O que o mundo perderia com a extinção das abelhas

Philip Donkersley estuda insetos para ganhar a vida, e as abelhas são favoritos.

Eles são os animais mais carismáticos e amigáveis ​​que você provavelmente verá por aí.

Infelizmente, suas chances de ver um zangão na Europa e na América do Norte caíram um terço desde 1970, segundo uma nova pesquisa.

Em toda a Europa, temos 68 espécies de abelhas, mas o aumento da temperatura global e o clima imprevisível obrigaram alguns a abandonar as regiões sul. Como resultado, aproximadamente metade dessas espécies estão em declínio, com 16 já ameaçadas.

Muitas dessas espécies são encontradas em apenas alguns lugares, como Bombus hyperboreus, que vive apenas na tundra escandinava. À medida que o clima muda, essas abelhas ficam sem ter para onde ir e podem morrer completamente.

Suas peles grossas e felpudas e o ferrão alto diferenciam essas abelhas de outros insetos, e são uma visão familiar em grande parte do mundo. Existem até abelhas tropicais que podem ser encontradas na floresta amazônica. Mas como seria um mundo sem eles?Bombus hyperboreus é listado como ‘Vulnerável’ pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Crédito: Smithsonian Institution / Wikimedia Commons, CC BY-SA

Polinizadores especializados

Mais de três quartos das culturas do mundo se beneficiam da polinização por insetos, avaliada em US $ 235-577 bilhões anualmente. Das 124 culturas básicas cultivadas para consumo humano, 70% dependem da polinização por insetos. Embora a situação das abelhas tenda a chamar mais atenção, pesquisas recentes sugerem que as abelhas são polinizadores muito mais eficientes.

Os zangões são maiores e mais peludos e, portanto, podem transportar mais pólen. Eles também  podem transferir o pólen de maneira mais eficaz para fertilizar as plantas. Eles se comportam de maneira diferente em torno das flores, movendo-se metodicamente para cobrir cada flor em um trecho, enquanto as abelhas tendem a se mover aleatoriamente entre as flores em um trecho.

Os zangões também são mais duros que as abelhas e continuão a polinizar sob ventos fortes ou chuva. Ainda poderíamos cultivar alimentos sem abelhas, mas podemos nos esforçar para conseguir o suficiente e nossa dieta não seria tão diversa.

Os zangões são mestres da “polinização por zumbido”. Eles podem vibrar em uma frequência particularmente alta (até 400Hz) perto das flores, para liberar o pólen que é difícil de alcançar. Os abelhões estão entre uma pequena minoria de insetos polinizadores que podem fazer isso, e tomates, batatas e mirtilos dependem dele para se reproduzir.

A vida interior dos zangões

Como as abelhas, as bumbles são criaturas sociais e vivem em colméias. Eles são governados por uma rainha solteira que é sustentada por suas filhas (as trabalhadoras) e alguns filhos (zangões).

Embora as abelhas normalmente formem colmeias de cerca de 30.000 indivíduos, que podem ser quase tão grandes quanto uma pessoa, os zangões vivem muito mais modestamente. Suas colméias hospedam cerca de 100 abelhas e são pequenas o suficiente para caber em um vaso.

À medida que as temperaturas aumentam no início da primavera, as enormes rainhas que hibernaram no subsolo durante o inverno acordam e procuram néctar e pólen, e um local de nidificação adequado para o ano. Eles não são exigentes – cavidades de árvores, caixas de pássaros e o espaço sob os galpões de jardim servem.A abelha-comum (Bombus pascuorum) forma um ninho acima do solo na grama e no musgo. Crédito: Panoramedia / Wikimedia Commons, CC BY-SA

As operárias guardam o ninho e a forragem da rainha, que põe ovos no final do verão para drones masculinos e novas rainhas. Ambos saem para acasalar com abelhas de outras colméias, enquanto novas rainhas se alimentam de pólen e néctar, armazenando a energia como gordura dentro de seus corpos, para que possam hibernar durante o inverno e emergir na primavera, para iniciar o ciclo novamente. Enquanto isso, os trabalhadores e os drones morrem a cada inverno.

Nem todas as abelhas vivem em colmeias e produzem mel. A abelha cuco, por exemplo, pertence à família das abelhas, mas é uma espécie de ovelha negra. Os cucos se disfarçam de outras espécies de abelhas, escondem seus ovos nas colméias e permitem que os anfitriões que trabalham duro criem e cuidem deles. Tão bem disfarçados são esses parasitas que até os entomologistas lutam para identificá-los na natureza.

Embora as abelhas sejam generalistas e se alimentem de tudo o que possam encontrar, os abelhões tendem a ter uma dieta altamente especializada, e as flores desenvolveram relações estreitas com determinadas espécies. Plantas como trevo vermelho têm longos e complexos tubos de flores que apenas espécies de língua longa como Bombus hortorum podem alcançar. Em sistemas altamente especializados como esse, a perda da planta ou do polinizador pode levar à perda da outra, causando uma cascata de extinções.

Primavera Silenciosa?

A mudança climática não é a única ameaça aos abelhões. Mudanças na maneira como a terra é usada – mais agricultura rica em pesticidas, menos pastagens selvagens – significam menos forragem. Isso causou declínios maciços, mesmo recentemente. O humilde bumble de Cullum (Bombus cullumanus) caiu 80% em todo o mundo desde 2010

Mas as abelhas selvagens são resistentes e respondem mais rapidamente às melhorias em seu habitat, como as tiras de flores silvestres, do que as abelhas. No Reino Unido, o zangão de pelos curtos (Bombus subterraneus) foi declarado extinto em 2000, mas a colaboração entre o RSPB e o Bumblebee Conservation Trust ajudou a reintroduzir a espécie em locais no sul da Inglaterra, perto de Dungeness e Romney Marsh.

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Impactos ambientais na floresta amazônica está mudando a dispersão das plantas

Novas pesquisas constatam que o impacto ambiental nas florestas tropicais vai além da perda de espécies e inclui uma mudança em direção a sementes menores e um aumento na proporção de árvores dispersas pelos animais, afetando o funcionamento do ecossistema. Os resultados são publicados no jornal da British Ecological Society, Journal of Ecology.

O estudo analisou áreas da Amazônia brasileira com níveis variados de atividades como extração de madeira ou queima. Os pesquisadores descobriram que não apenas a presenaça humana reduziu a diversidade geral de árvores, como também aumentou a proporção de árvores com sementes dispersas pelos animais, em oposição a outros mecanismos como o vento.

Esse impacto também levou a uma mudança significativa em direção a espécies de sementes pequenas, com maior probabilidade de serem dispersadas por animais menores, como pássaros e morcegos. Não está claro se essas árvores podem suportar animais maiores que comem frutas, especializados em plantas de sementes grandes e importantes para a dispersão das sementes.

Os pesquisadores observaram efeitos semelhantes em florestas secundárias (re-cultivadas) se recuperação de derrubadas desmatadas. As florestas secundárias mais antigas tinham plantas funcionalmente semelhantes às florestas primárias mais fortemente perturbadas.

O Dr. Joseph Hawes, principal autor do estudo, disse: “Estudos anteriores em florestas tropicais perturbadas freqüentemente descobriram que as comunidades vegetais têm mais probabilidade de depender de sementes dispersas pelo vento e de outros mecanismos abióticos, em vez de animais que comem frutas. Por outro lado, nosso estudo constatou que a perturbação levou a comunidades de árvores nas quais uma proporção maior de espécies e indivíduos depende da dispersão animal. ”

Provavelmente, existem várias razões para essa mudança. Incêndios florestais e exploração seletiva afetam desproporcionalmente certas espécies de árvores, o que pode influenciar os padrões de dispersão. A caça também pode reduzir a dispersão de sementes por grandes pássaros e mamíferos, deixando animais menores dispersarem sementes menores.

Sobre as implicações de uma mudança para espécies de árvores de sementes menores, o Dr. Hawes acrescentou: “As espécies de árvores de sementes menores estão se tornando mais prevalentes em florestas fortemente perturbadas pela atividade humana. Como espécies de árvores com sementes maiores também são frequentemente aquelas com densidades de madeira mais altas, essas mudanças na composição da floresta podem ter implicações a longo prazo para o armazenamento de carbono e a sensibilidade à seca das florestas tropicais.”Amazônia,Queimadas,Brasil,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

O professor Jos Barlow, co-autor, disse: “Isso destaca o papel especialmente importante desempenhado pelos animais de grande porte que comem animais na Amazônia e ajuda a sublinhar a necessidade de evitar a perda desses animais e ajudar a incentivar sua recuperação em seres humanos modificados. florestas.”

A Dra. Ima Vieira, coautora, disse: “A maioria das restaurações florestais se concentra na vegetação, mas também precisamos considerar a fauna em projetos de restauração por causa de suas importantes interações mutualísticas com as plantas. Nosso estudo fornece mais evidências de que a fauna é essencial para restaurar ecossistemas ricos em biodiversidade na Amazônia. ”

A Dra. Joice Ferreira, coautora, afirmou: “Evitar a perda e a degradação das florestas deve ser uma prioridade nas políticas públicas, pois a interrupção das interações planta-animal pode levar a efeitos catastróficos em cascata. No Brasil, metas ambiciosas de restauração foram propostas (12 milhões de hectares até 2030). Desconsiderar o papel das interações bióticas pode minar o sucesso de tais esforços. ”

As florestas tropicais são de fundamental importância para a biodiversidade global, a regulação do clima e os meios de subsistência humanos, mas estão cada vez mais ameaçadas pelos impactos humanos. Atualmente, 80% das paisagens de florestas tropicais existem em um estado modificado, como floresta primária degradada ou floresta secundária em recuperação.

“Pressão da expansão agrícola, incluindo criação de gado e agricultura mecanizada, por exemplo. soja, é alta no leste da Amazônia, mas essa pressão não é uniforme e algumas áreas são mais afetadas que outras. Este também é o caso de pressões como as de plantações de silvicultura, extração seletiva e incêndio. ” disse o Dr. Hawes.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Os traços funcionais das espécies são componentes importantes de um ecossistema e podem apoiar processos ecológicos importantes, mesmo quando a riqueza de espécies é reduzida. Comparado a outros traços de plantas, como área foliar e densidade da madeira, os traços reprodutivos são relativamente pouco estudados, apesar de sua importância para as relações mutualísticas e do papel no recrutamento de novas árvores.

Neste estudo, os pesquisadores pesquisaram 230 parcelas florestais em duas regiões da Amazônia Oriental Brasileira. As parcelas cobriam um gradiente de perturbação nas florestas, de floresta primária não perturbada a floresta que havia sido derrubada, queimada ou derrubada e queimada. No total, os pesquisadores registraram 26.533 caules de árvores vivas de 846 espécies de árvores.

Usando herbários e literatura de pesquisa, os pesquisadores compilaram informações sobre características de frutos e sementes, como tamanho, tipo, forma e método de dispersão para cada espécie.

O estudo se concentrou nas mudanças nas comunidades vegetais, em vez de nas comunidades animais nas florestas humanas impactadas. Os pesquisadores alertam que o isolamento dessas relações específicas a distúrbios provavelmente será difícil devido aos múltiplos fatores de mudança nas paisagens modificadas pelo homem.

Fora do método de dispersão de sementes, os pesquisadores não consideraram outros fatores que podem influenciar o sucesso do recrutamento de plantas. Isso foi limitado por uma escassez de informações sobre o que constitui a dispersão eficaz de sementes por diferentes espécies animais.

O Dr. Hawes disse: “Um dos próximos passos para entender os impactos ecológicos a longo prazo dos distúrbios humanos nas florestas tropicais é criar um banco de dados abrangente para as características das plantas, incluindo medidas como o tamanho das sementes que foram incluídas em nosso estudo. Contribuímos com nossos dados para o TRY Plant Trait Database, um esforço de pesquisa global para compilar e fornecer acesso livre e aberto aos dados de características da planta.”Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

O professor Jos Barlow disse: “Grande parte do trabalho foi financiado por uma bolsa do conselho de pesquisa brasileiro para professores visitantes e destaca a importância da colaboração científica de longo prazo para orientar o manejo florestal na Amazônia”.

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Reconversão pode ajudar a mitigar as mudanças climáticas

Um novo estudo mostrou que a reconversão pode ajudar a mitigar as mudanças climáticas, oferecendo uma gama diversificada de benefícios ao meio ambiente, com impactos regionais variados.

Pesquisa liderada pela Universidade de Sussex e publicada na revista Philosophical Transactions da Royal Society B, fornece uma avaliação global do potencial de re-silagem trófica para ajudar a mitigar as mudanças climáticas.

A reconversão trófica restaura espécies perdidas aos ecossistemas, que podem ter influências em cascata sobre toda a cadeia alimentar. Isso normalmente significa reintroduzir grandes herbívoros (por exemplo, elefantes) e predadores de topo (por exemplo, lobos), ou espécies conhecidas por projetar habitats mais diversos e complexos e beneficiar a biodiversidade (por exemplo, castores).

Mas a reintrodução de espécies não apenas influencia o ambiente local, mas também o clima. Animais, particularmente megaherbívoros (como elefantes) e grandes ruminantes (como bisões e gado) produzem metano – um gás de efeito estufa. Os grandes herbívoros também comem grandes quantidades de vegetação, o que pode impedir o crescimento de árvores. Isso impede que as árvores capturem carbono, mas, por outro lado, também pode impedir que as árvores reduzam o albedo no extremo norte e atenua o aquecimento. Os grandes herbívoros também distribuem grandes árvores semeadas que são particularmente boas na captura de carbono.

A influência dos grandes herbívoros também depende em parte dos efeitos de grandes predadores. Quanto maiores os predadores presentes, maiores as espécies de herbívoros regularmente no menu. Porém, devido às extinções passadas, as espécies sobreviventes que podem ser reintroduzidas são limitadas e isso altera o número e o tipo de herbívoros grandes que têm maior probabilidade de atingir densidades relativamente altas e, portanto, têm maior impacto em seu ambiente.

De acordo com esta nova pesquisa, todas essas relações de interação significam que a aplicação de re-silagem trófica em diferentes partes do mundo terá resultados diferentes para a mitigação climática.

O Dr. Chris Sandom, professor sênior de biologia da Universidade de Sussex, disse: “A principal coisa a lembrar aqui é que a natureza é complexa e precisa ser complexa.

“A reutilização trófica visa restaurar a natureza, incluindo sua complexidade, e depois permitir que ela siga seu próprio caminho. Esse caminho será diferente dependendo do tempo, local e chance. Mas a boa notícia é que isso também trará uma diversidade de resultados. A diversidade é boa porque as necessidades das pessoas e da natureza também são diversas.

No estudo, o Dr. Chris Sandom e colegas da Austrália, América, Dinamarca e Suécia avaliaram cenários em várias regiões do mundo para determinar onde a restauração de espécies que ainda existem hoje poderia ajudar a mitigar as mudanças climáticas.

Em algumas partes do mundo, como Europa e América do Norte, a maioria dos grandes predadores (leões) e herbívoros (elefantes) foi extinta. No entanto, com o retorno de populações saudáveis ​​de lobos, o número de herbívoros grandes restantes, como o cervo, pode ser reduzido, permitindo uma maior oportunidade de crescimento da vegetação e proporcionando efeitos mitigadores sobre as mudanças climáticas.

Owen Middleton, estudante de doutorado da Universidade de Sussex e co-autor do estudo, disse: “As extinções passadas significam que apenas uma pequena fração das espécies presentes na América do Norte e do Sul, Europa e Austrália pode ser reintroduzida em projetos de re-criação. Se todas as espécies disponíveis fossem reintroduzidas nesses locais, é provável que os predadores exerçam mais controle sobre os herbívoros do que no passado. Isso provavelmente resultaria em mais árvores crescendo com benefícios de mitigação das mudanças climáticas.

“Na África e na Ásia, onde a extinção foi menos severa, os megaherbívoros provavelmente seriam mais dominantes. Nas savanas, isso pode parar o crescimento das árvores, reduzindo o potencial de mitigação do clima, mas seria importante para a biodiversidade. É necessária uma análise regional para explorar os detalhes. ”

“Mas essas são estimativas simples de um sistema complexo. Pesquisas futuras devem se concentrar em estudos de caso regionais, que incluem a viabilidade social e ecológica da reintrodução de espécies, bem como como isso poderia ajudar com o clima e outras emergências. ”

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Meio Ambiente: A poluição microplástica está em toda parte

A poluição por plásticos é uma preocupação global crescente. Grandes pedaços de plástico foram encontrados em quase toda parte da Terra, das praias mais visitadas às ilhas remotas e desabitadas. Como a vida selvagem é regularmente exposta à poluição por plásticos, geralmente perguntamos que efeitos os plásticos têm sobre os animais.

Com o tempo, os macroplásticos (detritos de plástico com mais de cinco milímetros de tamanho) se decompõem em pequenas partículas chamadas microplásticos (menores que cinco milímetros), que podem persistir no ambiente por centenas de anos.Ambiente,MicroPlásticos,Poluição,Oceanos,Alimentos,Blog do Mesquita 01

Sabe-se que os macroplásticos causam efeitos prejudiciais à vida selvagem. Animais individuais podem ingerir pedaços grandes ou enredar-se em itens de plástico, como equipamentos de pesca, e sufocar ou morrer de fome. Embora não haja dúvida de que os macroplásticos são prejudiciais à vida selvagem, os efeitos dos microplásticos não são tão diretos.Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 05

Enquanto muitos estudos descobrem que os microplásticos podem afetar a expressão gênica, o crescimento, a reprodução ou a sobrevivência de um animal, outros concluem que os microplásticos não têm efeitos negativos. A falta de um consenso claro torna mais difícil para os tomadores de decisão adotarem políticas eficazes para mitigar a poluição por plásticos.

Nem todos os plásticos são iguais

Recentemente, aprofundamos a pesquisa que analisou como a poluição por plásticos afeta a vida selvagem aquática e terrestre.

Descobrimos que, embora os macroplásticos continuem causando efeitos prejudiciais a animais individuais, eles também estão causando mudanças em larga escala nas populações de animais, comunidades e ecossistemas. Por exemplo, a poluição plástica pode introduzir espécies invasoras em novos habitats transportando organismos a centenas de quilômetros de sua faixa nativa, alterando a composição das espécies em uma comunidade.Ambiente & Ecologia,Poluição,Vida Selvagem,Oceanos,Plástico

Os efeitos dos microplásticos, no entanto, são muito mais complicados. Dos estudos que incluímos em nossa revisão, quase metade (45%) constatou que os microplásticos causavam um efeito. Alguns estudos observaram que os microplásticos fizeram com que os animais tivessem vidas mais curtas, comessem menos ou nadassem mais devagar, e outros viram mudanças no número de filhotes produzidos e mudanças nos genes sendo expressos. No entanto, 55% dos estudos não detectaram efeitos.

Por que alguns estudos detectam efeitos enquanto outros não? Existem várias possibilidades. Por um lado, os pesquisadores usaram diferentes desenhos experimentais em seus experimentos de laboratório.

Há também a questão do uso do termo microplástico, que se refere a uma mistura complexa de plásticos que variam em material (como polietileno, poliestireno ou cloreto de polivinil), os produtos químicos associados a eles (incluindo aditivos, cargas e corantes), além de seu tamanho e forma. Cada uma dessas características, juntamente com a quantidade de plástico ao qual o animal é exposto no experimento, pode afetar seu potencial de detectar um efeito.

Microfibras e microesferas

Por exemplo, vimos que, quando os estudos expuseram crustáceos ao poliestireno, um tipo de plástico usado para fazer recipientes, tampas e talheres descartáveis, os crustáceos geralmente produziam mais descendentes. Mas quando foram expostos ao polietileno ou ao tereftalato de polietileno, usado para fazer sacolas plásticas e garrafas de bebidas, os crustáceos produziram menos filhos.

As microesferas são encontradas em produtos esfoliantes, como produtos de limpeza de rosto e creme dental. Vários países proibiram sua produção e venda. Crédito: Shutterstock

Vários países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, proibiram recentemente as microesferas de plástico – as esferas e fragmentos esféricos em lavagem de rosto, esfoliação corporal e pasta de dentes – porque estavam contaminando o meio ambiente e poderiam causar efeitos negativos em animais aquáticos. Embora essa legislação reduza um tipo de microplástico no meio ambiente, é irrelevante para muitos outros.

Também descobriu-se que estudos usando partículas menores têm maior probabilidade de detectar um efeito. Isso ocorre porque partículas menores são mais facilmente consumidas por pequenos organismos ou porque podem se mover através da membrana celular e causar efeitos nocivos, como inflamação.

No que diz respeito à forma do plástico, as microfibras (de roupas ou cordas) e os fragmentos tiveram maior probabilidade de afetar negativamente o organismo em comparação com as esferas (dos produtos de limpeza facial). Por exemplo, um estudo descobriu que as microfibras eram mais tóxicas para uma espécie de camarão marinho do que fragmentos ou esferas microplásticos.

Finalmente, pode-se esperar que os animais sejam mais prejudicados quando expostos a concentrações mais altas de microplásticos. Embora seja verdade que os crustáceos tenham mais probabilidade de morrer quando expostos a doses crescentes de microplásticos, o efeito na reprodução foi mais complexo. O número de filhotes aumentou com doses extremamente altas, mas diminuiu com doses mais baixas, semelhante ao observado no ambiente.Ecologia,Plásticos,Microplásticos,Meio Ambiente,Ambiente,Natureza,Poluição,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Blog do Mesquita,Brasil

Muitos tipos, muitos resultados

Com base em nossa análise, acreditamos que pesquisas futuras precisam reconhecer a complexidade dos microplásticos e os cientistas precisam projetar seus testes estrategicamente para que possamos realmente entender como os diferentes tipos, tamanhos, formas, doses e a duração da exposição aos microplásticos afetam a vida selvagem.

Somente se tivermos uma melhor compreensão de como os diferentes tipos, formas e concentrações de microplásticos afetam a vida selvagem podemos tomar melhores decisões políticas. Se, por exemplo, as microfibras são realmente mais nocivas que as esferas, poderíamos concentrar nossa atenção em impedir que essas fibras entrem em nossas vias navegáveis ​​por fontes conhecidas, como máquinas de lavar.

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19 fatos que marcaram o clima em 2019

A ativista Greta Thunberg com sua placa de “greve escolar pelo clima” (Foto: Cherwell.org).

Aquele que caminha para ser o segundo ou terceiro ano mais quente da história também foi quente para o noticiário ambiental. Em 2019, o mundo despertou para a emergência climática, jovens tomaram as ruas, idosos famosos foram presos em atos pelo clima e governos mostraram que não conseguem responder aos apelos da população.

No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro promoveu a agenda ambiental a inimiga, paradoxalmente dando a ela uma visibilidade pública inédita. Atravessamos uma crise ambiental crônica chamada Ricardo Salles, com episódios agudos: recorde de queimadas em agosto, recorde de derramamento de óleo em setembro, recorde de desmatamento em novembro. Em janeiro, o Brasil teve o desastre ambiental mais fatal de sua história, com 270 mortos após o rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho. O governo aparentemente está respondendo à falha de regulação que permitiu esse crime com menos regulação. Em agosto, as queimadas na Amazônia botaram o país no centro de uma crise internacional, reforçada pelo pico no desmatamento confirmado em novembro.

Nesta retrospectiva, selecionamos alguns dos eventos que marcaram a luta contra a mudança do clima e os combustíveis fósseis neste ano.

1 – Pirralha porreta

Greta Thunberg encara Trump na ONU (Foto: reprodução de TV)

Em dezembro de 2018, uma adolescente loira de tranças aparentando menos que os 15 anos que tinha caminhava incógnita pelos corredores da conferência do clima de Katowice, na Polônia. Um ano depois, Greta Thunberg não conseguiria repetir as aparições discretas na COP de Madri: elevada a status de celebridade global, a ativista sueca, 16, arrasta multidões e fieiras de câmeras aonde quer que vá. Suas greves solitárias às sextas-feiras, quando matava aula para sentar-se diante do Parlamento sueco cobrando mais ação contra a crise climática, se transformaram em 2019 num movimento global, o Fridays For Future. Greta proferiu discursos furiosos sem aliviar para os adultos no Fórum Econômico Mundial, em fevereiro (“Eu não quero a esperança de vocês. Quero que vocês entrem em pânico”) e na Assembleia Geral da ONU, em setembro (“Como ousam?”). Inspirou milhões de jovens a participarem da maior marcha pelo clima da história, em 20 de setembro. Atraiu a ira de néscios, sobretudo da extrema-direita. E tornou-se a pessoa do ano da revista Time por ter capturado como nenhum ativista antes dela a hipocrisia do discurso da esperança e o abismo entre as boas intenções declaradas dos governos e seus atos reais contra os gases de efeito estufa – um dia depois de ser chamada de “pirralha” por Jair Bolsonaro.

O movimento de jovens foi reforçado por diversos movimentos de adultos. Na Europa, o coletivo Extinction Rebellion promoveu atos de desobediência civil que pararam Londres por dias (e terminaram com um monte de gente na cadeia). Nos EUA, celebridades como a atriz Jane Fonda iniciaram em outubro protestos na frente do Congresso. Fonda, 81, disse que sua meta era ser presa uma vez por semana. Até 20 de dezembro, ela já havia sido detida quatro vezes em 11 atos.

2 – Desmatamento em alta

Foto: Reprodução Facebook MCTIC.

A taxa de desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% no período medido entre agosto de 2018 e julho de 2019. Trata-se do maior desmatamento em uma década e do terceiro maior incremento na taxa desde que o Inpe começou a fazer as medições do sistema Prodes, em 1988.

A escrita já estava no muro desde agosto do ano passado, quando o candidato Jair Bolsonaro prometia acabar com o Ibama e com as ONGs, estimulando desmatadores na Amazônia – no período eleitoral, o desmatamento cresceu 50%. Após um primeiro quadrimestre chuvoso, o desmate começou a mostrar aceleração forte em maio, batendo recordes sucessivos em junho (98% de aumento em relação a julho anterior), julho (274%) e agosto (223%). O sistema Deter, do Inpe, precisou mudar duas vezes a escala dos gráficos em sua página na internet, para acomodar taxas mensais sem precedentes. O ministro do Meio Ambiente chamou a divulgação dos dados de “sensacionalismo”, depois encomendou a seu fiel escudeiro Evaristo de Miranda um PowerPoint mostrando supostos “furos” no Deter, que justificariam a contratação de um sistema privado para “complementar” as informações do Inpe. Quando o Prodes saiu, mostrando a perda de 9.762 km2 de floresta e confirmando os alertas do Deter, o ministro tentou fugir para a frente e culpar os países ricos por não darem dinheiro para a conservação.

3 – Brasil negacionista

O chanceler Ernesto Araújo, que nega o aquecimento da Terra (Foto: Arthur Max/MRE).

Havia um tempo em que os brasileiros podiam se gabar de não precisarem discutir em praça pública se o aquecimento global é real ou não. Aceitávamos a ciência e dávamos risadinhas arrogantes do mundo anglo-saxão, onde o debate público foi capturado pelo lobby fóssil, o que atrasou em 20 anos a tomada de providências contra a crise do clima.

Isso mudou com a eleição de 2018.

O Brasil de Bolsonaro entrou para o grupo dos países nos quais o negacionismo climático é política de Estado. Por via do escritório de importação ideológica instalado na Virgínia, compramos o pacote fechado dos movimentos obscurantistas dos EUA. O ministro das Relações Exteriores professa a variante xucra do negacionismo, segundo a qual a ciência climática é uma invenção da esquerda para destruir o Ocidente e criminalizar o consumo de carne (e o sexo heterossexual). O ministro do Meio Ambiente é um mais alinhado com o negacionismo “prafrentex”, do século 21: admite que a mudança climática existe, mas questiona se é causada pelos humanos. Os ministros não estão sozinhos: o Senado brasileiro agora convoca negacionistas para audiências públicas e tem um negacionista como presidente da comissão mista de… Mudanças Climáticas. Para além da vergonha alheia, tal disseminação do negacionismo significa que nenhuma ação real no clima deverá ser adotada por este governo.

4 – RIP Fundo Amazônia

Logomarca Fundo Amazônia – Logo Floresta.

O que você faz quando tem uma floresta de 4 milhões de quilômetros quadrados para preservar e países ricos te dão quase R$ 3,5 bilhões para isso? Se você é o ministro Ricardo Salles, a resposta é simples: você chuta tudo para o alto porque tem birrinha de ONG.

Desde fevereiro, Salles tem tentado controlar o Fundo Amazônia, uma iniciativa bem-sucedida de pagamentos por redução de desmatamento (REDD+) em vigor desde 2008 numa parceria entre BNDES e os governos da Noruega e da Alemanha. O objetivo do ministro era cortar todos os recursos repassados à sociedade civil e distribuir o dinheiro a seus amigos do agro. Sugeriu, sem nunca ter provado, que ONGs estariam malversando a verba. Ou que o fundo não tinha critérios. Ou que o BNDES, um banco, não sabia gerenciar dinheiro. Tentou aparelhar os comitês gestores do fundo. Só que os doadores nunca toparam. #Xatiado, Salles extinguiu os comitês e desde então vem declarando que a retomada do fundo está “em negociação”. Na prática, o Fundo Amazônia está morto. Governadores da Amazônia, que juntamente com a União recebiam a maior parte do recurso, já estão atrás de doações diretas.

5 – Galvão não se dobra

Foto: Google.

Em 19 de julho, diante das notícias sobre a explosão do desmatamento na Amazônia em junho, Jair Bolsonaro inventou uma mentira para escapar à responsabilidade. Chamou a imprensa internacional para dizer que os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram “mentirosos” e que o diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão, 72, devia estar “a serviço de alguma ONG”. O presidente só não contava com a reação de Galvão. No dia seguinte, Galvão declarou ao jornal O Estado de S.Paulo que a atitude de Bolsonaro foi “pusilânime e covarde”. A declaração lhe custou o cargo, mas ajudou a preservar o Inpe, instituição que mede desmatamento na Amazônia por satélite há mais de 30 anos. Os holofotes da opinião pública passaram a ficar tão em cima do instituto que qualquer tentativa do governo de manipular os dados seria imediatamente percebida. A integridade do cientista e sua decisão de peitar o governo tornaram Galvão um herói nacional. Em dezembro, ele abriu a lista da prestigiosa revista Nature das dez pessoas que fizeram a diferença na ciência no mundo em 2019.

6 – O fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente

Da esq. para a dir.: José Carlos Carvalho, Sarney Filho, Izabella Teixeira, Rubens Ricupero, Marina Silva, Edson Duarte e Carlos Minc em reunião de ex-ministros (Foto: OC).

Em dezembro de 2018, quando Ricardo Salles foi escolhido para ser ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, o Observatório do Clima alertou que o movimento visava extinguir na prática o Ministério do Meio Ambiente sem o ônus de fechá-lo formalmente. A nomeação de um ruralista e então réu (ora condenado) por improbidade realizava o desejo de subordinar o MMA à pasta da Agricultura. Gostaríamos de estar errados quanto a isso.

Mas o primeiro ano da gestão Salles foi exatamente o que se esperava: o de desmonte acelerado do ministério, denunciado inclusive por oito dos nove ex-ministros vivos. O desmonte começou na própria estrutura da pasta, que no primeiro dia de governo perdeu a secretaria de Clima e Florestas (responsável por implementar os compromissos do Brasil no Acordo de Paris), a Agência Nacional de Águas e o Serviço Florestal Brasileiro. Aprofundou-se com a militarização do ICMBio, o esvaziamento das chefias do Ibama e dos cargos de chefia do próprio ministério, o aparelhamento do Conama, a mordaça às comunicações e a execução orçamentária pífia, mesmo com dinheiro em caixa e um monte de problemas ambientais para resolver. Até 25 de novembro, o empenho orçamentário da administração direta do MMA havia sido de menos de R$ 3 milhões, contra R$ 35,8 milhões em 2018.

7 – A “foice no Ibama”

Multado em 2012 por pesca ilegal numa unidade de conservação em Angra dos Reis, Jair Bolsonaro passou o primeiro ano de governo usando a Presidência para promover uma vendeta contra o Ibama, que ele chama de “indústria da multa”. Sob a batuta do ministro Ricardo Salles e execução do presidente Eduardo Bim, a autarquia passou a perseguir os próprios fiscais, abandonou estratégias de inteligência contra o crime ambiental, deixou a maioria de suas superintendências nos Estados acéfalas, censurou as comunicações com a imprensa – um elemento importante de dissuasão de crimes ambientais –, divulgou locais de operação na internet, alertando os criminosos, perdeu recursos para áreas estratégicas como combate ao fogo e viu a mais alta figura da República ordenar o fim da destruição de equipamentos apreendidos de bandidos em áreas protegidas federais. Funcionou: o Ibama aplicou em 2019 o menor número de multas em 15 anos, de acordo com dados públicos obtidos pelo OC e publicados no relatório The Worst is Yet to Come (“O Pior Ainda Está por Vir), lançado na COP25. O número de multas por desmatamento na Amazônia (3.445) foi o menor desde 2012, e o desmatamento foi o maior desde 2008.

8 – Indígenas viram alvo

Paulo Paulino Guajajara, guardião indígena assassinado (Foto: Jesus Pérez-chuseto.com).

Terras indígenas na Amazônia estocam o equivalente a 42 bilhões de toneladas de gás carbônico, sendo portanto fundamentais para o equilíbrio climático global. Mas elas também ajudam a manter o ciclo de chuvas no Brasil e conservar a biodiversidade – além, claro, de garantir a sobrevivência de mais de 170 povos.

Apoiado pela ala militar, pelos liberais e pelos evangélicos, Jair Bolsonaro abriu a temporada de caça às terras indígenas, vistas como um entrave ao “desenvolvimento” (que é como eles chamam a exploração de produtos primários vendidos a preço de banana no mercado internacional) e uma ameaça à “soberania”. Bolsonaro tem prometido abrir essas terras ao garimpo, à agropecuária e à extração de madeira. Na ponta, as promessas vêm sendo entendidas como um “liberou geral”. De janeiro a setembro, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) registrou 160 invasões a terras indígenas, contra 111 no ano passado. O desmatamento em TIs subiu 65%. E líderes indígenas vêm sendo assassinados, como o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, morto numa emboscada em novembro na TI Arariboia, invadida por madeireiros (mais dois guajajaras foram mortos no começo de dezembro na mesma terra). O estímulo às invasões levou Bolsonaro a ser denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional.

9 – ONGs viram alvo

Os #4deSantarém deixam a prisão.

Durante a campanha, Jair Bolsonaro prometeu “acabar com todo tipo de ativismo” no Brasil. Em seus discursos, o presidente tem incluído as ONGs na mesma categoria do pessoal que tem de ir para a tal “ponta da praia”. O ministro Ricardo Salles tem tentado cumprir a promessa presidencial sufocando financeiramente as ONGs: primeiro com o ofício (ilegal e do qual teve de recuar) determinando a suspensão de todos os convênios do ministério com organizações do terceiro setor; depois, congelando o Fundo Amazônia. Em abril, um decreto presidencial eliminou centenas de colegiados com participação da sociedade civil em todo o Executivo, limitando o controle social da administração federal. Em seguida, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) foi alterado, mais uma vez para limitar a participação social e aumentar o controle do governo.

A nova fase da eliminação do ativismo parece ser a criminalização. No final de novembro, quatro brigadistas voluntários foram presos e o escritório do Projeto Saúde e Alegria foi invadido pela Polícia Civil de Santarém (PA), sob a acusação surreal de que os ambientalistas estariam por trás dos incêndios feitos por grileiros numa área de proteção em Alter do Chão. Numa omissão inexplicável do governador Helder Barbalho (MDB), os quatro foram indiciados na semana do Natal.

10 – Amazônia em chamas

Incêndio em Alter do Chão em setembro (Foto: Eugênio Scannavino).

Em 10 de agosto, fazendeiros da região de Novo Progresso, no Pará, combinaram por WhatsApp um “Dia do Fogo”, uma espécie de queimadaço coletivo de áreas que eles haviam derrubado. A queima tinha o objetivo declarado de “mostrar serviço” ao presidente Jair Bolsonaro. E iniciou uma crise internacional. Naquele mês, o número de queimadas na Amazônia foi o maior em sete anos – o triplo do registrado no mesmo mês do ano passado. Foi o maior número de focos da queimada registrado num mês de agosto desde o início da queda no desmatamento que não esteve associado a nenhum evento de El Niño ou seca extrema.

O governo reagiu primeiro tentando desqualificar o dado (eram “fogueiras de acampamento”, nas palavras imorredouras do chanceler), depois relativizá-lo e, por fim, quando a realidade tornou-se inescapável, restou culpar as ONGs e os índios pelas queimadas. Mas todos os dados científicos mostravam que as chamas nada mais eram do que a etapa final do desmatamento da floresta, que havia acelerado no segundo semestre, como vinha mostrando o Inpe. Em setembro, Bolsonaro determinou a contragosto que o Exército fosse deslocado para combater o fogo. A presença dos militares, aliada ao retorno das chuvas, fez o número de focos cair em outubro. Mas o desmatamento teve um repique em novembro, tão logo o Exército saiu de campo. Na estação seca, toda essa floresta derrubada queimará novamente.

11 – Califórnia em chamas

Os incêndios florestais devastadores no Estado americano da Califórnia tornaram-se endêmicos, como os cientistas previam há 30 anos. Em outubro de 2019 os californianos assistiram a mais uma temporada grave de fogo, mas menos severa do que nos anos de 2017 e 2018, os piores da história, quando mais de uma centena de pessoas morreram. Neste ano, a estação de fogo veio acompanhada de blecautes maciços (algo comum nas grandes cidades brasileiras, mas inédito nos EUA). A ligação entre a infraestrutura de transmissão de eletricidade e o início dos incêndios fez a distribuidora de energia PG&E decretar falência, tornando-se a primeira falência relacionada à mudança climática no mundo.

12 – Austrália em chamas

Bombeiro resgata coala na Nova Gales do Sul, Austrália.

Do outro lado do Pacífico, a Austrália vive dias de terror desde novembro devido ao fogo, à estiagem e as altíssimas temperaturas. Enquanto esta retrospectiva era escrita, as queimadas mais devastadoras da história arrasavam o continente, cacatuas caíam mortas das árvores pelo calor e aborígenes da região central australiana eram forçados a sair de suas terras – os primeiros refugiados climáticos australianos. Em novembro, centenas de coalas morreram nos incêndios, levando a manchetes exageradas sobre a espécie estar “funcionalmente extinta”. Em 18 de dezembro, o país teve a temperatura mais alta da história: uma média nacional de 41,9oC, o que significa que em algumas localidades os termômetros bateram os 50oC. O serviço de meteorologia australiano mudou até o código de cores de seus mapas de temperatura, usando um marrom para simbolizar as regiões mais quentes – à falta de tons mais escuros de vermelho. Em 10 de novembro, a Austrália registrou, também pela primeira vez em sua história, um dia sem chuvas em parte alguma de seus 7,9 milhões de quilômetros quadrados.

O governo australiano aparentemente acha que se trata de castigo divino ou de uma “variabilidade do sistema”. O premiê australiano, Scott Morrison – eleito numa disputa apertada que tinha como um dos temas principais a crise do clima –, é um negacionista climático que quer manter a lucrativa indústria do carvão mineral. Já a ciência não hesita em classificar os incêndios e o calorão como decorrência direta da mudança do clima. Talvez os eleitores australianos ouçam a ciência da próxima vez.

13 – Fiasco madrileno

Foto: Kiara Worth / IISD.

A COP que não deveria ter sido foi, e o resultado só faz provar que ela não deveria ter sido. Rejeitada pelo Brasil, abraçada pelo Chile e desviada de última hora para a Espanha após a Primavera Chilena, a COP25 tinha duas missões: completar a negociação sobre mercados de carbono, fechando o chamado “livro de regras” do Acordo de Paris, e arrancar dos governos um compromisso forte de aumentar a ambição de suas metas de corte de emissão (NDCs) para 2020. Fracassou fragorosamente em ambas. O chamado artigo 6 do acordo (as regras para os mercados) não fechou e a exortação sobre ambição foi genérica e, digamos, pouco ambiciosa.

O resultado foi em parte responsabilidade da presidência fraca da ministra chilena Carolina Schmidt, mas em grande parte culpa dos grandes países emissores. Um em especial teve um papel particularmente deletério: o Brasil. O ministro Ricardo Salles (aquele mesmo que dizia que COPs eram apenas férias de luxo para funcionários públicos e que tentou impedir a Climate Week, uma espécie de “miniCOP” latino-americana na Bahia, alegando tratar-se de mera oportunidade para turismo gastronômico) passou duas semanas em Madri chefiando a delegação brasileira, algo inédito, já que ministros só participam dos últimos dias de negociação. Entre uma ida às compras e outra, Salles fez bullying em diplomatas brasileiros e tentou chantagear os outros países a dar dinheiro ao Brasil em troca de destravar negociações. De forma inédita, o Brasil vetou menções a direitos humanos e a emergência climática nos textos em negociação – e, na plenária de encerramento, ficou isolado ao tentar retirar a menção a oceanos numa manobra em defesa dos ruralistas. As mudanças de orientação do Brasil acabaram dando palco a países como a Austrália para melar toda a negociação, e o resultado foi um fiasco como não se via desde 2009 numa COP. A atuação deu ao Brasil o antiprêmio Fóssil do Ano, concedido pelas ONGs aos países que mais atrapalham as negociações. Em mais uma profecia autorrealizável e com o decoro que lhe é peculiar, Salles botou a culpa no processo e nos outros por uma derrocada que ele mesmo protagonizou.

14 – Etanol na vala comum

Tereza, Jair e Paulo (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil).

Alguém se lembra do etanol, aquele biocombustível vendido pelo Brasil como sustentável porque não aumentava o desmatamento nem competia por terra com culturas alimentares? Em 6 de novembro ele foi jogado na lama pelo governo Bolsonaro. E justamente pelas mãos de dois ministros considerados “técnicos” e “razoáveis”: Tereza Cristina (Agricultura) e Paulo Guedes (Economia). Numa canetada, os dois e o presidente extinguiram uma proibição em vigor há dez anos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. Desta vez, tiveram o apoio da Unica, o lobby sucroalcooleiro que um ano atrás se manifestara contra o fim da proibição (um desejo antigo de alguns ruralistas) por achar que isso gerava muito dano de imagem para pouco proveito econômico concreto (achavam certo: as áreas designadas no país como aptas ara a cana equivalem a seis vezes tudo o que o Brasil plantou dessa gramínea em 500 anos, ou seja, não há nenhuma necessidade de plantar na Amazônia e no Pantanal). O decreto de novembro parece ser mais uma demonstração de poder dos ruralistas, que querem eliminar qualquer regulação sobre sua atividade. E traz um sinal para outros setores, como o da soja e o da carne, de que nenhuma restrição, estatal ou voluntária, deverá valer mais para as commodities brasileiras.

15 – Investidores reagem

Queimada em Porto Velho, Rondônia – Foto: Victor Moriyama / Greenpeace.

A política antiambiental de Bolsonaro não passou incólume a dois grupos de pessoas que se informam por outros canais que não os grupos de WhatsApp do Carluxo: os investidores e os mercados internacionais. Em agosto, 18 marcas internacionais, incluindo Vans, Timberland e The North Face reunidas sob a VF Corporation, anunciaram boicote ao couro brasileiro devido à situação da Amazônia. Em setembro foi a vez da H&M, uma das maiores redes varejistas do mundo. Também em agosto, grupos de investidores com US$ 16 trilhões em ativos pediram ao governo providências concretas contra as queimadas na floresta e demandaram às empresas que expliquem como estão lidando com o problema. Em dezembro, 87 grandes corporações, incluindo a Tesco e o Carrefour, escreveram a Bolsonaro pedindo a manutenção da moratória da soja, em vigor há 13 anos, depois que os produtores, reunidos na Aprosoja, prometeram derrubá-la.

16 – 408, 7.6, 1.1, 0.6 – os números do ano

Enquanto os políticos falham em responder à altura à crise do clima, a ciência segue contabilizando a catástrofe em relatórios anuais que mostram quão longe a humanidade está de um clima seguro. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial mostrou que a temperatura média do planeta (continentes e oceanos) deve fechar em 1,1ºC, o que tornará 2019 o segundo ou terceiro ano mais quente da história. A OMM também divulgou mais um recorde das concentrações de CO2 na atmosfera: 407,8 partes por milhão em 2018, 47% acima dos níveis pré-industriais. O IPCC, que lançou dois relatórios especiais (um sobre terra e outro sobre oceanos e criosfera) neste ano, mostrou que, sobre os continentes, o aquecimento global já bateu o limite de 1,5oC preconizado pelo Acordo de Paris. E, no fim do ano, o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) publicou a nova edição de seu relatório Emissions Gap, segundo a qual a humanidade precisa cortar emissões em 7,6% por ano todos os anos daqui a 2030 – algo que não está nem próximo do horizonte – se quiser ter uma chance razoável de evitar a ultrapassagem da barreira do 1,5oC. A “boa” notícia ficou por conta do consórcio Global Carbon Project: em 2 de dezembro, eles publicaram sua estimativa anual das emissões globais por combustíveis fósseis, mostrando que em 2019 elas cresceram “apenas” 0,6%, metade do ritmo verificado no ano anterior. Lembrando que deveriam ter caído 7,6%.

17 – Adieu, Paris

No dia 5 de novembro, surpreendendo a um total aproximado de zero pessoa, o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou à ONU a carta de denúncia do Acordo de Paris, iniciando formalmente o processo de saída do tratado. A notificação afirma que o acordo climático é “oneroso” para os Estados Unidos, mas deixa em aberto a possibilidade – vista como infâmia pela comunidade internacional – de retornar caso Paris seja “renegociado” nos termos que Trump deseja. De acordo com as regras do pacto, a saída se efetiva um ano após a notificação. Ou seja, os EUA estarão fora em 4 de novembro, um dia após a eleição presidencial que pode apear Trump do poder.

Sem os Estados Unidos, o clima de cooperação internacional visto em 2015 em Paris e fundamental para o sucesso da implementação do acordo não deve se repetir. Países em desenvolvimento, por exemplo, tendem a fazer corpo mole com suas metas de corte de emissão, já que a promessa de financiamento climático dos países ricos fica mais difícil de cumprir sem o aporte do mais rico de todos eles. Por outro lado, as emissões dos EUA já estão em queda devido a mudanças tecnológicas na geração de energia – e isso dificilmente se reverterá, por mais que Trump goste do carvão mineral.

18 – #ÓleonoNordeste

Em 2019, os brasileiros quase tiveram saudades do tempo em que a coisa mais sinistra que aportava misteriosamente nas praias eram latas de maconha. No final de agosto, manchas de óleo começaram a aparecer em algumas praias nordestinas, no que se tornaria o maior desastre ambiental do litoral brasileiro: 4.500 km de praias foram contaminados, do Rio de Janeiro ao Maranhão. Em setembro, grandes quantidades de óleo tomaram praias icônicas, como a Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e Itapoã, na Bahia, além de estuários e manguezais. Apesar das declarações do secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., sobre a cognição avançada dos peixes, a indústria pesqueira nordestina sofreu um baque que ainda não pôde ser calculado, com a contaminação de pescado por substâncias tóxicas no óleo. O governo levou 41 dias para acionar o plano de contingência contra vazamentos, que o ministro do Meio Ambiente só descobriu que existia no fim de setembro. Os dois comitês que gerenciavam a resposta rápida haviam sido extintos. A limpeza das praias foi feita por voluntários, que colocaram a própria saúde em risco, e por funcionários locais do Ibama. Até hoje não se sabe de onde o óleo veio, nem quando vai parar de chegar às praias. Na dúvida, o ministro Ricardo Salles adorou a estratégia do chefe e culpou o Greenpeace pelo vazamento – e levou um processo. O episódio mostra mais um risco da dependência de combustíveis fósseis e indica quão preparado o Brasil não está para lidar com vazamentos de grandes proporções no pré-sal.

19 – Grile, que o Jair garante

Paulo Lopes/Futura Press.

Em 11 de dezembro, com a COP25 em pleno curso, Jair Bolsonaro deu um presentão de Natal para os criminosos que desmatam a Amazônia: baixou uma Medida Provisória liberando a regularização de terras griladas até 2018, atendendo a seus eleitores que invadiram, devastaram e ocuparam florestas públicas para especular com a terra, apostando na impunidade. A MP repete, ampliando, a anistia à grilagem que já havia sido dada por Michel Temer e que é objeto de uma ação de inconstitucionalidade no STF.

A ocupação de terras públicas é o principal motor do desmatamento na Amazônia – e, portanto, a principal causa individual de emissões de carbono do Brasil: 35% do desmatamento visto em 2019 ocorreu em terras devolutas ou sem informação sobre posse. Diferentemente do que alega o governo, a grilagem é feita em sua esmagadora maioria por quadrilhas bem organizadas e bem financiadas, muitas vezes comandadas desde São Paulo – e não por pequenos agricultores pobres. O limite de 2.500 hectares dado pela MP de Bolsonaro para tornar um imóvel passível de regularização também mostra que são os latifundiários que se beneficiam da medida presidencial.

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Patanal em fogo – araras-azuis e outros animais sob risco de extinção

O drama das araras-azuis e outros animais sob risco de extinção e acuados pelo fogo no Pantanal.

Por muito pouco — questão de segundos — a bióloga Carine Emer, do câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), não morreu queimada no carro em que viajava no domingo, dia 27 de outubro, pela BR-262, entre Corumbá e Miranda, no Mato Grosso do Sul. Uma labareda gigante atravessou a rodovia, vinda de um incêndio no mato em suas margens. Foi apenas mais uma entre o maior número de queimadas já registrado no Estado. Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Araras comem cocos no chãoDireito de imagem CEZAR CORRÊA
Araras comem cocos no chão; fogo aumenta ainda mais o risco de que algumas espécies ameaçadas de extinção desapareçam

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958 nos três meses deste ano.

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%. Depois vem agosto, que passou de 243 para 1.641 (575%), e setembro, que foi de 785 para 2.887 (368%).

O fogo coloca em risco a vida de muitos animais da rica biodiversidade pantaneira, assim como a vegetação. É fácil encontrar animais mortos depois que o fogo se apaga, como cobras, lagartos e jacarés, estes principalmente por causa da seca.

“Ainda não há estimativa de quantas árvores e bichos foram queimados”, diz Carine. “Também é difícil dizer em quanto tempo a área vai se recuperar. Depende de até quando os incêndios vão durar, do que for destruído.” O governo do Estado ainda não tem um levantamento da situação.

O engenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio, gerente dos programas Cerrado e Pantanal, do WWF-Brasil, diz que, embora ainda não tenha sido feito um levantamento preciso do impacto dos incêndios na vida selvagem, ele foi intenso.

“Há vários relatos de animais incinerados ou asfixiados pela fumaça”, explica. “Os que se locomovem mais lentamente, como os de pequeno porte e os répteis são os que sofrem mais com as queimadas”, acrescenta.

Filhote de arara morreu desidratado e queimadoDireito de imagem THAMY MOREIRA
Filhote de arara morreu desidratado e queimado

De acordo com Sampaio, diferentemente de algumas plantas, que têm adaptações genéticas para sobreviver ao fogo, entre os animais elas não existem.

“Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios”, diz ele. “Isso faz com que o impacto (dos incêndios) seja muito maior para os animais do que para os vegetais. Mas não há estudos sobre isso, então é muito difícil estimar quantos bichos foram mortos.”

Ele alerta, no entanto, que o fogo aumenta ainda mais o risco de algumas espécies ameaçadas de extinção desaparecerem, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e algumas aves, como a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus).

O único levantamento já feito depois dos incêndios foi elaborado pelo Instituto Arara Azul, uma organização não governamental que criou e administra o Refúgio Ecológico Caiman (REC), o maior centro de reprodução da espécie no Pantanal, com 54 mil hectares, onde há atualmente 98 ninhos cadastrados, dos quais 52% naturais e 48% artificiais. “O fogo atingiu nossa fazenda no dia 10 de setembro”, conta a bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto e professora do programa de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidadade Anhanguera Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), de Campo Grande.

Atos criminosos e riscos para viajantes

De acordo com o governo do Mato Grosso do Sul os incêndios florestais ocorrem em várias direções e em proporções nunca registradas, causados “pela estiagem e atos criminosos”.

O fogo nas margens da rodovia BR-262, que liga Vitória (ES) a Corumbá (MS), cruzando o Pantanal, assusta e coloca em riscos a vida dos viajantes. As labaredas chegam a mais de dez metros de altura e formam uma cortina de fumaça, que transforma o dia em noite, reduzindo a visibilidade de quem trafega pela estrada.

Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadasDireito de imagem INSTITUTO ARARA AZUL
Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadas

Devido à gravidade da situação, em setembro o governo estadual decretou estado de emergência. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas para renovar os pastos ou abrir novas áreas de cultivo.

Verruck diz que é uma atitude cultural. “Historicamente sempre foi assim, nesta época do no ano coloca-se fogo”, explica. “Mas este é o período mais seco do ano, por isso proibimos qualquer tipo de queimada entre agosto e outubro de todos os anos. Agora, como a situação está mais grave, prorrogamos a interdição até 30 de novembro, assim como o estado de emergência. Neste período, todas as queimadas são ilegais.”

Segundo Verruck, elas já devastaram 56 mil hectares de vegetação nativa no Pantanal sul-mato-grossense apenas do dia 20 de outubro até o dia 31. “Em todo o Estado, a área chega 1,3 milhão de hectares, das quais cerca de 500 mil foram na reserva dos índios cadiuéus”, diz.

“A situação, já complicada nesta época do ano, se agravou, porque choveu apenas 30% do que é normal para este período.” Também contribuiu para intensificar o fogo uma combinação de outros fatores como baixa umidade do ar, alta temperatura, ondas de calor, muita matéria orgânica seca e grande velocidade do vento.

De acordo com ele, para combater as queimadas, o governo estadual conta com o apoio do Estado vizinho do Mato Grosso, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Comando Militar do Oeste do Exército Brasileiro.

“Estão trabalhando dezenas de brigadistas do Ibama, bombeiros e militares”, conta. “Além disso, estão sendo usados no combate ao fogo três aviões e quatro helicópteros. Entre os problemas que enfrentamos nesse trabalho estão dificuldades nas comunicações entre os municípios atingidos, pois os incêndios queimaram as fibras ópticas.”

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%Direito de imagem CHICO RIBEIRO/PORTAL DO GOVERNO DE MATO GROSSO DO
Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%

Em seu 1º Relatório do Impacto do Fogo sobre as Araras Azuis, Neiva informa que dos 98 ninhos cadastrados, 39 eram de araras 15 de outras oito espécies de aves, todos com ovos ou filhos. Além disso, havia 30 ninhos sendo preparados pelas araras ou em disputa com outras aves e 14 vazios. Desse total, 33% foram atingidos em diferentes graus de severidade, dos quais apenas dois foram perdidos totalmente. A contabilidade final revela, no entanto, que 16 filhotes e 23 ovos foram destruídos pelos incêndios.

Próximas gerações de araras ameaçadas

Segundo Neiva, isso afetará o sucesso das araras-azuis não só nesta estação reprodutiva, mas também no futuro.

“As perdas atuais serão sentidas nestas e nas futuras gerações, quando estes filhotes perdidos não entrarão na população reprodutiva daqui a 9 ou 10 anos”, lamenta em seu relatório.

“Queremos saber também o que acontecerá nos próximos anos com relação à alimentação, que até agora não era um fator limitante. Mas com os incêndios, hectares e mais hectares da palmeira acuri foram totalmente destruídos. Esta planta é chave não só para as araras-azuis, embora seja fundamental para elas, mas para várias outras espécies que se alimentam da sua polpa, inclusive o gado.”

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958Direito de imagem GOVERNO DO MS/DIVULGAÇÃO
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958

Sobre o convívio da biodiversidade vegetal com o fogo anual do Pantanal há mais estudos. “De acordo com as pesquisas que temos realizado, os incêndios nas áreas mais sujeitas a inundações podem diminuir o número de espécies de árvores e arbustos que ocupam as partes baixas”, diz o botânico Geraldo Alves Damasceno Junior, dos programas de pós-graduação em Ecologia e Conservação e em Biologia Vegetal, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

“Muitas árvores que tiveram suas copas queimadas não conseguirão rebrotar e a inundação que virá depois poderá impedir que sementes dessas espécies germinem, pois muitas delas precisam de um período prolongado de seca para nascer e crescer nesses ambientes”, acrescenta Damasceno.

Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenasDireito de imagem VICENTE ASSAD
Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas

Mas para a vegetação pantaneira as queimadas também podem ter um lado bom. “Elas promovem aumento da biodiversidade das espécies herbáceas que ocorrem nesse ambiente”, explica Damasceno.

“Como grande parte das plantas do Pantanal pertence a este grupo, no cômputo geral os incêndios podem promover um aumento na biodiversidade dos vegetais. Assim, o fogo é um elemento que na paisagem da região faz parte da dinâmica da vegetação, embora algumas espécies mais sensíveis possam desaparecer dos locais onde ele foi muito severo.”

A flora tem outra vantagem em relação à fauna do Pantanal. “A vegetação se recupera muito rapidamente”, explica Damasceno. “Em poucos meses, ela vai rebrotar novamente. Entretanto, alguns efeitos podem ser bastante duradouros. Para árvores e arbustos, por exemplo, nós conseguimos captar efeitos danosos até seis anos após eventos de fogo.”

Carine conta que pesquisa para seu pós-doutorado a dispersão de sementes na Mata Atlântica, mas estava no Mato Grosso do Sul para dar uma palestra na Semana da Pós-Graduação em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grade.

“Eu achei que era uma ótima oportunidade para dar um pulo até o Pantanal e conhecê-lo, afinal é o sonho de todo biólogo ver este sistema tão rico”, conta. “Então organizamos uma pequena excursão para ir até a região do Passo do Lontra, que fica no município de Corumbá.”

Focos de queimadas no PantanalDireito de imagem CARINE EMER
Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Eles chegaram ao local na sexta-feira e Carine disse que já achou a situação esquisita. “Estava tudo muito estranho, muito seco, e o rio Miranda tão baixo como nunca se viu”, explica.

“Saímos para ver bicho, mas não ouvíamos nem víamos nenhum. No sábado de madrugada, aconteceu a mesma coisa. Poucas aves, o que é estranho, porque no Pantanal você visualiza muitos animais. Saímos de barco pelo rio e só o que víamos era fogo dos dois lados. Algo surreal, pois a gente vai para o Pantanal, a maior região alagável do mundo, e só vê incêndio por todos os lados e nada de bicho.”

Mas o pior ainda estava por vir. No domingo eles andaram horas de carro pela BR-262 e praticamente não avistaram animais. “Só vimos um tamanduá-mirim na beira da rodovia e tudo seco, lagoas, riachos, vegetação”, revela. “Vimos também jacarés mortos em poças secas.”

No final do dia resolveram voltar para Campo Grande. “Era por volta de umas 18 horas e começamos a ver muito fogo, nos dois lados da estrada e focos mais distantes”, conta.

“De repente, uma labareda gigantesca cortou a estrada e não nos pegou por questão de dois ou três segundos. Fizemos a volta e retornamos para Corumbá, muito assustadas e com uma sensação de estar no Inferno, de Dante. Quer dizer, não conheci o Pantanal, pois não vi bichos, e quase morri.”

Espécies atingidas pelo incêndio no PantanalDireito de imagem VICENTE ASSAD
Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios, alerta oengenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio
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“Ouro negro”, capital do mal!

Ambiente,Oceanos,Crimes Ambientais,Brasil,Petróleo,Meio Ambiente,Ecologia,Fauna,Blog do Mesquita 01A Petrobras financiou um Plano de Contingências a óleo no litoral e bacias hidrográficas, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, e com participação de 11 universidades, que elaboraram um trabalho de nove volumes, denso, minucioso,detalhado. Para quê, afinal?

Como é de praxe acontecer no Brasil, estudos, pesquisas, relatórios e tais, têm servido mesmo é como instrumento burocrático para alimentar sistemas ineficientes, de faz de conta, sem aplicação do que se recomenda, sem focos em objetivos inteligentes de prevenção, planejamento, fiscalização.

Tais relatórios, documentos, sistematizações de informações, com gráficos, fotos e capas duras caras e estilisticamente trabalhadas, servem, e muito bem, ao que nomeio, em minha pesquisa de trabalho acadêmico, como ” …Discurso Marketeiro Insustentável (Greenwashing) “. Estão a servir ao fluxo perverso de captação de recursos, que vão alimentar esse ciclo, criminoso, de não fazer, não aplicar, não colocar em funcionamento, o que estudos, pesquisas, reportagens… comprovam como importantes, necessários e urgentes.

Senão, vejamos, se o tal Plano de Contenção de Òleo ( será quanto custou? ainda estou a investigar) estivesse em prática, na ativa mesmo, valorizando as justificativas como investimento, como instrumento de prevenção, esse óleo ai,que começou a ser notícia, desde o mês de Agosto, já não estaria contido, desde a sua origem? No entanto, estamos quase no final de Outubro, e os estragos, os prejuízos à vida, se agigantam.
Esses recursos gastos com o tal plano, não poderia, não deveria, estar a serviço de evitar, de causar, de impedir um desastre socioambiental, como esse? E não adianta vir notícias sobre cálculos de perdas incalculáveis, sem fim em efeitos devastadores, para a vida e seus entornos, interdependentes, sedentos de cuidados, de compromisso, de cumprimento de deveres.

Os diversos ambientes onde o óleo chega é devastador, e pra sempre! Poderia ser momento, fato, de grande alerta para o que a Ciência vem mostrando sobre as necessidade de se potencializar outras fontes de energia, limpas e abundantes, tão amplamente divulgadas, e até já acessadas, mundo afora.

E daí, quem dera, quem sabe, darmos um salto civilizatório, definitiva e inteligentemente, entendermos o mal devastador que o tal do “ouro negro” fez com a vida, e seus ambientes sedentos de alternativas para o bem-viver! Enquanto isso, a população, como formiguinhas operárias, sem estrutura para conter a velocidade e o volume do óleo pegajoso, trabalha duro, em arranjos domésticos, pra tentar cobrir ausências, negligências das superestruturas vinculadas ao “ouro negro”, como capital do mal!

* Liliana Peixinho – Jornalista, ativista, colaboradora de diversas mídias socioambientais, autora do trabalho de pesquisa acadêmica e de campo minado em desafios cotidianos

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Governo tem que provar que pode lidar com o óleo nas praias do nordeste

Ambiente,Oceanos,Crimes Ambientais,Brasil,Petróleo,Meio Ambiente,Ecologia,Fauna,Blog do Mesquita 01Governo tem que provar na Justiça que é capaz de lidar com desastre ambiental no nordeste.

Manchas de óleo nas praias da capital sergipana, no início de outubro. Foto: Adema/SE.

O governo Federal está, desde o final da última semana, em meio a um embate judicial para provar que é capaz de conter e lidar com o vazamento de óleo que já polui cerca de 2 mil km da costa do nordeste brasileiro. No centro da questão está a implementação do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC), que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) garante estar em plena operação. O entendimento é contrário ao de especialistas no assunto.

Na última sexta-feira (18), o Ministério Público Federal nos nove estados do Nordeste havia ajuizado uma Ação Civil Pública conjunta para que a Justiça Federal obrigasse a União a acionar, em 24 horas, o PNC, sob pena de multa de R$ 1 milhão/dia, em caso de descumprimento da determinação. No domingo (20), a juíza federal Telma Maria dos Santos Machado julgou a ação. Em seu entendimento, o Governo Federal já colocou o Plano em andamento. O MPF em Sergipe, que encabeça este processo, estuda recorrer da determinação. Enquanto isso, outras Ações Civis Públicas estão em andamento (leia mais abaixo), solicitando medidas pontuais do governo no gerenciamento da crise.

Plano Nacional de Contingência

O Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC) foi instituído pelo Decreto nº 8.157/2013. Ele foi criado após o acidente em um poço de petróleo da empresa americana Chevron na Bacia de Campos, em 2011, quando 3.700 barris de óleo foram derramados no mar.

Visando evitar que tragédias como a ocorrida em 2011 voltassem a se repetir, o documento que regulamenta o PNC fixou responsabilidades, estabeleceu estrutura organizacional e definiu diretrizes, procedimentos e ações a serem tomadas em casos de incidentes de poluição por óleo em águas brasileiras, de modo a organizar a atuação coordenada de órgãos da administração pública e entidades públicas e privadas, para ampliar a capacidade de resposta e minimizar danos ambientais e para a saúde pública em casos como o que o Nordeste vivencia atualmente. Isto é, ele define quem deve fazer o que, em casos de desastres ambientais por derramamento de óleo.

Petróleo cru polui a praia do Forte, na Bahia. Foto: Instituto Bioma/Fotos Públicas.

O documento é minucioso. Ele contém normas e procedimentos a serem tomados, inclusive com detalhamento de quais as ferramentas devem ser utilizadas em caso de acidentes, como é o caso das Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo, chamadas “cartas SAO” e o Mapeamento de Área para Resposta Emergencial no Mar (Marem).

Mesmo diante do ineditismo da tragédia que acomete o Nordeste atualmente, por sua dimensão e características, e apesar do entendimento da juíza federal, tanto MPF quanto especialistas no assunto entendem que o governo tem falhado no enfrentamento da crise e na aplicação do Plano.

“A nosso juízo não houve até a presente data tal colocação [do PNC em ação]. Ou colocaram em prática um Plano Alternativo (apenas de conhecimento deles). Basta assistir às medidas ‘incrementadoras’ que vem sendo inseridas a conta-gotas, a cada dia, pelos órgãos do governo, na tentativa paliativa para não gastar muitos recursos financeiros, esperando que as manchas órfãs (até agora) ‘desistam de aparecer’ nas praias do Nordeste, ou em qualquer outro endereço”, diz a oceanógrafa Yara Schaeffer Novelli, professora sênior do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) e sócia-fundadora do Instituto Bioma Brasil.

Governo “omisso, inerte, ineficiente, ineficaz”

Segundo o Ministério Público Federal, desde os primeiros anúncios do acidente, o Governo Federal tem se eximido de tomar ações concretas para a efetivação do PNC, “limitando-se a fazer limpeza de praias, a passos lentos, e prosseguindo em sua omissão de não adotar medidas protetivas às áreas sensíveis, mesmo já tendo sido impactadas, como se o Brasil não estivesse preparado para lidar com situações dessa gravidade”, diz o texto da Ação Civil Pública.

De fato, na prática, o PNC só foi formalizado pelo ministro do Meio Ambiente no dia 11 de outubro, 41 dias depois de terem surgido as primeiras manchas de óleo no litoral. Na data, o ministro Ricardo Salles enviou um ofício circular à Casa Civil designando a Marinha do Brasil como “coordenadora operacional” das ações (Veja abaixo). Por lei, o Ministério do Meio Ambiente é o responsável por acionar o plano.

Ofício circular. Reprodução.

Um dos motivos apontados para esta demora foi a dissolução, em abril de 2019, de dois dos conselhos que integram a estrutura organizacional do PNC: o Comitê Executivo e o Comitê de Suporte, após publicação de decreto presidencial que extinguiu órgãos colegiados no país. Além disso, especialistas apontam que a demora é mais uma evidência de que, na realidade, o próprio governo desconhecia que havia um plano de contingência para lidar com esse tipo específico de situação.

Soma-se a esta situação o fato de que o departamento responsável por definir estratégias para emergências ambientais do Ministério do Meio Ambiente, o Departamento de Qualidade Ambiental e Gestão de Resíduos, subordinado à Secretaria de Qualidade Ambiental, ficou sem chefe por seis meses este ano. O cargo só foi ocupado 35 dias após o início da crise nas praias do Nordeste, quando as manchas já atingiam 140 localidades. O novo diretor foi nomeado no dia 4 de outubro.

“O ministro [Ricardo Salles] indicou, de forma explícita, que havia outras coisas mais importantes [em sua lista de prioridades]. Após o início dos incidentes, a primeira agenda relacionada ao tema foi 39 dias após os primeiros registros. Nesses 39 dias, o ministro ainda teve uma viagem de duas semanas para fora do país. No meu entendimento, se temos a maior catástrofe marinha que se tem registro, eu não consigo imaginar outra coisa mais importante do que estar aqui coordenando os trabalhos e dando transparência, comunicando, de forma clara e constante, o que está sendo feito”, disse Alexander Turra, biólogo e professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).

À imprensa, Salles defendeu que o Plano de Nacional de Contingência foi acionado no início de setembro e que o ofício enviado à marinha foi apenas uma formalização dos procedimentos. Em entrevista à Globonews na noite desta terça-feira (22), o ministro Ricardo Salles voltou a defender as ações do governo frente ao desastre.

Falta de transparência

Ministro do Meio Ambiente visitou o nordeste no começo de outubro, 38 dias após as primeiras manchas de óleo aparecerem nas praias da Paraíba, o primeiro estado atingido. Foto: Reprodução/Twitter-Ricardo Salles.

Enquanto Ricardo Salles se desdobra para defender as ações do governo em rede nacional, centenas de voluntários colocam sua saúde em risco para tentar conter a dispersão das manchas de óleo.

Segundo Alexander Turra, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica de se fazer a contenção, ainda mais nos moldes em que os trabalhos estão sendo executados, sem o mínimo de transparência nas ações. “Há uma demanda para se quebrar o sigilo. O que está faltando? Transparência, agregar outras expertises que possam eventualmente contribuir para a questão”, disse.

Esta falta de transparência é sentida até mesmo pelos funcionários do próprio Ministério do Meio Ambiente, que sentem falta de orientação e posicionamento mais claro da pasta.

“Basicamente fomos chamados para ir para a praia tocar voluntário. Há uma extrema falta de transparência, não há informação centralizada, não há elaboração de relatórios de situação. Todas as boas práticas de atendimento a emergência não estão sendo seguidas, é uma grande obscuridade. Mesmo a turma nossa que esteve na praia falou que está todo mundo batendo cabeça, a gente tá ali cuidando do varejo, não vem nenhuma informação estratégica sobre a investigação, sobre origem, sobre nada”, disse um funcionário do Ibama, que preferiu não ser identificado.

Outras ações

Além da Ação Civil Pública conjunta do Ministério Público Federal dos nove estados do Nordeste, outros processos correm separadamente nos diferentes estados impactados pelas manchas. Neste final de semana, decisões liminares da Justiça Federal em Alagoas e Pernambuco determinaram que o governo adote imediatamente providências para conter e recolher o óleo que atinge as praias do litoral destes Estados.

Em Pernambuco, a determinação é para que o governo implante barreiras de proteção dos ecossistemas mais sensíveis de sua costa, levando em conta as Cartas SAO do litoral pernambucano e o Mapeamento Ambiental para Resposta à Emergência no Mar (Marem), entre outras ações.

Foto: Instituto do Meio Ambiente/AL.

Em Alagoas, a Justiça ordenou a implantação de barreiras de proteção, com adequado monitoramento, nos manguezais, nas principais áreas de desova das tartarugas marinhas e áreas de proteção do peixe-boi do Estado, além de ampliação do nível de atendimento, resgate e reabilitação da fauna impactada. Nesta ação, a justiça federal também determinou que o governo aprimore as ações de monitoramento e controle das manchas de óleo na costa alagoana, entre outras medidas.

Além de Pernambuco e Alagoas, os Ministérios Públicos Federal e do Estado da Bahia também ingressaram na última semana com ação civil pública contra a União e Ibama solicitando a adoção de medidas de contenção, recolhimento e destinação do material poluente, com foco na proteção de áreas sensíveis do Estado, principalmente manguezais e estuários. Até o fechamento da matéria, a ação ainda não havia sido julgada.

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Brasil: reservas legais – elas geram R$ 6 trilhões por ano

Estudo esclarece por que o Brasil precisa de suas reservas legais – elas geram R$ 6 trilhões por ano

 para o ecossistema e para a economia. Foto: Pixabay.
Carolina Lisboa

As áreas de reserva legal previstas na lei 12.651/12 (Código Florestal) têm por finalidade manter porcentagens fixas de vegetação nativa em propriedades privadas, que variam de 20% a 80% conforme o bioma. A obrigatoriedade de manter áreas naturais nas propriedades rurais existe desde 1934 ‒ há exatos 85 anos ‒, quando foi publicada a primeira versão do Código. A importância dessas áreas para o Brasil é o tema do artigo Why Brazil needs its Legal Reserves (Porque o Brasil precisa de suas Reservas Legais, em português), publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation e assinado por Jean Paul Metzger, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP), junto a nove coautores e endossado por 407 cientistas  ‒ 391 deles pesquisadores de 79 instituições de ensino superior e pesquisa brasileiras. “Quando consideramos o rol de benefícios que essas áreas podem prover, tanto para o proprietário quanto para a sociedade, começamos a entender que esses benefícios não são pequenos. Eles são altos! Na verdade, em alguns casos, você tem muito mais benefícios mantendo a reserva legal do que retirando e avançando com o cultivo da área”, explicou Metzger.

O artigo destaca que as reservas legais correspondem a 167 milhões de hectares, ou 29% da vegetação nativa do Brasil, e que são um ativo ambiental, tanto para os proprietários de terras quanto para o país. “O que procuramos mostrar com esse estudo é que essas áreas proveem uma série de benefícios, tanto para o proprietário quanto para a sociedade. Desde benefícios mais globais como regulação climática e hídrica, quanto mais locais como provisão e serviços de polinização, controle biológico ou água. Elas podem também ser utilizadas economicamente, na medida que o proprietário mantém a vegetação. Pode, por exemplo, ter serviços de recreação ou retirada sustentável de madeira, de castanha ou de açaí. Além disso, é preciso lembrar que a Lei 12.651/12 permite o uso de 50% da reserva legal com espécies vegetais de uso econômico, inclusive exóticas”, esclareceu Metzger.

Cadastro Ambiental Rural de uma propriedade no Paraná mostra a área de produção e a área de reserva legal. Imagem: A Pública.

Metzger explica ainda que uma floresta gera benefícios econômicos que variam de mil a cinco mil dólares por hectare por ano, e que os 103 milhões de hectares de vegetação natural remanescente que não são protegidos por Lei na forma de reservas legais ou Áreas de Preservação Permanente (APPs), junto aos 167 milhões de hectares de reservas legais, somam 270 milhões de hectares de vegetação nativa que geram um ativo de cerca de R$ 6 trilhões por ano para o país em serviços ecossistêmicos. “Para fazer essa conta, nós utilizamos estudos reconhecidos internacionalmente que medem o valor econômico desses benefícios naturais, considerando 17 serviços ecossistêmicos, e fazendo uma estimativa de quanto se perderia em serviços pela supressão daquela vegetação”.

Além dos benefícios em serviços ecossistêmicos, Metzger afirma que uma vegetação nativa adjacente a áreas de cultivo agrícola reduz os investimentos em termos de insumos, de pesticidas e de fertilizantes. “Em um experimento que fizemos no sul de Minas Gerais, por exemplo, concluímos que a produção de café pode aumentar seus rendimentos em até 28% caso a lavoura esteja próxima a uma reserva legal. Esses são valores de 2 a 6 milhões de reais por ano. Um benefício que o produtor nem percebe, ou que percebe quando precisa investir mais em insumos para sua lavoura”.

O pesquisador explica ainda que, atualmente, o aumento de produção agrícola se dá mais por intensificação local do que por expansão de área de produção. “A mensagem do artigo é que uma área de vegetação nativa adjacente permite redução de investimentos em insumos. Manter a vegetação nativa também aumenta a produtividade, é um ativo para o país e é parte da solução para o desenvolvimento sustentável. É o que chamamos de soluções baseadas na natureza”, conclui Metzger.

Em entrevista para ((o))eco, Jean Paul Metzger contextualiza a situação das reservas legais no Brasil:

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O Eco: O artigo esclarece a importância dos serviços ecossistêmicos prestados pelas reservas legais. A perda desses serviços poderia prejudicar o agronegócio? Como?

“Apenas a perda de serviços de polinização pode representar para o Brasil a redução na produção de mais de 29 cultivos, com perdas financeiras na ordem de 5-15 bilhões de dólares ao ano.”

Jean Paul Metzger: As reservas legais preveem importantes serviços ecossistêmicos para os proprietários, seus vizinhos, e para a sociedade como um todo, incluindo regulação climática, conservação de recursos hídricos, controle de zoonoses, polinização e controle biológico em áreas de cultivo. O efeito mais direto para o proprietário, e logo para o agronegócio, está na perda dos serviços de polinização, controle biológico e serviços de regulação hídrica. Apenas a perda de serviços de polinização pode representar para o Brasil a redução na produção de mais de 29 cultivos, com perdas financeiras na ordem de 5-15 bilhões de dólares ao ano.

É consenso entre os cientistas brasileiros que as reservas legais devem ser mantidas ou há alguma corrente que defende o contrário?

Eu desconheço correntes que defendam a extinção ou mesmo a redução na proteção de reservas legais. No entanto, é importante salientar que essa exigência, com meta fixa de conservação em área particular (de 20, 35 ou 80%), existe (até onde eu sei) apenas no Brasil. Ou seja, trata-se de uma legislação ambiental bastante exigente, mas considerando todos os benefícios que essas reservas trazem para os proprietários e para a sociedade, considero que ela é uma política adequada para estimular uma ocupação adequada do solo, promovendo tanto a conservação da biodiversidade em áreas de uso, como também propiciando a oferta de uma série de benefícios sociais.

Qual a situação geral das reservas legais no Brasil? Os proprietários de terras vem cumprindo essa exigência de manter ou recompor vegetação nativa? 

Os maiores passivos de reserva legal (que segundo a lei de 2012 deveriam ser restaurados) ocorrem no Cerrado (4,2 milhões de hectares/Mha), na Amazônia (3,6 Mha) e na Mata Atlântica (2,7 Mha). Em termos percentuais (passivo em relação à vegetação remanescente), a Mata Atlântica e os Pampas são os biomas mais afetados.

“Os maiores passivos de reserva legal (que segundo a lei de 2012 deveriam ser restaurados) ocorrem no Cerrado, na Amazônia e na Mata Atlântica”.

A taxa de conversão de vegetação nativa para diferentes tipos de usos (e.g. agropecuária) continua alta, principalmente em áreas particulares (quando comparadas com áreas públicas protegidas ou terras indígenas), com taxas crescentes a partir de 2012, depois da aprovação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (o “Novo Código Florestal”). Ou seja, o descumprimento à lei aumentou após a aprovação da nova versão da lei… O Brasil continua sendo campeão de desmatamento.

Por enquanto, as iniciativas de restauração são muito tímidas ou inexistentes.

A obrigatoriedade de manter vegetação nativa em propriedades ocorre em outros países?

Ocorre, de outras formas (por exemplo, com restrições ao corte, ou então com medidas agroambientais de apoio a práticas sustentáveis e de conservação), sem uma meta fixa como ocorre com a definição das reservas legais.

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Fundos que controlam 16 trilhões de dólares cobram pela crise na Amazônia

Fundos financeiros de 30 países que movimentam 16 trilhões de dólares exigem que Brasil adote medidas eficazes para proteger a Amazônia em meio à recente crise ambiental.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

A Amazônia brasileira perdeu em agosto 1.698 quilômetros quadrados de sua cobertura vegetal por conta das queimadas.
Foto FERNANDO BIZERRA JR

Brasil só julgou 14 dos 300 assassinatos de ambientalistas da última década

Sob pressão, Câmara reinicia debate sobre lei que flexibiliza licenciamento ambiental

Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta.

A crise ambiental provocada pelo aumento dos incêndios na Amazônia brasileira se refletiu com força no mercado financeiro. Nesta quarta-feira, um total de 230 fundos de investimento internacionais que juntos administram 16 trilhões de dólares (cerca de 65 trilhões de reais) –valor equivalente a cerca de nove vezes o PIB do país em 2018– publicaram um manifesto, colocando mais pressão para que o Governo brasileiro apresente medidas efetivas para proteger a floresta amazônica e deter o desmatamento. O manifesto foi divulgado no mesmo dia em que a Organização das Nações Unidas (ONU) vetou o discurso do presidente Jair Bolsonaro ou de um representante brasileiro na cúpula do clima da próxima semana em Nova York. A justificativa é que o Brasil não apresentou um plano concreto e inspirador de aumento do compromisso de enfrentar a mudança climática.

Em um contexto de aumento da degradação e de debilidade na fiscalização ambiental no Brasil, empresas e fundos de investimento manifestaram preocupação com o impacto financeiro que o desmatamento na Amazônia pode ter nas empresas nas quais possuem participações, o que poderia aumentar os riscos de reputação, operacionais e regulatórios.

Os 230 fundos de investimento que colocaram mais pressão no Governo Federal nesta quarta-feira pedem às empresas que “redobrem seus esforços e demonstrem um claro compromisso de eliminar o desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento”. Trata-se de um grupo grande que investe um valor em torno de nove vezes o PIB brasileiro do ano passado. Nesse sentido, seu manifesto pode ter uma força importante para alertar as empresas que são coniventes com o desmatamento.

A responsabilidade ambiental, social e de governança (conhecida sob a sigla em inglês ESG) é um critério crescente nas carteiras de fundos de investimento em todo o mundo, como reflexo dos grupos de pressão na sociedade organizados em torno da luta contra a mudança climática. Na semana passada, grupos liderados pela ESG disseram que a onda de incêndios no Brasil entrou no radar.

O Brasil registrou entre janeiro e a terceira semana de agosto um total de 71.497 focos de incêndio, o maior número do mesmo período nos últimos sete anos, e pouco mais da metade ocorreu na maior floresta tropical do mundo. “Considerando o aumento das taxas de desmatamento e os recentes incêndios na Amazônia, estamos preocupados que as empresas expostas ao possível desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento brasileiras tenham cada vez mais dificuldades para ter acesso aos mercados internacionais”, diz a nota conjunta dos 230 fundos de investimento.

Eles se juntam a mais empresas e outros fundos de investimento que já tinham reagido nas últimas semanas contra a política ambiental do Governo Federal. O presidente minimizou a mudança climática e o desmatamento ilegal, assim como rejeitou as críticas de países como França e Alemanha. Sem um plano ambicioso para enfrentar a mudança climática, o presidente nem sequer poderá discursar na cúpula da ONU na próxima semana. A Organização havia solicitado aos países que apresentassem um plano com seus compromissos climáticos e selecionou os 63 que tinham os discursos mais inspiradores. O Brasil ficou fora dessa lista, assim como os Estados Unidos e outros países.

A crise ambiental brasileira se tornou um golpe na imagem internacional do país. Há pouco menos de duas semanas, a gigante da moda H&M anunciou a suspensão, com efeito imediato, da compra de couro brasileiro. Alegou “a conexão dos graves incêndios da Amazônia com a pecuária”. A decisão, segundo a empresa, ficará em vigor “até que existam sistemas de controle confiáveis de que o couro não contribui para os danos ambientais na Amazônia”.

O Brasil sofre uma campanha de boicote aos seus produtos, promovida por empresas internacionais que têm uma clientela cada vez mais preocupada com a mudança climática. Além da H&M, as empresas VFcorp, Vans e The North Face também anunciaram que deixariam de comprar couro brasileiro.