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Drummond – Versos na tarde – 28/01/2017

A Máquina do Mundo Carlos Drummond de Andrade¹ E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mantar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debulhada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. ¹Carlos Drummond de Andrade * Itabira do Mato Dentro, MG, – 31 de Outubro de 1902 + Rio de Janeiro RJ, – 17 de Agosto de 1987 biografia[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

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O desenhista que transforma as declarações de Trump em HQ

Frases do novo presidente se misturam a personagens célebres para parodiá-lo Capa de ‘X-Men’ com Trump. R. SIKORYAK Os quadrinhos já têm sua resposta ao governo de Donald Trump – e ela é muito divertida. Quem inaugurou essa tendência, poucos dias depois da vitória eleitoral do magnata, foi o espanhol Pablo Ríos, que contava dias atrás ao EL PAÍS que escreveu sua sátira de 44 páginas em apenas um mês: “Eu já sabia que ele ia ganhar”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”] Mas um dos pontos de vista mais originais veio do ilustrador Robert Sikoryak, que teve a ideia de misturar personagens históricos das HQs com as declarações mais célebres e impertinentes do presidente. O que começou como uma brincadeira na Internet está a ponto de virar um contrato com uma editora. R. SIKORYAK “Precisava responder por mim mesmo a Trump. Não sabia se meus leitores gostariam, achei que talvez estivessem cansados de ouvir as declarações dele, mas precisava fazer isso. Não sei se temos a responsabilidade de responder, mas todos temos o direito”, explica Sikoryak por email, dias depois do discurso de Meryl Streep ao presidente no Globo de Ouro. A ideia deste ilustrador, especialista em adaptar histórias de literatura clássica e poesia para os quadrinhos, era simples: pegar as declarações mais famosas de Trump e colocá-las em algumas das capas mais reconhecíveis na história das HQs. “Tive a ideia antes das eleições. Trump dizia as coisas mais loucas, e queria catalogá-las. Quando virou presidente-eleito, vi que era uma necessidade.”  As capas são todas paródicas, mas as palavras, por mais exageradas que pareçam, são literais. Trump luta como Magneto contra a Patrulha X: “Vamos ganhar tanto que talvez nos cansemos de ganhar, e vocês nos dirão: ‘Vocês ganham muito’”. Em outra confronta o Ligeirinho: “Quando o México manda sua gente, não são os melhores. Trazem drogas, crime e estupradores”. É que, embora na sua boca pareçam as palavras de um tonitruante vilão, Sikoryak buscava realismo, mesmo que o projeto tivesse sido criado quase como uma brincadeira para seu tumblr pessoal. “Meu processo sempre envolve muita documentação. Recordava muitas declarações, mas procurei os documentos literais, e, de passagem, encontrei muitas outras. Só queria utilizar o que ele disse, não seus tuítes, e só o que havia dito durante as eleições. Não queria pôr nada alheio na sua boca. Então não há nada anterior a 2015. Quanto às HQs, voltei à minha própria coleção. O mais difícil era unir as frases com as capas certas. Isso foi um trabalho duro.” Trump em ‘Iron Man’.Sikoryak, que publicou em papel de forma independente 16 das capas em preto e branco, já recebeu uma oferta de uma editora para expandir seu trabalho. Ele se considera parte de uma linhagem da paródia polícia nos EUA. “Eu me lembrava de ter visto algumas paródias anti-Obama chamadas Tea Party Comics. Não estava nada de acordo com o que diziam, mas eram chamativas e apaixonantes. Essa foi a inspiração”, reconhece o autor. “A sátira é algo que os quadrinhos fazem muito bem, e temos uma grande tradição graças a revistas como a MAD, na qual algumas das minhas ilustrações foram publicadas.”  Mas Trump não é novo nos gibis. Famoso há décadas, em várias ocasiões já virou personagem de HQ, e não só em paródias. Em 1988, sua incipiente carreira política o levava a aparecer nas páginas da Iron Man 227; um ano mais tarde, a DC se inspirava na capa do seu livro mais famoso, TheArt of the Deal, para criar a biografia do vilão Lex Luthor; e em 2008 ele ameaçava denunciar Luke Cage. Em julho de 2016, a Marvel, que em 2008 incluiu Obama como presidente no seu universo, com direito a uma capa, se atreveu a transformar Trump em um de seus vilões mais extravagantes e exagerados, o cabeçudo MODOK, enquanto a Deadpool se apropriava do seu famoso penteado numa das suas capas, e isso que o executivo-chefe da editora, o desconhecido Ike Perlmutter, foi um dos grandes doadores da campanha presidencial. Certamente não é a última vez que o vemos assim nos próximos anos. “Estou convencido de que o que acontece agora no mundo real irá se transferir também ao mundo dos quadrinhos”, sentencia Sikoryak, recordando outras alegorias, como quando o Capitão América enfrentou uma espécie do Nixon malvado depois do Watergate. Ruiz Jimenes/ElPais

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A ‘maré cinza’ de Doria toma São Paulo e revolta grafiteiros e artistas

Prefeitura apaga grafites da av. 23 de Maio e diz, agora, que fará seleção de novos artistas Funcionário apaga pichação contra Doria em São Paulo. FERNANDO CAVALCANTI Para especialista, declarar “guerra ao picho” é “tiro no pé” do novo prefeito da cidade  O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), declarou guerra contra pichadores, grafiteiros e artistas de rua. Vestido com roupas de funcionários da limpeza municipal, ele e seu secretario de subprefeituras, o também tucano Bruno Covas, cobriram com tinta cinza, a cor característica da cidade, pichações e grafites nos últimos dias.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”] A ação faz parte do programa Cidade Linda, que prevê reparo em calçadas e pintura de muros em vários bairros da capital. Depois de apagar parte do mural de grafites da avenida 23 de Maio, um dos mais tradicionais de São Paulo, Doria mostrou satisfação: “Pintei com enorme prazer três vezes mais a área que estava prevista para pintar, exatamente para dar a demonstração de apoio à cidade e repúdio aos pichadores”. O tucano não é o primeiro a encampar a batalha contra o que para uns é apenas vandalismo, e para outros é arte e expressão urbana. Todos os prefeitos da cidade, independentemente do partido e com menor ou maior afinco, colocaram em prática ações para apagar e coibir o que se convencionou chamar de “arte de rua não autorizada”. Mas o tucano parece disposto a levar o embate com pichadores e grafiteiros a um novo patamar. “Se preferirem continuar pichando a cidade, terão o rigor da lei. É tolerância zero”, disse após apagar os grafites da 23 de Maio, que segundo ele já estavam antigos e haviam sido pichados. A ação desatou apoio, mas também uma chuva de críticas nas redes sociais e fora delas, onde artistas de várias áreas e paulistanos comuns criticaram a falta de diálogo na tomada de decisões e acusaram a gestão de apagar grafites mesmo sem estar, segundo os critérios da prefeitura, “danificados” por pichações. A comoção foi tal que o secretário  da Cultura, André Sturm, disse em entrevista ao Estado de S. Paulo nesta terça que a avenida pode receber um Festival do Grafite, com artistas recrutados pela prefeitura e materiais fornecidos pela gestão. Tudo, explicou Sturm, para responder ao “ruído” provocado pela maré cinza. “Ficou muito cinza e há uma vontade de fazer”, disse o secretário. Especialistas apontam que a cruzada do prefeito tem tudo para ser um tiro no pé – assim como ocorreu com seus antecessores. “O picho trabalha com a noção de perseguição e proeza. Então se ele diz que vai perseguir pichadores, isso pode servir como atrativo para que os jovens pichem mais ainda”, afirma Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Unifesp que fez seu mestrado sobre o tema. De acordo com ele, desde que Jânio Quadros foi prefeito, em 1985, iniciativas de combate ao picho são implementadas “e são malsucedidas”. Nesta terça-feira, Doria teve mais um amostra do tipo de jogo de paciência que resolveu travar com os pichadores: os novos muros cinzas da 23 de Maio foram pichados com frases alusivas ao prefeito _e logo pintados de novo pela prefeitura. Dias antes, várias pichações específicas contra o prefeito surgiram na cidade. Picho e Deic Doria passa tinta cinza em mureta da 23 de Maio. F. A. / SECOM-PMSPO jovem RGS/BR, de 25 anos, foi um dos três pichadores que escreveu “Fora Temer” e “Doria Pixo é Arte” nas paredes de um prédio em frente ao Terminal Bandeira, no centro de São Paulo, já na esteira da “guerra do spray” reativada.Ele afirma que o discurso de “tolerância zero” de Doria pode fazer com que a polícia “passe a ser mais violenta com os pichadores, uma vez que essa truculência tem o aval dos governantes”. Ele cita um caso ocorrido em 2014, no qual cinco PMs foram acusados de matar dois pichadores rendidos em um prédio no bairro da Mooca, na zona leste da cidade. Pixação diz também que mesmo grafiteiros famosos, como os Gêmeos, “que fazem rolê de burguês, em galeria de arte, também estão riscando a casa dos bacanas de forma ilegal”. No Brasil tanto a pichação ou o grafite feito em prédios públicos ou privados sem autorização é crime, com pena prevista de três meses a um ano de prisão mais o pagamento de multa. A pena de prisão, no entanto, é geralmente convertida em serviços comunitários. Neste front legal, os pichadores também podem sentir os efeitos da nova cruzada. Doria já disse que quer aumentar o valor da multa e, na segunda-feira, o secretário da Segurança Pública do Governo Alckmin, Mágino Alves, o principal aliado de Doria, anunciou que o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) vai atuar contra o grupo de pichadores. Vídeo feito pela artista plástica Barbara Goy mostra pintura dos grafites da av. 23 de Maio e foi compartilhado quase 60.000 vezes no Facebook. Para antropólogo e professor da Unifesp Pereira, além da desigualdade social, espacial e da desorganização da cidade, uma parcela da população é levada para a pichação porque ela oferece “visibilidade e projeção social para o jovem periférico, que resolve circular e ocupar o centro da cidade”. “É preciso fomentar práticas e políticas públicas para que este jovem se expresse de outras maneiras que não o picho, e isso não tem sido feito”, diz o professor. Guilherme Valiengo, um dos diretores do documentário Cidade Cinza, sobre a cena do grafite e da pichação em São Paulo, afirma que o prefeito precisa tentar entender quem é esse “transgressor”. “Se o cara está botando o nome dele no topo de um prédio ou na rua é porque ele quer dizer alguma coisa. Será que essa é a única oportunidade que ele tem de aparecer? É preciso entender quem são essas pessoas, se elas têm acesso a entretenimento, saúde e cultura. Apenas apagar é querer calar essa voz”, diz. Em nota, o grupo Pixoação criticou as medidas de Doria. “O prefeito pede que os pichadores (sic) se tornem artistas. Primeiro podemos

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