10 anos depois: Guantánamo continua aberta, e Obama decepciona


Ao assumir a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2009, Barack Obama prometeu fechar em um ano a prisão em Guantánamo.

Guantánamo, ou Gitmo, como é chamada pelos militares, é a maior mancha na reputação dos Estados Unidos no mundo, por seu histórico de violações aos direitos humanos. A prisão abrigou alguns dos terroristas mais perigosos do mundo, envolvidos nos ataques de 11 de setembro de 2001; mas detém também muita gente inocente que não teve direito a julgamento.

Desde a promessa de Obama, uma das maiores bandeiras de sua campanha, já se passaram três anos.

A prisão americana completou 10 anos nesta quarta-feira. E está longe de ser fechada.


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Ainda há 171 detentos em Guantánamo. Desses, já há ordem para soltar 80, mas em muitos casos não se consegue transferi-los para nenhum país, muito menos para solo americano. Trinta e seis serão julgados nos chamados tribunais militares. E 48 detentos estão em zona cinzenta — não há provas suficientes para julgá-los, mas eles são considerados perigosos demais para serem soltos.

Nesta foto de abril de 2007, indicação da entrada do Campo Delta na base de Guantánamo, em Cuba

Não bastasse isso, o assunto “o que fazer com Gitmo” está virtualmente ausente da campanha eleitoral americana.

E o provável candidato republicano à presidência, Mitt Romney, tampouco se mostra muito disposto a resolver o problema. Em 2007, na campanha eleitoral, Romney chegou a dizer que gostaria de “dobrar” Guantánamo.

Já Obama mantém sua declarada intenção de fechar a prisão. Segundo o porta-voz Jay Carney, “o compromisso do presidente de fechar Guantánamo é tão firme hoje quanto era durante a campanha. Mas todos nós sabemos dos obstáculos que existem para isso ser feito de forma rápida, como o presidente queria, e esses obstáculos continuam existindo. Mas o compromisso do presidente não mudou.”

Ora, isso não é grande consolo.

Desde que Obama assumiu, o Congresso conseguiu bloquear várias das tentativas do presidente de resolver alguns dos imbróglios da prisão.
O Congresso vetou que recursos públicos fossem usados para custear transferência ou julgamentos de detentos de Gitmo em solo americano e bloqueou a compra de uma prisão no Estado de Illinois, que seria usada para abrigar os 46 presos “zona cinzenta” –aqueles que não irão a julgamento, mas tampouco serão soltos.

No caso dos 80 que já foram liberados para serem soltos, o Congresso aprovou uma lei draconiana que, em última instância, responsabiliza o secretário de Defesa caso alguns desses detentos cometam atos terroristas.

A cereja do bolo foi Obama assinar a Lei de Military Authorizations, no dia 31 de dezembro —*essa lei, segundo ativistas de direitos humanos, essencialmente permite que o executivo mantenha supostos terroristas presos indefinidamente, sem direito a julgamento.

A Casa Branca contesta, dizendo que a lei apenas formalizou algo que já existia na prática.

De qualquer maneira, trata-se de uma enorme decepção.

Estive em Guantánamo em fevereiro de 2008. Naquela época, já existia o “tour” de relações públicas montado pelo governo americano. Eles chamavam jornalistas para mostrar como a prisão havia evoluído e não havia mais os abusos dos primeiros tempos — eternizados nas fotos de prisioneiros em gaiolas, de roupa laranja e saco na cabeça, acossados por cachorros.

“Bem-vindos a Guantánamo”, anunciava um sorridente sargento do Exército americano. “Aqui do lado direito temos um campo de golfe, mais para frente tem boliche, restaurantes e um pub irlandês. Muita gente aprende a pilotar barcos e mergulhar, a água é cristalina. Vocês já viram as iguanas? Seguindo aqui, vamos dar no Campo Delta, onde ficam os detentos, muitos são terroristas perigosos.”

Na época, eu escrevi, otimista: “Guantánamo, a prisão mais controversa do mundo, está com os dias contados. Os três candidatos à presidência dos Estados Unidos — o republicano John McCain, os democratas Barack Obama e Hillary Clinton — prometeram fechar os campos de detenção de Guantánamo se forem eleitos.

Eu estava enganada.

O presidente americano eleito com a plataforma da esperança deixou no limbo muitos prisioneiros de Guantánamo que vivem uma situação kafkiana. Alguns dos considerados inocentes continuam lá dentro, sem perspectiva de sair. Outros não têm previsão de julgamento.

Mais uma vez, a retórica inspiradora de Obama se provou muito distante de sua real capacidade de governar.
Folha de S.Paulo

Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha e escreve sobre política e economia internacional. Foi correspondente em Washington durante quatro anos, onde cobriu a eleição do presidente Barack Obama, a crise financeira e a guerra do Afeganistão, acompanhando as tropas americanas. Tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. É autora dos livros “O Mundo Tem Medo da China” (Mostarda, 2005) e “Índia – da Miséria à Potência” (Planeta, 2008).

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