Problema não é revisionismo, mas terraplanismo histórico

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O risco é a política virar grande obra de ficção.

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Ainda que não se possa afirmar, hoje, que o Ocidente esteja vivendo um ciclo de regimes autoritários, há projetos que se apresentam nesse sentido. Essa é análise de José Rodrigo Rodriguez, doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que estuda a temática.

Em entrevista, pesquisador aponta que uma das bases de projetos autoritários é a sabotagem sistemática de qualquer base de informação objetiva. O risco, afirma, é a política virar grande obra de ficção.

Segundo o professor, a estratégia desses grupos atualmente consiste em uma tentativa de desmonte do poder regulatório do Estado e no fortalecimento de estruturas sociais conservadoras.

Em entrevista para a DW Brasil, o pesquisador comenta a utilização errônea do chamado “revisionismo histórico” a fim de descaracterizar a verdade e porque a sociedade ainda se apoia em fake news e endossa movimentos anticientíficos, como o terraplanismo.

“O problema é esse ‘terraplanismo histórico’, em que o sujeito usa argumentos enviesados para defender uma ideologia”, afirma.

DW Brasil: Podemos dizer que, atualmente, vive-se um novo ciclo autoritário no Ocidente?

José Rodrigo Rodriguez: Há projetos autoritários que estão se apresentando no mundo contemporâneo, mas não acho que estejamos vivendo, necessariamente, um ciclo de regimes autoritários. Não é possível dizer, por exemplo, que o Brasil, hoje, é um país autoritário. O que tento captar são projetos autoritários, de grupos autoritários, que sempre existiram. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Ku Klux Klan não desapareceu e outros grupos ligados à ideia de supremacia branca sempre estiveram por aí. O que parece, agora, é que, por uma série de razões, esses projetos estão ganhando força e utilizando estratégias para avançar sobre as esferas de poder.

É claro que cada país, cada história social, vai ter uma série de diferenças, mas algumas estratégias são comuns. Uma delas diz respeito ao fato de que parece que esses grupos que não estão, necessariamente, interessados em estabelecer modelos de dominação totalitários, como foi o caso do nazismo, em que o Estado controlava a educação, controlava a sociedade e a economia diretamente.

Parece que a estratégia hoje é desmontar o poder regulatório do Estado e das instâncias estatais ou desmontar as estruturas administrativas para conseguir mais autonomia para ordens normativas que estão na sociedade, como as Igrejas. Estávamos acompanhando essa discussão sobre perdão das dívidas dos templos religiosos. Esse é um caso em que fica claro o interesse em fortalecer estruturas sociais conservadoras e destruir qualquer tipo de mecanismo que possa estabelecer controle sobre elas, como a imprensa, a ciência e o próprio direito.

Na sua pesquisa, o senhor argumenta que o revisionismo histórico é um dos fenômenos do novo ciclo autoritário. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, já afirmou algumas vezes que o nazismo era de esquerda. Esse pode ser um exemplo?

Sim, ele está claramente se alinhando com esse tipo de pensamento. Qual é o problema desse tipo de estratégia? O problema não é a diversidade de opinião. Aliás, os historiadores profissionais nunca atacaram diretamente os autores revisionistas porque defendem claramente que a história não pode ser só o monopólio da universidade. O problema é que há pessoas que mentem, falseiam os fatos. Não há problema trabalhar com novas interpretações, propor uma outra visão dos fatos.

O problema é esse “terraplanismo histórico”, digamos assim, em que o sujeito usa argumentos enviesados para defender uma ideologia, uma posição extremamente idealizada. Isso rompe com todos os critérios de cientificidade da história, da apresentação de documentos, consulta de arquivos. Ninguém escreve sobre a história do autoritarismo do Leste Europeu sem consultar os arquivos que estão em Moscou, por exemplo. Ninguém escreve sobre escravidão no Brasil sem pesquisar muito antes. Há pessoas que rompem com tudo isso e o revisionismo vira um “terraplanismo histórico” que tenta se apresentar como verdade.

O chamado “gabinete do ódio”, responsável pela disseminação de notícias falsas, seria uma espécie de epítome do absurdo no qual se transformou o país?

Esse grupo parece estar emulando a estratégias de outros projetos autoritários que, justamente, tentam sabotar instituições que procuram produzir informações minimamente objetivas, nas quais nos embasamos para tomar decisões. Um dos papéis da imprensa é apurar os fatos e trazer informações objetivas a respeito de um episódio.

Quando um mecanismo como esse, que confere um mínimo de regulação sobre a política, perde-se, a política pode virar uma grande espécie de obra de ficção. Aí, tem-se um mundo livre de narrativas.

O que me parece sobre esse grupo que atua nas redes sociais para produzir essas histórias “fantásticas” é que se trata de uma atividade de constante sabotagem sistemática de qualquer base de informação objetiva, a fim de permitir que a política seja, digamos, praticada com base na pura palavra do presidente ou de quem quer seja. E, aí, você pode inventar o que quiser.

O presidente é bastante crítico aos projetos de lei que buscam combater as notícias falsas, alegando que uma regulamentação seria atentatória à liberdade de expressão. Defender fake news com base no direito à livre manifestação de pensamento também é uma característica de figuras autoritárias atuais?

Com certeza. A liberdade de expressão não é a liberdade para mentir. Quando você diz, por exemplo, que o céu é cor-de-rosa e alguém responde que é, de fato, azul, sua liberdade de expressão não está sendo limitada, mas uma informação falsa é corrigida. Quando alguém diz que não há evidências científicas de que a cloroquina funcione e outro fala que sim, esse segundo está mentindo. Não existe liberdade de expressão para veicular informações falsas sem ser corrigido. O segundo problema são os mecanismos de massificação dessas mensagens falsas, que parecem ter um objetivo claro de manipular a opinião pública. Não tenho muitas dúvidas quanto a isso. Mexer nesse “vespeiro” atinge uma das bases da estratégia desses grupos [autoritários], por isso a importância de discutir esses temas.

Quando se fala em autoritarismo, hoje, fala-se quase que automaticamente em direita. Mas não é apenas a direita que é autoritária…

O autoritarismo aparece sempre que se procura estabelecer um pensamento único. Temos manifestações de regimes autoritários da esquerda. O que diferencia, no fundo, um pensamento autoritário de um democrático é o pensamento que admite o pluralismo, a diversidade de opiniões, um espaço no qual se convive com quem discorda de você, por mais difícil que seja.

Existe, historicamente, uma dificuldade da esquerda em lidar com a democracia nesses termos, a democracia pluralista, com diversidade. Isso também é fato; não dá para negar. Inclusive, se pegarmos a produção intelectual da esquerda, haverá pouca coisa, menos do que se deveria, sobre democracia. Nós temos, também, uma tradição de esquerda autoritária, não podemos negar isso.

Outro fenômeno apontado pelo senhor como característico desse ciclo autoritário é o criacionismo. No Brasil, hoje, temos uma ministra dos Direitos Humanos [Damares Alves] que já disse que a Igreja Evangélica perdeu espaço na história quando deixou a Teoria da Evolução entrar nas escolas e um presidente da Capes [Benedito Guimarães Aguiar Neto] que defende essa doutrina.

A racionalidade permite que planejemos nossas vidas e estabeleçamos relações de causalidade. Eu preciso trabalhar, então estabeleço etapas para chegar a esse objetivo e tenho um relativo controle sobre o que acontece. O que ocorre hoje é que o pensamento autoritário se aliou a alguns grupos religiosos mais radicais – e aqui devemos tomar muita cautela porque a religião é absolutamente complexa – e acabou retirando do ser humano sua possibilidade de planejar a vida, pois ela depende da vontade do soberano, do ditador de plantão e do desígnio de Deus.

Nesse sentido, o que o autoritarismo tira das pessoas é a possibilidade de poder pensar sobre si mesmo como autor de sua própria existência, de seu destino. Essa é a luta do pensamento racional, iluminista desde sempre. É aí que reside a ideia de emancipação, de colocar-se como agente do seu próprio destino, de sua própria história. Basicamente, o que o pensamento autoritário retira dos indivíduos é a sua autonomia; procuram tirar isso da gente e colocam na mão dos líderes políticos ou dos líderes religiosos conservadores.

Dois movimentos que vêm crescendo e que, à primeira vista, parecem deslocados um do outro, mas que vão ao encontro dessa ignorância científica são o movimento antivacina e o terraplanismo. Como, em pleno 2020, com um mundo de informações passível de acesso, há pessoas defendendo teorias como essas? Ou seria o próprio excesso de informação um reflexo desses movimentos?

O que está acontecendo no mundo de hoje, e que talvez não tenhamos percebido que aconteceu, é que as pessoas estão cada vez mais – ou sempre estiveram – perdidas em um mar de informação e em um mar interferências que não conseguem controlar. Muito provavelmente, a maior parte das pessoas se sente desorientada em relação ao que acontece no governo. Temos um tipo de exercício no poder político que ainda é muito tecnocrático e não participativo; os cidadãos não sabem como o governo funciona. Nossa política, então, é meio que exercida de cima para baixo e de forma meio que misteriosa, com todos esses escândalos de corrupção.

Além disso, vivemos um cenário de incerteza completa, tanto na política quanto na nossa vida, como no mercado de trabalho. Com a pandemia isso foi acentuado. Creio que isso estimula o “pensamento mágico”, religioso, porque as pessoas querem explicações. E tem pessoas que oferece informações das quais os sujeitos precisam. E não falo aqui só das religiões neopentecostais. Vejo as pessoas conectadas com astrologia, terapias alternativas. Parece-me que são fenômenos interligados nesse sentido de desorientação geral. Além disso, há o fato de vivermos em um país que não tem uma educação científica adequada, com déficits educacionais imensos.

Precisamos criar uma sociedade que faça com que a nossa vida seja mais “previsível”, com mais segurança e capacidade de previsão do futuro profissional e de nosso futuro político. Devemos retomar, em algum limite, o controle sobre a nossa existência, pois assim esse tipo de fenômeno [de ignorância científica] tende a retroceder. No Brasil, vencer nosso déficit educacional também é necessário, mas às vezes penso que essa seja uma dívida da nossa história praticamente impagável; está aí há muito tempo e não sei se conseguiremos equacionar essa questão.

José Mesquita

José Mesquita

Nasceu em Fortaleza,Ce. Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em Administração, Ciências da Computação e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. É consultor em Direito Digital. Participou de mais de 250 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Design Gráfico, já criou mais de 35 marcas, logotipos, logomarcas, e de livrosa de arte para empresas no Brasil e Exterior Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. Foi diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo da Ecola de Aviação Civil do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association - NAPP, Usa. É membro da Academia Fortalezense de Letras e Membro Honorário da Academia Cearense de Letras. Autor de três livros de poesias - e outros quatro ainda inéditos; uma peça de teatro; contos e artigos diversos para jornais; apresentações e prefácios de publicações institucionais; catálogos e textos publicitários. Ministra cursos gratuítos de Arte e de Computação Básica para crianças e adolescentes em centros comunitários de comunidades carentes na periferia das cidades.

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José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e “designer”.

Bacharel em administração e bacharelando em Direito.

Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.

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