordeste foi produzido na Venezuela.

Extensão dos danos

O último boletim do Ibama, da quinta-feira última, indica que 286 locais em 98 cidades do Nordeste foram atingidos pelas manchas de óleo.

Um terço das mais de 280 localidades atingidas chegaram a ser limpas, mas viram a poluição retornar ao menos uma vez. Ao todo, 83 praias e outras localidades tiveram a reincidência da contaminação, segundo um levantamento do portal G1.

O Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) diz que o óleo pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação do óleo no mar.

Um relatório entregue na sexta-feira ao comitê de crise aponta que as manchas podem estar “represadas” em alto mar e sendo arrastadas por correntes marítimas, podendo se mover ainda por bastante tempo e chegar ao Sudeste, especificamente ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro. A possibilidade de que as manchas avancem ainda mais em direção ao sul é tratada como remota, dadas as características geográficas da região, que oferecem uma espécie de proteção natural.

Risco para Abrolhos

As manchas de óleo de origem desconhecida que atingem o litoral do Nordeste começaram a aparecer na região de Abrolhos, que abriga o arquipélago homônimo, no sul da Bahia, e a maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul. Especialistas preveem uma catástrofe ambiental se o óleo chegar em grande quantidade até ali.

A ONG Conservação Internacional relata ter encontrado óleo, nesta semana, em Canavieiras, Belmonte e Santa Cruz de Cabrália, na região de Abrolhos, que engloba o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e compreende os ecossistemas marinhos e costeiros entre a foz do Rio Jequitinhonha, em Canavieiras (BA), e do Rio Doce, em Linhares (ES), além dos bancos marinhos de Abrolhos e de Royal Charlotte.

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos abriga as cinco ilhas do arquipélago e ainda não foi atingido pelas manchas de óleo. A área é rica em corais e o principal berçário de baleias jubarte da costa brasileira. O turismo e a pesca na região são fonte de renda para cerca de 100 mil pessoas.

Limpeza

No auge da crise, críticos apontaram que a população, os municípios e os estados das regiões afetadas estavam basicamente tendo que limpar sozinhos as praias, recifes e manguezais atingidos pelas manchas de óleo.

Segundo a Marinha, os estados de Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba estão com todas as suas praias limpas, e os esforços estão agora concentrados na limpeza de cinco praias de Alagoas (Maragogi, Japaratinga, Barra de São Miguel, Feliz Deserto e Coruripe) e de uma na Bahia (Moreré).

Até esta semana, haviam sido retiradas mais de 2 mil toneladas de resíduos de óleo das praias no Nordeste. No total, foram empregados mais de 3.100 militares, 19 navios e três helicópteros da Marinha, além de 5 mil militares do Exército e seis aeronaves da Força Aérea Brasileira.

Eles se somam a 140 servidores do Ibama, 40 do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e 440 funcionários da Petrobras, além de funcionários de órgãos estaduais e municipais.

Com o governo Bolsonaro criticado pela demora e falta de ações efetivas para conter o desastre ambiental no Nordeste, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,chegou a insinuar, sem provas, que o Greenpeace, uma das principais ONGs ambientais do mundo, seria responsável pela situação.

Outra hipótese

A Marinha contesta categoricamente um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que sugeriu que as manchas de petróleo podem ter origem em um grande vazamento abaixo da superfície do mar.

Um pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Ufal, apontou a identificação de um “enorme vazamento de óleo, em formato de meia lua, com 55 quilômetros de extensão e 6 quilômetros de largura, a uma distância de 54 quilômetros da costa do Nordeste”.

De acordo com a assessoria de imprensa da Marinha, não há tal registro de mancha de óleo na região ao sul da Bahia. Para a Marinha, a imagem de satélite pode ter mostrado uma nuvem espessa.

RPR/dw/ots

Moçambique,Catástrofes,Fome,Blog do Mesquita

Moçambique; Situação ainda é dramática

Moçambique,Catástrofes,Fome,Blog do MesquitaNo mês passado, o ciclone Idai devastou o sudeste da África, causando mais de mil mortes. Milhões de pessoas ainda lutam para sobreviver, relata a ativista humanitária Ninja Taprogge, em entrevista à DW.

Ninja Taprogge trabalha na seção alemã da organização de ajuda humanitária CARE. Atualmente, ela se encontra em Moçambique, em regiões que até agora não haviam recebido apoio.

Em entrevista à DW, ela relatou que apenas 23% dos 250 milhões de euros reivindicados foram garantidos pelas Nações Unidas. “Isso é muito pouco e realmente nos preocupa como organizações de ajuda.”

“É importante fornecer ajuda imediata porque algumas pessoas não comem nada há quatro semanas. Temos que distribuir comida agora mesmo”, apontou a ativista.

Deutsche Welle: Você está atualmente em Moçambique, o país mais afetado pelo furacão Idai. Qual a sua impressão da situação?

Ninja Taprogge: A situação em Moçambique ainda é dramática. Acabei de chegar da região da Beira. Muitos lugares ainda estão afetados por enchentes. Estivemos há poucos dias num pequeno vilarejo chamado Guarda Guarda.

Lá, as pessoas não receberam nenhuma ajuda. Distribuímos comida para 2 mil famílias. Cada uma delas recebeu 30 quilos de arroz, cinco quilos de feijão e dois litros de óleo.

O que as pessoas lhe dizem no local?

Falei com uma mulher que há semanas come apenas o milho que encontrou em seu cultivo. A região ao redor do vilarejo estava completamente inundada. Ela também me mostrou o milho. Ele cheirava mal e estava totalmente sujo.

Ela me disse que um de seus filhos agora está com dor de estômago e sofrendo de diarreia. Nós também visitamos as plantações – elas foram completamente destruídas.

Com são as condições de vida das pessoas?

Muitos moram em abrigos. O governo acabou de divulgar novos números hoje. As pessoas vivem juntas num espaço confinado. Mais de 240 mil casas foram gravemente danificadas ou destruídas.

Levará muito tempo até que possam ser reconstruídas. Nós ajudamos distribuindo lonas e cordas para as famílias, para que elas possam ao menos montar acomodações temporárias.

Toda a infraestrutura também foi severamente afetada pelo ciclone Idai. Muitas escolas foram destruídas. Ajudamos a montar barracas para que aulas possam ser dadas novamente às crianças.

Que outras doenças são também problemáticas?

Especialmente malária. Abrigos temporários ou mesmo famílias que dormem ao ar livre contam com mosquiteiros para se proteger da doença. A propagação da enfermidade é uma grande preocupação para nós e outras organizações de ajuda no momento.

Quanto tempo a CARE pretende atuar no local? A ajuda é suficiente?

O maior problema continua sendo o fato de as plantações estarem completamente destruídas. Segundo estimativas de especialistas, mais de 700 mil hectares de terras agrícolas foram danificadas pelas inundações. É importante fornecer ajuda imediata porque algumas pessoas não comem nada há quatro semanas. Temos que distribuir comida agora mesmo.

Mas também temos que ficar lá por mais tempo. As pessoas precisam de sementes suficientes para trabalhar em seus campos novamente. No momento, esta crise está completamente subfinanciada. Apenas 23% dos 250 milhões de euros reivindicados foram garantidos pelas Nações Unidas. Isso é muito pouco e realmente nos preocupa como organizações de ajuda.

O que precisa acontecer em termos concretos nos próximos meses?

Precisamos de dinheiro para continuar a fornecer apoio imediato, mas também para construir e ajudar as pessoas a reconstruir suas casas. Precisamos dar às pessoas algo para ajudá-las a refazer suas plantações e garantir renda para suas famílias.

Notre Dame,Incêndio,Paris,Blog do Mesquita,Victor Hugo,O Corcunda de Notre Dame

O que sobreviveu dos tesouros da Notre-Dame?

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Além da riqueza arquitetônica, catedral abrigava preciosidades religiosas e artísticas, como relíquias, esculturas e pinturas. Após o incêndio, sua estrutura foi preservada, mas há incertezas sobre vitrais e pinturas.

Após o incêndio que atingiu parte da Catedral de Notre-Dame nesta segunda-feira (15/04), a fachada principal e as torres dos sinos ainda continuam a impor-se na pequena Île de la Cité, entre as duas margens do rio Sena. A parte norte e o telhado, com a queda da chamada flecha em forma de agulha, foram as partes mais afetadas, e os bombeiros continuam os trabalhos de inspeção na estrutura.

O fogo na catedral – um dos edifícios mais icônicos de Paris, da França e da arte gótica – foi declarado extinto pelas autoridades francesas pouco antes das 10h (hora local) desta terça-feira. O incêndio teve início na segunda-feira por volta das 18h50 e, portanto, só foi extinto após cerca de 15 horas.

A estrutura básica exterior foi considerada salva pelos bombeiros. Sua importância para a França e a capital do país já se inicia na própria praça da catedral, porque dali são calculadas até hoje todas as distâncias francesas, a partir de um ponto definido como marco zero.

Mais antiga que o Louvre ou a Torre Eiffel, a Notre-Dame é considerada um dos monumentos mais emblemáticos de Paris,sendo visitada anualmente por 13 milhões de pessoas. Sua construção começou no século 12, mais precisamente em 1163, e durou mais de 180 anos, tendo sido inaugurada em 1345.

Fachada oeste da Notre-DameFachada oeste é um tesouro em si. Preservada após o incêndio, há incerteza em torno dos vitrais

Dedicada à Virgem Maria (Notre-Dame ou Nossa Senhora), a construção da igreja acompanhou o próprio desenvolvimento de Paris, pois a antiga catedral era pequena demais para a futura metrópole europeia. Além dos sinos, gárgulas, vitrais e rosáceas que também adornam muitas outras catedrais, uma das principais atrações da Notre-Dame é a sua própria arquitetura, que se difere de muitas igrejas góticas da época.

Enquanto no resto da Europa, novas formas de gótico estavam em voga no século 13, Paris não aderiu a essas tendências, resgatando formas do antigo gótico, com elementos horizontais numa proporção calculada e equilibrada.

Fachada harmônica

Marco zero marca início da contagem de distâncias a partir da praça da Notre-DameMarco zero marca início da contagem de distâncias a partir da praça da Notre-Dame

Como exemplo, o site oficial da Catedral de Notre-Dame destaca a fachada oeste como o primeiro tesouro do edifício. Felizmente, o fogo que atingiu a torre norte conseguiu ser extinto durante a noite, preservando a fachada e seus cinco portões, construídos entre 1200 e 1250.

As proporções da fachada são baseadas num arranjo especial de quadrados que formam retângulos aproximadamente na relação de lados 2: 3.

Aqui se realizou o ideal de Santo Agostinho: uma arquitetura cujas proporções são baseadas em consonâncias musicais (harmonia de tons), que por sua vez refletem a ordem harmônica do universo.

Paris introduziu uma inovação decisiva no projeto da fachada: a galeria real acima da área do portal como um símbolo da união entre igreja e monarquia. Sobre essa fachada, 28 estátuas representam os reis de Judá e de Israel, ancestrais de Cristo.

Já no século 13 as pessoas pensavam neles como os reis da França. Esta série de estátuas reais em grande formato influenciou algumas das catedrais mais importantes, como Reims e Amiens.

Acima desses personagens, em ambos os lados da fachada, estão as estátuas de Adão e Eva. No centro, uma grande rosácea, cujo diâmetro mede quase 10 metros, forma uma auréola para a estátua da Virgem Maria com seu filho, Jesus, que é emoldurada por dois anjos.

Frankreich, Paris: Architektur der Kathedrale Notre Dame (picture-alliance/E. Bömsch)Três grandes rosáceas adornam fachadas da Notre-Dame, mas liga que une peças suporta mal variações de calor

Vitrais do século 13

A Notre-Dame de Paris abrigava três grandes vitrais, construídos no século 13, representando as flores do paraíso, como rosas com pétalas de vidros coloridos. As rosáceas norte e sul são maiores, com 13 metros de diâmetro.

Cada medalhão representa um personagem: profetas, santos, anjos, reis, cenas da vida dos santos, obras de canto, virtudes – todos girando em torno do medalhão central: duas rosáceas apresentam a Virgem e o Menino Jesus, a outra, Cristo em majestade.

Ainda há incertezas quanto aos vitrais da catedral. Com o calor do fogo e a queda da estrutura de madeira do telhado, partes dos medalhões podem ter sido destruídas, assim como o chumbo que as liga pode ter derretido. Philippe Marsset, vigário-geral da arquidiocese de Paris e um dos primeiros a entrar na catedral à noite, descreveu cenas de “bombardeio” e “vitrais explodidos”.

No entanto, as rosáceas na fachada norte parecem ter sido poupadas, de acordo com várias testemunhas. Uma delas deve ser desmontada rapidamente para que não caia, escreveu o Le Figaro nesta terça-feira.

Flecha da Notre-Dame sucumbe durante incêndioFlecha projetada por Viollet-le-Duc foi um dos tesouros a sucumbir ao fogo

Torres e estátuas

Em forma de agulha, a flecha sobre o telhado da catedral foi logo consumida pelo fogo. Essa torre, com 93 metros de altura, havia sido construída em 1860 por Eugène Viollet-le-Duc, um dos arquitetos mais importantes do século 19, durante a longa restauração pela qual a igreja passou a partir de 1844.

As 16 estátuas de cobre que adornavam a torre, representando os doze apóstolos e os quatro evangelistas, escaparam das chamas. Elas haviam sido removidas de sua base há apenas alguns dias para serem restauradas.

Os sinos também são considerados um importante tesouro da catedral e fazem parte da história de Paris. São 13 no total, com nomes de santos. Três estavam na torre que desabou no incêndio, a chamada “flecha”, em forma de agulha. De acordo com Le Figaro, o sino Bourdon, com 13 toneladas, e os outros sinos restaurados em 2013 escaparam intactos.

Frankreich, Paris: Architektur der Kathedrale Notre Dame (Getty Images/AFP/M. Bureau)Estátuas de cobre foram retiradas para restauração poucos dias antes do incêndio

Tesouros religiosos e artísticos

Além de sua riqueza arquitetônica, a Notre-Dame de Paris abrigava tesouros religiosos e artísticos, como relíquias, esculturas e pinturas. Embora ainda haja incerteza sobre a extensão das perdas, muitos deles puderam ser salvos, como a coroa de espinhos que se acredita ter sido usada por Jesus Cristo antes da crucificação. Outros, no entanto, foram provavelmente perdidos para sempre no ardor das chamas, como as “grandes pinturas” do século 17 e 18, os chamados Mays.

Existiam 76 Mays no total. Treze deles eram rotineiramente expostos ao público na Notre-Dame, entre eles a Lapidação de Saint Etienne, do pintor Charles Le Brun. Segundo o reitor da catedral, quadros com grandes dimensões, como é o caso dos Mays, não puderam ser retirados durante o incêndio.

Tunika Ludwigs IX. Frankreich (picture-alliance/dpa/AKG)Manto de São Luís foi retirado a tempo, disse reitor da catedral

A preocupação também diz respeito a outro tesouro da Notre-Dame: os seus três órgãos e, em particular, ao grande órgão, com seus cinco teclados, seus 109 jogos e seus quase 8 mil tubos. Construído a partir do século 15, ele foi ampliado gradualmente, até atingir o tamanho atual no século 18.

Segundo o site da catedral, ele sobreviveu à Revolução Francesa sem danos, “graças provavelmente à interpretação da música patriótica”. Seus tubos são feitos de uma liga de estanho e chumbo, que suporta mal variações de calor e umidade.

No entanto, o grande órgão ainda estaria salvo, disse à emissora France Info Vincent Dubois, organista titular do grande órgão da catedral de Notre-Dame de Paris.

DoCoroa de espinhos que se acredita ter sido usada por CristoCoroa de espinhos que se acredita ter sido usada por Cristo antes da crucificação foi um dos tesouros salvos do incêndio

Já na noite de segunda-feira, o reitor da catedral, Patrick Chauvet, afirmou que a coroa de espinhos e a túnica de São Luís, duas relíquias de valor inestimável para o catolicismo, puderam ser salvas das chamas. A coroa foi adquirida pelo rei Luís 9° em 1238, tendo sido transferida para Notre-Dame durante a regência de Napoleão em 1806.

Além da coroa e da túnica do próprio Luís 9°, a Notre Dame conserva outras duas relíquias da Paixão: um prego e um pedaço da cruz. Segundo o jornal Le Figaro, uma cena da Paixão de Cristo, que os católicos relembram justamente nesta Semana Santa, também pôde ser salva de dentro sacristia. A Notre-Dame também tem relíquias da Santa Genoveva, padroeira de Paris, e de São Denis.

Alguns dos tesouros ainda poderão ser restaurados, como os quadros que por seu tamanho não puderam ser retirados das naves. Mas, no total, calcula-se que a catedral tenha perdido de 5% a 10% das obras do seu interior, informou o diário Le Figaro

História,Catástrofes,Blog do Mesquita

Do aquecimento global a asteroides gigantes, as ameaças à vida humana até o fim do século

História,Catástrofes,Blog do MesquitaGETTY  IMAGES – Não é como se não tivesse acontecido antes…

Os humanos estão destinados a ter o mesmo futuro que os dodôs (aves extintas) ou os dinossauros?

No momento, a raça humana encara perigos potencialmente fatais, incluindo mudanças climáticas, guerra nuclear, uma pandemia e mesmo a possibilidade de o planeta Terra ser atingido por um asteroide gigante.

O filósofo e apresentador de rádio David Edmonds discute esses riscos com especialistas que dedicaram suas vidas profissionais a investigar como podemos mitigá-los e tenta responder à grande questão: os seres humanos vão sobreviver até o fim do século?

O que é um risco existencial?

DodôDireito de imagem GETTY IMAGES
Se as espécies se extinguem desde sempre, por que com os seres humanos seria diferente?

“Um risco existencial é uma ameaça à humanidade ou aos nossos descendentes que em suma os aniquilaria”, diz Anders Sandberg, pesquisador do Instituto do Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford.

Até o meio do século 20, pensávamos que vivíamos em um lugar bem seguro, mas isso não é mais o caso.

Os riscos existenciais que ameaçam trazer destruição à humanidade são muitos, e variados.

Asteroides

Asteroides indo em direção à TerraDireito de imagem GETTY IMAGES
Antes dos anos 1980, não achávamos que a Terra estava sujeita a catástrofes de escala global resultantes do choque contra o planeta de corpos rochosos vindos do espaço sideral

Antes de 1980, não achávamos que a Terra estava sujeita a catástrofes de escala global resultantes do choque contra o planeta de corpos rochosos vindos do espaço sideral.

Mas uma dupla de cientistas, pai e filho, Luis e Walter Alvarez, mudaram tudo naquele ano ao publicar sua hipótese de que dinossauros haviam sido mortos por asteroides que bateram na Terra.

A hipótese de Alvarez foi endossada recentemente por um painel internacional de cientistas, após a descoberta de uma cratera gigante na península de Yucatán, no México.

No entanto, dentro da comunidade que pensa sobre riscos existenciais, a chance de o mundo acabar com uma colisão com um asteroide é considerada remota comparada ao risco que nós mesmos estamos criando.

Superpopulação, esgotamento de recursos naturais e mudança climática

Crianças em paisagem de geloDireito de imagem GETTY IMAGES
A pesquisadora Karin Kuhlemann diz que, se a população não parar de crescer, será impossível deter a mudança climática

A pesquisadora da University College London Karin Kuhlemann estuda a relação entre a questão populacional e os riscos representados pelas mudanças climáticas – um assunto que raramente ganha as manchetes.

Assim como o esgotamento dos recursos naturais, é um tema que nos faz sentir mal, então preferimos não pensar sobre ele, reflete a cientista.

Apesar disso, os dois assuntos estão ligados, diz Karin – e a culpa é nossa.

“A mudança climática é uma consequência da superpopulação, assim como o esgotamento dos recursos naturais, e as duas coisas se retroalimentam. Os recursos estão se esgotando e aí usamos mais petróleo para compensar isso, o que piora a mudança climática”, diz a pesquisadora.

Se a população não parar de crescer, será praticamente impossível impedir o avanço das mudanças climáticas.

A destruição da biodiversidade

Uma abelha colhendo polén de uma florDireito de imagem GETTY IMAGES
Os insetos também estão desaparecendo lentamente, assim como algumas espécies de aves que se alimentam de insetos

Estamos vivendo como se a eliminação da vida selvagem fosse apenas “um infortúnio”.

Mas alguns pesquisadores dizem que, até o meio do século, não haverá mais peixes no mar em níveis suficientes para sustentar a pesca comercial. Isso quer dizer que não haverá mais peixe para comprar no mercado.

Os insetos também estão desaparecendo lentamente, assim como algumas espécies de aves – como as que se alimentam de insetos.

Não sabemos o impacto da erradicação da biodiversidade, diz Karin, mas é certo que ela não nos beneficia.

Pandemias

Vírus da gripeDireito de imagem GETTY IMAGES
O vírus da gripe e suas mutações são um desafio constante para os cientistas

Lalitha Sundaram trabalha no Centro de Risco Existencial, na Inglaterra, avaliando riscos biológicos.

Lembrando a Gripe Espanhola, de 1918, ela diz que se estima que a doença tenha matado entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas.

A pandemia aconteceu quando houve uma grande onda migratória após a Primeira Guerra (1914-1918) e as pessoas, enviadas de volta para casa após o conflito, passaram a viver em espaços confinados.

É por isso que, apesar de sermos melhores no desenvolvimento de vacinas hoje em dia, a globalização traz alguns perigos.

Durante a época da Gripe Espanhola, as pessoas viajavam de trem ou barco, mas na era da viagem aérea, as doenças podem se espalhar ainda mais rápido, com consequências potencialmente graves.

Ameaças de indivíduos

Em março de 1995, praticante de um culto realizou ataque com gás sarin em Tóquio, matando 12 pessoasDireito de imagem GETTY IMAGES
Em março de 1995, praticante de um culto realizou ataque com gás sarin em Tóquio, matando 12 pessoas

A maior parte dos riscos existenciais criados pelos seres humanos não é intencional.

Mas à medida que a ciência e a tecnologia avançam, nos preocupamos cada vez mais com a possibilidade de ataques propositais catastróficos, como, por exemplo, a criação de um vírus de laboratório usando biologia sintética.

Se houvesse um botão de fim do mundo que pudesse destruir a todos nós, um número preocupante de pessoas escolheria apertá-lo, diz o pesquisador Phil Torres, do Future of Life Institute.

Esses “apertadores de botões” poderiam ser extremistas religiosos que acreditam que foram enviados por Deus para destruir o mundo como uma maneira de salvá-lo, a exemplo do culto japonês Aum Shinrikyo.

No entanto, também corremos o risco do que Phil descreve como “atores idiossincráticos” – pessoas motivadas a provocar a extinção humana por motivos pessoais, como aqueles que cometem ataques armados.

Mas quantos “apertadores de botões” existem por aí? Especialistas estimam que haja cerca de 300 milhões de sociopatas no mundo hoje, muitos dos quais poderiam representar uma ameaça.

Guerra nuclear

Um cogumelo atômico sobre o PacíficoDireito de imagem GETTY IMAGES
Um cogumelo atômico sobre o Pacífico, algo que você certamente não quer ver

Uma guerra nuclear provavelmente não mataria a todos nós, mas os efeitos posteriores, talvez.

Seth Baum, do Global Catastrophic Risk Institute, diz que o incêndio resultante de uma explosão nuclear poderia mandar poeira até para acima das nuvens, na estratosfera.

Essa poeira poderia ficar lá por décadas, bloqueando a luz do sol.

A extinção humana que poderia advir de uma guerra nuclear seria uma combinação da devastação inicial, caos econômico e finalmente efeitos ambientais globais.

Inteligência artificial

Caveira feita com códigosDireito de imagem GETTY IMAGES
É apenas um código binário, mas poderia dar errado?

O risco da inteligência artificial vem em várias formas – o risco de algoritmos autônomos acidentalmente causarem um colapso do mercado de ações global, o que provocaria a implosão da economia, ou a ideia de que nós podemos perder controle sobre as máquinas.

Um cenário que preocupa especialistas é a criação de vídeos “deep fake”, onde imagens de pessoas públicas são manipuladas de modo que pareça que estão dizendo ou fazendo coisas que não fizeram.

Uma pessoa maliciosa poderia falsificar um vídeo no qual um líder mundial ameaça outro, elevando a tensão entre duas potências nucleares.

Essa tecnologia já existe e está ficando cada vez mais difícil de detectar.

Como reduzir os riscos existenciais?

Pessoa com um globo na mãoDireito de imagem GETTY IMAGES/NASA
Há esperança: o futuro não está determinado, há coisas que podemos fazer, se agirmos rapidamente

Afinal, o quão precária é nossa civilização? Bom, depende do risco em questão.

O mais importante é que o futuro não está determinado – há o que se possa fazer para ajudar, e o momento de agir é agora.

Anders Sandberg está estudando como máquinas vão ficar sob o controle humano.

Especialistas planejam como responder se houver um desastre, como uma pandemia.

Outros pesquisadores avaliam como impedir o avanço da mudança climática adicionando poeira à estratosfera, ou como sobreviver a um “inverno nuclear” com uma dieta de cogumelos.

Pra Karin Kuhlemann, a coisa mais importante é reverter o crescimento populacional: “precisamos mudar as normas sociais sobre tamanhos de famílias, deixando de lado a postura de que todos podemos ter vários filhos e consumir o quanto quisermos”, diz ela.

Nesse sentido, todos podemos prevenir uma catástrofe global.

Os seres humanos têm um histórico ruim no que diz respeito a ter uma perspectiva de longo prazo e nossas instituições não são voltadas para os interesses de gerações futuras.

Mas ela diz que se não quisermos que o século 21 seja nosso último, precisamos levar os riscos existenciais mais a sério.

Brasil,Tragédias,Justiça,Impunidade,Blog do Mesquita

Impunidade: 5 grandes tragédias brasileiras em que ninguém foi responsabilizado criminalmente

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Direito de imagemAFP/REUTERS/AFP/GETTY

A sucessão de tragédias que marcou o começo do ano no Brasil leva a comparações entre desastres que, embora diferentes, têm aspectos em comum – acusações de negligência contra quem administrava os espaços, demora ou inexistência de responsabilização de culpados, respostas insuficientes por parte do poder público e, na maioria dos casos, mortes que poderiam ter sido evitadas.

É o que ocorre em casos como o rompimento da barragem em Brumadinho, em janeiro, e a tragédia em Mariana, em 2015; e nos incêndios do Centro de Treinamento do Flamengo, em fevereiro, e incêndio no Museu Nacional, em 2018.

Nesses grandes desastres recentes, também se repete o fato de as empresas e instituições envolvidas classificarem a situação como meros acidentes, episódios que não poderiam ter sido previstos, tampouco evitados.

Contrariam, inclusive, as investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e de outras instituições que apontam que, na maioria dos casos, houve sinais que foram ignorados e medidas de segurança que não foram tomadas, mas poderiam ter reduzido danos e os números de vítimas ou até mesmo evitado as tragédias.

A BBC News Brasil analisou cinco tragédias que ocorreram no Brasil nas últimas décadas.

Os cinco episódios também têm em comum o fato de que ninguém foi criminalmente punido pelos desastres. Mesmo outras formas de responsabilização, como sanções econômicas e multas ambientais, também foram tímidas, na visão dos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

O que chama a atenção no Brasil, afirmam os especialistas, é que muitas vezes as tragédias não se refletem em mudanças significativas e as lições que poderiam ser aprendidas no combate a novos desastres são ignoradas.

Um exemplo citado é a falta de sirenes em Mariana, em 2015, que não fez com que a Vale resolvesse o problema a tempo de evitar tantas mortes em Brumadinho, quatro anos depois: sirenes foram instaladas, mas não funcionaram, e não havia um sistema de alerta reserva.

O amparo às vítimas nas tragédias brasileiras, quando ocorreu, foi lento e insuficiente. Os especialistas ouvidos pela BBC consideram que prevaleceu a proteção ao poder econômico em detrimento da reparação. “O poder econômico acaba ditando como devem se dar os programas de reparação, à revelia do poder público”, afirma Rafael Portella, da Defensoria Pública do Espírito Santo, que atuou na defesa dos atingidos pela tragédia de Mariana na Bacia do Rio Doce.

O Brasil é reconhecidamente falho para lidar com tragédias há décadas – tanto que o Banco Mundial fez um estudo entre 1995 e 2014 para calcular quanto o país perde com a resposta inadequada a desastres naturais – foram prejuízos da ordem de R$ 800 milhões por ano.

Segundo o relatório da entidade, os danos econômicos são agravados quando a população pobre é vítima de uma catástrofe. “Quando a população pobre é vítima de uma catástrofe, a perda proporcional de riqueza é de duas a três vezes maior do que entre a não-pobre, devido à natureza e à vulnerabilidade dos seus bens e meios de subsistência”, diz o Banco Mundial.

Falhas na prevenção e inadequação na resposta aconteceram, segundo investigações, em cinco grandes episódios ocorridos nos últimos quinze anos e levantados pela BBC News Brasil, que foi conferir qual a situação atual das pessoas afetadas, se as indenizações foram pagas e se houve algum tipo de responsabilização. Veja abaixo:

Rompimento da barragem em Mariana, 5 de novembro de 2015

O desastre: O colapso da barragem de Fundão, no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, em novembro de 2015, causou o transbordamento da barragem de Santarém e liberou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração.

A mistura de lama e lixo industrial destruiu distritos da cidade de Mariana, causou a morte de 19 pessoas e prejuízos ambientais e sociais ao longo dos 650 km entre a cidade e a foz do rio Doce, no Espírito Santo. Os danos ambientais e sociais estão sendo avaliados até hoje. Segundo o Ibama, mas de 770 mil hectares de áreas de preservação permanente foram afetados pelo desastre.

MarianaDireito de imagem CAMILLA MOTA/BBC

Como estão as vítimas em 2019: Mais de três anos depois da tragédia, até a população de outras cidades afetadas pela lama da barragem está sentindo efeitos da contaminação por metais pesados, como doenças respiratórias e de pele. E as famílias temem nunca ser indenizadas pela Samarco, mineradora responsável pela barragem que rompeu e controlada conjuntamente por Vale e BHP Billiton.

Mais de 500 mil pessoas tiveram o abastecimento de água comprometido em MG e no ES, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, órgão vinculado ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos. De acordo com a Defesa Civil de MG, somadas as populações dos 35 municípios do Estado no caminho da lama, é possível chegar a um número de 1 milhão de pessoas afetadas.

Os prejuízos econômicos também estão sendo contabilizados até hoje. Atividades que dependem do ambiente, como a pesca por exemplo, foram fortemente prejudicadas – até hoje pescadores lutam para sobreviver e, sem indenização, acumulam milhares de reais em dívidas.

O que as investigações apontaram: A Polícia Federal e o Ministério Público apontaram que as empresas sabiam do risco de rompimento. O Ministério Público também apontou falhas e omissões no processo de licenciamento ambiental das operações. No fim do ano passado, relatores da ONU enviaram carta ao governo brasileiro criticando omissão na investigação da tragédia, a falta de uma análise completa dos danos causados e de uma resposta adequada às pessoas e comunidades prejudicadas.

Quem foi punido: Em outubro de 2016, o Ministério Público denunciou à Justiça 21 pessoas acusadas de provocar inundação, desabamento, lesão corporal e homicídio com dolo eventual (quando o réu assume o risco de matar). Mas o processo criminal chegou a ficar quase um ano parado desde então.

Até hoje, ninguém foi preso e o julgamento ainda não foi marcado. O MPF também promoveu uma ação coletiva no valor de R$ 155 bilhões contra a Samarco, mas essa ação foi finalizada no ano passado, quando a Samarco assinou na Justiça um novo termo de ajustamento de conduta que estabeleceu novas diretrizes para o processo de reparação dos impactos da tragédia e teve maior participação das comunidades atingidas. As empresas também foram multadas por diversos órgãos ambientais, mas só uma das 68 multas está sendo paga.

O que a empresa alega: A Samarco e suas controladoras – a Vale e a BHP Billiton – tratam o episódio como acidente. Uma fundação privada, a Renova, foi criada para lidar com as reparações após um acordo da empresa com o Governo Federal, os Estados e outros órgãos. A Renova diz que, até janeiro deste ano, foi pago R$ 1,4 bilhão em indenizações e auxílios financeiros.

“Foram atendidas 11.937 famílias em razão dos danos gerais sofridos, celebrando 8.388 acordos, pagando 8.321 indenizações e realizando 1.010 antecipações de indenização de danos gerais. Das propostas apresentadas, 98.9% foram aceitas e resultaram em acordos de indenização dos atingidos”, diz a fundação. A Renova diz também que o “auxílio financeiro emergencial, por sua vez, assiste atualmente 11.753 famílias”.

O que falta acontecer: Atualmente, o Ministério Público tenta reabrir a tomada de depoimentos de testemunhas após a defesa dos acusados pedir interrupção à Justiça Federal. O processo de pagamento de indenizações e acordos da Renova com as vítimas também está em andamento.

Mas o modelo de criar uma fundação privada para lidar com as consequências da catástrofe é criticado por quem acompanha o processo. “Isso gera um esfacelamento do limite entre o que é responsabilidade do público e o que é privado”, afirma Portella, da Defensoria Pública do ES.

A advogada e professora de direito ambiental Mariangélica de Almeida explica que a legislação brasileira dificulta a responsabilização por crimes ambientais na esfera penal: faltam crimes específicos para responsabilizar os donos e gestores das empresas. Para responsabilizar alguém criminalmente, é preciso que os atos das pessoas se encaixem perfeitamente na descrição de um crime existente na legislação. No entanto, é difícil de encaixar o tipo de responsabilidade dos gestores nas descrições na legislação brasileira.

Almeida cita o exemplo de Brumadinho. “Mandaram prender rapidinho os auditores. Por quê? Existe um crime específico na lei de crimes ambientais para uso de documentos fraudados em processos de licenciamento, e o caso dos auditores se encaixava perfeitamente nesse artigo”, diz ela. “Mas eles foram soltos porque conseguiram comprovar que tinham avisados os gestores da Vale dos riscos. Então, eles repartiram as responsabilidades. Mas porque não prenderam os gestores? Porque os gestores não se encaixam perfeitamente nesse crime.”

“Enquanto não criarmos um tipo específico (de crime) para quem tem poder de mando, os gestores vão continuar podendo se safar na esfera criminal”, diz ela.

“A Justiça é muito rápida para punir indivíduos em condições vulneráveis, mas não tem a mesma agilidade e os mesmos critérios quando se trata de grandes poderes econômicos”, diz Rafael Portella.

Incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, 27 de janeiro de 2013

O desastre: O incêndio na boate Kiss, em 2013, deixou 242 mortos e 636 feridos. A boate na cidade de Santa Maria (RS) pegou fogo quando a banda Gurizada Fandangueira, que tocava no local, acendeu um sinalizador para criar efeitos pirotécnicos. As chamas atingiram o revestimento de espuma do teto e se espalharam rapidamente.

Incêndio na Boate KissDireito de imagem AFP/GETTY/BBC

Como estão as vítimas em 2019: As famílias das vítimas também entraram com ações cíveis de indenização contra os donos da boate, processo que está em andamento.

O que as investigações apontaram: A superlotação, a falta de saídas de emergência, a falha dos extintores de incêndio e a falta de outros equipamentos de segurança foram apontados pelas investigações feitas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público como fatores que agravaram a tragédia e aumentaram o número de mortos.

Quem foi punido: A Polícia Civil concluiu o inquérito sobre o caso e indiciou 16 pessoas no fim de 2013. Quatro dos indiciados se tornaram réus por 242 homicídios em um processo que tramita na Justiça desde então: os dois sócios da casa, Elissandro Calegaro Spohr e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda, Marcelo Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão. Os quatro réus chegaram a ser presos durante a investigação, mas no mesmo ano passaram a aguardar o julgamento em liberdade.

Seis anos depois da tragédia, o julgamento ainda não foi marcado pois a Justiça não definiu qual tipo de crime deve ser julgado. O Ministério Público pede que os réus sejam julgados por homicídio com dolo eventual – no qual o acusado assume o risco de matar alguém – e pedem julgamento por Tribunal do Júri. No entanto, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu que o crime em questão é homicídio culposo – quando não há intenção de matar – e, portanto, deve ser julgamento apenas pelo juiz, sem júri.

O Ministério Público chegou a abrir uma investigação sobre uma possível improbidade administrativa de funcionários da prefeitura da cidade e de outras autoridades por terem permitido que a boate funcionasse com licenças vencidas, mas nenhuma denúncia foi apresentada à Justiça.

O que a defesa dos acusados alega: A defesa dos réus diz que “não há no processo elementos que indiquem que os acusados tenham aceitado o resultado de morte ou lesões corporais das vítimas da boate Kiss”.

O que falta acontecer: Atualmente, dois recursos especiais sobre a questão estão sendo analisados pelo Superior Tribunal de Justiça (ST), que desde 10 de janeiro aguarda um parecer do Ministério Público Federal (MPF) sobre o caso. Só depois do julgamento no STJ o processo deve voltar para a primeira instância, onde o juiz deve marcar a data do julgamento – quer seja por um juiz ou por um Tribunal do Júri.

Incêndio no Museu Nacional, Rio de Janeiro, 2 de setembro de 2018

O desastre: Três meses após completar 200 anos, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi consumido por um incêndio devastador que danificou seu acervo de 20 milhões de itens. O museu tinha o maior acervo de antropologia e história natural do Brasil e um dos maiores da América Latina, e ainda não existe um número oficial de quantas peças foram destruídas.

Incêndio no Museu NacionalDireito de imagem REUTERS/BBC

Como está o museu em 2019: Nesta semana, o museu abriu as portas para que fotógrafos registrassem o que sobrou da estrutura. Cheio de escombros, marcas de fogo, barras de ferro retorcidas e paredes desmoronadas, o museu se tornou um campo de “garimpo”.

Equipes técnicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que administra a instituição, trabalham em contêineres instalados próximos ao museu para recuperar peças, catalogá-las e levá-las para uma área de armazenamento da UFRJ. Até agora, cerca de 2 mil itens foram recuperados, entre eles os fragmentos do crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil, com 11,3 mil anos.

O que as investigações apontaram: Desde o ano passado, a Polícia Federal investiga as causas do incêndio – a instituição diz que aguarda a liberação do laudo técnico da perícia. A falta de manutenção do espaço do museu foi apontada por muitos se não como causa, pelo menos como fator agravante e responsável por uma devastação tão grande.

Alertas sobre risco de fogo e outros problemas estruturais começaram há mais de uma década. Entre 2013 e 2018, o orçamento anual do museu, repassado pela UFRJ, caiu drasticamente de R$ 531 mil, em 2013, para R$ 54 mil, em 2018.

Quem foi punido: Como as investigações ainda estão em andamento, ninguém foi responsabilizado pelo episódio, e o caso ainda deve demorar para chegar na Justiça.

O que dizem as instituições envolvidas: Após o incêndio, a UFRJ divulgou uma nota dizendo que “há décadas as universidades federais do país vêm denunciando o tratamento conferido ao patrimônio das instituições universitárias brasileiras e a falta de financiamento adequado”. “Urge, por parte do Governo Federal, uma mudança no sistema de financiamento das universidades federais do país”, disse a nota.

O reitor da universidade, Roberto Leher, também afirmou nunca ter recebido qualquer recurso do Ministério da Cultura para manutenção do museu. O Minc, por sua vez, afirmou que o então ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, recebeu o reitor após assumir a pasta e nenhum projeto foi apresentado. “Sem apresentação formal de projetos, não é possível fazer a destinação de recursos”, disse a pasta.

O que falta acontecer: A repercussão da tragédia fez com que o museu conseguisse um investimento de R$ 85 milhões de diferentes fontes para recuperar o prédio e o acervo, mas a maior parte dinheiro ainda não está disponível – deve ser repassado ao longo deste ano, segundo o Alexander Kellner, diretor da instituição.

Colisão do Voo 3054 da TAM, 17 de julho de 2007

O desastre: O maior acidente aéreo do Brasil, em 2007, deixou um total de 199 vítimas fatais. Quando um avião da companhia TAM (atual Latam) que vinha de Porto Alegre não conseguiu parar na pista de pouso do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, ele acabou se chocando com um posto de gasolina e com um prédio ao lado do aeroporto, matando 186 pessoas a bordo e 13 no solo.

Voo da TAMDireito de imagem AFP/GETTY/BBC

Como estão as vítimas em 2019: As famílias das vítimas criaram a Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ3054 (Afavitam) para lutar por indenizações e responsabilização.

O que as investigações apontaram: As investigações feitas pela Polícia Federal demoraram mais de dois anos para serem concluídas e não apontaram culpados – segundo a polícia, não havia como vincular o desastre às pessoas que tinham responsabilidade sobre o avião, o aeroporto ou o setor aéreo. A conclusão apontou que o acidente foi causado por um erro dos pilotos da aeronave, um Airbus A320.

No entanto, um relatório divulgado em 2009 pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), instituição ligada à Força Aérea Brasileira, apontou outras causas e fatores que contribuíram para o acidente, como a falta de infraestrutura no aeroporto e o excesso de autonomia dado aos computadores de bordo.

O relatório também apontou outro problemas, como o fato de que a “comunicação de falhas recorrentes e de maus funcionamentos não estava sendo feita regularmente à Autoridade de Aviação Civil” e o de que o manual da aeronave era de difícil acesso.

Quem foi punido: O Ministério Público chegou a acusar três pessoas: Marco Aurélio dos Santos de Miranda e Castro, então diretor de segurança de voo da TAM; Alberto Fajerman, que era vice-presidente de operações da empresa; e Denise Abreu, na época diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). No entanto, a Justiça absolveu os três acusados em 2015, sentença que foi confirmada em segunda instância em 2017. Depois da confirmação, o Ministério Público decidiu não recorrer.

O que dizem as instituições envolvidas: Depois do acidente, a Anac reviu normas e o aeroporto de Congonhas passou por obras para aumentar a segurança. A TAM fez acordos com as famílias das vítimas e chegou a pagar as indenizações. Em 2017, a companhia foi condenada a pagar um valor complementar. No mesmo ano, parte dos parentes das vítimas fecharam acordo de R$ 30 milhões com a Airbus, fabricante da aeronave.

O que falta acontecer: O caso está praticamente encerrado.

Enchentes e deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, janeiro de 2011

O desastre: Entre os incontáveis desastres envolvendo enchentes e deslizamentos em metrópoles brasileiras, os episódios no início de janeiro de 2011 no Rio de Janeiro marcaram pelo tamanho da tragédia e pelas cenas desesperadoras de pessoas ilhadas pela chuva.

Uma sequência de fortes chuvas atingiu a região serrana do Estado causando deslizamentos e inundações em dezenas de municípios, deixando 918 mortos e cerca de 30 mil pessoas desalojadas e desabrigadas. Isso foi equivalente a 50% das mortes em desastres naturais nos 20 anos anteriores (entre 1991 e 2010, foram 1.783 mortes em 28 desastres).

Isso sem contar as milhares de pessoas afetadas de outras formas, como as que contraíram leptospirose por causa das inundações. Cidades como Teresópolis, Nova Friburgo, Bom Jardim, Petrópolis, Sumidouro, Areal e São José do Vale do Rio Preto decretaram estado de calamidade pública. A Defesa Civil estadual, as prefeituras e a Força Nacional empregaram mais de mil pessoas para lidar com a situação.

Segundo uma estimativa do Banco Mundial publicada em 2012, a tragédia gerou um prejuízo de cerca de R$ 4,8 bilhões, entre custos de reparação de encanamentos e canais de drenagem, danos a infraestrutura de energia, gastos com reconstruções de ruas e rodovias, prejuízos para o comércio e danos a propriedades particulares, entre outros.

Deslizamento em TeresópolisDireito de imagem REUTERS/BBC

Como estão as vítimas em 2019: Nas regiões atingidas há até hoje sinais da devastação de oito anos atrás. As moradias prometidas para retirar a população da região de risco não foram totalmente entregues.

O que apontaram as investigações: Causada pela junção das fortes chuvas com a ocupação irregular de encostas e várzeas de rios – que, apontam especialistas, é resultado do déficit habitacional – a tragédia foi agravada pela falta de prevenção nas cidades afetadas, cujas administrações alegaram falta de tempo para tomar as medidas necessárias.

O temporal havia sido previsto pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), mas a Defesa Civil estadual ignorou os alertas, segundo uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo na época.

No ano anterior ao desastre, o governo brasileiro havia admitido à ONU que boa parte do sistema de defesa civil do país estava despreparado para lidar com o impacto de desastres naturais. A avaliação estava em um documento enviado pela Secretaria Nacional da Defesa Civil.

Quem foi punido: A situação toda foi tratada como desastre natural. Nenhuma investigação oficial foi aberta e ninguém foi responsabilizado. Sérgio Cabral, que era governador do Estado da época, hoje está preso, mas por questões não relacionadas ao episódio – ele foi condenado a mais de 100 anos de prisão por 15 crimes diferentes no âmbito de operações como a Lava Jato.

O que dizem as instituições envolvidas: Após o episódio, o governo federal e o governo estadual liberaram R$ 551,7 milhões para ajudar as cidades afetadas.

O que falta acontecer: Uma solução permanente para o problema da moradia e da ocupação irregular das encostas está longe de acontecer. Não foi um tema prioritário na campanha do governador Wilson Witzel, eleito ano passado. Hoje, quase 172 mil pessoas ainda moram em áreas de risco na região serrana do Estado, segundo dados de serviços de emergência.

Segundo a ONU, a questão da responsabilização por crimes ambientais e desastres naturais não é só uma questão de legislação – a proliferação de leis ambientais ou mecanismos de punição não resolve sem um ambiente institucional em que elas sejam aplicadas.

“A menos que o Estado de Direito Ambiental seja fortalecido, leis aparentemente rigorosas estão fadadas a falhar”, afirmou David Boyd, relator especial da ONU sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente, no ano passado.

Ambiente,Contaminação Nuclear,Meio Ambiente,Radiação,Saúde,Ecologia,Catástrofes

8 anos depois, radiação em Fukushima ainda coloca pessoas em risco

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Mesmo oito anos depois do vazamento na usina nuclear de Fukushima, trabalhadores estão expostos à radiação e isso é altamente prejudicial à saúde deles. © Shaun Burnie / Greenpeace

Relatório do Greenpeace mostra que, 8 anos depois do desastre que liberou radiação na cidade japonesa, as pessoas estão expostas à radiação, principalmente os trabalhadores e as crianças.

O governo japonês está enganando os órgãos de direitos humanos da ONU sobre a atual crise nuclear em Fukushima. A informação vem de uma investigação divulgada semana passada pelo Greenpeace Japão. (O estudo Na Linha de Frente do Acidente Nuclear de Fukushima: Trabalhadores e Crianças, em inglês, pode ser acessado neste link)

Mais de 70 mil trabalhadores foram empregados para descontaminar as áreas atingidas pelo vazamento nuclear da usina de Fukushima, em março de 2011. O desastre aconteceu quando o Japão foi atingido por um terremoto seguido de tsunami. Mesmo depois de muito esforço, o relatório mostra que os níveis de radiação estão muito altos nas zonas de exclusão e nas áreas que já estão liberadas para a população. Ele também expõe uma série de violações dos direitos humanos pelo governo japonês, em especial as relativas aos trabalhadores e crianças.

“Uma pessoa comparou aquilo com a escravidão”, disse Minoru Ikeda, que esteve empregado por um tempo na descontaminação e conta sua experiência no relatório. “Eu, que vivi ali, quero que o mundo fique sabendo o que está acontecendo. Quero que o governo do Japão respeite a saúde dos trabalhadores e parem de mandar pessoas para esse tipo de trabalho arriscado e dê suporte aos trabalhadores“, diz.

As principais descobertas do relatório foram:

  • Os níveis de radiação na zona de exclusão e áreas de evacuação são um risco significativo para a população, principalmente para as crianças. Os níveis variam de 5 a mais de 100 vezes o máximo recomendado internacionalmente – e permanecerão assim até o próximo século.
  • Em uma das zonas de exclusão, os níveis médios de radiação foram de 4,0 μSv por hora. É um nível tão altos que se um trabalhador ficasse ali 8 horas diariamente por um ano todo, ele estaria recebendo uma dose equivalente a mais de 100 radiografias de tórax.
  • Todos os 1.584 pontos medidos excederam a meta de descontaminação de longo prazo do governo japonês. Isso inclui as proximidades de uma escola infantil. Em 28% dessas áreas, as crianças estão recebendo doses de radiação até 20 vezes maior do que o recomendado internacionalmente.
  • Observou-se uma exploração dos trabalhadores generalizada. O governo está empregando pessoas em condições de vulnerabilidade, como sem-teto e trabalhadores estrangeiros. Para piorar, não foi feito nenhum treinamento efetivo em relação à proteção contra radiação.

Segundo Kazue Suzuki, porta-voz do Greenpeace Japão, na raiz do desastre nuclear de Fukushima e das violações de direitos humanos está a “perigosa política energética do governo japonês”. “O que a maioria do povo está exigindo é uma transição para a energia renovável. No entanto, o governo está tentando reiniciar reatores nucleares e ao mesmo tempo aumentar drasticamente o número de usinas a carvão, o que leva a mudanças climáticas extremas “, afirmou.

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As catástrofes humanitárias esquecidas do planeta

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Etiópia, Madagascar, Haiti, Congo e Filipinas: estudo de ONG americana mostra as crises que acontecem longe dos olhos do grande público, praticamente ignoradas pela imprensa.

A Etiópia sofre com uma constante seca: mais de 80% da população etíope vive da agricultura

Inundações, secas, fome, violência, deslocamento: também em 2018, inúmeros países voltaram a ser palco de catástrofes naturais ou crises criadas pelo ser humano. Enquanto, por exemplo, as guerras na Síria e no Iêmen, a crise de abastecimento na Venezuela e os incêndios florestais na Califórnia dominaram as manchetes internacionais reiteradamente, outras catástrofes de dimensão parecida ou maior aconteciam longe dos olhos do grande público.

Entre outros, os motivos foram um acesso mais difícil dos meios de comunicação a certas áreas de crise que representavam um verdadeiro desafio para a cobertura internacional, além de orçamentos definhando nas redações, diz o estudo Sofrendo em Silêncio, em tradução livre, da ONG americana Care International. A análise apresenta as crises humanitárias que “obtiveram a menor cobertura midiática” em 2018.

Para realizar o estudo, a organização trabalhou em conjunto com o serviço de observação de mídias Meltwater, avaliando mais de um milhão de artigos online em inglês, alemão e francês, publicados do início de janeiro ao fim de novembro do ano passado. Concretamente, observou-se com que frequência crises que afetaram pelo menos um milhão de pessoas foram mencionadas na imprensa online.

Não foram consideradas matérias produzidas para a TV ou o rádio, nem para plataformas de redes sociais. Apesar da restrição às línguas mencionadas e aos veículos, os resultados “mostram uma tendência clara”, afirma o texto. O estudo elaborou uma lista com as dez crises sobre as quais menos se escreveu em 2018. Essas são as cinco menos noticiadas.

Haiti

Carros incendiados, ruas interditadas por barricadas, mortes: recentemente, os violentos protestos contra o governo voltaram a trazer o Haiti para os holofotes da opinião pública internacional. Mas, em 2018, uma crise alimentar causada, entre outros, por atrasos na colheita devido a uma seca no início do ano obteve muito menos atenção.

No Índice Global da Fome de 2018, o país caribenho, alvo constante de catástrofes naturais e que depende maciçamente de ajuda financeira internacional, ficou em 113º lugar entre 119 países. O país, politicamente instável, registrou “o maior nível de fome no Hemisfério Ocidental”, diz o relatório publicado pela ONG alemã Welthungerhilfe e pela ONG Concern Worldwide. A situação da segurança alimentar no país é “muito séria”, diz o índice.

Foto aérea mostra pessoas andando em caminho de terra em meio a campos agrícolas na comunidade de Kenscoff, na capital haitiana de Porto PríncipeCampos agrícolas no Haiti: crise alimentar foi ignorada, diz Care International

Segundo a lista IPC da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019, mais de 386 mil haitianos se encaixavam na categoria alimentar “emergência”. Segundo dados da FAO, atualmente, metade da população haitiana é subnutrida.

A Care denuncia que a dramática evolução praticamente não teve espaço na mídia. “Enquanto o grave terremoto no Haiti dominou as manchetes do mundo inteiro em 2010, a crise alimentar de 2018 no país caribenho quase não aconteceu nas notícias internacionais”, diz o estudo. Apenas 503 textos online teriam abordado o assunto.

Etiópia

Também o país no Chifre da África foi afetado por uma crise alimentar em 2018. Apesar do crescimento econômico acelerado, mais de 80% da população etíope vive de trabalhos relacionados à agricultura – uma fonte de renda constantemente ameaçada por secas. No ano passado, após dois consecutivos de estiagem, voltou a chover, mas em muitas regiões não foi suficiente.

Em outras áreas do país, por outro lado, colheitas foram destruídas por enchentes. Segundo dados do governo, como consequência, oito milhões de pessoas passaram a depender urgentemente de auxílio alimentar. Segundo as Nações Unidas, 3,5 milhões de pessoas estavam em situação aguda de “subnutrição moderada”, 350 mil sofriam de subnutrição “grave”.

Na lista das crises mais negligenciadas em 2018, a Etiópia figura duas vezes. Segundo o estudo da Care, apenas 986 textos na internet relatam sobre a fome no país. O deslocamento de centenas de milhares de pessoas também quase não foi tematizado. Segundo dados da ONU, entre abril e julho do ano passado, um milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas por causa de violência étnica nas regiões de Gedeo e de Guji Ocidental. Assim, em 2018, mais pessoas se deslocaram internamente por conflitos do que em qualquer outro país do mundo.

Madagascar

No ano passado, vários incidentes meteorológicos destruidores levaram caos ao país insular no sudeste da África. Madagascar é um dos países do mundo mais afetados pelas mudanças climáticas. Em 2018, o fenômeno climático El Niño fez com que as plantações de arroz, de milho e de mandioca do país secassem.

As tempestades tropicais Ava e Eliakim obrigaram mais de 70 mil pessoas a fugirem. Pelo fato de as más condições de tempo terem impedido a produção de muitos grãos, o número de pessoas ameaçadas de fome no sul do país aumentou para 1,3 milhão, segundo a ONU.

Devido à peste pulmonar, funcionários equipados com mochilas de desinfetante percorrem as ruas de Antananarivo em 2017Peste pulmonar em Madagascar: funcionários desinfetam vias públicas e casas em 2017

Além disso, epidemias de sarampo e peste abalaram o país localizado ao largo da costa de Moçambique. Em 2017, epidemias de pneumonia e peste bubônica já haviam vitimado 200 pessoas. Na capital Antananarivo, a Organização Mundial da Saúde contou 6.500 casos de sarampo até o final de dezembro de 2018.

O motivo para a eclosão da epidemia são especialmente as baixas taxas de vacinação: apenas 58% da população são vacinados contra a doença. Segundo o relato da Care, os relatos sobre as crises em Madagascar foram bastante raros.

República Democrática do Congo

De acordo com o estudo, a situação na República Democrática do Congo também não concentrou muitas atenções da imprensa online em 2018. Apesar disso, segundo a Care, o país é dominado por um “círculo vicioso de violência, doenças e subnutrição”. O balanço do ano passado: 12,8 milhões de pessoas ameaçadas de fome, 4,3 milhões de crianças subnutridas, 500 novos casos de ebola que levaram à morte de 280 pessoas, segundo a OMS, e quase 765 mil pessoas refugiadas em países vizinhos devido à violência causada por conflitos entre milícias, especialmente nas províncias no leste do país.

Um número de menores de idade acima da média é vitima permanente do conflito: segundo uma análise recente da organização de defesa dos direitos das crianças Save The Children e do Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo, a RDC pertence aos países do mundo em que as crianças mais sofrem com conflitos armados.

Mulheres congolesas participam de aula de ONG que reabilita, entre outros, vítimas de estupro sistemático. ONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo DemocráticoONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo Democrático

A violência sexual sistemática contra mulheres no país também não acaba. No total, as Nações Unidas estimam em mais de 200 mil o número de vítimas de estupros na antiga colônia belga. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) tratou 2.600 vítimas de violência sexual na cidade de Kananga entre maio de 2017 e setembro do ano passado, 80% delas teriam dito que foram violentadas por homens armados.

“Esses números são um indicador para o alto nível de violência também neste ano”, afirmou Karel Janssens, coordenador nacional do MSF para o país. Na esteira da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao ginecologista Denis Mukwege, a violência sexual na RDC voltou a ser tematizada mais fortemente nos veículos de comunicação. Mas a Care destaca que os problemas no país integram as crises menos notadas do ano.

Filipinas

No dia 14 de setembro de 2018, o mundo olhava atônito para a costa leste dos Estados Unidos, onde o olho do furacão Florence atingiu o continente no estado da Carolina do Norte. A quase 14 mil quilômetros de distância e quase ao mesmo tempo, uma tempestade bem mais forte atingiu o litoral da ilha de Luzon, a principal das Filipinas.

A uma velocidade de 200 km/h, o tufão Mangkhut, o maior ciclone tropical do ano, tocou o solo na manhã do dia 15 de setembro. Segundo o estudo, apesar de a catástrofe ter afetado mais de 3,8 milhões de pessoas, ter matado 82 pessoas e ferido 130, pouco se ficou sabendo sobre o Mangkhut através da imprensa.

Vendedor de rua treme na chuva enquanto chuvas do tuão Yutu atingem a baía de Manila em outubro de 2018. Pouco depois do tufão Mangkhut, tempestade Yutu devastou Filipinas

Apenas um mês depois, o tufão Yutu  devastou várias comunidades já destruídas pelo Mangkhut e que já haviam iniciado os trabalhos de reconstrução. Globalmente, as Filipinas fazem parte dos países onde há maior risco de catástrofes naturais da Ásia. Vinte tempestades tropicais atingem o país insular no Pacífico ocidental todos os anos.

Segundo o Banco Mundial, os tufões matam, em média, mil pessoas anualmente. Além disso, o país está altamente exposto a riscos geológicos como terremotos e erupções vulcânicas. A Care denuncia que os furacões Mangkhut e Yutu fazem parte das crises invisíveis de 2018.
DW